segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Nós e a guerra fria, segundo Marcelo Zero

Marcelo Zero escreveu e Brasil 247 publicou, no dia 17 de agosto, um artigo cujo título é uma pergunta.

O artigo pode ser lido aqui: https://www.brasil247.com/blog/o-brasil-deve-se-alinhar-a-um-dos-polos-da-nova-guerra-fria

Zero começa seu artigo com a seguinte afirmação: “O caso da Venezuela vem provocando críticas internas à política externa do Brasil. No plano mundial, está tudo indo bem. O Brasil vem recuperando celeremente o protagonismo regional e internacional perdido com Bolsonaro. Nosso papel de mediador é muito elogiado por diversos países e até mesmo pela oposição venezuelana.No plano interno, não obstante, às velhas críticas da direita se somam, agora, críticas de alguns setores da esquerda. Esses setores consideram que o Brasil deveria ser mais assertivo na luta contra o “imperialismo”, o que implicaria escolher alinhar-se ao “polo oposto”, na luta pelo poder mundial.

De onde eu observo, acho simplesmente incrível dizer que “no plano mundial está tudo indo bem”. Claro que a oposição venezuelana e seus aliados preferem ver o Brasil pedindo “atas”. Mas daí a achar que “está tudo indo bem” é confundir inimigo meio satisfeito com amigo do peito.

Deixemos a Venezuela de lado e vamos focar na questão proposta por Zero: o Brasil deve se alinhar a um dos polos da nova guerra fria?

Começo lembrando o seguinte: o que está em curso não é um remake da chamada guerra fria entre EUA e URSS. Por exemplo: o tipo de “ameaça” que a China representa para os Estados Unidos é muito diferente da “ameaça” soviética.

Mas há semelhanças. Uma delas Zero lembra: nos dois casos, ontem e hoje, os EUA não admitem terceiras vias.

Quero falar de outra semelhança: nem antes, nem agora, é possível tratar os dois pólos como simétricos. 

Especialmente para nós, latino-americanos e caribenhos, os EUA são um velho e conhecido inimigo. Já a China, a depender de como a tratemos, pode ser uma contradição negativa ou positiva.

Se prevalecer a atitude da classe dominante brasileira, a China continuará sendo nossa grande parceira comercial: comprando nossos primários e nos vendendo manufaturados. Ou seja: contribuindo na prática, mesmo que não seja esta a intenção, para perpetuar a desindustrialização do Brasil. Mas se nossa atitude for outra, a China pode contribuir e muito para a industrialização nacional. O maior obstáculo para uma mudança nos termos da relação, é bom dizer, está aqui dentro do Brasil.

Portanto, concordo com Zero que seria um “erro estratégico” adotar uma atitude “binária, simplista e obsoleta”. Mas afirmo que também seria um erro buscar um “meio-termo” equidistante entre China e EUA. Até porque há situações em que é mais prudente descer do muro.

Concordo com Zero, também, no seguinte: o que vem em primeiro lugar são os interesses nacionais, que no nosso caso significam os interesses da maioria do povo brasileiro (os interesses nacionais do ponto de vista da classe dominante são outros). E, exatamente por conta dos nossos interesses nacionais, um de nossos objetivos estratégicos consiste em derrotar os EUA e construir a integração regional. 

Existisse ou não a China, esse objetivo estratégico nacional-popular continuaria existindo. Pretender derrotar o imperialismo gringo não é praticar alinhamento binário com a China. Buscar derrotar o imperialismo gringo é alinhar com nossos interesses estratégicos nacionais.

O Itamaraty, óbvio, não concorda com isso. E Zero, se entendi direito, tampouco concorda. 

Segundo ele, não deveríamos "investir em uma política externa confrontacionista com os EUA, a União Europeia etc. Com esses países, as oportunidades de cooperação são mais estreitas e sujeitas a maiores assimetrias e, muitas vezes, a imposições políticas inaceitáveis. Mas estão longe de serem inexistentes".

Vale dizer que sou contra o "confrontacionismo", assim como sou contra as guerras. Mas os confrontos existem, assim como as guerras. Não é por não gostarmos da realidade, que ela desaparece.

Vide o caso do acordo Mercosul-União Europeia. Trata-se de um acordo neocolonial, como disse várias vezes Celso Amorim. Sendo assim, por qual motivo não recomeçamos as negociações do zero? Por qual motivo insistimos?? Para não parecer "confrontacionistas"? Ou porque, no fundo, existe um setor da diplomacia brasileira que, a pretexto do não alinhamento, está na prática tentando recauchutar velhos alinhamentos??

Repito: não sou adepto do confrontacionismo. Quem busca confronto é o lado de lá. Não sou adepto de romper relações com ninguém. Muito menos defendo que saiamos por aí exigindo que os Estados Unidos adotem um sistema eleitoral decente. 

Apenas estou afirmando que, a luz dos nossos interesses nacionais, devemos trabalhar para derrotar o imperialismo. E, em nome dos mesmos interesses nacionais, afirmo que não devemos trabalhar para derrotar a China. Portanto, afirmo que não devemos tratar de igual maneira os pólos em disputa, até porque eles são diferentes e visam objetivos diferentes.

Nada de meio-termo, nada de equidistância, nada de muro, nada de tucanismo na política externa.

Zero lembra e está correto, que "as grandes disputas mundiais criam espaços para o Brasil ocupar". Verdade. Lembremos, por exemplo, da Segunda Guerra. O Brasil ocupou espaço, especialmente quando tomou partido na guerra. Foi derrotada a posição que defendia equidistância entre os pólos. Depois da Guerra, mudaram os alinhamentos internos e externos; toda a direita passou a defender o alinhamento  com os EUA. Já a esquerda propunha outra política externa.

Portanto, a cada situação, diferentes interpretações acerca do que seja o interesse nacional conduzem a diferentes políticas. 

No momento atual, concordando mais uma vez com Zero, a industrialização é a pedra de toque de nossa política externa. A esse respeito, recomendo ler o artigo que escrevi na coletânea indicada aqui: https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/brasil-sob-escombros-152490

Nessa perspectiva, é correto dizer que "não podemos rejeitar, a priori, por motivos geopolíticos, nenhuma oportunidade de cooperação". Entretanto, no mundo real as "oportunidades de cooperação" não são simétricas, até porque alguns (EUA, Europa) querem impor restrições e privilégios exorbitantes. O que nos obriga a aprofundar parcerias estratégicas com a China, enfrentar as pressões dos EUA/Europa e reafirmar como objetivo estratégico derrotar o imperialismo. Qualquer imperialismo.

Não perceber isso seria fazer do nacionalismo uma escolha "vazia e retórica ingênua".


domingo, 18 de agosto de 2024

Venezuela: a diplomacia segundo Zero

Um amigo me recomendou ler um texto de Marcelo Zero, intitulado “A diplomacia do Brasil está correta”.

O texto é de 11 de agosto e está disponível aqui:

Marcelo Zero: A diplomacia do Brasil está correta - Viomundo

A parte inicial do texto de Zero reclama da “quantidade de bobagens que se escreve hoje sobre a política externa brasileira”.

Diz que “essas volumosas sandices se concentravam à direita do espectro ideológico”. Mas que, agora, “surgem críticas à diplomacia brasileira por parte de alguns setores da esquerda, em razão, essencialmente, do conflito na Venezuela”.

Sem entrar no mérito de quem comete as tais sandices, pois afinal falar besteira não é monopólio de ninguém, a síntese acima transcrita corresponde aos fatos, ao menos tais como eu os vejo.

O que não corresponde aos fatos é o que vem a seguir.

Segundo Zero: “Alguns acusam o Brasil de não reconhecer, de imediato, os resultados das eleições venezuelanas e de apoiar a “intervenção imperialista” naquele país. Outros acusam o Brasil de não respeitar a soberania daquele vizinho, ao fazer algumas críticas à condução do processo eleitoral da Venezuela. Ora, tais acusações não têm o menor fundamento nos fatos”.

Pois bem: vamos lembrar de um fato.

O governo cavernícola rompeu relações com a Venezuela. O governo Lula reatou relações. Mas o Itamaraty só indicou uma nova embaixadora para a Venezuela em 13 de novembro de 2023.

Dez meses e treze dias.

Convenhamos, esta demora não combina com a atitude de quem “desde o início do terceiro governo Lula” faz um “combate negociado e paciente contra o isolamento da Venezuela e as sanções draconianas impostas pelos EUA e a Europa ao povo venezuelano”.

Conclusão: uma coisa são as nossas diretrizes de política externa. Outra coisa é a execução desta política.

A execução é diferente por diversos motivos. Entre eles, o seguinte: a “diplomacia brasileira”, como Minas, são muitas. E uma parte desta diplomacia, especialmente a que cabe ao Itamaraty é fortemente influenciada pelo modo tucano de ver o mundo.

Infelizmente, um bom exemplo deste modo tucano está no texto de Zero.

Refiro-me à seguinte afirmação: o governo Bolsonaro “cometeu o grosseiro erro estratégico de transformar a América do Sul em palco da disputa geopolítica entre EUA, Rússia e China”.

Convenhamos: não foi Bolsonaro que nos transformou em “palco” de uma disputa geopolítica. A verdade é outra.

Nossa região é “palco” de disputas geopolíticas desde a época dos impérios coloniais. Seguiu sendo assim no século XIX, depois na época das duas guerras mundiais e na chamada guerra fria. E segue sendo “palco” agora. E assim seguirá, até que tenhamos pleno êxito no projeto da integração regional.

Bolsonaro não queria integração regional, queria ser coadjuvante dos Estados Unidos. Foi uma opção estratégica, um “erro” do nosso ponto de vista, mas acertada do ponto de vista de um setor da classe dominante brasileira.

Esta opção, como é óbvio, fez o Brasil perder protagonismo. Um de nossos objetivos é reverter isso. Mas há maneiras e maneiras de recuperar protagonismo.

O modo tucano pensa que um dos requisitos para recuperar protagonismo é através do não alinhamento no conflito entre China e Estados Unidos. Nas palavras de Zero: “Não temos de escolher entre nenhum dos lados da nova Guerra Fria. Entre um e outro, o Brasil escolhe o lado do Brasil”.

Sem dúvida nenhuma, como lembra Paulo Nogueira Batista Jr., o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Temos objetivos e interesses próprios e, portanto, não devemos nos alinhar automaticamente com ninguém.

Mas isto não significa que os dois lados em disputa possam ser vistos, por nós, como sendo simétricos. Por inúmeros motivos, a nós interessa a derrota dos Estados Unidos. Como nos interessava, na Segunda Guerra, a derrota da Alemanha Nazista.

O modo tucano conduz a diferente tipo de conclusão. Fala em não alinhamento, mas na prática conduz a recauchutagem do velho alinhamento.

Segue algo mais a respeito do tema:

https://www.brasil247.com/blog/o-brasil-deve-se-alinhar-a-um-dos-polos-da-nova-guerra-fria

Valter Pomar: Mercadante, Zero e o que precisamos enterrar

https://m.youtube.com/watch?v=5z6cpEZC4WY

Feito este preâmbulo, vejamos o caso da Venezuela.

Zero diz que “o apoio do Brasil ao Acordo de Barbados, firmado entre o governo e as oposições da Venezuela, obedeceu à estratégia de pacificar o conflito interno daquele país, levantar as violentas sanções e reintroduzir a Venezuela como membro pleno do Mercosul, bloco estratégico para o País. Tal apoio impõe algumas obrigações ao Brasil. Uma delas é a de solicitar transparência e lisura no pleito democrático. A outra é a de continuar a investir em diálogo e negociações. Infelizmente, o compromisso de plena transparência nas últimas eleições não parece, até agora, ter sido satisfeita, o que impede o Brasil de reconhecer os resultados”.

Curiosamente, o único compromisso citado como não satisfeito é o que diz respeito ao governo da Venezuela.

Pergunto: e os demais envolvidos, cumpriram sua parte?

Segundo disse o próprio Celso Amorim, criticando a União Europeia, alguns não cumpriram. Sendo assim, não estaria havendo uma cobrança seletiva, muito forte em relação ao governo da Venezuela e extremamente suave em relação a outros?

Zero salienta que “todas as outras eleições venezuelanas realizadas durante o período chavista primaram pela transparência e pela lisura”. E diz que, agora, a publicação dos resultados desagregados “tornou-se tão morosa quanto cágados analógicos acometidos pela Doença de Parkinson”.

Sem entrar no mérito da imagem escolhida, suponhamos que Zero estivesse certo.

Pergunto: isto autorizaria cobrar “atas”? Isto autorizaria opinar sobre as instâncias do poder judiciário venezuelano? Isto autorizaria fazer especulações públicas sobre convocação de novas eleições?

A diplomacia brasileira pode considerar que os Acordos de Barbados não estão sendo cumpridos e, portanto, não reconhecer os resultados eleitorais. Mas não pode extrapolar, nem na forma, nem no conteúdo, como ocorreu diversas vezes desde o dia 29 de julho.

Quero lembrar, como faz o próprio Zero, que “o povo venezuelano, assim como o povo brasileiro, fez uma opção soberana pela democracia e a instituiu em uma notável Constituição”. E essa Constituição prevê um ordenamento jurídico e eleitoral, que nos cabe respeitar. A não ser que, no fundo, concordemos com a tese de uma parte da oposição venezuelana, segundo a qual eles não apenas teriam vencido, mas também que sua vitória teria um significado constituinte.

Zero faz em seu artigo uma série de perguntas retóricas, cujo objetivo aparente é reforçar que a “cautela” seria a melhor política. De fato, às vezes é mesmo bom ter cautela. Acontece que, no caso das eleições da Venezuela, uma das coisas que está faltando, em alguns do Brasil, é cautela.

Para dar um exemplo: o companheiro Celso Amorim estava na Venezuela para acompanhar o processo eleitoral. Entre outras declarações à imprensa, Celso disse que foi dormir quando a oposição estaria liderando e acordou com um resultado oposto. Na prática, reforçou a ideia de que teria havido fraude.

Acontece que a “liderança” da oposição não era na apuração, mas em certos meios de comunicação, em algumas pesquisas e nos corredores do departamento de Estado dos EUA.

Dou como exemplo esta declaração, mas houve inúmeras outras, que não foram marcadas por absolutamente nenhuma cautela.

A verdade é que uma parte da diplomacia brasileira parece convicta de que houve fraude. E vem operando com base neste pressuposto.

Um exemplo disso são as perguntas retóricas que Zero faz em seu texto.

Vou citar: “Não poderia estar o governo Maduro em contradição com alguns valores e princípios da revolução chavista?  Não poderia estar o governo Maduro em conflito, do mesmo modo, com a integração regional? O governo Maduro estaria a fazer uma aposta geopolítica de sustentar-se apenas com o apoio de potências extrarregionais, como Rússia e China, e prescindir da aliança com países amigos da região, como Brasil, Colômbia e México? Isso não teria um efeito disruptivo na região?”

Quem escolhe as perguntas, condiciona as respostas.

Imaginemos, por exemplo, que as perguntas fossem as seguintes: “Não poderia uma parte do Itamaraty estar operando com base em informações equivocadas? Não poderíamos estar contribuindo, inadvertidamente, para estimular a oposição de extrema direita na Venezuela? Não estaríamos, na prática, contribuindo para que a situação interna na Venezuela se deteriore ainda mais? Não existiria uma semelhança entre o modus operandi do golpe na Bolívia contra Evo e o que a oposição tentou fazer na Venezuela?”

Zero conclui seu artigo fazendo uma série de elogios à diplomacia brasileira. Alguns elogios são merecidos e adoraria que fosse tudo verdade. Mas, como Zero mesmo lembra, a realidade “é muito complexa e não admite análises binárias e simplistas”.

Basta lembrar das venturas e desventuras envolvendo o acordo União Europeia-Mercosul.

Do meu ponto de vista, nesta questão da Venezuela nossa diplomacia errou e segue errando. Espero que o erro seja corrigido e que não se repita, proximamente, no caso do Cinturão e Rota.  

E aos que falam de atas, sugiro ter olhos também para os mapas. Pois o que está acontecendo em nossa região é um cerco. Maduro é só a bola da vez.

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 17 de agosto de 2024

Venezuela: o “regime desagradável” de Lula

Lula concedeu, no dia 16 de agosto, uma entrevista à Rádio Guaíba. Entre outros assuntos, falou da Venezuela.

Quem quiser ouvir um trecho da entrevista, clique abaixo:

https://www.poder360.com.br/poder-governo/lula-diz-discordar-de-nota-do-pt-que-reconhece-vitoria-de-maduro/

Como sempre acontece com as entrevistas de Lula, cada um (perdão, Bosco e Blanc!) destaca o que gosta.

Por exemplo quando Lula lembra que “o problema da Venezuela será resolvido pela Venezuela”.

Quando disse que a Venezuela não é uma ditadura.

E quando ele reafirma que o Partido e o governo não precisam estar de acordo em tudo. 

Previsivelmente, parte da imprensa pensa o contrário: às vezes acusa Lula de ser o “dono” do PT, às vezes trata uma diferença de opinião como “racha”. 

Esta mídia finge ser democrata, mas gosta mesmo é de pensamento único.

A parte mais curiosa da citada entrevista de Lula foi a definição que ele deu acerca do regime político da Venezuela: “Eu acho que a Venezuela vive um regime muito desagradável. Eu não acho que é uma ditadura, é diferente de uma ditadura. É um governo com viés autoritário, mas não é uma ditadura como a gente conhece tantas ditaduras pelo mundo”.

De fato, às vezes parece difícil classificar o regime político da Venezuela. 

A oposição governa estados e cidades, possui fortes bancadas parlamentares, consegue mais de 40% dos votos nas eleições presidenciais, controla importantes meios de comunicação, tem muito dinheiro, além de usar e abusar do apoio internacional.

(Corina, por exemplo, defendeu uma intervenção militar estrangeira na Venezuela. E Guaidó foi reconhecido como presidente por inúmeros governos supostamente democráticos.)

Em resumo: a Venezuela é mesmo muito diferente das “ditaduras” que “a gente conhece pelo mundo”.

Por outro lado, na Venezuela a esquerda hegemoniza - até agora - o governo e o parlamento nacional, o judiciário e as forças armadas. 

Isto também é bastante diferente das “democracias” que “a gente conhece pelo mundo”.

No Brasil, por exemplo, é a oposição que hegemoniza o congresso, as forças armadas e as polícias, a maioria dos governos subnacionais, boa parte do sistema judiciário, os meios de comunicação e a grana. 

Isto tudo torna o Brasil um “regime” também “muito desagradável”, a depender do lado que você estiver.

Vamos lembrar que Dilma foi derrubada e Lula foi preso por este “regime”. Ocasião em que, mundo afora e Brasil a dentro, teve gente “agradável” que preferiu acreditar nas mentiras e manteve prudente distância do PT e de Lula.

Aliás, infelizmente, no chamado mundo da política existem, mas são raros, os “amigos agradáveis”, por exemplo aqueles que te ajudam quando você não tem mais para onde correr.

Na vida real, o mais frequente é sermos obrigados a escolher entre inimigos aparentemente agradáveis e amigos supostamente desagradáveis. 

Pode não ser o mais bonito. Mas certamente é o mais saudável.




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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Venezuela: as saídas de Lula

O presidente Lula concedeu entrevista à uma rádio, durante a visita que fez ao estado do Paraná, no dia 15 de agosto.

Não ouvi a entrevista.

Mas li uma transcrição parcial, publicada pela Forum.

Quem quiser ler, está aqui: 

https://revistaforum.com.br/global/2024/8/15/lula-diz-que-ainda-no-reconhece-vitoria-de-maduro-na-venezuela-fala-em-novas-eleies-163932.html

Indagado se reconhece que Maduro venceu o pleito e é presidente eleito da Venezuela, Lula teria sido enfático: "ainda não, ainda não".

Até aí, nada de novo: desde o dia 29 de julho, esta tem sido a posição do Itamaraty e do presidente Lula.

Ainda segundo a Forum, Lula teria acrescentado que Maduro "está devendo uma explicação para a sociedade brasileira e para o mundo. Ele sabe disso (...) tem que apresentar os dados".

Também até aí, nada de novo: desde o dia 29 de julho, esta tem sido a posição do Itamaraty e, com nuances, do presidente Lula.

Lula não parou por aí.

Conforme a Forum, ele teria dito que "os dados têm que ser apresentados por algo que seja confiável. O Conselho Nacional Eleitoral, que tem gente da oposição, poderia ser".

Igualmente nada de novo: esta preferência pelo CNE está na segunda nota publicada pelos governos do México, Colômbia e Brasil.

Confesso que até agora não entendi este súbito apreço pelo Conselho Nacional Eleitoral.

Explico: o Conselho Nacional Eleitoral já proclamou o resultado. E, naquela ocasião, Celso Amorim, o Itamaraty e o próprio Lula não acharam a proclamação confiável. 

Assim sendo, o que teria acontecido para tornar o CNE "confiável" aos olhos de quem antes desconfiava dele?

Será por ter gente da oposição na sua composição?

Mas isto o CNE já tinha, quando proclamou que Maduro venceu as eleições.

Enfim, salvo alguma informação reservada, não consigo entender a atual preferência pelo CNE.

Sempre segundo a Forum, Lula teria acrescentado o seguinte: "Mas, ele não mandou para o Conselho, ele mandou para a Justiça, para a Suprema Corte do país".

O "mas" que Lula usou na entrevista - supondo que a transcrição esteja correta - passa a impressão de que na Suprema Corte não há representantes da oposição.

Acontece que, salvo engano, a oposição também está representada na Suprema Corte.

A respeito, ler a insuspeita matéria disponível no endereço abaixo:

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/suprema-corte-da-venezuela-tem-maioria-de-votos-para-o-partido-de-maduro-diz-especialista-a-cnn/

Claro, a oposição é minoritária na Suprema Corte; mas também é minoritária na CNE.

Logo, por qual motivo a preferência?

Sem falar do principal: não somos nós que temos que preferir.

Explico: quando discordamos de uma decisão do TSE, a gente recorre a quem? Ao STF. As vezes não adianta nada, as vezes adianta, mas é o caminho correto especialmente para quem, como Lula, diz sempre acreditar na Justiça.

Pois bem: foi exatamente isso que Maduro fez: recorreu à Suprema Corte. De seu país, não do nosso, não dos Estados Unidos.

Podemos gostar, podemos não gostar, mas o que foi feito por Maduro está dentro do ordenamento legal da Venezuela. Que, nesse particular, lembra o do Brasil.

Portanto, concordando com Lula quando ele diz que devemos respeitar a "soberania dos países", não entendo por qual motivo deveríamos questionar o ordenamento jurídico da Venezuela.

A Forum informa que Lula teria dito outras coisas na entrevista.

Por exemplo, Lula teria dito que "tem várias saídas. Fazer um governo de coalizão - muita gente que está no meu governo não votou em mim e eu trouxe todo mundo para participar do governo".

Ainda segundo a revista Forum, Lula teria afirmado também que "não posso dizer que a oposição foi vencedora porque não tenho os dados. E não posso dizer que Maduro foi vitorioso porque eu não tenho os dados. Então, não quero me comportar de maneira apavorada e precipitada. Eu quero o resultado. Se a gente tiver um resultado e for factível, nós vamos tratar do seguinte. O Maduro tem seis meses de mandato ainda - o mandato dele só termina em janeiro do ano que vem. Então, ele é o presidente da República, independentemente das eleições. Se ele tiver bom senso, poderia tentar fazer uma conclamação ao povo da Venezuela, quem sabe até convocar novas eleições, estabelecer critério de participação de todos os candidatos, criar um comitê eleitoral suprapartidário e deixar que entre olheiros do mundo inteiro. O que não posso é ser precipitado e tomar uma decisão. Da mesma forma que quero que respeitem a soberania do Brasil, eu respeito a soberania dos países".

Essas sugestões de Lula estão sendo interpretadas das mais diferentes maneiras. Deixo para outro momento dar uma opinião a respeito.

Lembro apenas que, em condições normais de temperatura e pressão, a Suprema Corte da Venezuela vai dar seu veredito antes de terminar o atual mandato de Maduro. Quando sair o veredito, todas as partes envolvidas (dentro e fora da Venezuela) terão que se posicionar. 

Nosso posicionamento precisa tomar, como ponto de partida, o reconhecimento da institucionalidade da Venezuela. "Saídas" fora da Constituição bolivariana não respeitam a soberania da Venezuela e, portanto, não servem a quem defende a soberania do Brasil.






quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Venezuela: a preguiça de José Luís Fevereiro

José Luís Fevereiro escreveu e Outras Palavras publicou um artigo intitulado “Venezuela: a geopolítica do século XXI é outra”.

O artigo pode ser lido aqui: 

https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/venezuela-a-geopolitica-do-seculo-xxi-e-outra/

Fevereiro diz que “o anti-imperialismo de botequim” atribui aos EUA “objetivos estratégicos que tiveram razoável atualidade ali pelos anos 50 a 70 do século passado. Conflitos eminentemente regionais são apresentados como fomentados pelos interesses estadunidenses, quando de fato os objetivos da política externa norte-americana passam longe”.

Ainda segundo Fevereiro, o "grande conflito geopolítico contemporâneo contrapõe os EUA à China. E não está centrado no petróleo, nas terras raras, no lítio, ou em qualquer outro aspecto secundário. Está basicamente em dois pontos.Um deles é a disputa por hegemonia em Inteligência Artificial (...) Mas o principal terreno da disputa será o desafio à hegemonia do dólar como moeda de referência e de reserva internacional". 

Mesmo sendo uma tolice tratar terras raras, lítio e petróleo como "aspecto secundário", Fevereiro acerta ao dizer que o "grande conflito" opõe EUA e China, assim como é correto dizer que os "dois pontos" principais do conflito são, neste momento, a Inteligência Artificial e o dólar.

Mas Fevereiro está também errado, pelo seguinte: das afirmações corretas supracitadas não decorre que os outros conflitos sejam “absolutamente locais” ou “regionais”; ademais, os conflitos não precisam ser "fomentados" pelos EUA, para que pesem na balança de sua disputa contra a China.

Dito de outro jeito: a guerra entre Rússia e Ucrânia, o genocídio de Israel contra a Palestina e o resultado das eleições na Venezuela são parte integrante do grande conflito entre China e EUA.

Aliás, China e EUA sabem perfeitamente disso e agem em conformidade. E não me parece que os estrategistas de ambas potências possam ser tratados como de "botequim" ou "preguiçosos".

Ao tentar minimizar, relativizar ou negar a relevância geopolítica global da guerra na Ucrânia, do genocídio em Gaza e da operação contra a Venezuela, Fevereiro produz raciocínios constrangedores, para dizer o mínimo. 

Por exemplo, sobre a Ucrânia: "A guerra na Ucrânia tem raízes fundas em questões absolutamente locais" (...) “Localizar ali interesses estratégicos norte-americanos, para além dos compromissos pré-existentes com a OTAN, é um erro”.

“Erro” é minimizar a importância que a  OTAN e o monopólio do ataque preventivo têm para os EUA. "Erro" é não compreender o problema estratégico posto, para os EUA, pela crescente aproximação entre Rússia e China. Aliás, como  lidar com esta aliança é uma das muitas questões que separam as políticas externas de Trump e Kamala.

Outro exemplo, sobre Gaza: “O conflito em Gaza é um conflito regional” (...) "A direita israelense (...) é visceralmente contrária a existência de um Estado palestino. Esse não é o objetivo dos EUA na região. A localização dos objetivos norte-americanos está nos acordos de Camp David entre Israel e Egito e nos acordos de Oslo na década de 1990, visando a constituição de um Estado palestino”.

(Tomo nota da maneira com que Fevereiro se refere ao "conflito em Gaza".)

Os acordos de Oslo são de 1993. Trinta anos depois, é preciso muita fé nas palavras e pouca atenção aos atos para seguir dizendo que a "localização dos objetivos" (sic") dos EUA visa "a constituição de um Estado palestino". 

Claro, para alguns é mais cômodo seguir acreditando que "o alinhamento quase incondicional dos EUA com Israel tem muito mais a ver com questões da política interna norte-americana que com objetivos estratégicos". Os presidentes gringos, coitadinhos, passaram os últimos trinta anos querendo fazer outra coisa, mas não conseguiram e isso por razões fundamentalmente paroquiais.

Seja como for, alguém duvida que o "conflito regional" de Gaza e o conflito com "raízes fundas em questões absolutamente locais" da Ucrânia têm, ambos, potencial para se converter em algo muito maior, mesmo que não seja esta a intenção original dos envolvidos?

(Fico pensando o que diria Fevereiro, vivo fosse, sobre o assassinato dos "turistas" Francisco e Sofia, no dia 28 de junho de 1914, em Sarajevo.)

Terceiro exemplo, sobre a Venezuela: "o governo Biden foi às negociações em Barbados por conta da crise migratória venezuelana (...) Interessava aos EUA normalizar suas relações com a Venezuela e eliminar as sanções, origem principal da crise econômica e da onda migratória venezuelana. Não, não é o petróleo". 

Barbados à parte, o fato é que - no que diz respeito aos governo Chavez e Maduro - o tema central não é e nunca foi o petróleo, tomado isoladamente. Aliás, qual era mesmo o motivo "econômico" para o engajamento dos Estados Unidos em El Salvador ou Nicarágua? E noutros países do Caribe, América Central e América do Sul? Granada e República Dominicana foram atacadas por alguma motivação econômica relevante?

O tema, na imensa maioria dos casos, foi o "lugar" do pateo trasero no conjunto da estratégia estadounidense. O pretexto imediato pode ter sido esse ou aquele, mas a motivação geral era geralmente mais ampla. Foi assim na época do conflito com a URSS e segue sendo assim na época do conflito com a China. Nem tudo é sobre o dólar, nem tudo é sobre a Inteligência Artificial, mas quase tudo vai sendo enquadrado e vai incidindo na disputa global, que tem como pólos principais a China e os EUA.

O fato de não ter como motivação imediata o petróleo, não converte motivações imperialistas em democráticas, não faz a ingerência se tornar aceitável.

(Tomo nota da afirmação de Fevereiro segundo a qual "em dez anos, o petróleo já estará em acelerada redução na matriz energética global, e em 20 ou 30 anos será apenas um insumo para a indústria petroquímica sem relevância como combustível".)

Fevereiro termina seu texto lembrando que "foram necessárias duas guerras mundiais para que a Inglaterra visse a libra esterlina perder essa hegemonia para o dólar".  E complementa: "A China não tem pressa (perdoem a tautologia). Devagar e persistentemente vai construindo essas condições. Espero que essa transição não pressuponha um nova guerra mundial. O que fazer e como se localizar nesse conflito é o debate a ser feito pela esquerda. Os mais preguiçosos preferem seguir pensando a geopolítica a partir do petróleo".

Realmente, o debate sobre o conflito China e EUA é central, com destaque para o tema da IA e do dólar. 

Também é real que tem muita gente preguiçosa na esquerda. As vezes a preguiça leva a adotar fórmulas velhas para tratar de situações novas.  As vezes a preguiça leva a achar pretextos para minimizar a centralidade de questões que dão certo trabalho, como é o caso da Venezuela, de Gaza e da Ucrânia. E as vezes a preguiça faz colocar uma maquiagem de esquerda em argumentos made in USA.


ps.em 1995, Fevereiro era militante da tendência petista Articulação de Esquerda. No encontro nacional que o PT fez em Guarapari, a AE decidiu voltar em Hamilton Pereira para presidente nacional e construir uma chapa com toda a esquerda petista. José Luís Fevereiro defendia outra tática, que implicaria votar em Zé Dirceu para presidente nacional do PT. Ao final da reunião em que tomamos nossa posição, ele anunciou que a respeitaria - uma vez que ele era delegado nato, por ser da CEN. Mas avisou que em seguida sairia da AE. Portanto, em 1995 Fevereiro saiu da AE "pela direita" (do meu ponto de vista, obviamente). O mundo girou e Fevereiro foi parar no PSOL, em circunstâncias que não acompanhei ou pelo menos não recordo. Agora, o vejo defender posições sobre a Venezuela que o colocam à direita da AE e do PT, Dirceu inclusive. Realmente, não será de tédio (nem de preguiça) que morreremos.


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Delfim: notas de pesar


Um humorista disse: já vai tarde.

Certa editora (não sei se verdadeira ou fake) lamentou que tenha sido por causas naturais.

Uma jornalista falou da embaixada dez por cento.

Outro citou o milagre & o arrocho.

Alguém lembrou da comparação que ele fez, entre empregadas domésticas e animais.

Mais alguém recordou da assinatura do AI5, em 1968.

E da afirmação, feita em 2021, de que assinaria novamente.

O fato é que a morte não anistia os canalhas.

Especialmente quando não se pode alegar falta de inteligência e luzes.

Isto tudo posto, é com profundo pesar que leio algumas notas.

Mas delas tomo nota, pois revelam mais sobre os vivos do que sobre o morto.



 

domingo, 11 de agosto de 2024

Venezuela: a amarga escolha do professor Maringoni

O GGN publicou um artigo intitulado "Precisamos todos perder a hipocrisia", assinado pelo professor Gilberto Maringoni.


O ponto de partida do artigo de Maringoni é o seguinte: "Nicolás Maduro fraudou as eleições, como tudo indica". 

Ele diz que a fraude é uma "hipótese", mas "o que tudo indica" é revelador do que ele realmente pensa. 

Em decorrência, diz Maringoni, a "consequência lógica é forçá-lo a entregar o poder, cumprindo assim o princípio da alternância liberal".

Mas, prossegue Maringoni, se a direita assumir o governo, "o que sobrar do país será reduzido a um protetorado estadunidense de segunda linha, um cosplay de Porto Rico".

Logo, conclui Maringoni, "o dilema para a esquerda em todos os países está em realizar separadamente uma disputa que preferencialmente deve ser embalada num único pacote. Ou seja, a luta por soberania e democracia. Na Venezuela, defender soberania implica passar por cima de resultados eleitorais objetivos. E defender a democracia eleitoral hoje significa triturar o país. A escolha é amarga, qualquer que seja a opção. Ela é inescapável. Por isso a tarefa inicial no enfrentamento em curso implica que os dois lados joguem fora qualquer ranço de hipocrisia ou falsos moralismos. É duro e feio, mas a vida é assim".

Na minha opinião, a "tarefa inicial" é outra: reconhecer que "tudo indica" que Maduro ganhou as eleições e defender o respeito ao resultado. Para a esquerda que tem esta posição, não existe contradição ou dilema: defender a soberania e defender os resultados eleitorais fazem parte da mesmíssima batalha.

Para a esquerda-tipo-Boric também não existe dilema algum. Para eles Maduro fraudou e ponto final. E como Guaidó Segundo teria ganho, suas ações estariam legitimadas pela soberania popular, a única capaz de definir os limites da soberania nacional.

Portanto, o dilema existencial que atormenta Maringoni só existe para aquela parte da esquerda-que-acredita-em fraude mas sabe o que aconteceria caso a extrema-direita viesse a assumir o governo da Venezuela, a saber: nem soberania, nem democracia.

Conclusão: não há "dois lados", nem são "todos" os que precisam jogar fora "qualquer ranço de hipocrisia ou falsos moralismos". 

Pode ser duro, feio e amargo, mas autocrítica cada um faça a sua. Salvo, é claro, que o "todos" do subtítulo do artigo de Maringoni seja apenas majestática figura.