quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Lula fala sobre Alckmin

Foi bem interessante a entrevista concedida por Lula, no dia 19 de janeiro de 2022, à chamada mídia independente.

Foram tratados diversos assuntos, cada um dos quais merece ser analisado detidamente.

Um destes assuntos foi a vice, abordado diretamente nas perguntas de Laura Capriglioni (Jornalistas Livres) e de Luís Nassif (GGN).

Ao final, reproduzo na íntegra as duas respostas dadas por Lula, com base na transcrição feita pelo Adriano Bueno.

Na resposta à Capriglioni, Lula iniciou dizendo o seguinte: “Oh Laura, eu sinto que você construiu uma quantidade de defeitos pra poder falar do Alckmin”.

A rigor, os defeitos citados por Laura foram todos construídos por Alckmin, que governou o estado de São Paulo por mais tempo que seus ex-colegas de Partido (Covas, Serra, Dória).

Defeitos à parte, Lula lembrou que Alckmin ainda não “definiu pra que partido ele vai”, premissa para qualquer decisão a respeito de vice.

Lula reiterou também ser “candidato pra ganhar as eleições, num momento em que o Brasil está infinitamente pior do que estava em 2003”, sendo que “ganhar eleições é mais fácil do que governar”, motivo pelo qual precisamos “conversar com as pessoas”, “fazer alianças”, “construir parcerias”.

Neste contexto, Lula afirma: “Nós temos divergência? Temos. Por isso pertencemos a partidos diferentes. Temos visão de mundo diferente? Temos”. Mas “não terei nenhum problema se tiver que fazer uma chapa com o Alckmin pra ganhar as eleições e pra governar esse país”; “da minha parte não existe nenhum, nenhum problema de fazer aliança com o Alckmin e ter o Alckmin de vice”.

O divertido é que Lula engata o “não tem nenhum problema” no seguinte raciocínio: “Nós vamos construir um programa de interesse nacional (...) a prioridade é o povo brasileiro. A prioridade é o povo trabalhador. A prioridade é a classe média baixa. A prioridade é o povo que está desempregado (...) E eu espero que o Alckmin esteja junto. Sendo vice; não sendo vice”.

Um problema é o seguinte: desde 1995 até 2018, Alckmin “não esteve junto”. Pelo contrário, foi um dos principais defensores e executores do programa oposto aos interesses nacionais, aos interesses do povo, dos trabalhadores.

O que teria mudado?

Segundo Lula, “me parece que ele se definiu de fazer oposição definitiva não apenas ao Bolsonaro, mas também ao ‘dorismo’ aqui em São Paulo. É importante lembrar que o PSDB do Dória não é o PSDB socialdemocrata do Mário Covas, do Fernando Henrique Cardoso, do José Serra, criado no período da Constituinte, no tempo do Franco Montoro”.

Supondo que Lula esteja certo no tocante a qual seria a atitude de Alckmin frente a Bolsonaro e a Dória, resta saber se Alckmin também fará “oposição definitiva” ao programa neoliberal, encabeçado por ele desde 1995, na companhia principalmente de FHC, de Serra e demais “socialdemocratas”, desde antes até bem depois de 2002.

Há algum indício disto?

Há alguma declaração de Alckmin neste sentido?

Ou a razão estaria mais próxima do indicado por Luis Nassif?

Para Nassif, Alckmin é “um sujeito leal, um sujeito de boa índole”, mas teria na cabeça “a questão do mercado e a questão do modelo Fernando Henrique Cardoso”.

Por estes motivos, Nassif manifestou preocupação com a hipótese de algo acontecer com Lula e, por conta disso, Alckmin vir a assumir a presidência.

A resposta de Lula a esta questão foi baseada no máximo pensamento positivo:  além de minimizar as ameaças e riscos, afirmou que “às vezes a gente pensa no que a pessoa foi, e a gente tem medo de pensar no que a pessoa vai ser. O ser humano, ele é mutante, ele vai se transformando” (as vezes para pior, lembra o próprio Lula).

Neste ponto do raciocínio, Lula volta a questão do programa: “Nós vamos ganhar as eleições com um programa. Esse programa será aprovado pelas forças políticas que vão compor a minha aliança política”.

E aí é utilizado um truque muito conhecido dos mágicos: fazer as pessoas olharem para outro lugar. Lula vinha falando de Alckmin e de repente passa a falar do Zé Alencar (como antes falara do Teotônio Vilela). E como ambos eram legais, Alckmin haverá de ser legal também...

....se ele quiser, é claro.

Lula diz textualmente o seguinte: “se as forças políticas que me apoiam decidir se o Alckmin é vice, que ele esteja ouvindo o que eu tô falando, porque ele tem que provar que ele vai ter que ser igual ou melhor que o Zé Alencar”.

Zé Alencar, vamos lembrar, era um crítico da política de juros altos e um defensor da indústria.

Alckmin é da turma que destruiu a indústria nacional e alavancou o setor financeiro. Digo “é" e não "foi" da "turma” pois, embora ele tenha saído do PSDB, Alckmin não deu nenhuma demonstração de que o PSDB saiu dele.

Talvez por isso Nassif tenha voltado a insistir no tema, insinuando o risco de ações contra a vida de Lula.

A resposta de Lula foi a seguinte: esse país não tem essa cultura, sabe, a cultura nossa é da mentira, como foi feito com Getúlio Vargas, como foi feito com Juscelino Kubitscheck, como foi feito com João Goulart, como a vida inteira foi feito com o Brizola, como foi feito com Miguel Arraes, como tentaram fazer comigo”.

O país eu não digo, mas certamente a classe dominante usa e abusa da mentira. Mas não só. Para ficar nos casos citados: há fortes indícios de que Juscelino e Goulart foram assassinados. E seja por qual motivo for, os vices neste país não são figuras decorativas. Portanto, colocar na vice um neoliberal é dar sorte para o azar.

Lula afirmou ainda, na resposta a Nassif, o seguinte: “eu não quero ser um candidato do PT. O PT é o meu partido, mas eu quero ser candidato de um movimento que esteja disposto a resgatar a decência do povo brasileiro; a dignidade do nosso povo; e o direito dele ser feliz e viver dignamente. É esse movimento que vai reestabelecer a democracia”.

De fato, a candidatura de Lula não pode ser apenas do PT. Seja no primeiro, seja no segundo turno, mas especialmente no governo, Lula precisa expressar um “movimento” muito mais amplo em defesa da, por exemplo, dignidade do povo brasileiro.

Dignidade esmagada pelos governos tucanos, por exemplo no massacre de Pinheirinho (2012), no qual Alckmin demonstrou boa parte da “boa índole” e da “lealdade” dos tucanos.

Por estas e por outras razões programáticas, Alckmin deveria ser comparado não com José de Alencar, mas com Temer. E também por isso deve ser mantido bem longe da vice e também dos elogios imerecidos.


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SEGUE A TRANSCRIÇÃO FEITA PELO ADRIANO BUENO

Entrevista do Lula à mídia independente

TV 247, 19 de janeiro de 2022

Laura Capriglioni - Jornalistas Livres: Bom, é... Bom dia presidente Lula. Eu não poderia abrir essa rodada de perguntas sem pegar a grande interrogação desse momento. Eu sei que o senhor acabou de dizer que nem sabe se será candidato; o Alckmin, nem sabemos se será candidato; mas eu queria perguntar pro senhor, se o senhor discutindo assim... em cima da experiência vivida, o senhor imagina uma chapa do PT pra derrotar o Bolsonaro – porque que é isso que se trata, a gente tem que derrotar o Bolsonaro como primeira missão – mas o senhor imagina uma chapa pra derrotar o Bolsonaro, que o PT lidere e que tenha como vice o cara que fez o massacre do Pinheirinho; o cara que perseguiu professores; o cara que bombardeou secundaristas; o cara que pegou e... é o principal responsável pelas chacinas que ocorreram na periferia de São Paulo em 2006. Então, eu queria perguntar pro senhor se, em tese - já que não estamos discutindo nomes - se em tese o senhor admite uma composição como essa no governo? Não estou falando como aliança... aliança a gente faz com todo mundo pra derrotar o Bolsonaro. Mas no governo, como vice-presidente?

Lula: Oh Laura, eu sinto que... (risos) Eu sinto que você construiu uma quantidade de defeitos  pra poder falar do Alckmin. Deixa eu te dizer uma coisa. Eu não sei se vocês perceberam que só não tem falado do assunto: o Alckmin e eu. Você vê todo mundo falar todo santo dia. Você vê todo mundo dar palpite. Mas você não vê uma fala minha, uma fala do Alckmin. Por uma razão simples: o Alckmin saiu do PSDB e não se definiu pra que partido ele vai. Ele é um homem que não tem partido, hoje. E eu não defini a minha candidatura. Então não pode ter nem candidato, nem vice. É o óbvio, tá? Eu queria dizer isso, pra ficar claro. A segunda coisa é o seguinte: eu não sou candidato para ser protagonista. Eu sou candidato pra ganhar as eleições. E sou candidato pra ganhar as eleições, num momento em que o Brasil está infinitamente pior do que estava em 2003 quando eu tomei posse. Economicamente, politicamente, socialmente... o Congresso está muito, mas muito, muito, muito pior do que o Congresso que eu tomei posse em 2003. Ganhar umas eleições é mais fácil do que governar. E governar significa que você tem que adquirir possibilidade muito grande de conversar com as pessoas. Por isso é que nós precisamos fazer alianças. Por isso é que nós precisamos construir parcerias. Tá? Eu tive com o governador Alckmin durante 4 anos na presidência (que eu fui, porque no outro período foi o Serra). E a minha relação com o Alckmin, ela foi... foi... eu não tenho nenhuma... nenhuma divergência da minha relação como presidente com o Alckmin, e nem com o Serra. Tinha uma conversa com os dois extraordinária, sabe, na relação entre os entes federados. Nós temos divergência? Temos. Por isso pertencemos a partidos diferentes. Temos visão de mundo diferente? Temos. Mas isso não impede, que se for necessário, que você construa a possibilidade das divergências serem colocadas num canto, e você colocar as convergências no outro canto pra você poder governar. Eu não terei nenhum problema se tiver que fazer uma chapa com o Alckmin pra ganhar as eleições e pra governar esse país. Só não posso dizer pra você que vou fazer porque o Alckmin tem que definir  pra que partido ele vai; nós vamos ter que saber se o partido que ele vai está disposto a fazer aliança com o PT; porque nem as nossas alianças mais certas estão fechadas. Quem lê a imprensa, vê todo dia, sabe, parece que tá tudo certo o PT e o PSB, daqui a pouco parece que tá tudo, sabe... destruído. Sabe? Daqui a pouco você vê com o PSol, a mesma coisa. Daqui a pouco você vê, sabe... com o PSD do Kassab. Então nós precisamos ter tranquilidade. Porque o tempo vai se encarregar. E o tempo tá chegando. Nós temos que definir a questão das federações. Nós temos que definir a questão das alianças políticas. E aí, quando a gente fizer aliança, o partido pode reivindicar a vice, pode reivindicar o cargo. Eu só quero te dizer que da minha parte não existe nenhum, nenhum problema de fazer aliança com o Alckmin e ter o Alckmin de vice. Não tem nenhum problema. Nós vamos construir um programa de interesse nacional na sociedade brasileira. Todo mundo sabe o que eu quero, sabe, pra esse país. Não abro mão de que o... a prioridade é o povo brasileiro. A prioridade é o povo trabalhador. A prioridade é a classe média baixa. A prioridade é o povo que está desempregado. Aquele chamado descamisado, que o Collor falava em 1989. Essa gente tem que ser nossa prioridade. E eu espero que o Alckmin esteja junto. Sendo vice; não sendo vice. Sabe? Porque me parece que ele se definiu de fazer oposição definitiva não apenas ao Bolsonaro, mas também ao “dorismo” aqui em São Paulo. É importante lembrar que o PSDB do Dória, não é o PSDB social democrata do Mário Covas, do Fernando Henrique Cardoso, do José Serra, criado no período da Constituinte, no tempo do Franco Montoro. Então, querida Laura, fique tranquila que na hora que tiver que acontecer eu terei imenso prazer de marcar uma outra coletiva. Se for o Alckmin, trazer o Alckmin aqui, como eu levava o Zé Alencar junto comigo pra mostrar: tá aqui a parceria pra ganhar as eleições. É preciso ele querer; é preciso saber que partido que ele vai entrar; e é preciso saber a definição do meu partido, se vai querer também  que eu seja candidato, porque tudo pode acontecer no PT.

Luis Nassif - Jornal GGN: Ô presidente, tem um teste que a gente fazia com automóveis, mas vale pra Supremo, vale pra Procuradoria, que é a instituição em situação normal de voo e sob estresse. Nós já tivemos a experiência do que que foi o Supremo sob estresse, a Procuradoria Geral da República sob estresse... quando a gente fala no vice-presidente, com todas... o Alckmin tem um conjunto de virtudes: é um sujeito leal, é um sujeito de boa índole. Mas vamos supor o estresse. O estresse é o seguinte: por alguma razão aí, porque ninguém é invencível ou eterno, o presidente sai... o senhor deixa a presidência. Por alguma razão. Ou seja, tem a situação normal que é o Lula indo até o final do governo: o Alckmin seria um vice-presidente tão leal quanto o José Alencar. E uma outra situação, que pode vir a ocorrer, do Lula vir a ter que sair no meio do governo. O projeto Lula nos transformaria num projeto Fernando Henrique Cardoso? O pessoal que votou nesse “projeto Lula”... porque a cabeça do Alckmin, um dos pontos de divergência é a questão do mercado e a questão do modelo Fernando Henrique Cardoso. A vice presidência não deveria ser algo umbilicalmente ligado ao pensamento do presidente?

Lula: Olha, o problema é que, quando a gente pensa a política, às vezes a gente pensa no que a pessoa foi, e a gente tem medo de pensar no que a pessoa vai ser. O ser humano, ele é mutante, ele vai se transformando. Uns se transformam pra pior. Eu vejo muitos comentaristas da televisão brasileira que eram extremistas de esquerda, sabe, há 20 anos atrás. E hoje são direitistas. E fazem julgamento dos outros todo dia. E eu vejo pessoas, como o Teotônio Vilela, que no Golpe de 64 utilizava metralhadora pra atirar em comunistas nas praças de Maceió, e depois virou um símbolo da democracia e dos direitos humanos nesse país. Tá? Eu, eu... o que que eu posso dizer pra você... quando você é candidato, você não... você não... não... não... você não sabe o que vai te acontecer. O que eu sei é o que vai acontecer com esse país. Nós vamos ganhar as eleições com um programa. Esse programa será aprovado pelas forças políticas que vão compor a minha aliança política. Quando eu tomei posse em 2003, a primeira coisa que eu disse foi o seguinte: no nosso governo não tem política de ministros. Não é o ministro que decide fazer uma ponte, um viaduto, e muito menos política de deputado, com emenda. No nosso governo, a política será definida pelo governo. Tudo será de todos. E vai ser assim. Então, veja, como eu acho que não vai me acontecer nada, porque eu tenho um compromisso e acho que Deus vai me ajudar a viver 120 anos, porque já nasceu o cara que vai viver 120 anos e eu fico pensando que pode ser eu. Não é? (risos) Então eu não penso no pior. Eu penso no melhor. Eu penso que eu vou ser eleito presidente se eu for candidato; penso que nós vamos governar esse país; e penso que nós vamos recuperar a alma desse país para o povo brasileiro. O orgulho de ser brasileiro. E obviamente que o vice estará, como esteve o Zé Alencar. O Zé Alencar, eu vou contar pra vocês uma pequena história, pra ninguém ter dúvida. Eu fui convidado pra ir numa festa de 50 anos de vida empresarial do Zé Alencar. O Zé Dirceu foi convidado... foi... foi... telefonaram pro Zé Dirceu pedindo pra ele me convidar. E eu disse textualmente: eu não tenho porque ir em Minas Gerais na festa de um burguesão como o Zé Alencar, sabe. Eu sabia que ele era um grande empresário. Eu falei: o que é que eu vou fazer lá? Não quis ir. Mas aí me convenceram a ir. Cheguei lá tinha uns 20 senadores, tinha uns 10 governadores de Estado. E eu tô lá, com o nariz torcido: o que que eu tô fazendo aqui? E fala sanador, e fala... aí daqui a pouco fala o Zé Alencar. E o Zé Alencar começa a contar a vida dele. Quando ele terminou de falar, eu falei pro Zé Dirceu: encontrei o meu vice! Eu não conhecia o Zé Alencar. Encontrei o meu vice! O Zé Alencar estava disputando uma vaga, me parece que na presidência do Senado, dentro do PMDB. Ele só teve o voto dele. Eu fui conversar com o Zé Alencar no dia que ele só teve o voto dele. Cheguei lá, conversando com o Zé Alencar, e falei: “companheiro, é o seguinte, olhe, eu vim aqui pra te convidar pra ser meu vice. Tem condição. Você teria que sair do PMDB, porque o PMDB está apoiando outro candidato, e eu queria você”. Fomos discutir a entrada dele no PL, acertamos a entrada dele no PL. E eu duvido que alguém tenha a sorte de ter o vice que eu tive com o Zé Alencar. Eu espero... espero, que se as forças políticas que me apoiam decidir se o Alckmin é vice, que ele esteja ouvindo o que eu tô falando, porque ele tem que provar que ele vai ter que ser igual ou melhor que o Zé Alencar. E aí, eu estarei muito tranquilo, porque o vice tem que ajudar a governar esse país. Tem que ajudar a governar esse país de qualquer jeito. Porque esse país não tem mais espaço pra brincadeira, não tem mais espaço pra aventura. E eu vou me cuidar. Vou me cuidar pedindo  pra Mãe Natureza olhar pro Lulinha aqui né, porque eu vou casar com a Janja. Como é que eu posso casar e ter um problema? Eu tenho que casar e viver pelo menos uns 20 anos.

Luis Nassif - Jornal GGN: Mas tem um negócio chamado Escritório do Crime, milícias...

Lula: Ah não, eu não trabalho com essa preocupação, mesmo sabendo que ela possa existir. Eu sinceramente acho que esse país não tem essa cultura, sabe, a cultura nossa é da mentira, como foi feito com Getúlio Vargas, como foi feito com Juscelino Kubitscheck, como foi feito com João Goulart, como a vida inteira foi feito com o Brizola, como foi feito com Miguel Arraes, como tentaram fazer comigo. Eu tive sorte, ajuda de vocês, ajuda dos blogueiros desse país. Eu tive sorte do povo brasileiro, sabe... que me ajudaram aprovar a farsa que foi montada contra mim em vida. Outros não tiveram. Juscelino paga até hoje por um apartamento que nunca foi dele, no Rio de Janeiro. E eu, graças a Deus, consegui desmontar, sabe, o canalha que foi o Moro no julgamento dos meus processos. O Dalanhol. A mentira. O fake News. O Power Point da quadrilha. Tudo isso que quadrilha eram eles. Então, eu acho que nós temos que estar tranquilos. Eu tenho muito juízo. Muito juízo. Eu sei da responsabilidade. Você sabe, Nassif, que eu sou um cara que eu gosto de conversar com as pessoas, eu gosto de ouvir as pessoas. Eu não tomo decisão com 39 graus de febre. Ninguém ache que eu tenho que tomar a decisão agora. Não. Eu vou pensar. Eu vou conversar. Eu vou ouvir. E eu vou decidir. É assim que eu quero governar esse país. Ouvir mais o povo brasileiro. Eu não vou, se for candidato, Gleisi, é importante você estar sabendo: eu não quero ser um candidato do PT. O PT é o meu partido, mas eu quero ser candidato de um movimento que esteja disposto a resgatar a decência do povo brasileiro; a dignidade do nosso povo; e o direito dele ser feliz e viver dignamente. É esse movimento que vai reestabelecer a democracia. É esse movimento que vai dar um golpe no Bolsonaro. É um golpe na urna. Não é um golpe militar; um golpe na urna. E esse negócio dele ficar bravo, dizer que não sabe se vai entregar; que não sabe se vai aceitar; que vai ter Capitólio... não, ele calminho... calminho... pode até sair pela porta dos fundos, como Figueiredo. Mas quem ganhar, vai tomar posse e vai presidir esse país. E é isso que eu tenho certeza. E por isso me preparo. Levanto todo dia 6 horas da manhã. Faço 6 quilômetros todo dia. Faço muita musculação. Faço muita perna, pra poder aguantar a marimba nesse país, e pra poder aguentar a Janjinha também. É isso.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Maringoni ataca Rui Falcão

Por variados motivos, evito ao máximo comentar publicamente as postagens do Gilberto Maringoni.

Recentemente, por exemplo, eu li a seguinte troca de mensagens:


 

Achei tão fora de propósito o elogio de Maringoni ao ditador Geisel, que achei melhor tirar a dúvida. Segue abaixo o diálogo:



Diante do uso firme das categorias ("mudei o antiimperialista para anti Washington") e da lógica impecável (tido como anti-Washington, Geisel seria "uma espécie" de Park, tido como ditador pró-EUA), achei melhor não comentar.

Hoje, entretanto, me vejo na obrigação de comentar uma postagem de Maringoni.

Refiro-me ao seguinte:



Maringoni tem todo o direito de não gostar das posições de Rui Falcão, nem as de ontem, nem as de hoje.

Mas o gosto por caricaturas leva Maringoni a perder a mão.

Afinal, toda a esquerda brasileira está discutindo alianças. 

Esta discussão não é secreta, nem clandestina, tampouco privada. 

É uma discussão totalmente pública. 

Volta e meia a imprensa publica entrevistas com lideranças do PT, do PSOL e do PCdoB. 

Estariam todas "buscando visibilidade"???

Ou só podem dar entrevista os apoiadores de Alckmin?

Na entrevista criticada por Maringoni, a posição de Rui é totalmente contrária a ter Alckmin na vice de Lula.

Maringoni (filiado ao PSOL) é a favor de Alckmin.

Direito dele.

Assim como é direito de Maringoni citar supostos fatos passados, para sustentar críticas presentes. 

Agora, o recurso a este método - "atos cometidos no verão passado" - precisa fazer algum sentido lógico e precisa manter um mínimo respeito ao efetivamente ocorrido.

Sobre os "fatos", na minha opinião Maringoni às vezes simplesmente distorce, às vezes simplesmente falseia. 

Falo isso na condição de quem, entre 1985 e 1995, compartilhou boa parte das posições de Rui; mas que, entre 1995 e 2015, se opôs a boa parte das posições de Rui.

Entretanto, para além da polêmica sobre o efetivamente ocorrido, há algo igualmente relevante, de natureza lógica: é relevante, para julgar a posição atual de Rui acerca de Alckmin como vice, saber como Rui se posicionou frente ao governo Erundina em 1989-1991? Ou como ele se posicionou frente a Pallocci ou a Levy, entre 2003 e 2015?

Adotado este critério, como ficaria o próprio Maringoni, ex-militante do MR8 e ex-militante do PT, até o crucial ano de 2005?

Suponhamos, entretanto, que Maringoni estivesse 100% certo nas críticas feitas contra Rui.

Ainda assim, a conclusão seria: Rui errou no passado e agora está acertando.

Aplicado este mesmo método ao próprio Gilberto Maringoni, a conclusão seria um pouco diferente.

Mas como meu ramo não é o da caricatura, paro por aqui.





quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

O "repúdio" de Berzoini

Tomei um susto ao ler, mas um segundo depois imaginei o ocorrido, entrei em contato com o companheiro Ricardo Berzoini e confirmei a hipótese.

Refiro-me a seguinte postagem: https://blogdacidadania.com.br/2022/01/ex-presidente-do-pt-repudia-abaixo-assinado-contra-alckmin/

Como se pode verificar lendo a matéria, o companheiro Berzoini não usa o termo "repúdio".

Infelizmente, o editor do "blog da cidadania" tomou certa liberdade poética com as declarações do entrevistado.

E por falar em poesia, é notável o número de blogueiros convertidos ao alkimismo, ao ponto de passarem o pano no cidadão (como fez um velho amigo, ao tratar de Pinheirinho). 

Mas isto fica para outro momento. 

Neste quero falar do que efetivamente disse Berzoini.

Segundo a referida matéria, Berzoini teria dito o seguinte: “Nesse momento nós temos que trabalhar com tranquilidade. Eu não faria nenhum documento, esperaria o diálogo interno. E, principalmente, valorizando a opinião de Lula que extrapola o PT.”

No mundo ideal, estaria totalmente de acordo com Berzoni. 

Infelizmente, alguns setores deixaram de lado a "tranquilidade", anteciparam o debate da vice e passaram a fazer campanha pública em favor de Alckmin. 

E o tal "diálogo interno", se existe, não está sendo travado organizadamente nas instâncias do Partido.

Por exemplo: no dia 16 de dezembro de 2021, data da mais recente reunião do Diretório Nacional do PT, só recordo terem falado a respeito alguns poucos e exatamente os contrários. 

Por óbvio, não incluo na categoria "diálogo" o ataque público feito por um vice-presidente nacional do PT à companheira Dilma. 

Sendo assim as coisas, compreendo a opinião de Berzoini, mas também compreendo, respeito, apoio e estimulo a militância contrária a se pronunciar publicamente. 

Entre outros motivos por ser um direito estatutário dos petistas defenderem seu ponto de vista.

Seja como for, caberá - se não inventarem moda - a um encontro do Partido decidir nossa vice. 

Espero  que até lá caia a ficha e todo mundo se convença de  que não faz sentido colocar na vice um cidadão contrário ao que precisaremos fazer no governo. A começar pela revogação da contrarreforma trabalhista.



7 prisioneiros

Assisti há pouco o filme 7 prisioneiros (2021, dirigido por Alexandre Morato, Netflix).

Resumo: quatro rapazes da região de Catanduva viajam para a cidade de São Paulo, para trabalhar e melhorar de vida. O que os espera é uma descida ao inferno. Frente à situação, um dos rapazes vai tendo que escolher entre lutar ou se adaptar. 

Acredito que o filme reproduz de maneira fidedigna - inclusive nas sutilezas - a vida de um pedaço da classe trabalhadora e do empresariado lumpen deste país, bem como o comportamente de uma parte do Estado realmente existente e as opções pessoais (e políticas) feitas cotidianamente por milhões de pessoas.

O desfecho do filme é uma demonstração - no plano micro - de onde pode dar a lógica do melhor fazer um acordo ruim do que correr o risco de uma briga de desfecho incerto

"Virar a página" é possível, mas sempre tem um preço, a começar pelos que ficam para trás. Às vezes uns poucos, as vezes dezenas de milhões.

Assistam o filme.



quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Glosando a entrevista de Quaquá

Recomendo intensamente que todos assistam à recente entrevista do vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, concedida online à TV Fórum no dia 4 de janeiro de 2022.

A entrevista – de que também participaram Miguel do Rosário, Leonardo Giordano e Jorge Chaloub - está disponível no seguinte endereço: https://revistaforum.com.br/politica/quaqua-reafirma-critica-dilma-mulheres-do-pt-fizeram-escarceu-favelas/#

Para quem não puder assistir, segue ao final deste texto uma transcrição literal (com os erros, vícios de linguagem, cacoetes etc.). A transcrição foi feita pelo companheiro Adriano Bueno, que em trechos onde o vice-presidente ficou inaudível ou comeu palavras, sugeriu entre parênteses a palavra oculta de forma a facilitar a leitura. Adriano lembra que parte da entrevista foi concedida dentro de um carro, outra dentro de um shopping, portanto também por isso a transcrição pode conter alguns erros.

A seguir comento as afirmações feitas por Washington Quaquá na referida entrevista.

Quaquá inicia afirmando o seguinte: “Bolsonaro é um perigo. Mas não é um perigo pro mercado não. É um perigo pra humanidade”. E engata a frase: “aqueles que defendem a Casa Grande, que defendem a escravidão, que defendem a subalternidade do povo, eles nunca foram pequenos no Brasil. O problema é que eles saíram do armário. Depois da Ditadura eles foram enfiados no armário, e eles saíram do armário. E saíram do armário com uma figura grotesca, um idiota”.

Do raciocínio acima decorrem duas possibilidades: ou bem 1/toda a classe dominante é fascista; ou bem 2/só os fascistas defendem “a subalternidade do povo”. Aceita a primeira afirmação, vamos para o esquerdismo total, que não enxerga nenhuma diferença entre os inimigos do povo. Aceita a segunda afirmação, vamos para o aliancismo total, segundo o qual só os fascistas são inimigos.

Este tipo de contradição está presente em toda a entrevista de Quaquá. É como um motorista que ziguezagueia no trânsito, dando sinal para um lado e entrando para outro, não por estar bêbado, mas por ser este seu estilo de dirigir. No caso, este é o estilo Quaquá de argumentar, um dos motivos pelos quais sua retórica ainda confunde muita gente.

Quaquá afirma em seguida que precisamos “organizar o povo brasileiro, organizar os democratas pra extirpar esse tipo de gente do convívio da democracia brasileira. A democracia não suporta aqueles que não a querem”.

O trecho acima é bastante característico da contradição que apontamos antes: Quaquá defende “extirpar esse tipo de gente do convívio da democracia brasileira”, mas como sabemos, ele fez e segue fazendo diversas alianças com “esse tipo de gente”. Veremos mais adiante como ele “resolve” a contradição.

Perguntado sobre a polêmica da hora, Quaquá afirma o seguinte: “longe de mim ser desrespeitoso com a presidenta Dilma. Ela é uma figura é... séria... uma figura que tem uma História na esquerda brasileira. Foi uma presidenta injustiçada... no sentido de que foi golpeada... sofreu um golpe institucional. Eu disse isso em entrevista, a direita brasileira rompeu com a institucionalidade, com o pacto democrático de 88, botando uma mulher séria, uma mulher honesta pra fora da presidência da República”.

Diz um ditado que a hipocrisia é a homenagem que o vício rende à virtude. Quaquá afirma que Dilma é “séria”, tem história”, “injustiçada”, “foi golpeada”, honesta”. Ao mesmo tempo, Quaquá reitera que Dilma “não tem mais relevância eleitoral” e a compara com Brizola, que “terminou a sua carreira política com pouca relevância eleitoral”.

A comparação de Dilma com Brizola é um ato falho cometido por Quaquá: afinal, comparar alguém vivo e atuante com alguém morto, que foi importante mas terminou eleitoralmente irrelevante, é uma óbvia desqualificação.

Quaquá considera não ter falado “nenhuma mentira”, ou seja, que a “pouca relevância eleitoral” atribuída por ele à Dilma seria “só uma questão de constatação. É só fazer pesquisa”.

Acontece que foram feitas três pesquisas:  a eleição de 2010, a eleição de 2014 e a eleição de 2018. Dilma foi eleita presidenta da República, foi depois reeleita presidenta e finalmente recebeu 2 milhões e 700 mil votos para senadora da República no estado de Minas Gerais.

Segundo os dados dessas três pesquisas, se Dilma tem “pouca relevância eleitoral”, então fica a dúvida: quem teria tal relevância? E a resposta é: no PT, só Lula.

Portanto, fica a critério de freguês: ou bem Quaquá está mentindo (neste caso, ele estaria conscientemente desconhecendo os fatos, apenas para tentar sustentar uma tese absurda) ou bem Quaquá está adotando um critério ad hoc (os especialistas chamam assim um argumento, uma proposição ou uma hipótese formulada “com o único objetivo de legitimar ou defender uma teoria, e não em decorrência de uma compreensão objetiva e isenta da realidade”).

Mas o problema não para por aí. Num caso ou noutro caso, o resultado prático é reduzir ao mínimo possível a importância política de Dilma. Como já apontamos, Quaquá chega a compara nossa ex-presidenta com um homem célebre, mas morto. Quaquá provavelmente pensa que ao comparar Dilma com Brizola, “uma figura ímpar na História do Brasil”, “uma das grandes figuras da História do Brasil” – ou a elogiar um túnel!! - ele estaria sendo respeitoso com Dilma.

Já a secretaria de mulheres do PT e muito mais gente acha o contrário: que Quaquá foi misógino. Onde estaria a verdade?

A resposta depende em parte de como interpretarmos o trecho a seguir da entrevista, onde Quaquá afirma o seguinte: “eu não fui nada desrespeitoso com a presidenta Dilma. A política não é só eleição, mas do ponto de vista eleitoral, é... eu não eu não vejo com o que ela pode contribuir com uma figura eleitoralmente grande como a do Lula”.

Para facilitar as coisas, vamos supor que estivesse correta a afirmação de Quaquá acerca da relação entre política e eleição. Cabe perguntar: se Dilma não pode contribuir “eleitoralmente” com Lula, quem pode? Existe algum petista além dela capaz de contribuir “eleitoralmente”? E a resposta – se aceitarmos o critério do próprio Quaquá – é: não. Simples assim: não há nenhum outro petista, fora Dilma e Lula, que tenha sido eleito e reeleito à presidência da República.

Por qual motivo, então, Quaquá desqualifica apenas e tão somente a presidenta Dilma?

Este é, na minha opinião, um dos motivos pelos quais a afirmação de Quaquá pode e deve ser considerada misógina.

Para piorar as coisas, a tese de Quaquá acerca da relação entre política e eleição é totalmente incorreta. Refiro-me à frase: “a política não é só eleição, mas do ponto de vista eleitoral, é”. Como fica evidente pelo contexto em que foi dita, Quaquá acha que para influenciar o processo eleitoral é preciso ter voto. Já demonstramos que Dilma possui voto. Cabe perguntar, entretanto: quem não possui voto é capaz de influenciar o processo eleitoral? Ou seu papel é totalmente passivo?

A premissa adotada implicitamente por Quaquá conduz a conclusões políticas antidemocráticas, que contribuem para a oligarquização da política e – se adotadas – significariam a transformação do PT em um partido populista tradicional, onde há chefes populares e massas de seguidores.

Sigamos.

O ataque de Quaquá contra Dilma não se resume ao tema da “relevância eleitoral”. Segundo suas próprias palavras: “ela tratou, é... de forma precária, a... a nossa base de sustentação no Congresso. Tinha um setor político, que inclusive hoje se manifesta no PT contra alianças, que era quem comandava, a articulação política da presidenta Dilma. E esse setor nos levou ao isolamento no Congresso. Nós lançamos uma candidatura, deixamos com que o Eduardo Cunha ganhasse a presidência do Congresso, é... contra nós. Então nós não soubemos manejar a articulação política no Congresso. Foi a crítica que eu fiz”.

Desconheço se Quaquá aplica esse “método” de análise ao ocorrido, por exemplo, entre 2004 e 2005, em pleno governo Lula, quando Severino Cavalcanti foi eleito presidente da Câmara dos Deputados. Também desconheço se Quaquá acredita ser possível ganhar sempre as disputas dentro do Congresso, bastando para isso saber “manejar” a “articulação política”. Igualmente desconheço se Quaquá acredita mesmo ser possível responsabilizar a presidenta pelas decisões adotadas pela bancada parlamentar do PT.  Mas me parece óbvio ser uma forçada de mão atribuir à Dilma pessoa física toda ou a maior parte da responsabilidade no processo que levou à eleição de Eduardo Cunha.

O “método” adotado por Quaquá conduz ao seguinte desdobramento: Dilma tem culpa na eleição de Cunha, Cunha foi decisivo no golpe, Dilma tem culpa no golpe. Vale dizer que na entrevista para a Fórum, Quaquá não faz este desdobramento, mas noutros momentos ele fez e como na entrevista não desfez, dou por entendido que ele segue pensando isso.

Dilma, Lula, Quaquá, eu e todos nós cometemos erros. E sem dúvida estes erros contribuíram para a vitória de nossos inimigos. E os erros cometidos pelos dirigentes causam muito mais dano do que os erros cometidos pelos militantes de base. Entretanto, a depender de como se construa o raciocínio, o resultado é: a vítima é duplamente penalizada. Além de sofrer os efeitos da violência, ainda tem que carregar a responsabilidade pelo ocorrido.

As classes populares, os explorados, os dominados, são geralmente submetidos a este tipo de situação: voce é pobre? Não tem um emprego decente? Está desempregado? Culpa sua! No caso das mulheres, em particular, é clássico o argumento machista segundo o qual a violência é atribuída aos atos cometidos pela vítima.

As afirmações de Quaquá sobre as responsabilidades de Dilma no processo do golpe se encaixam neste tipo de raciocínio. Este é o segundo motivo pelo qual, na minha opinião, o raciocínio de Quaquá pode e deve ser acusado de misógino.

Quaquá vai dizer mais adiante que, se absolutizarmos este tipo de raciocínio, nenhuma mulher poderia ser criticada por um homem. De fato, assim é, se aplicada a máxima reductio ad absurdum. Mas a verdade é sempre concreta e aparece logo em seguida na entrevista de Quaquá, quando ele afirma o seguinte: “e depois, porra, o Setorial de Mulheres do PT veio tirar uma nota dizendo que era misoginia, entendeu? Ah, o movimento de mulheres precisa tá nas favelas, tá nas comunidades organizando as mulheres, precisando de salário, de emprego, de creche, não é? Precisando de uma vida melhor nesse país, não entrar na luta política, onde é que já se viu se agora fazer crítica a um político ou a uma política vai virar misoginia”.

Beira o inacreditável ouvir este tipo de frase na boca de um vice-presidente nacional do PT: um homem dizendo às mulheres onde elas devem estar, como elas devem se comportar, o que elas devem, podem ou não podem fazer.

Ou seja: Quaquá dá provas seguidas de não ter o direito de reclamar contra o fato de estar sendo acusado de misoginia.

Quaquá reclama: “onde é que já se viu se agora fazer crítica a um político ou a uma política vai virar misoginia”. Mas esta reclamação é uma tergiversação: afinal, seguramente muitos e muitas que acusam Quaquá de misoginia têm críticas à Dilma. Portanto, a acusação feita a Quaquá não é genérica, em tese, absoluta. A acusação diz respeito às críticas concretas feitas por ele. Ou seja: a depender de como uma crítica seja feita, ela pode ser misógina, assim como pode ser racista etc.

Neste ponto da entrevista, Quaquá defende o mais amplo direito de crítica e debate: “a crítica política é parte do processo democrático, e do processo da esquerda. Ninguém mais do que a esquerda quer que a nossa atuação política seja feita sob crítica e autocrítica. É um princípio. E tentaram impedir a minha voz. Imagina, já tentaram tanto. Quando eu nasci, na Favela do Caramujo, aqui em Niterói, eu nasci sem voz. Foi o PT que me deu voz. E agora tem gente do PT querendo impedir que eu debata os problemas do Brasil? Onde já se viu isso?”

As frases acima são pura demagogia. Ninguém está tentando impedir Quaquá de “debater os problemas do Brasil”, ninguém está tentando “impedir a (sua) voz”. O tema é mais simples: quem fala o que quer, pode ouvir o que não gostaria. Quaquá atacou e mentiu; esperava o quê? Aplausos?

Isto posto, fica a pergunta: por quais motivos Quaquá se achou na necessidade de entrar nesta polêmica sobre Dilma?

Uma possível explicação está no restante da entrevista: contraditoriamente, apesar de achar que ela não teria relevância eleitoral, ele parece considerar que o não comparecimento de Dilma a um jantar constituiria uma ameaça à linha política defendida por ele.

Isto seria verdade? Não faço ideia, até porque não sei a opinião de Dilma sobre o tema da vice-presidência da República. Mas tenho a impressão, pelas falas que tenho ouvido ela fazer nos últimos anos, que ela não pensa o mesmo que Quaquá sobre aspectos centrais da atual realidade.

Voltemos à entrevista de Quaquá à Fórum.

Ele afirma que “se a gente, é... é... não colocasse o José de Alencar como vice do Lula, e não tivesse ampliado as alianças em 2002, nós não teríamos o Lula (como) primeiro operário presidente do Brasil fazendo o governo que fez”.

É fato que não há como provar o contrário. O máximo que se pode fazer é especular, por exemplo que venceríamos a eleição de 2002 de qualquer forma. Entretanto, a presença de Alencar na vice não impediu a crise de 2005. E foi só depois de 2005, mais precisamente depois que as posições de Pallocci e Meirelles perderam força, portanto depois que Dilma e Guido assumiram postos fundamentais, é que o governo Lula decolou.

Portanto, é um reducionismo resumir a história em “vice” mais “amplas alianças”.

Depois Quaquá afirma o seguinte: “se há uma coisa que o PT ensinou na vida brasileira, foi a geração do Zé Dirceu, do Delúbio, essa geração ensinou pra esquerda brasileira: sob o comando da esquerda, alianças têm que ser amplas. Porque a esquerda brasileira já fez alianças com a burguesia, mas sob o comando da burguesia. Como fez o Prestes, que aliás, é passível também de críticas”.

Naquela parte que interessa para este debate, a afirmação feita por Quaquá é correta, a saber: “sob o comando da esquerda, alianças têm que ser amplas”. É correta, mas é insuficiente. Pois alianças não são boas nem ruins, úteis ou inúteis, em tese. As alianças devem ser julgadas a luz dos objetivos programáticos, estratégicos e táticos. A “amplitude” depende disso.

Por exemplo: se o objetivo é derrotar o capital financeiro, pode fazer sentido fazer “alianças amplas” com setores da burguesia contrários ao capital financeiro. Mas não faz sentido fazer “alianças amplas” com o próprio capital financeiro.

Portanto, o problema da aliança estar sob nosso comando ou não é importante, mas tão importante quanto é saber: alianças para fazer o quê? Este detalhe é secundarizado na digressão feita por Quaquá.

Sobre alianças, Quaquá afirma ainda; “nós ensinamos, que tendo a esquerda como cabeça da aliança, é possível fazer uma aliança ao centro, ganhar governos, pra acumular forças. Se nós tivemos erros nos nossos governos, foi o erro de não ter organizado o povo, organizado a esquerda, pra sustentar as mudanças. O que não significa que as alianças com a direita e com o centro sejam negativas, pelo contrário”.

É muito comum ouvir este tipo de raciocínio, que parece as vezes ser o máximo de autocrítica que alguns setores do nosso Partido ousam cometer: “não organizamos o povo”. O que muitas vezes não se diz é o seguinte: certas alianças dificultam organizar o povo. Como “organizar o povo”, se isto nos levará a entrar em choque com um “aliado”? Portanto, também deste ponto de vista algumas alianças podem ser “negativas”.

Além disso, as alianças podem ser negativas também do ponto de vista estritamente eleitoral. Basta olhar a trajetória seguida pelo PT em vários estados e cidades, ou na eleição de bancadas, para perceber que – ao contrário do que sugere Quaquá – certo aliancismo muitas vezes produz desacúmulo de forças.

Novamente, devemos nos perguntar por quais motivos Quaquá relativiza ou omite todos os problemas decorrentes das alianças, limitando-se a destacar seus possíveis pontos positivos?

A resposta está no seguinte trecho da entrevista: “É só você pegar a História do eleitorado brasileiro, do pensamento do povo brasileiro, que você vai ver que o pensamento de esquerda é minoritário. Tem em torno de 30%. Mas também, a direita não é majoritária. O povo brasileiro é um povo é... é... é... no seu comportamento eleitoral e no comportamento político, que se manifesta nas eleições, ele é um povo que preza pela moderação. Até porque esse precariado brasileiro, né... que eu costumo chamar de "sevirariado", essa gente que se vira pra sobreviver, ela quer paz e tranquilidade pra poder ter melhoria na vida”.

A tese é conhecida: para nosso 1/3 de esquerda derrotar o 1/3 da direita, é preciso ganhar o apoio do 1/3 de centro. Portanto, segundo esta “teoria”, a aliança é uma espécie de Santo Graal (ou, para usar uma expressão mais ao gosto de Quaquá, um “absoluto” hegeliano).

Já tratei deste tema da “teoria dos três terços” noutro lugar:

https://valterpomar.blogspot.com/2021/04/em-busca-do-centro-perdido.html

Aqui me limito a dizer o seguinte: há circunstâncias históricas nas quais, para ampliar, é preciso ir para a esquerda, radicalizar pela esquerda. Mas isto implica em construir uma interpretação um pouco diferente acerca do povo brasileiro. Pois é bom que se diga: a interpretação do Quaquá não é correta, não é nova, nem é de esquerda. Para simplificar, a frase “povo que preza pela moderação” é parente da frase “povo pacífico e ordeiro”.

O próprio Quaquá sabe que isto não é bem assim e, mais adiante na entrevista, dirá o seguinte: “o povo brasileiro é um povo muito solidário. Mas é um povo também que pega um menino roubando a bolsa aqui em Copacabana (...) e manda esfolar, matar. Então nós somos o ruim e o bom ao mesmo tempo”.

A solução, como parece óbvio, é deixar de lado os “absolutos” hegelianos (“alianças amplas”, “povo que preza pela moderação”) e prestar atenção nas contradições, nas classes em luta, nos diferentes setores sociais. O problema é que fazer isto é contraditório, não com a realidade, mas com a proposta de Quaquá, segundo a qual a saída estaria num pacto de 30 anos.

O raciocínio é assim: o povo “quer paz e tranquilidade pra poder ter melhoria na vida”, “foi isso que o Lula deu ao povo brasileiro”. E agora devemos “retomar o governo nacional, reconstruir bases de organização popular, pra que num processo longo de mudanças de 10, 20, 30 anos, nós possamos de fato construir um Estado de Bem Estar Social brasileiro rumo ao socialismo democrático” e “pra isso, é preciso ter aliança”.

Sem dúvida a mudança do Brasil é um processo de longa duração. Sem dúvida nesse processo é fundamental ter o governo. Sem dúvida faremos alianças. Sem dúvida buscamos bem-estar e socialismo. Mas também sem dúvida falta, neste raciocínio de Quaquá, combinar com o inimigo. Peço atenção aos fatos: o Brasil vai completar 200 anos de independência. Neste período, todas as tentativas de avançar em direção a um “estado de bem estar” foram combatidas a ferro e fogo. Alguém acha a sério que – ao estilo Harry Porter – se falarmos a palavra “alianças” o mar vai se abrir para os vermelhos passarem?

Ao invés de tratar a sério o tema, Quaquá prefere atribuir a culpa para a “minoria do PT que gosta de perder. Que gosta de se apegar à Doutrina. Não é marxista. É, eu costumo dizer que é hegeliano. Gosta mais da ideia do que da realidade. Eu prefiro, como uma pessoa prática, me apegar à realidade. E a realidade é que nós temos que ganhar as eleições, formar a maioria pra ele governar, e não impedir ele conseguir governar, e não destruir a imagem do presidente Lula, né... Fazer um grande governo pra acumular forças de mudanças contínuas, paulatinas, mas contínuas no Brasil”.

Assim como a “teoria” do “povo pacífico e ordeiro”, a “teoria” do “inimigo interno” também não é nova, nem é de esquerda. Acontece que o “problema” do PT não é uma suposta minoria “que gosta de perder”, assim como o problema não é uma maioria disposta a qualquer coisa para supostamente ganhar.

O “problema” do PT é que vivemos numa sociedade onde as mínimas conquistas exigem um nível muito alto de enfrentamento com a classe dominante. Essa é a “realidade” e para alterar essa “realidade” não basta ganhar as eleições, não basta formar maioria para governar, não basta querer fazer mudanças “paulatina, mas contínuas”. A experiência de 2003-2016 já demonstrou que a estratégia do “devagar se vai ao longe, mesmo que em más companhias” não é suficiente para transformar o Brasil. Quem defende, no Brasil de 2022, insistir nesta estratégia precisa nos explicar por qual motivo acreditam que agora “tudo vai ser diferente”?

Aliás, neste sentido, quem se apega “à doutrina”, quem se recusa a aprender com a experiência, é Quaquá. Não basta, para ser marxista, “entender que a burguesia não é um monolito”. Entre muitas outras coisas, é preciso compreender que a burguesia consegue se manter na condição de classe dominante também por não ser um monolito. Ou seja: ao contrário do que dá a entender Quaquá, a existência de diferentes frações burguesas não é apenas um elemento de fraqueza, é também um elemento de força. Por exemplo: se toda a burguesia fosse bolsonarista, 2022 poderia ser seu fim de linha. Mas como parte da burguesia não é bolsonarista, a derrota do cavernícola não será a derrota do conjunto da classe dominante.

Por qual motivo Quaquá só vê o lado positivo do problema, ou seja, por qual motivo ele acha que o fato da burguesia não ser um monolito é apenas um fato positivo para a classe trabalhadora? Na minha opinião porque embora fale em processo de longo prazo, ele na verdade só pensa no curto prazo. E mesmo desse ponto de vista, há uma lacuna na sua argumentação acerca da “burguesia brasileira”.

A respeito, ele diz tratar-se de “uma burguesia que uma parte grande é vagabunda, né, não vale nada. Vive da exploração do trabalho desde que os portugueses aqui chegaram, trazendo a turma deles e fazendo a própria burguesia nascida no Brasil. É... mas no mundo, você tem gente mais civilizada. Tem um setor mais civilizado. A taxa de exploração no Brasil é uma coisa louca”.

Toda vez que ouço elogios à “civilização”, penso no tráfico de escravos, na invasão do nosso continente pelos que “vieram de barcos”, na escravidão, nos campos de concentração e no emprego da bomba atômica contra civis, entre outras “maravilhas”. Isto posto, é fato que a burguesia “brasileira” é um horror. Mas se é assim, quem defende “alianças com setores da burguesia pra que a gente tenha um processo longo de mudança social” precisa explicar: 1/com quais setores defende alianças; 2/alianças em torno do quê? 3/como vamos lidar com os outros “setores” com os quais não vamos fazer alianças.

Já vimos, entre 2003 e 2016, no que resultaram determinadas alianças. Como disse alguém, ganharam como nunca mas mesmo assim estimularam, investiram, participaram e ganharam muito com o golpe de 2016. Quem defende “amplas alianças” tem a obrigação de explicar, por exemplo, como defende lidar com o setor financeiro, com o agronegócio, com o imperialismo, com o oligopólio da comunicação etc.

Sem isso, afirmações do tipo “nós da esquerda (...) queremos construir (...) um projeto socialista e democrático pro Brasil (...)um processo de longo prazo” viram pura demagogia. A não ser que alguém acredite que “setores da burguesia” defendem um “processo longo de mudança social”.

Incapaz de nos explicar como pretende lidar com as contradições do mundo prático, Quaquá se limita a tentar manipular a boa fé alheia: “eu tenho defendido que o Lula faça um pacto, agora, nessa eleição, pra além inclusive da sua própria existência biológica. Um pacto de 30 anos”.

Na boa: o varguismo sobreviveu a “existência biológica” de Vargas, mas não foi através de um “pacto”. Foi preciso uma quase revolução, uma ditadura, um regresso ao governo pela via eleitoral, um suicídio, golpes e contragolpes etc. Se queremos fazer algo semelhante, temos que pelo menos encarar o problema como se deve, com a complexidade que possui.

Falando em complexidade, só Freud explica o trecho seguinte da entrevista: “eu tô nesse túnel maravilhoso, aqui, o Marcelo Alencar, que a Dilma fez. Tá vendo como eu elogio a Dilma? É um túnel maravilhoso que foi feito aqui no Rio, liga a gente desde a Rodoviária Novo Rio até o Aeroporto, praticamente, né. Uma obra magnífica da Dilma. É... tá vendo que eu não sou nada misógino. Entendeu? (riso) Eu só faço crítica política”.

Depois de dizer o que disse, achar “compensatório” elogiar a Dilma pela “magnífica obra” de um túnel; vincular Dilma primeiro a Brizola, depois a Marcelo Alencar; achar que por ser política, uma crítica não pode também ser misógina; e dar risada da situação... é pouco provável que Quaquá consiga algum dia compreender a crítica de misoginia que está sendo feita a ele.

Voltemos ao ponto do pacto. Quaquá defende “que de fato o Lula tem que moderar e fazer um pacto no Brasil. Nós temos que construir um pacto brasileiro. É... distribuição de renda e riqueza. Só faz revolução quem come, quem se veste, quem tem casa pra morar, quem tem salário, quem tem condições de sobreviver. Então, se a gente quer que esse precariado, esse "sevirariado" brasileiro entre num processo de mudança social, um processo revolucionário, nós vamos fazer via democracia e dando condições de civilização pras pessoas. Um processo civilizatório. É um processo que dura tempo, que é longo, e que nós temos que construir sobre década sobre década. Eu acho que só o Lula, só alguém de esquerda pode propor isso no Brasil. O Brasil tem uma burguesia que não tem projeto nacional, é uma burguesia que olha no final do dia quanto aumentou na conta bancária através do ganho financeiro. Quer ganhar fácil. E quer sócia minoritária da burguesia internacional. Essa burguesia tem que ser comandada por um projeto popular. Né. Atrair parte dessa burguesia pra um projeto nacional, e esse projeto nacional tem que paulatinamente distribuir renda e riqueza, garantir a nossa soberania sobre as riquezas nacionais, e garantir a democracia, fundamental a reconstrução da democracia brasileira”.

O parágrafo acima é uma mixórdia. Vamos por partes, como o estripador.

Primeiro: é absolutamente falso dizer que “só faz revolução quem come, quem se veste, quem tem casa pra morar, quem tem salário, quem tem condições de sobreviver”. A verdade é a oposta: só tenta fazer uma revolução quem está numa situação extrema e, para sobreviver, é obrigado a virar a mesa.

Segundo: nem todo processo de mudança social é “um processo revolucionário”, nem pela forma, nem pelo conteúdo. Há situações (como a revolução cubana, por exemplo) de mudanças sociais revolucionárias tanto pela forma quanto pelo conteúdo; assim como há mudanças sociais revolucionárias pelo conteúdo, mas não pela forma. O Brasil se converteu num país capitalista, por exemplo, sem que houvesse em nosso país uma “revolução burguesa" no sentido clássico da palavra. Por óbvio, “revoluções” há de vários tipos, nem todas do nosso lado.

Terceiro: seja lá o que se entenda por “precariado” ou "sevirariado", a classe trabalhadora brasileira é muito mais complexa.

Quarto e principal: para dar “condições de civilização” para a população brasileira, será suficiente fazer isso “via democracia”, leia-se, via disputa de processos eleitorais e via ação de governos e mandatos parlamentares? Ou será necessário trilhar uma “via democracia plus”, ou seja, uma via que inclua eleições, governos e mandatos, mas também inclua otras cositas mais, como organização e lutas populares, participação em larga escala, uma Assembleia Nacional Constituinte e rupturas diversas e profundas com o status quo?

Imagino que Quaquá não tenha problemas de princípio com nada disso, até por porque ele defende “um processo revolucionário”. Mas embora ela não deva ter problemas de princípio com a “revolução”, ele parece ter restrições políticas, pois ele defende “que de fato o Lula tem que moderar e fazer um pacto no Brasil. Nós temos que construir um pacto brasileiro. É... distribuição de renda e riqueza”.

Como eu apontei logo no início deste texto, a retórica de Quaquá tem digamos uma estética esquerdista, mas seu conteúdo é radicalmente domesticado. Explicando melhor: ele defende melhorar radicalmente a vida do povo e nisso estamos totalmente de acordo. Ele também defende tratar-se de um “processo que dura tempo, que é longo, e que nós temos que construir sobre década sobre década”. Nisso também estamos de acordo. Quaquá defende, ainda, “que só alguém de esquerda pode propor isso no Brasil”. Também estamos de acordo nisso. Ela afirma, ademais, que “o Brasil tem uma burguesia (....) sócia minoritária da burguesia internacional”. Nisto estamos também de acordo.

Mas em seguida Quaquá afirma que “essa burguesia tem que ser comandada por um projeto popular. Né. Atrair parte dessa burguesia pra um projeto nacional, e esse projeto nacional tem que paulatinamente distribuir renda e riqueza, garantir a nossa soberania sobre as riquezas nacionais, e garantir a democracia, fundamental a reconstrução da democracia brasileira”. Nisso não estamos totalmente de acordo.

Explico: em nenhuma revolução socialista, a burguesia desapareceu no dia seguinte à tomada do poder pelos revolucionários. E ao menos nas principais revoluções (Rússia, China, Vietnã, Cuba etc.), o novo Estado revolucionário tratou com a burguesia de diferentes formas: em alguns casos, expropriando; noutros casos, impondo condições; e em alguns casos, estimulando o surgimento de uma nova burguesia.

No Brasil, neste momento, não estamos discutindo o que faríamos em caso de uma revolução. Estamos discutindo o que devemos fazer em caso de uma vitória eleitoral. Entretanto, apesar das enormes diferenças, há uma semelhança: para usar os temos de Quaquá, não vamos tratar a burguesia como um “monolito”. Certamente vamos estimular o surgimento de novos empreendimentos e também vamos propor acordos sob condições para uma parte. Mas isto é apenas parte da história: é preciso derrotar outros setores. Por exemplo: o setor financeiro, o agronegócio e o imperialismo. No concreto: se o oligopólio financeiro não for estatizado, sob que forma for, podemos tentar “distribuir renda e riqueza, garantir a nossa soberania sobre as riquezas nacionais, e garantir a democracia, fundamental a reconstrução da democracia brasileira”, mas no final das contas as forças contrárias vão prevalecer, como já ocorreu outras vezes em nossa história.

Portanto, essa é minha primeira “diferença” com a afirmação acima de Quaquá: não basta falar em atrair “parte” da burguesia, é preciso refletir sobre o que pretendemos fazer com a outra parte.

A segunda “diferença” é com o termo “paulatinamente”. A história do Brasil é de mudanças paulatinas, mas ao estilo do clássico romance: “tudo deve mudar para que tudo fique como está”. A proposta de mudanças paulatinas, neste sentido, também não é nova nem é de esquerda. Foi assim, por exemplo, que a classe dominante lidou com a escravidão.

Se de fato pretendemos mudar, é preciso rapidez. E não por razões doutrinárias, mas por razões “práticas, como explico ao final do seguinte texto: https://aterraeredonda.com.br/o-centro-da-tatica/

Quaquá sabe que o problema existe. Ele fala que só “Lula no Brasil pode construir um projeto que eu chamo de ‘Lula+30’, projeto de 30 anos, pra além inclusive da sua presença física, da sua força física biológica” (....) pacto Lula de 30 anos de prosperidade (...) com distribuição de riqueza”.

Mas ao mesmo tempo reconhece que “se a burguesia brasileira não fosse tão vagabunda, não teria deixado as injustiças que foram cometidas contra ele”.

Infelizmente, ao invés de lidar com a “realidade prática” e discutir como derrotar esta burguesia, Quaquá apela ao divino: “como Deus é grande, as injustiças serviram pra tornar o Lula maior do que já é. Né. Então eu acho que o Lula tem todas as condições de propor, pra além da geração dele, um pacto geracional de mudança social no Brasil de 30 anos. Eu acho que a gente tem que usar essa eleição, e esses próximos 2 mandatos dele, pra ser um líder de um pacto nacional pra além do PT, pra além da esquerda, que juntem os democratas e as forças econômicas e sociais comprometidas com um projeto nacional. Esse tem que ser o forjador de um projeto nacional”.

Eu não discuto a fé alheia. Mas a burguesia não é apenas “vagabunda”, ela é perigosa e golpista. E já demonstrou do que é capaz contra o próprio Lula. Portanto, podemos falar de “pacto” a torto e a direito, mas isso não resolve o problema político.

Uma das muitas provas de que falar em “pacto” não resolve os problemas políticos de fundo está num questionamento feito pelo jornalista Miguel do Rosário ao Quaquá, durante a entrevista. Miguel lembra que em Maricá o PT venceu as eleições municipais de 2016 e 2020, mas Bolsonaro ganhou e bem as eleições de 2018. Quaquá resolve o problema com um método famoso, que me foi explicado pelo saudoso Haroldo Lima: se tudo fosse diferente, as coisas não seriam como são.

Noutras palavras, Quaquá diz o seguinte: “o Lula tinha 67% das intenções de voto em Belford Roxo. Quando o Lula foi impedido de ser candidato, mesmo preso, esses votos não foram pro Haddad. Esses votos foram... migraram pro Bolsonaro. E eu, logo depois, eu fui na Fundação Jean Jaurés, na França, fazer uma avaliação das eleições no Brasil, e eu disse que o problema da eleição era menos sociológico e mais psicanalítico. O povo brasileiro, que tinha um pai bondoso - todos nós somos bons e ruins dentro da gente, né? - e o povo brasileiro, que tem aquele cara solidário, que na favela o barraco é... é... cai na chuva, você abriga o vizinho na tua casa, a mãe morre e você cria os filhos... divide os filhos e cria todo mundo junto. O povo brasileiro é um povo muito solidário. Mas é um povo também que pega um menino roubando a bolsa aqui em Copacabana, e eu tô chegando aqui em Copacabana, é... é... e manda esfolar, matar. Então nós somos o ruim e o bom ao mesmo tempo. Eu costumava brincar dizendo o seguinte: é... é... o fenômeno da eleição brasileira, é que o povo brasileiro tinha um pai bom, um pai generoso, um pai que cuida dos filhos, um pai que cuida do futuro dos filhos, que era o Lula. Na falta do pai generoso, ele pegou um pai que enfia a porrada, um pai grosso, um pai vagabundo, mas é pai. E o Haddad não encarnava a figura do paizão do povo brasileiro. Então é um problema psicanalítico, muito mais do que sociológico. Então, o eleitor do Lula votou em Bolsonaro, em Belford Roxo, nas favelas, ele dizia que ia metralhar a favela e a favela votou nele. Então é o que aconteceu em Maricá”.

Em resumo, funciona assim: se aparece um problema que não encontra solução dentro da sua hipótese política, Quaquá apela a Deus ou à psicanálise.

Sem dúvida há diversos motivos que explicam a votação de Bolsonaro, inclusive em cidades e estados administrados pelo PT. Mas o problema de fundo é o seguinte: não basta vencer eleições, não basta fazer governos que melhorem a vida do povo. Se a classe dominante seguir dispondo do controle de instrumentos fundamentais de riqueza e poder, é inevitável que mais cedo ou mais tarde ela vire o jogo. Portanto, é um erro falar em mudanças paulatinas. Até porque, como diria o bom e velho florentino, as reformas irritam os prejudicados mais rápido do que mobilizam os beneficiados. Por isso, se vamos causar dano ao lado de lá, é bom fazer isso de maneira rápida e decisiva.

Na entrevista à TV Forum, Quaquá fala também de 2013, apresenta Dirceu como “um dos candidatos naturais à sucessão do Lula”, fala do filme “Não olhe para cima”, lembra da “mão americana” e do papel das redes sociais e comenta a polêmica gerada por uma mensagem de Alberto Cantalice sobre o “identitarismo”.

Diferente de Quaquá, não concordo que Cantalice esteja “coberto de razão” e acho temerário – contra uma direita embalada por altas doses de guerra cultural – achar que as “questões econômicas” possam ser tratadas separadamente e/ou em oposição a batalha ideológica em curso na sociedade brasileira.

Teremos êxito, na eleição e no governo, se derrotamos a cultura política do bolsonarismo, do lavajatismo e do neoliberalismo. E isso não se fará apenas ou principalmente com propostas “econômicas” sobre “a questão da fome, a questão do emprego, a questão da casa, a questão da habitação, a questão das condições dignas de mobilidade social, de melhoria de nível cultural do povo, com alfabetização, com creches, com universidades, com escolas técnicas”. Tudo isso citado anteriormente e muito mais precisam ser combinados com o debate ideológico de fundo sobre temas que um pedaço da esquerda chama de “identitárias”.

Aliás, um comentário adicional sobre isso: simplesmente não é razoável colocar no mesmo plano a militância de esquerda e a militância bolsonarista. Refiro-me ao seguinte trecho: “você não tem espaço pra debate. Eu costumo dizer que a esquerda hoje parece muito, usa muito o método da histeria coletiva das redes sociais. É, do ‘Fla X Flu’ permanente, da lacração permanente, da falta de debate, da falta de aprofundamento dos temas. Todo mundo é sacralizado, demonizado, minuto a minuto na rede social, não há espaço pra debate, e não há espaço pra moderação. E isso não é só na militância bolsonarista, é na militância de esquerda também que age da mesma maneira”.

Aliás, Quaquá considera “lacração” afirmar que ele defende “o apoio ao Claudio Castro”. É compreensível que Quaquá tenha feito ajustes “paulatinos” em sua posição, demasiado insuportável até mesmo para seus aliados no Partido. Mas sua preocupação central segue sendo “aprofundar” a “relação com a base do governo” Claudio Castro. “Não são poucos os prefeitos que vão fazer o Lula e o Claudio Castro. E eu vou incentivar isso. Eu quero tirar essa gente da campanha do Bolsonaro. Mesmo agora com o Claudio Castro no PL, e todo mundo sabe que ele não é lá exatamente um bolsonarista”. Como se vê, é verdade: ele não defende o apoio apenas a Cláudio Castro, mas sim uma ampla promiscuidade estadual, sob o pretexto de que isso ajudaria na eleição de Lula.

Já se aproximando do final da entrevista, Quaquá afirma ter “o marxismo como a minha filosofia principal, não a única, mas como a principal. Acredito que a gente tem que analisar a realidade. Tem um monte de marxista que virou hegeliano. Tá no mundo das ideias, não no mundo da vida real, da prática real”. Eu não tenho a competência para debater sobre Hegel, apenas lembro que também tem um monte de “marxistas” que ao “analisar a realidade” abandonam totalmente a dialética, a começar pelo simpático conceito da “totalidade”.

Uma prova disto são as novas críticas feitas por Quaquá, neste ponto da entrevista, à companheira Dilma. Palavras dele: “eu acho que nós temos que atuar na realidade pra transforma-la. Então nesse sentido eu tenho críticas sim à Dilma. Ou vocês concordam com a Lei da Delação Premiada que foi aprovada? Ou vocês concordam com é... a indicação do Fachin pro Supremo Tribunal Federal. Tem uma série de coisas críticas, que nós temos que fazer críticas, até pra não cometer os erros. Mas ela é uma grande mulher, uma mulher séria, honesta, agora, a vida tá muito além do lavajatismo. Uma pessoa honesta, séria, a gente precisa saber tratar com a realidade”.

Eu também tenho inúmeras críticas à companheira Dilma, geralmente por motivos e sentido distintos dos de Quaquá. Mas simplesmente não é sério atribuir a Dilma e só a ela os erros cometidos durante seu governo. Assim como não é sério discutir o “lavajatismo” e desconhecer o comportamento de muitos outros personagens de nosso partido – entre os quais homens tão prezados por Quaquá – frente a famosa AP 470, que foi uma espécie de “ensaio geral” da Operação Lava Jato. Neste sentido, além de misógino, Quaquá é meio pusilânime na hora de fazer acusações aos erros dos outros.

Mas o centro da elaboração de Quaquá está, como já foi dito, no tal pacto social que nos permita chegar “aos padrões aceitáveis de civilização. Só o Lula pode afiançar um pacto social que dê conta disso. E pra fazer isso tem que fazer aliança, tem que rachar a burguesia brasileira. Tem que incidir sobre os rachas da burguesia brasileira. Isso é estratégia política. É atuar sobre a realidade. Não é atuar sobre a Doutrina, como se nós fôssemos um bando de cléricos a preservar nosso pensamento e nossa verdade absoluta, teológica, e não marxista da realidade brasileira”.

Como já disse antes, se tem alguém doutrinário neste debate é Quaquá, que repete o mantra “alianças amplas, alianças amplas” e não se dedica a analisar a sério o seguinte: quem é este setor da burguesia brasileira que estaria disposto a fazer um pacto socialdemocrata com a classe trabalhadora? Pois falar da existência deste setor não é igual a ele existir na realidade, nem muito menos é igual a ele ter a força suficiente para viabilizar um “pacto”.

Depois Quaquá fala do Ciro, fala das eleições na Baixada em 2020, fala de seu passado de liderança estudantil e agradece o convite da TV Fórum, destacando enfaticamente ser importante que o debate seja feito “com esse nível, porque isso ajuda a gente, ajuda a gente a refletir, a pensar. A gente não é dono da verdade. A gente tá aqui pra debater e eu tenho ficado muito angustiado com esses tempos de internet, onde não se debate nada. Onde, na verdade, se joga todas as lenhas nas fogueiras. E você quer, na verdade, destruir o adversário, e não dialogar com ele, aprender, enfim, e evoluir na análise da realidade, que é muito complexa e que cada nuance é importante pra gente poder entender e aprender a complexidade da realidade de um país tão lindo, tão grande, tão culturalmente diverso como o Brasil”.

Confesso que ao ouvir e agora ao reler as linhas acima, achei até simpático e por pouco não apaguei da memória o comportamento do vice-presidente nacional em um debate partidário recente, motivo de uma representação contra ele na comissão de ética nacional.

Logo em seguida vem o seguinte: “não adianta ter um Lula de confronto, um Lula que vai na verdade colocá-lo no centro de uma disputa que vai acontecer o que aconteceu com Getúlio, vão tentar inviabilizar o governo dele e o Lula é muito grande, muito importante, esse operário nordestino que chegou em São Paulo, o setor mais moderno da economia brasileira, ele é a síntese do Brasil, e o Lula tem que fazer um terceiro governo transformador que melhore concretamente a vida da pesso... das pessoas. Porque ele vai ser o farol do povo brasileiro e da esquerda brasileira pros próximos 30 anos. Portanto, ele tem que fazer um governo de amplas alianças, inclusive com setores da economia brasileira, que seja um governo que melhore concretamente a vida do povo. Por isso vai ter que ter taxação de fortuna, vai ter que ter Reforma Tributária, pra poder financiar a distribuição de renda e riqueza, mas que vai fazer, aliado a setores econômicos, inclusive com parte da burguesia brasileira, é... um projeto de crescimento econômico, de retomada das riquezas nacionais, pra que o Brasil cresça, distribua renda e riqueza, melhore a vida do povo, e pra que o Lula seja pras futuras gerações o farol da transformação social desse país que foi criado, um engenho colonial, como dizia Darcy, e que nós teimamos em querer transformar esse país numa nação. Numa nação com um povo próspero, feliz, isso é possível. O povo brasileiro, como todo povo, quer pouco: quer sobreviver, viver decentemente, e ter a certeza de que seus filhos terão uma vida melhor do que nós tivemos... seus pais tiveram”.

O principal problema das afirmações acima é que elas confundem enumeração de desejos com análise da realidade. Seria ótimo se fosse possível mudar o Brasil sem confronto. Mas olhando para os 200 anos que se passaram desde a independência formal do país, pergunto: teve alguma mudança neste país obtida sem algum nível de confronto? E como então será possível fazer mudanças tão profundas através de “amplas alianças”? Sabemos, também pela história, que são as classes dominantes que lançam mão de todo tipo de violência contra o povo. Por isso mesmo, devemos preparar a nós mesmos e ao povo para isso. Podemos discutir como fazer isso e como falar disso publicamente, mas negar o problema é um erro.

E é também por isso que Quaquá – na minha interpretação - coloca em Dilma a culpa pelo golpe, supostamente por ela não ter sabido cultivar adequadamente as “amplas alianças”. O que ocorreu no início do segundo mandato de Dilma é uma das muitas provas de que a estratégia defendida por Quaquá é na melhor das hipóteses insuficiente.  Ao invés de enfrentar o problema, ele prefere adulterar os acontecimentos, colocando a culpa na vítima.

Concluo por aqui a análise da entrevista.

Peço desculpas pelos erros de revisão, que pretendo corrigir mais tarde.

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Transcrição literal feita pelo companheiro Adriano Bueno, não revisada.

Washington Quaquá: Olha, você sabe que eu tô aqui na... mal enquadrado aqui. Porque tô no carro, vindo trazer minha filha pra vacinar aqui e tô no carro. Mas é um prazer, Miguel do Rosário, estar contigo aí, debatendo sobre as questões do Brasil, do Rio de Janeiro. Eu acho que nós tivemos um momento muito importante na história desse país: de fato, o Bolsonaro é um perigo. Mas não é um perigo pro mercado não. É um perigo pra humanidade porque nós sempre tivemos o fascismo beirando a humanidade, né. A Le Pen na França. A Itália, hoje em dia, ressurgindo o culto ao Mussolini. E aqui no Brasil, onde nós já tivemos, em diversas passagens... na década de 30, 2 milhões de filiados ao Partido Integralista. Então, aqueles que defendem a Casa Grande, que defendem a escravidão, que defendem  a subalternidade do povo, eles nunca foram pequenos no Brasil. O problema é que eles saíram do armário. Depois da Ditadura eles foram enfiados no armário, e eles saíram  do armário. E saíram do armário com uma figura grotesca, um idiota alçado... é... a palavra "mito", né... eu tenho dificuldades de tratar Bolsonaro como "mito". Porque até na questão do "mito" ele é uma Fake News... porque ele não é mito coisa nenhuma, ele é um imbecil, alçado à chefia dos imbecis, né. Então nós temos tudo... nós precisamos muito organizar o povo brasileiro, organizar os democratas pra extirpar esse tipo de gente do convívio da democracia brasileira. A democracia não suporta aqueles que não a querem.

 

Washington Quaquá: É Miguel... longe de mim ser desrespeitoso com a presidenta Dilma. Ela é uma figura é... séria... uma figura que tem uma História na esquerda brasileira. Foi uma presidenta injustiçada... no sentido de que foi golpeada... sofreu um golpe institucional. Eu disse isso em entrevista, a direita brasileira rompeu com a institucionalidade, com o pacto democrático de 88, botando uma mulher séria, uma mulher honesta pra fora da presidência da República. Mas disse, ato contínuo, e não falei nenhuma mentira, duas questões: uma constatação, que ela não tem... que ela me perguntou, se ela teria algum papel especial na campanha do Lula. Eu disse que não, que ela não tem mais relevância eleitoral. Que o Brizola, por exemplo, que é uma figura ímpar na História do Brasil. Uma das grandes figuras da História do Brasil, terminou a sua carreira política com pouca relevância eleitoral. Né... Essa questão, é só uma questão de constatação. É só fazer pesquisa. Então eu não fui nada desrespeitoso com a presidenta Dilma. A política não é só eleição, mas do ponto de vista eleitoral, é... eu não eu não vejo com o que ela pode contribuir com uma figura eleitoralmente grande como a do Lula. Então foi o que eu não disse, não disse nada demais. A outra coisa que eu disse é que ela tratou, é... de forma precária, a... a nossa base de sustentação no Congresso. Tinha um setor político, que inclusive hoje se manifesta no PT contra alianças, que era quem comandava, a articulação política da presidenta Dilma. E esse setor nos levou ao isolamento no Congresso. Nós lançamos uma candidatura, deixamos com que o Eduardo Cunha ganhasse a presidência do Congresso, é... contra nós. Então nós não soubemos manejar a articulação política no Congresso. Foi a crítica que eu fiz. E depois, porra, o Setorial de Mulheres do PT veio tirar uma nota dizendo que era misoginia, entendeu? Ah, o movimento de mulheres precisa tá nas favelas, tá nas comunidades organizando as mulheres, precisando de salário, de emprego, de creche, não é? Precisando de uma vida melhor nesse país, não (de) entrar na luta política, onde é que já se viu se agora fazer crítica a um político ou a uma política vai virar misoginia. Não é? É um absurdo completo o que fizeram, o escarcéu que fizeram, né, dizendo que eu estava desrespeitando a Dilma. Quer dizer que agora a gente não pode mais fazer crítica ao Lula (interrupção no áudio) Alguém ligando aqui no celular... mas enfim, a crítica política é parte do processo democrático, e do processo da esquerda. Ninguém mais do que a esquerda quer que a nossa atuação política seja feita sob crítica e autocrítica. É um princípio. E tentaram impedir a minha voz. Imagina, já tentaram tanto. Quando eu nasci, na Favela do Caramujo, aqui em Niterói, eu nasci sem voz. Foi o PT que me deu voz. E agora tem gente do PT querendo impedir que eu debata os problemas do Brasil? Onde já se viu isso?

 

Washington Quaquá: Olha, se a gente, é... é... não colocasse o José de Alencar como vice do Lula, e não tivesse ampliado as alianças em 2002, nós não teríamos o Lula (como) primeiro operário presidente do Brasil fazendo o governo que fez. Um governo que mudou a vida de milhões e milhões de brasileiros. Se há uma coisa que o PT ensinou na vida brasileira, foi  a geração do Zé Dirceu, do Delúbio, essa geração ensinou pra esquerda brasileira: sob o comando da esquerda, alianças têm que ser amplas. Porque a esquerda brasileira já fez alianças com a burguesia, mas sob o comando da burguesia. Como fez o Prestes, que aliás, é passível também de críticas. Que é um grande homem da História do Brasil. Mas fez alianças, tendo a direita como é... o cabeça da aliança. Nós não, nós ensinamos, que tendo a esquerda como cabeça da aliança, é possível fazer uma aliança ao centro, ganhar governos, pra acumular forças. Se nós tivemos erros nos nossos governos, foi o erro de não ter organizado o povo, organizado a esquerda, pra sustentar as mudanças. O que não significa que as alianças com a direita e com o centro sejam negativas, pelo contrário. É só você pegar a História do eleitorado brasileiro, do pensamento do povo brasileiro, que você vai ver que o pensamento de esquerda é minoritário. Tem em torno de 30%. Mas também, a direita não é majoritária. O povo brasileiro é um povo é... é... é... no seu comportamento eleitoral e no comportamento político, que se manifesta nas eleições, ele é um povo que preza pela moderação. Até porque esse precariado brasileiro, né... que eu costumo chamar de "sevirariado", essa gente que se vira pra sobreviver, ela quer paz e tranquilidade pra poder ter melhoria na vida. Foi isso que o Lula deu ao povo brasileiro. O fundamental agora é retomar o governo nacional, reconstruir bases de organização popular, pra que num processo longo de mudanças de 10, 20, 30 anos, nós possamos de fato construir um Estado de Bem Estar Social brasileiro rumo ao socialismo democrático. Não é? Então, pra isso, é preciso ter aliança. E a minoria, tem uma minoria do PT que gosta de perder. Que gosta de se apegar à Doutrina. Não é marxista. É, eu costumo dizer que é hegeliano. Gosta mais da ideia do que da realidade. Eu prefiro, como uma pessoa prática, me apegar à realidade. E a realidade é que nós temos que ganhar as eleições, formar a maioria pra ele governar, e não impedir ele conseguir governar, e não destruir a imagem do presidente Lula, né... Fazer um grande governo pra acumular forças de mudanças contínuas, paulatinas, mas contínuas no Brasil.

 

Washington Quaquá: Eu acho assim: a gente tem que entender que a burguesia não é um monolito. Não é uma coisa só (interrupção de áudio)

 

Washington Quaquá: Consigo sim, tô ouvindo. Saí da ponte Rio Niterói.

 

Washington Quaquá: Consegui sim, ouvi. Interessante e natural, porque é... a burguesia brasileira, é uma burguesia que uma parte grande é vagabunda, né, não vale nada. Vive da exploração do trabalho desde que os portugueses aqui chegaram, trazendo a turma deles e fazendo a própria burguesia nascida no Brasil. É... mas no mundo, você tem gente mais civilizada. Tem um setor mais civilizado. A taxa de exploração no Brasil é uma coisa louca. Então se a gente quer construir, nós da esquerda, que queremos construir, é... um projeto socialista e democrático pro Brasil, nós temos que ver que isso aí é um processo de longo prazo, e que a gente precisa fazer alianças aqui. Inclusive alianças com setores da burguesia pra que a gente tenha um processo longo de mudança social. Eu tenho defendido que o Lula faça um pacto, agora, nessa eleição, pra além inclusive da sua própria existência biológica. Um pacto de 30 anos. Eu quero... (áudio interrompido) eu tô nesse túnel maravilhoso, aqui, o Marcelo Alencar, que a Dilma fez. Tá vendo como eu elogio a Dilma? É um túnel maravilhoso que foi feito aqui no Rio, liga a gente desde a Rodoviária Novo Rio até o Aeroporto, praticamente, né.

 

Washington Quaquá: Uma obra magnífica da Dilma. É... tá vendo que eu não sou nada misógino. Entendeu? (riso) Eu só faço crítica política. Mas eu acho assim que... que... que de fato o Lula tem que moderar e fazer um pacto no Brasil. Nós temos que construir um pacto brasileiro. É... distribuição de renda e riqueza. Só faz revolução quem come, quem se veste, quem tem casa pra morar, quem tem salário, quem tem condições de sobreviver. Então, se a gente quer que esse precariado, esse "sevirariado" brasileiro entre num processo de mudança social, um processo revolucionário, nós vamos fazer via democracia e dando condições de civilização pras pessoas. Um processo civilizatório. É um processo que dura tempo, que é longo, e que nós temos que construir sobre década sobre década. Eu acho que só o Lula, só alguém de esquerda pode propor isso no Brasil. O Brasil tem uma burguesia que não tem projeto nacional, é uma burguesia que olha no final do dia quanto aumentou na conta bancária através do ganho financeiro. Quer ganhar fácil. E quer sócia minoritária da burguesia internacional. Essa burguesia tem que ser comandada por um projeto popular. Né. Atrair parte dessa burguesia pra um projeto nacional, e esse projeto nacional tem que paulatinamente distribuir renda e riqueza, garantir a nossa soberania sobre as riquezas nacionais, e garantir a democracia, fundamental a reconstrução da democracia brasileira. Embora o relatório diga que ela não tá, é... é... sobre risco, num sentido é... estrito, mas ela está sob risco, ela e qualquer democracia do mundo que não entrega promessas ao povo. Não entrega promessas que a próxima geração será melhor que a passada. A democracia precisa construir um processo de mudança social. Ela precisa se associar a um projeto de mudança social que crie novamente a adesão popular ao projeto democrático. Só Lula no Brasil pode construir um projeto que eu chamo de "Lula+30", projeto de 30 anos, pra além inclusive da sua presença física, da sua força física biológica, mas que esse pacto Lula de 30 anos de prosperidade, não é... redistribuição de renda e riqueza com desenvolvimento econômico. Prosperidade com distribuição de riqueza. Só o Lula pode propor isso no Brasil. É uma figura histórica. Inclusive se a burguesia brasileira não fosse tão vagabunda, não teria deixado as injustiças que foram cometidas contra ele. Mas como Deus é grande, as injustiças serviram pra tornar o Lula maior do que já é. Né. Então eu acho que o Lula tem todas as condições de propor, pra além da geração dele, um pacto geracional de mudança social no Brasil de 30 anos. Eu acho que a gente tem que usar essa eleição, e esses próximos 2 mandatos dele, pra ser um líder de um pacto nacional pra além do PT, pra além da esquerda, que juntem os democratas e as forças econômicas e sociais comprometidas com um projeto nacional. Esse tem que ser o forjador de um projeto nacional.

 

Washington Quaquá: Olha Miguel, eu... eu fiz pesquisa em Belford Roxo, é... é.. durante a eleição presidencial. O Lula na cadeia ainda, sendo injustiçado, sendo difamado todo dia, o Lula tinha 67% das intenções de voto em Belford Roxo. Quando o Lula foi impedido de ser candidato, mesmo preso, esses votos não foram pro Haddad. Esses votos foram... migraram pro Bolsonaro. E eu, logo depois, eu fui na Fundação Jean (incompreensível, talvez Joanes), na França, fazer uma avaliação das eleições no Brasil, e eu disse que o problema da eleição era menos sociológico e mais psicanalítico. O povo brasileiro, que tinha um pai bondoso - todos nós somos bons e ruins dentro da gente, né? - e o povo brasileiro, que tem aquele cara solidário, que na favela o barraco é... é... cai na chuva, você abriga o vizinho na tua casa, a mãe morre e você cria os filhos... divide os filhos e cria todo mundo junto. O povo brasileiro é um povo muito solidário. Mas é um povo também que pega um menino roubando a bolsa aqui em Copacabana, e eu tô chegando aqui em Copacabana, é... é... e manda esfolar, matar. Então nós somos o ruim e o bom ao mesmo tempo. Eu costumava brincar dizendo o seguinte: é... é... o fenômeno da eleição brasileira, é que o povo brasileiro tinha um pai bom, um pai generoso, um pai que cuida dos filhos, um pai que cuida do futuro dos filhos, que era o Lula. Na falta do pai generoso, ele pegou um pai que enfia a porrada, um pai grosso, um pai vagabundo, mas é pai. E o Haddad não encarnava a figura do paizão do povo brasileiro. Então é um problema psicanalítico, muito mais do que sociológico. Então, o eleitor do Lula votou em Bolsonaro, em Belford Roxo, nas favelas, ele dizia que ia metralhar a favela e a favela votou nele. Então é o que aconteceu em Maricá. Mesmo sendo um município menor do que o do Rio de Janeiro, ele teve uma votação grande. Eu me lembro que eu fui candidato a deputado federal, fui roubado pela Justiça brasileira, o meu mandato, 74 mil votos, o mais votado da chapa PT/PCdoB, a Jandira teve 71 (mil votos), a Benedita 45 (mil votos), e eu tive 74 (mil votos). É... e muito eleitor meu dizia "eu vou votar em você e no Bolsonaro", eu mandava ir a merda, vai a merda, vai votar em mim porra nenhuma. E não tinha jeito. Os caras votavam em mim e votavam no Bolsonaro. Se você pegar aí meu Facebook, eu não apaguei, eu não apago minhas coisas. (inaudível)

 

Washington Quaquá: Eu, desgraçadamente, não ouvi a opinião do Albertinho, mas vou ler. Vou até pra procurar saber. Antes de mais nada, mandar um abraço aí pro Leonardo (inaudível, talvez Giordano), nosso irmão grande militante e dirigente da esquerda no Rio de Janeiro, prazer! Assim... eu acho que... concordo com... com as duas coisas. Eu acho que 2013 ainda vai ser muito bem explicado, mas isso tem conexão... primeiro tem conexão lá atrás com a criminalização do Zé Dirceu, do Delúbio, de toda uma geração de dirigentes da esquerda brasileira lá atrás. Com o envolvimento da Justiça, a manipulação da Justiça, é... com objetivos políticos. Em que afastaram, por exemplo, o Zé, da linha de sucessão. Ele era o sucessor, um dos candidatos naturais à sucessão do Lula e ele foi afastado a partir de um movimento combinado da Justiça brasileira e, é... naqueles processos lá atrás. Depois 2013. Né. Os movimentos de massas. A gente tem uma democracia hoje, é... no mundo todo, aí, veja o sucesso desse filme que... passa aí... na Netflix, que eu inclusive usei como título do meu artigo. Não é... E a figura caricata daquele dono da empresa, é... (Não olhe para cima) que tem tudo a ver com as redes sociais, com o Google, com Facebook, com as redes sociais hoje. que através dos algoritmos consegue mapear o pensamento, o sentimento fino. A psicologia fina das pessoas no mundo todo. Então há uma ameaça à democracia. Quem controla os controladores? Quem controla quem controla a mente das pessoas hoje via redes sociais, né... então, 2013 ainda vai ser, 2003 ainda vai ser... tem que ser... 2013, né! vai ter que ser muito explicado ainda, né. E depois, o impeachment da Dilma. Tudo isso tem a mão americana, tem a mão de setores muito poderosos que controlam as redes sociais, não há dúvida. Acho que o Alberto está coberto de razão. Não tinha visto a polêmica ainda que ele levantou. Em relação à questão identitária, é... óbvio que nós temos dívidas, digamos, civilizatórias, né. É... com a população homossexual e que tem as suas orientações sexuais diversas, da sociedade machista, você tem a dívida obviamente estrutural do capitalismo mundial e brasileiro com os negros, com a África, com os negros... que eu costumo dizer que isso não é uma questão identitária, isto é uma questão de reestruturação da lógica do capitalismo, aqui nesse capitalismo dependente, enfim. Você tem temas que são importantes. Dos negros, na minha opinião, nem são temas, é... é... diria-se comportamentais, são estruturais do capitalismo. Mas essas questões de comportamento, elas não podem assumir, e deve ser isso que o Albertinho falou, band.. como se fossem bandeiras principais. Elas são importantes, tem sua importância, sobretudo pra quem sofre a discriminação no dia a dia. Mas elas... as questões centrais, são econômicas... são é... é... de mobilidade social. de garantia das condições mínimas de vida da imensa maioria do povo brasileiro. Essa pauta econômico social é a pauta principal, eu acho que o Albertinho estava querendo dizer isso, nós não podemos virar, é... é... digamos, um partido, uma organização política que discute os problemas que são importantes, eu vou dizer, isso quando a gente levanta isso, é... é... os setores acabam batendo e... demais... e hoje, você tem quase que uma histeria coletiva em relação a isso, você não tem espaço pra debate. Eu costumo dizer que a esquerda hoje parece muito, usa muito o método da histeria coletiva das redes sociais. É, do "Fla X Flu" permanente, da lacração permanente, da falta de debate, da falta de aprofundamento dos temas. Todo mundo é sacralizado, demonizado, minuto a minuto na rede social, não há espaço pra debate, e não há espaço pra moderação. E isso não é só na militância bolsonarista, é na militância de esquerda também que age da mesma maneira. Então eu acho que o Alberto tá com razão ao levantar esse tema, que o Lula precisa colocar como prioridade no Brasil: a questão da fome, a questão do emprego, a questão da casa, a questão da habitação, a questão das condições dignas de mobilidade social, de melhoria de nível cultural do povo, com alfabetização, com creches, com universidades, com escolas técnicas, enfim, esses são os temas essenciais. Não que os outros não sejam importantes, mas é... temas essenciais precisam ganhar proeminência no nosso discurso, na nossa organização, da nossa ação política e social.

 

Washington Quaquá: É... só dizer... antes de entrar nessa questão, que... no debate anterior, eu concordo plenamente com o que o Leonardo e o professor Jorge colocaram aqui, perfeito, não tenho nada a acrescentar. E acho que o Alberto Cantalice, pelo que eu conheço o Albertinho, pensa a mesma coisa, né... eu acho que... como não dá pra debater no Twitter, né... e a gente, no geral, debate no Twitter, hoje em dia, né... é lacração em cima de lacração. Torcida no Maracanã... você não tem espaço pra aprofundar o debate. Quando você aprofunda o debate você chega na conclusão é... que se chegou aqui. Eu acho que o Alberto, pelo que eu conheço dele, ele vai concordar com o que se foi falado aqui. Então, só pra dizer que... as polêmicas são menores do que se acha... agora, no universo da lacração é isso. É a mesma coisa que dizer, ah, o Quaquá defende o apoio ao Claudio Castro. Eu defendo e falei isso pro presidente Lula. É... que o Lula tenha... dispute amplamente o eleitorado do Rio de Janeiro. Que ele não se apegue aos 30, 40% de eleitorado de esquerda. E que ele amplie, né, a relação dele com o Centro. Que ele tenha interlocução com o Eduardo Paes, que ele tenha interlocução com o Rodrigo Neves, e que ele... isso antes do governador Claudio Castro ir pro PL. É... e que ele aprofundasse a relação com a base do governo é... do Claudio Castro. Nós vamos disputar 70% do eleitorado do Rio, não vamo disputar apenas 30%. Eu acho que o Rio de Janeiro é importante demais para a eleição presidencial nacional, nós não podemos sair daqui com uma vitória apertada sobre Bolsonaro. No estado do Bolsonaro, temos que derrota-lo. Isola-lo e derrota-lo. E pra isola-lo e derrota-lo, nós temos que incorporar à campanha do Lula o máximo de forças políticas possíveis. Vou dar alguns exemplos: tem prefeitos na Baixada Fluminense que tão com Claudio Castro. Vão apoiar Claudio Castro pra governador. E que vão apoiar o Lula. É... eu como dirigente do PT do Rio de Janeiro vou incentivar isso, incentivar que pessoas que fazem a campanha do Claudio Castro venham pro Lula. Ou vocês querem que eu - "vocês querem", quem me provoca nessa questão - ou vocês querem que eu estimule aqueles que tão como Claudio Castro a votarem no Bolsonaro? Eu prefiro dividir o adversário. Botar uma cunha sobre a base do adversário trazendo pra cá e não são poucos hein. Não são poucos os prefeitos que vão fazer o Lula e o Claudio Castro. E eu vou incentivar isso. Eu quero tirar essa gente da campanha do Bolsonaro. Mesmo agora com o Claudio Castro no PL, e todo mundo sabe que ele não é lá exatamente um Bolsonarista. Nós vamos incentivar isso. Eu acho que nós temos grandes candidaturas no Rio, o Próprio Freixo que além de estar à esquerda; você tem o Rodrigo Neves de Niterói, que é um pouco mais amplo... que é mais amplo; e você tem é... é... o Eduardo Paes, que nós precisamos saber o que o Eduardo vai fazer, nessa eleição está lançando o Felipe Santa Cruz, também um excelente candidato. Então, eu acho que o Lula aqui no Rio, precisa ter um palanque mais amplo. Então é isso que eu disse. Em relação à Dilma eu já disse, tenho respeito pela Dilma. Agora, ninguém, absolutamente ninguém, seja mulher, seja negro, seja branco, seja homem, seja é... é... homossexual. Seja o que for: ninguém está isento de críticas. Eu não aceito, como militante de esquerda, e não sou burro, porque o militante de esquerda não pode ser burro, ninguém pode... está imune a críticas. A Dilma cometeu vários erros, e vários acertos. Assim como todos nós. Eu fui prefeito, cometi vários acertos, e cometi meus erros. Né... e eu tenho que estar sujeito à crítica, como qualquer pessoa. O cara que acha que eu não posso criticar Mandela, ou Dilma, ou Lula, ou Brizola, qualquer um, ou Marighela, ou Prestes, á alguém que não serve pra ser de esquerda. É alguém que serve pra ser gado. Um militante de esquerda não pode ser gado, tem que ter visão crítica. Você é marxista, você tem que criticar a realidade. Não é? E eu, como o Leonardo Giordano, tenho o marxismo como a minha filosofia principal, não a única, mas como a principal. Acredito que a gente tem que analisar a realidade. Tem um monte de marxista que virou hegeliano. Tá no mundo das ideias, não no mundo da vida real, da prática real, não é... Então, é o marxista que... tem uma frase que atribuem à Marx, que diz que ele falou que no final da vida que se isso é marxismo, eu não sou marxista. É... é... o marxismo foi endurecido pelo economicismo, pelo evolucionismo, ele disse, se isso é marxismo, eu não sou marxista, né. E eu quero ser marxista, como Marx foi. Então eu acho que nós temos que atuar na realidade pra transforma-la. Então nesse sentido eu tenho críticas sim à Dilma. Ou vocês concordam com a Lei da Delação Premiada que foi aprovada? Ou vocês concordam com é... a indicação do Fachin pro Supremo Tribunal Federal. Tem uma série de coisas críticas, que nós temos que fazer críticas, até pra não cometer os erros. Mas ela é uma grande mulher, uma mulher séria, honesta, agora, a vida tá muito além do lavajatismo. Uma pessoa honesta, séria, a gente precisa saber tratar com a realidade. O Congresso Nacional, eu disse no meu artigo, não é uma loja de perfume francês, não é cheirosinha. O Congresso Nacional reflete a sociedade brasileira nos seus erros, com suas idiossincrasias, com suas é... é... é... desgraças, com suas... e com seu esgoto. E nós temos que saber trabalhar pra ter maioria no Congresso Nacional, pra que Lula possa retomar com força o Bolsa Família e avançar no sentido de uma Renda Básica e Cidadania como quer o Suplicy; nós temos que ter uma política de salário mínimo que aumente todo ano; nós temos que recompor os direitos trabalhistas depenados, não é... com a CLT de Getúlio depenada pelo Temer e pelo Bolsonaro; nós temos que retomar o marco legal da proteção ao salário, ao emprego e ao trabalho; enfim, nós temos que recompor, né, a trajetória de crescimento e aprofundamento do Estado de Bem Estar Social que nunca se construiu no Brasil... tenta se construir no Brasil. Nós temos que aprofundar isso dentro de 10, 20, 30 anos. Que a gente chegue aos padrões aceitáveis de civilização. Só o Lula pode afiançar um pacto social que dê conta disso. E pra fazer isso tem que fazer aliança, tem que rachar a burguesia brasileira. Tem que incidir sobre os rachas da burguesia brasileira. Isso é estratégia política. É atuar sobre a realidade. Não é atuar sobre a Doutrina, como se nós fôssemos um bando de cléricos a preservar nosso pensamento e nossa verdade absoluta, teológica, e não marxista da realidade brasileira.

 

Washington Quaquá: Ah, eu não tenho dúvida. Eu acho que se o Ciro não falasse as bobagens que fala... o Ciro é um problema, é... psicológico. ele é um cara destrambelhado, um ego absurdo, absurdo... é... enfim, um jovem de classe média do coronelismo nordestino que se acha melhor que o mundo, não é... mas enfim... tem suas qualidades também, não vamo negar. Mas eu acho que ele atrapalha muito. Atrapalha o Weverton lá no Maranhão, atrapalha o Rodrigo aqui no Rio, atrapalha o Edvaldo no Sergipe e, obviamente que se o PDT não tivesse é... uma candidatura como a do Ciro, de confronto com a esquerda. Escolheu, em vez de confrontar com o Bolsonaro, confronta com a esquerda, e com o Lula. Ingrato, inclusive. Eu acho que se não tivesse o Ciro, é, facilitaria muito a vida do Rodrigo. O Rodrigo é um belo candidato a governador, é... sem Ciro ele se viabilizaria muito. E acho que a candidatura do Ciro não tá dada no PDT. E acho que o Rodrigo pode vir a ser um candidato importante da esquerda e do setor progressista no Rio de Janeiro, acho que ele avança pra além da esquerda. Então acho que ele é uma, ele tem uma força muito grande lá no leste, por conta da identificação que os governos dele, meu e do Fabiano lá em Maricá, não é à toa que a nossa unidade lá em São Gonçalo quase ganhou a eleição. Respondendo aí a alguém que fez este questionamento, eu não lembro quem. Nós quase ganhamo a eleição, o pessoal da coordenação de campanha errou muito na reta final. Eu também tava com COVID. É... no Che Guevara, internado, quase morrendo. O Fabiano também com COVID. O Rodrigo pegou COVID também. Isso tudo atrapalhou muito. Mas os erros da campanha lá em São Gonçalo foram grandes. Mas o grande ativo de São Gonçalo foi Maricá. E depois São Gonç... e depois Niterói. Então nós temos ali uma, não temo uma aliança, mas uma relação de companheirismo. Nós fizemos política juntos. Eu era presidente do DCE da (inaudível, talvez UFF) e o Rodrigo era presidente da UNES, em Niterói, da União Secundarista em Niterói. Nos conhecemos desde, há 30 anos nós nos conhecemos fazendo política ali, mais de 30 anos, e é... o Rodrigo é uma pessoa que nós podemos chamar de companheiro, né... eu acho ele um bom candidato a governador. Se ele se livrar do Ciro, Pode ser um candidato fortíssimo.

 

Washington Quaquá: Miguel, eu queria, é... agradecer pelo convite. É um prazer estar aqui no teu programa, aqui na TV Forum, é... ao professor Jorge, que no geral concordei com a sua análise, muito precisas da realidade brasileira. Importante que o debate seja feito com esse nível, porque isso ajuda a gente, ajuda a gente a refletir, a pensar. A gente não é dono da verdade. A gente tá aqui pra debater e eu tenho ficado muito angustiado com esses tempos de internet, onde não se debate nada. Onde, na verdade, se joga todas as lenhas nas fogueiras. E você quer, na verdade, destruir o adversário, e não dialogar com ele, aprender, enfim, e evoluir na análise da realidade, que é muito complexa e que cada nuance é importante pra gente poder entender e aprender a complexidade da realidade de um país tão lindo, tão grande, tão culturalmente diverso como o Brasil. Leo, que é um prazer tá com ele sempre, grande quadro aqui da política do Rio de Janeiro, de Niterói, cidade importante, né... eu nasci lá, né... nasci na Favela do Caramujo e com 10 anos de idade fui pra Maricá. Tenho um carinho imenso pela u... por Niterói. Porque, fiz minha universidade lá. Fiz a UFF, fui presidente do Diretório Central de Estudantes da UFF, tenho um amor por Niterói muito grande. É... acho que o debate foi muito bom, sobretudo pra desmistificar esses "Fla X Flus" que a esquerda brasileira importou do fascismo, né... esse debate... as redes sociais ajudaram a criar essas cristalizações de posição. É... e isso é muito ruim pra quem quer mudar a sociedade. Quem quer mistificar, continua com verdades absolutas. Pra quem quer transformar a sociedade, precisa analisar criticamente, pensar, ver, analisar, e é nesse sentido que eu acho que nós temos que, como prioridade nessa conjuntura, a eleição do Lula, a retomada do Lula e do governo central é fundamental, é, mas não adianta ter um Lula de confronto, um Lula que vai na verdade colocá-lo no centro de uma disputa que vai acontecer o que aconteceu com Getúlio, vão tentar inviabilizar o governo dele e o Lula é muito grande, muito importante, esse operário nordestino que chegou em São Paulo, o setor mais moderno da economia brasileira, ele é a síntese do Brasil, e o Lula tem que fazer um terceiro governo transformador que melhore concretamente a vida da pesso... das pessoas. Porque ele vai ser o farol do povo brasileiro e da esquerda brasileira pros próximos 30 anos. Portanto, ele tem que fazer um governo de amplas alianças, inclusive com setores da economia brasileira, que seja um governo que melhore concretamente a vida do povo. Por isso vai ter que ter taxação de fortuna, vai ter que ter Reforma Tributária, pra poder financiar a distribuição de renda e riqueza, mas que vai fazer, aliado a setores econômicos, inclusive com parte da burguesia brasileira, é... um projeto de crescimento econômico, de retomada das riquezas nacionais, pra que o Brasil cresça, distribua renda e riqueza, melhore a vida do povo, e pra que o Lula seja pras futuras gerações o farol da transformação social desse país que foi criado, um engenho colonial, como dizia Darcy, e que nós teimamos em querer transformar esse país numa nação. Numa nação com um povo próspero, feliz, isso é possível. O povo brasileiro, como todo povo, quer pouco: quer sobreviver, viver decentemente, e ter a certeza de que seus filhos terão uma vida melhor do que nós tivemos... seus pais tiveram. Então, é esse país que a esperança que o Lula... no Lula. Por isso ele é tão forte. Cara, eu recebi hoje, mandei pra ele, é... um negócio que me emocionou profundamente, agora vindo no carro, Miguel. Uma menina lá de Maricá me mandou um vídeo da mãe dela. Na cama no hospital. E a mãe morreu. E ela pediu, agora, a mim: "Quaquá, mande esse vídeo pro Lula, porque eu sei que minha mãe ia adorar se esse vídeo chegasse até ele". É um vídeo dela na cama, já quase morrendo, dizendo, "minha filha, eu amo o Lula, tudo que eu queria na minha vida é poder dar um abraço nele". E ela pediu que eu mandasse pro Lula, e eu mandei. Mandei o telefone, porque eu conheço o Lula. O Lula não é um político, por isso ele é tão forte, não é um político comum, falso, pintado a óleo. O Lula é uma figura humana, fantástica e maravilhosa, e vira e mexe a gente manda essas coisas pra ele e ele liga pras pessoas. Ele vai lá e liga. Então, esse sentimento do povo brasileiro com ele, é um sentimento muito autêntico, muito original, eu tenho certeza que ele vai voltar a ser o guia desse nosso povo que precisa de gente como ele, que não nasce uma por século, mas que vai iluminar os caminhos do povo brasileiro rumo à mudança social. Então, eu acho que é isso. O Lula é a prioridade 1, 2, 3, e 4. O restante, filho, os candidatos à governador e etc. que se dane. Eu quero saber do Lula.

 

 

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