sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Segunda parte da entrevista ao Página 13


Esta é a segunda parte da entrevista que concedi ao Página 13. Será publicada no início de março, juntamente com a primeira parte, que já foi divulgada.


O Brasil conta com uma grande população de jovens. Parte importante desta juventude viveu apenas os governos do PT no país. Quais são os desafios do Partido em relação ao diálogo com as lutas destas novas gerações, em sua maioria trabalhadora?

Para responder estas questões, eu sinto necessidade de distinguir, pelo menos para fins didáticos, o que é desafio estritamente do PT, daquilo que é desafio digamos nacional, do Brasil. Como se dizia antigamente, o PT tem o desafio de conquistar os corações e mentes das novas gerações. Claro que parcelas da juventude vão se manter apolíticas, assim como outras parcelas vão adotar posições de centro-direita. Mas o PT pode conquistar a maior parte da juventude, que é filha da classe trabalhadora. Hoje, em termos relativos está ocorrendo o contrário: estamos perdendo espaço, para a direita e para a despolitização. O desafio de conquistar a juventude para o PT não é única, nem exclusivamente um desafio da juventude petista. É um desafio de todo o PT, que precisa fazer duas ações articuladas, de natureza político-cultural e ideológica. Uma ação é reafirmar nossa dimensão de movimento político-social, com presença na batalha cultural de comunicação e educacional. Não podemos aceitar como irreversível nossa conversão em um partido tradicional, convencional, eleitoral, meramente institucional. A outra ação é reafirmar nosso compromisso com o socialismo, com o anticapitalismo, com a construção de outro mundo. As duas ações, combinadas, tornarão o PT um partido amigável para a juventude de esquerda e evitarão a proliferação desta praga que é o jovem-burocrata, o jovem-velho, que copia desde novinho as práticas dominantes na política brasileira. Isto que falei até agora diz respeito aos desafios do PT para consigo mesmo. Mas o PT tem desafios mais amplos, que dizem respeito à implantação de políticas públicas que garantam bem-estar social e futuro para a população jovem que existe no Brasil. Trata-se de ter políticas públicas que formem gerações com alto compromisso social e com alto nível educacional, técnico, tecnológico, produtivo. Lembrando que o futuro visível precisa ser de jornadas menores de trabalho e com entrada mais tardia no processo produtivo. Infelizmente, por conta do massacre de jovens das periferias, tantas vezes por obra das PMs, é preciso lembrar que entre as políticas públicas para a juventude, está a garantia do direito a vida, além das oportunidades de trabalho, estudo, cultura e lazer.

Sobre juventude, no PED deste ano teremos, no mínimo, 20% de jovens e 20% de negros e/ou indígenas nas chapas. Qual a importância de se garantir este percentual?

O primeiro a reconhecer é por quais motivos fomos obrigados a estabelecer estas cotas, assim como as cotas de gênero, nos espaços de decisão. A verdade é que, se não existirem regras que garantam a pluralidade, nossos diretórios serão compostos basicamente por homens brancos de meia-idade para cima. Tem quem critique este tipo de cota, por considerar que a política vem em primeiro lugar, na hora de compor as direções, e que há o risco das cotas serem preenchidas de maneira burocrática, formal. Este risco existe, mas também é verdade que, na ausência das cotas, entre duas pessoas com as mesmas posições políticas, muitas vezes se priorizava os homens brancos de meia-idade... Portanto, vejo as cotas como positivas, sempre lembrando que elas só vão servir ao nosso projeto se houver um amplo esforço de ampliar a presença, no Partido, de indígenas, de negros, de jovens e de mulheres. E não apenas ampliar a presença, mas qualificar por meio da formação política e do exercício de atividades dirigentes. Embora, cá entre nós, esta necessidade de qualificação também se aplique aos tais homens brancos e de meia idade.

Este ano também será o primeiro PED com a regra de paridade entre homens e mulheres. O que isto muda no processo de eleições diretas?

É como eu disse antes, a exigência de cotas aproxima o Partido da realidade social que temos e da realidade política que queremos. Se as mulheres são em torno da metade da população, elas deveriam constituir a metade do Congresso Nacional e dos demais postos eletivos do Brasil, e do mundo, certo? E se o PT defende isto para a sociedade, nada melhor que darmos o exemplo em casa. Claro que isto criará dificuldades para algumas chapas, especialmente naquelas cidades ou estados nos quais o percentual de mulheres filiadas é relativamente baixo; e onde o machismo imperante reprime a presença mais ativa das mulheres na política. A aprovação da paridade é uma conquista das mulheres e sua implementação é um desafios de todos nós. Mas isto, como diria um grande filósofo campineiro, faz parte.

A presidente Dilma sancionou a Lei de Cotas nas Universidades Públicas Federais. Qual é a sua opinião a respeito das cotas universitárias?

É a mesma opinião que tenho a respeito das cotas em geral. Sem políticas afirmativas, a desiguldade sobreviverá eternamente. Claro que as políticas afirmativas, assim como as chamadas políticas compensatórias, não podem ser para sempre, pois isto significaria que a desigualdade prossegue. Mas na situação em que estamos no Brasil, ou adotávamos cotas ou as universidades públicas federais continuariam reproduzindo a exclusão. E um projeto democrático-popular para o Brasil precisa se apoiar em uma geração universitária proveniente principalmente dos setores excluídos.

Ainda sobre educação, tramita no Congresso Medida Provisória que trata da destinação dos 100% dos royalties de petróleo para educação. Voce é favorável a isto? No que esta medida favorece e muda a educação pública?

Eu sou favorável. Em minha opinião, se não revolucionarmos a cultura, a comunicação e a educação, vamos dar com os burros nágua, como país,  como esquerda e como partido. Veja, não sou adepto daquele discurso segundo o qual é a educação que muda tudo blá blá blá. O que muda é a luta política, é a consciência organizada e mobilizada. A questão é que para termos dezenas de milhões conscientes, organizados e mobilizados, é preciso mudar completamente o funcionamento da educação pública, da comunicação social e da indústria cultural. E isso exige dinheiro, investimento público maciço. Mas este investimento deve servir para implantar outro projeto pedagógico, outro projeto educacional. E, é bom lembrar, projeto educacional de massas que não envolva a cultura e a comunicação não é de massas. Claro que há setores na direita e mesmo na esquerda que não tem muito interesse em debater a questão deste ponto de vista. Taí o PNE ainda pendente de aprovação para confirmar isto que digo.

Qual é o grande diferencial do PT perante os demais partidos de esquerda no Brasil?

Bom, esta pergunta é uma pegadinha clássica, pois é óbvio que como filiado desde 1985 e como dirigente nacional do PT desde 1997, eu só posso responder coisa boa acerca do Partido. Mas antes de falar da parte boa, deixa eu insistir em algo que já disse na primeira parte desta entrevista. O PT não pode viver do seu passado glorioso, nem dos êxitos do presente. Nossa sobrevivência, nossa utilidade para a classe trabalhadora brasileira, depende de sermos capazes de articular a solução dos problemas do presente, com a construção de um futuro diferente. E não está garantido que consigamos fazer isto. É uma luta cotidiana contra os hábitos e costumes da política tradicional, contra a influência da direita e do grande capital, contra a acomodação e a adaptação que afeta cada um de nós. Isto posto, eu acho que o grande diferencial do PT está em termos conseguido construir e manter um partido de esquerda, popular, de massas, com forte raiz entre os trabalhadores e trabalhadoras. E isto é produto de opções políticas. Fizemos isto nos anos 80, radicalizando, enquanto alguns partidos de esquerda apostaram na conciliação com a transição democrática. Fizemos isto nos anos 90, quando não abrimos mão de ser, ao mesmo tempo, oposição ao neoliberalismo e alternativa de governo. E seguimos fazendo isto depois de 2003, quando não abrimos mão de ser partido e de governar. Claro que, com o passar dos anos, acumulam-se também fatores negativos. Por exemplo, se dependesse de alguns setores, o PT deixaria de existir como Partido e se tornaria apenas governo. Embora, é verdade, também haja setores muito minoritários que gostariam de ver o PT fazendo oposição a seu próprio governo. Outro exemplo: se o PT continuar dependente do financiamento privado empresarial, nossos vínculos com a classe trabalhadora podem se tornar apenas eleitorais: deixaremos de ser o Partido da classe trabalhadora e nos converteremos em partido que busca o voto dos trabalhadores, como fazem outros partidos.

Para além do financiamento público de campanha, que outras medidas devem ser tomadas para uma profunda reforma política?

Bom, se é para ser profunda, precisa ampliar o controle social sobre o Estado. Exige estabelecer o primado de uma pessoa, um voto, que hoje é amplamente desrespeitado na composição do Congresso Nacional. Exige acabar com o Senado ou pelo menos eliminar seu poder revisor e legislador sobre temas não federativos, além de reduzir mandatos para quatro anos e eliminar a figura do suplente. Uma reforma política profunda exige, ainda, formalizar mecanismos de participação popular, consulta popular e controle social sobre o Executivo, em seus três níveis. Exige, também, democratizar o judiciário, o único dos três poderes poderes que não se submete nem ao sufrágio popular nem a mecanismos de controle social. Do ponto de vista mais eleitoral, reforma política para valer implica em financiamento público exclusivo para campanhas eleitorais, criminalizar o financiamento privado empresarial, adotar o voto em lista fechada e a paridade na composição das listas, assim como o fim das coligações proporcionais. Salvo engano, acho que estas posições coincidem, ao menos em grande parte, com o que o PT já deliberou a respeito.

Em sua opinião, uma Constituinte exclusiva para fazer a reforma política é viável?

Não sei se é viável, mas certamente é indispensável. O atual Congresso nunca fará uma reforma política profunda, pelo simples motivo de que uma reforma deste tipo afeta as bases de poder de quem hoje é maioria no Congresso. Por donos, refiro-me não apenas aos parlamentares ideologicamente de centro-direita, que são maioria no Congresso, mas principalmente aos que pagam as contas das campanhas deles. Por outro lado, uma reforma política não pode ser feita por gente que logo em seguida vai disputar eleições com base nas regras que acabou de elaborar. Por isto tem que ser Constituinte exclusiva. Agora, se olharmos o tema de um ponto de vista mais amplo, podemos dizer o seguinte: a construção de um Brasil democrático-popular exige uma profunda mudança nas instituições e um bom e conhecido jeito de fazer isto é através de uma Assembléia Constituinte. Venezuela, Equador e Bolívia tiveram as suas, e mesmo no Chile de hoje já há quem fale da necessidade de uma. Agora, será viável? Aí se trata de um problema de correlação de forças, que pelo menos hoje não está pra peixe. Mas na vida e na história tem tanta coisa que parecia inviável e que se tornou viável, não é verdade?

Falando em correlação, vamos aos aliados. Dos partidos de esquerda que estão na base do governo (PCdoB, PDT e PSB), dois - o PSB e o PDT - têm se distanciado ou por vezes adotado uma postura independente. Existe risco destes dois partidos não estarem conosco em 2014?

Claro que existe. Aliás, acho que só estivemos coligados ao mesmo tempo com os três partidos citados, no primeiro turno das eleições de 1994 e 2010. Isto posto, acho que devemos trabalhar para que eles estejam conosco no primeiro ou no segundo turno de 2014. E acho que devemos construir uma aliança mais orgânica entre os partidos da esquerda brasileira, algo meio parecido com o que é a Frente Ampla do Uruguai. Mas o tempo conspira contra esta possibilidade. Voce não pode pedir ao PT que abra mão de sua hegemonia. E tampouco pode pedir aos aliados que abram mão de seu direito de buscar tornar-se hegemônicos. Por outro lado, no mundo real a burguesia opera, a direita opera, e neste momento o PSB está sendo seduzido para lançar candidatura presidencial. E há setores do PSB decididos a fazer isto. Pessoalmente, a preços de hoje, eu diria que Eduardo Campos é candidato presidencial. Se será candidato em outubro de 2014 é outra história.

Que partidos avalia que deveriam ser prioritários no nosso arco de alianças?

Na prática, estamos condenados a tentar repetir em 2014 a aliança PT-PMDB, com os demais partidos da atual base do governo. Agora, o tema é que esta aliança e este tipo de governabilidade está esgotada e tornou-se um perigo – pensem no que significa ter Temer como vice, Eduardo Alves à frente da Câmara, e, no Senado, Renam presidindo, para citar só estes três. Nossa preocupação, hoje, é tripla. Por um lado, impedir que esta aliança federal implique em concessões nas campanhas estaduais ou, ao inverso, devemos trabalhar para ampliar a presença do PT nos governos estaduais e senadores eleitos em 2014. Por outro lado, construir as bases de uma governabilidade social, que compense a deterioração crescente da governabilidade institucional, que na minha opinião vai se complicar crescentemente, agora e depois de 2014. E em terceiro lugar, recompor o chamado bloco democrático-popular, entre partidos, movimentos e intelectualidade. Um dos grandes erros cometidos desde 2003 foi confundir e priorizar as alianças táticas com partidos de centro-direita, frente à aliança estratégica com setores político-sociais de esquerda. Este erro, se não for corrigido, terá como consequência lógica abrirmos mão da cabeça de chapa na disputa presidencial de 2018.

Uma questão sobre os tucanos: recentemente o governo do Estado de São Paulo resolveu implantar a internação compulsória de maneira indiscriminada para dependentes químicos. A medida é controversa e gerou muitas críticas, o que acha?

Infelizmente, neste caso tem gente de esquerda que pensa a mesma coisa que o Alckmin. Veja, eu não sou especialista no tema, sou apenas um curioso mais ou menos informado, mas acho que a internação involuntária deve ser a exceção da exceção da exceção. Agora, o que o governo tucano está fazendo é internação compulsória, ou seja, está transformando em regra o que deveria ser uma exceção cercada de cuidados médicos e legais. Para mim, a internação compulsória tucana está mais para medida higienista, sendo totalmente ineficaz como terapia. Ou seja: é uma medida que não vai resolver a situação de quem é, por exemplo, dependente extremo do crack. Mas serve como instrumento de luta política, pois o tema das drogas, tanto do consumo quanto do tráfico, se presta a todo tipo de manipulação por parte de um setor da direita.

A grande imprensa repercutiu pouco a reeleição no Equador do Correa e a volta de Chavez à Venezuela, ao mesmo tempo que repercutiu muito a passagem da blogueira cubana Yoani Sánchez pelo Brasil. O que voce pode nos dizer a respeito?

A reeleição do Correa confirmou uma tese: em todos os países que a esquerda ganhou a partir de 1998, ela segue ganhando pelo voto. E os únicos casos em que fomos derrotados, foi através de golpe: Honduras e Paraguai. A volta de Chavez, para além dos aspectos humanos envolvidos, ajudará a confirmar aquela tese: com a presença do presidente venezuelano no país, será mais fácil eleger seu sucessor, Nicolás Maduro. Quanto à blogueira, eu acho ela uma fraude, para a qual não se deveria ter dar muita importância, nem muita atenção. Ela se apresenta como vítima do governo cubano, e tentou posar de vítima da suposta intolerancia da esquerda aqui e noutros países. Minha recomendação a quem acredita nesta lenda, como parece ser o caso do senador Suplicy, é pedir a blogueira que revele sua opinião acerca dos Estados Unidos e acerca do bloqueio. Uma cubana que se preze, seja ou não adepta do governo comunista, não pode silenciar sobre estes assuntos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A fé de Bucci

Sempre que posso, leio as colunas de Eugênio Bucci, jornalista filiado ao PT e colunista de Época e do jornal O Estado de S. Paulo.

Leio porque invariavelmente discordo do que ele escreve (com pelo menos uma exceção importante, o que ele disse acerca do facebook, ao qual tive que me curvar por razões, digamos, profissionais).

Aos que acham estranho, explico: considero um ótimo exercício intelectual polemizar mentalmente com adversários políticos e ideológicos.

Mas não costumo escrever o que penso, mais por falta de oportunidade. Desta vez, contudo, fiquei empolgado com um texto de Eugênio, denominado Para Cuba, com carinho (OESP, 21 de fevereiro).

Como indica o título, o texto de Bucci gira ao redor da blogueira cubana Yoani Sánchez.

Não vou repetir aqui o que penso acerca dela, bem como das manifestações que sua visita gerou -quem estiver interessado, há uma entrevista minha a respeito, no www.pt.org.br


Também não vou polemizar com Bucci acerca de Cuba. Suas críticas ao socialismo cubano são absolutamente convencionais. Prefiro ler Padura!

O que me empolgou desta vez foram duas passagens, que revelam aspectos muito interessantes acerca do pensamento do petista Eugênio Bucci.

A primeira passagem é a seguinte: era esperado que Yoani roubasse a cena em todos os noticiários.

Esperado? Por qual motivo? Por quem? O que afinal justifica o espaço dado, na mídia brasileira, para a blogueira cubana?

Segundo Bucci, isto teria ocorrido porque Yoani é uma dessas pessoas que se tornam símbolo de uma causa. Está para a ditadura cubana, hoje, mais ou menos como Nelson Mandela, guardadas as proporções, esteve para o apartheid na África do Sul, tempos atrás.

Claro: guardadas as proporções, todo anão se transforma em gigante. E o gato de Alice, olhando bem, fica parecido com a Mona Lisa.

Para Bucci, no que mais importa, ela é notícia porque, em sua saga pessoal, se escancara a grande contradição da qual Cuba nunca soube se libertar. Em Yoani vemos o significado final de mais de meio século da tirania da opinião que tomou conta da ilha.

Buenas, eu tenho muita dificuldade de tomar a saga pessoal desta senhora como representativa dos problemas realmente existentes em Cuba e das dificuldades vividas pelo cubano médio, agora e ao longo das últimas décadas.

Convenhamos, o cubano médio não recebe a grana que ela recebe. Aliás, se todo cubano recebesse uma mesada da direita internacional, em troca de falar mal dos problemas existentes em seu país, isto certamente geraria divisas para o Estado cubano que compensariam parte dos problemas causados pelo bloqueio. Seria uma espécie de reparação...

Mas tudo bem: cada um de nós tende a produzir heróis a sua imagem e semelhança. Se Bucci vê Yoani como uma Mandela caribenha, que se há de fazer?

Mas é exatamente aí que aparece a empolgante segunda passagem do texto de Bucci.

Segundo ele: Aí vêm as acusações conhecidas. Ela recebe fortunas do exterior. Colabora com o imperialismo. Mente. Ora, e daí? Mesmo que isso seja absolutamente verdadeiro, não muda nada. Mesmo que ela não passe de uma embusteira, isso por acaso retira dela o direito de viajar para onde bem entender?

Opa, opa, opa. Como não muda nada?

Se Mandela fosse um agente do apartheid, isto não mudaria nada???

Se tudo for absolutamente verdadeiro, se Yoani é mesmo uma mercenária, então a comparação entre ela e Mandela é puro delírio. E o fato dela ter espaço na mídia brasileira estaria mais para conspiração, do que para interesse jornalístico legítimo.

Até porque, convenhamos, ela agora tem o direito de viajar para onde bem entender. Não por uma espécie de indulto, como diz Bucci, mas porque a legislação migratória de Cuba mudou.

Yoani pode mesmo viajar o quanto quiser, pois está muito longe de ser uma pessoa comum: ela tem os recursos financeiros, obtidos já se disse como.

O ponto é: ao admitir que para ele não muda nada alguém mentir, colaborar com o imperialismo, receber fortunas do exterior e ser uma embusteira, Bucci rebaixa sua capacidade analítica à condição de .

E como fé não é minha praia, deixo aos que entendem responder se boa ou má.

Valter Pomar, membro do Diretório Nacional do PT



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sobre entrevista de Lincoln Secco


Claro que é uma entrevista, a saber se foi editada, ou se Lincoln corrigiu algo depois de publicada. Isto posto, alguns breves comentários:

1- O PT é um típico partido social-democrata....

Isto não é verdade.
Pode ser social-democrata, mas típico não é.
Até porque o Brasil não é um país europeu, imperialista etc.
Quanto ao desencantamento ter chegado mais rápido no PT, não vamos confundir o desencantamento de parcelas da esquerda e de setores da base, com o  desencantamento das massas em geral.

2-O PT se considera o grande vitorioso nas ultimas eleições, mas ideologicamente ele foi derrotado. 

Do que ele está falando? De 2010?
Se for isto, poderíamos no máximo dizer que houve uma derrota parcial, no sentido de que ficamos na defensiva durante a campanha (diferente de 2006), com o PSDB e a direita nos pautando durante grande parte da campanha.
O jornal O  Estado de S. Paulo deu destaque para esta resposta de Secco, provavelmente porque a resposta permite entender que o PT sofreu uma derrota moral em 2010, logo a resposta de Secco engata com a tese do PT corrupto etc.

3- A postura de Secco frente ao chamado mensalão

Em 2005, Secco fazia parte de um núcleo do PT que ia as manifestações carregando uma bandeira petista virada de cabeça para baixo, o que em linguagem militar significa dizer algo como nossa fortaleza foi invadida.

Agora ele diz o seguinte: Pessoalmente acho que José Dirceu deveria ser absolvido porque nenhuma Justiça é justa quando é seletiva e condena sem provas. Este sentimento perpassa também a base petista. Já a direção do PT comete um erro grave: ou ela defende os condenados, o que ela dificilmente fará, ou os esquece. .

É divertido: o Dirceu ele defende, e pau na direção do PT.

Claro que a posição da direção do PT é contraditória. Mas há como ser diferente? Porque Secco pode ser contraditório e dizer que Dirceu merece ser absolvido, mas não admite que a direção do PT possa ser contraditória? 

Quando, convenhamos, seria muito mais fácil a Secco ser 100%, pois se trata de uma pessoa (e não de uma instância composta por diferentes posições) e de um intelectual (e não uma direção de um partido)..

4-Duvidoso

Como historiador, Lincoln diz que só pode fazer projeções duvidosas. 

Mas vejamos o que ele diz: Outro cenário seria a renovação geracional rápida das lideranças, o que já vem acontecendo graças ao próprio mensalão. Só que ela teria que vir acompanhada de um acerto de contas decidido com aqueles episódios de 2005, seja assumindo tudo o que foi feito em nome da legitimidade do legado do governo Lula, seja abandonando de vez seus velhos dirigentes e redefinindo-se como agremiação supostamente republicana e de centro.

Veja que curioso: ele admite duas possibilidades. Ou legitimamos o que ocorreu ou viramos republicanos e de centro. Não há terceira hipótese. Não existe a possibilidade de uma autocrítica petista pela esquerda.

Lincoln chega a dizer com todas as letras que o PT não precisa mudar a estratégia, pois ela deu certo até agora

O que obviamente não é verdadeiro: a estratégia esgotou-se. Como aliás o próprio Lincoln dá a entender diversas vezes na própria entrevista.


Para concluir: acho que a interpretação de Lincoln repousa em paradigmas esquerdistas (PT tipicamente social-democrata) e sua conclusão é conformista (as alternativas postas são apenas pela direita). E nenhum esforço intelectual é feito para tirar desdobramento do que é dito, como se fosse algo secundário, ao final da entrevista:as políticas sociais do PT só são "revolucionárias" porque a direita não as incorpora.

Pequeno detalhe: a burguesia.



 

'O PT se considera vitorioso, mas ideologicamente foi derrotado'

Para historiador, oposição conseguiu 'colar a marca da corrupção' na sigla, que pode perder força para o PSB ou virar um PMDB

12 de fevereiro de 2013 | 7h 00
 
 
 
Isadora Peron
Aos 33 anos, completados no último domingo, o PT, que já havia abandonado o discurso socialista, assiste, agora, à subtração do discurso da ética após o julgamento do mensalão, que abateu e condenou seus principais dirigentes políticos. A avaliação é do professor da USP Lincoln Secco, autor de A História do PT (Ateliê Editorial).
Para Secco, o PT não consegue mais transmitir ao eleitor uma mensagem de esperança como em 1989 e em 2002, quando elegeu Luiz Inácio Lula da Silva presidente da República.
"No voto, o PT ainda se manterá forte por alguns anos", afirma o professor, que faz, porém, um alerta: se quiser se manter no poder, o partido terá de se recuperar do desgaste ideológico.
Qual PT completou 33 anos? O que ficou do PT do Colégio Sion?O PT teve o mérito de combinar uma tradição clássica da esquerda com os novos valores de 1968. O restante da esquerda demorou para incorporar efetivamente a defesa das mulheres, negros e homossexuais, por exemplo. O PT aplicou as cotas nas suas direções internas antes de usá-las em seus governos. O que ele abandonou foi o radicalismo verbal dos seus anos primaveris e a aversão às alianças com os partidos fisiológicos.
Isso significa que o PT de antigamente jamais apoiaria a eleição de dois peemedebistas às presidências da Câmara e do Senado? Sem dúvida. Ele faria como o PSOL faz hoje: lançaria um anticandidato.
O PT ainda é um partido de esquerda?Esquerda e direita são conceitos relacionais. Só há dois blocos políticos relevantes no Brasil e, certamente, o PT está mais à esquerda do que o bloco liderado pelo PSDB.
Existe o risco de, como aconteceu na Europa com a saída do poder dos partidos social-democrata, uma direita ainda mais conservadora emergir no Brasil?O PT é um típico partido social-democrata, mas condensou em pouco tempo o processo de moderação que a Social Democracia viveu em um século. O desencantamento chegou mais rápido no PT. No entanto, a extrema direita no Brasil só terá chance de ameaçar o PT se as condições internacionais lhe permitirem atuar fora da legalidade. No voto, o PT ainda se manterá forte por alguns anos.
Acredita que Lula possa voltar a disputar a Presidência em 2014?Lula é um patrimônio do PT e de grande parte da sociedade brasileira. Ele poderia ganhar as eleições, mas só seria candidato se o governo Dilma vivesse uma crise. Como isso não está no horizonte politico, eu creio que ele será o maior cabo eleitoral de Dilma.
Qual o peso de Lula hoje dentro do PT? E o de Dilma?Obviamente o peso de Dilma cresceu por causa de sua condição como presidente. Mas ninguém duvida que a última palavra no PT será sempre de Lula. Depois da vitória de Fernando Haddad em São Paulo ele ganhou ainda mais confiança do partido.
O PT ainda pode empunhar um discurso ético após a condenação de figuras históricas no julgamento do mensalão?O PT se considera o grande vitorioso nas ultimas eleições, mas ideologicamente ele foi derrotado. Em 1989 aconteceu o contrário: o PT teve uma derrota eleitoral, mas uma vitória moral. Isso foi tão importante que mesmo com a queda do Muro de Berlin, a diminuição da base de sindicatos importantes da CUT nos anos seguintes e o esvaziamento militante das ruas, o PT continuou agregando as esperanças de mudancismo. Agora, não mais.
Por quê?Porque o PT não tem mais uma mensagem de esperança como tinha em 1989 e em menor medida em 2002. Ele não projeta o novo, apenas gasta um patrimônio já constituído. O fato de que depois de sete anos o partido ainda esteja na defensiva no caso do mensalão revela que ele tem sido ideologicamente derrotado. A oposição conseguiu colar no PT a marca da corrupção.
Mas a defesa da cúpula do PT contra o julgamento do Supremo Tribunal Federal e essa "marca da corrupção" foram tímidas até agora...Pessoalmente acho que José Dirceu deveria ser absolvido porque nenhuma Justiça é justa quando é seletiva e condena sem provas. Este sentimento perpassa também a base petista. Já a direção do PT comete um erro grave: ou ela defende os condenados, o que ela dificilmente fará, ou os esquece. O que não é possível é silenciar sobre o julgamento e, depois, permitir que José Genoino assuma o mandato. Expulsar Delúbio Soares e admiti-lo novamente. O Estatuto do PT prevê expulsão de condenados com sentença transitada em julgado. Foi uma medida tomada de afogadilho depois dos escândalos de 2005. Mas o PT não vai cumprir este artigo depois que o STF publicar o acórdão. Então por que assumiu esta impropriedade?
O senhor disse certa vez que escândalos como mensalão não iriam prejudicar a história do PT, mas sim o futuro do partido. Por quê?Por mais que o partido se mantenha forte eleitoralmente, no longo prazo ele é julgado como produtor de valores. O discurso socialista o PT já abandonou, o da ética lhe foi tirado. Seus novos eleitores passarão a ter novas exigências, além das demandas sociais que já foram atendidas.
E qual será o futuro do PT?Como historiador eu só posso fazer projeções duvidosas. Se a atual tendência de desgaste ideológico se confirmar, o PT continuará sendo uma agremiação com votos, mas pode perder a liderança, seja para o PSB ou mesmo para a oposição. Ele ficaria cada vez mais parecido com o PMDB. Outro cenário seria a renovação geracional rápida das lideranças, o que já vem acontecendo graças ao próprio mensalão. Só que ela teria que vir acompanhada de um acerto de contas decidido com aqueles episódios de 2005, seja assumindo tudo o que foi feito em nome da legitimidade do legado do governo Lula, seja abandonando de vez seus velhos dirigentes e redefinindo-se como agremiação supostamente republicana e de centro.
O PT comemora este ano também dez anos no poder. Qual a estratégia para não perder a Presidência em 2014? Conquistar a tão falada classe média?O PT não precisa mudar a estratégia, pois ela deu certo até agora. O que acontecia em São Paulo? Ele tinha o voto da periferia, mas no resto do Brasil os mais pobres se dividiam e apoiavam majoritariamente a direita. O modelo paulistano se espraiou pelo País. Hoje, o PT tem forte apoio entre os mais pobres. Não que ele não queira a classe média, mas pode viver sem ela por enquanto. O que ele não pode perder é a nova classe trabalhadora que ele ajudou a integrar no mercado.
O sr. acredita que ascensão de muitos brasileiros à classe média pode prejudicar o PT, especialmente se crise financeira se agravar? Não. O eleitorado do PT foi conquistado por políticas sociais que vão se manter. E o PT sempre tem um plano B: Lula.
Tirar o governo de São Paulo das mãos do PSDB em 2014 é considerado prioridade de Lula. O que isso vai significar para o partido?Será a mais difícil batalha do PT depois da conquista da presidência. Se por um lado há amplo desgaste do PSDB pelo tempo que já tem no governo, o que favorece o PT, por outro não há uma tradição de acomodação do ideário petista com o pensamento dominante no interior paulista, que tem prioridades diferentes das politicas sociais petistas. O PT poderia buscar incorporar valores que agradam a um imenso eleitorado de um mundo corporativo que só existe em São Paulo em grandes dimensões. Mas a cúpula do PT paulista já deu provas de que dificilmente faz isso: ela prefere culpar os eleitores, chamando-os de naturalmente reacionários. E é por isso que Lula ignorou o PT local e impôs Fernando Haddad, um candidato palatável para a classe média.
Por que a oposição está tendo tanta dificuldade em lançar um nome forte à Presidência para 2014?A oposição precisa de duas coisas: um novo nome e um discurso. Se ela insistir no discurso que seus intelectuais tem produzido, continuará agredindo os eleitores que ela precisa conquistar. Ir além da ética seria o caminho, mas ela inverteu os papéis do passado. Quando o PT fazia este discurso ético, elegia bons deputados e perdia eleições para o executivo. Só que o PT tinha também uma história, uma base militante. Enfim, tinha outros discursos possíveis. A oposição ainda não tem. Só que os recursos humanos e materiais com os quais ela pode contar não são nada desprezíveis e não é impossível pavimentar um caminho supostamente moderno, calcado em valores de mercado, mas sem desprezar o que socialmente já foi conquistado pelo PT. A oposição não sabe, mas as políticas sociais do PT só são "revolucionárias" porque a direita não as incorpora. Não há nada de radical em i mesmo no programa Bolsa Família. Ele não ataca o grande capital.


Entrevista concedida ao site do PT


Parte da mídia tem repercutido reportagem de uma revista, na qual se afirma que o PT teria sido convidado a participar de uma reunião na Embaixada de Cuba, onde teria sido distribuído um “dossiê” contra a blogueira e se articulado uma campanha contra a presença da blogueira cubanaYoani Sánchez no Brasil. Isto é verdade? 

Não, não é verdade. O PT não foi convidado, nem participou de nenhuma reunião com este propósito. Aliás, ninguém precisa receber dossiês para saber quem é Yoani Sánchez. Basta ler o que publicou a respeito dela a revista Veja, por um lado, e o site Opera Mundi, por outro lado. Alias, recomendo ler as 40 perguntas de Lamrani Salim para Yoani Sánchez em sua turnê mundial ( http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/27260/40+perguntas+para+yoani+sanchez+em+sua+turne+mundial.shtml). É demolidor. 

De toda forma, a passagem dela pelo Brasil tem provocado vários protestos e a grande mídia insiste em citar o PT, ou militantes petistas, como parte das manifestações contrárias à presença dela em nosso País. Qual a sua posição?

Esta senhora está fazendo uma tourné mundial. O que ela mais deseja é repercussão mídiatica. Acho que ela não tem relevância que justifique fazer atos contra a presença dela. Na minha opinião, não compensa. Até porque alguns desses atos podem acabar ajudando a mídia a apresentá-la como uma frágil vítima de gente que a estaria impedindo de falar. Penso que compensa muito mais insistir que ela responda as tais 40 perguntas que já citei, todas de autoria de Lamrani Salim. Por exemplo: Quem organiza e financia sua turnê mundial? Quem se esconde atrás de seu site desdecuba.net, cujo servidor está hospedado na Alemanha pela empresa Cronos AG Regensburg, registrado sob o nome de Josef Biechele, que hospeda também sites de extrema direita?  Como pôde fazer seu registro de domínio por meio da empresa norte-americana GoDady, já que isto está formalmente proibido pela legislação sobre as sanções econômicas? Por que cerca de seus 50 mil seguidores são na verdade contas fantasmas ou inativas? Voce continua pensando que “havia uma liberdade de imprensa plural e aberta, programas de rádio de toda tendência política” sob a ditadura de Fulgencio Batista entre 1952 e 1958? 

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) tem participado de atividades com a presença da blogueira. Como vê essa participação?

O senador é maior de idade e vacinado, logo penso que ele não corre perigo. Como dirigente petista, acho um erro. E como seu eleitor, é claro que lamento profundamente que ele empreste sua credibilidade para uma pessoa como Yoani Sanchez. Espero, contudo, que Suplicy use suas táticas Columbo e consiga dela as respostas para perguntas tão simples como as que fez Lamrani Salim. Espero, especialmente, que Suplicy pegunte para Yoani se ela condena a imposição de sanções econômicas dos Estados Unidos contra Cuba? Se ela está a favor da extradição de Luis Posada Carriles, exilado cubano e ex-agente da CIA, responsável por mais de uma centena de assassinatos, que reconheceu publicamente seus crimes e que vive livremente em Miami graças à proteção de Washington? Se ela está a favor da devolução da base naval de Guantánamo que os Estados Unidos ocupam? Se ela é favorável à libertação dos cinco presos políticos cubanos presos nos Estados Unidos desde 1998 por se infiltrarem em organizações terroristas do exílio cubano na Florida? Quem sabe Suplicy não consegue dela as respostas para isto. Seria um grande favor que ele prestaria a verdade e, por tabela, a Cuba. Claro que, neste caso, a revista Veja acusaria o PT de ter conspirado contra a presença de Yoani, destacando Suplicy para acompanhá-la. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Estados Unidos e Europa

Estados Unidos e Europa

1.No discurso sobre o Estado da União, Obama anunciou seu apoio a um tratado entre EU e UE, que segundo ele ajudaria a criar empregos nos Estados Unidos. Logo em seguida, as partes anunciaram o início das negociações, de um tratado que em tese abrangeria metade da produção e um terço do comércio mundial. O anúncio foi recebido, pela oposição brasileira, como suposta prova de que nossa política externa estaria totalmente errada, pois ela teria nos afastado dos Estados Unidos e da Europa.

2.O que há por trás do anúncio? Primeiro, as necessidades da política interna tanto dos Estados Unidos, quanto da Europa, que precisam sinalizar medidas que supostamente resultem em crescimento com geração de empregos. Segundo, a disposição de reorganizar as bases da aliança atlântica. Terceiro, o desejo de evitar o deslocamento geopolítico em direção à Ásia. 

3.Noutras palavras: as negociações EUA-UE, em torno deste TLC, devem ser colocadas lado a lado com duas outras iniciativas: o chamado Arco do Pacífico e o TLC Ásia-Pacífico. São medidas que pretendem superar a crise, reafirmar a hegemonia mundial e sobre as Américas por parte dos EUA, assim como impedir o deslocamento do centro mundial em direção à Ásia, sob hegemonia chinesa.

4.Não cabem dúvidas quanto as intenções, mas cabe questionar as chances de sucesso. Em primeiro lugar, um TLC deste tipo teria quais consequências práticas, tendo em vista o nível de comércio já existente entre ambas as regiões? Em segundo lugar, o estado das economias dos EUA e da UE permitem este tipo de sinergia virtuosa? Em terceiro lugar, qual o impacto efetivo que isto terá sobre as demais economias mundiais e em que prazo? Em quarto lugar, quanto tempo será necessário para negociar um tratado deste tipo, supondo que as resistências em ambas regiões seja efetivamente superável? Em quinto lugar, quais os desdobramentos políticos? Em sexto lugar, há algo que pudéssemos ou que possamos fazer a respeito?

5.Sobre as três primeiras questões, sou de opinião que devemos minimizar os efeitos práticos, pelo menos os de curto prazo. Sobre a quarta questão, sou de opinião que as dificuldades são imensas e o tempo longo. Sobre a quinta questão, penso que devemos levar muito a sério a intenção dos EUA no sentido de recuperar a hegemonia e reverter o deslocamento geopolítico. Sobre a sexta questão, a resposta é: a única coisa virtuosa que podíamos e que podemos fazer a respeito é acelerar a velocidade da integração regional e das medidas de proteção das economias latinoamericanas, especialmente a brasileira, pois a alternativa realmente existente era e continua sendo ao estilo da Alca. Portanto, inaceitáveis.

Estados Unidos e Europa



1.No discurso sobre o Estado da União, Obama anunciou seu apoio a um tratado entre EU e UE, que segundo ele ajudaria a criar empregos nos Estados Unidos. Logo em seguida, as partes anunciaram o início das negociações, de um tratado que em tese abrangeria metade da produção e um terço do comércio mundial. O anúncio foi recebido, pela oposição brasileira, como suposta prova de que nossa política externa estaria totalmente errada, pois ela teria nos afastado dos Estados Unidos e da Europa.

2.O que há por trás do anúncio? Primeiro, as necessidades da política interna tanto dos Estados Unidos, quanto da Europa, que precisam sinalizar medidas que supostamente resultem em crescimento com geração de empregos. Segundo, a disposição de reorganizar as bases da aliança atlântica. Terceiro, o desejo de evitar o deslocamento geopolítico em direção à Ásia. 

3.Noutras palavras: as negociações EUA-UE, em torno deste TLC, devem ser colocadas lado a lado com duas outras iniciativas: o chamado Arco do Pacífico e o TLC Ásia-Pacífico. São medidas que pretendem superar a crise, reafirmar a hegemonia mundial e sobre as Américas por parte dos EUA, assim como impedir o deslocamento do centro mundial em direção à Ásia, sob hegemonia chinesa.

4.Não cabem dúvidas quanto as intenções, mas cabe questionar as chances de sucesso. Em primeiro lugar, um TLC deste tipo teria quais consequências práticas, tendo em vista o nível de comércio já existente entre ambas as regiões? Em segundo lugar, o estado das economias dos EUA e da UE permitem este tipo de sinergia virtuosa? Em terceiro lugar, qual o impacto efetivo que isto terá sobre as demais economias mundiais e em que prazo? Em quarto lugar, quanto tempo será necessário para negociar um tratado deste tipo, supondo que as resistências em ambas regiões seja efetivamente superável? Em quinto lugar, quais os desdobramentos políticos? Em sexto lugar, há algo que pudéssemos ou que possamos fazer a respeito?

5.Sobre as três primeiras questões, sou de opinião que devemos minimizar os efeitos práticos, pelo menos os de curto prazo. Sobre a quarta questão, sou de opinião que as dificuldades são imensas e o tempo longo. Sobre a quinta questão, penso que devemos levar muito a sério a intenção dos EUA no sentido de recuperar a hegemonia e reverter o deslocamento geopolítico. Sobre a sexta questão, a resposta é: a única coisa virtuosa que podíamos e que podemos fazer a respeito é acelerar a velocidade da integração regional e das medidas de proteção das economias latinoamericanas, especialmente a brasileira, pois a alternativa realmente existente era e continua sendo ao estilo da Alca. Portanto, inaceitável.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Notas para uma futura resenha


Vale a pena comprar e ler Cypherpunks (Boitempo, 2013), de Julian Assange, Jacob Appelbaum, Andy Muller-Maguhn e Jérémie Zimmermann.

O livro tem três pontos fortes:

1.Desmonta a visão ingênua acerca da internet como o espaço da liberdade

Julian Asssange alerta para a militarização do ciberespaço: Quando nos comunicamos por internet ou telefonia celular, nossas comunicações são interceptadas por organizações militares de inteligência. É como ter um tanque de guerra dentro do quarto. É como ter um soldado embaixo da cama. (p. 53)

Jacob diz ser uma maluquice imaginar que entregamos todos os nossos dados pessoais a estas empresas, e que elas se transformaram basicamente em uma polícia secreta privatizada. E, no caso do Facebook, chegamos a democratizar a vigilância. Em vez de pagar as pessoas, como o Stasi fazia na Alemanha Oriental, nós as recompensamos como uma cultura -agora elas vão para a cama. E divulgam as novidades para os amigos (...) (p. 75)

Andy revela que, na estrutura do banco de dados do Facebook, eles não chamam as pessoas de assinantes, usuários ou qualquer termo do gênero; eles as chamam de alvos... (p. 75)

Julian comenta que a computação em nuvem na prática significa enormes clusters de servidores, montados em uma única localização. (p. 92). 

E nas notas se esclarece que a metáfora nuvem mascara o fato de que todos os dados e metadados dos usuários ficam armazenados em um computador remoto em algum centro de dados, muito provavelmente controlado por uma grande empresa e, portanto, no lugar de o usuário ter o controle total sobre seus dados, alguém detém esse controle. (p. 99)

O livro é bastante esclarecedor sobre o armazenamento em massa dos dados e o caráter de fato público das informações postadas na internet: não importa o grau de publicidade que voce gostaria de atribuir a seus dados, a cada vez que voce clica no botão publicar, dá esses dados primeiro ao Facebook, e em seguida permite o acesso a outros usuários. (p.72)

Esclarecedor, também, acerca de algumas decisões judiciais: segundo um tribunal, na internet, voce não pode ter uma expectativa de privacidade quando voluntariamente revela informações a um terceiro e, a propósito, todo mundo na internet é um terceiro. (p.74)

2.Desmonta a mitologia sobre o caráter democrático dos Estados Unidos

O livro lembra que depois de vencer sua primeira campanha presidencial com uma plataforma de transparência de governo, levou a juízo mais denunciantes sob os termos do Espionage Act do que todas as administrações anteriores juntas.

Julian Assange diz que no Ocidente a coisa é muito mais sofisticada em termos do número de camadas de desonestidade e obscurecimento sobre o que está realmente acontecendo. (p 128)

Especialmente surreal o caso de John Gilmore, que apelou na Suprema Corte contra uma lei secreta, perdeu, tem que cumprir a lei, mas ninguém tem acesso a tal lei, por ser secreta!!!! (p. 140).

3.Confirma a importância da batalha pela internet, incluindo aí a alfabetização digital das classes trabalhadoras.

Julian fala da necessidade de uma população global bastante instruída, deixando claro que não está falando de educação formal. (p. 155)

Isto posto, vamos aos pontos frágeis do livro, ou melhor, do diálogo mantido pelos autores: a economia política e a estratégia política deles é, na melhor das hipóteses, de inspiração anarquista. .

Basta dizer que a alternativa central que eles apresentam é a criptografia, para defender a privacidade contra o Estado totalitário.

Aliás, o debate sobre o público e o privado é feito de maneira confusa, sem que se estabeleça clara distinção entre o privado-individual e o privado-empresarial, entre o Estado-garantidor do público e o Estado-garantidor do privado.

Falei de inspiração anarquista, mas poderia falar também da tradição populista radical presente nos Estados Unidos. É por isto que, numa das passagens mais estranhas do texto, Julian Assange faz uma espécie de elogio ao fato da Constituição dos Estados Unidos conceder aos cidadãos do país o direito de portar armas: as pessoas estão armadas e, caso se irritem o suficiente, simplesmente pegam suas armas e retomam o controle pela força

Embora ele pondere ser necessário refletir se esse tipo de argumento continua válido nos dias de hoje, sua ponderação é devida à evolução dos tipos de armamentos!!! 

O relevante, contudo, está na analogia: ele considera que devemos considerar a criptografia como uma arma que deve ser disponibilizada para todos (p.80)

As reflexões sobre a criptografia são, em algumas passagens, fortemente utópicas: segundo Jacob, a força de praticamente todas as autoridades modernas provém da violência ou da ameaça da violência. É preciso reconhecer que, com a criptografia, nem toda a violência do mundo poderá resolver uma equação matemática.

Julian Assange é mais realista e, por isto mesmo, sua utopia tende à distopia:  a criptografia pode resolver o problema da interceptação em massa que ameaça a civilização do mundo inteiro. (...) Mesmo assim, acredito que estamos lidando com forças econômicas e políticas incrivelmente poderosas, ... e provavelmente o que vai acontecer é que as eficiências naturais das tecnologias de vigilância, ..., nos levarão aos poucos a nos transformar em uma sociedade de vigilância totalitarista global (....) E talvez tenhamos os últimos sobreviventes livres, aqueles que sabem usar a criptografia para se defender dessa vigilância total, e alguns outros (....) neoludistas (página 81)

Já a visão de Jérémie é politicamente frustrante: a idéia é aumentar os custos políticos das más tomadas de decisão (p. 91).

O ponto de partida (a defesa da privacidade contra o Estado totalitarista) repousa numa economia política conservadora. 

Alguns exemplos:

Jacob: talvez queiramos um capitalismo socialmente limitado... (p. 111)

Julian: o mercado precisa ser regulado para ser livre (115)

Andy: voce está dizendo que precisamos de um sistema economico totalmente diferente? Porque nos dias de hoje o valor não émais vinculado ao valor econômico. (....)
Jacob: não estou discutindo se precisamos ou não de um ssitema econômico diferente. Não sou economista (117)

Na falta de uma economia política crítica do capitalismo, não se consegue enfrentar adequadamente o tema central da arquitetura, abordado por Julian: um dos pontos fundamentais que os cypherpunks reconheceram é o fato de a arquitetura efetivamente determinar a situação política, de forma que se tivermos uma arquitetura centralizada, mesmo que as melhores pessoas do mundo estejam no controle dela, essa centralização é um verdadeiro imã de pessoas mal-intencionadas, que usam o poder de maneiras que os designar originais jamais usariam. E é importante saber que a motivação para isso é monetária. (p103)

O momento em que a inspiração anarquista (Proudhon?) fica mais clara é no debate sobre o dinheiro, que para Andy não passa de bits (p. 107)

O debate está nas páginas 108 e 109 e versa sobre dinheiros alternativos (Chaum, Bitcoin). Seu pior momento é a capitulação do próprio Julian, que fala que este dinheiro alternativo pode dar certo quando for adotado pelos provedores de internet e pela indústria de serviços na internet, que então farão um lobby para impedir que ele seja banido (p. 110).

Se falta economia política, falta também uma visão política adequada. 

Exemplo: para Julian Assange, elites nacionais competindo umas com as outras são uma coisa do passado. Hoje elas estão se unindo e se alavancando. (p. 93) Análise que não suporta o que o próprio Julian diz acerca dos conflitos jurisdicionais entre Rússia e EUA, acerca de Visa, Mastercard e Paypal (p.105).

 Outro exemplo: o debate entre Jacob e Julian (pp 96-97) sobre vanguarda: segundo Jacob o movimento peer-to-peer é explicitamente contra tal vanguarda política, enquanto Julian se considera um pouco de vanguarda.

A ausência de uma visão política global, estratégia, talvez explique o desfecho do livro, onde Julian se esforça para falar das potencialidades utópicas, mas ao final parece se render a distopia: as únicas pessoas que serão capazes de manter a liberdade que tínhamos, digamos, vinte anos atrás --porque o Estado de vigilância já eliminou grande parte desta liberdade, nós é que ainda não percebemos isso-- são aquelas que conhecem intimamente o funcionamento do sistema. Então só uma elite high-tech rebelde é que será livre, esses ratos espertos correndo pela ópera. (p. 155-157 -a imagem do rato na ópera remete a algo que Julian viu em Sidney).

Pontos frágeis a parte, o livro é muito interessante.

Mesmo sabendo que as operações do Wikileaks só trouxeram a luz uma pequena fração do contéudo secreto  (p. 146), foram um belo golpe contra a diplomacia secreta, contra os governos secretos, contra a manipulação. Portanto, por este e por outros motivos, Assange e seus colegas merecem toda a solidariedade. E tem coisas muito interessantes a dizer.

E a luta pelo controle da internet efetivamente é parte importante da construção das ferramentas de uma nova democracia.





























































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