quarta-feira, 24 de junho de 2020

Frente "ampla" com Temer et caterva...










Confirmaram presença Michel Temer, Fernando Henrique, Luciano Huck, José Sarney, general Santos Cruz, Bruno Araújo (presidente do PSDB), Tasso Jereissati, Cristovam Buarque, Marta Suplicy, Roberto Freire, José Aníbal, outros e outras.

Confirmaram presença em um ato pelo impeachment? 

Não!

Confirmaram presença em um ato pelo Fora Bolsonaro?

Não!

Confirmaram presença em um ato "em defesa da vida, da vida e proteção social".

Parece piada.

Mas não é piada.

Pois também confirmaram presença neste ato Marina Silva, Ciro Gomes, Márcio França, Flávio Dino e muitos comunistas

Para eles, é a materialização prática da Frente Ampla. Portanto, estão fazendo algo coerente com o que propõem, concordemos ou não com a tal "frente ampla".

Mas também confirmaram presença Fernando Haddad e alguns petistas, além de Boulos e Freixo.

Para estes, é a expressão da "teoria das duas frentes", uma frente ampla pela democracia e uma frente de esquerda para lutar pelo futuro. Demonstrando que tanto no PT quanto no PSOL, seguem convivendo duas táticas na luta contra o bolsonarismo.

Estes setores do PT e do PSOL não percebem que estão fazendo uma "frente" com quem não tem nenhum compromisso com a democracia. Pois se aqueles "aliados" tivessem algum compromisso com a democracia, fariam autocrítica na prática e defenderiam pelo menos o impeachment.

No que isso vai dar?

Pode não dar em nada, como não deram em nada, até agora, ensaios como aquele patético manifesto Juntos em torno da "lei e da ordem".

Mas também pode dar em alguma coisa.

Por exemplo, numa saída com Mourão.

E na cooptação daqueles setores de esquerda (inclusive do PT) que parecem ansiosos por fazer, em 2020, aquilo que os setores consequentes da esquerda não aceitaram fazer entre 1980 e 1989: ser a quinta roda do carro da burguesia-dita-liberal.


ps.das 15h28: a jornalista Monica Bergamo informou que Michel Temer e José Sarney desistiram de participar.  

sábado, 6 de junho de 2020

A caldeira


Mais de 35 mil brasileiros e brasileiras já morreram, em grande medida por responsabilidade direta do que faz e do que deixa de fazer o governo Bolsonaro.

Nos próximos dias, semanas e meses, a situação tende a se agravar, uma vez que prevaleça a política do mesmo governo Bolsonaro, a saber: acabar com o isolamento.

A política de “imunização de rebanho” trará como efeito colateral a morte (melhor seria dizer, assassinato) de um número ainda maior, havendo quem fale em centenas de milhares de vítimas!

Se sobre o número há dúvidas, não há dúvidas sobre o motivo do crime (lucro) e sobre o perfil das vítimas (trabalhadores, moradores de periferias, negros e negras, mulheres, trabalhadores em idade de se aposentar e aposentados). 

É um genocídio de raça, de gênero, de classe, geracional e com territorialidade definida.

A crise sanitária aprofundou o que já vinha de antes: uma brutal crise social, econômica, ambiental, psicossocial e política.

Cresceu muito e vai crescer mais ainda o número de pessoas sem teto, sem fonte de renda, passando fome e todo tipo de dificuldade. 

Inclusive porque a queda na atividade econômica, mais os efeitos da EC95 e da política pró-finanças do governo Bolsonaro, faz com que mesmo os governos estaduais e municipais que assim o pretendam, tenham menos recursos para minorar os efeitos da catástrofe em marcha.

Cresceu muito e vai crescer mais ainda a recessão-depressão econômica. Não de todos, pois há setores da economia lucrando muito, como é o caso de certos exportadores, dos capitalistas do agronegócio e da mineração, dos especuladores. 

Ademais, os capitalistas que não estão quebrando, é porque geralmente escolheram esfolar a pele da classe trabalhadora, submetida a condições de trabalho ainda piores, mesmo que às vezes elas venham disfarçadas na embalagem supostamente romântica do home office.

Cresceu muito e vai crescer mais ainda, também, a guerra de posição dos mineradores e fazendeiros contra a legislação e as áreas de proteção ambiental e indígena. Afinal, como disse certo canalha, numa assembleia de canalhas, é preciso aproveitar que as atenções estão voltadas para os funerais, para “passar a boiada”.

Cresceu muito e vai crescer mais ainda, o sofrimento mental de dezenas de milhões de brasileiros. O medo da doença, do desemprego, da fome, da morte; o discurso e a prática da violência, o fundamentalismo, o racismo, a homofobia, a misoginia, o feminicidio.

O estresse individual, aumentado por toda a situação e pela pressão dos “novos” métodos e ambientes de trabalho, amplia o estresse social e aponta para explosões de fúria individuais e coletivas.

Cresceu muito e vai crescer mais ainda a crise política. Não começou agora, mas se aprofundou, devido às contradições causadas (no seio do povo e no seio das elites) pela pandemia e pelo conjunto da obra do governo cavernícola.

É nesse contexto que se travam, na esquerda, vários debates importantes, entre os quais o acerca das frentes e outro acerca das mobilizações. São dois debates diferentes, mas intimamente vinculados A questão de fundo é: por quais caminhos poderemos nos livrar do cavernícola?

Alguns seguem acreditando que isto possa ocorrer apenas em 2022, embora fique cada dia mais claro que nada garante que cheguemos inteiros nesse futuro tão distante. Assim como nada garante que, caso consiga chegar em 2022, Bolsonaro não crie as condições para um segundo mandato.

Alguns seguem acreditando que só é possível se livrar de Bolsonaro, em aliança com uma parte dos que entregaram a presidência ao cavernícola. 

Para os que defendem este ponto de vista, dependeríamos, portanto, de parte dos que ajudaram a derrubar Dilma em 2016; dos que aplaudiram a condenação, prisão e interdição de Lula em 2018; dos que apoiaram ou lavaram as mãos no segundo turno das eleições presidenciais; dos que reclamam de Bolsonaro mas defendem Guedes; dos que mandam a PM matar pobres e negros, mas reclamam da truculência do clã.

Como disse alguém, precisamos que 5 milhões deles mudem de posição. Além da lógica estritamente eleitoral, além da suposição de que os 5 milhões seriam atraídos do lado de lá por obra e graça de aliados mequetrefes, o citado raciocínio esquece dos mais de 20 milhões que não votaram, grande parte dos quais trabalhadores e trabalhadoras que se decepcionaram com a esquerda e que deveriam ser nossa prioridade reconquistar.

Estes que pensam em 2022 e/ou que acreditam que dependemos de aliados na centro-direita protagonizaram, nos últimos dias, o manifesto Juntos, aquele que parece, mas não é. 

Recomendamos a quem duvidar, que busque, no citado manifesto, a palavra Bolsonaro ou impeachment. Não se achará. Mas se achará apelos em favor da lei e da ordem.

Qual a alternativa a isto? Uma delas é a que está detalhada na declaração “Só a luta impedirá a catástrofe”: uma frente de esquerda, que de imediato lute pelo fim do governo Bolsonaro-Mourão-Guedes, devolvendo-se ao povo a decisão sobre quem deve dirigir o país.

Mas esta frente de esquerda será apenas um pedaço de papel, se ela não for acompanhada de mobilização real da classe trabalhadora, se as ruas não forem ocupadas pelas forças democráticas, populares e socialistas.

Entretanto, como fazer isso, em tempos de pandemia? Como pode a esquerda chamar o povo às ruas, quando somos exatamente nós que temos defendido a quarentena? Este é o segundo debate destes dias.

Neste debate, a direita já se posicionou claramente. Segundo ninguém mais, ninguém menos do que o General Mourão, os  manifestantes seriam “delinquentes”, “ligados estão ao extremismo internacional”, “baderneiros” que devem ser “conduzidos debaixo de vara às barras da Lei”. E quem aplaude as manifestações estão pretendendo “incendiar as ruas do País, como em 2013” ou “ensanguentá-las, como aconteceu em outros países”.

Ou seja, os que defendem quebrar o isolamento social, não admitem que ele seja quebrado para lutar contra eles.

Assustado e preocupado com isso e com muito mais, o sociólogo Luiz Eduardo Soares (entre outros) resolveu fazer um “apelo”: “Se vocês forem às ruas, por mais organizados que estejam, não conseguirão impedir que provocadores façam o que Bolsonaro espera desde a posse. Se vocês forem às ruas, e eu adoraria que fossem e eu estaria junto com vocês, em condições normais, não só vão ajudar a propagar o vírus em nossos grupos, como vão oferecer a oportunidade que os fascistas aguardam, ansiosamente, e que têm sistematicamente estimulado”.

Ou seja: quem for as ruas, mesmo com as melhores intenções, estaria propagando o vírus e oferecendo o pretexto para um golpe.

Qual a alternativa que Luis Eduardo Soares nos propõe? Segundo ele próprio, só “faz sentido ir para o confronto se a correlação de forças permitir, ou poderemos sofrer uma derrota histórica, um banho de sangue e um golpe”.

É fato que há riscos: à saúde dos manifestantes, riscos de infiltração e provocação, riscos de repressão imediata e criminalização posterior. Sem falar no risco político, apontado por muitos, a saber: a esquerda que defende a quarentena, poderia estaria legitimando indiretamente a posição de Bolsonaro, que defende exatamente quebrar o isolamento.

Porém, o que temos feito até agora está sendo suficiente? Estamos conseguindo deter a escala de mortes devido ao Covid19? Estamos conseguindo manter as políticas de isolamento? Estamos conseguindo defender os direitos sociais e políticos da classe trabalhadora? Estamos conseguindo avançar na luta para derrubar o governo Bolsonaro? Estamos conseguindo reduzir a escalada autoritária e as ameaças golpistas? É possível fazer isso ou parte disso, sem reocupar as ruas?

A resposta para todas estas questões é negativa. A situação geral não está melhorando. Portanto, é preciso mudar a tática. É preciso combinar a resistência que já estamos fazendo, com uma ampliação de nossa presença nas ruas. O que inclui não apenas manifestações, mas atividades de vários tipos, inclusive de diálogo organizado e solidário com os setores da população que estão sendo as principais vítimas da pandemia.

Não se trata, é verdade, de uma decisão fácil. Envolve legítimas decisões pessoais, envolve considerar as diferenças que há dentro da classe trabalhadora, envolve considerar as diferenças territoriais e as respectivas políticas municipais e estaduais, envolve saber se há setores de massa dispostos a enfrentar o desafio e os riscos, envolver decidir o que deve ou não deve ser feito em atividades exclusivamente de vanguarda. Etc.

Mas mesmo sendo uma discussão complexa e difícil, é preciso travar esta discussão com absoluta urgência, pois – repetimos – a tática atual não é mais suficiente. E, ao que tudo indica, será atropelada pelas circunstâncias.

Além de não ser suficiente, é uma tática que não leva em devida conta um detalhe fundamental: para uma parte importante da classe trabalhadora, o isolamento simplesmente não existe. Seja por morarem em condições precárias, seja por terem que se locomover em transportes cheios e por longas distâncias, seja por terem que trabalhar todo santo dia, seja porque os governos não dão apoio nenhum e ainda estimulam a quebra do isolamento, seja pelos motivos que forem, para uma parte da classe trabalhadora não há isolamento.

E especialmente para os que estão nesta situação, vale a pergunta: trabalhar pode, lutar não?

Por fim: os Estados Unidos hoje, para não falar do Chile e de outros países, demonstram que a caldeira pode explodir, nos lugares, nas horas e pelos motivos mais diversos. Aqui no Brasil pode ocorrer o mesmo. Melhor que nos preparemos para isso. Pois o outro lado já avisou estar preparado.



terça-feira, 2 de junho de 2020

SÓ A LUTA IMPEDIRÁ A CATÁSTROFE


O texto a seguir é uma declaração pública de militantes de esquerda, comprometidos com a luta em defesa da vida, dos direitos sociais, das liberdades democráticas, da soberania nacional e do socialismo. É, também, um chamamento à ação contra o fascismo e o ultraliberalismo do governo Bolsonaro-Mourão, cujo afastamento é urgente para livrar o Brasil das crises – sanitária, econômica, social, política, ambiental, cultural – que sacrificam nosso povo. Para reacender a esperança de que é possível um novo mundo sem exploração, opressão e preconceitos, sua assinatura e participação são decisivas. Proximamente divulgaremos como será feita a coleta de assinaturas.


1.O Brasil vive uma crise sem precedentes na história. Esta crise – sanitária, social, econômica, política, ambiental, cultural – está entrelaçada a uma crise mundial. O País está, portanto, envolto em uma crise sistêmica mundial do capitalismo, frente à qual o Partido dos Trabalhadores, como partido socialista e de esquerda, deve apresentar uma alternativa também sistêmica.

2.A situação mundial de crise e instabilidade precede a pandemia, mas foi aprofundada por ela. Trata-se de uma crise do capitalismo, advinda de contradições estruturais, agravadas pelas sequelas da crise de 2008, pela queda no comércio e do PIB mundial, que deve despencar até cerca de 5% na Europa, arrastando milhões ao desemprego e condenando mais de 60 milhões à miséria e à fome.

3.Diante da crise, para tentar manter e ampliar seus lucros, os capitalistas atacam violentamente os direitos e conquistas das classes trabalhadoras. Com a mesma intensidade, os países imperialistas promovem toda sorte de agressões contra os povos de todo o mundo, sobretudo na América Latina: golpes, sabotagens, bloqueios criminosos, desestabilizações políticas e ameaças de intervenções militares, externas e internas, contra governos não alinhados. 

4.Nesse contexto, há um acirramento da competição econômica, política e militar entre potências, com destaque para a disputa geopolítica entre Estados Unidos e República Popular da China. Eclodem conflitos militares, que vêm reacendendo a corrida armamentista, e sucedem-se provocações localizadas típicas da “guerra fria”, que podem escalar devido aos interesses dos Estados Unidos.

5.Ondas migratórias despertam manifestações represadas de xenofobia, racismo e fundamentalismo religioso em diversas partes do mundo, levando governos de diferentes países a culparem migrantes pelo desemprego crescente, sobretudo entre os jovens.

6.Não menos grave, associada a estes fenômenos, é a catastrófica crise sócio-ambiental, cujas proporções crescem geometricamente em função da dinâmica destrutiva do capital e da maioria das grandes potências. A crise envolve desde o aquecimento global, o esgotamento de matrizes energéticas não-renováveis, as perdas de biodiversidade, até guerras por água, terras e minérios. Alastra-se impunemente – e o Brasil é um triste exemplo – o uso indiscriminado de transgênicos, defensivos químicos e venenos, além dos efeitos cumulativos da industrialização e urbanização desordenadas, que favorecem o surgimento e propagação de pragas, bem como de doenças virais respiratórias, a exemplo da Covid-19.

7.Vista de conjunto, embora distinta, é uma crise tão devastadora quanto aquela que assolou mundo entre 1914 e 1945. Se, naquela época, o “dia seguinte” foi um mundo com mais bem-estar, com ampla descolonização e relativa democratização, isso só ocorreu porque ao final de muita luta prevaleceram os setores socialistas e democráticos. Já o desfecho imediato das crises de 1929, de 1970 e de 2008 foi outro. Daí ser um equívoco imaginar, guiados por uma visão idílica, que no pós-pandemia “nada será como antes”, ou que na esteira da crise atual surgirá necessariamente um mundo melhor.

8.Até porque a presente crise mundial teve e segue tendo impactos profundos sobre a classe trabalhadora mundial que, com raras exceções, acumula perdas há décadas. Estas decorrem de mudanças no capitalismo mundial tais como a mundialização da produção; a concentração do capital; a precarização e terceirização; o desemprego em massa. As perdas sofridas pela classe trabalhadora afetaram negativamente as condições de vida e trabalho de centenas de milhões de pessoas, sendo acompanhadas de uma ofensiva ideológica reacionária e da restrição das liberdades democráticas, com destaque para a desorganização e enfraquecimento relativo do sindicalismo.

9.O ataque é cerrado, mas há resistência das classes trabalhadoras que não renunciam a seus direitos, sua dignidade e suas vidas; e dos povos que defendem suas riquezas, sua independência e soberania, contra um processo que destrói suas perspectivas de desenvolvimento, suas políticas públicas de industrialização e capacitação científico-tecnológica, condenando-os a um lugar totalmente subordinado na divisão internacional do trabalho.

10.Por isso, para construir um novo futuro para a humanidade é fundamental reviver a esperança e conquistar vitórias nas lutas travadas neste momento. Sem o otimismo da vontade, da ação e da luta de classes, o “novo normal” pode acirrar as piores características do “normal de ontem”. Ou seja, com mais desigualdade, mais exploração, mais Estado de exceção, mais neoliberalismo, mais guerras.

11.É fato que vivemos num mundo de problemas globais, para os quais o capitalismo não tem solução, sendo na mais das vezes a causa. Mas, para derrotar o capitalismo, será forçoso um duro confronto entre classes e entre Estados, em escala nacional, regional e mundial. Mesmo moribundo, o capitalismo não morrerá de morte natural, incruenta, indolor. Inclusive por isso, frente à crise sistêmica do capitalismo é que o Partido dos Trabalhadores, desde o seu nascimento, defende uma alternativa ao sistema capitalista: o socialismo.

12.A construção de uma saída democrática, popular e socialista para os problemas do Brasil está vinculada ao curso que siga a crise mundial do capitalismo. E se liga à constituição de uma nova ordem mundial, profundamente distinta da que existe atualmente. Para tanto, será determinante a ação das classes trabalhadoras e do povo brasileiro, da esquerda política e social. Por isso, para liquidar e enterrar o “capitalismo moribundo”, é essencial uma orientação política adequada, organização firme, democracia interna, disciplina, unidade de ação e fôlego para lutar até vencer.

13.O Partido dos Trabalhadores deu um passo importante ao assumir a defesa do “Fora Bolsonaro”. Afinal, o presidente da República é uma ameaça permanente contra a vida da democracia e contra vida do povo brasileiro. Por isso mesmo o PT, em conjunto com outros partidos e algumas centenas de entidades e movimentos, protocolou um pedido de impeachment na Câmara dos Deputados, para que, ao final do processo previsto no artigo 86 da Constituição Federal, Jair Bolsonaro possa ser afastado e condenado à perda do mandato. Com o mesmo objetivo, o PT e outros partidos ajuizaram queixas-crime junto ao Supremo Tribunal Federal, a fim de destituír Bolsonaro do cargo.  E reafirmamos a impugnação processada, ainda em 2018, contra a eleição manipulada e ilegítima da chapa Bolsonaro-Mourão.

14.Vale lembrar que os crimes, comuns e de responsabilidade, cometidos pelo presidente, são do conhecimento, têm o respaldo e a cumplicidade do vice-presidente da República, bem como de todos os integrantes de seu governo. Portanto, para eliminar as causas da crise que se abate sobre a Nação e o povo brasileiros, é fundamental afastar Bolsonaro e Mourão, seu governo e suas políticas, convocando o povo para eleger, através do voto universal, direto e secreto, quem ocupará a Presidência da República, em eleições nas quais o companheiro Lula, com suas condenações injustas anuladas e seus direitos políticos restituídos, possa, querendo, participar.

15.É em torno dessa luta política central, mas também em torno das lutas em defesa da vida,  dos direitos sociais, das liberdades democráticas e da soberania nacional, dos trabalhadores do campo e da cidade, das mulheres, negros e negras, da juventude e dos povos indígenas, que se constituirá a Frente – de esquerda, democrática e popular – capaz de retomar o fio das mudanças estruturais indispensáveis para salvar o presente e o futuro do Brasil.

16.Não se trata de uma tarefa fácil. Entre outros motivos, porque corremos contra o tempo. Insensível e debochado diante das milhares de mortes provocadas pela sua política genocida, Bolsonaro promove o caos econômico e social, a destruição das liberdades, o afrontamento aos poderes Legislativo e Judiciário e a militarização do país.

17. O presidente, o vice e grande parte dos ministros são militares, inclusive os que têm seus gabinetes e despacham cotidianamente no Palácio do Planalto, assim como um ministério-chave em tempos de pandemia: o da Saúde. Nos demais escalões do governo, há cerca de 2 mil militares. Ao mesmo tempo, é notório o vínculo entre o clã Bolsonaro, as milícias tradicionais e as milícias digitais. O para-militarismo vem sendo estimulado publicamente. A faceta bélica do governo se orienta contra os povos indígenas, os trabalhadores do campo, os negros, as mulheres, contra as pessoas LGBT, os sem terra e os sem teto, contra os movimentos sociais e contra a esquerda em geral. Frente a um governo com este comportamento violento, autoritário, ditatorial, de tendência neofascista não há contemporização possível: cabe apenas o enfrentamento firme e resoluto.

18.Se não forem detidos, Bolsonaro, Mourão, seu governo e suas políticas prosseguirão na ofensiva contra a democracia,  a sociedade, a cultura, a economia nacional – sobretudo as pequenas empresas e os trabalhadores – e ameaçando a sobrevivência da população. Este mesmo povo, que chora as mortes de milhares de parentes e amigos, ceifados pelo coronavirus, enquanto assiste  avultarem os milhões já desempregados e o retorno da legião de famintos e desassistidos.

19.Antes da pandemia, o Brasil já sofria os efeitos da ofensiva golpista, com destaque para a Emenda Constitucional 95 (que congelou os gastos do Orçamento); a reforma trabalhista; a reforma da Previdência Social e desmonte do INSS; a extinção do Ministério do Trabalho e da Cultura;  o sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS). A sucessão de ataques desfechada pelo próprio governo atingiu a Funai, o Ibama, as universidades públicas e instituições públicas de pesquisa (INPE, Fiocruz e outras).

20.Mas não ocorreu só este desmonte, houve ampliação do desemprego, redução do salário e da renda das classes trabalhadoras, desmantelamento das redes legais de proteção social — e uma brutal investida do capital predatório (latifúndio, madeireiras, mineradoras) contra as lideranças sociais, sobretudo assassinatos em série de indígenas e camponeses das regiões remotas e de fronteira agrícola. Os povos originários, indígenas e quilombolas têm sido intensamente atingidos pelos efeitos da crise ambiental e também pela ofensiva do capital neofascista ultraliberal. No campo, o avanço do modelo de latifúndio mecanizado exportador do agronegócio segue sufocando sistematicamente a produção da agricultura familiar. Nas cidades, os problemas urbanos e sociais se avolumam, sem solução.  

21.A implementação do plano golpista e ultraliberal não produziu a retomada da atividade econômica como fora prometido. Ao contrário, assistimos a uma deterioração crescente de todos os indicadores, exceto os lucros do setor financeiro e bancário, bem como daqueles setores que se beneficiam da pauta primário-exportadora e da desvalorização do real.

22.Os desdobramentos da pandemia agravaram tudo o que já vinha sucedendo antes no país: desemprego (com taxas crescentes para a juventude, negros e negras, mulheres); piora nas condições de trabalho (exposição a agentes biológicos sem medidas de proteção, jornadas exaustivas, principalmente para as mulheres, que acumulam de forma desigual as tarefas domésticas e do cuidado); corte de salários; deterioração da situação social (afetando, de maneira particular, indígenas e quilombolas); miséria; redução das políticas públicas e sociais; depressão da atividade econômica; ampliação da violência doméstica contra mulheres e crianças, e até mesmo (como em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo) escalada dos assassinatos cometidos pela Polícia Militar, tendo como alvo principal jovens e negros da periferia. Se não bastasse, a dramática situação de saúde pública, acirrou a crise social, que vitima principalmente os setores populares, a população negra e as mulheres; e atinge com maior violência proporcional algumas regiões como é o caso do Norte do País.

23.Por incrível que pareça, há método nesta aparente loucura. Como deixou claro o ministro Paulo Guedes – secundado, entre outros e não por acaso, pelo ministro do Meio Ambiente – a ideia é aproveitar a pandemia (que concentra a atenção de quem defende a vida em primeiro lugar) para manter e, de preferência, acelerar as privatizações, a desregulamentação generalizada, a desnacionalização, a subtração de direitos, a concentração de renda, redução dos investimentos públicos e sociais, a ofensiva contra o meio-ambiente, a regressão da economia nacional à condição da produção primário-exportadora. Ao passo que, em outros países, a própria classe dominante planeja a saída da crise, mesmo que temporariamente, mediante uma ampliação do papel do Estado, no Brasil o governo Bolsonaro pretende que a “retomada” se dê entregando o país na bacia das almas e oferecendo, para uma população exposta ao desemprego em massa e à pobreza extrema, salários de fome e regimes de trabalho semiescravos.

24.É importante frisar: diante da crise mundial e geopolítica, a opção de Bolsonaro/Guedes é subordinação completa do Brasil, relegando o País a mero fornecedor de matéria-prima na divisão internacional do trabalho e de peão geopolítico dos Estados Unidos. Nesse contexto, o Estado brasileiro deve se comportar, essencialmente, como um poder repressivo; ao passo que as classes trabalhadoras são encaradas, em grande medida, como obsoletas e descartáveis. Por isso, são condenadas ao desemprego estrutural, à informalidade, ao encarceramento em massa ou até mesmo à morte, motivo pelo qual a mortandade causada pela pandemia é funcional ao projeto do governo Bolsonaro.

25.Esse é o projeto ultraliberal que está na base da articulação golpista que tirou o PT do governo em 2016, condenou e prendeu Lula em 2018 e apoiou a eleição de Bolsonaro. Eis por que, a despeito do incômodo em relação a seu estilo, o governo Bolsonaro segue tendo apoio do grande empresariado, especialmente do setor financeiro e do agronegócio – desde que continue fiel à pauta e os interesses destes grupos. Também pela mesma razão, setores do oligopólio da mídia que criticam o presidente calam-se diante dos descalabros da sua política econômica. Além disso, o governo conta com respaldo nas Forças Armadas, polícias militares, milícias e, por último, mas não menos importante, goza do apoio em setores e em cúpulas de igrejas conservadoras, de grande influência popular.

26.Entretanto, apesar de unificada em torno do programa neoliberal, a classe dominante e a coalizão golpista exibem diversas fissuras políticas. A extrema-direita é favorável a concentrar poderes no “poder executivo” federal, inclusive para poder tratar com mais facilidade a questão social como caso de polícia. Outros setores do golpismo buscam preservar seus espaços de poder, nos Executivos municipais e estaduais, no Legislativo, no Judiciário, e também nos meios de comunicação.

27.O conflito no interior do golpismo pode ter três desenlaces: um acordo, a vitória do clã de Bolsonaro ou sua derrota. O cenário mais provável segue sendo o acordo por cima, baseado na unidade em torno do programa neoliberal e na tutela militar.  Por isso, aliás, a derrota do clã, se efetivada por setores da direita -- mediante golpe explícito, a tutela militar, o afastamento temporário para julgamento por crime, ou um impeachment com a substituição pelo vice -- não deve causar mudança na política ultraliberal. Inclusive, a depender de como ocorra, a derrota do clã pode ser acompanhada de medidas ainda mais restritivas às liberdades democráticas. Por outro lado, tanto o cenário de acordo quanto o de vitória do clã supõem um aprofundamento da tutela militar, com elementos cada vez mais autoritários. Nos três cenários, pesam imensas ameaças contra a esquerda e o Partido dos Trabalhadores.

28.A chamada Operação Lava Jato – na qual teve papel central o ex-ministro e ex-juiz Sérgio Morto -- é a principal, mas não a única expressão do esforço de destruir ou pelo menos debilitar de maneira profunda o Partido dos Trabalhadores. Tal esforço abrange as mais variadas operações da classe dominante, no plano judiciário, legislativo, executivo, midiático, paramilitar e internacional. Apesar de o alvo principal ser o PT, o objetivo é destruir as condições de atuação independente do conjunto da esquerda e das classes trabalhadoras.

29.Por todos estes motivos, torna-se decisivo que o PT contribua – com firmeza, habilidade e sem arrogância – para coesionar o campo democrático e popular em uma frente de esquerda, que apresente uma saída de conjunto para a situação, uma alternativa política que crie as melhores condições não apenas para a aplicação de um plano de emergência em defesa da vida, do emprego e da renda, mas também um programa de reformas estruturais e de defesa do meio-ambiente. Um programa de natureza democrática,  antiimperialista, antimonopolista, antilatifundiária, antipatriarcal e antirracista, que aponte  ao País um novo rumo político, econômico e social; um programa de desenvolvimento e democratização cujo paradigma não seria o retorno à Nova República, mas uma nova ordem constitucional. Um programa que tenha como um de seus eixos a integração regional latino-americana e caribenha, convertendo nossa região em um dos polos, inclusive industrial e tecnológico, de uma nova ordem mundial.

30.A construção de uma frente popular de esquerda, a julgar pela experiência histórica, é um processo que será tecido por muitas mãos e passará por muitas etapas. Até porque vivemos, hoje, um momento de defensiva estratégica, onde têm destaque bandeiras defensivas, de resistência das classes trabalhadoras e de outros setores do povo brasileiro, por exemplo: defesa da vida e da saúde pública; defesa da democracia, dos direitos civis; do ensino público e da universidade democrática; contra a reforma da Previdência; pela anulação da condenação injusta do presidente Lula e pela restituição de seus direitos políticos. Um momento em que a luta política contra o ultraliberalismo e contra o neofascismo ainda se trava, em grande medida, nas instituições e nas eleições. E um momento em que a classe trabalhadora vai reaprendendo como se organizar e lutar, nas difíceis condições da pandemia, que acentuaram problemas anteriores, inclusive as divisões no meio da própria esquerda.

31.No contexto da pandemia, ganha lugar central a defesa da vida. Para o ultraliberalismo, grandes parcelas do povo brasileiro simplesmente não importam. Daí porque defender a vida é, em si, uma bandeira fundamental da luta política. É preciso radicalizar na defesa do lockdown imediato; da fila única para leitos dos hospitais públicos e privados; da estatização de serviços privados de saúde; do financiamento do SUS; e da continuidade da política de transferência de renda. Mais que nunca, urge sermos radicais também nas propostas para a retomada da economia em novas bases, o que exigirá golpear pesadamente o capital financeiro, rentista, especulador.

32. É nas trincheiras dessas batalhas que vai se gerando, por baixo e por cima, a unidade popular. Caso consigamos impulsionar um ciclo permanente e ampliado de mobilizações, que coloque em movimento milhões de brasileiros e brasileiras, poderemos passar da resistência à ofensiva, ampliando as divisões do bloco conservador e abrindo caminho para alternativas mais avançadas.

33.A base política de uma frente popular deve ser a unidade de toda a esquerda brasileira, em aliança com setores democráticos da sociedade e, também, com setores de partidos da centro-esquerda como PSB e PDT. É fundamental, nesse sentido, criar uma dinâmica de convergência com os movimentos sociais, lideranças culturais, intelectuais e religiosas da resistência.

34.O papel do Partido dos Trabalhadores é indispensável nesse processo de criação de uma frente popular, de esquerda, ampla porque radical. O protagonismo do PT é determinado pela sua inserção social, pelo fato de contar com a maior bancada no Congresso e por ter conquistado governos estaduais com grande apoio popular que devem estar integrados ao mesmo projeto nacional. Porém, o fundamental é a linha política e a capacidade do PT em demonstrar para a maioria do povo, que sua vida só vai melhorar se derrotarmos o neofascismo e o ultraliberalismo. O que só se efetivará através de uma ampla frente popular de esquerda.

35. Ao longo dessa caminhada, não podemos, em nenhum momento, sucumbir aos apelos de nos tornarmos força auxiliar de eventuais soluções funcionais aos defensores da agenda ultraliberal, que estejam em busca de um ambiente político menos arriscado para implementar seu programa. É ilusão associar-se a qualquer frente que não deixe claro seus compromissos com as condições de vida da maioria do povo brasileiro, com a reconstrução de nossa soberania nacional, com a defesa de liberdades democráticas reais, com a derrota da extrema-direita e do fascismo. Como já dissemos, a experiência histórica e internacional tem demonstrado que a única maneira de deter a ascensão do fascismo é pela esquerda. Na conjuntura que vivemos, para ser amplo, é preciso ser radical.

36.Acordos, movimentos e ações pontuais podem ser realizados com frações burguesas que colidam com o bolsonarismo e defendam, mesmo que parcialmente, as liberdades democráticas.  Sem, contudo, alimentar a ilusão de formar uma coalizão orgânica, permanente e estável que incorra em concessões programáticas de qualquer tipo.

37.Tampouco podemos atuar como se estivéssemos em uma situação normal, fazendo cálculos e centralizando nossa intervenção exclusivamente com vistas às eleições de 2020 e 2022. Nossa perspectiva tática está concentrada na campanha “Nem Bolsonaro nem Mourão! Diretas Já!”. Devemos repelir como ilegitima e antidemocrática qualquer saída que não passe pelo voto popular. E, como já foi dito, eleições realmente livres são eleições de que Lula possa participar.

38.É essencial frisar que a democracia que defendemos só pode ser uma democracia sem tutela, de nenhum tipo, sobre os setores populares e a classe trabalhadora. Isto é, uma democracia sem vetos ao PT, nem a Lula, pois isto significaria aceitar o veto à auto-organização partidária e social de ampla parcela dos setores populares do País. Frentes amplas que não proponham o afastamento de Bolsonaro, que não defendam o impeachment, que não defendam a soberania popular como a premissa básica da democracia, que não defendam novas eleições, que compactuem com ou silenciem sobre a tutela militar -- frentes com tais características não nos interessam. Ao contrário, elas nos enfraquecem, porque, além de confundirem nossas bases populares, nos imporiam o limite de atuar segundo regras pré-definidas pelos setores dominantes do País.

39.A retomada dos vínculos e do apoio dos setores populares e da maioria das classes trabalhadoras -- em particular dos setores submetidos à terceirização, à uberização e à informalidade, das maiorias exploradas, abandonadas e oprimidas -- passa necessariamente por esse caminho da polarização programática. Sem o que persistirão o desânimo, a desorientação e a fragmentação em amplos setores.

40.Mas é fundamental reconhecer que não basta uma orientação política geral. É preciso um trabalho de organização e mobilização que passe pela compreensão, pela solidariedade e pela luta por melhorar imediatamente as condições concretas de vida das classes trabalhadoras. Nesse terreno das condições concretas, cumprem um papel essencial as dimensões de raça e gênero. Elas têm um peso estruturante, na medida em que condicionam a experiência social dos trabalhadores e trabalhadoras. O caráter genocida do governo Bolsonaro, do neofascismo e do ultraliberalismo recai com mais força sobre a população negra e as mulheres. Não por acaso, o assassinato de Marielle Franco tornou-se um símbolo. Igualmente importante é atentar para as dimensões regional e geracional, que também não por acaso têm operado como variáveis destacadas da luta de classes no país pelo menos desde 2010.

41.Se tivermos êxito nas tarefas a que nos propomos, se forjarmos uma frente popular com estes atributos, abriremos caminho não apenas para retornar  ao governo federal, mas também para travar a disputa pelo poder, no bojo da luta pela aplicação efetiva das reformas estruturais acima mencionadas, que inevitavelmente suscitarão resistências. O rechaço às transformações imporá um enfrentamento que combine ação institucional com luta social, e amplas mobilizações das classes trabalhadoras, bem como de outras camadas sociais.

42.Com a linha correta, ainda que não haja sucesso imediato, as batalhas travadas possibilitarão a retomada futura. No entanto, sem uma orientação política adequada, se renunciarmos a ser uma força independente e portadora de uma alternativa de conjunto, o PT e toda a esquerda podem se converter em linha auxiliar de setores da classe dominante e do golpismo. Nessa hipótese, a derrota, além de arrastar o PT, comprometerá a rica experiência de auto-organização dos setores populares que ele representa e afetará negativamente os demais setores da esquerda política e social brasileira.

43.Neste sentido, o que está em jogo é o destino do Brasil, mas também o significado estratégico do Partido dos Trabalhadores. Desde 1989 até 2016, o PT polarizou a luta política no Brasil. Desde 2005, e particularmente a partir de 2016, a classe dominante se esforça para destruir o PT ou, pelo menos, impedir que protagonize a disputa de rumos na sociedade brasileira.

44.Há divergências, dentro do PT e dentro da esquerda brasileira, acerca das políticas adotadas neste período passado, mas nossa preocupação aqui não é com o balanço do passado, mas sim com a formulação de uma política para o presente e para o futuro, em que não caibam a conciliação de classes, a crença ingênua na conduta “republicana” e democrática das elites, a exclusividade ou principalidade das vias institucionais e eleitorais. Mais que nunca, é papel do PT imprimir prioridade à luta social; à organização de base; à formação de quadros; à comunicação social independente; à autossustentação financeira militante; a construção de uma cultura de massas democrática, popular e socialista.

45.Para isso, precisamos de uma linha política que combine uma estratégia e uma tática adequadas para o período histórico atual e que não alimentem ilusões na conciliação com frações das classes dominantes. Podemos e devemos fazer alianças pontuais, toda vez que isso for útil na defesa das liberdades, dos direitos e da soberania. Contudo, é sempre necessário ter em conta que a burguesia brasileira tem unidade em seu programa e em seus objetivos estratégicos, que incluem interditar ou mesmo destruir a esquerda. Nenhuma fração das classes dominantes tem disposição em compor uma frente conosco: no máximo, querem nos usar como uma linha auxiliar em suas disputas internas. Diante disso, seria um grave equívoco abdicarmos de nossa identidade política para nos associarmos com forças cujo horizonte máximo é a defesa do oligopólio da mídia e  de instituições que, à exceção de uma minoria de seus integrantes, foram artífices e executoras do golpe de 2016, que culminou com a deposição da presidenta Dilma, com a condenação e prisão de Lula, abrindo caminho para a vitória do bolsonarismo.

46.A independência política deve se materializar também no terreno organizativo: é preciso impedir a anulação das instâncias dirigentes do PT, convertidas algumas vezes em cartórios homologadores de decisões tomadas em outros espaços; que convertem o PT num “partido de retaguarda”; e que nos desvinculam progressivamente dos setores mais jovens, mais oprimidos e explorados das classes trabalhadoras. A esse respeito, nossa tarefa central, política e organizativamente, segue sendo recuperar maioria nas classes trabalhadoras, no conjunto da população explorada, abandonada e oprimida.

47.Inclusive por isso, o PT deve lutar com todas as suas energias para defender a vida, o emprego e a renda da população. Isso inclui propor soluções concretas e imediatas à crise sanitária, na linha das medidas defendidas pelo Partido, por nossas bancadas parlamentares e implementadas por nossos governos estaduais e municipais. Abarca, também, impedir demissões, redução de salários, cortes nas políticas públicas e, ademais, garantir renda e moradia emergencial para os que estão em situação vulnerável, inclusive a população em situação de rua.  Isso requer, ainda, a solidariedade de classe, através de redes de ajuda mútua e acolhimento que fortaleçam a coesão comunitária para resistência e sobrevivência em momentos de crises e dificuldades. Não uma concepção paternalista da ação caridosa, mas solidariedade de classe, politizada, que saiba demonstrar, para o povo, que as soluções verdadeiras dependem de uma alternativa política. Supõe incorporar em nossa política todos os elementos constitutivos da classe trabalhadora, tais como as questões regionais, de gênero, geracionais e étnicas. Por fim, exige associar a defesa da democracia, da vida, do emprego e da renda da população com a luta pelo fora Bolsonaro, Mourão, seu governo e suas políticas.

48.No Brasil, a única maneira de deter e superar a catástrofe em curso é através do protagonismo da esquerda brasileira, de seus partidos, organizações e movimentos, onde se destacam, entre muitos, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo, a Central Única dos Trabalhadores, o Movimento Sem Terra e a União Nacional dos Estudantes. Este protagonismo depende, em boa medida, do que faça ou deixe de fazer o Partido dos Trabalhadores. Se o PT não estiver à altura dessa missão histórica, viveremos uma dupla catástrofe: a catástrofe nacional e a catástrofe do próprio PT.

49.É neste quadro que, ao invés de uma atitude de defesa passiva ou baluartista, afirmamos a necessidade de o PT formular uma nova estratégia, adotar de maneira consequente uma tática de confronto total com a agenda ultraliberal e o governo Bolsonaro. É assim convictos que trabalhamos e batalhamos em todos os terrenos, inclusive nas eleições de 2020, que a direita quer adiar, e nas eleições presidenciais, que defendemos antecipar. Com muita nitidez, somos favoráveis a um programa simultaneamente emergencial e estrutural, um programa de reconstrução nacional em novas bases, que imponha derrotas ao agronegócio, aos monopólios privados, ao capital financeiro e ao imperialismo.

50.É nessa perspectiva, inclusive, que o PT decidiu, no 6º. Congresso, empunhar como uma de nossas bandeiras “a luta pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte livre, democrática e soberana, destinada a reorganizar estruturalmente o Estado brasileiro e aprovar reformas que remodelem suas bases socio-econômicas e institucionais dilaceradas pelo governo usurpador. A democratização das instituições brasileiras é preâmbulo indispensável  para as demais reformas estruturais”.

51.Orientados por tais diretrizes, seguimos lutando para ampliar a influência do PT nas classes trabalhadoras, para o que se faz necessário revolucionar nossa cultura de atuação e organização partidária, muito trabalho de base e confronto aberto com os diferentes projetos de mundo de outras classes sociais. Urge, para tanto, empenho prioritário na organização partidária, na formação ideológica e política da militância, a fim de que possa, vinculada às lutas das classes trabalhadoras, impulsionar sua ação consciente e independente. Coerente com este pensamento, é vital modificar completamente os métodos de direção do PT, para priorizar uma ligação profunda à vida, às lutas e à organização das grandes camadas populares da sociedade brasileira. E atuar, também, para a integração do Brasil na América Latina e Caribe, bandeira que vem sendo levantada pelo Foro de São Paulo desde 1990.

52.Os signatários desta DECLARAÇÃO seguimos lutando para manter o PT como polo da disputa nacional e, assim, cooperar para que a solução da crise favoreça a imensa maioria do povo brasileiro, matando e enterrando o capitalismo e todas as formas de opressão e exploração.

53.Como bem disse o companheiro Lula, no histórico discurso do 1º.  de Maio de 2020, “o capitalismo está com os dias contados”, e está “nas mãos dos trabalhadores” a tarefa de construir um novo mundo, em que “ninguém explore o trabalho de ninguém, um mundo em que se respeitem as diferenças entre um e outro, um mundo em que todos, absolutamente todos, disponham de ferramentas para se emancipar de qualquer tipo de dominação ou de controle“.

54.Concluímos a elaboração deste texto no mesmo momento (02/06/2020) em que as ruas dos Estados Unidos seguem tomadas por manifestações que, para além do repúdio ao racismo e à violência policial, são protestos contra a injustiça, a opressão e a exploração que caracterizam o capitalismo. Aqui no Brasil, ao mesmo tempo em que Bolsonaro desfila a cavalo e manifestantes reproduzem rituais da Ku Klux Klan, as ruas voltam a ser ocupadas por manifestações populares em defesa da democracia. O futuro dependerá de batalhas que serão travadas nos próximos dias, semanas e meses. Só a luta deterá a catástrofe.

Viva o socialismo, viva a classe trabalhadora, viva o PT!!!


“Juntos”, Furtado & Lula


Este texto é uma continuação de outro, que pode ser acessado aqui:


Pretendia, nesta continuação, comentar alguns momentos da “audiência pública” realizada pelo Diretório Nacional do PT, no passado 1 de junho.

Mas antes preciso comentar um texto de Jorge Furtado, criticando as declarações que Lula deu, no final da tal audiência, acerca do manifesto “Juntos”.

Na primeira frase de seu texto, Furtado resume seu ponto de vista: “Lula foi um dos maiores líderes políticos da história do Brasil”.

"Foi"!!!

Furtado diz que votou em Lula oito vezes, sem arrependimento. Mas acrescenta o seguinte: “Há poucos dias, Lula declarou que não mais seria candidato, mesmo que pudesse. Espero que ele não mude de ideia, pois é evidente que Lula não está bem”.

"Lula não está bem"?!

Furtado está bem, por acaso? Quem do bem poderia estar bem, no meio desta situação catastrófica em que estamos?

O comentário de Furtado deve-se a uma frase dita por Lula em entrevista ao Mino Carta, a saber: “ainda bem que a natureza (...) criou esse monstro chamado coronavírus”.

Furtado mesmo reconhece que Lula “logo pediu desculpas” (ato raríssimo comum entre lideranças políticas).  

Além disso, Furtado diz que esta foi a “maior besteira” dita por Lula em sua “longa carreira”.

Buenas, depois de décadas de militância (e não de “carreira”, como diz Furtado), atire a primeira pedra quem não tiver dito muitas “besteiras”.

A questão é que Furtado viu naquela frase não apenas uma “besteira”, mas um “deslize”, um “terrível ato falho”, que “revelou alguém que podia, de alguma maneira, ver qualquer coisa de positivo numa doença que mata mil brasileiros por dia”.

Sugiro a Furtado dar um google: encontrará frases de muita gente boa que, agora e em outros momentos de crise, fez raciocínios de conteúdo similar ao de Lula, a saber, a de que grandes tragédias, grandes catástrofes, grandes dificuldades, provocam desgraças e também geram reações, reações que acabam permitindo à humanidade dar saltos em sua história.

Sugiro, igualmente, que Furtado acesse no youtube o discurso feito por Lula no 1º de maio de 2020, onde ele diz: “A humanidade desperta todos os dias torcendo para que o número de mortos de hoje seja menor que o de ontem. Estamos vivendo os mais tenebrosos dias da nossa história. O vírus, que ataca a todos, indistintamente, mostrou que a raça humana não é imortal e pode até desaparecer. A História nos ensina, porém, que grandes tragédias costumam ser parteiras de grandes transformações”.

Fiz as sugestões acima, mais por desencargo de consciência. Afinal, não é possível que Furtado desconheça o que foi citado acima.

Sendo assim, porque “golpear abaixo da cintura”?

Meu palpite é: a idéia de que Lula já “foi”, “não está bem”, seria insensível a morte de mil brasileiros por dia, reforça uma “narrativa” difundida todo santo dia por diversos porta-vozes.

A saber: a de que precisamos combater e superar os extremismos de esquerda e de direita. A saída estaria pelo centro.

Não por acaso, seu texto passa imediatamente, sem mediações, da crítica contra Lula, à crítica contra a “corja de alucinados, incompetentes, patifes, vigaristas” que governa o Brasil, corja comandada por “um psicopata torpe e idiotizado, que desdenha da pandemia e atenta diariamente contra a democracia, o bom senso e a lógica”.

Furtado desemboca no elogio a “textos” (ele não diz quais) que fazem um “apelo à razão, a superação das diferenças mesquinhas, em defesa da democracia, da ciência, da boa política, da paz”.

Para começo de conversa, não há textos e textos.

“Basta”, por exemplo, é diferente de “Juntos”.

Não dizem a mesma coisa, não expressam a mesma coisa.


Voltando a Furtado, será que ela acha “mesquinho” lembrar que a corja só chegou à presidência, porque contou com a entusiasmada ajuda de alguns dos signatários do “Juntos”?

Será que ele acha ser “boa política” não falar de Bolsonaro, não falar do impeachment, não falar de novas eleições, não criticar a tutela militar, não falar do neofacismo e, acima de tudo, não falar do granadeiro Guedes??

Guedes e o que ele expressa constitui, na minha opinião, o centro de toda a confusão.

Lula alertou o PT e a quem mais quis ouvir, que o "Juntos" faz parte de uma operação: tirar Bolsonaro, para dar continuidade ao bolsonarismo, para dar continuidade à política do Guedes.

Furtado concluiu seu texto dizendo ser “triste ver um grande líder, que sempre defendeu os interesses do país, tornar-se pequeno”.

Da minha parte, acho que defender os interesses do país exige defender os interesses da grande maioria, que é a classe trabalhadora.

Ao defender estes interesses, mesmo que remando contra o senso comum, inclusive contra o senso comum de boa parte do seu partido, da esquerda e da classe trabalhadora, Lula demonstrou que não "foi": é.