domingo, 16 de fevereiro de 2025

Proposta para debate no Diretório Nacional do PT

No dia 17 de fevereiro de 2025 vai ocorrer uma reunião do Diretório Nacional do PT. Esta reunião foi convocada tendo como pauta a votação do regulamento do processo de eleição das direções (PED). Entretanto, por motivos óbvios, a reunião precisa debater a situação política.  Para contribuir com este debate, a tendência petista Articulação de Esquerda apresentará, à reunião, o seguinte projeto de resolução sobre a situação e nossas tarefas, aprovado pela executiva nacional da tendência, em reunião realizada no domingo 16 de fevereiro. 

A guerra comercial desencadeada pelo governo Trump, sua perseguição aos migrantes indocumentados e seu apoio à extrema-direita mundo afora - dos neonazistas alemãs aos segregacionistas sulafricanos, dos sionistas de Israel aos cavernícolas brasileiros - constitui o pano de fundo da atual ofensiva da oposição contra o governo Lula e contra o PT.

Esta ofensiva inclui diversas ações, entre as quais citamos: campanha permanente do capital financeiro em favor de juros altos e cortes de gastos, inflação dos preços, divulgação de fake news, adiamento da aprovação e sequestro do orçamento público em favor do Centrão, implantação inconstitucional de um parlamentarismo de fato, decisões de juízes bolsonaristas em favor de terroristas de extrema-direita, pressão pela concessão de Anistia aos golpistas e ao ex-presidente cavernícola e genocida, além de lobby pela nomeação de ministros de direita para compor o governo Lula.

Até agora, a ofensiva da oposição teve êxito, como ficou demonstrado por diversas pesquisas publicadas nos meses de janeiro e fevereiro. Em certo sentido, é uma situação que recorda aspectos do que vivemos em 2005 e 2015. Se não houver uma rápida reação, a situação pode piorar, por exemplo caso haja ampla adesão às manifestações convocadas pela extrema-direita para o próximo dia 16 de março. 

Há, no PT e no governo Lula, diagnósticos diferentes e às vezes antagônicos acerca do que está ocorrendo. Logo, também há muitas divergências sobre o que fazer. A seguir apresentamos de maneira sintética a nossa opinião.

Primeiro, devemos reconhecer sem tergiversação que a situação é grave e exige medidas imediatas. 

Segundo, devemos propor ao presidente Lula que institua um “conselho de alto nível”, para contribuir com o companheiro na condução política do governo.

Terceiro, é preciso alterar o atual curso da política econômica, garantindo que tenhamos mais e não menos crescimento em 2025-2026, mais e não menos investimentos, mais e não menos políticas sociais, mais e não menos industrialização. Para isso é preciso libertar o Ministério da Fazenda da lógica do "ajuste fiscal permanente", assim como é preciso exigir que a nova direção do Banco Central atue a favor do desenvolvimento do Brasil e não seja cúmplice do setor financeiro.

Quarto, é preciso elaborar e divulgar um conjunto de medidas visando controlar a inflação dos preços politicamente sensíveis, como combustível, gás de cozinha e alimentos. Entre as medidas necessárias, destacamos a ampliação imediata dos recursos para a agricultura familiar, para os estoques reguladores, para as redes populares e cooperativas de distribuição de alimentos, bem como para a reforma agrária.

Quinto, é preciso unificar o governo no enfrentamento da guerra deflagrada pelo presidente dos Estados Unidos, abandonando a postura de minimização, apaziguamento e conciliação publicizadas por diversos ministros e setores empresariais. Como medida simbólica, antecipar para já a exigência de visto para que estadunidenses possam vir ao Brasil. A cúpula dos BRICS e a COP 30 devem ser vistas como batalhas contra a ofensiva imperialista de Trump. Da mesma forma deve ser vista a relação e a regulação das “redes sociais” alinhadas com interesses estrangeiros opostos à nossa soberania nacional e às nossas liberdades democráticas. 

Sexto, é preciso declarar guerra ao “parlamentarismo de fato”, que não pode continuar sendo naturalizado nem tratado como um mal necessário e inevitável. Neste mesmo espírito, a reforma ministerial deve ser concluída de imediato, sendo necessário apontar para a esquerda, não para a direita.

Sétimo, é preciso bombardear no nascedouro a campanha pela Anistia aos golpistas, encabeçada entre outros por Hugo Mota, recém-eleito presidente da Câmara dos Deputados, cabendo a pergunta: os que votaram nele desconheciam esta posição? Seja como for, é necessário fortalecer a denúncia do golpe e pela prisão de Bolsonaro e dos generais golpistas. Coerente com isso, o ministro da Defesa deve ser demitido e no seu lugar deve ser nomeado alguém totalmente comprometido com a democracia, com a submissão dos militares à Constituição e com a punição de todos os golpistas.

Oitavo, é preciso que os atos de Primeiro de Maio de 2025 reúnam milhões de trabalhadores em manifestações cuja convocação deve contar com o apoio oficial do presidente Lula. Nesse mesmo espírito, devemos propor a criação imediata de uma mesa permanente de diálogo com todo o campo democrático e popular, as Frentes, os sindicatos, os movimentos, os partidos, as personalidades comprometidas com as liberdades democráticas, a igualdade e a soberania.

Nono, é preciso derrotar a extrema-direita e os neoliberais nos planos ideológico, político e cultural. Isso passa por medidas práticas no plano da publicidade do governo, passa por implementar o que a Constituição prevê acerca dos meios de comunicação (TV e rádio especialmente). Mas exige, acima de tudo, assumir com todo o vigor a defesa dos valores de esquerda, nas questões da integração regional, da soberania nacional, do bem-estar social, das liberdades democráticas, da industrialização e, ainda, na defesa do socialismo. Só pela esquerda se derrota a direita.

As medidas citadas anteriormente e outras devem ser assumidas como uma mudança de rumo. 

Não basta fazer "mais entregas", não basta "politizar mais as entregas", nem tampouco basta "comunicar mais e melhor". É preciso mudar o rumo. 

Mudar o rumo - especialmente mudar a política econômica, que até então era organizada pela meta de "ampliar o superávit primário" - foi o que ajudou a nos salvar durante a crise de 2005 e, principalmente, nos permitiu construir um segundo mandato Lula melhor que o primeiro. 

Por outro lado, foi a insistência num rumo errado - especialmente no ajuste ortodoxo implementando por Joaquim Levy - que nos derrotou em 2015 e depois, abrindo caminho para o golpe e para o governo de extrema-direita. Hoje, não podemos repetir o erro de 2015. É preciso mudar já os rumos do governo e do Partido. 

Em 2005, um dos motivos pelos quais reagimos positiva e exitosamente foi a renovação na direção do Partido, graças a eleição direta das direções partidárias, ocorrida exatamente naquele ano. Hoje, vinte anos depois, é o que devemos buscar fazer no PED: um processo de grande debate político e intensa mobilização, que mude os rumos do Partido, ajudar a mudar os rumos do governo, contribuindo para mudar os rumos do Brasil.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

DataFolha: vai piorar antes de melhorar



A pesquisa DataFolha recém divulgada confirma a máxima: o que não sobe, desce.

Depois de dois anos se esforçando muito, sem praticamente sair do lugar, começou a queda.

Aqui está:


É reversível? Sim, é.

Até porque irreversível, por enquanto, só a morte.

Mas será muito complicado e trabalhoso.

Reverter a situação exigirá, entre outras coisas, dar “cavalo de pau em transatlântico”. 

Isso, claro, se não quisermos repetir - nas eleições de 2026 - o erro do comandante do Titanic.

O governo tem que mudar. 

O Partido tem que mudar.

E muito rápido.

Um bom começo é ouvirmos um pouco mais quem vinha avisando que chegaríamos neste ponto a que chegamos agora.

E eleger uma nova direção partidária comprometida em fazer a coisa certa para nos salvar da tragédia anunciada.

Detalhe importante: mesmo que amanhã todos concordemos que é preciso mudar a linha política, ainda assim vai se passar algum tempo até que a nova linha gere efeitos positivos.

Ou seja: o mais provável é que as coisas piorem um pouco mais antes de melhorar.

Motivo para começar já! 










quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

PED: sobre o tempo de campanha

Um dia me ensinaram o significado do termo "fogo de barragem".

Serve para encobrir o movimento das tropas.

Me lembrei disto ao ler uma emenda apresentada ao regulamento do PED.

A proposta de regulamento apresentada pela SORG prevê o seguinte:

Art. 9º: A inscrição dos nomes dos(as) candidatos(as) às Presidências e das chapas e suas respectivas teses, deverão ser feita em formulário específico, que deverá ser protocolada na instância municipal ou na instância imediatamente superior: 

Até 23 de março de 2025 em nível nacional; 

Até 13 de abril de 2025 em nível estadual; 

Até 25 de maio de 2025 em nível municipal e zonal.

Mas uma emenda apresentada pela tendência Construindo um Novo Brasil propõe alterar da seguinte maneira as datas:

* Até 14 de abril de 2025 em nível municipal e zonal

* Até 28 de abril de 2025 em nível estadual

* Até 12 de maio de 2025 em nível nacional

A proposta da CNB, para ser aprovada, precisará do apoio de uma maioria qualificada (2/3) do DN, pois a referida proposta altera o estatuto do Partido.

O estatuto diz o seguinte:

Art. 23. Qualquer filiado poderá inscrever-se para o cargo de presidente de  qualquer das instâncias de direção ou, em chapas, para delegado aos Encontros Municipais e Zonais, ou para membro das direções partidárias, dos Conselhos Fiscais, e das Comissões de Ética, desde que cumprido o disposto no § 3º do artigo 169. 

§ 2º A inscrição das chapas e dos nomes para o cargo de presidente deverá ser feita perante a Comissão Executiva do órgão de direção correspondente, observando-se os seguintes prazos: 

a) até 120 (cento e vinte) dias antes do pleito em nível nacional; 

b) até 90 (noventa) dias antes do pleito em nível estadual; 

c) até 60 (sessenta) dias antes do pleito em nível municipal. 

Caso aprovada a proposta da CNB, teremos cerca de 56 dias oficiais de campanha para presidência e chapas nacionais.

Notem que, segundo a proposta da SORG, teríamos 107 dias. O que é menos que os 120 previstos pelo estatuto, mas pelo menos chega perto.

A proposta da CNB atenta contra o espírito do PED, que é um processo organizado principalmente a partir das polêmicas nacionais.

Reduz o tempo de debate, o que obviamente favorece uns em detrimento de outros.

E, claro, ajuda quem está com dificuldades de definir sua candidatura presidencial.

O engraçado é ver essa proposta ser defendida por quem está em campanha para manter o previsto no estatuto, acerca da "eleição direta".

Sou favorável a manter o que o estatuto prevê. Não apenas no caso da eleição direta, mas também no que diz respeito a ordem de inscrição das chapas e candidaturas, permitindo um pouquinho mais de igualdade de condições entre as diferentes posições que existem em nosso Partido.

Em tempos de crise, a solução passa por mais democracia, não menos!


 


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Quem cria estes slogans?


Primeiro foi aquele boné que, como algumas pessoas lembraram, recorda um slogan utilizado na Europa por uns tipos que preferem "gente branca de olhos azuis".

Agora apareceu um card dizendo que o PT seria o "maior, mais longe e original partido de esquerda do mundo ocidental".

Uma frase dessas, dita pela comunicação do próprio Partido, certamente é obra de quem não acredita que "elogio em boca própria é vitupério".

Somos o "maior"? Em números absolutos, talvez. Em número relativos, cabe verificar. Afinal, o número de filiados ao PT, em comparação com o tamanho da população, talvez não seja "maior".

Somos o mais "longevo"? Certamente não. O PCB e o PCdoB existem há mais tempo, nos dois casos não importando a data de partida, se 1922 ou se 1962. 

Somos o "mais original"? Bom, não sei o que o autor da frase quis dizer com o termo "original", então prefiro não opinar. 

Somos do "mundo ocidental"?  A depender do critério, sim. Mas esta referência ao "Ocidente" é mais comum nos setores alinhados com os Estados Unidos e bastante incomum entre os partidos de esquerda.

Só para lembrar, a ARENA - partido da ditadura militar - se considerava "o maior partido do Ocidente". Mais detalhes, aqui:  Viva o novo! Meio século depois, viva a Arena também!, escreve Mario Rosa | Poder360

Claro, alguém pode lembrar que do Partido Comunista Italiano também se dizia ser o maior partido comunista da Europa Ocidental. Mas tendo em vista a "morte estranha" do PCI, acho que dá um certo azar falar disso. Mais detalhes, aqui: Valter Pomar: Sobre "O alfaiate de Ulm"

Seja como for, pelo menos o slogan diz que somos "um partido de esquerda". Comprovando que, exceto certos discos, tudo tem um lado bom.


Por trás e além do "abaixo-assinado em favor do PED"



Está circulando nas redes sociais petistas um abaixo-assinado da campanha Eu quero votar para Presidente(a) do PT! DIRETAS JÁ PED 2025 1 filiado 1 voto.


O abaixo-assinado não traz, que eu tenha visto, a assinatura dos promotores.

O texto de fundamentação do abaixo-assinado traz, entre outras, a seguinte frase: "Porém, desde 2013, não realizamos um Processo de Eleição Direta (PED) verdadeiramente democrático. É hora de retomar nosso legado e respeitar o nosso estatuto".

O PED de 2013, o último que segundo esta leitura teria sido democrático, resultou na eleição de Rui Falcão presidente nacional do PT.

Os dois seguintes - que não teriam sido "verdadeiramente democráticos", sempre na opinião de quem redigiu o abaixo-assinado - resultaram na eleição de Gleisi Hoffmann presidenta do PT.

Outra frase do texto de fundamentação diz assim: "Um processo de eleição híbrido, com delegados e representantes, NÃO atende as necessidades do partido, do momento histórico e não reafirma nosso
compromisso com a radicalização da democracia, além de rasgar o nosso estatuto, que no último Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) em 2015, deliberou sobre a manutenção do Processo de Eleições Diretas (PED)".

De fato, no congresso do PT realizado em 2015 houve uma deliberação, apertada, a favor da manutenção do PED, que vinha sendo questionado devido, entre outros motivos, a grande quantidade de fraudes.

As fraudes persistiram nos processos de 2017 e 2019, com o agravante de que no último PED as denúncias foram simplesmente arquivadas, sem que houvesse pelo menos um julgamento do mérito.

Detalhe adicional: nunca foi implementada a decisão, também aprovada em congresso partidário, de fazer um "PED sobre o PED", ou seja, um processo de votação em que todos os filiados e filiadas votariam se estavam de acordo com a manutenção desse sistema.

Pois, é  bom lembrar, entre 1980 e 2000, o PT adotava outro método de eleição das direções, o método congressual. Nesse método, 1 filiado também tinha 1 voto. Havia, entretanto, duas diferenças em relação ao PED: primeiro, a votação ocorria depois de debates presenciais; segundo, os filiados elegiam delegados, que elegiam as direções.

A vantagem daquele método vintage em relação ao PED adotado desde 2001 é que, ao menos em tese, a votação depois do debate presencial obrigatório e a eleição de delegados fortalecem o espírito coletivo, fortalecem as instâncias; já o método de votação em urna, similar ao que ocorre nas eleições tradicionais, estimula a transformação do militante em filiado-eleitor. Além de reforçar absurdamente o controle da cúpula das tendências sobre o processo. No sistema de PED, ao menos com as regras estatutárias vigentes, é quase impossível a militantes sem tendência montarem uma chapa para disputar a direção do Partido.

O método híbrido adotado em 2017 e 2019 não resolve nenhum destes problemas, entre outros motivos porque nele foi mantida a votação em urna, dissociada de qualquer presença obrigatória em debates. Neste sentido, o método híbrido tem os defeitos do PED clássico e não tem as qualidades do sistema anterior (que, é bom lembrar, nunca foi perfeito).

Seja como for, é legítimo que as pessoas se mobilizem para pressionar a direção do PT, que deve votar no dia 17 de fevereiro o regulamento do PED 2025.

Mas já que é para pressionar, vale lembrar que nossos estatutos, assim como as decisões congressuais, vêm sendo rasgados e manipulados de várias formas nos últimos anos.

Vide a decisão de anular uma decisão congressual que estabelecia um limite máximo de mandatos consecutivos. Esta decisão também foi adotada em 2015 e foi rasgada, sem dó nem piedade, pela maioria do atual Diretório Nacional do PT.

Aliás, este Diretório auto-prorrogou seu mandato, que deveria ter finalizado em 2023. Eu queria ter votado para presidente naquele ano. Assim como queria que tivéssemos aprovado o regulamento do PED 2025 na reunião realizada, pelo Diretório Nacional, no dia 7 de dezembro de 2024. Mas o regulamento só vai ser aprovado - assim espero - no dia 17 de fevereiro.

Estes procedimentos ameaçam a democracia, assim como as fraudes e as desigualdades nas condições de campanha.

Seja como for, votarei na reunião do Diretório Nacional, dia 17 de fevereiro, favorável a manter, no PED 2025, o que está previsto no estatuto. 

Tudo o que está no estatuto, inclusive os tempos de campanha, pois há por exemplo quem proponha alterar os prazos de inscrição, o que na prática reduziria imensamente o tempo indispensável para que - num partido de massas - o conjunto dos filiados e filiadas possa tomar contato com o conjunto das chapas, candidaturas e principalmente propostas.

Mas não vou assinar abaixo-assinado algum. Primeiro, porque jabuti não sobe em árvore. Segundo, porque não quero limpar a barra de quem impediu a base de votar no PED em 2023. Terceiro, porque nosso problema vai muito além de "votar para presidente".

Precisamos formular outra linha política, precisamos mudar o modo de funcionamento do Partido, precisamos eleger novas direções. Inclusive, mas não unicamente o presidente. No Brasil, o presidencialismo deve ser defendido com  unhas e dentes. Já no PT, o presidencialismo não tem passado no teste.











terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Esquerda, direita e Rogério Carvalho

Recomendo fortemente ouvir a digressão do senador Rogério Carvalho acerca dos termos "esquerda" e "direita".

A digressão pode ser escutada aqui: https://x.com/guilherme_amado/status/1889360282960503288

A transcrição do que ele disse está aqui: "Esse negócio de direita e esquerda, tem gente de direita que não é golpista. Tem gente que é de direita que defende a democracia. Tem gente de direita que tem projeto pro Brasil. E isso precisa ser respeitado, isso precisa ser trazido pro diálogo. Não existe um melhor. O melhor é o que resolve o problema das pessoas. Às vezes, soluções, contribuições podem vir da direita, podem vir da esquerda. E a gente precisa entender que essa separação é muito artificializada nesse debate momentâneo no Brasil. Então, você defender que a pessoa possa ter ensino público e gratuito é ser de esquerda? Você defender o SUS é ser de esquerda? Percebe? Defender uma previdência solitária é ser de esquerda? Ou é entender que o Brasil, sem essas condições, não vai oferecer aos brasileiros um mínimo de dignidade? Certo? Se isso é ser de esquerda, por exemplo, eu sou de esquerda. Mas se ser de direita é defender a livre iniciativa, então eu sou de direita porque eu defendo a livre iniciativa".

O senador começa afirmando que existe uma direita que não é golpista. Isto é verdade? 

Em tese sim. Mas no Brasil de 2016, a maior parte da direita participou de um golpe. E continua achando que não foi um golpe. 

De forma similar, as forças armadas deram um golpe em 1964. Mas no fundo da alma, continuam achando que salvaram a democracia.

Isto para não falar de Hugo Motta e de José Múcio, que não consideram o 8 de janeiro de 2023 como uma intentona golpista.

O golpismo da direita é um efeito colateral da concepção burguesa, oligárquica, elitista, que a direita tem da democracia.

Para manter a democracia dentro de certos limites, para evitar uma democracia popular, a direita apela sempre que necessário para os golpes, seja os preventivos, seja os corretivos.

E fazem isto porque a direita tem mesmo um projeto para o Brasil. Este projeto já sabemos o que é: um pais dependente, sem bem-estar social, com uma democracia oligarquica, com um desenvolvimento super-limitado.

Por esses e por outros motivos, o senador Rogério Carvalho erra ao dizer que "não existe um melhor. O melhor é o que resolve o problema das pessoas". 

As "soluções" e "contribuições" oferecidas pela direita podem resolver o "problema" de algumas "pessoas", mas não resolvem os problemas estruturais do conjunto das pessoas que pertencem às classes trabalhadoras.

Além de dizer que "não existe um melhor", Rogério diz também que "essa separação" entre esquerda e direita é "muito artificializada nesse debate momentâneo no Brasil". 

O debate em curso no Brasil hoje não é "momentâneo". Há uma crise profunda tanto no Brasil quanto no mundo. A "separação" - ou a polarização - entre esquerda e direita decorre desta crise profunda.

Os capitalistas defendem que o caminho para superar esta crise é colocar o Estado ainda mais a serviço da iniciativa privada, reduzir ainda mais tudo o que for público, social e coletivo, ampliar muito a exploração contra a classe trabalhadora e contra os povos. É isso, por exemplo, que caracteriza o ultraliberalismo de Trump, de Milei e dos cavernícolas de verde-e-amarelo.

Já nós, que representamos os interesses da classe trabalhadora, entendemos que o caminho para enfrentar a imensa crise - ambiental, econômica, social, política, militar e ideológica - que vive o mundo, é colocar em primeiro lugar o social, o coletivo, o público. E reduzir ao mínimo o poder, a propriedade e a riqueza dos capitalistas, ampliando ao máximo a força e os direitos das classes trabalhadoras.

Claro que há pessoas que tentam se equilibrar entre estes dois caminhos. É o caso, pelo visto, do senador Rogério, que se considera de esquerda em algumas questões e de direita em outras questões.

Isso é um direito dele. Ninguém é obrigado a ser consequente. 

Embora fosse bastante recomendável, digamos assim, ao menos para quem exerce o papel que ele exerce, ser 100% de esquerda.



  

Roda Viva: Lula erra ao manter mister Múcio

Alguns dirigentes do PT acham que não se pode fazer críticas públicas ao presidente Lula.

Entendo esta postura.

Primeiro, porque cabe ao PT defender o governo. E aos dirigentes petistas cabe dar o exemplo.

Segundo, porque fiz campanha para Lula em 1982 e votei nele em todas as demais eleições em que concorreu. Espero poder votar, novamente, em 2026. 

Terceiro, porque há circunstâncias do dia-a-dia do governo, sobre as quais só Lula tem informação completa.

Quarto e principal, porque quero mudar a política do governo. E para isso preciso, entre outras coisas, convencer o presidente.

Por tudo isto e muito mais, sempre que critico a política adotada pelo governo, busco preservar o presidente Lula.

Mas toda regra tem suas exceções.

O caso de mister Múcio é uma destas exceções.

Múcio foi nomeado pelo presidente Lula. 

E, segundo consta, o presidente Lula teria pedido a Múcio que permaneça no cargo de ministro da Defesa.

O risco decorrente desta escolha ficou - mais uma vez - evidente na entrevista de Múcio ao programa Roda Viva da TV Cultura, no dia 10 de fevereiro de 2025.

Vide sua defesa do parlamentarismo: "O parlamentarismo seria uma coisa que seria uma boa experiência para o Brasil [...] Acho que nós precisamos disso."

Vide sua defesa do semipresidencialismo: "Acho que o semipresidencialismo, que é uma coisa que eu conheço pouco, seria uma forma de você trazer o Congresso Nacional para participar da administração."

Vide, principalmente, sua opinião sobre a intentona golpista de 8 de janeiro de 2023, tentando livrar a cara das Forças Armada, aliviando para os golpistas e abrindo as portas para a anistia pretendida pelo cavernícola.

Vide outras afirmações e posturas, desde dezembro de 2022 até ontem.

João Goulart confiou num tal "dispositivo militar". Mas o Golpe de 64 transcorreu sem que houvesse resistência à altura dos chamados militares legalistas.

Salvador Allende confiou em Pinochet ao ponto de achar que o general teria sido preso pelos golpistas, na manhã de 11 de setembro. Quando se deu conta da traição, era tarde demais.

Lula pelo visto confia em José Múcio. Não atino os motivos. Mas como dirigente do PT e cidadão brasileiro, me sinto na obrigação de opinar publicamente que isto é um erro.

Um erro brutal, como já se viu pela atitude do ministro frente a Intentona de 8 de janeiro, bem como pelo conjunto da obra. E, principalmente, pelo que já está em curso e ainda pode vir a acontecer.

Dixi et salvavi animam meam.