terça-feira, 16 de abril de 2024

Aventuras do PT na China (parte 9)




No dia 13 de abril de 2024, a delegação do PT chegou em Xiamen, uma das nove cidades de uma província chamada Fujian. 

Esta província é lindeira ao Estreito de Taiwan. Do outro lado do Estreito, fica a província de Taiwan.

Além de Xiamen, a delegação também visitou - entre 13 e 17 de abril - três outras cidades: Jinjiang, Ningde e Quanzhou.

Xi Jinping, atual presidente da China e secretário-geral do Partido Comunista, trabalhou por 12 anos nesta província.

Um dos projetos impulsionados por Xi Jinping foi o combate à pobreza extrema. Para conhecer um exemplo disto, a delegação visitou a Vila Xiaqi.

Trata-se de uma vila de pescadores. Até a década dos 1980, estes pescadores (cerca de 3 mil na época) viviam em condições muito difíceis, o que incluía morar em seus barcos. A partir dos anos 1990, teve início uma série de transformações. Hoje moram na Vila Xiaqi cerca de 13 mil pessoas, em casas e com o devido acesso às políticas públicas básicas.

Os feitos de Xi Jinping no combate à pobreza extrema são contados detalhadamente numa grande exposição no Centro de Convenções de Ningde, exposição que termina com uma foto muito didática, que vincula Xi a Mao.



Evidentemente, a capacidade de transformar profundamente a vida das pessoas tem relação direta com várias conquistas da revolução de 1949. Entre elas, o fato da terra ser propriedade pública.

Outras características estruturais da sociedade chinesa foram destacadas na conversa com a prefeita de Ningde, onde fica a vila de pescadores. Os dois momentos altos da conversa foram: 

I/quando o tradutor demorou a entender nossa pergunta sobre quantos por cento da população da China têm acesso ao saneamento. Em bom português, ele reagiu com um “100% óbvio”, muito revelador das diferenças atuais entre os dois países;

Ii/quando a prefeita explicou que, na China, os entregadores de aplicativos recebem, das empresas que os contratam, todos os direitos previdenciários e similares.

Ao mesmo tempo que destacaram essas conquistas sociais, em várias das reuniões mantidas, nesta fase da viagem, o que predominou foi a ênfase no empreendedorismo-ao-estilo-chinês.

Foi o caso, por exemplo, das visitas a grandes empresas, como: a Kelme (artigos esportivos), a CATL e a Kehue Data Company (baterias), assim como a Fuyao Glass Company.

A mesma pegada “empreendorista” dominou a visita da delegação a dois show-rooms: BRICS PartNIN Inovation Cente e o Jinjiang Experience Museum.

Foi o caso, igualmente, das conversas predominantes em dois banquetes oferecidos à delegação, onde se tratou principalmente de “irmandades” entre cidades e estados, bem como sobre possibilidades de cooperação econômica.

Em várias das atividades supracitadas havia painéis onde estava escrito, em letras garrafais: “boas vindas à delegação de alto nível”.

A delegação visitou, ainda, um caso exemplar de combate à degradação ambiental (Lago Yundang e a importante Universidade de Xiamen.

O que mais impressionou a delegação, acho eu, foi a infraestrutura: o trem bala, os viadutos, as estradas, as grandes avenidas, os conjuntos habitacionais, as cidades que nos eram apresentadas como sendo “vilas rurais”. Sem falar na beleza dos viadutos e ruas ajardinadas.

Um ponto especial foi a visita ao templo budista de Kaiyuan, nomeado na dinastia Tang, em 738 dC (segundo a datação convencional adotada, por exemplo, no Brasil). Este templo tem uma importância específica, devido a presença da influência hindu.

Valer lembrar que Fujian era um dos pontos da antiga rota da seda e, hoje, é um dos nós da iniciativa cinturão e rota lançada, em 2013, por Xi Jinping.

Aliás, na Universidade de Xiamen existe um instituto totalmente dedicado ao Cinturão e Rota. Um dos temas abordados por este Instituto é o que os chineses denominam de “comunidade de futuro compartilhado”.

Possibilidade que horroriza certa direita brasileira, como se pode constatar nas críticas feitas por certa jornalista brasileira:


ps1.a essa altura, a delegação já está 4 pessoas menor, devido à volta, ao Brasil, de Gleisi Hoffmann, Anne, Dimas e Zunga;

ps2.no dia 17/4 a delegação viaja a Shangai, uma etapa da viagem;

ps3.passo por alto dois pontos turísticos visitados pela delegação, entre os quais o centro histórico de Fuzhou.

domingo, 14 de abril de 2024

Miriam Leitão e suas críticas acerca da opinião do PT sobre a China



A China tem vários problemas, mas neste momento o fuso horário é o mais angustiante. Pior ainda é acordar as 3h da madrugada, cair na besteira de olhar mensagens e deparar com um artigo da Miriam Leitão. No caso, um artigo acusando o PT de ajudar a extrema-direita golpista.

Antes de tratar do grão, confesso que admiro a cara-de-pau da direita gourmet brasileira, especialmente de seus funcionários que trabalham em certos meios de comunicação. Os caras trataram o PT a pau e pedra. Contribuíram para o ascenso da extrema-direita. Mas não perdem a pose e continuam se achando no direito de nos dar lições.

Isto posto, proponho olhar a situação de conjunto. Gostemos ou não gostemos, o mundo está mudando. Os Estados Unidos estão declinando. Outras nações estão ascendendo. A questão de fundo é: o Brasil quer ser uma dessas nações? Ou quer dar um abraço de afogado nos Estados Unidos?

O empresariado brasileiro já fez sua escolha. A China é o principal parceiro comercial do Brasil. Mas a escolha do empresariado aprofunda o modelo primário-exportador. Se queremos outro modelo, é preciso colocar a política no comando. E isso implica em ter relações partido-partido, não apenas governo-governo.

Na China, o núcleo do poder é o Partido Comunista. Que, pasmem senhores defensores da democracia-ao-estilo-ocidental, valoriza a relação com os partidos políticos de todo o mundo, inclusive os partidos de direita.  É outra das ironias dos tempos modernos: enquanto nas democracias ocidentais os partidos políticos vivem um péssimo momento, os comunistas chineses seguem valorizando essa instituição criada na grande revolução burguesa de 1789.

Esta é a situação de conjunto: precisamos ter relações com a China, precisamos mudar o conteúdo dessa relação, precisamos ter relações com o Partido Comunista da China.

Até aí, como diria o grande Hobsbawn, acho que até os cientistas políticos seriam capazes de entender.

A questão seguinte é: vamos lá para dar lições aos comunistas chineses? Explicar que não é assim que se faz? Explicar que eles estão fazendo tudo errado desde 1949? Que o modelo que funciona é o nosso? Que o sucesso do Brasil, o esplendor dos Estados Unidos e a maravilhosa Europa constituem o farol da humanidade?

Na boa, essa atitude professoral e arrogante é simplesmente ridícula.

Eu já estive muitas vezes na China e sei o impacto que causa. Sei que as vezes o impacto é tão grande, que resulta em exageros verbais, bem como no apagamento de problemas e contradições que os próprios chineses reconhecem. Por exemplo: só agora os chineses conseguiram eliminar a pobreza absoluta. Ou seja: eles mesmo admitem que durante mais de 60 anos, o socialismo realmente existente na China convivia com a pobreza absoluta.

Ademais, a opção que os comunistas chineses fizeram - de usar o mercado capitalista, da forma e na escala que eles utilizam - produz pelo menos três efeitos colaterais: a desigualdade social, a corrupção e o individualismo. A combinação dos três tende a enfraquecer e desmoralizar a autoridade do Partido. Sem Partido, o Estado e o plano perdem força e o mercado pode deixar de ser variável subordinada, produzindo desigualdades e podendo, no limite, fazer o socialismo se converter em capitalismo.

Agora, qual seria a alternativa? O socialismo-da-pobreza? O socialismo-de-caserna? Outras alternativas, que vislumbramos, que desejamos, mas que ainda não conseguimos materializar? Podemos ter qualquer opinião a respeito, mas o que não podemos é desconhecer o fato de que a China se tornou, ainda bem, uma variável predominantemente positiva na atual situação mundial.

Isto posto, vamos ao grão: do ponto de vista da Miriam Leitão e, também, do ponto de vista dos Estados Unidos, a China seria uma ditadura. Isso procede?

Depende. No sentido brasileiro do termo, certamente a China não é uma ditadura. Basta comparar a ditadura militar e a ditadura Vargas, com a China, para perceber as imensas diferenças. Então a China seria uma democracia? No sentido brasileiro do termo, também não. Aliás, os Estados Unidos são uma democracia? Quem realmente manda nos Estados Unidos: "nós, o povo"? Ou uma plutocracia que literalmente compra os processos eleitorais?

Acusar a China de ser uma ditadura não é uma análise, mas também não é apenas um xingamento. Prestem atenção na forma de raciocinar da Miriam Leitão: segundo ela, dizer que o encontro entre PT e PCCh foi “inspirador” faria o jogo da extrema direita. Supondo que isso fosse verdade, faço a seguinte pergunta: dizer que a China seria uma “ditadura” faz o jogo de quem? A resposta é: interessa aos Estados Unidos e a seus aliados, que dividem o mundo entre eles e os “autoritários”.

Segundo Miriam, não faria sentido “sugerir” que há uma “irmandade com um partido que governa a China com mão de ferro há 75 anos, que destrói qualquer oposição que apareça, que controla tudo, a imprensa, as redes sociais, as empresas, as artes. Um governo que, na última vez em que houve uma insurgência popular, em 1989, reagiu com um massacre em praça pública, e reprime ou reverte qualquer tentativa de abertura. Como acontece agora em que Xi Jinping colocou mais um ferrolho na porta em favor da sua permanência no poder”.

De fato, o Partido Comunista da China tem um imenso controle, o que não quer dizer que controle “tudo”. Aliás, não tem nenhuma teoria mais desmoralizada do que a do “totalitarismo”: em toda parte, inclusive na China, há contradições, há disputas, há conflitos, há luta de classe, como se viu em 1989, aliás. Paraíso não existe, pelo menos não na Terra. Mas, no caso chinês, vale a famosa frase do Galileu: eppur si muove. A China, com todas as suas contradições, avança. E é esse avanço, não as contradições e problemas inevitáveis, que perturba os gringos.

Miram Leitão diz que a China não “pode ser classificada como país socialista. A economia é dominada pelo capitalismo de Estado e uma elite cada vez mais bilionária de empresários que aceitam a simbiose de suas empresas com o regime. Visitar os colossos chineses de diversas áreas, como a Huawei, é interessante para qualquer pessoa. Estranho é achar que isso é socialismo”.

A frase de Miriam Leitão sintetiza o ponto de vista de muita gente, inclusive de muita gente de esquerda, para quem socialismo e capitalismo seriam incompatíveis. Se tem um, não tem o outro.

Quem pensa isso, mas ainda é de esquerda, deveria renunciar definitivamente ao socialismo. Pois as coisas não mudam do dia para a noite. Uma sociedade capitalista não vai virar uma sociedade não-capitalista por ato de mágica, instantaneamente. Faz-se necessário um processo, uma transição. Nessa transição, durante algum tempo continuará a existir capitalismo. Essa concepção, vale dizer, não foi inventada pelos comunistas chineses. Suas premissas estão nos textos de Marx e Engels, por exemplo num textinho genial chamado “Crítica ao programa de Gotha”.

Agora, quem quiser perceber a diferença prática entre o capitalismo e o socialismo-com-presença-de-capitalismo, basta comparar a evolução da China e da Índia, desde a década de 1940 até hoje. Nos dois países há bilionários, nos países esses bilionários se associam com o Estado, mas na China o comando está no Estado e o efeito disto se vê na elevação continuada da vida material e espiritual da população. Aliás, quando é mesmo que a Índia vai acabar com a pobreza absoluta de sua população?

Claro, a China não corresponde ao socialismo-de-manual onde alguns talvez tenham estudado quando foram militantes do Partido Comunista, como Miriam Leitão aliás foi, algo pelo qual ela merece todo o nosso respeito.

Mas isto faz tempo. Hoje, para Miriam, “o comunismo, como se sabe, não existe”. Eu diria algo parecido, mas diferente: “o comunismo, como sociedade, ainda não existe. Mas existe como movimento e existe como necessidade.”

Existem, no mundo inteiro, muitas pessoas que defendem o comunismo. E existe a necessidade: as imensas capacidades (produtivas e destrutivas) criadas na sociedade moderna precisam ser colocadas sob controle comum, ou vão nos destruir.

Entretanto, concordo com Miriam Leitão que a extrema-direita (e, também, uma parte da direita gourmet) usa o comunismo como espantalho. No que divirjo dela é como combater isso. Explico: o PT não fez um governo radical, mas mesmo assim a direita gourmet (Miriam inclusive) e a extrema-direita nos acusaram disso. Ou seja: para esta gente, inclusive para Miriam, não é a realidade que conta. Por isso, não adiantaria nada a Gleisi Hoffmann queimar uma efígie de Marx; correríamos aliás o risco dela ser acusada de “melancia” (verde por fora e vermelha por dentro).

Assim, o que devemos fazer é falar a verdade. E a verdade é que interessa ao Brasil aprofundar a cooperação com os chineses, interessa ao Brasil que esta cooperação ajude na nossa reindustrialização, para isso precisamos manter ótimas relações com o Partido Comunista da China.

Além de dizer que a China seria uma ditadura, que a China não seria socialista, que o comunismo não existiria, Miriam Leitão também reclama das críticas feitas pelo PT contra os Estados Unidos.

Segundo ela, fazer críticas aos EUA é natural, mas “fazer críticas em tom mais alto do que os chineses é ser mais realista do que o rei”. Fico na dúvida, ao ler isso, sobre o continente em que vive Miriam Leitão. Cá entre nós: se amanhã a China vencer os EUA, os EUA vão continuar existindo. E vão usar toda a força que tiverem para manter um controle ainda maior sobre o continente americano. Por isso, tanto hoje quanto amanhã, os EUA constituem um problema maior para nós do Brasil do que para a China. O que torna ainda mais necessário, para o Brasil, buscar uma aliança com a China. O que não nos impedirá de usar, a nosso favor, as contradições que existem dentro da elite dos EUA, por exemplo entre Biden e Trump.

Miriam Leitão acha que isso é “antiamericanismo estudantil” e “alinhamento com uma potência ditadorial”, quando não passa da boa e velha geopolítica. Acontece que Miriam Leitão tem lado nessa geopolítica. Por isso, onde nós preferimos destacar a pressão dos EUA e da OTAN sobre a Rússia, ela prefere destacar a “culpa” do “autocrata do Kremlin”. Por isso ela lembra do Biden presidente que reconheceu nossa vitória em 2022, enquanto nós também fazemos questão de lembrar do Biden vice-presidente que ajudou o golpe de 2016 contra a democracia brasileira.

Por fim: não sei onde foi que Miriam Leitão leu que “os Estados Unidos têm o monopólio da geração de crises no planeta”. Seguramente não foi num texto aprovado pelo PT. O que certamente ela pode ter lido, em algum texto do PT, é que o capitalismo em geral e os Estados Unidos em particular estão no centro da crise sistêmica vivida pelo mundo, neste santo ano de 2024. Para chegar a essa constatação não se faz necessário ter um “pensamento internacional mais sofisticado”, tão ao gosto dos tucanos. Basta o “rudimentar” método de adotar a prática como critério da verdade.

Termino por aqui, pedindo desculpas pela falta de revisão, pois em Xiamen já são 6h12 da manhã e o chá está quente.


ps. já estava desligando o computador, quando vi que Luis Favre escreveu que o artigo de Leitão é "excelente", "uma aula". Como se vê, o lobo perde o pelo, mas não o vício. Espero ansioso o dia em que alguém escreva a biografia do Favre, pois ele merece. Tá aqui: (2) Luis Favre - Excelente artigo de Miriam Leitão. Uma aula. LF... | Facebook

 

Segue o texto comentado

Míriam Leitão

PT ajuda a versão do adversário ao defender que tem a mesma proposta do PC Chinês

Gleisi Hoffmann vai a Pequim e declara que PC Chinês e seu partidos têm afinidades

Por Míriam Leitão

14/04/2024 04h30  Atualizado há 12 horas

A China é uma ditadura. O PT sempre governou o Brasil democraticamente. Tudo o que a extrema direita golpista quer é vincular o PT ao autoritarismo, apesar de ter sido essa mesma direita que tentou golpear as instituições democráticas. Nos últimos dias, na esteira do histrionismo de Elon Musk, parlamentares brasileiros ligados a Jair Bolsonaro têm gritado no exterior a sandice de que o Brasil é uma ditadura. Por que mesmo, num contexto assim, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, vai a Pequim declarar que seu partido e o PC Chinês têm afinidades, e afirmar que foi “inspirador" o encontro dos dois partidos?

Visitar a China, ter bom relacionamento com as autoridades chinesas, ter relações com o partido governante daquela potência, fazer acordos, isso é natural. O que não faz sentido é sugerir que há uma irmandade com um partido que governa a China com mão de ferro há 75 anos, que destrói qualquer oposição que apareça, que controla tudo, a imprensa, as redes sociais, as empresas, as artes. Um governo que, na última vez em que houve uma insurgência popular, em 1989, reagiu com um massacre em praça pública, e reprime ou reverte qualquer tentativa de abertura. Como acontece agora em que Xi JinPing colocou mais um ferrolho na porta em favor da sua permanência no poder.

A deputada Gleisi Hoffmann disse, segundo relato do jornalista Marcelo Ninio: “É o predomínio do capitalismo que gera um cenário internacional de instabilidade, crises, guerras e revoltas. Nossos partidos, o PT e o PC Chinês defendem que o socialismo é essa alternativa. Um de nossos maiores desafios é exatamente de tornar o socialismo mais influente e mais poderoso em nossos países e também em escala mundial”.

A propósito, a China não pode ser classificada como país socialista. A economia é dominada pelo capitalismo de Estado e uma elite cada vez mais bilionária de empresários que aceitam a simbiose de suas empresas com o regime. Visitar os colossos chineses de diversas áreas, como a Huawei, é interessante para qualquer pessoa. Estranho é achar que isso é socialismo.

O comunismo, como se sabe, não existe. Apesar disso, tem sido o espantalho eterno de quem tem intenções ditatoriais no Brasil. Foi essa ameaça que brandiram os golpistas de 1964, e repetem agora Bolsonaro e seus seguidores. O delírio do risco comunista é apresentado por pastores de má-fé nas suas igrejas. Falas como a da presidente do PT serão usadas como prova de que disseram a verdade.

Os Estados Unidos têm um enorme telhado de vidro e criticá-los também é natural. Fazer críticas em tom mais alto do que os chineses é ser mais realista do que o rei. Concluir que os Estados Unidos são o epicentro de todas as crises internacionais é simplificar o complexo. A boa política externa entende as complexidades desse mundo há muito tempo multipolar. A Rússia invadiu a Ucrânia levando uma guerra para dentro da Europa. Isso é conflito gerado pelo fato de os Estados Unidos não aceitarem a própria decadência? O ditador Vladimir Putin é também um resultado da crise do capitalismo? Nenhuma culpa recai sobre o autocrata do Kremlin?

O governo de Joe Biden parabenizou o presidente Lula meia hora depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter declarado a vitória do atual presidente no dia 30 de outubro. Jair Bolsonaro levou 38 dias para reconhecer a vitória de Biden. Bolsonaro conspirou para tentar impedir a posse do eleito, o que culminou na tentativa de golpe de 8 de janeiro. A direita trumpista tinha feito ataque semelhante ao Capitólio, dois anos antes, em 6 de janeiro de 2021, para tentar impedir a posse de Biden. Como tudo isso cabe dentro da visão de mundo de que os Estados Unidos têm o monopólio da geração de crises no planeta?

Há uma doença infantil da qual o Partido dos Trabalhadores nunca se curou. Somando-se os tempos, ele governou o Brasil por quase 15 anos. Já poderia ter desenvolvido um pensamento internacional mais sofisticado, sem alinhamento com uma potência ditatorial, e que evitasse o antiamericanismo estudantil. Aqui no Brasil partido é partido, governo é governo —ao contrário da China, aliás — mas o que a presidente do PT diz será usado pelos que querem rotular o atual governo de ditatorial, ou dizer que o espectro do comunismo ronda o Brasil.

sábado, 13 de abril de 2024

Aventuras do PT na China (parte 8)


Dia 13 de abril, a delegação petista partiu de Pequim em direção a outras cidades da China.

Qual o significado político das conversas mantidas até agora?

Cada integrante da delegação certamente tem sua avaliação; o que segue é, portanto, uma opinião pessoal.

Destaco os seguintes diálogos: com um dos 7 principais líderes do PCCh, com o departamento de relações internacionais do Partido, com o ministério de relações exteriores do governo, com a Escola central, com uma grande empresa e com o embaixador brasileiro.

Destes diálogos, extraio as seguintes conclusões:

1/a China tem plena consciência de que estamos em uma década decisiva, basicamente porque os Estados Unidos não vão esperar que a ascensão chinesa atinja um ponto irreversível;

2/por conta disso, China está buscando dar um salto de qualidade em sua capacidade de defesa, em pelo menos cinco planos:

-melhorando a vida do povo;

-ampliando a capacidade tecnológicas;

-reforçando a autoridade do Partido;

-aprimorando o preparo das forças armadas;

-aprofundando as alianças internacionais.

3/socialismo para os chineses é, fundamentalmente, a melhoria contínua da vida material e espiritual do povo. Socialismo com características chinesas é, para eles, essencialmente o mercado submetido e à serviço do plano, plano feito por um Estado à serviço do povo. Neste sentido, eles com razão se afirmam “marxistas”, pois estão desenvolvendo as forças produtivas, forças produtivas cada vez mais sociais, postas sob controle cada vez mais coletivo;

4/entretanto, a opção por usar o mercado, da forma e na escala que eles utilizam, produz pelo menos três efeitos colaterais: a desigualdade social, a corrupção e o individualismo. A combinação dos três tende a enfraquecer e desmoralizar a autoridade do Partido. Sem Partido, o Estado e o plano perdem força e o mercado pode deixar de ser variável subordinada, levando no limite o socialismo a se converter em capitalismo;

5/portanto, a operação que Xi Jinping está liderando desde 2012 visa, no essencial, garantir que a  política de reforma e abertura, iniciada em 1978, continue servindo para fortalecer o socialismo. No fundo, trata-se das “persistências” defendidas por Deng: persistir no socialismo, na ditadura do proletariado, no papel dirigente do Partido, no marxismo e no pensamento Mao Zedong;

6/uma novidade está na dimensão cada vez mais internacional da tarefa. Não há como não exportar capitais, não há como evitar o enfrentamento com os EUA e seus aliados. Portanto, é preciso “combinar Go com Xadrez”. Por um lado, rodear os EUA, de tal forma que reduza as chances de um conflito militar global. Por outro lado, se preparar para vencer um eventual conflito militar direto;

7/o projeto Cinturão e Rota é a mais vistosa, embora não a única, expressão da “Opção Go”. A insistência dos chineses na “adesão” do Brasil ao Cinturão e Rota tem, no fundamental, uma motivação geopolítica. Assim como tem motivações geopolíticas a resistência exibida por aqueles setores da elite política e econômica do Brasil que são contrários à adesão. Dito de outra forma: há espaço para vários tipos de arranjo econômico, pelo simples fato de que a adesão do Brasil não tem preço!

8/no governo FHC firmamos uma parceria estratégica com a China. No governo Lula firmamos uma parceria estratégica global. Os chineses acenaram, agora, para o que eles chamam de “futuro compartilhado”. O nome é auto-explicativo. A questão, no fundo, é essa: com quem queremos compartilhar a construção do futuro. Com os chineses há e haverá contradições. Mas com os EUA houve, há e seguirão existindo antagonismos imensos e insolúveis. O resto é detalhe, que uma boa negociação pode resolver.

Outra dimensão da relação com a China é o que nós, como Partido, devemos aprender com a experiência deles, particularmente com a experiência centenária do PCCh.

Num resumo: aprender muito, copiar nada.

Aprender exige estudar. A verdade é que conhecemos muito pouco acerca da realidades atual e da história chinesa. 

Aprender exige, também, conhecimento direto: troca de delegações, contatos bilaterais, intercâmbios em múltiplos terrenos (governos, parlamentos, academia, cultura, turismo etc.).

Mas aprender não é copiar. 

Se quisermos contribuir para que exista um  “socialismo com características brasileiras”, um Estado dirigido pela classe trabalhadora, um Partido à altura das tarefas históricas e uma grande revolução política e social, então precisamos nos dedicar a estudar mais e a transformar mais a realidade brasileira, a começar pelo nosso próprio Partido.

Por último, o Brasil tem imensas possibilidades. E pode - se operar certo e rápido - utilizar a difícil situação que vive o mundo, em alavanca para darmos um salto imenso. Mas para isso é preciso superar inúmeros problemas, a começar pela mediocridade que predomina em nossa área econômica. O “austericidio”, termo utilizado por uma resolução do Diretório Nacional do PT, nos mantém prisioneiros do agronegócio e da especulação financeira. Nosso ministro da Fazenda bem que poderia dar um rolé pela China. Sem copiar nada, mas teria muito o que aprender!


ps1/a delegação foi à Cidade Proibida e a Muralha da China. No mesmo dia fiz uma segunda visita ao Museu da história do Partido. Por isso, não tenho como relatar nada, exceto constatar o exemplar estado físico que a delegação exibia ao regressar de horas de caminhada!

ps2/a delegação visitou a empresa Huawei. A impressão é que, bem mais cedo ou um pouco mais tarde, romperão os anos de atraso que a China ainda exibe no terreno dos chips;

ps3/a delegação manifestou inúmeras vezes a importância da China contribuir mais para que Cuba supere sua crítica situação atual. Cabe-nos fazer gestão ainda maior junto ao governo brasileiro. Afinal, se os chineses tem motivos para ajudar Cuba, nós temos muito mais!

ps4/numa delegação composta por 28 pessoas, não há como evitar aqueles “momentos excursão”, alguns engraçados, outros nem tanto. Mas estes serão transmitidos oralmente, o que é muito mais divertido, além de mais saudável!

ps5/as próximas partes das “Aventuras do PT na China” sairão em data incerta.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Pimenta e o direito das mulheres

Pimenta, do PCO, reclama que eu não refutei seus argumentos.

A reclamação está aqui: https://www.google.com/url?rct=j&sa=t&url=https://www.brasil247.com/blog/valter-pomar-a-desajeitada-arte-de-sair-pela-tangente&ct=ga&cd=CAEYASoSNjg3Njk0NjgxMjI3MTc2NTMyMhpmM2Q5MzA2Y2Y0MmI2NzM3OmNvbTpwdDpCUg&usg=AOvVaw3a85WcQwtq36DE2tSGgwu3

 A bem da verdade, eu os desconsiderei, exceto um: a “liberdade de expressão irrestrita”. 

Acerca disso, reitero: numa sociedade de classes, não existe liberdade “irrestrita”.

Pimenta não concorda. Segundo ele, seria uma “tolice” dizer que numa sociedade de classes, defender os direitos de uns implica em restringir os direitos de outros.

Segundo Pimenta, “se defendo, por exemplo, o direito de voto para as mulheres, não estou proibindo o direito de voto para homens”.

O segredo da tergiversação acima está na palavra “proibir”. Se ao iinvés de “proibir”, o termo for “restringir”, é óbvio que ampliar o direito das mulheres restringe o poder até então absoluto dos homens. 

Pimenta também diz que “se dou ao povo o direito de falar, não estou tirando nada de ninguém, a não ser dos autoritários”. 

Dar ao povo o “direito de falar” - se for para valer - significa “tirar” da classe dominante o “monopólio da fala”, exercido através do controle empresarial dos grandes meios de comunicação.

É assustador que um autoproclamado marxista, defensor da luta de classes, não se dê conta disto. 

Mas isto é um problema apenas para quem é marxista. 

Do ponto de vista da “causa operária”, o que preocupa mesmo é a defesa que Pimenta e  o PCO fazem da liberdade de Musk e de Brazão.

É isto que os torna aliados objetivos da extrema-direita. 


Aventuras do PT na China (parte 7)



 


O prédio do Museu tem muitos andares. A exposição sobre a História do 
Partido ocupa três andares. Um andar é dedicado ao período 1921-1949. 
Nele o pai de Xi Jinping aparece 1 vez. Outro andar é dedicado ao 
período 1949-2012. Nele há uma foto de Xi Jinping e de seu pai. Um 
terceiro andar é dedicado inteiramente ao período iniciado em 2012, com 
a eleição de Xi Jinping para a secretaria-geral do Partido. Mas voltemos 
a 1949.

Logo no início há uma grande tela, onde fica sendo exibido um filme 
sobre a solenidade realizada dia 1 de outubro de 1949. Um detalhe 
interessante é que o filme é colorido: foi doado pelos russos em 2019. 
Antes os chineses só tinham um filme preto e branco. No filme aparecem 
os líderes do PC e dos 8 partidos que integram o Conselho Político 
Consultivo do Povo Chinês, na sacada da entrada principal da Praça da 
Paz Celestial.

Num espaço próximo está o uniforme usado por Mao na solenidade. Aliás, 
isto se repete em outros momentos: a exposição de roupas, chapéus, 
armas, outros utensílios utilizados pelos militantes que aparecem nas 
fotos. O traje mais onipresente é aquele que ficou conhecido como 
"tunica Mao", uma das marcas registradas da revolução chinesa.

Em seguida vem as fotos do estabelecimento de relações e da assinatura 
do tratado de amizade com a URSS, ocorridos em outubro de 1949 e em 
fevereiro de 1950, respectivamente. Salvo engano, não aparece no Museu 
nada que remeta para a ruptura de relações entre China e URSS, ocorrida 
ao redor de 1960.

Se dá destaque para a participação chinesa na Guerra da Coreia. Aliás, 
há dois filmes recentes sobre o tema: "A batalha do lago Chanjin" e "The 
Volunteers: to the War".

Salvo engano, não há nada sobre a guerra entre China e Vietnã, em 1979.

A exposição lembra a aprovação da Constituição da China, em 1954, assim 
como dá destaque a cada um dos congressos realizados pelo Partido. Há 
diversas passagens mostrando os progressos sociais e econômicos 
vivenciados pela China depois de 1949, desde os carros "Vento Leste" e 
"Bandeira Vermelha", passando pela exploração de petróleo e o regresso, 
ao país, de cientistas dispostos a colaborar com a reconstrução da 
pátria.

Há uma estátua de Lei Feng, o revolucionário modelo, falecido aos 22 
anos, que serve de inspiração para um dia especial em que todo militante 
deve estudar a respeito.

A grande revolução proletária merece uma menção minimalista, que salvo 
engano não inclui, nem lá nem em nenhum outro lugar, a Gangue dos Quatro 
e a Madame Mao. Mas tem destaque as visitas de Nixon e de Kissinger, 
assim como a participação de Deng Xiaoping na Assembleia Geral da ONU.

Em 1976 morrem os três grandes: Chu Teh, Chu Enlai e Mao Zedong. Em 77 
as Universidades reabrem matrículas. E em curto espaço de tempo, Deng 
assume o comando político do partido, embora nunca tenha sido 
secretário-geral.

Inúmeras fotos e frases suas ocupam espaço importante na exposição. 
Entre elas, algumas que não combinam nem um pouco com a imagem, tão 
difundida no Ocidente, de que Deng seria um "revisionista". Por exemplo, 
os quatro princípios destacados por Deng eram: persistir no caminho do 
socialismo, persistir na ditadura do proletariado, persistir na lidea 
rança do Partido Comunista, persistir no marxismo e no pensamento 
maozedong.

Destaca-se a terceira sessão plenária do oitavo comitê central, onde foi 
aprovada a política de reforma e abertura. E, também, o congresso 
realizado em 1982, que aprovou a consigna do socialismo com 
características chinesas.
Destaca-se, também, o papel que a produção de alimentos teve para o 
êxito das reformas.
Nada é dito sobre os “Incidentes na Praça Tianamen” (episódio conhecido 
no Ocidente como o “massacre da Praça da Paz Celestial. Tampouco se faz 
referência ao Zhao Ziang, secretário-geral as vezes denominado de 
“Gorbachev chinês”, que em 1989 foi preso e mantido em prisão domiciliar 
até sua (dele) morte.
A exposição pula direto para Jiang Zemin, sob cuja gestão a China 
recebeu de volta Hong Kong (1997) e Macau (1999), assim como entrou na 
OMC.
Depois vem Hu Jintao, sob cujo governo se concede isenção total, ou 
seja, desde então e até hoje não pagam impostos.
Então vem as Olimpíadas, a crise internacional e... a eleição de Xi 
Jiping, que dá início ao quarto e último período em que está dividida a 
história da República Popular da China.

Esta parte tem memos museografia histórica e tem mais propaganda. 
Fala-se dos congressos realizados no período, da vida melhor para o 
povo, da revitalização da nação chinesa, do sonho chinês, da Rota e 
Cinturão da Seda, da comunidade de futuro compartilhado, da reforma 
militar, da civilização ecológica, dos BRICS, da erradicação da pobreza 
extrema.
Além de uma overdose de fotos de Xi Jinping. E de muita ciência e 
tecnologia na veia, sendo que uma boa parte dos produtos demostrados são 
militares.

A exposição, cuja visita a passo rápido dura cerca de 2 horas, termina 
com Xi Jinping fazendo um discurso, devidamente fardado com a “túnica 
Mao”.

Quem não entendeu o recado, volte para o princípio!