quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Observações sobre a aula do Raul Pont

 

OBSERVAÇÃO 1

Primeiro: é importante que vocês leiam o texto Mensagem da CC à Liga dos Comunistas. Este texto foi escrito em Londres, em março de 1850, há 170 anos portanto. É assinado por Marx e Engels (ao final estas observações, incluo uma tradução débil, para o português).

No texto, os dois dizem que em qualquer revolução a burguesia irá "querer terminar a revolução o mais rápido possível ... é nosso interesse e nossa tarefa tornar a revolução permanente até que todas as classes mais ou menos proprietárias tenham sido expulsas de suas posições dominantes, até que o proletariado tenha conquistado o poder do Estado e até que a associação dos proletários tenha progredido suficientemente - não apenas em um país, mas em todos os países líderes do mundo - que a competição entre os proletários desses países cesse e, pelo menos, o forças decisivas de produção estão concentradas nas mãos dos trabalhadores. "

A última frase do texto é: Ihr Schlachtruf muß sein: Die Revolution in Permanenz. Seu grito de batalha deve ser: A revolução permanente ou revolução em permanência ou algo parecido com isso, a depender da tradução.

Quem quiser conferir o original em alemão, pode ir aqui: http://www.glasnost.de/klassiker/zent.html

Esta insight é uma das fontes da “teoria” da “revolução permanente”.

OBSERVAÇÃO DOIS

É importante que vocês leiam o que foi escrito por Parvus, ou melhor dizendo: Alexandre Israel Helpland, conhecido como Parvus (ou Alexandre Molotov ou Alexandre Moscovich).

Parvus nasceu em 1867 e morreu em 12/12/1924. Era de família judia. Nasceu na Bielorrúsia e se forma em filosofia em Zurique, no ano de 1891 (em 1889, quem chefa em Zurique: Rosa Luxemburgo). Embora russo, militará no Partido Social Democrata Alemão. Em 1905 ele consegue participar dos eventos da Revolução, é preso, mandado para a Sibéria, consegue fugir e escreve um livro a respeito deste período. Antes, ele havia escrito artigos muito interessantes no Iskra, onde fez previsões certeiras sobre a situação mundial e sobre a evolução da guerra e de seus impactos sobre a Rússia. Esses artigos (10/2 e 5/3) vão influenciar muito Trotsky, que aliás esteve preso junto com Parvus.

Depois deste episódio, a vida de Parvus vai se dirigindo para outro caminho: os negócios. Conflitos com Máximo Gorki (intermediados por Rosa), cinco anos em Istambul, venda de armas, conspirações de grande vulto. Seu grande lance foi ter participado da operação que entrou para a história como o “trem blindado”, no qual Lenin regressou para a Rússia (dizem as más línguas que Lenin trouxe também dinheiro). Parvus morre em dezembro de 1924, numa mansão que dizem tinha 32 quartos.

Na internet, é possível achar alguns dos textos de Parvus. Infelizmente, a única biografia que eu conheço dele está em inglês. The merchant of revolution: the life of Alexander Israel Helpland (Parvus) 1867-1924. Foi escrita por Winfried B. Scharlau e por Zbynek A. B. Zeman. Publcada em janeiro de 1965. Desconheço que tenha sido traduzida para espanhol ou para o português.

Existe um belo resumo biográfico, no endereço: https://spartacus-educational.com/Alexander_Parvus.htm#references

Quem entender alemão, tem um minidocumentário de 15 minutos disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=tZ9YwY4T5zs

Quem entender russo, tem outro minidocumentário aqui: https://www.youtube.com/watch?v=bP8AWXuGYeY

E aqui: https://www.youtube.com/watch?v=XcXGgqlOah0

Também para quem domine o inglês, tem uma ótima coletânea de artigos, intitulada Witnesses to Permanent Revolution: The Documentary Record.

Os autores são Richard Day e Daniel Gaido (não confundir com o autoproclamado presidente da Venezuela). Este livro é uma coletânea, organizada em 2011, com artigos de Kautsky, Mehring, Plekhanov, Ryazanov, Rosa, Trotsky e Parvus.

OBSERVAÇÃO TRÊS

Leiam o livro “En los orígenes de la revolución permanente: El joven Trotski”. É um livro muito interessante, escrito por um cidadão chamado Alain Brossat, em 1976. Este eu não consegui localizar em pdf e portanto, quem quiser tem que buscar, é da Siglo XXI. E o preço é acessível.

https://www.traficantes.net/libros/en-los-or%C3%ADgenes-de-la-revoluci%C3%B3n-permanente

OBSERVAÇÃO QUATRO

Leiam o livro A revolução permanente, do próprio Trotski. O livro é de 1930. Este livro contém, segundo Claudin, com quem estou de acordo, três ideias fundamentais:

-a questão da passagem da revolução democrática à revolução socialista

-a caracterização da revolução socialista

-o caráter internacional da revolução: “a revolução socialista não pode ser levada a cabo nos limites nacionais (...) começa sobre o terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e se conclui na arena mundial. A revolução socialista, logo, faz-se permanente no sentido novo e mais amplo do termo: só termina com o triunfo definitivo da nova sociedade sobre o nosso planeta”.

Não há, como alerta Claudin, reflexão adequada sobre as descontinuidades durante a permanência; segundo a crítica mordaz de Gramsci: “é apenas uma previsão genérica que se apresenta como um dogma e se destrói a si mesma porque não se expressa nos fatos”.

 

Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas[N79]

Karl Marx/Friedrich Engels

Março de 1850

Transcrição autorizada

Link Avante


Primeira Edição: Distribuído sob forma de panfleto em 1850. Publicado pela primeira vez por F.Engels na 3.a edição de: K. Marx, Enthüllungen über den Kommunisten-Prozess zu Köln, Hottingen-Zürich, 1885.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial"Avante!" - Edição dirigida por um colectivo composto por: José BARATA-MOURA, Eduardo CHITAS, Francisco MELO e Álvaro PINA.
Tradução: Eduardo CHITAS.
Transcrição: José Braz e Maria de Jesus Coutinho, junho 2006.
HTML: 
Fernando A. S. Araújo, junho 2006.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por 
Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


capa

A Direcção Central à Liga

Irmãos:

Nos dois anos de revolução 1848-49, a Liga afirmou-se duplamente; por um lado, porque os seus membros intervieram energicamente no movimento por toda a parte, na imprensa, nas barricadas e campos de batalha, à frente nas fileiras do proletariado, da única classe decididamente revolucionária. A Liga afirmou-se, além disso, pelo facto de a sua concepção do movimento, tal como foi exposta nas circulares dos congressos e da Direcção Central de 1847, assim como no Manifesto Comunista, se ter mostrado a única correcta; pelo facto de as expectativas formuladas nesses documentos se terem plenamente realizado e a concepção das condições sociais do momento, antes só em segredo propagada pela Liga, estar agora na boca dos povos, abertamente apregoada nas praças públicas. Ao mesmo tempo, a sólida organização inicial da Liga enfraqueceu significativamente. Uma grande parte dos membros, que participou directamente no movimento revolucionário, acreditou que passara o tempo das sociedades secretas e que bastava a acção pública. Alguns círculos e comunidades deixaram afrouxar e adormecer pouco a pouco as suas ligações com a Direcção Central. Assim, enquanto o partido democrático, o partido da pequena burguesia, se organizava cada vez mais na Alemanha, o partido operário perdia o seu único apoio sólido, quando muito permanecia organizado nalgumas localidades para objectivos locais e, por isso, no movimento geral, caiu inteiramente sob o domínio e a direcção dos democratas pequeno-burgueses. Tem de se pôr termo a este estado de coisas, tem de se estabelecer a autonomia dos operários. A Direcção Central compreendeu esta necessidade e, por isso, logo no Inverno de 1848-49, enviou à Alemanha um emissário, Joseph Moll, para a reorganização da Liga. A missão de Moll não teve entretanto efeito duradouro, em parte porque os operários alemães não tinham, então, colhido ainda experiências suficientes, em parte porque a interrompeu a insurreição de Maio passado[N74]. O próprio Moll pegou em armas, entrou no exército de Baden-Palatinado e tombou, em 29 de Junho(1), no recontro de Murg. Nele, perdeu a Liga um dos seus mais antigos, mais activos e mais seguros membros, que estivera em actividade em todos os congressos e Direcções Centrais e já antes realizara com grande êxito uma série de viagens em missão. Após a derrota dos partidos revolucionários da Alemanha e da França, em Julho de 1849, quase todos os membros da Direcção Central voltaram a encontrar-se em Londres, completaram as suas fileiras com novas forças revolucionárias e empreenderam com renovada energia a reorganização da Liga.

A reorganização da Liga só pode ser conseguida através de um emissário e a Direcção Central considera da maior importância que o emissário parta neste preciso momento, em que está iminente uma nova revolução, em que o partido operário deve, portanto, apresentar-se o mais organizado, o mais unânime e o mais autónomo possível, para não ser outra vez, como em 1848, explorado e posto a reboque pela burguesia.

Dissemo-vos, irmãos, logo em 1848, que os burgueses liberais alemães em breve iam aceder à dominação e que imediatamente virariam o seu recém-conquistado poder contra os operários. Vistes como isto se consumou. De facto, foram os burgueses que logo após o movimento de Março de 1848 tomaram conta do poder de Estado e se serviram desse poder para empurrar imediatamente os operários, seus aliados na luta, para a anterior posição de oprimidos. Se a burguesia não pôde conseguir isto sem se ligar com o partido feudal afastado em Março e até, finalmente, sem ceder de novo a dominação a este partido feudal absolutista, pelo menos assegurou para si condições que, pelos apuros financeiros do governo, lhe poriam a dominação nas mãos a longo prazo e lhe assegurariam todos os seus interesses, caso fosse possível que o movimento revolucionário enveredasse desde então por um desenvolvimento dito pacifico. A burguesia nem sequer teria necessidade, para assegurar a sua dominação, de se tornar odiosa por medidas violentas contra o povo, uma vez que todos esses passos violentos foram já executados pela contra-revolução feudal. Mas o desenvolvimento não tomará esta via pacífica. Pelo contrário, está próxima a revolução que o há-de acelerar, seja ela provocada por um levantamento autónomo do proletariado francês, seja pela invasão da Santa Aliança[N80] contra a Babel revolucionária[N81].

E o papel que os burgueses liberais alemães desempenharam perante o povo em 1848, esse papel tão traiçoeiro, será assumido, na revolução que se avizinha, pelos pequeno-burgueses democratas, que ocupam agora na oposição o mesmo lugar que os burgueses liberais antes de 1848. Este partido, o partido democrático, mais perigoso para os operários do que o anterior partido liberal, consiste em três elementos:

I. As partes mais avançadas da grande burguesia, que têm por objectivo a queda imediata e completa do feudalismo e do absolutismo. Esta fracção está representada pelos antigos conciliadores de Berlim, que propunham a recusa dos impostos.

II. Os pequeno-burgueses democrático-constitucionais, cuja finalidade principal durante o movimento precedente foi a fundação de um Estado federal mais ou menos democrático, como o ambicionavam os seus representantes, a Esquerda da Assembleia de Frankfurt e, mais tarde, o Parlamento de Stuttgart, e como eles próprios o ambicionavam na campanha pela Constituição Imperial[N82]

III. Os pequeno-burgueses republicanos, cujo ideal é uma República federativa alemã, à maneira da Suíça, e que se dão agora o nome de vermelhos e de sociais-democratas porque alimentam o piedoso desejo de abolir a pressão do grande capital sobre o pequeno, do grande-burguês sobre o pequeno. Os representantes desta fracção eram os membros dos congressos e comités democráticos, os dirigentes das associações democráticas, os redactores dos jornais democráticos.

Todas estas fracções se intitulam, agora, depois da sua derrota, republicanas ou vermelhas, precisamente como em França os pequeno-burgueses republicanos se intitulam agora socialistas. Onde quer que ainda encontrem, como em Württemberg, na Baviera, etc., a oportunidade de perseguir os seus fins por via constitucional, aproveitam a ocasião para manter as suas velhas frases e para mostrar, na acção, que em nada mudaram. Compreende-se, de resto, que a mudança de nome deste partido nada modifica perante os operários, mas demonstra simplesmente que é agora obrigado a fazer frente à burguesia aliada ao absolutismo e a apoiar-se no proletariado.

O partido democrático pequeno-burguês é muito poderoso na Alemanha. Abrange não somente a grande maioria dos habitantes burgueses das cidades, os pequenos negociantes industriais e os mestres artesãos: conta entre os seus seguidores os camponeses e o proletariado rural enquanto este último não tiver encontrado um suporte no proletariado autónomo das cidades.
É esta a relação do partido operário revolucionário com a democracia pequeno-burguesa: está com ela contra a fracção cuja queda ele tem em vista: opõe-se-lhe em tudo o que ela pretende para se consolidar a si mesma.

Os pequeno-burgueses democratas, muito longe de pretenderem revolver toda a sociedade em benefício dos proletários revolucionários, aspiram a uma alteração das condições sociais que lhes torne tão suportável e cómoda quanto possível a sociedade existente. Por isso reclamam, antes de tudo, a diminuição das despesas públicas mediante a limitação da burocracia e a transferência dos principais impostos para os grandes proprietários fundiários e grandes burgueses. Reclamam, além disso, a abolição da pressão do grande capital sobre o pequeno, por meio de instituições públicas de crédito e de leis contra a usura que lhes tornassem possível, a eles e aos camponeses, obter em condições favoráveis adiantamentos do Estado em vez de os obterem dos capitalistas; e ainda o estabelecimento das relações de propriedade burguesas no campo, pela completa eliminação do feudalismo. Para realizarem tudo isto, necessitam de uma Constituição democrática, seja ela [monárquica] constitucional ou republicana, que lhes dê a maioria, a eles e aos seus aliados, os camponeses, e de uma organização comunal democrática que ponha nas suas mãos o controlo directo da propriedade comunal e uma série de funções actualmente exercidas pelos burocratas.

Além disso, a dominação e o rápido aumento do capital devem ser contrariados, em parte pela limitação do direito sucessório, em parte pela entrega ao Estado do maior número possível de trabalhos. No que se refere aos operários, antes de mais está assente que devem, como até agora, permanecer operários assalariados, apenas desejando os pequeno-burgueses democratas que os operários tenham melhor salário e uma existência mais assegurada; esperam eles conseguir isto [confiando], em parte, ao Estado a ocupação dos operários e através de medidas de beneficência; numa palavra, esperam subornar os operários com esmolas mais ou menos disfarçadas e quebrar a sua força revolucionária tornando-lhes momentaneamente suportável a sua situação. As reivindicações da democracia pequeno-burguesa, aqui resumidas, não são defendidas por todas as fracções ao mesmo tempo e muito poucos são aqueles que se apercebem delas na sua totalidade, como objectivo definido. Quanto mais longe forem indivíduos isolados ou fracções de entre eles, tantas mais destas reivindicações eles farão suas; e os poucos que vêem no atrás mencionado o seu próprio programa hão-de julgar ter-se com isto estabelecido, porém, o máximo a esperar da revolução. Mas estas reivindicações não podem bastar de modo algum ao partido do proletariado. Ao passo que os pequeno-burgueses democratas querem pôr fim à revolução o mais depressa possível, realizando, quando muito, as exigências atrás referidas, o nosso interesse e a nossa tarefa são tornar permanente a revolução até que todas as classes mais ou menos possidentes estejam afastadas da dominação, até que o poder de Estado tenha sido conquistado pelo proletariado, que a associação dos proletários, não só num país, mas em todos os países dominantes do mundo inteiro, tenha avançado a tal ponto que tenha cessado a concorrência dos proletários nesses países e que, pelo menos, estejam concentradas nas mãos dos proletários as forças produtivas decisivas. Para nós não pode tratar-se da transformação da propriedade privada, mas apenas do seu aniquilamento, não pode tratar-se de encobrir oposições de classes mas de suprimir as classes, nem de aperfeiçoar a sociedade existente, mas de fundar uma nova. Não resta dúvida alguma que a democracia pequeno-burguesa alcançará por um momento a influência preponderante na Alemanha no curso de desenvolvimento da revolução. Pergunta-se, pois, qual vai ser, perante ela, a posição do proletariado e especialmente da Liga:

1. enquanto durarem as actuais condições, em que também são oprimidos os democratas pequeno-burgueses;

2. na próxima luta revolucionária, que lhes dará a preponderância;

3. após essa luta, durante o tempo da sua preponderância sobre as classes derrubadas e o proletariado.

1. No momento presente, em que os pequeno-burgueses democratas são oprimidos por toda a parte, eles pregam ao proletariado em geral a união e a conciliação, estendem-lhe a mão e aspiram à formação de um grande partido de oposição que abarque todos os matizes no partido democrático; isto é, anseiam por envolver os operários numa organização partidária onde predominem as frases sociais-democratas gerais, atrás das quais se escondem os seus interesses particulares e onde as reivindicações bem determinadas do proletariado não possam ser apresentadas por mor da querida paz. Uma tal união resultaria apenas em proveito deles e em completo desproveito do proletariado. O proletariado perderia toda a sua posição autónoma arduamente conseguida e afundar-se-ia outra vez, tornando-se apêndice da democracia burguesa oficial. Essa união tem de ser recusada, por conseguinte, da maneira mais decidida. Em vez de condescender uma vez mais em servir de claque dos democratas burgueses, os operários, principalmente a Liga, têm de trabalhar para constituir, ao lado dos democratas oficiais, uma organização do partido operário, autónoma, secreta e pública, e para fazer de cada comunidade o centro e o núcleo de agrupamentos operários, nos quais a posição e os interesses do proletariado sejam discutidos independentemente das influências burguesas. Quão pouco séria é, para os democratas burgueses, uma aliança em que os proletários estejam lado a lado com eles, com o mesmo poder e os mesmos direitos, mostram-no por exemplo os democratas de Breslau, os quais no seu órgão, a Neue Oder-Zeizung[N83]atacam furiosamente os operários organizados autonomamente, a quem intitulam de socialistas. Para o caso de uma luta contra um adversário comum não é preciso qualquer união particular. Assim que se trate de combater directamente um adversário, os interesses dos dois partidos coincidem momentaneamente e, como até agora, também no futuro esta ligação, só prevista para o momento, se estabelecerá por si mesma. Compreende-se que nos conflitos sangrentos que estão iminentes, como em todos os anteriores, são principalmente os operários que, pela sua coragem, a sua decisão e abnegação, terão de conquistar a vitória. Como até agora, os pequeno-burgueses em massa estarão enquanto possível hesitantes, indecisos e inactivos nesta luta, para, uma vez assegurada a vitória, a confiscarem para si, exortarem os operários à calma e ao regresso ao seu trabalho [a fim de] evitar os chamados excessos e excluir o proletariado dos frutos da vitória. Não está no poder dos operários impedir disto os democratas pequeno-burgueses, mas está no seu poder dificultar-lhes o ascendente perante o proletariado em armas e ditar-lhes condições tais que a dominação dos democratas burgueses contenha em si desde o início o germe da queda e que seja significativamente facilitado o seu afastamento ulterior pela dominação do proletariado. Durante o conflito e imediatamente após o combate, os operários, antes de tudo e tanto quanto possível, têm de agir contra a pacificação burguesa e obrigar os democratas a executar as suas actuais frases terroristas. Têm de trabalhar então para que a imediata efervescência revolucionária não seja de novo logo reprimida após a vitória. Pelo contrário, têm de mantê-la viva por tanto tempo quanto possível. Longe de opor-se aos chamados excessos, aos exemplos de vingança popular sobre indivíduos odiados ou edifícios públicos aos quais só se ligam recordações odiosas, não só há que tolerar estes exemplos mas tomar em mão a sua própria direcção. Durante a luta e depois da luta, os operários têm de apresentar em todas as oportunidades as suas reivindicações próprias a par das reivindicações dos democratas burgueses. Têm de exigir garantias para os operários assim que os burgueses democratas se prepararem para tomar em mãos o governo. Se necessário, têm de obter pela força essas garantias e, principalmente, procurar que os novos governantes se obriguem a todas as concessões e promessas possíveis — o meio mais seguro de os comprometer. Têm principalmente de refrear tanto quanto possível, de toda a maneira mediante a apreciação serena, com sangue-frio, das situações, e pela desconfiança não dissimulada para com o novo governo, a embriaguês da vitória e o entusiasmo pelo novo estado de coisas que surge após todo o combate de rua vitorioso. Ao lado dos novos governos oficiais, têm de constituir imediatamente governos operários revolucionários próprios, quer sob a forma de direcções comunais, de conselhos comunais, quer através de clubes operários ou de comités operários, de tal maneira que os governos democráticos burgueses não só percam imediatamente o suporte nos operários, mas se vejam desde logo vigiados e ameaçados por autoridades atrás das quais está toda a massa dos operários. Numa palavra: desde o primeiro momento da vitória, a desconfiança tem de dirigir-se não já contra o partido reaccionário vencido, mas contra os até agora aliados [do proletariado], contra o partido que quer explorar sozinho a vitória comum.

2. Mas, para poderem opor-se enérgica e ameaçadoramente a este partido, cuja traição aos operários começará desde a primeira hora da vitória, têm os operários de estar armados e organizados. Tem de ser conseguido de imediato o armamento de todo o proletariado com espingardas, carabinas, canhões e munições; tem de ser contrariada a reanimação da velha milícia burguesa dirigida contra os operários. Onde não se consiga este último ponto, os operários têm de procurar organizar-se autonomamente como guarda proletária, com chefes eleitos e um estado-maior próprio, eleito, e pôr-se às ordens, não do poder do Estado mas dos conselhos comunais revolucionários formado pelos operários. Onde os operários estejam ocupados por conta do Estado, têm de conseguir o seu armamento e organização num corpo especial com chefes eleitos ou como parte da guarda proletária. Sob nenhum pretexto podem as armas e munições sair-lhes das mãos, qualquer tentativa de desarmamento tem de ser frustrada, se necessário, pela força. Liquidação da influência dos democratas burgueses sobre os operários; organização imediata, autónoma e armada dos operários; obtenção das condições mais dificultosas e compromissórias possível para a inevitável dominação temporária da democracia burguesa — tais são os pontos principais que o proletariado, e portanto a Liga, devem ter presentes durante e após a insurreição iminente.

3. Logo que os governos se tenham nalguma medida consolidado, começará de imediato a sua luta contra os operários. Para poder fazer frente, com força, aos pequeno-burgueses democratas, é necessário, antes de tudo, que os operários estejam autonomamente organizados e centralizados em clubes. Após a queda dos governos existentes, a Direcção Central dirigir-se-á logo que possível para a Alemanha, convocará imediatamente um congresso e nele fará as propostas necessárias para a centralização dos clubes operários sob uma direcção estabelecida no centro principal do movimento. A rápida organização, pelo menos de uma união provincial de clubes operários, é um dos pontos mais importantes para o fortalecimento e desenvolvimento do partido operário. A mais próxima consequência da queda dos governos existentes será a eleição de uma Representação nacional. O proletariado deve aqui cuidar de que:

I. Uma quantidade de operários não seja excluída, por quaisquer chicanas de autoridades locais e de comissários do governo, seja a que pretexto for.

II. Por toda a parte, ao lado dos candidatos democráticos burgueses, sejam propostos candidatos operários, na medida do possível de entre os membros da Liga e para cuja eleição se devem accionar todos os meios possíveis. Mesmo onde não existe esperança de sucesso, devem os operários apresentar os seus próprios candidatos, para manterem a sua democracia, para manterem a sua autonomia, contarem as suas forças, trazerem a público a sua posição revolucionária e os pontos de vista do partido. Não devem, neste processo, deixar-se subornar pelas frases dos democratas, como por exemplo que assim se divide o partido democrático e se dá à reacção a possibilidade da vitória. Com todas essas frases, o que se visa é que o proletariado seja mistificado. Os progressos que o partido proletário tem de fazer, surgindo assim como força independente, são infinitamente mais importantes do que o prejuízo que poderia trazer a presença de alguns reaccionários na Representação. Surja a democracia, desde o princípio, decidida e terrorista contra a reacção, e a influência desta nas eleições será antecipadamente aniquilada.

O primeiro ponto em que os democratas burgueses entrarão em conflito com os operários será o da supressão do feudalismo; tal como na primeira Revolução Francesa, os pequeno-burgueses entregarão aos camponeses as terras feudais como propriedade livre, quer dizer, pretendem deixar subsistir o proletariado rural e criar uma classe camponesa pequeno-burguesa, que atravessará o mesmo ciclo do empobrecimento e endividamento em que está agora o camponês francês.

No interesse do proletariado rural e no seu próprio interesse, os operários têm de opor-se a este plano. Têm de exigir que a propriedade feudal confiscada fique propriedade do Estado e seja transformada em colónias operárias, que o proletariado rural associado explore com todas as vantagens da grande exploração agrícola; desde modo, o princípio da propriedade comum obtém logo uma base sólida, no meio das vacilantes relações de propriedade burguesas. Tal como os democratas com os camponeses, têm os operários de unir-se com o proletariado rural[N84]. Além disso, os democratas ou trabalharão directamente para uma República federativa ou, pelo menos, se não puderem evitar uma República una e indivisível, procurarão paralisar o governo central mediante o máximo possível de autonomia e independência para as comunas(2) e províncias. Frente a este plano, os operários têm não só de tentar realizar a República alemã una e indivisível, mas também a mais decidida centralização, nela, do poder nas mãos do Estado. Eles não se devem deixar induzir em erro pelo palavreado sobre a liberdade das comunas, o autogoverno, etc. Num país como a Alemanha, onde estão ainda por remover tantos restos da Idade Média, onde está por quebrar tanto particularismo local e provincial, não se pode tolerar em circunstância alguma que cada aldeia, cada cidade, cada província ponha um novo obstáculo à actividade revolucionária, a qual só do centro pode emanar em toda a sua força. — Não se pode tolerar que se renove o estado de coisas actual, em que os alemães, por um mesmo passo em frente, são obrigados a bater-se separadamente em cada cidade, em cada província. Menos do que tudo pode tolerar-se que, através de uma organização comunal pretensamente livre, se perpetue uma forma de propriedade —, que ainda se situa aquém da propriedade privada moderna e por toda a parte se dissolve necessariamente nesta — a propriedade comunal, e as desavenças dela decorrentes entre comunas pobres e ricas, assim como o direito de cidadania comunal, subsistente, com as suas chicanas contra os operários, ao lado do direito de cidadania estatal. Tal como na França em 1793, o estabelecimento da centralização mais rigorosa é hoje, na Alemanha, a tarefa do partido realmente revolucionário(3).

Vimos como os democratas vão chegar à dominação com o próximo movimento e como vão ser forçados a propor medidas mais ou menos socialistas. Perguntar-se-á que medidas devem os operários contrapropor. Os operários não podem, naturalmente, propor quaisquer medidas directamente comunistas no começo do movimento. Mas podem:

1. Obrigar os democratas a intervir em tantos lados quanto possível da organização social até hoje existente, a perturbar o curso regular desta, a comprometerem-se a concentrar nas mãos do Estado o mais possível de forças produtivas, de meios de transporte, de fábricas, de caminhos-de-ferro, etc.

2. Têm de levar ao extremo as propostas dos democratas, os quais não se comportarão em todo o caso como revolucionários mas como simples reformistas, e transformá-las em ataques directos contra a propriedade privada; por exemplo, se os pequeno-burgueses propuserem comprar os caminhos-de-ferro e as fábricas, têm os operários de exigir que esses caminhos-de-ferro e fábricas, como propriedade dos reaccionários, sejam confiscados simplesmente e sem indemnização pelo Estado. Se os democratas propuserem o imposto proporcional, os operários exigirão o progressivo; se os próprios democratas avançarem a proposta de um [imposto] progressivo moderado, os operários insistirão num imposto cujas taxas subam tão depressa que o grande capital seja com isso arruinado; se os democratas exigirem a regularização da divida pública, os operários exigirão a bancarrota do Estado. As reivindicações dos operários terão, pois, de se orientar por toda a parte segundo as concessões e medidas dos democratas.

Se os operários alemães não podem chegar à dominação e realização dos seus interesses de classe sem passar por todo um desenvolvimento revolucionário prolongado, pelo menos desta vez têm eles a certeza de que o primeiro acto deste drama revolucionário iminente coincide com a vitória directa da sua própria classe em França e é consideravelmente acelerado por aquela.

Mas têm de ser eles próprios a fazer o máximo pela sua vitória final, esclarecendo-se sobre os seus interesses de classe, tomando quanto antes a sua posição de partido autónoma, não se deixando um só instante induzir em erro pelas frases hipócritas dos pequeno-burgueses democratas quanto à organização independente do partido do proletariado. O seu grito de batalha tem de ser: a revolução em permanência.

Londres, Março de 1850

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Notas de rodapé:

(1) A edição de 1885 indica, por engano, a data de 19 de Julho. (retornar ao texto)

(2) O termo “comuna” (Gemeinde) é aqui empregue em sentido amplo. Designa também os municípios. (retornar ao texto)

(3) Há que lembrar hoje que esta passagem assenta num mal-entendido. Considerava-se então como certo — graças aos falsificadores bonapartistas e liberais da história — que a máquina administrativa centralizada francesa fora introduzida pela grande Revolução e manejada, designadamente pela ConvençãoN85, como arma indispensável e decisiva para a vitória sobre a reacção monárquica e federalista e sobre o inimigo externo. Mas é actualmente um facto conhecido que durante toda a Revolução, até ao 18 de BrumárioN86, o conjunto da administração dos departamentos, distritos e comunas consistia em serviços públicos eleitos pelos próprios administrados e agia com inteira liberdade, nos limites das leis gerais do Estado; que este autogoverno provincial e local, semelhante ao americano, se tornou precisamente a mais poderosa alavanca da Revolução, e isso até ao ponto em que Napoleão, imediatamente após o seu golpe de Estado do 18 de Brumário, se apressou em substitui-la pela administração dos prefeitos ainda hoje existente, a qual, portanto, foi desde o começo um puro instrumento da reacção. Mas assim como o autogoverno local e provincial não contradiz a centralização política nacional, tão-pouco está ele necessariamente ligado a esse estreito egoísmo cantonal ou comunal que tanto nos choca na Suíça e que em 1849 todos os republicanos federalistas da Alemanha do sul queriam como regra na Alemanha. (Nota de Engels à edição de 1885.) (retornar ao texto)

Notas de fim de Tomo:

[N74] Trata-se das insurreições das massas populares na Alemanha em Maio-Julho de 1849 em defesa da Constituição imperial (adoptada pela Assembleia Nacional de Frankfurt em 28 de Março de 1849, mas rejeitada por uma série de Estados alemães). Estas insurreições tinham um carácter espontâneo e disperso e foram esmagadas em meados de Julho de 1849. - 142, 179. (retornar ao texto)

[N79] A Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas foi escrita por Marx e Engels em fins de Março de 1850, quando tinham ainda esperança num novo ascenso da revolução. Ao desenvolver a teoria e a táctica do proletariado na revolução iminente, Marx e Engels sublinhavam em particular na Mensagem a necessidade da criação de um partido proletário independente e da separação dos democratas pequeno-burgueses. A ideia dirigente fundamental formulada pelos fundadores do marxismo na Mensagem é a ideia da “revolução em permanência”, que deve conduzir à eliminação da propriedade privada e das classes e à criação de uma nova sociedade.
Mensagem da Direcção Central foi difundida secretamente entre os membros da Liga dos Comunistas. Em 1851, este documento, encontrado pela polícia prussiana nas mãos de vários membros da Liga dos Comunistas que foram presos, foi publicado nos jornais burgueses alemães e num livro de dois funcionários da polícia: Wermuth e Stieber. - 178. (
retornar ao texto)

[N80]Santa Aliança: agrupamento reaccionário dos monarcas europeus, fundada em 1815 pela Rússia tsarista, pela Áustria e pela Prússia para esmagar os movimentos revolucionários de alguns países e manter neles regimes monarco-feudais. - 180, 213, 322. (retornar ao texto)

[N81] Trata-se da capital da França, Paris, considerada desde os tempos da revolução burguesa francesa dos fins do século XVIII o foco da revolução. - 180. (retornar ao texto)

[N82] Esquerda da Assembleia de Frankfurt: ala esquerda pequeno-burguesa da Assembleia Nacional, convocada depois da revolução de Março na Alemanha, que começou as suas reuniões em 18 de Maio de 1848 em Frankfurt-am-Main. A principal tarefa da Assembleia consistia em pôr fim ao fraccionamento político da Alemanha e elaborar uma constituição para toda a Alemanha. No entanto, devido à cobardia e às vacilações da sua maioria liberal, à indecisão e à inconsequência da ala esquerda, a Assembleia receou tomar nas suas mãos o poder supremo e não foi capaz de ocupar uma posição decidida sobre as questões fundamentais da revolução alemã de 1848-1849. A Assembleia foi obrigada a transferir-se para Stuttgart. Em 18 de Junho de 1849 foi dissolvida pelas tropas. - 180, 373. (retornar ao texto)

[N83] Neue Oder-Zeitung (Nova Gazeta do Oder): jornal democrático-burguês alemão que, com este título, se publicou em Breslau (Wroclaw) entre 1849 e 1855. Em 1855 Marx foi correspondente deste jornal em Londres. - 183. (retornar ao texto)

[N84] As opiniões aqui expostas sobre a questão agrária estão estreitamente ligadas à apreciação geral formulada por Marx e Engels nos anos 40 e 50 sobre as perspectivas de desenvolvimento da revolução. Os fundadores do marxismo consideravam então, como mostrou Lénine, que o capitalismo já estava caduco e o socialismo já se aproximava. A partir daqui, Marx e Engels manifestam-se na Mensagem contra a entrega aos camponeses da terra confiscada aos latifundiários, pela sua transformação em propriedade do Estado e a entrega á disposição de colónias operárias do proletariado agrícola associado.
Apoiando-se na experiência da Revolução Socialista de Outubro na Rússia e na experiência do movimento revolucionário noutros países, Lénine desenvolveu as concepções marxistas sobre a questão agrária. Reconhecendo a conveniência da conservação preferencial das grandes empresas agrícolas depois da revolução proletária nos países capitalistas avançados, escreveu: “Seria no entanto o maior erro exagerar ou estereotipar esta norma e não admitir nunca a entrega gratuita de uma parte das terras dos expropriadores expropriados ao pequeno campesinato e por vezes até ao campesinato médio da vizinhança.” (Ver Obras Escolhidas de V. I. Lénine em três tomos, Edições “Avante!” - Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1979, t. 3, p. 362). - 186. (
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terça-feira, 25 de agosto de 2020

Roteiro da aula 2 do curso de leitura dirigida de O Capital

 

Boa noite a todos.

Boa noite a todas.

Boa noite a quem aqui na sala zoom.

Boa noite a quem está nos acompanhando on-line através do youtube.

Cumprimento, também, a quem venha nos assistir noutro momento.

Meu nome é Valter Pomar.

Sou professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC.

E faço parte da equipe de professores voluntários da Escola Latinoamericana de História e Política, a ELAHP.

Hoje vamos dar continuidade ao curso de “Leitura dirigida de O Capital”.

Este curso está planejado para durar 16 aulas, toda sexta-feira, das 19h as 21h.

As duas primeiras aulas, a da sexta-feira passada, 14 de agosto e a de hoje, 21 de agosto, são aulas introdutórias.

No dia 14 falamos do “capitalismo, história e teorias: por que estudar O Capital? A história da elaboração de O Capital”.

Hoje, dia 21 de agosto, falaremos da obra “Contribuição à Crítica da Economia Política”. E voltaremos a falar um pouco da história da elaboração de O Capital.

A partir de 28 de agosto e até o dia 27 de novembro, discutiremos o volume I de O Capital, capítulo por capítulo.

Repito aqui o que já disse na aula passada sobre o método: eu farei uma descrição do conteúdo do capítulo. Havendo tempo, responderei perguntas aqui mesmo. Não havendo tempo, responderei perguntas feitas por email. Recomendo perguntas por escrito.

Como eu sou o único professor alocado neste curso, caso eu tenha alguma dificuldade, há duas possibilidades: ou eu gravar a aula (nesse caso não seria online) ou eu pedir a alguém que me substitua extraordinariamente.

O que vocês devem fazer? Ler os capítulos antes, acompanhar as aulas e, se possível, ler os capítulos depois, novamente.

Evidentemente, quem perder a aula ao vivo, poderá assistir posteriormente. E se houver necessidade de fazer alguma aula extraordinária, o faremos.

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Na aula passada, já comentamos que a gestação do livro O CAPITAL ocorre entre 1850 e 1867.

Ao longo desses 17 anos, Marx leu e glosou centenas e centenas de livros.

E tomou notas, milhares de páginas de anotações.

E escreveu e reescreveu várias versões, que ele chamava de monografias.

Algumas dessas versões simplesmente sumiram, outras talvez não tenham existido.

O mais importante dos manuscritos desse  período é conhecido pelo nome Grundrisse.

O nome vem de um trecho escrito pelo próprio Marx, numa carta a Engels, datada de 8/12/1857: “trabalho como um louco as noites inteiras coordenando meus estudos econômicos, para esclarecer ao menos os elementos fundamentais antes do dilúvio”.

GRUNDRISSE DER KRITIK DER POLISTICHEN OKONOMIE (ROHENTWURF).

ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA CRITICA DA ECONOMIA POLITICA (BORRADOR).

Os cadernos manuscritos que hoje conhecemos por Grundrisse foram redigidos entre 1857 e 1858.

Em 1859 Marx publicou um livro chamado Contribuição à crítica da Economia Politica.

Depois produz um novo manuscrito, que hoje está também à disposição, desta vez com o título de Manuscritos de 1861-1863.

E, finalmente, vai lapidando o volume I de O Capital, que virá à luz em 1867.

Portanto, a Contribuição à critica da Economia Política é o livro que antecede O Capital, EMBORA ENTRE UM E OUTRO EXISTA MUITO TRABALHO INTERMEDIÁRIO.

Para os especialistas em Marx, é um prato cheio.

Para nós, é mais uma lembrança de que nada caiu do céu, tudo é produto do trabalho duro.

O conteúdo do livro Contribuição foi reaproveitado em O Capital.

O capítulo sobre mercadoria da Contribuição aparecerá basicamente no capítulo sobre mercadoria do Capital, naturalmente reelaborado.

E o capítulo sobre dinheiro da Contribuição aparecerá no capítulo sobre dinheiro de O Capital, e também em  outras passagens.

Naturalmente, há novidades: a principal delas, segundo os marxólogos, é a distinção clara entre valor e valor de troca.

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O índice da Contribuição é o seguinte:

ÍNDICE

Prólogo ...

Libro primero. ACERCA DEL CAPITAL

Sección primera. EL CAPITAL EN GENERAL.

Capítulo primero. LA MERCANCÍA . . .

A. CONSIDERACIONES HISTÓRICAS SOBRE EL ANÁLISIS DE LA MERCANCÍA

Capítulo segundo. EL DINERO O LA CIRCULACIÓN SIMPLE

1. Medida de los valores

B. TEORÍAS DE LA UNIDAD DE MEDIDA DEL DINERO

2. Medio de circulación

a) Metamorfosis de las mercancías

b) La circulación del dinero

c) El numerario. Signo de valor

3. El dinero

a) Atesoramiento

b) Medio de pago

c) Dinero mundial

4. Los metales preciosos

TEORÍAS DE LOS MEDIOS DE CIRCULACIÓN Y DEL DINERO

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Notem que, hipoteticamente, a Contribuição era para ser o capitulo 1 e 2 da primeira seção do primeiro livro.

Em alguns momentos, Marx e Engels chegam a referir-se a Contribuição como um fascículo.

Aliás, naquela época isso era muito comum, publicar obras em fascículos.

Mas não houve segunda seção, não houve primeiro livro.

Houve outro livro, a saber: O Capital.

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Como nosso objetivo neste curso é estudar O Capital, não vou aqui tratar destes capítulos da Contribuição que são reaproveitados em O Capital e, portanto, estudaremos os assuntos tratados neles, com base no que Marx escreverá posteriormente em O Capital.

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Na aula de hoje, portanto, vou me dedicar ao que foi abordado no Prólogo (ou prefácio) à Contribuição, que foi publicado junto com o livro de mesmo nome.

Noutro momento do curso, abordarei o que é dito em dois outros textos, que remetem à Contribuição:

- uma resenha escrita por Engels, em 1859

-a chamada Introdução, que foi um texto escrito em 1857, que Marx não incluiu na Contribuição, que ficou em formato manuscrito, que foi descoberto depois e publicado por Kautsky em 1903.

(A maioria das edições modernas da Contribuição publicam a tal Introdução como anexo, gerando algo divertido: um Prefácio no início e uma Introdução no final... )

Comecemos, então, com o Prólogo ou Prefácio. Citarei trechos e, em seguida, farei breves comentários.

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“Examino el sistema de la economía burguesa en el orden siguiente: capital, propiedad agraria, trabajo asalariado, Estado, comercio exterior, mercado mundial.”

“Bajo las tres primeras rúbricas estudio las condiciones económicas de vida de las tres grandes clases en que se divide la sociedad burguesa moderna; la interconexión de las tres restantes salta a la vista”.

 

-estes seis temas citados (capital, propiedad agraria, trabajo asalariado, Estado, comercio exterior, mercado mundial) faziam parte do plano original de O Capital.

-o plano foi modificado posteriormente e o que conhecemos hoje é o livro 1 sobre a produção, o livro 2 sobre a circulação e o livro 3 sobre o processo visto em seu conjunto.

-sobre as alterações no plano da obra, recomendo a leitura do Roman Rosdolski, Gênese e estrutura de O Capital de Marx (estudos sobre os Grundisse).

-notem, por outro lado, a importância da propriedade agrária no roteiro original. A terra, a questão agrária etc. não é e nunca foi um tema secundário para Marx, como podem pensar alguns.

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“La primera sección del libro primero, que trata del capital, se compone de los capítulos siguientes: 1) la mercancía; 2) el dinero o la circulación simple; 3) el capital en general. Los dos primeros capítulos forman el contenido del presente fascículo”.

 

-ou seja, reiterando o que já foi dito antes, o livro Contribuição à crítica da economia política (QUE ELE CHAMA DE “PRESENTE FASCICULO”) CONTEM DOIS CAPITULOS DOS TRES CAPITULOS QUE FARIAM PARTE DA PRIMEIRA SEÇÃO DO PRIMEIRO LIVRO, AQUELE SOBRE O CAPITAL.

-como sabemos, ao invés de publicar outros fascículos, ele fica entre 1859 e 1867 burilando e acaba publicando o primeiro tomo de O Capital, deixando outros dois volumes pré-prontos.

#

Ainda na Contribuição, ele dirá o seguinte:

“Tengo ante mis ojos todos los materiales en forma de monografías escritas con largos intervalos para mi propio esclarecimiento y no para su publicación; la elaboración sistemática de las mismas conforme al plan indicado dependerá de circunstancias externas”.

 

-como sabemos, reiterando, não foi isso o que aconteceu. Entre 1859 e 1867 Marx:

-MUDA O PLANO

-REDIGE E PUBLICA EM 1867 O VOLUME 1

-DEIXA OS OUTROS SEMI PRONTOS

-E MORRE em 1883

-para nossa sorte, existia o Engels

 

#

 

“Prescindo de una introducción general que había esbozado, porque, bien pensada la cosa, me parece que el anticipar los resultados que todavía han de demostrarse podría ser un estorbo, y el lector que quiera realmente seguirme deberá estar dispuesto a remontarse de lo singular a lo general”.

 

-ESTA “INTRODUÇÃO GERAL”, ONDE ELE SUPOSTAMENTE ANTECIPARIA OS RESULTADOS, E POR ISSO DECIDIU NÃO INCLUIR NO CONTRIBUIÇÃO A CRITICA DA ECONOMIA POLITICA, É a tal introdução sobre a qual já falamos.

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“Sin embargo, me parece oportuno dar aquí algunas indicaciones sobre la trayectoria de mis propios estudios de Economía política.”

“Aunque el objeto de mis estudios especializados fue la jurisprudencia, la consideraba sólo como una disciplina subordinada al lado de la filosofía y la historia. En 1842-1843, siendo director de la Rheinische Zeitungme vi por primera vez en la embarazosa obligación de pronunciarme sobre lo que se llama intereses materiales. Las deliberaciones del Landtag renano sobre la tala furtiva y el fraccionamiento de la propiedad agraria, la polémica oficial sostenida entre el señor von Schaper, entonces gobernador de la provincia renana, y la Rheinische Zeitung acerca de la situación de los campesinos de la Mosela, y, finalmente, los debates sobre el librecambio y las tarifas proteccionistas me dieron los primeros impulsos para ocuparme de cuestiones económicas.

-OU SEJA, ELE RECONHECE QUE NÃO ENTENDIA MUITO DO ASSUNTO...

“Por otra parte, en esa época, cuando las buenas intenciones de "adelantarse" superaban con mucho el conocimiento de la materia, la Rheinische Zeitung dejaba traslucir un eco, ligeramente teñido de filosofía, del socialismo y el comunismo franceses. Me pronuncié contra ese diletantismo, pero al propio tiempo confesé francamente, en una controversia con la Allgemeine Augsbürger Zeitung, que mis estudios hasta entonces no me permitían arriesgarme a expresar juicio alguno sobre el tenor mismo de las tendencias francesas”.

...OU SEJA,  NOVAMENTE ELE RECONHECE QUE NÃO ENTENDIA DO ASSUNTO

 “Aproveché con apresuramiento la ilusión de los dirigentes de la Rheinische Zeitung, quienes esperaban que suavizando la posición del periódico iban a conseguir la anulación de la sentencia de muerte pronunciada contra él, para abandonar el escenario público y retirarme a mi cuarto de estúdio”.

“El primer trabajo que emprendí para resolver las dudas que me asaltaban fue una revisión crítica de la filosofía hegeliana del Derecho, trabajo cuya introducción apareció en 1844 en los Deutsch-Französische Jahrbücher, publicados en París”.

 

-ESSE ACIMA -- Crítica da filosofia do direito de Hegel -- É O PRIMEIRO TEXTO ESPECÍFICO QUE ELE CITA, ALÉM DOS IMPLICITOS TEXTOS JORNALISTICOS.

-VEJAMOS A SEGUIR O QUE ELE DESTACA COMO CONCLUSÃO OU TESE FUNDAMENTAL:

“Mis indagaciones me hicieron concluir que tanto las relaciones jurídicas como las formas de Estado no pueden ser comprendidas por sí mismas ni por la pretendida evolución general del espíritu humano, sino que, al contrario, tienen sus raíces en las condiciones materiales de vida, cuyo conjunto Hegel, siguiendo el ejemplo de los ingleses y franceses del siglo XVIII, abarca con el nombre de "sociedad civil", y que la anatomía de la sociedad civil debe buscarse en la Economía política”.

-OU SEJA, AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO SÃO CENTRAIS;

-RELAÇÕES DE PRODUÇÃO SÃO AS RELAÇÕES QUE OS SERES HUMANOS ESTABALECEM ENTRE SI PARA PRODUZIR E REPRODUZIR AS SUAS CONDIÇÕES DE VIDA, A SUA VIDA EM SOCIEDADE, PORTANTO A SOCIEDADE COMO UM TODO;

-A MESMA IDEIA É DESENVOLVIDA EM A IDEOLOGIA ALEMÃ.

 

 “Comencé el estudio de esta última en París y lo proseguí en Bruselas, adonde me trasladé en virtud de una orden de expulsión dictada por el señor Guizot. El resultado general a que llegué y que, una vez obtenido, sirvió de guía a mis estudios puede formularse brevemente como sigue:”

 

VEJAMOS ITEM A ITEM O QUE ELE DIZ E CHAMEMOS A ATENÇÃO PARA ALGUMAS CATEGORIAS E ENFASES:

 

“En la producción social de su vida, los hombres entran en determinadas relaciones necesarias e independientes de su voluntad, relaciones de producción, que corresponden a un determinado grado de desarrollo de sus fuerzas productivas materiales”.

 

...RELAÇÕES DE PRODUÇÃO...

...CORRESPONDEM...

...A UM DETERMINADO GRAU DE DESENVOLVIMENTO DAS FORÇAS PRODUTIVAS MATERIAIS...

-QUE RELAÇÕES?

-QUE GRAU DE DESENVOLVIMENTO?

-COMO SE CORRESPONDEM?

-ISTO TUDO DEVE SER ESTUDADO E RESPONDIDO CONCRETAMENTE

 

“Estas relaciones de producción en su conjunto constituyen la estructura económica de la sociedad, la base real sobre la cual se erige la superestructura jurídica y política y a la que corresponden determinadas formas de conciencia social”.

 

-NOTEM QUE O TERMO RELAÇÕES DE PRODUÇÃO PODE SER COMPREENDIDO EM DOIS SENTIDOS DIFERENTES

-COMO RELAÇÕES DE PRODUÇÃO AMPLO SENSO, NESTE CASO UMA CATEGORIA QUE INCLUI NO SEU INTERIOR AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO ESTRITO SENSO E AS FORÇAS PRODUTIVAS, PORTANTO NESTE CASO RELAÇÕES DE PRODUÇÃO É UMA UNIDADE DIALÉTICA

-COMO RELAÇÕES DE PRODUÇÃO ESTRITO SENSO

-NO SENTIDO AMPLO, ELE DIZ QUE “AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO EM SEU CONJUNTO CONSTITUEM A ESTRUTURA ECONOMICA DA SOCIEDADE”, OU SEJA, TUDO AQUILO QUE DIZ RESPEITO A PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO DA VIDA EM SOCIEDADE, SEM O QUE NÃO HAVERÁ SOCIEDADE

-MARX DIZ QUE É “A PARTIR DESTA BASE” QUE SE ERIGE A “SUPERESTRUTURA JURIDICA E POLITICA” E A QUAL “CORRESPONDEM DETERMINADAS FORMAS DE CONSCIENCIA SOCIAL”

-MUITO SE ESCREVEU SOBRE BASE E SUPERESTRUTURA, E EM GERAL A POLEMICA A RESPEITO DESTES TERMOS DIZ RESPEITO A RELAÇÃO ENTRE UMA E OUTRA, AS INTERAÇÕES MUTUAS, AS DETERMINAÇÕES RECIPROCAS

-HÁ OS QUE ACHAM QUE EXISTIRIA UMA DETERMINAÇÃO UNILATERAL (A BASE DETERMINA A SUPERESTRUTURA)

-HÁ OS QUE ACHAM QUE EXISTIRIA UMA RELAÇÃO BILATERAL (BASE E SUPERESTRUTURA SE DETERMINARIAM MUTUAMENTE)

-HÁ OS QUE ACHAM QUE É BILATERAL MAS QUE  EXISTIRIA UMA DETERMINAÇÃO EM ULTIMA INSTANCIA

-E ASSIM POR DIANTE

NOTEM QUE PARA MARX ESTES CONCEITOS FLUEM NATURALMENTE, NÃO TEM O SIGNIFICADO estático, doutrinário, religioso, QUE ALGUNS VÃO DAR POSTERIORMENTE

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“El modo de producción de la vida material condiciona el proceso de vida social, político y espiritual en general”.

 

-A CATEGORIA MODO DE PRODUÇÃO assume, na frase acima, o mesmo sentido das RELAÇÃO DE PRODUÇÃO NO SENTIDO AMPLO DA PALAVRA, PORTANTO UNIDADE ENTRE RELAÇÕES DE PRODUÇÃO ESTRITO SENSO E FORÇAS PRODUTIVAS;

-e é o modo de produção da vida material que CONDICIONA a vida social como  um todo, inclusive a vida política e espiritual;

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“No es la conciencia de los hombres la que determina su ser, sino, por el contrario, el ser social es lo que determina su conciencia”.

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Neste ponto, Marx introduz o que é o núcleo duro de sua concepção de transformação, de revolução, de desenvolvimento histórico, de progresso:

“En cierta fase de su desarrollo, las fuerzas productivas materiales de la sociedad entran en contradicción con las relaciones de producción existentes, o bien, lo que no es más que la expresión jurídica de esto, con las relaciones de propiedad en el seno de las cuales se han desenvuelto hasta entonces”.

 

A SEGUNDA PARTE DO RACIOCINIO ACIMA É AUTOEVIDENTE: “las relaciones de producción existentes, o bien, lo que no es más que la expresión jurídica de esto, con las relaciones de propiedad en el seno de las cuales se han desenvuelto hasta entonces”.

 

ASSIM, VAMOS NOS CONCENTRAR NA PRIMEIRA PARTE DO RACIOCINIO: “En cierta fase de su desarrollo, las fuerzas productivas materiales de la sociedad entran en contradicción con las relaciones de producción existentes”

 

-HÁ MUITAS POLEMICAS A RESPEITO DO ACIMA, E PARTE DAS POLEMICAS SE RELACIONA A MANEIRAS DIFERENTES DE ENTENDER AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E AS FORÇAS PRODUTIVAS

-PRIMEIRO, QUERO LEMBRAR QUE RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E FORÇAS PRODUTIVAS SÃO CATEGORIAS QUE DIZEM RESPEITO A SERES HUMANOS, CLASSES SOCIAIS, A SUA RELAÇÃO (ENTRE SI), SUA RELAÇÃO INCLUSIVE COM OS PRODUTOS DO TRABALHO HUMANO, SUA RELAÇÃO COM A NATUREZA, OU SEJA, COM TUDO QUE NÃO É HUMANO E QUE NÃO É PRODUTO DO TRABALHO HUMANO;

-SEGUNDO, QUERO LEMBRAR QUE ESTAS CATEGORIAS SÃO HISTORICAMENTE DETERMINADAS;

-NÃO EXISTE SOCIEDADE HUMANA SEM TRABALHO HUMANO AGINDO SOBRE A NATUREZA, MAS QUANDO UM ESCRAVO ESTÁ CARREGANDO ALGO, QUANDO UM SERVO ESTÁ CAREGANDO ALGO, QUANDO UM PEQUENO PROPRIETÁRIO LIVRE ESTÁ CARREGANDO, QUANDO UM ASSALARIADO ESTÁ CARREGANDO ALGO, POR MAIS QUE AS OPERAÇÕES FÍSICAS POSSAM “SER” AS “MESMAS”, AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO SÃO DISTINTAS;

-TERCEIRO, É PRECISO LEMBRAR QUE RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E FORÇAS PRODUTIVAS SÃO DIFERENTES MANIFESTAÇÕES DA MESMA, DIGAMOS, MATÉRIA PRIMA: SERES HUMANOS EM PROCESSO...

-AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO SÃO AS RELAÇÕES QUE OS SERES HUMANOS MANTÉM ENTRE SI, NA PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO DE SUA VIDA MATERIAL, PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO QUE dependem no limite do METABOLISMO MANTIDO COM A NATUREZA;

-ESTE METABOLISMO OCORRE DE MANEIRAS DIFERENTES, A DEPENDER DO “grado de desarrollo de sus fuerzas productivas materiales”;

-PORTANTO, QUANDO Marx FALA DA CONTRADIÇÃO ENTRE RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E FORÇAS PRODUTIVAS, ELE ESTÁ SE REFERINDO A UMA CONTRADIÇÃO DIALÉTICA QUE OCORRE DENTRO DE UMA TOTALIDADE ORGANICA;

-a saber: a contradição entre as relações entre os seres humanos (hxh) e a relação da humanidade (H) com a natureza (N)(HxN) (ou meio circundante) ou mais precisamente a contradição entre as relações de produção e a produtividade/forças produtivas.

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“En cierta fase de su desarrollo, las fuerzas productivas materiales de la sociedad entran en contradicción con las relaciones de producción existentes”...

 

-INICIALMENTE OS SERES HUMANOS SÃO PARTE DA NATUREZA “COMO QUALQUER” OUTRA ESPECIE;

-POUCO A POUCO SUA AÇÃO COLETIVA (ação coletiva = relações de produção e forças produtivas AO MESMO TEMPO) SOBRE A NATUREZA FAZ COM QUE ESTA ESPECIE HUMANA VÁ AUMENTANDO SUA CAPACIDADE DE ALTERAR A PROPRIA NATUREZA;

-ESTE AUMENTO da produtividade DECORRE DE TRANSFORMAÇÕES QUE VÃO ocorrendo tanto NAS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E NAS FORÇAS PRODUTIVAS (aliás, é no curso deste processo que SURGEM as relações de produção e as forças produtivas, enquanto unidade dialética e enquanto variáveis particulares);

-Algumas destas transformações:

1/a criação de ferramentas (extensão da mão, considerar a famosa “transformação do macaco em homem pelo trabalho”);

2/o desenvolvimento da capacidade de projetar cerebralmente os processos;

3/a capacidade de usar força-motriz não humana;

4/o desenvolvimento de máquinas;

5/o desenvolvimento de uma divisão técnica do trabalho e de  uma divisão social do trabalho, que vão assumindo diferentes formas ao longo de milhares de anos...

...por exemplo, transformação do TRABALHO VOLUNTÁRIO presente no COMUNISMO PRIMITIVO, em TRABALHO  SUBORDINADO, explorado e oprimido, como ocorre no que chamamos de ESCRAVIDÃO E SERVIDÃO...

...TRANSFORMAÇÃO DO TRABALHO SUBORDINADO NA FORMA DE ESCRAVIDÃO OU SERVIDÃO em TRABALHO assalariado e APARENTEMENTE LIVRE...

...(E, QUEM SABE, SE TUDO DER CERTO, A FUTURA transformação do trabalho assalariado em trabalho completamente livre, isto quando a sociedade atingir alto nível de desenvolvimento tecnológico e de produtividade, podendo atender a todas as necessidade sociais e contar com o trabalho voluntário de seus membros nas áreas de desenvolvimento cientifico, tecnológico e cultural);

-ESTE PROCESSO histórico, com séculos e milênios de duração, VAI CRIANDO UMA DUPLA DISTINÇÃO:

-NA SOCIEDADE, ENTRE CLASSES, UMA UNIDADE CONTRADITÓRIA;

-E TAMBÉM A DISTINÇÃO ENTRE HUMANIDADE E NATUREZA, OUTRA UNIDADE CONTRATIDÓRIA.

-ESTA UNIDADE CONTRADITÓRIA é portanto permanentemente antagônica, MAS ISSO NÃO IMPEDE O FUNCIONAMENTO, melhor dizendo, a reprodução da sociedade, através da relação entre os homens e destes em relação com a natureza;

-a equação: [(hxh)xN]

-MAS EM DETERMINADO MOMENTO O ANTAGONISMO SE TORNA TAL QUE O CONJUNTO ENTRA EM CRISE, a reprodução enfrenta dificuldades crescentes.

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“De formas de desarrollo de las fuerzas productivas, estas relaciones se convierten en trabas suyas. Y se abre así una época de revolución social.”

 

-a relação entre relações de produção e forças produtivas é claramente, nesta formulação, a de uma “unidade de contrários”

-A IMAGEM DA CRISALIDA

-AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO CAPITALISTAS (ENTRE PROPRIETÁRIOS DE CAPITAL E ASSALARIADOS) ENTRAM EM CONTRADIÇÃO COM AS FORÇAS PRODUTIVAS CAPITALISTAS (PROCESSO DE  PRODUÇÃO COLETIVA REALIZADO COM CADA VEZ MAIS TRABALHO MORTO E CADA VEZ MENOS  TRABALHO VIVO).

-ONDE ESTÁ A CONTRADIÇÃO?

-O PROCESSO DE ACUMULAÇÃO DE CAPITAL ALIMENTA-SE DO TRABALHO VIVO E DO TRABALHO MORTO, TRANSFORMADOS EM MERCADORIAS A SEREM CONSUMIDAS PELO CONJUNTO DA SOCIEDADE PARA PERMITIR SUA REPRODUÇÃO AMPLIADA (a reprodução da sociedade e a reprodução do capital);

-o PROCESSO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA REDUZ CADA VEZ MAIS O TRABALHO VIVO, INCIDINDO NEGATIVAMENTE SOBRE SOBRE A CAPACIDADE DE CONSUMO DA SOCIEDADE, sobre A PRODUÇÃO DO VALOR A MAIS, SOBRE A TAXA DE LUCRO, E, PORTANTO, SOBRE A REPRODUÇÃO AMPLIADA DO CAPITAL (a dinâmica de reprodução da sociedade vai num sentido, a dinâmica de reprodução do capital vai noutro sentido);

-os aspectos produtivos-técnicos deste processo não constituiriam um problema em uma sociedade organizada de outra forma (reduzir o tempo de trabalho necessário, ampliar o trabalho livre, ao mesmo tempo em que amplia a abundância social não seria um problema para uma sociedade organizada em torno da produção de valores de uso);

-mas em uma sociedade organizada em torno da reprodução ampliada do Capital, isso que resumimos acima vira um problema.

SIGAMOS COM A LEITURA

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“Al cambiar la base económica, se transforma más o menos rápidamente toda la superestructura inmensa”.

-A FRASE ACIMA PODE SER ENTENDIDA EM DOIS SENTIDOS:

-COMO FENOMENO GERAL e mais ou menos permanente;

-COMO FENOMENO ESPECIFICO DAS EPOCAS DE REVOLUÇÃO SOCIAL;

-NESTE SEGUNDO CASO, nos parece que MARX PROJETA PARA TODA A HISTÓRIA O FENOMENO QUE SE VERIFICOU DE FORMA TIPICA NA TRANSIÇÃO DO FEUDALISMO PARA O CAPITALISMO;

-projeta para trás e projeta para frente (o que faz sentido, se lembrarmos que ele considera que a partir da anatomia do ser humano é que se pode compreender melhor a anatomia do macaco);

-nesta fórmula sintética, parece pressuposto que VÁ OCORRER O MESMO OU ALGO SIMILAR, na transição do capitalismo em direção ao comunismo, que havia ocorrido na transição do feudalismo ao capitalismo;

-fica anotado que esta, digamos, simetria é em certo sentido um problema. Muitos anos mais tarde, na correspondência com Vera Zassulich, Marx deixará claro que suas reflexões em O Capital não se aplicam a quaisquer processos históricos;

-mas a maneira de expor o problema em 1859 e, antes disso, também em 1847 (Manifesto do Partido Comunista) pode gerar uma interpretação “universalista” que, aceita sem certos cuidados, pode gerar muitos problemas teóricos e práticos.

SIGAMOS A LEITURA

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“Cuando se examinan tales transformaciones, es preciso siempre distinguir entre la transformación material —que se puede hacer constar con la exactitud propia de las ciencias naturales de las condiciones de producción económicas y las formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas o filosóficas, en breve, las formas ideológicas bajo las cuales los hombres toman conciencia de este conflicto y luchan por resolverlo”.

 

-AQUI FICA CLARO QUE MARX COMPREENDE PERFEITAMENTE A DIFERENÇA QUE EXISTE ENTRE AS CHAMADAS CIENCIAS NATURAIS E AS CHAMADAS CIENCIAS SOCIAIS

-INFELIZMENTE, MUITOS “cientistas naturais” não percebem isso, assim como muitos CIENTISTAS SOCIAIS NÃO PERCEBEM A RELAÇÃO QUE EXISTE ENTRE NATUREZA E SOCIEDDE E, POR ISSO, NÃO PERCEBEM QUE ESTA RELAÇÃO TEM TAMBÉM SUA CORRESPONDENCIA NO PLANO DAS IDEIAS E QUE PORTANTO deve existir UMA RELAÇÃO entre o método nas CIENCIAS SOCIAIS E nas CIENCIAS NATURAIS;

SIGAMOS A LEITURA

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“Del mismo modo que no se puede juzgar a un individuo por lo que piensa de sí mismo, tampoco se puede juzgar a semejante época de transformación por su conciencia; es preciso, al contrario, explicar esta conciencia por las contradicciones de la vida material, por el conflicto existente entre las fuerzas productivas sociales y las relaciones de producción”.

-TRES EXEMPLOS INTERESSANTES, da relação entre a consciência e as ÉPOCAS HISTÓRICAS

-O RACISMO “CIENTÍFICO”, que VAI EMERGIR com muita força EXATAMENTE QUANTO A ESCRAVIDÃO ESTÁ SENDO SUPERADA;

-O FEMINISMO: AS MULHERES SEMPRE FORAM MAIS OU MENOS METADE DA HUMANIDADE, mas é relativamente recente que ESTA METADE GANHE VISIBILIDADE no plano das ideias;

-O SOCIALISMO: quem ler Utopia ficará envergonhado, pois fica claro que a “utopia” de 1516 e o socialismo moderno são MUITO diferentes.

SIGAMOS A LEITURA

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“Una formación social no desaparece nunca antes de que se desarrollen todas las fuerzas productivas que caben dentro de ella...”

 

-notem que o termo FORMAÇÃO SOCIAL as vezes é utilizado no mesmo sentido que “modo de produção”, as vezes assume outro significado;

-a noção do “desaparecimento” de uma formação --neste caso, modo de produção – precisa ser compreendida NÃO como desaparecimento completo de determinadas relações, mas de desaparecimento enquanto modo de produção e reprodução da vida social como um todo: não há mais nenhuma sociedade escravista ou sociedade feudal no mundo, mas continua existindo trabalho escravo e trabalho servil, nos porões da sociedade capitalista, assim como o próprio capitalismo tende a submeter os trabalhadores a condições pré-capitalistas de exploração;

-mas atenção: quando uma formação social desaparece, dando lugar a outra formação social, isto ocorre NO CURSO DE UMA TRANSIÇÃO;

-quando pensamos na possibilidade do capitalismo “desaparecer” e, no seu lugar, surgir uma sociedade comunista, há duas possibilidades lógicas (segundo o raciocínio acima de Marx): 1/que “se desarrollen todas las fuerzas productivas que caben dentro” do capitalismo e DEPOIS comece uma transição socialista e/ou a construção do comunismo; 2/que se “desarrollen todas las fuerzas productivas que caben dentro” do capitalismo, já nos marcos de uma transição socialista ao comunista;

-esta segunda hipótese é a adotada, hoje, pelos comunistas chineses, que acreditam em concluir o desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, nos marcos de uma transição socialista em direção ao comunismo;

-uma questão que se coloca, também, é saber qual o nível de ou quantas forças produtivas de determinado tipo “CABEM” dentro de uma formação social?

-dito de outra forma, há LIMITES? Quantas forças produtivas podem ser desenvolvidas ANTES que o capitalismo chegue na condição de desaparecimento?

-Marx, noutro momento, falará que o limite do Capital é o próprio Capital;

-a resposta, neste caso, é dada pela capacidade de reprodução desta determinada formação social;

-vejamos o caso da escravidão antiga: se o número de escravos for muito grande, os custos sociais implícitos na reprodução da escravidão (alimentar os escravos + alimentar quem controla os escravos + mais alimentar a classe dominante) pode superar a capacidade produtiva da própria escravidão, criando debilidades que provocam a crise na escravidão;

 

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SIGAMOS O TEXTO...

 

... “y jamás aparecen relaciones de producción nuevas y superiores antes de que hayan madurado, en el seno de la propia sociedad antigua, las condiciones materiales para su existência”.

 

-notem que este é o “lado B” da discussão anterior. Lembrando: quando pensamos na possibilidade do capitalismo “desaparecer” e, no seu lugar, surgir uma sociedade comunista, há duas possibilidades lógicas:

1/que “se desarrollen todas las fuerzas productivas que caben dentro” do capitalismo e DEPOIS comece uma transição socialista e/ou a construção do comunismo;

2/que se “desarrollen todas las fuerzas productivas que caben dentro” do capitalismo, já nos marcos de uma transição socialista ao comunista;

-para que uma formação social desapareça e dê lugar a outra, é preciso que ocorram dois fenômenos: o desaparecimento de uma e o surgimento de outra;

-se nosso foco for a Europa (e não o que ocorrerá no processo de colonização que hoje chamamos de América), fica claro o que se quer dizer: as novas relações de produção amadureceram “en el seno de la propia sociedad antigua”, dependendo para isto de determinadas “condiciones materiales”;

-todo este raciocínio deve ser levado em conta, frente aos que falam de sociedades “comunistas” ou “socialistas” que prescindam do desenvolvimento do capitalismo, ou que de maneira mais geral prescindam do desenvolvimento das forças produtivas materiais;

 

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“Por eso la humanidad se plantea siempre únicamente los problemas que puede resolver, pues un examen más detenido muestra siempre que el propio problema no surge sino cuando las condiciones materiales para resolverlo ya existen o, por lo menos, están en vías de formación”.

 

-a frase ESTAN EM VIAS DE FORMAÇÃO salva o raciocínio como um todo, pois hoje podemos ter a certeza de que em 1859 (ano em que foi escrito o Prefácio que estamos analisando) não estavam dadas as condições para a superação do capitalismo, pelo contrário ele estava apenas começando a se expandir mundo afora.

 

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“A grandes rasgos, el modo de producción asiático, el antiguo, el feudal y el burgués moderno pueden designarse como épocas de progreso en la formación social económica”.

 

-O QUE ELE CHAMA DE “ANTIGO” É O ESCRAVISTA;

-ELE INTRODUZ ENTRE OS “MODOS DE PRODUÇÃO” O  “ASIÁTICO”;

-HÁ TODO UM DEBATE A RESPEITO, HAVENDO QUEM DIGA QUE O FEUDALISMO EUROPEU OCIDENTAL É, NA VERDADE, UMA VARIANTE DO MODO DE PRODUÇÃO ASIÁTICO, UM “ASIATICO DEBIL”;

-HÁ, TAMBÉM, QUEM ENTENDA “EPOCAS DE PROGRESSO” COMO A UMA SUCESSÃO LINEAR;

-A ESSE RESPEITO RECOMENDAMOS A LEITURA DE: 1/MAURICE GODELIER 2/ FORMEN E O COMENTÁRIO A RESPEITO DO ERIC HOBSBAWN;

-NO PARÁGRAFO CITADO ACIMA, E NA ANALISE FEITA POR HOBSBAWN ACERCA DO TEXTO CITADO, FICA CLARA A CENTRALIDADE DA NOÇÃO DE PROGRESSO E O SIGNIFICADO MAIS PROFUNDO DISTO PARA MARX: PROGRESSO COMO A FORMAÇÃO HISTÓRICA DA HUMANIDADE, ENQUANTO ALGO AO MESMO TEMPO DISTINTO E INTEGRADO A NATUREZA.

 

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“Las relaciones de producción burguesas son la última forma antagónica del proceso social de producción, antagónica, no en el sentido de un antagonismo individual, sino de un antagonismo que emana de las condiciones sociales de vida de los indivíduos”.

 

-neste parágrafo está expresso o profundo otimismo de Marx (os críticos diriam: o profundo mileranismo);

-por qual motivo o capitalismo seria a “ULTIMA FORMA ANTAGONICA” do processo social de produção?

-voltemos a equação fundamental: [(hxh)xN]

-durante muito tempo hxh foram relações ANTAGONICAS, RELAÇÕES DE CLASSE, DE EXPLORAÇÃO E OPRESSÃO

-MAIS DO QUE ISSO, durante muito tempo hxh foram RELAÇÕES QUE EVOLUIRAM PERIODICAMENTE PARA SITUAÇÕES DE CRISE E REVOLUÇÃO (ou destruição das classes em luta);

-mas, por outro lado, durante muito tempo as relações hxh, mesmo antagônicas, foram OBJETIVAMENTE um fator de progresso da humanidade, no sentido acima explicado;

-mas o desenvolvimento das relações de produção e das forças produtivas no capitalismo estão produzindo uma situação limite, uma vez que vão eliminando cada vez mais trabalho vivo (barbárie) e vão impondo um custo ambiental cada vez mais alto;

-qual a solução?

 

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“Pero las fuerzas productivas que se desarrollan en el seno de la sociedad burguesa brindan, al mismo tiempo, las condiciones materiales para resolver dicho antagonismo”.

 

-notem que Marx fala que as forças produtivas criam as condições MATERIAIS para resolver o “antagonismo que emana de las condiciones sociales de vida de los indivíduos”;

-forças produtivas pode e deve ser entendido, aqui, como desenvolvimento científico, tecnológico, ferramentas, máquinas, processos produtivos...

-mas também deve ser entendido no sentido de produtivade global da humanidade, que se corporifica numa massa de pessoas que, agindo coletivamente, tem a capacidade de produzir e reproduzir a sociedade humana;

-neste sentido, as forças produtivas não são apenas o “trabalho morto”, mas também o “trabalho vivo”, o proletariado global,  a classe trabalhadora como um todo;

-por isso, aliás, falamos do conflito entre relações de produção e forças produtivas, do conflito entre Capital e Trabalho,  do conflito entre trabalho morto e trabalho vivo, como diferentes formas de expressar o mesmo fenômeno de fundo;

-mas por qual motivo, precisamente, as FORÇAS PRODUTIVAS CRIAM AS CONDIÇÕES MATERIAIS PARA RESOLVER O ANTAGONISMO?

-PRIMEIRO, PORQUE AS FORÇAS PRODUTIVAS EXIGEM CADA VEZ MENOS TEMPO PARA PRODUZIR CADA VEZ MAIS RIQUEZA, COM cada vez menor PARTICIPAÇÃO da força de trabalho NO PROCESSO PRODUTIVO E, AO MESMO TEMPO, CRIANDO AS CONDIÇÕES PARA ATENDER A TODAS AS NECESSIDADES SOCIAIS;

-OU SEJA, O CAPITALISMO, AO DESENVOLVER CIENTÍFICA E TECNOLOGICAMENTE AS FORÇAS PRODUTIVAS E CRIAR AS CONDIÇÕES DE ATENDER A TODAS AS NECESSIDADES SOCIAIS, TORNA cada vez menos necessária a presença do TRABALHO HUMANO NO PROCESSO PRODUTIVO, mas ao fazer isso torna cada vez mais anacrônica a EXPLORAÇÃO DESSE TRABALHO;

-o capitalismo, de um fator de desenvolvimento das forças produtivas, torna-se um crescente peso, um crescente obstáculo (pensar no custo social das guerras, da segurança pública para defender a propriedade, dos desastre ambientais, da miséria social etc.;

-chegando neste ponto, há uma disjuntiva:

1/ou se mantém e se aprofunda a constituição da humanidade, eliminando a propriedade privada dos meios de produção, do controle sobre as forças produtivas, reconhecendo que A EXPLORAÇÃO tornou-se historicamente ANACRONICA;

2/ou se coloca em crescente risco a sobrevivência da sociedade humana, mantendo a propriedade privada das forças produtivas e empurrando a sociedade para a barbária e para a crise permanente.

 

VEJAMO ISTO NO DETALHE:

 

1/EXPLORAR SIGNIFICA SE APROPRIAR DO VALOR A MAIS DO PRODUTO CRIADO PELOS PRODUTORES DIRETOS;

 

2/ESSA APROPRIAÇÃO DE PARTE DO VALOR CRIADO NA PRODUÇAO TEM UM CUSTO QUE OS EXPROPRIADORES PRECISAM COBRIR, SEJA SOB A FORMA DE CUSTOS NECESSÁRIOS PARA REPRODUZIR A FORÇA PRODUTIVA, SEJA SOB A FORMA DE CUSTOS NECESSÁRIOS PARA MANTER ESTA FORÇA PRODUTIVA SOB CONTROLE, SEJA OS CUSTOS IMPOSTOS PELOS EFEITOS COLATERAIS DO PROCESSO;

3/ALÉM DISSO, HÁ UM PROBLEMA CRESCENTE DE REALIZAÇÃO, UMA CONTRADIÇÃO ENTRE A CAPACIDADE DE PRODUÇÃO E CAPACIDADE DE ABSORÇÃO (que, como explicamos, não existiria numa sociedade produtora de valores de uso, planificada, mas existe no capitalismo);

 

4/O QUE FAZ O CAPITALISMO?

-PRODUÇÃO CADA VEZ MAIS COLETIVA

-PRODUTIVIDADE CADA VEZ MAIOR PARA ELEVAR A MAIS VALIA RELATIVA E REDUZIR PREÇOS, PARA DISPUTAR COM VANTAGEM O MERCADO EM QUE A DISTRIBUIÇÃO DOS LUCROS SE REALIZA

 

5/ A CONTRADIÇÃO ENTRE A ELEVAÇÃO DA CAPACIDADE PRODUTIVA E A CRESCENTE REDUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO CRIA UMA SITUAÇÃO DE crescente crise HUMANITÁRIA;

 

6/VISTA DE CONJUNTO, A SITUAÇÃO PODE SER RESOLVIDA RESOLVENDO O ANTAGONISMO (hxh) ATRAVÉS DA PROPRIEDADE COLETIVA DOS MEIOS DE PRODUÇÃO, CUJO PRESSUPOSTO MATERIAL FOI CRIADO PELO PRÓPRIO CAPITALISMO, A SABER, A PRODUÇÃO COLETIVA;

 

7/SE ISTO OCORER, ESTARIAM RESOLVIDOS OS CONFLITOS QUE MARCARAM A PRÉHISTORIA DA HUMANIDADE...

 

“Con esta formación social se cierra, pues, la prehistoria de la sociedad humana”.

 

Evidente que isto é uma das possibilidades. Outra, por exemplo, é a “destruição das classes em luta”.


Evidente, também, que o fim da pré-história da humanidade NÃO é o surgimento de uma sociedade sem antagonismos de nenhum tipo. Que antagonismos surgirão? Assunto para as gerações futuras.

 

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VEJAMOS A SEGUIR O QUE MARX FALA DE ENGELS NO “PREFÁCIO” DA CONTRIBUIÇÃO:

 

“Federico Engels, con quien mantuve un constante intercambio escrito de ideas desde la publicación de su genial esbozo sobre la crítica de las categorías económicas (en los Deutsch-Französische Jahrbücher), había llegado por una vía distinta (cf. su libro La situación de la clase obrera en Inglaterra) al mismo resultado que yo, y cuando, en la primavera de 1845, se instaló asimismo en Bruselas, acordamos formular nuestra concepción como antítesis de la concepción ideológica de la filosofía alemana, en realidad saldar las cuentas con nuestra conciencia filosófica anterior. Este propósito se realizó bajo la forma de una crítica de la filosofía posthegeliana”.

 

Marx está se referindo, como é óbvio, ao livro A IDEOLOGIA ALEMÃ, que será publicado pelos soviéticos, nos anos 1930.

 

“El manuscrito, dos gruesos volúmenes en octavo, se encontraba hacía ya mucho tiempo en manos del editor en Westfalia, cuando nos enteramos de que algunas circunstancias nuevas impedían su publicación. Abandonamos el manuscrito a la crítica roedora de los ratones con tanto mayor gusto por cuanto habíamos alcanzado nuestra meta principal: dilucidar nuestras propias ideas”.

 

OUTROS 4 TEXTOS QUE ELE CITA A SEGUIR E QUE DEVEM SER LIDOS:

 

“De los trabajos sueltos en que presentamos por aquel entonces al público uno u otro aspecto de nuestros puntos de vista, mencionaré solamente el Manifiesto del Partido Comunista,  que Engels y yo escribimos en común, y el  Discurso sobre el librecambio, publicado por mí. Los puntos decisivos de nuestra concepción fueron delineados por primera vez científicamente, si bien bajo una forma polémica, en mi trabajo Miseria de la filosofía, publicado en 1847 y dirigido contra Proudhon. La revolución de febrero y, como consecuencia, mi traslado forzoso de Bélgica interrumpieron la publicación de un ensayo sobre el  Trabajo asalariado, en el que recogía las conferencias que había dado sobre este particular en la Asociación Obrera Alemana de Bruselas”.

 

Vale repisar que ele retoma os estudos em 1850, em primeiro lugar, devido a circunstâncias políticas: a derrota da revolução e o exílio

Os estudos constituam, neste contexto, uma tentativa de compreender as causas de fundo da derrota; e uma tentativa de compreender quando e como se produziriam novas revoluções.

A expectativa é que isso ocorreria logo. Esta expectativa – que se demonstraria demasiado otimista, para dizer o mínimo - ajuda a entender a intensidade com que ele se jogou ao trabalho, contra quase tudo e contra quase todos, contando com pouca ajuda (Engels, principalmente) e sofrendo todo tipo de restrições materiais (pobreza, morte de filhos etc.).

Por outro lado, a medida que o tempo passa, ocorre um duplo processo que retarda a conclusão do trabalho teórico:

-por um lado, quanto mais se estuda, mais se descobre quão pouco se conhece. Para uma mente como a de Marx, isso levava a estudar cada vez  mais e a ser cada vez mais criterioso na publicação de suas descobertas. Exemplo: cerca de 9 anos se passaram entre 1850 e a publicação da Contribuição; depois cerca de oito anos, entre a Contribuição e a publicação de O Capital; e depois cerca de 16 anos entre a publicação do volume I de O Capital e o  falecimento de Marx, sem que nesse intervalo fossem concluídos os demais tomos...

-por outro lado, o passar do tempo foi desfazendo o otimismo acerca da eclosão breve de uma nova revolução, o que reduziu o acicate, a pressão no sentido de concluir rapidamente as pesquisas teóricas;

-aos fatores acima, agregue-se o desgaste físico e emocional.

 

SIGAMOS A LEITURA:

 

“La publicación de la Neue Rheinische ZeitunG, (1848-1849) y los sucesos posteriores interrumpieron mis estudios económicos, que sólo pude reanudar en 1850 en Londres. La prodigiosa documentación sobre la historia de la Economía política acumulada en el Museo Británico, el puesto tan cómodo que Londres ofrece para la observación de la sociedad burguesa y, por último, la nueva fase de desarrollo en que parecía entrar ésta con el descubrimiento del oro de California y Australia, me indujeron a volver a empezar desde el principio, estudiando a fondo, con un espíritu crítico, los nuevos materiales”.

 

-sobre o trecho acima, vale refletir sobre o impacto que teve na obra de Marx, o fato de tomar a Grã Bretanha como ponto de observação (e não os Estados Unidos). Especificamente vale a pena refletir sobre a questão da terra e sua relação com o desenvolvimento do capitalismo, em ambos países;

-por outro lado, lembremos que O Capital não é uma obra histórica no sentido VULGAR da palavra (a esse respeito, ler a resenha escrita por Engels, acerca da Contribuição)

 

SIGAMOS A LEITURA:

“Esos estudios me condujeron, en parte por sí mismos, a cuestiones aparentemente alejadas de mi tema y en las que debí detenerme durante un tiempo más o menos prolongado. Pero lo que sobre todo mermaba el tiempo de que disponía era la imperiosa necesidad de ganar mi sustento.”

“Mi colaboración desde hace ya ocho años en el primer periódico angloamericano, el New York Daily Tribune,  implicó una fragmentación extraordinaria de mis estudios, ya que me dedico a escribir para la prensa correspondencias propiamente dichas sólo a título de excepción. Sin embargo, los artículos sobre los acontecimientos económicos descollantes en Inglaterra y el continente formaban una parte tan considerable de mi colaboración que me veía constreñido a familiarizarme con detalles prácticos no pertenecientes al dominio de la propia ciencia de la Economía política”.

“Este bosquejo sobre el curso de mis estudios en el terreno de la Economía política sólo tiende a mostrar que mis puntos de vista, júzguese de ellos como se juzgue y por poco que sean conformes a los prejuicios interesados de las clases dominantes, son el fruto de largos años y de concienzuda investigación. Y en el umbral de la ciencia, como en la entrada del infierno, debiera exponerse esta consigna:

"Qui si convien lasciare ogni sospetto;

Ogni viltá convien che qui sia morta".

Carlos Marx

Londres, enero de 1859  

 

Comentários finais:

 

1/pretensão científica, no ótimo sentido desta palavra;

2/as obras do Marx, O Capital em particular, é uma obra culta de uma pessoa culta, que fazia questão de escrever de forma “literária” e repleta de referências;

3/uma obra escrita em outra época histórica, diferente da nossa em vários aspectos, motivo pelo qual é preciso o tempo todo evitar o anacronismo;

4/uma obra escrita em alemão e que vamos estudar em português, portanto há que saber que existe a “traição da tradução”.

Na próxima aula, começamos com o capitulo 1, sobre a mercadoria.