sábado, 1 de agosto de 2026

Familismo & esquerda: o case Quaquá

Acabo de assistir um documentário denominado Anistia 79.

Tirante os últimos e brochantes segundos, trata-se de um trabalho maravilhoso.

No documentário podemos ver e ouvir acerca da história de famílias inteiras que se engajaram na luta armada contra a ditadura militar. E pagaram pesado por isto, com prisão, tortura, exílio, desaparecimento e morte.

Décadas passaram. E, felizmente, o engajamento na esquerda segue mobilizando indivíduos, categorias e classe, assim como famílias inteiras. Ou quase, pois sempre há aquele parente que escolheu o lado sombrio da Força.

Mas quando a janela está aberta, junto do ar fresco entram as moscas. No caso, o que podemos chamar de “familismo de tipo feudal”.

O grande exemplo disso no Brasil de 2026 é a família do cavernícola, que transformou o sobrenome num ativo empresarial e eleitoral de tipo mafioso.

Mas também na esquerda há situações de “familismo de tipo feudal”.

Pessoas nomeadas para indecentes “tribunais de contas” porque são ou foram casadas com alguém que controla uma caneta poderosa.

Pessoas que fazem dos seus vínculos familiares plataforma para exitosas e suspeitas carreiras empresariais.

Pessoas que saem candidatas para manter sob controle familiar o que é tratado como um curral eleitoral de coronéis do século 21.

Não se trata de algo fácil de lidar, até porque famílias existem e sempre têm alguma influência nas possibilidades abertas a cada pessoa.

Mas tem gente que simplesmente perdeu o pudor, além do bom senso, e vem assumindo publicamente uma ideologia feudal, similar a adotada pela família do cavernícola. 

É o caso descrito na nota reproduzida mais abaixo.

Caso que nos causa dores de cabeça seguidas, entre outros motivos, porque o secretário geral prevaricador Henrique Fontana, mas também o presidente Edinho e demais integrantes da “comissão especial” escolhida pela executiva nacional do PT continuam sentados na pilha de pedidos de comissão de ética contra o indigitado.

Porque agem assim? Para evitar prejuízos eleitorais que não deve ser, pois estes prejuízos aparecem dia sim e dia também.

Será para “pagar” os votos recebidos no PED? Ou por razões fenícias e assemelhadas? Ou mais simplesmente por medo de decidir e fazer a coisa certa?

Não sei. Só sei que cargo público não pode ser transmitido como se  “herança” fosse.

Segue o texto citado (que me foi enviado por integrante da executiva nacional do PT):

*PT não é capitania hereditária. Não aceitamos golpe!*

*_Inaceitável e indefensavel que interesses menores orientem as decisões do PT na grave e importante disputa eleitoral que se avizinha_*

No debate sobre o número para disputa à Câmara Federal pleiteamos o número 1313, que se sabe configura candidatura puxadora de legenda. O fizemos na condição de um lado de candidato ao governo do estado em 2022 e de outro na condição de deputado mais votado do PT e da Federação.

De forma arbitrária, sem critério e desrespeitando orientações da Direção Nacional e da legislação eleitoral a maioria da Comissão Executiva Estadual do PT-RJ aprovou o número 1313 para Diego Quaquá sob alegação do direito de herdar o número do pai.

É público e notório que na Federação as nossas candidaturas serão as puxadoras de voto para ampliar no Rio de Janeiro a bancada de apoio ao presidente Lula. Iremos até às últimas consequências contra essa arbitrariedade fruto do autoritarismo e da pequeneza política que tem marcado a postura da maioria da Direção do PT fluminense.

O PT com sua história democrática, não pode ser um puxadinho de vontades particulares, alicerçado em argumentos despolitizados e procedimentos arbitrários e ilegais, é preciso tratar e dirigir o PT com a grandeza de ser o partido do Presidente Lula que muda a vida do povo brasileiro.

Lindbergh Farias

Marcelo Freixo

01 de agosto de 2026

Segure outra versão (neste caso enviada por um integrante do PT RJ):


O PT não é capitania hereditária.

Vamos enfrentar uma eleição decisiva para o futuro do Brasil e do Rio de Janeiro. Por

isso, é inaceitável que interesses familiares orientem as decisões estratégicas do PT.

Nosso partido não pode se apequenar.

As eleições no Rio de Janeiro são fundamentais para o enfrentamento do bolsonarismo

e sustentação do governo Lula no Congresso Nacional. Neste sentido, a defesa de uma

agenda de fortalecimento da soberania, da democracia e dos direitos dos

trabalhadores terá como arena central o Parlamento.

Diante desses desafios e compromissos históricos, é lamentável que o debate sobre a

estratégia do PT para as eleições legislativas seja submetido a interesses menores e

familiares, como se o nosso partido fosse uma capitania hereditária.

Essa visão mesquinha se traduz no golpe contra duas candidaturas estratégicas para a

construção de uma bancada forte e qualificada do nosso partido na Câmara dos

Deputados. O PT tem dois puxadores de votos nas eleições deste ano: os

companheiros Marcelo Freixo, candidato ao governo do Estado em 2022, e Lindbergh

Farias, deputado federal mais votado da nossa Federação em 2022.

De forma arbitrária e sem estratégia política, desrespeitando as orientações da Direção

Nacional e da legislação eleitoral, a maioria da Comissão Executiva Estadual do PT-RJ

aprovou, de forma autoritária, a entrega do número 1313 para Diego Quaquá. A

alegação contradiz a história democrática do nosso partido: o direito de herdar o

número do pai.

Decisões arbitrária e ilegais, que impactarão de maneira severa a bancada de

sustentação do governo Lula, são inaceitáveis e contradizem os princípios que

orientam o PT.

Dirigir o PT, o partido do presidente Lula, cujo governo transforma a vida do povo

brasileiro num momento decisivo da história do nosso país, exige grandeza e visão de

futuro.

Lindbergh Farias e Marcelo Freixo

01 de agosto de 202














quarta-feira, 29 de julho de 2026

Elementos de conjuntura

Roteiro da exposição que será feita no congresso do Sintese, no dia 27/8/2026.

A dinâmica do país será cada vez mais dominada pela disputa eleitoral, com destaque para a disputa presidencial. E nesta disputa eleitoral será cada vez mais forte a ingerência externa, especialmente dos Estados Unidos, de Israel e da extrema-direita internacional.

Outro exemplo: a dinâmica do mundo continuará marcada pela disputa entre Estados Unidos e República Popular da China. E, nesta disputa, serão cada vez mais presentes as guerras, que podem ser quentes (como na Ucrânia, no Irã, na Palestina e no Líbano) ou mornas (como a disputa de tarifas e a disputa tecnológica).

Um terceiro exemplo: a chamada “crise climática” continuará impactando pesadamente todos os países do mundo, mas especialmente as populações mais pobres desses países. O motor dessa crise é o desequilíbrio ambiental causado pela exploração capitalista, mas os fenômenos decorrentes ganharam uma dinâmica própria e cada vez mais difícil de reverter, exigindo da humanidade medidas de adaptação de curto, médio e longo prazo.

Como decorrências destes e de outros processos, temos uma tendência à crises recorrentes, a conflitos, à polarização (política e ideológica). Noutras palavras: o mais provável, infelizmente, é que as coisas piorem um pouco antes de melhorar. Assim como é provável que, quando as coisas melhorarem, haja uma mudança qualitativa em relação à situação atual. Noutras palavras, o mundo vai mudar, as coisas não serão como hoje. Mas essa mudança pode ser – do ponto de vista da classe trabalhadora – para pior ou para melhor, a depender de quem vença a luta de classes e a luta entre Estados atualmente em curso.

Do ponto de vista do Brasil, há duas grandes possibilidades: ou o aprofundamento do modelo primário-exportador e rentista ou um ciclo de desenvolvimento democrático-popular. No primeiro caso, aprofundaremos nossa dependência externa, com submissão crescente aos Estados Unidos ou a quem quer que hegemonize o mundo. No segundo caso, converteremos o Brasil numa das potências industriais-científico-tecnológicas mundiais.

A bifurcação acima – que diz respeito a sociedade brasileira e a nosso lugar no mundo – está ligada ao resultado da eleição presidencial de 2026. A depender de quem ganhe as eleições, um rumo será escolhido. A depender de como ganhe, estará em boa medida precificado o ritmo e as modalidades do processo.

Do ponto de vista das forças políticas e sociais que defendem um modelo primário-exportador, rentista e dependente, a eleição de 2026 lembra a eleição de 1989. Naquela ocasião, a vitória de Fernando Collor de Mello foi determinante para a implementação do neoliberalismo no Brasil.

Já do ponto de vista das forças políticas e sociais que defendem uma mudança na sociedade brasileira e uma mudança no lugar do Brasil no mundo, a eleição de 2026 mantém aberta a possibilidade, mas não determina o resultado. Noutras palavras, a reeleição de Lula – a depender das condições em que ocorra – mantém aberta a possibilidade de construir outro modelo e mantém aberta a possibilidade de mudar o lugar do Brasil no mundo. Mas tudo dependerá das condições em que a vitória de Lula ocorra.

Até o momento em que esta texto está sendo escrito, onze candidaturas disputam a presidência do Brasil: Lula (PT), o filho do cavernícola (PL), Caiado (PSD), Zema (Novo), Renan (Missão), Hertz Dias (PSTU), Samara Martins (UP), Edmilson Costa (PCB), Rui Costa Pimenta (PCO), Augusto Cury (Avante) e Clariana Barão (DC).

A candidatura do filho do cavernícola é porta-voz dos que defendem que o Brasil seja quintal dos Estados Unidos, siga exportador de produtos primários e um dos campeões mundiais da desigualdade social.

A candidatura de Lula é a alternativa dos que defendem a soberania nacional, a transformação do Brasil numa das grandes potências industriais do mundo e a construção de uma sociedade de bem estar. Mas também é a candidatura de setores da direita neoliberal que têm contradições com o modelo político defendido pela família cavernícola.

A preços de hoje, Lula vencerá a eleição presidencial, no segundo turno (dia 25 de outubro), por uma diferença de votos similar à de 2022. E recebendo o voto dos setores mais explorados da classe trabalhadora, dos negros e negras, das mulheres.

Mas a eleição não é hoje. A candidatura do filho do cavernícola é apoiada pelos Estados Unidos, por Israel e pela extrema-direita internacional. Seus apoiadores já demonstraram ser capazes de praticar crimes de todo tipo para atingir seus objetivos. Além disso, a candidatura do cavernícola filho conta com imenso apoio empresarial, poderosas estruturas de comunicação, ampla militância religiosa e militar, além de uma base social e eleitoral muito resiliente, disposta a votar na extrema-direita mesmo que tenham todo dia que dar explicações sobre seus crimes.

Vale dizer que a candidatura de Caiado trabalha com a seguinte expectativa: que mais cedo ou mais tarde, as crises e os desgastes da candidatura cavernícola o obriguem a sair da disputa. Nesse cenário, Caiado imagina poder receber o apoio de toda a extrema-direita e, também, de setores da direita que hoje não apoiam ninguém ou que apoiam Lula.

Mesmo que isso não aconteça, a existência de várias candidaturas da direita ajuda a levar a disputa presidencial para o segundo turno, onde a tendência é que as diferentes direitas se unifiquem. Por este motivo é que dizemos que a eleição presidencial será decidida no segundo turno e por pequena diferença.

Outro fator a considerar é que, na maioria dos estados, a disputa pelo Senado e pelos governos está sendo liderada, hoje, por candidaturas de direita. O mesmo vale para a disputa pela Câmara e pelas Assembleias Legislativas. Se esse cenário se mantiver, o segundo turno acontecerá num ambiente em que a disputa presidencial será entre Lula versus cavernícola; mas na maioria dos estados, a tendência é que o cenário eleitoral de segundo turno não seja de esquerda contra direita. E naqueles estados onde a direita ganhar a disputa pelo governo e/ou Senado; ou onde a direita alcançar expressiva vantagem no primeiro turno nas disputas estaduais, o cenário será muito mais difícil para a esquerda no segundo turno presidencial.

Nesse contexto, a existência de quatro candidaturas presidenciais lançadas por partidos autoproclamados de esquerda revela incompreensão acerca do que está em jogo nas eleições presidenciais de 2026. A hora é de unidade total contra o neofascismo e o imperialismo.

Muito mais daninha, entretanto, é a posição daqueles que estão debatendo a necessidade de um ajuste fiscal em 2027. Ou seja: cortes nas políticas sociais, mudanças nos pisos constitucionais, redução no reajuste do mínimo e das aposentadoras, contenção nos investimentos produtivos, alteração para pior na estrutura do Estado etc.

A extrema-direita diz abertamente que pretende fazer isso, caso vença as eleições. A posição da esquerda deve ser diametralmente contrária. Seguir conciliando com o sistema financeiro não apenas obstaculizaria o desenvolvimento e a ampliação dos direitos. Não precisamos de um ajuste fiscal em 2027. Do quê precisamos é libertar o país da ditadura do capital financeiro, o que exigirá superar os limites do Novo Marco Fiscal, mudar as metas de inflação e substituir a cúpula do Banco Central. Mas para fazer isso, não basta que a esquerda vença a eleição presidencial. Será preciso vencer com maior percentual de votos válidos do que o obtido em 2022. Além disso, será preciso conquistar mais governos estaduais, mais cadeiras parlamentares e, acima de tudo, será necessário ampliar o nível de consciência, organização e mobilização do povo.

No caso, significa utilizar a campanha eleitoral para explicar que o Brasil está diante de uma encruzilhada: soberania ou neocolônia, desenvolvimento ou destruição, direitos ou escravização. A classe trabalhadora brasileira está diante desta batalha existencial. Se vencermos, aumentam as chances de mudarmos nossa sociedade e o lugar do Brasil no mundo.

Neste caso – mas também no cenário oposto – será essencial reforçar os instrumentos organizativos da classe trabalhadora, a começar pelos sindicatos. Aliás, um dos grandes desafios da classe no próximo período é aumentar o percentual de sindicalização, de conscientização e de mobilização. No limite, é aí que nosso futuro será decidido.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Jorge Vianna e o PT

Jorge Vianna é petista das antigas.

Foi governador, foi senador.

Ocupou vários cargos em nossos mandatos federais.

Hoje aceitou o desafio de ser, novamente, candidato ao Senado.

Tarefa difícil, porque depois de seguidos governos estaduais petistas, hoje muita gente diz que "viramos terra arrasada" naquele estado.

Nessas condições, não é fácil achar a tática certa.

Mas, a julgar por uma entrevista de Jorge Viana de onde extrai o trecho abaixo, a tática errada já achamos.

Segue a transcrição: "A rejeição é ruim, né? Ela, óbvio, é fruto. Eu quando eu saí do governo, eu tinha 87 de ótimo e bom, não era de aprovação, isso era a maior do Brasil. Ah, mas tem muita rejeição a você, tudo. Nós entramos num processo de polarização tremendo. Eu acho que também teve muitos erros nos nossos últimos governos. A gente cometeu falhas graves, tem os acertos são maiores, mas teve muitos erros e teve uma rejeição enorme. Eu eu vou dizer o seguinte, se fizer uma campanha aí PT contra P-não-sei-do-quê, vai perder. Eu tirei a parte, a carga ideológica da minha campanha. A minha campanha não é uma candidatura, minha candidatura ao Senado não é uma candidatura do PT, uma candidatura do Acre. O PT é o partido que eu tenho, ninguém vai questionar. Eu não tô negando minha história. Só tô dizendo que eu não vou botar, porque o PT, por exemplo, foi um dos responsáveis ou parte do PT pela minha derrota de 18, quando inventaram uma outra candidatura querendo ver, querendo me tirar. Eu vou brigar. Não. Então não tem briga com ninguém do PT, não tem briga com nenhum P-nenhum, mas a minha candidatura é pelo Acre. Se o Acre nos une, se as pessoas acham que eu posso ajudar o Acre, então elas vão estar do meu lado. Essa rejeição o Acre não tem."

Algum dia se fará o balanço do passado e da política que gerou toda essa rejeição.

Mas a preços do presente, pergunto a quem serve dizer o seguinte: "Eu tirei a parte, a carga ideológica da minha campanha. A minha campanha não é uma candidatura, minha candidatura ao Senado não é uma candidatura do PT, uma candidatura do Acre. O PT é o partido que eu tenho, ninguém vai questionar".

Se Jorge tivesse saído do PT, se Jorge não fosse receber alguns milhões de reais do fundo eleitoral do PT, talvez essa conversa tivesse alguma ressonância junto a eleitores de centro-direita.

Mas o que Jorge está se propondo fazer é um malabarismo retórico: "minha candidatura ao Senado não é uma candidatura do PT, [é] uma candidatura do Acre. (...) Se o Acre nos une, se as pessoas acham que eu posso ajudar o Acre, então elas vão estar do meu lado. Essa rejeição o Acre não tem."

Segundo minha interpretação: ao invés de trabalhar para reduzir a rejeição ao PT, ao adotar esta postura transcrita acima Jorge está apenas confirmando a tese da direita, segundo a qual para defender o Acre é preciso se afastar do PT.

Nem comento o argumento que está no entremeio: "Só tô dizendo que eu não vou botar, porque o PT, por exemplo, foi um dos responsáveis ou parte do PT pela minha derrota de 18, quando inventaram uma outra candidatura querendo ver, querendo me tirar". 

Confesso que não sei o que ocorreu no Acre em 2018, mas lembro do que ocorreu no país inteiro. E, seja como for, se essa moda pega - não vou defender o PT este ano, porque na eleição passada o PT ou parte dele adotou uma tática que me prejudicou - o desfecho não vai ser dos melhores.

Até porque - não custa lembrar - quem organiza a política em torno da primeira pessoa do singular são os políticos da direita. A classe trabalhadora, a esquerda, só tem alguma chance se operarmos na primeira pessoa do plural.





terça-feira, 14 de julho de 2026

Wladimir Pomar, 90 anos

Neste dia 14 de julho de 2026, Wladimir Pomar completaria 90 anos.

Para marcar a data, a Fundação Perseu Abramo reeditou sua trilogia sobre o "socialismo soviético".

Quem quiser pode baixar gratuitamente aqui: Uma trilogia sobre o "socialismo soviético" - Fundação Perseu Abramo

E para reavivar a memória, uma foto doutro milênio.



domingo, 12 de julho de 2026

"Quaquá presidente nacional do PT"

Quaquá atacou pública e privadamente a candidatura de Benedita da Silva ao Senado.

Mas, recentemente, foi enquadrado.

Não propriamente pelo PT e sim por Eduardo Paes.

Foi enquadrado, mas saiu no lucro: virou coordenador da campanha de Lula no estado do Rio de Janeiro e ainda conseguiu oficializar Pedro Paulo como dobrada.

Questionado por uma nota da tendência petista Articulação de Esquerda, respondeu por escrito que "vou pedir comissão de ética para esses vagabundos".

Em seguida, escalou dizendo que "passada a eleição vou cobrar na justiça os crimes cometidos por essa quadrilha!"

E concluiu dizendo que a AE é "um bando", que "já deviam ter sido expulsos do PT", "gente criminosa e antes de tudo irrelevante".

Ao menos conosco da AE, este método - ameaças, truculência, ofensas - simplesmente não funciona.

Aliás, como escreveu uma companheira, essa promessa de pedir uma comissão de ética contra nós tem - como quase tudo, menos alguns discos - um lado bom: talvez ajude a instalar as - acho que cinco - comissões de ética solicitadas contra o próprio Quaquá.

O que não é nada bom é que, como em outras vezes - todas documentadas - em que Quaquá tentou transformar um grupo de zap da direção nacional do PT em privada, a esmagadora maioria dos participantes do referido grupo escolheu o silêncio.

Num grupo de zap onde aniversários geram um dilúvio de "joinhas" e congratulações, este silêncio é por demais barulhento.

Em 2024, numa situação similar, o já então secretário-geral nacional do PT, o companheiro Henrique Fontana, tentou justificar esta postura apaziguadora. 

Segundo Fontana disse à época, Quaquá viraria prefeito de Maricá e em seguida iria submergir, ou seja, se afastar do debate nacional.

Na época, dissemos a Fontana que isso não aconteceria, muito antes pelo contrário.

E o que aconteceu? Exatamente o oposto do que imaginava Fontana. 

Mesmo assim, demonstrando que a falta de vistas largas às vezes é acompanhada de princípios fortes, o secretário-geral seguiu com a mesma postura de antes, ou seja, prevaricar.

Explico: cabe ao secretário-geral submeter, à executiva nacional do PT, os pedidos de comissão de ética. A CEN pode aceitar ou não. Ao engavetar os pedidos, Fontana prevaricou. Por anos seguidos.

Contrastando com tal hipoatividade, Quaquá foi hiperativo no PED 2025 e no Congresso da Juventude do PT e, em 2026, há notícias de que ele estaria apoiando candidaturas em todo o Brasil, sem falar de seu já citado protagonismo no Rio de Janeiro.

E sem esquecer, é claro, de suas atividades, digamos, "empresariais".

Mantido esse ritmo, há grandes chances dele disputar com mais força ainda o PED 2029. 

Para quem acha isto ótimo, nada que dizer.

Mas para os que consideram que isto seria um desastre, a pergunta é: por qual motivo o já citado secretário-geral nacional do PT escolheu prevaricar, bloqueando todos os pedidos de comissão de ética contra Quaquá, um dos quais datado de 2021? 

Por quais motivos, depois de ter prometido que tomaria uma atitude, o presidente nacional do PT preferiu montar uma comissão para avaliar o que fazer? 

Por quais motivos a referida comissão - onde há pessoas de várias tendências, mas nenhuma da AE - nunca se reuniu?

Por quais motivos tanta gente prefere reclamar no corredor, mas silencia nas instâncias?

Há várias respostas possíveis, algumas que parecem de bom senso, outras que são impublicáveis.

Entre as respostas que parecem de bom senso, destaca-se o fato de que - no fundo, mas não tão no fundo assim - a política que Quaquá defende coincide com aquela defendida por amplos setores do Partido e, também, aceita como inevitável por outros que resmungam contra, até soltam notas tentando demarcar, mas na prática coonestam.

Parte da fúria de Quaquá contra a AE é, nesse sentido, uma confirmação de que, no nosso caso, divergimos de fio a pavio contra sua política de alianças, que se estende até os Brazão, Waguinhos, Pazuellos e Pedro Paulos. 

Mas sejam quais forem os motivos de quem passa o pano para Quaquá, esta atitude é - para citar ditado famoso - "pior do que um crime, é um erro".

Uma das consequências práticas deste erro é transformar boa parte da atual direção nacional do PT em "cúmplice" - por omissão - da campanha "Quaquá presidente nacional do PT".

Não duvido que boa parte dos omissos torça para que as instituições funcionem e resolvam o problema de fora para dentro. Afinal, eles sabem que o excesso de velas põe fogo na igreja. E que os métodos de Quaquá são deletérios, até mesmo para quem defende andar de braços dados com um setor da classe dominante.

Um caso de "pudonor", digamos assim. Afinal, coronelismo, familismo, sinais exteriores de sucesso empresarial, alianças com a extrema-direita, declarações contra os direitos humanos e quetais formam um coquetel indigesto demais. O que explica a torcida (reservada e discreta, claro) de alguns pela ação das instituições.

Claro que torcer para que o destino nos ajude é um direito humano. Mas cumprir o dever é função inerente a quem se candidata e é eleito para ser dirigente do Partido. Quem abre mão deste dever, pelo motivo que for, se torna eternamente responsável pelo que poderá resultar de sua prevaricação, omissão e subserviência.















segunda-feira, 6 de julho de 2026

Análise crítica do texto “Queremos um Brasil cada vez mais importante no mundo”

 Este texto não foi revisado.

Faço a seguir uma análise crítica do texto “Queremos um Brasil cada vez mais importante no mundo”.

Este texto foi produzido por um grupo de trabalho e encaminhado ao companheiro José Gabrielli, responsável por coordenar o programa de governo 2027-2030.

Anteriormente já encaminhei duas outras análises críticas, que podem ser lidas aqui:

Comentários sobre as contribuições do Núcleo MAG

https://valterpomar.blogspot.com/2026/06/comentarios-sobre-as-contribuicoes-do.html?m=1

Glosando a minuta de programa 2027-2030

https://valterpomar.blogspot.com/2026/06/glosando-minuta-de-programa-2027-2030.html?m=0

A seguir meus comentários sobre o texto “QUEREMOS UM BRASIL CADA VEZ MAIS IMPORTANTE NO MUNDO”.

O início do texto busca apresentar uma definição o mais ecumênica possível da situação mundial e da política externa brasileira, sobre a qual se ressalva apenas a “profunda ruptura entre 2019 e 2022”. Essa ruptura ocorreu, mas daí não decorre que devamos fazer tabula rasa das profundas diferenças entre as políticas externas dos governos tucanos e petistas. Na conjuntura de crise que vivemos, uma política externa meio tucana seria o caminho seguro para a derrota. 

O texto afirma, corretamente, “que não há política externa soberana sem um Estado forte”, o que inclui o “fortalecimento da indústria”. Este é o elo mais fraco de nossa política externa. E a política meio tucana nos levaria a quê? Por exemplo a subestimar as possibilidades da China, a superestimar as possibilidades da Europa, a não perceber o potencial da integração com ALC e com África e, principalmente, a achar que o conflito com os EUA é apenas com o governo de plantão (mais ou menos o que alguns pensam sobre Israel: o problema seria apenas Bibi).

O texto fala do que fizemos no governo Lula - e fizemos muito - mas opta por não falar do que não fizemos, nem tampouco fala do que fizemos errado. Alguém pode pensar que isto seria inapropriado para um texto de programa. Enganam-se: o povo é inteligente, os apoiadores querem respostas. Há maneiras de fazer isso, sem abrir o flanco. Nada dizer não é alternativa. Até porque não é correto dizer que “em pouco tempo, o país voltou a ocupar seu lugar como protagonista na política internacional”. Não “voltamos”: o mundo mudou, o Brasil mudou, nós mudamos, a situação piorou e estamos mais fracos que antes.

Pergunto, por exemplo: o que resultou de prático da excelente reunião com “os líderes de toda a América do Sul no Consenso de Brasília”? Quais foram os desdobramentos?

O texto afirma, corretamente, que as “disputas geopolíticas, a corrida tecnológica, a transição energética, a reorganização das cadeias produtivas e a emergência climática exigem uma política externa capaz de antecipar desafios, criar oportunidades e fortalecer a posição do Brasil em uma ordem internacional em transformação”. E afirma, também corretamente, que “o quarto governo do presidente Lula (…) deve consolidar um projeto de inserção internacional voltado à promoção do desenvolvimento nacional”. E a seguir apresenta uma lista de desejos, na maioria meritórios, jargões e cacoetes à parte.

A porca torce o rabo quando se detalha os “cinco eixos complementares: a reforma da governança global; a integração regional; a defesa, a segurança e a soberania; a cooperação internacional; e o comércio exterior e as finanças internacionais”. 

Na Cooperação Internacional se fala tudo que queremos fazer. Pergunto, copiando a blague clássica: combinamos com os russos?  

Como falar de “consolidar o Atlântico Sul como uma região de paz” e de “fortalecer a cooperação internacional no combate ao crime organizado” e não falar nenhuma vez de Trump, da ingerência e da militarização em curso na região??

Sobre Integração Regional, o texto diz corretamente que se trata de “uma prioridade estratégica”. 

Mas salvo tenhamos um santo milagreiro para ocupar o proposto cargo de “Enviado Especial”, estamos diante de um desafio para o qual ainda teremos que criar as políticas e os meios, que na minha opinião passam por um “Cinturão e Rota” impulsionado pelo Brasil.

Se não entendi errado, o texto insinua algo parecido, quando fala de “integração física, energética e digital”. Assim como sugere o tamanho da encrenca, quando fala Que “a defesa dos interesses nacionais em um mundo instável exige também capacidades próprias de dissuasão e proteção do território”. Infelizmente, a opção por uma linguagem ecumênica e pela lista de desejos faz o texto perder força política.

A questão política central é a defesa da soberania contra a ingerência do imperialismo estadunidense. Ou explicitamos a questão e a tratamos publicamente, ou só teremos os ônus da situação, sem nenhum bônus.

Sobre a Reforma da Governança Global, o texto reprisa e repisa muitas de nossas posições tradicionais. Mas ao fazer isso, explícita o paradoxo implícito na sua própria abordagem. 

Vejam o seguinte trecho: “A construção de uma ordem internacional mais democrática, representativa e multipolar é condição para que o Brasil e os demais países em desenvolvimento enfrentem os grandes desafios do século XXI”.

Se esta é a condição, então estamos perdidos. Porque o que está em curso é a desconstrução de uma ordem que não nos era favorável e a construção de uma desordem que tampouco nos favorece. Portanto, nosso problema é como enfrentar os desafios do século XXI num cenário profundamente adverso. O que exige reafirmar, mas também rever alguns “princípios” (entre eles, os da Defesa).

Sendo este o quadro, como entender a frase “Queremos fortalecer o papel dos BRICS, do G20 e das demais coalizões do Sul Global”???

Como “conjuminar” a “reforma da arquitetura financeira internacional” - o que exige rebaixar o papel do dólar - com a defesa da “democratização do Fundo MonetárioInternacional, do Banco Mundial e dos demais bancos multilaterais de desenvolvimento e o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento, do Arranjo Contingente de Reservas dos BRICS e de outros mecanismos capazes de ampliar a autonomia financeira dos países do Sul Global e reduzir sua vulnerabilidade diante de crises internacionais”. 

Este tipo de texto - que propõe tudo de bom junto ao mesmo tempo - não confunde os inimigos, mas atrapalha na definição de prioridades realistas.

No cenário mundial vislumbrável, não haverá “a construção de uma governança internacional das tecnologias digitais e da inteligência artificial, baseada na democracia, na soberania digital, na proteção de dados, na cooperação científica e na redução das desigualdades tecnológicas”. O que pode haver é a formação de blocos. Mas o texto, assim como não fala dos EUA, não fala da China, único “adulto na sala” com capacidade de ancorar um movimento desta natureza.

Sobre “Defesa, Segurança e Soberania”, o texto fala - muito corretamente- que não “há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa”.  Verdade. Mas contra quem? O texto não diz. A opção - mesmo nesse tópico - foi não dar nome aos bois. Não se fala dos EUA, de Israel, da Ucrânia, da marcha de vários países europeus rumo a uma guerra contra a Rússia. Nem se fala das bases militares que cercam o nosso Brasil.

O texto fala, corretamente, que queremos “assegurar que a Inteligência de Estado seja exercida em caráter civil, regida pelos princípios constitucionais, pela prevalência do Estado Democrático de Direito, pelo profissionalismo, pela transparência institucional, pela neutralidade político-partidária, pela proteção dos direitos fundamentais e pelo controle social e democrático, sempre orientada pela defesa do interesse nacional”. Mas como fazer isso, se nossa política de Defesa é “hemisférica”, como a dos EUA? E colo lidar com o detalhe de que as Forças Armadas realmente existentes no Brasil seguem aprendendo e ensinando “as velhas lições” de que falava Vandré??

A opção do texto - não falar dos monstros que estão dentro do armário e embaixo da cama - enfraquece inclusive as propostas corretas por ele feitas.

Finalmente, sobre Comércio Exterior e Finanças Internacionais, o texto reafirma a centralidade do desenvolvimento nacional. Diz que queremos superar a dependência da exportação de produtos primários e densificar as cadeias produtivas nacionais, algo difícil de conjuminar com o Acordo Mercosul-União Europeia. O que o resto admite, implicitamente, ao reivindicar a “conclusão e a implementação de todos os seus pilares — não apenas o comercial”. Mas sobre esta passagem do texto, prefiro não comentar, pois nossas debilidades externas nesse terreno derivam da situação econômica do país, tema que deve ser tratado por outro capítulo do programa.

Em resumo, o texto proposto ganharia muito se fosse menos ecumênico, menos politicamente correto. Nesse terreno, comprova-se mais uma vez que o excesso de velas põe fogo na igreja. Não li, espero ter lido errado, o texto falar uma única vez a palavra Palestina. Uma das mais belas passagens da política externa do governo Lula 3 foi a condenação do genocídio em Gaza. Ao não falar disso, ao não citar o genocídio praticado pelo Estado sionista de Israel, ao não falar desta manifestação concreta do fascismo que nos ameaça, o texto consegue – de tanto tentar ser politicamente correto – cometer uma incorreção política.

Como disse no início, este texto não foi revisado. Agradeço críticas destrutivas.

Verbetes do Dicionário do Socialismo com Características Chinesas

 


Acaba de sair o Dicionário do Socialismo com Características Chinesas.
Contribui com o Dicionário com verbetes sobre Deng Xiaoping, Diplomacia do Ping-Pong, CorrupçãoSocialismo com características chinesas.
Copio e colo abaixo.

Socialismo com características chinesas

As palavras “socialismo” e “comunismo” surgiram de forma independente, na primeira metade do século XIX, na Europa. Na segunda metade do século XIX, a corrente política e teórica encabeçada por Karl Marx e Friedrich Engels passou a utilizar as duas palavras de forma articulada: o socialismo como uma etapa de transição entre o capitalismo e o comunismo. Esta maneira de articular as duas palavras foi predominante na primeira etapa do movimento social-democrata (1875-1914) e foi oficializada pela tradição comunista inaugurada com a criação do Partido Comunista Russo (Bolchevique) e da Internacional Comunista, respectivamente em 1918 e 1919. O Partido Comunista da China, fundado em 1921, adotou desde o início esta fórmula segundo a qual entre o capitalismo e o comunismo existiria uma fase intermediária, denominada de socialismo. Como a União Soviética (1922-1991) foi, por durante quase trinta anos o único país que se denominava socialista e que se propunha estar realizando uma transição em direção ao comunismo, na prática se foi popularizando a ideia de que socialismo era igual ao tipo de sociedade que existia na URSS. Essa situação mudou radicalmente ao final da Segunda Guerra Mundial. Em vários países do Leste Europeu, mas também na China e Coreia, se instalaram governos dirigidos por partidos comunistas, com apoio menor ou maior da União Soviética. Em todos estes países, se viveu uma dinâmica contraditória: por um lado, o transplante de instituições e procedimentos “testados e experimentados” na União Soviética; de outro lado, a rejeição parcial destes transplantes e a criação de instituições e procedimentos e novo tipo. Essa dinâmica contraditória se manifestou, também, no plano teórico, por exemplo com a criação do termo “democracias populares”, para designar os regimes existentes no Leste Europeu. A constatação de havia diferentes tipos de socialismo se tornou mais aguda quando ocorreu a cisão (1948) entre o Partido Comunista da URSS e a Liga dos Comunistas da Iugoslávia, cisão que desde o início incluía entre seus motivos o debate sobre como organizar a propriedade coletiva dos meios de produção. Anos depois, a cisão sino-soviética (1960) também incluiu, entre seus motivos, o debate sobre as características do socialismo. Mas só na década de 1970 os comunistas chineses formulariam a ideia de que não existiria um único tipo de socialismo, que cada país atravessaria um tipo único de transição socialista e que haveria, portanto, um socialismo com características chinesas. A rigor, estas ideias não constituíam uma novidade, nem tampouco uma ruptura com a tradição inaugurada por Marx e Engels. A obra dos dois comunistas alemães, especialmente suas reflexões sobre a Rússia, deixa explícito que a transição ao capitalismo tinha seguido diversos caminhos e assumido diferentes formas. E o próprio capitalismo não era uniforme, assumia diferentes características, em diferentes regiões e épocas. Um dos desdobramentos lógicos disto era o de que a transição socialista também assumiria diferentes formas. Este desdobramento não foi tematizado em profundidade na primeira fase do movimento socialdemocrata (1875-1914), entre outros motivos porque a maioria dos seus partidos e intelectuais assumiu a premissa equivocada segundo a qual a transição socialista começaria onde o capitalismo fosse mais desenvolvido. A Revolução Russa de 1917 mostrou que aquela premissa estava equivocada e que, na verdade, a transição socialista começaria onde a respectiva classe dominante não conseguisse manter sob controle as contradições objetivas e subjetivas causadas pelo desenvolvimento capitalista. Nos países capitalistas mais desenvolvidos, as contradições eram agudas, mas a classe dominante era suficientemente poderosa. Já no restante do mundo, onde se mesclavam diferentes modos de produção, onde o capitalismo se introduzira principalmente sob a forma de exploração imperialista, a classe dominante era incapaz de manter sob controle as agudas contradições, a revolução podia triunfar e se criavam as condições para uma transição socialista, isto tudo em sociedades onde o capitalismo muitas vezes estava apenas iniciando seu desenvolvimento. Lênin, principal dirigente da Revolução Russa, se deu conta dos desdobramentos práticos e teóricos desta situação. A leitura dos textos escritos ou ditados por ele, entre 1918 e 1923, mostra uma intensa reflexão acerca do que seria o comunismo, a transição socialista e a sociedade realmente existente na União Soviética. A morte prematura de Lênin (1924), aos 54 anos, nos impediu de saber como evoluiria seu pensamento a respeito. Mas as diferentes tradições do movimento comunista prosseguiram este debate, que no fundo diz respeito a compreender o socialismo não apenas como transição do capitalismo ao comunismo, mas também como transição de situações pré-capitalistas ao comunismo. Ao contrário da concepção popular na primeira fase da socialdemocracia, a saber, de que a transição socialista seria relativamente rápida, a ditadura revolucionária seria principalmente democrática e as condições mundiais seriam predominantemente pacíficas, foi crescendo o número de adeptos de outro tipo de concepção. A transição socialista só seria pacífica, se ocorresse em primeiro lugar nos países imperialistas, que são os grandes responsáveis pelas guerras. Como a transição socialista realmente existente começou pelos países violentados pelo imperialismo, ela tem que enfrentar o tempo todo a ameaça da guerra, o que impacta as condições materiais, políticas e culturais do socialismo. A ditadura revolucionária seria principalmente democrática, se ela tivesse que enfrentar apenas a antiga classe dominante. Como a transição socialista realmente existente começou em países tremendamente heterogêneos do ponto de vista social, a ditadura revolucionária teve que enfrentar não apenas a antiga classe dominante, mas também setores importantes das classes dominadas e exploradas, que por variados motivos também resistiam às medidas de natureza socialista.  A transição socialista seria relativamente rápida, se o capitalismo já tivesse desenvolvido ao máximo as forças produtivas, tornando possível socializar a propriedade de meios de produção já prévia e extremamente avançados. Como a transição socialista realmente existente começou em países onde as forças produtivas estavam pouco desenvolvidas, caberia ao socialismo enfatizar o desenvolvimento das forças produtivas, criando assim as condições materiais para a transição avançar em direção ao comunismo. Exatamente nisto reside o principal quiproquó teórico e prático acerca do socialismo com características chinesas. Nos anos 1940, Mao Zedong formulou a ideia da Nova Democracia, nome dado para a estratégia e para o programa do Partido Comunista da China. Em resumo se constatava que a China era uma sociedade semifeudal e semicolonial, onde deveria ocorrer uma revolução similar a Francesa de 1789. Mas nas condições históricas do século XX, era impossível fazer uma revolução de tipo “francês” (ou seja, democrático-burguesa) na China. Isto por dois motivos fundamentais: a burguesia chinesa era incapaz de conduzir uma revolução e o imperialismo não aceitaria um concorrente capitalista do porte da China. Portanto e paradoxalmente, só a aliança camponesa-operária dirigida pelos comunistas seria capaz de fazer uma revolução anticolonial e antifeudal na China. A resultante desta revolução seria uma sociedade “democrática”, mas um “novo tipo” de democracia, já orientado em direção ao socialismo. A linguagem utilizada por Mao Zedong era cuidadosa, marcada pelos preconceitos e fórmulas do movimento comunista da década de 1930, mas a ideia central estava ali: só debaixo de uma hegemonia socialista a China seria capaz de concluir o desenvolvimento das forças produtivas que, em tese, caberia ao capitalismo desenvolver. Para os apreciadores de ficção científica, um caso clássico: vem do futuro a força capaz de criar as condições para que o futuro possa um dia vir a existir. Os problemas em alguma medida imprevistos na fórmula da Nova Democracia eram os seguintes: algumas das forças revolucionárias necessárias para a vitória da revolução tinham pressa, queriam mudanças rápidas, não aceitariam a manutenção do capitalismo, mesmo que sob hegemonia socialista. E, por outro lado, a classe dominante derrubada e o imperialismo não tratariam com mais brandura a revolução chinesa, apenas porque esta aceitava a manutenção, por bastante tempo, de um setor capitalista. Em consequência destes e de outros problemas, entre 1949 e 1978 a República Popular da China viveu um ziguezague: as vezes predominava a linha do desenvolvimento de longo prazo, as vezes predominava a “pressa”. Mas como a “pressa” não conseguia superar o atraso, a formulação teórica dos que defendiam acelerar a transição socialista foi colocando em primeiro plano as questões ideológicas, políticas e culturais; e colocando em último plano os temas do desenvolvimento das forças produtivas, que eram muitas vezes estigmatizados sob o nome “caminho capitalista”. O ponto máximo desta teorização se deu quando, durante a Grande Revolução Cultural Proletária (1966-1976), se difundiu a tese segundo a qual o socialismo e o comunismo poderiam ser compatíveis com um estado de pobreza material. Em 1978, na terceira sessão plenária do XI Comitê Central, o ziguezague terminou. Desde então e até hoje, se reafirmou a ideia de que a “construção econômica”, o desenvolvimento das forças produtivas, é a tarefa principal da transição socialista na China. Nestes termos gerais, esta ideia não difere do ponto de vista dos soviéticos, que também enfatizavam a necessidade do desenvolvimento da produção, da ciência e da tecnologia. A diferença essencial reside no seguinte: os comunistas chineses defendem a necessidade da “reforma e abertura”, o que na prática significa combinar planejamento, diferentes formas de propriedade e relações mercantis, tudo sob controle do Partido Comunista e da ditadura do proletariado. Embora a doutrina soviética admitisse algum tipo de papel para as relações mercantis, o peso que os comunistas chineses deram ao mercado era qualitativamente distinto. Outra novidade foi a de que os chineses não consideravam sua fórmula a única possível.  No passado, o mais provável é que eles e outros fizessem exatamente isso: diriam que sua experiência era o “modelo” e que as demais experiências eram desvios ou traições em relação ao “verdadeiro socialismo”. Agora, pelo contrário, apresentavam sua fórmula como “socialismo com características chinesas”.  E embora isso possa refletir um saudável e legítimo sentimento de nacional, também é visto pelos comunistas chineses como uma conclusão derivada da melhor tradição marxista, que implica em buscar a verdade nos fatos. Ou, como diria um conhecido marxista russo: a essência do marxismo está na análise concreta da situação concreta. 
JABBOUR, E. M. K. Projeto nacional, desenvolvimento e socialismo de Mercado na China de hoje. 2010. Tese (Doutorado em Geografia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
POMAR, W. O enigma chinês. 2. ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2015.
XIAOPING, D. Obras escogidas de Deng Xiaoping, volume III. Ediciones em lenguas extranjeras, 1994. 

Corrupção
“Servir ao povo” é  um dos principais lemas do Partido Comunista da China. Esta ideia se contrapõe, desde o princípio, a postura da antiga classe dominante chinesa, bem como a postura da burguesia chinesa existente antes da vitória da Revolução (1949). Tanto os senhores feudais quanto os primeiros capitalistas chineses se caracterizavam por explorar de forma brutal os camponeses e os trabalhadores urbanos. A exploração era agravada pela presença do imperialismo, que chegou a colocar em questão a sobrevivência mesmo da nação chinesa. Nesta época pré-revolucionária, o Estado assumiu diferentes formas, mas uma de suas principais características era o alto nível de corrupção, que se traduzia por exemplo na desigualdade no padrão de vida do chinês médio e dos funcionários do Estado. Em contraposição a isto, os comunistas chineses sempre destacaram a austeridade e a honestidade como características essenciais. Durante o período das quatro guerras revolucionárias (contra os senhores feudais, contra o Kuomitang, contra os japoneses e novamente contra o Kuomitang), as condições difíceis da luta tornavam quase impossível um desvio significativo em relação a austeridade e a honestidade. Isso se alterou significativamente depois de 1949. Afinal, as facilidades derivadas do controle do poder tornaram possível que alguns segmentos do Partido e do aparato de Estado tivessem acesso a condições de vida diferentes e superiores aos da maioria do povo. A questão já se fizera visível na União Soviética, sob os nomes de “burocratização” e “nomenclatura”.  Na China, a luta contra a corrupção foi um dos temas destacados pela Grande Revolução Cultural Proletária. Mas é preciso lembrar que as condições de vida na China até 1978 eram muito simples, a desigualdade geral muito pequena, a vigilância social muito forte e, portanto, as chances de corrupção eram relativamente reduzidas. Tudo isso muda a partir da adoção da política de “reforma e abertura” (1978). O desenvolvimento econômico, a ampliação da riqueza social, o estímulo ao enriquecimento, o afrouxamento dos controles sociais, tudo isso cria um ambiente que torna possível a expansão da corrupção. Uma prova disso é que, no balanço que faz dos “incidentes de 1989”, Deng Xiaoping aponta que a insatisfação com a corrupção era um dos principais motivos das manifestações estudantis. Apesar das medidas de vigilância e repressão estatal e partidária contra a corrupção, o fenômeno seguiu crescendo. Um dos principais motivos disso é o que podemos chamar de promiscuidade estrutural entre os dirigentes do Estado e os dirigentes das empresas privadas. A burguesia chinesa anterior a revolução foi expropriada. A burguesia atualmente existente na China foi criada a partir da decisão política do Partido e do estímulo do Estado. Boa parte dos novos burgueses são militantes do Partido encarregados da tarefa de criar empresas, seja por terem sido admitidos no Partido, especialmente depois que – no período Jiang Zemin – se adotou a política das “três representações”. Na prática, coexistem no aparato de Estado e do Partido pessoas com vínculos diretos e indiretos com o empresariado e, portanto, muitas decisões adotadas são estruturalmente permeadas por interesses privados. Outro motivo que explica o crescimento da corrupção é o ambiente geral de afluência, que estimula e em certa medida naturaliza comportamentos que permitem o enriquecimento rápido, entre os quais a corrupção. A posição oficial do Partido Comunista frente a isto é peremptória: a corrupção é uma ameaça que pode colocar em questão a legitimidade do Partido, que depende essencialmente da postura de “servir ao povo”. Embora esta seja a posição oficial, o combate a corrupção oscilou ao longo das últimas décadas. Esta oscilação pode ser medida pelos relatórios do Comitê Central aos Congressos do PCCh. Nesses relatórios, há sempre uma seção específica destinada a informar quantas pessoas foram presas, condenadas, expulsas por motivos vários, entre os quais a corrupção. Os dados são públicos e os casos de corrupção são noticiados amplamente. Entretanto, com a chegada de Xi Jinping aos cargos máximos do Partido e do Estado, o combate à corrupção ganhou outra escala. Por um lado, isso revela a extensão crescente do problema. Por outro lado, confirma que o Partido Comunista tem consciência de que se trata de uma batalha existencial. Neste sentido, com Xi Jinping o combate à corrupção – no Partido, no Estado e na sociedade – ganhou uma dimensão qualitativamente nova.
DENG, X. Obras escogidas de Deng Xiaoping, volume III. Beijing: Ediciones em lenguas extranjeras, 1994. 
XI, J. A governança da China. Volume I. Rio de Janeiro: Contraponto, 2019.
POMAR, W. O enigma chinês. 2. ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2015.

Diplomacia do Ping-Pong
A política de “reforma e abertura”, adotada em 1978 pela terceira sessão plenária do XI Comitê Central, foi precedida por alguns eventos decisivos. Um deles foi a morte de Mao Zedong (1976), que desde 1934 fora o principal dirigente do Partido Comunista da China. Isso abriu caminho para Deng Xiaping assumir lugar central no núcleo dirigente do Partido. Outro foi o esgotamento da Grande Revolução Cultural Proletária, que por seus efeitos positivos e negativos abriu caminho para a política de “reforma e abertura”. Um terceiro evento decisivo foi a negociação direta entre Nixon e Mao, ocorrida em 1972. Em si mesma, esta negociação foi um episódio paradoxal, uma vez que no imaginário da época Nixon era o anticomunista perfeito e Mao o revolucionário comunista por excelência. Quanto às consequências, a negociação entre Nixon e Mao também teve implicações paradoxais, uma vez que abriu caminho para a polarização EUA versus China, características do primeiro quartel do século XX. Quanto à forma, a negociação seguiu um enredo saboroso, que pode ser conhecido lendo os relatos detalhados das conversações entre Nixon e Mao em 1972, mas também das conversações preliminares e secretas entre Kissinger e Zhou Enlai em 1971. O conjunto da obra foi denominada de “diplomacia do ping-pong”, em função da importância atribuída a um episódio singular: depois de um campeonato de tênis de mesa, realizado em 1971 no Japão, os atletas estadunidenses foram convidados a visitar a China, rompendo um isolamento que vinha desde 1949. Os dois atletas mais destacados na ocasião foram Glenn Cowan e Zhuang Zedong. Os detalhes a respeito do episódio, inclusive fotos, estão disponíveis em livros e nas redes sociais.
GRIFFIN, Nicholas. Ping-Pong Diplomacy: The Secret History Behind the Game That Changed the World.  New York, NY: Scribner, 2015
KISSINGER, Henry. Sobre a China. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011
POMAR, W. O enigma chinês. 2. ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2015.

Deng Xiaoping
Deng Xiaoping nasceu no dia 22 de agosto de 1904 e morreu no dia 19 de fevereiro de 1997. Nas suas Obras Escolhidas, Deng afirma que se incorporou às fileiras da revolução quando tinha 18 anos de idade. Em 1927, assumiu tarefas executivas no Comitê Central do Partido Comunista. Em 1929, passou a assumir tarefas militares. No início dos anos 1930, sofreu sanções, acusado de fazer parte da fração dirigida por Mao Zedong. Mas no curso da Longa Marcha, Mao é eleito o principal dirigente do Comitê Central do Partido Comunista da China. Em 1 de outubro de 1949, quando Mao anuncia a fundação da República Popular da China, Deng estará presente no pavilhão central da Praça da Paz Celestial. Em 1956, Deng assume a secretaria geral do Partido Comunista; na época, é um dos principais dirigentes, ao lado de Mao Zedong, Zhou Enlai, Liu Shaoqi e Zhu De. Durante a Grande Revolução Cultural Proletária, é novamente rebaixado e mandado para trabalhar em uma oficina mecânica. Com o declínio da Revolução Cultural, é chamado de volta ao comando do Estado e do Partido. Em 1974 é Deng Xiaoping quem discursa, em nome da China, na Assembleia Geral das Nações Unidas, quando a República Popular assume a posição que até então vinha sendo absurdamente ocupada pelo governo de Chiang Kai-shek. Em 1976, depois da morte de Zhou Enlai, acontecem manifestações populares em várias cidades chinesas. Deng é acusado de estar por detrás destas manifestações e é novamente afastado de suas posições no Partido e no Estado. Mas logo a seguir morre Mao Zedong e, na sequência, são presos os quatro principais dirigentes da Grande Revolução Cultural Proletária. Mais adiante o Comitê Central do PCCh convoca novamente Deng, que a partir daí se converte no principal dirigente do Partido até sua aposentadoria. Nesse período, ele nunca assumiu o cargo de secretário-geral ou de presidente do Partido. Mas foi, até 1987, membro da comissão permanente do politburo do Comitê Central, presidente da Comissão Central de Assessoramento, presidente da Comissão Militar do Partido e presidente da Comissão Militar da República. A partir dessas posições, Deng jogaria papel decisivo na formulação das resoluções da terceira sessão plenária do XI Comitê Central (dezembro de 1978). Durante este período, houve intensa luta de tendências no interior do Partido Comunista e na sociedade chinesa. Também ocorreram importantes mudanças no cenário internacional, entre as quais destaca-se o fim da União Soviética. Neste contexto, as posições assumidas por Deng enfrentaram sempre forte oposição, tanto de direita quanto de esquerda. Um sinal da intensidade da luta interna foi a destituição, entre 1977 e 1989, de três secretários-gerais: Hua Guofeng, Hu Yaobang e Zhao Ziyang, os dois últimos apoiados originalmente por Deng e depois criticados por terem posições que ele considerava “liberais”. Como presidente da Comissão Militar, Deng jogará papel central na decisão de reprimir os manifestantes reunidos, em 1989, na Praça da Paz Celestial. Pouco depois da repressão, no dia 4 de setembro de 1989, Deng envia uma carta ao politburo do PCCh, pedindo para se demitir da presidência da Comissão Militar do Partido. Noutra carta, dirigida a Assembleia Popular Nacional, Deng pede também para ser substituído na Comissão Militar da República Popular. Esses pedidos vinham sendo feitos desde muito antes, uma vez que Deng era contrário a vitaliciedade, que fazia com que os dirigentes morressem de complicações decorrentes da velhice, quando ainda estavam nos seus cargos no Partido e no Estado. Mesmo afastado de qualquer cargo formal, Deng se manterá politicamente ativo até o início da década de 1990, tendo jogado um papel importante para consolidar Jiang Zemin como secretário geral e núcleo da terceira geração de dirigentes do PCCh. A leitura das Obras Escolhidas de Deng, em três volumes, em particular a leitura da entrevista que Deng concedeu à jornalista italiana Oriana Fallaci, mostra que ele tinha razão ao se apresentar como revolucionário, comunista e marxista, um marxista que buscava a verdade nos fatos e um comunista defensor da “linha de massas”. Entre as muitas passagens de sua obra, citamos uma relacionada ao papel atual da China. Trata-se de uma transcrição do que Deng disse, no dia 26 de abril de 1987, ao então primeiro-ministro da Checoeslováquia: “Nos propomos a quadruplicar, nos vinte anos que vão de 1981 a finais do século XX, o produto nacional bruto, alcançando assim uma vida modestamente acomodada, o que significa que o ingresso per capita ascenderá aos 800 ou 1 mil dólares. Sobre esta base, em outros 50 anos realizaremos outra quadruplicação, fazendo ascender o produto nacional bruto per capita a 4 mil dólares. Que significa isto? Significa, em outras palavras, que em meados do próximo século poderemos alcançar o nível dos países de desenvolvimento intermediário. Se alcançamos este objetivo, isto quererá dizer, primeiro, que teremos realizado uma tarefa muito árdua e muito difícil; segundo, que teremos feito realmente uma contribuição à humanidade; e, terceiro, que teremos posto em maior evidência a superioridade do sistema socialista. Como aplicamos o sistema de distribuição socialista, os 4 mil dólares per capita que alcançaremos terão um valor distinto que teria a mesma cifra em um país capitalista. Sobretudo no caso da China, que tem uma população enorme, se naquele momento nosso ingresso per capita ascende a 4 mil dólares, em condições de aumento da sua população a 1 bilhão e 500 milhões de habitantes, seu produto nacional bruto somaria 6 trilhões de dólares, o que situaria a China entre os primeiros países do mundo. Isso não apenas abriria um caminho para o Terceiro Mundo, cuja população representa três quartas partes da população mundial, mas também, e isto é o mais importante, sinalizaria para a humanidade que o socialismo é o caminho certo e que é superior ao capitalismo.”
POMAR, W. O enigma chinês. 2. ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2015.
XIAOPING, D. Obras escogidas de Deng Xiaoping, volume III. Beijing: Ediciones em lenguas extranjeras, 1994. 
XIAOPING, D. Textos escogidos de Deng Xiaoping, tomo II. México D.F.: Ediciones em lenguas extranjeras, 2013. 
XIAOPING, D. Textos escogidos de Deng Xiaoping, tomo I. México D.F.: Ediciones em lenguas extranjeras, 2013.