terça-feira, 22 de outubro de 2024

Perguntas sobre a posição de Celso Amorim acerca da Venezuela

No dia 21 de outubro, teve início na Universidade Federal do ABC a IX Semana de Relações Internacionais.

Numa das atividades, houve um debate sobre a conjuntura internacional.

Neste debate, uma aluna perguntou sobre a entrada da Venezuela nos BRICS.

Antes e depois do debate, outras pessoas têm perguntado o mesmo, mais especificamente sobre qual seria a posição do Brasil.

Uma resposta apareceu em uma entrevista de Celso Amorim ao jornal O Globo (ver ao final o endereço e a íntegra do que foi disponibilizado).

Segundo o que foi publicado, Amorim teria dito que "talvez ainda não seja possível chegar a uma conclusão. Não estou preocupado com a entrada ou não da Venezuela, não estamos fazendo julgamento moral e nem político sobre o país em si. O BRICS tem países que praticam certos tipos de regime, e outros tipos de regime, a questão é saber se eles têm capacidade pelo seu peso político e pela capacidade de relacionamento, de contribuírem para um mundo mais pacífico".

Amorim também teria afirmado que "o Brasil quer fortalecer os BRICS, tivemos um aumento recente, estamos nos adaptando a esse aumento. A própria Arábia Saudita, disse que ia entrar, foi em algumas reuniões, não foi a outras. Queremos que haja BRICS fortalecido, países que possam realmente contribuir para paz pelo equilíbrio".

Finalmente, Amorim teria explicado que "não acho que deve ser restritivo, mas tem países que pela sua capacidade de relacionamento, compensam tamanho pequeno e a partir dessa ideia podem ter um peso nas relações internacionais, influenciar na paz mundial, no desenvolvimento e na mudança da governança global".

Pouco depois da divulgação da entrevista ao Globo, a CNN divulgou que Celso Amorim teria dito que "eu não defendo a entrada da Venezuela. Acho que tem que ir devagar. Não adianta encher [o BRICS] de países, senão daqui a pouco cria-se um novo G77".

Sempre pode ter havido má interpretação ou má edição do que foi dito. Assim, por enquanto me limito a três comentários e algumas perguntas.

Primeiro.

Em 24 de agosto de 2023, foi anunciado que seis novos países ingressariam no BRICS. Aqui a lista dos seis: Argentina, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia e Irã. Naquela ocasião, o presidente Lula saudou a entrada dos seis. Ao que consta, o Brasil se empenhou pela entrada da Argentina. Posteriormente, já no governo Milei, a Argentina desistiu de participar. Entendo que Celso Amorim diga que não está fazendo juízo sobre nenhum país, mas sim sobre os critérios. Mas, olhando quem já teve o ingresso aprovado, qual seria o critério para não aceitar o ingresso da Venezuela? 

Segundo

Consta que dezenas de países teriam pedido ingresso no BRICS. Caso nenhum ingresso seja aprovado em Kazan, não haverá discriminação. Mas caso se aprove o ingresso de alguns e o de outros não, qual seria o critério para o Brasil se opor, especificamente, ao ingresso da Venezuela?

Terceiro

Olhando a composição atual do BRICS, é mais do que razoável ampliar a presença latinoamericana e caribenha no grupo. Consta que alguns países da nossa região pediram ingresso. Caso ninguém da região seja admitido, qual seria o motivo? Caso algum país da região seja admitido e a Venezuela não, qual seria o motivo?

Quarto

Se chegarmos a uma situação limite, do Brasil ser o único a se opor a entrada da Venezuela, estaremos na prática fazendo um "julgamento" sobre o país "em si". Neste contexto, o Brasil irá assumir o ônus de, na prática, vetar o ingresso da Venezuela? E, caso cheguemos a este ponto, como lidar com as repercussões disso no processo de integração regional?

Segue o endereço do texto comentado

https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2024/10/22/discussao-sobre-entrada-de-venezuela-nos-brics-nao-e-julgamento-moral-e-nem-politico-diz-celso-amorim.ghtml

Segue o texto comentado

Discussão sobre entrada de Venezuela nos Brics não é 'julgamento moral e nem político', diz Celso Amorim

Assessor defende que a cúpula esteja aberta a países que tenham capacidade de relacionamento

A discussão sobre o Brasil se posicionar contrário a entrada da Venezuela nos Brics (grupo que originalmente reunia Brasil, Rússia, Índia e China) não se trata de "julgamento moral e nem político", afirmou Celso Amorim, principal conselheiro para assuntos internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O assessor esteve com Lula nesta segunda-feira no Palácio da Alvorada, enquanto o presidente se recupera de um acidente doméstico no sábado, e disse que é possível que "não se chegue a uma conclusão" sobre a posição do Brasil neste momento.

— Talvez ainda não seja possível chegar a uma conclusão. Não estou preocupado com a entrada ou não da Venezuela, não estamos fazendo julgamento moral e nem político sobre o país em si. O Brics tem países que praticam certos tipos de regime, e outros tipos de regime, a questão é saber se eles têm capacidade pelo seu peso político e pela capacidade de relacionamento, de contribuírem para um mundo mais pacífico — disse Amorim ao GLOBO.

A Venezuela se candidatou para ingressar no colegiado e a primeira cúpula do colegiado ampliado deverá debater a entrada do país comandado por Nicolás Maduro. O encontro ocorre em Kazan, na Rússia, de 22 a 24 de outubro. O grupo reúne, além do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e desde o ano passado, Egito, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Etiópia.

— O Brasil quer fortalecer os Brics, tivemos um aumento recente, estamos nos adaptando a esse aumento. A própria Arábia Saudita, disse que ia entrar, foi em algumas reuniões, não foi a outras. Queremos que haja Brics fortalecido, países que possam realmente contribuir para paz pelo equilíbrio — argumenta o assessor.

Amorim defende que não haja uma regra rígida, mas que a cúpula esteja aberta a países que tenham clara capacidade de relacionamento, o que compensaria nações de menor tamanho. O assessor cita o exemplo da Turquia, que não integra o grupo e faz contribuições efetivas.

— Não acho que deve ser restritivo, mas tem países que pela sua capacidade de relacionamento, compensam tamanho pequeno e a partir dessa ideia podem ter um peso nas relações internacionais, influenciar na paz mundial, no desenvolvimento e na mudança da governança global.

Devido ao acidente doméstico do último sábado, Lula cancelou a ida à Rússia e enviou o chanceler Mauro Vieira como chefe da delegação brasileira. O ministro representará Lula em todos os encontros da cúpula.

Ao falar em nome do presidente, o chanceler deverá fazer a defesa de dois pontos considerados prioritários na política externa de Lula. São eles a reforma da governança global, com destaque para o Conselho de Segurança da ONU, e a busca de formas de os países do bloco dependerem menos do dólar nas transações comerciais e de organismos multilaterais de crédito, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

BRICS: seria cômico, se não fosse trágico

Que os BRICS têm importância, todos sabemos.

Que a ausência de Lula na reunião de Kazan é prejudicial, todos sabemos.

Que o Itamaraty é capaz de dar conta do recado, seja lá qual for, também sabemos.

O que eu não sabia é o nome do nosso "sherpa" em Kazan.

Acabo de ler a respeito, na matéria cujo endereço está a seguir: https://noticiabrasil.net.br/20241022/as-negociacoes-foram-concluidas-com-exito-diz-sherpa-brasileiro-do-brics-sobre-novos-membros-37027124.html

Se for verdade o que está nesta matéria, o nome do "sherpa" é Sabóia.

Eduardo Sabóia.

Para quem não lembra do personagem, é o pivô da demissão do chanceler Patriota.

Mais detalhes aqui: https://exame.com/brasil/senador-boliviano-veio-ao-brasil-com-eduardo-saboia/

Que este cidadão continue no serviço público, posso compreender.

Mas que este cidadão esteja nesse lugar e momento estratégico, chega a ser cômico, se não fosse trágico.

Definitivamente, nem todo poço tem fundo.

Salvo que tudo seja uma mentira de certa imprensa. Ou, quem sabe, uma invenção do sensacionalista.


Obrigado, Reginaldo Lopes!

Faltam poucos dias para o segundo turno das eleições municipais de 2024.

Neste momento, a tarefa número 1 de todo petista é vencer.

Quem está focado nisto, não está tendo muito tempo para pensar no day after.

Afortunadamente, não é o caso de todo mundo. 

Reginaldo Lopes, por exemplo, é um dos que desde já vem apresentando opiniões e propostas sobre o que o PT deve fazer no pós eleição.

Um exemplo disso está nas declarações que Reginaldo Lopes deu, dia 21 de outubro, à CNN. 
Copio e colo abaixo o que foi publicado na imprensa.

Nessas declarações, Reginaldo faz várias críticas ao PT, ao governo Lula e ao Foro de São Paulo.

Embora não concorde com o que ele diz, muito menos com sua embocadura Hommer Simpsons, quero agradecer ao Reginaldo Lopes.

Agradeço, porque sua declaração à CNN foi ao fundo da questão.

Refiro-me especificamente à seguinte frase: o “agro avançou muito. O PT faz uma disputa ideológica sem sentido” com o agro.

O agro é o principal protagonista de catástrofe ambiental.

O agro é a base do modelo primário exportador.

O agro é a base da extrema-direita.

O agro descende do latifúndio, base de todo o reacionarismo presente na história brasileira.

Portanto, não é trivial que um petista considere “sem sentido” criticar o agro.

Caso posições como a de Reginaldo Lopes predominem, o PT vai virar a quinta roda do carro do latifúndio.

Obrigado Reginaldo, pelo sincericidio.



“Governo precisa de foco; e PT, se conectar à sociedade”, diz deputado da sigla – CNN
Um dos principais quadros do PT no Congresso, o deputado Reginaldo Lopes defende que o partido passe por uma reformulação programática em 2025, quando será eleita a nova direção partidária. No momento que o Centrão e a direita avançam nas eleições municipais, o petista cobra mais engajamento dos ministros e avalia que o governo é muito dependente da figura do presidente. 
“O governo está muito preso em sua grande estrela, que é o próprio Lula, e seus ministros estão deixando a desejar”, disse Lopes à CNN. “Os governos do Lula 1 e 2 mudaram a base social do Brasil, mas o PT não mudou. O PT não deu conta de entender o papel dos evangélicos, o novo mundo do trabalho e que o agro avançou muito. O PT faz uma disputa ideológica [com o agro] sem sentido”, disse Reginaldo Lopes. 
Ainda segundo o deputado, o “governo precisa de foco”. Lopes afirmou que apoia o prefeito Edinho Silva para a presidência do PT.

Reginaldo Lopes diz que PT deveria liderar criação de nova entidade latino-americana no lugar do Foro de SP – Folha (Painel)
Ex-líder do PT na Câmara, o deputado Reginaldo Lopes (MG) defende que o partido lidere a criação de uma nova entidade latino-americana no lugar do Foro de SP, que reúne legendas de esquerda. “Deveríamos constituir um foro democrático de centro para pensar o desenvolvimento social e econômico da América Latina, as conexões entre os diversos países e projetos conjuntos nas áreas social e de infraestrutura. O Foro de São Paulo não foi pensado para isso e não cumpre esse papel”, diz Lopes.
Lopes afirma que vai propor a ideia no ano que vem. O Foro abriga o PT e partidos que comandam as ditaduras na Venezuela e na Nicarágua. “São regimes que representam atualmente o maior constrangimento para um projeto democrático de esquerda na América Latina”, diz.

domingo, 20 de outubro de 2024

Sobre a proposta de antecipação da eleição da presidência nacional do PT

Quando uma mesma notícia sai em vários jornais, das três uma: ou é mentira de certa mídia, ou tem alguém plantando balões de ensaio, ou é verdade.

No caso, refiro-me a proposta de antecipar a eleição da nova presidência do PT para dezembro de 2024.

Um exemplo do que vem sendo divulgado: Lula quer adiantar eleições da direção do PT para dezembro - Cn7 - Sem medo da notícia

Na dúvida, vamos por partes.

A atual direção do PT foi eleita em 2019. 

Em 2023, deveria ter ocorrido a eleição de uma nova direção.

O Diretório Nacional do PT decidiu, por maioria, prorrogar o mandato da direção eleita em 2019.

A direção é eleita no chamado PED: processo de eleição direta das direções partidárias.

Para que o PED ocorra, é necessário um conjunto de procedimentos previstos no estatuto.

É impossível realizar estes procedimentos estatutários entre 28 de outubro e 31 de dezembro.

Portanto, o único jeito de antecipar para dezembro as eleições da direção seria alterando o estatuto.

Para alterar o estatuto, seria necessário reunir o Diretório Nacional e este aprovar, por maioria qualificada, as alterações.

Obviamente, se tem alguém pensando em fazer algo assim, deve estar supondo que estas coisas são simples e fáceis de fazer.

Levando em conta a correlação de forças no atual Diretório Nacional, as divisões existentes no grupo atualmente majoritário e, também, levando em conta o reclamo geral por um balanço do processo eleitoral, o mínimo que se pode dizer é que não seria nada fácil fazer uma operação de alteração do estatuto, com o objetivo de eleger uma nova direção ainda em dezembro de 2024.

Seria impossível? Não, não seria. Mas o efeito prático de uma manobra deste tipo seria tão imponderável, que é difícil acreditar que exista mesmo alguém defendendo isso.

Até porque tudo de que não necessitamos é de novas direções eleitas no afogadilho, sem debate qualificado, sem ampla participação do conjunto dos filiados.

Lembrando, aliás, que não se trata apenas de eleger uma nova direção nacional, mas também de eleger direções estaduais e municipais em todo o Brasil.

Isto posto, será que tem alguém falando uma coisa e pensando noutra?

A saber, será que tem alguém pensando em antecipar a substituição da presidenta nacional do PT? 

O estatuto do Partido diz que a presidência nacional é eleita diretamente pela base do Partido, ao mesmo tempo e no mesmo processo que se elege o conjunto do diretório nacional.

Mas, se no meio do mandato a pessoa que ocupa a presidência nacional tem que se afastar do cargo, cabe ao Diretório Nacional fazer a substituição.

É o que ocorreu, por exemplo, quando Lula foi candidato à presidência da República em 1994. Ele se licenciou e, no lugar de Lula, Rui Falcão assumiu interinamente a presidência do Partido.

É o que ocorreu, também, quando Zé Dirceu assumiu um ministério no Governo Lula 1, em 2003. Ele se licenciou e, no lugar de Dirceu, José Genoíno assumiu interinamente a presidência do Partido.

É o que ocorreu, ainda, quando Genoíno se afastou da presidência, em 2005. No lugar de Genoíno, Tarso Genro assumiu interinamente a presidência do Partido. Supostamente Genro seria candidato à presidência nacional do Partido, mas ele acabou desistindo.

Mais detalhes sobre este episódio estão aqui: Valter Pomar: Argumentos para quem quer votar no PT

Outra substituição ocorreu quando Ricardo Berzoini, em 2006, se afastou da presidência do Partido e, no seu lugar, assumiu Marco Aurélio Garcia.

Nova substituição ocorreu quando José Eduardo Dutra, por razões de saúde, se afastou da presidência nacional do PT, sendo substituído no dia 29 de abril de 2011 por Rui Falcão. Posteriormente, Rui seria candidato e eleito presidente nacional do Partido, no PED de novembro de 2013.

Desde então não houve mais nenhuma substituição: Gleisi Hoffmann foi eleita em 2016 e reeleita em 2019.

Moral da história: o estatuto prevê a possibilidade de uma substituição interina. Nesse caso, qualquer membro (titular ou suplente) do Diretório Nacional pode assumir interinamente a presidência, até que se realize o processo normal de eleição.

Será que tem alguém pensando nisso? Espero sinceramente que não. Pois nosso problema, a essa altura do campeonato, é ganhar o segundo turno. E, depois disso, fazer um debate profundo, sobre o resultado eleitoral, sobre a situação política em geral e sobre nossas tarefas. É com base neste debate que deve ocorrer a eleição da nova direção partidária, inclusive da pessoa que presidirá o Partido.

Escolher interinamente um presidente, para depois fazer o debate e em seguida a eleição das direções e presidência definitiva, causaria muita confusão e nenhuma solução.

Isto posto, espero que tudo não passe de mentira ou balão de ensaio.

A votação das esquerdas e do PT

O PT não pretende ser, nunca foi e nunca será o "partido único" da esquerda brasileira.

Há uma grande quantidade de pessoas que são de esquerda, mas não se consideram integrantes de nenhuma organização.

Há organizações de esquerda que agem quase como partidos, embora não se chamem nem se considerem assim.

Há partidos que não conseguiram ou decidiram não ter registro legal.

E há 11 partidos que possuem registro legal e que podem ser localizados no espectro que vai da centro-esquerda até a extrema-esquerda.

São eles: o PCO, o PCB, o PSTU, a UP, a Rede, o PCdoB, o PV, o PSOL, o PDT, o PSB e o próprio PT.

Segundo o Grupo de Trabalho Eleitoral do PT, na eleição de 2024 para vereadores, estes partidos de centro-esquerda, esquerda e extrema-esquerda tiveram - somados - cerca de 23 milhões 808 mil e 619 votos.

Dizendo de outra forma: a maior parte da classe trabalhadora ou não vota em ninguém, ou vota em candidaturas a vereador lançadas por partidos de direita.

Para registro: MDB teve 11,2 milhões de votos, PSD teve 10,3 milhões, PP teve 10,1 milhões de votos, PL teve 9,7 milhões de votos, União teve 9,2 milhões de votos e Republicanos teve 8,1 milhões de votos. Todos estes, mais os demais partidos da centro-direita, direita e extrema-direita, alcançaram mais de 90 milhões de votos.

Evidentemente, nem todos os votos recebidos pelas direitas, assim como nem todos os votos obtidos por partidos de centro-esquerda, esquerda e extrema-esquerda são oriundos da classe trabalhadora. 

Feita esta ressalva, os números abaixo permitem ter uma ideia aproximada da influência relativa que cada setor das esquerdas conseguiu no primeiro turno das eleições municipais de 2024, no eleitorado em geral e na classe trabalhadora com consciência de classe, respectivamente.

O Partido da Causa Operária teve 3.363 votos.

O Partido Comunista Brasileiro teve 4.811 votos.

O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado teve 19.426 votos.

A Unidade Popular teve 41.707 votos.

A Rede teve 721.005 votos.

O Partido Comunista do Brasil teve 912.001 votos.

O Partido Verde teve 1.268.321 votos.

O Partido do Socialismo e Liberdade teve 1.794.321 votos.

O PDT teve 4.967.364 votos.

O PSB teve 6.710.578 votos.

O Partido dos Trabalhadores teve 7.365.428 votos.

Em relação às eleições municipais de 2020, só o PT e o PSB tiveram crescimento expressivo em número absoluto de votos. Rede e PSOL ficaram mais ou menos do mesmo tamanho.  PCdoB, PV e PDT caíram. 

UP, PSTU, PCO cresceram e PCB caiu, mas nesses quatro casos as votações são muito pequenas e a variação estatística não tem o mesmo significado dos demais casos.

Se colocarmos na balança a votação obtida noutro tipo de processos eleitorais (para prefeitos, governadores, deputados, senadores, presidente), o peso relativo do PT frente aos demais partidos das esquerdas cresce significativamente.

Essa relação de forças dentro da esquerda pode mudar? Pode, quase tudo pode. Aliás, em algumas cidades importantes o PT já foi superado por outros partidos que integram este campo que vai da centro-esquerda até a extrema-esquerda. 

Mas acontece o seguinte: até agora, os partidos deste campo que estão mais próximos do PT em termos de votação e que algumas vezes o superam, são exatamente aqueles "parentes politicamente mais distantes", onde a influência da direita é maior, caso do PDT e do PSB. 

Já a superação do PT por "parentes mais próximos", como o PSOL e o PCdoB, é algo muito raro.

Ademais, parte da votação obtida por estes "primos" se dá no ambiente criado pela atuação do próprio PT. Quando o PT perde força, estes partidos também tendem a diminuir.

Quantos aos que criticam o PT pela esquerda, sua presença eleitoral é muito reduzida. E sua influência social, ao menos neste momento, não corresponde a seu ânimo militante, nem a sua aparente nitidez teórica.

Destes dados e tendências é possível extrair várias e diferentes conclusões.

Uma é a de que, até agora, embora o petismo tenha perdido força na classe trabalhadora, apesar dos esforços das direitas, da torcida de alguns primos e da imensa "contribuição" de certos próceres do próprio Partido, a verdade é que o PT continua sendo o partido mais forte da esquerda, tanto eleitoral quanto socialmente

Aliás, as pessoas que têm como objetivo construir algo melhor do que o PT enfrentam um dilema cruel. Para terem êxito, é preciso que confluam três variáveis: primeiro, que a direita tenha muito êxito na luta contra o petismo; segundo, que o PT cometa muitos erros; terceiro, que os candidatos a substituir o PT façam muito trabalho de base junto à classe trabalhadora.

Acontece que tanto o êxito da direita quanto os erros do PT causam enormes danos para a classe trabalhadora, tornando tudo ainda mais difícil para todas as esquerdas. Sem falar que ganhar influência junto à classe exige muito esforço e tempo.

É também por isso que o enfraquecimento relativo do PT não resultou, até agora pelo menos, no surgimento de uma alternativa à esquerda.

Isso apesar de que, desde 1989 até hoje, muitos militantes de esquerda tenham desistido de disputar o PT. Alguns abandonaram a militância, outros continuaram militantes sem partido, outros estão contribuindo em outras organizações, outros seguem no PT como eleitores. 

Mas todos e todas, de uma forma ou de outra, às vezes contra sua própria vontade, continuam gravitando ao redor do petismo, entre outros motivos porque, sem o PT e contra o PT, não está nada fácil derrotar o lado de lá.

Como nem todo mundo é de ferro, acontece também de militantes da esquerda crítica ao PT acabarem priorizando objetivos eleitorais mais ou menos pessoais, para os quais vislumbram maiores chances em outras legendas. O engraçado é que, nestes casos, é comum desejarem ter o PT como aliado, para ajudar no famoso quociente eleitoral. 

E como por enquanto não há um ambiente de fortes lutas sociais espontâneas, nem a esquerda realmente existente faz o devido empenho para tentar organizar e mobilizar a classe, o resultado final é que boa parte dos discursos críticos ao PT não se converte em alternativa real, apesar do generoso espaço que algumas destas críticas recebem na grande mídia e até em certos meios populares.

Aliás, muitos dos que tentaram construir uma alternativa conseguiram, muitas vezes, mimetizar mais nossos defeitos que nossas qualidades. 

Uma segunda conclusão que é possível extrair dos dados e tendências anteriormente expostos, é que seguem existindo ótimos motivos para continuar disputando os rumos do PT. 

É seguro que as contradições e perigos serão cada vez maiores, exatamente porque o PT expressa no seu interior todas as tensões e divisões existentes na classe trabalhadora brasileira, nessa quadra histórica cada vez mais polarizada em que vivemos. 

Por isso mesmo, como em quase tudo na vida, não há garantia nenhuma de que teremos êxito. Mas basta olhar o que ocorreu nestas eleições municipais, inclusive no segundo turno, para perceber como seriam as coisas se o PT não existisse.

Uma terceira conclusão é a de que o tempo corre contra nós. O futuro será cada vez mais difícil, se a esquerda como um todo, especialmente o PT, não tomar medidas urgentes para recuperar influência junto à classe trabalhadora, não apenas política e organizativa, mas também ideológica. Plano no qual só o socialismo salva.








sábado, 19 de outubro de 2024

O PT, o joio e o trigo

Recebi de um amigo uma citação.

Reproduzo abaixo a tal citação, mas com uma pequena alteração, que já explicarei.

"(...) um partido eleitoral, um partido à moda 'americana', isto é, um partido que pensaria só em ganhar votos, que desvalorizaria o trabalho de direto contato com a gente para lhes ajudar a pensar, a organizar-se, e a lutar, que esvaziaria de todo o conteúdo a militância política, que pensaria apenas em ter deputados, mais senadores, mais vereadores, mais assessores, mais postos de poder.... Mas um partido 'renovado' deste modo seria ainda o Partido dos Trabalhadores? (...)"

A alteração que fiz na citação original foi apenas no final.

A citação original fala do Partido Comunista Italiano, não do PT brasileiro.

Trata-se, segundo me disse o amigo citado, de uma pergunta retórica de Berlinguer, secretário geral do PCI, em um texto publicado em 1981, na revista Rinascita.

Em 1981, o Partido Comunista Italiano era chamado, por alguns, de o maior partido comunista do Ocidente.

Berlinguer morreu em 1984.

O Partido Comunista Italiano suicidou-se em 1991.

Uma das versões acerca do suicídio pode ser lida na obra resenhada aqui: Valter Pomar: Sobre "O alfaiate de Ulm"

Pano rápido.

De aqui até 27 de outubro, devemos fazer de tudo para ganhar o segundo turno das eleições municipais, especialmente em São Paulo, Fortaleza, Cuiabá, Porto Alegre e Natal.

Passada a eleição, se possível em um ambiente de vitória, teremos que enfrentar o debate sobre nosso presente e nosso futuro.

E nesse momento vamos separar o joio do trigo.

De um lado quem defende seguir trilhando o caminho gringo.

De outro lado quem defende reafirmar o PT como partido militante e socialista.

*

Transcrevo a mensagem do meu amigo: Pergunta retórica de Berlinguer em um texto para a revista "Rinascita" de dez. de 1981: "um partido eleitoral, um partido à moda 'americana', isto é, um partido que pensaria só em ganhar votos, que desvalorizaria o trabalho de direto contato com a gente para lhes ajudar a pensar, a organizar-se, e a lutar, que esvaziaria de todo o conteúdo a militância política, que pensaria apenas em ter deputados, mais senadores, mais conselheiros (vereadores), mais assessores, mais postos de poder.... Mas um partido 'renovado' deste modo seria ainda o Partido Comunista Italiano?" (Citado em Guido Liguori, Berlinguer Rivoluzionario. Il pensiero politico di un comunista democratico, Carocci, 2014)



 




sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Sobre mais um erro de Israel

Segundo consta, alguém uma vez criticou uma atitude de Napoleão, afirmando o seguinte: "é pior que um crime, é um erro". 

Que Israel comete crimes, pouca gente duvida, embora sigam existindo contemporizadores e cínicos.

Mas, além de crimes, Israel também comete erros. Um dos erros mais recentes foi divulgar imagens dos momentos finais de um dos líderes do Hamas, Yahya Sinwar. Uma das versões está aqui: 

https://m.youtube.com/watch?v=EAHAwzk0krU

Só vejo um "atenuante" para o erro: tentar influir no estado de ânimo da população de Israel, parte da qual tem profundas e crescentes divergências com Bibi.

Acontece que, para parte importante dos palestinos, especialmente para os que vivem em Gaza, a imagem não constitui novidade. 

Afinal, mais de quarenta mil habitantes de Gaza já morreram em circunstâncias semelhantes.

Entretanto, não é trivial ver um líder do Hamas compartilhando a mesma situação dos demais habitantes de Gaza e, estando na beira da morte, ainda ter energia para lançar um pedaço de madeira no drone israelense.

Não faço ideia dos efeitos práticos e imediatos que a morte de Sinwar causará sobre o funcionamento do Hamas. Mas, no médio e longo prazo, duvido que cause os efeitos pretendidos por Israel.

Aliás, chega a ser paradoxal que a elite dirigente de Israel não compreenda o efeito deste tipo de imagem na psicologia do povo palestino.

Afinal, a narrativa que a elite de Israel construiu e divulga é a de uma história de séculos de perseguição, derrotas e martírios, de resiliência e de resistência, de Davis contra Golias, que teria culminado em 1947 com a decisão da ONU criando o Estado de Israel.

Se foi assim com Israel, porque não poderia ser assim com a Palestina? 

A elite de Israel não acredita nisso porque se deixou contaminar pelo mais profundo racismo. Se enxerga como parte de um povo eleito e enxerga os palestinos como sub-humanos, portanto incapazes de proezas heroicas.

Neste contexto, divulgar os momentos finais de Sinwar - madeira contra drone - só reforça a ideia de que a luta pela libertação é assimétrica e, também por isso, pode durar muito tempo. Mas ao final triunfará.