sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Tarso Genro e a festa do PT


No dia 7 de fevereiro de 2020, os petistas receberam dois “presentes” antecipados: uma entrevista de Aloizio Mercadante à Folha de S.Paulo e um texto de Tarso Genro publicado no UOL. 

Sobre o que diz Mercadante, tratarei noutro texto. Aqui quero comentar o que diz Tarso Genro, a quem leio (e discordo) desde os anos 1980.

Como Tarso, não participarei da festa/festival dos 40 anos do PT, no Rio de Janeiro. Mas meus motivos não têm nada que ver com os de Tarso: não vou porque sou delegado ao congresso do Andes, que vai até sábado 8 de fevereiro, de noite.

Os motivos de Tarso são outros. Segundo ele: “Não me sinto identificado, hoje, com o tipo de visão que o PT construiu de si mesmo.” 

Engraçado, porque a maneira como o PT “construiu [uma visão] de si mesmo” foi uma luta interna e publica duríssima. 

E desde o início dos anos 1990, Tarso esteve ao lado dos que até agora venceram esta luta. 

Que ele não se reconheça na obra que ajudou a construir é problema dele. Mas que ele queira “jogar a criança fora, junto com a água de banho”, é problema de todos.

Afinal, um partido pode e deve ser “julgado” por vários motivos. Mas quando Tarso diz não se sentir “identificado” com as posições do PT, por conta da visão que o PT teria de si mesmo, ele está deixando de lado ou secundarizando algo a meu juízo essencial, que é o “lugar” concreto do PT na luta de classes. 

O PT merece ser defendido, entre muitos outros motivos, porque a classe dominante quer destruir o Partido, porque as elites sabem o efeito que isso teria sobre a classe trabalhadora como um todo. 

Tarso diz que o PT “teve que fazer uma série de modulações na sua linha política que bloquearem a sua renovação”. 

“Teve”???

O PT fez determinadas “modulações” (e não outras) porque “teve que fazer”? 

Ou porque, na luta interna e publica acerca dos rumos do Partido, determinadas escolhas prevaleceram? 

No fundo, Tarso parece não perceber que o problema está exatamente no seguinte: partido escolheu fazer apenas “transformações democráticas” e escolheu fazer isso através de métodos “republicanos” que o colocaram numa armadilha, da qual ainda não saímos.

Falta ao Tarso um pouco de dialética na análise da contraditória trajetória do PT. E talvez falte porque ele se julgue corresponsável pelo que foi feito de positivo; e “irresponsável” pelo que houve de negativo. 

Tarso diz que “ao longo destes 40 anos ocorreram composições e renúncias que nunca ficaram esclarecidas. Não sei se algumas destas concessões não foram renúncias de princípios”. 

Basta folhear os textos do próprio Tarso, ao longo destes 40 anos, para localizar algumas das, na minha opinião, mais importantes “renúncias de princípios”: ao socialismo, a revolução, a luta de classes, ao papel de vanguarda do partido.

Todas essas e muitas outras “composições e renúncias” foram exaustivamente “esclarecidas”, em debates dos quais Tarso foi parte muito ativa.

Aliás, como todos nós, Tarso tem memória muito seletiva. 

Ele lembra que foi presidente interino do PT “na época em que o mensalão estava no auge”. E diz que recuou de ser candidato à presidência nacional do PT porque “o pacto hegemônico do partido” (...) “não pretendia se renovar. E na minha opinião, não se renovou até hoje”.

Minha memória daqueles episódios é outra. Para poupar tempo, remeto para a leitura de dois textos que escrevi na época:

Péssima, mas previsível decisão

Texto divulgado em 29 de julho de 2005.

Alguns comentários sobre a candidatura Tarso Genro

Texto publicado em 19 de agosto de 2005.
Voltando ao texto de Tarso na UOL, ele afirma que “nós temos um discurso e um programa ancorado na época em que o partido foi fundado e ainda agimos como se existisse uma classe trabalhadora nas fábricas que teria potencial hegemônico na sociedade. Operamos como se o nosso trabalho fosse organizar esta classe de pessoas para lutar por uma utopia. Isto mudou radicalmente”.

Eu adoraria que o problema real do PT fosse este. Mas não é. Simplesmente não é verdade que o pensamento médio ou o discurso oficial do Partido, hoje, seja esse.

Minha impressão é que Tarso está em “modo looping”, eternamente prisioneiro da autocrítica da variante marxista que ele próprio abraçou nos anos 1970, por exemplo repetindo mais ou menos coisas que ele já falava na época da dissolução da URSS.

O que é cômodo, pois o libera de analisar autocriticamente o que fez a partir dos anos 1990 e até hoje, substituindo isto por uma eterna autocrítica do que acha que fez ou deixou de fazer nos anos 1960-1980.

Sobre o mérito de algumas das questões enunciadas por Tarso, acerca da classe trabalhadora, remeto ao que disse aqui: 

Agrego que devemos sim “pregar a restauração da CLT”, sem prejuízo algum de defender um “sistema público protetivo que envolva” os “excluídos das legislações trabalhistas”. 

Aliás, a embocadura proposta por Tarso — em nome de um suposto realismo, tratar como inexoráveis determinados processos e situações — contribui para o quê ou quem? Para os que estão destruindo os direitos ou para os que estão defendendo estes direitos?

Não estou dizendo, óbvio, que não existam muitas questões novas. Sempre há. O que estou dizendo é que algumas destas questões não são tão novas assim. Estou dizendo, também, que algumas vezes fala-se de novidades, apresentando-se como resposta “remédios” com prazo de validade vencido.

Um exemplo indireto disso, quase um ato falho, é a referência que Tarso faz a declaração de “um amigo dirigente do Partido Socialista chileno” sobre “como eles foram atropelados pelas manifestações que assolaram aquele país”. 

Claro que foram atropelados. Mas por qual motivo foram atropelados? Porque não entendiam os novos temas e atores sociais? Ou foram atropelados porque há décadas tornaram-se agentes do social-liberalismo?

Tarso dá a entender que nosso discurso envelheceu: “Estamos falando em vão, com formas discursivas que amplos setores da sociedade não prestam mais atenção.” Mas não seria o caso de perguntar por quais motivos o neofascismo consegue êxito, adotando muitas vezes um discurso medieval? Na realidade, se quisermos mesmo derrotar o neofascismo, a reação da esquerda precisará ser mais plebeia, mais vintage digamos assim.

Tarso fala disto, mas pela negativa: “no Brasil também existe a possibilidade de movimentos de rebeldia política e econômica. Eles não têm direção, um organizador, e podem ser aproveitados pelo fascismo”. Claro que isto pode acontecer. Mas, por outro lado, não há caminho para derrotar o neofascismo, que não inclua rebeliões populares. 

Tarso diz que “a luta é pela hegemonia. E a luta da hegemonia se faz através de valores”. Isto é parcialmente correto, pois não bastam “valores”, há que ter força material. Mas o problema é que no terreno dos “valores”, Tarso não enfatiza a luta pelo socialismo, pela revolução.

Pelo contrário, sua inspiração é o progressismo: “Acho que a frente ampla do Uruguai é uma inspiração”. 

Tarso não analisa por quais motivos a FA perdeu as eleições. Subestima o perigo neofascista no Uruguai. E não adota, no caso da FA, o mesmo critério que adota para criticar o PT.

Uma decorrência prática do “progressismo” que orienta a visão de Tarso é sua defesa de que, “para compor uma frente de esquerda o PT precisa trabalhar com a possibilidade de não indicar o candidato em uma chapa na eleição presidencial. E acho que se o PT não está preparado, tem que se preparar para isto”. 

Ou seja, devemos fazer voluntariamente aquilo que grande parte da direita tenta, há anos, fazer na marra. Algo totalmente artificial, sob pretexto de que “não podemos ser hegemônicos pré-datados”.

Tarso também opina sobre a necessidade de “revisão de procedimentos” nas “políticas partidárias internas”. E aponta o dedo acusador para um tal “grupo paulista”. Abordagem que, além de apresentar divergências políticas como se geográficas fossem, hoje serve para desviar o foco de posições como as implementadas por Rui Costa e Camilo Santana.

Mais infeliz ainda é o tratamento dado à ex-presidenta Dilma Rousseff. Na hierarquia dos motivos pelos quais o golpe teve êxito, é um despautério dar o destaque que Tarso dá à “enorme dificuldade de compreender de maneira adequada as diferenças internas”.

Até porque, cabe lembrar, o quinto congresso nacional do Partido respaldou a política econômica adotada pelo governo Dilma em 2015. Para não falar de Temer na vice, da composição do STF, do republicanismo no trato com a PF e com a Lava Jato. 

De resto, espero que Tarso chegue e passe dos 90 anos e, também, que siga militando e escrevendo. Mas espero que suas atuais posições não prevaleçam futuramente, pois elas contribuíram muito para a enrascada em que estamos hoje.
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Segue abaixo o texto criticado.

O Partido dos Trabalhadores faz 40 anos na próxima segunda-feira e hoje começa uma grande festa no Rio de Janeiro. Mas eu não pretendo participar. Não me sinto identificado, hoje, com o tipo de visão que o PT construiu de si mesmo.
Acho que o partido fez transformações democráticas muito positivas na sociedade brasileira, em particular no governo do presidente Lula. Mas também acho que ele teve que fazer uma série de modulações na sua linha política que bloquearem a sua renovação.
Ao longo destes 40 anos ocorreram composições e renúncias que nunca ficaram esclarecidas. Não sei se algumas destas concessões não foram renúncias de princípios. A festa de aniversário é uma boa iniciativa e tenho certeza que nem vão dar grande importância para a minha ausência.

RAFAEL NEDDERMEYER/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

Metade da missão cumprida
Já tive muitas responsabilidades na política. Fui vereador, vice-prefeito, prefeito, governador e ministro. Também fui presidente do PT. Assumi como interino na época em que o mensalão estava no auge [2005]. Eu tinha dois objetivos. Primeiro, concorrer nas eleições internas. Foi inclusive o que o pessoal do grupo hegemônico do partido me propôs. E também chamar o PED [Processo de Eleições Diretas], que seria fundamental para reestruturar o partido nos estados e na direção nacional.
Uma missão eu cumpri: o PED foi feito, mas a ideia de reformar as estruturas do partido não foi possível. Eu bati radicalmente com a maioria que, vamos dizer assim, controlava o partido e achava imprudente um processo de renovação/refundação.
Não foram ações individuais de qualquer dirigente que impediram a reestruturação. Na verdade, era o pacto hegemônico do partido que, naquele momento, não pretendia se renovar. E na minha opinião, não se renovou até hoje.
Isto aí me fez recuar de ser candidato. Organizei as eleições internas e voltei para Porto Alegre.
Marcos Bezerra/Futura Press

PT ficou obsoleto
A "autocrítica" que eu defendi não significava transformar o partido em delegacia de polícia. Quadros do PT cometeram erros ao longo destes 40 anos e isso não é nenhuma novidade em qualquer partido de qualquer ideologia. A reestruturação que eu defendia e defendo vai bem além.
Nós temos um discurso e um programa ancorado na época em que o partido foi fundado e ainda agimos como se existisse uma classe trabalhadora nas fábricas que teria potencial hegemônico na sociedade. Operamos como se o nosso trabalho fosse organizar esta classe de pessoas para lutar por uma utopia. Isto mudou radicalmente.
Não adianta, por exemplo, o PT prometer se renovar e pregar a restauração da CLT. Os processos de trabalho foram fragmentados e hoje temos autônomos, horistas, PJs, precários, intermitentes... Trata-se, neste caso, de organizar um outro sistema público protetivo que envolva estes excluídos das legislações trabalhistas, que irão aumentar.
Acho que o partido não acompanhou estas mudanças. E, a esta nova organização do trabalho, soma-se a tensão social resultante de questões de gênero, cultura, preconceito racial e condição sexual. Precisamos absorver as suas demandas e oferecer propostas concretas.
Vou exemplificar usando a declaração de um amigo dirigente do Partido Socialista chileno sobre como eles foram atropelados pelas manifestações que assolaram aquele país. "Fomos pegos de surpresa, não sabemos o que ocorreu. Estamos fora. Queremos ficar dentro."
Isto é o que está acontecendo conosco também. Mas não é só o PT que está fora. São mudanças que atingiram o mundo todo e levam toda esquerda a dificuldades. Estamos falando em vão, com formas discursivas que amplos setores da sociedade não prestam mais atenção.
Leandro Prazeres/UOL

Luta pela hegemonia
Aqui no Brasil também existe a possibilidade de movimentos de rebeldia política e econômica. Eles não têm direção, um organizador, e podem ser aproveitados pelo fascismo, como a equipe "ideológica" em rede do [Jair] Bolsonaro está aproveitando até agora.
Temos que aprender urgentemente como falar com este mundo novo do trabalho nestes tempos de relações sociais em rede. A luta é pela hegemonia. E a luta da hegemonia se faz através de valores.
Nós, da esquerda, precisamos determinar nossos compromissos e buscar convergências com outros campos políticos. Avaliarmos as condições das alianças e decidirmos unir (ou não) forças sociais, dependendo de cada situação concreta.
Acho que a frente ampla do Uruguai é uma inspiração. É uma aliança composta por organizações sociais, partidos e personalidades. Os uruguaios, antes de nós, entenderam esta nova pluralidade, esta nova fragmentação da sociedade e constituíram uma forma de organização política que teve abrangência e princípios.
Eles perderam as eleições ano passado, mas a sua derrota não permitiu a ascensão do fascismo, que espreita sempre os momentos de crise. Eles aglutinarem mais setores sociais e por isso suas conquistas democráticas foram mantidas.
Eduardo Knapp - 9.nov.2019/Folhapress

PT tem que aprender a dividir
Para compor uma frente de esquerda o PT precisa trabalhar com a possibilidade de não indicar o candidato em uma chapa na eleição presidencial. E acho que se o PT não está preparado, tem que se preparar para isto. Eu defendo Lula ou [Fernando] Haddad como candidatos, mas nossa opinião tem que ser avalizada sinceramente por todas as forças convergentes.
Não é pelo fato de o PT ter o maior número de votos na esquerda, e ele tem de fato, que deve ter sempre as cabeças de chapas. O partido tem que conduzir o projeto de alianças pela questão programática e avaliar qual candidato tem mais chance de vencer a eleição. Não podemos ser hegemônicos pré-datados.
Esta revisão de procedimentos vale para as políticas partidárias internas também. O PT tem instâncias democráticas que funcionam, mas eu creio que existe uma hegemonia que paira sobre estas instâncias de como e "o quê" elas devem decidir. E esta capacidade de influenciar recai, principalmente, sobre grupo paulista.
Fernando Teixeira/Estadão Conteúdo

Separando funções
Nestas reflexões o PT também precisa compreender que há diferença entre política partidária e políticas de governo. Até porque as responsabilidades são diferentes. Você pode pegar a sucessão do presidente Lula como exemplo.
O nome da companheira Dilma foi aprovado pelo partido através de uma proposta do presidente Lula, sem debate. Hoje, a opinião generalizada do PT é que ela teve uma enorme dificuldade de compreender de maneira adequada as diferenças internas que o partido tinha.
Ela não sofreu golpe exclusivamente por este motivo, mas como o partido não conseguiu dialogar com a Dilma, e nem a presidenta com o partido, não foi possível formar um núcleo político dirigente que processasse a resistência. O Fernando Haddad era prefeito de São Paulo, por exemplo, e ficou meses tentando marcar uma reunião com a Dilma. Sem sucesso.
Agora, você me pergunta se a presidenta Dilma é culpada? Eu não acho isso. Acho que ela é vítima desta situação, que não foi enfrentada de maneira adequada pelo conjunto dos nossos dirigentes.

Reestruturação levará 15 anos

Na minha opinião, verei a reestruturação do PT se viver até uns 90 anos [Tarso tem 72 anos]. Acho que estamos numa fase de transição e formulação de uma nova esquerda num momento em que o próprio capitalismo não se reacomodou. As relações pessoais em rede, a fragmentação das relações de trabalho estão em curso. As mudanças continuarão em ritmo acelerado, e nós correndo atrás delas.
Acho que nos próximos 15 anos deveremos ter alguns governos mais ao centro, mais à direita e ameaças fascistas como o governo Bolsonaro. E acredito que o PT vai manter mais ou menos seu status e eleitorado, permanecendo atuante na sociedade brasileira.
Até pela força política do presidente Lula. Mas precisamos oferecer respostas mais consistentes sobre a questão democrática e a natureza da sociedade que desejamos.

Quase 60 anos de políticas
E eu trabalho para buscar estas respostas. Continuo filiado ao partido, me orgulho disso, tenho contatos com companheiros da direção nacional, deputados e, eventualmente, com o próprio presidente Lula. E pretendo continuar ajudando com as relações que mantenho.
Mas, no momento, não tenho aspirações políticas que me seduzam a concorrer nas eleições. As pessoas ouvem que não vou mais concorrer e acham que estou "aposentado". Continuo militante ativo e pensante.
Eu e um grupo de companheiros elaboramos documentos que submetemos aos partidos de esquerda. Sigo discutindo e escrevendo artigos. Pretendo ajudar, com meus limites, não somente ao PT, mas os companheiros de todos os partidos de esquerda que pensam numa renovação de paradigmas da esquerda.

A autocrítica de Tarso
Já fiz várias autocríticas nesta jornada de 58 anos de militância. Tenho meus arrependimentos. Quem não tem é porque não está na vida. O maior deles foi ter derrotado o então governador Olívio Dutra na prévia do PT em 2002. Impedi o Olívio de tentar a reeleição e perdi.
Resolvi concorrer naquela eleição porque a disputa interna no partido estava muito radicalizada. Foi um erro político de minha parte. O Olívio deveria ter sido candidato. Eu tratei de recuperar as nossas relações pessoais e políticas, mas é um período que eu guardo com uma lembrança amarga.
A minha decisão também causou um incômodo doméstico. A Luciana [Genro, filha de Tarso] deu uma declaração dizendo que achava que o Olívio deveria ter sido o candidato do PT. A partir disso, houve uma pequena rusga entre nós. Durou uns dois dias, mas foi transmitida pela mídia como se fosse uma "crise" de pai contra filha.
Eu e a Luciana temos uma relação extraordinária e amorosa. Até hoje eu brinco com a Luciana quando ela vai fazer campanha aqui em Porto Alegre. Quando ela volta de uma jornada eu pergunto: 'Dos dez votos que tu ganhaste hoje, oito não foram porque és minha filha'? Ela ri e diz: 'só metade'.

Esperança vai vencer o medo
Este episódio com o Olívio foi o ponto baixo de uma trajetória que começou na década de 1960. Quando vivia com meus pais, eu tinha aquela energia que caracteriza alguns jovens. Minha mãe pedia para meu pai me levar nos compromissos do PTB. Ele era da ala janguista do partido, foi vereador, vice-prefeito. Eu acompanhava as discussões, os debates e fui tomando gosto.
Como aquele guri que vai com o pai ao futebol e se apaixona pelo esporte. Entrei no movimento estudantil com 14 anos, fui preso no congresso da UNE em Belo Horizonte em 1966, parei no Dops em Porto Alegre e acabei por me exilar dois anos no Uruguai. Recomecei depois minha carreira advogando nos sindicatos, já em Porto Alegre.
Tudo isto para nesta fase da vida ver um integrante do governo federal fazer um vídeo copiando um líder nazista! Sobre este assunto tenho uma memória pessoal amarga porque minha família por parte de mãe descende de judeus alemães. Meu avô Herman Herz morou na nossa casa e sempre falava dos irmãos.
Um deles, o Carl Herz, era jurista, social-democrata e foi prefeito de um distrito de Berlim na época em que o Hitler tomou o poder. Precisou fugir para Inglaterra. Mas um filho dele não conseguiu escapar. Foi levado para Auschwitz [maior símbolo do holocausto] e morreu lá.
O outro irmão, o Jorge, ficou 60 anos sem conseguir ver meu avô. Então, aquele vídeo toca muito a gente e de uma maneira muito dolorosa. Tão triste, mas muito mais desconcertante, foi ver que num evento na Hebraica o Bolsonaro foi chamado de "Mito" pelo público. Mito é como o Hitler se apresentava na sociedade alemã.
Mas estes fatos só me dão mais impulsos para seguir na luta. Espero chegar aos 90 anos e ver que o PT, a esquerda e o Brasil estarão diferentes e melhores. Quem sabe até me animo, daí, a de participar da festa de aniversário do partido.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Como aquilo deu nisso?

Primeiro foi o Renato Rovai da Forum, descobrindo que Ciro Gomes não passa de um... Ciro Gomes.

Está aqui: 
https://www.google.com.br/amp/s/revistaforum.com.br/blogs/blogdorovai/ciro-gomes-age-como-um-canalha-ao-atacar-247-dcm-e-o-os-jornalistas-paulo-moreira-leite-e-kiko-nogueira/amp/

Agora é o Roberto Requião descobrindo que o general Vilas Boas não passa de um.... general Vilas Boas.

Requião diz não entender como aquilo deu nisso.

Recomendo ao Requião estudar um precedente ilustre: as ilusões de Salvador Allende com o general Pinochet.

Allende só descobriu que Pinochet era golpista quando ouviu seu nome como integrante da junta militar.

Engaño?

Não!

Ilusão de classe, na neutralidade do Estado e no conteúdo do “patriotismo” que viceja nas casernas.

Assunto tratado aqui: 
http://valterpomar.blogspot.com/2017/02/a-entrevista-do-general_81.html?m=1

Infelizmente Requião não leu.


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A fórmula da maioria eterna

A decisão adotada no dia 14/10 pela CEN do PT já tem lugar garantido nos anais da sociologia dos partidos.

Ao invés de cumprir o regulamento e deliberar sobre as centenas de recursos apresentados, questionando desde irregularidades até fraudes, a CEN decidiu proclamar o resultado final e constituir uma comissão para analisar os casos.

Na aparência, uma decisão de apurar. Afinal, em tese a tal comissão poderia confirmar que houve fraudes e até recomendar à direção partidária que puna os criminosos.

Na prática, entretanto, o mais provável é que  ocorra o mesmo que já ocorreu com decisão praticamente igual, adotada por unanimidade no sexto congresso. Ou seja: nada.

Com um agravante: antes do sexto congresso, a CEN anulou muitos casos de fraude. Desta vez, a CEN não anulou nenhuma fraude. Portanto, os votos fraudados continuarão válidos, contribuindo para eleger desde o diretório zonal até a presidência nacional.

E da próxima vez, no próximo PED, será ainda pior, pois o crime compensa e não é punido.

Aliás, os especialistas em ganhar eleições internas ganharão cada vez mais força nas instâncias partidárias. Que, é bom lembrar, definem como serão aplicados os recursos partidários.

O grupo que controla a CEN acha, pelo visto, que descobriu a fórmula da maioria eterna.

Mas nesta fórmula não há nada de novo. Novos, entretanto, terão que ser os métodos para derrotar quem acha natural adotar práticas burguesas para conquistar maioria num partido de trabalhadores.

Valter Pomar
Candidato à presidência nacional do PT pela chapa A esperança é vermelha

sábado, 14 de setembro de 2019

Roteiro para balanço do PED 2019


O texto abaixo é a primeira parte de um roteiro para o debate que será feito na reunião da direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda, no domingo 15 de setembro de 2019. A segunda parte do roteiro (que não segue abaixo) trata do desempenho da chapa Em tempos de guerra, a esperança é vermelha, dos congressos estaduais e nacional do PT, da análise da conjuntura e de resoluções organizativas e políticas decorrentes do PED 2019. Algumas das conclusões apresentadas na primeira parte do roteiro são provisórias e baseadas em informações também provisórias. E todas as opiniões ainda são de responsabilidade pessoal dos redatores do roteiro. Portanto, pede-se leitura e crítica, mas com a devida piedade. 

No dia 8 de setembro de 2019, centenas de milhares de pessoas filiadas ao Partido dos Trabalhadores votaram em direções zonais e/ou municipais e respectivas presidências, bem como votaram nas delegações aos respectivos congressos estaduais e ao congresso nacional do PT.

A secretaria nacional de organização do PT divulgou, na tarde do dia 11 de setembro de 2019, um boletim intitulado “Eleições Internas 2019/Totalização de Votos das Chapas de Delegados Nacionais/Resultado Parcial”.

Este boletim é “parcial”, por dois motivos: contém números cuja exclusão é solicitada por diversos recursos; e não contém números cuja inclusão é solicitada por outros recursos. Estima-se que tanto num, quanto noutro caso, estamos falando de cerca de 30 mil votos.

O prazo para recursos encerrou no dia 13 de setembro; ainda não foi divulgado um balanço do número total de votos afetados. O prazo limite para votação dos recursos é o dia 5 de outubro. Portanto, até este dia 5/10/2019, qualquer análise deve ser feita com os dados fornecidos pelo boletim divulgado na tarde de 11 de setembro.

O referido boletim (que está disponível para acesso na página www.pagina13.org.br) informa o total de votos e o número obtido por cada uma das nove chapas nacionais que disputaram o PED, distribuídos por estados. A análise a seguir baseia-se, exceto quando expressamente indicado, nos números deste boletim.

Comparecimento

A primeira análise que deve ser feita diz respeito ao número de petistas que compareceram às urnas. O boletim informa que foram 310.909 (incluindo votos válidos, brancos e nulos).

Este número pode ser comparado com dois outros: com o número total de filiados aptos a votar e com a série histórica de comparecimento, nas eleições (PED) anteriores.

O boletim informa que o número de filiados aptos a votar era de 2.040.882. Portanto, teriam comparecido 15,2%.

O boletim informa, também, o número de filiados aptos a votar nos municípios onde a votação efetivamente ocorreu. Neste caso, o número de aptos cai para 1.786.900. E, também neste caso, o comparecimento teria sido de 17,3%.

Agora vejamos a série histórica. Infelizmente, a secretaria nacional de organização do PT não disponibiliza uma tabela oficial, consolidando os dados de todos os PED realizados pelo PT, nos anos de 2001, 2005, 2007, 2009, 2013, 2017 e 2019. Na falta de uma consolidação oficial, compilamos os dados e chegamos ao seguinte:

2001, 867 mil filiados, compareceram 221.516, 26%.
2005, 825 mil filiados, compareceram 315 mil, 38%
2007, 849 mil filiados, compareceram 330 mil, 38%
2009, 1.322 mil filiados, compareceram 516.093, 39%
2013, 1.619 mil filiados, compareceram 421.507, 26%
2017, 1.691 mil filiados, compareceram 308.687, 18%

Os dados acima foram obtidos em tabelas fornecidas pela própria Secretaria nacional de organização. Suspeito que há incongruências, mas só a Sorg dispõe dos dados que permitiriam tirar a dúvida. Assim, trabalharemos com o que temos.

Se exatos os dados, o comparecimento de 2019 foi o menor da série histórica: algo entre 15,2% (considerando o total de filiados) e 17,3% (considerando o total de filiados aptos nos municípios que realizaram o PED). Claro que, a depender dos recursos, pode haver uma oscilação para baixo ou para cima.

Entretanto, em números absolutos e relativos, há uma semelhança entre os números nacionais do PED de 2019 e o PED de 2017: 308 mil e 310 mil votantes, 17,2% e 18%.

Mas quando olhamos a participação dos estados, verificamos que em alguns houve uma oscilação expressiva na votação de 2019 em relação a 2017, Vejamos abaixo, por enquanto sem citar os números, o comportamento da votação em cada estado, em 2019 comparando com 2017:

Acre caiu
Alagoas subiu
Amapá caiu
Amazonas subiu
Bahia é um mistério, por razões que explicaremos adiante
Ceará subiu
Distrito Federal subiu
Espírito Santo caiu
Goiás caiu
Maranhão subiu
Minas Gerais caiu
Mato Grosso do Sul caiu
Mato Grosso subiu
Pará subiu
Paraíba caiu
Pernambuco subiu
Piauí subiu
Paraná caiu
Rio de Janeiro caiu
Rio Grande do Norte subiu
Rondônia caiu
Roraima caiu
Rio Grande do Sul subiu
Santa Catarina subiu
Sergipe subiu
São Paulo caiu
Tocantins subiu

Em doze estados a votação caiu. Em catorze a votação cresceu. São do nordeste 7 dos 14 estados em que a votação subiu. A exceção é a Paraíba, onde por acaso havia chapa única na disputa da direção estadual do Partido. No caso da Bahia, não há como fazer a comparação, pois devido às fraudes cometidas no PED de 2017, foi feito um acordo para compor direção e delegações, mas não existe um número oficial de comparecimento com o qual se possa fazer a comparação.

Mas atenção: os números nacionais de 2017 e 2019 são similares. Assim, poder-se-ia imaginar que a oscilação para cima ou para baixo foi pequena. Mas isto não é verdade. Há alguns estados onde o crescimento no número de votantes foi imenso. Vejamos os números absolutos:

Alagoas subiu de 2.039 para 4.095 (+100%)
Amazonas subiu de 8.070 para 9.767 (+21%)
Ceará subiu de 22.780 para 33.949 (+49%)
Distrito Federal subiu 4.603 para 5.651 (+22%)
Maranhão subiu de 9.254 para 14.236 (+53%)
Mato Grosso subiu de 3.608 para 4.428 (+22%)
Pará subiu de 10.255 para 18.527 (+80%)
Pernambuco subiu de 9.981 para 19.493 (+95%)
Piauí subiu de 10.543 para 16.143 (+53%)
Rio Grande do Norte subiu de 2.774 para 3.148 (+13%)
Rio Grande do Sul subiu de 18.859 para 22.102 (+17%)
Santa Catarina subiu de 8.316 para 8.591(+3%)
Sergipe subiu de 4.740 para 6.359 (+34%)
Tocantins subiu de 3.137 para 3.934 (+25%)

Os dados são claros: o PED de 2019 manteve um número absoluto de votantes parecido com o de 2017, apesar da queda expressiva do comparecimento em alguns estados, porque em 14 estados cresceu expressivamente o comparecimento. Metade dos estados em que houve crescimento está no nordeste e, nestes estados, o crescimento oscilou entre 35% e 100%! O Pará também exibiu um imenso crescimento: 80%!

Detalhe importante: exatamente nos oito estados onde o crescimento da participação foi mais expressivo, o PT participa dos governos estaduais, seja como partido do governador, seja como aliado.

Para alguns isto é boa notícia: onde somos mais fortes eleitoralmente, o PT é mais forte. Para outros, a “boa nova” vem acompanhada de um preocupante senão: a influência (não apenas política) destes governos nos respectivos processos eleitorais do Partido, revelando uma crescente “estatização” e “estadualização” do Partido. O que, na ausência de um “projeto nacional” claro e forte, pode levar a uma crescente influência dos interesses de governantes estaduais na definição da nossa política nacional.

Isso nos remete para uma discussão complexa, mas necessária: a qualidade da participação.

Para um partido como o PT, ter 2 milhões de filiados é ótimo. Mas temos um problema se destes 2 milhões de filiados, apenas 300 mil estão dispostos a participar, mesmo que minimamente, da vida partidária.

E temos outro grave problema, se uma parte destes 300 mil votou sem compreender o que estava fazendo, sem ter conhecimento das diferentes alternativas; ou, em alguns casos, “votou” sem existir, como é o caso dos eleitores criados por fábricas de atas e por apurações fraudulentas.

Não temos como estimar quantos votantes estavam minimamente informados acerca das alternativas. O que sabemos é que o número de pessoas que participou dos debates presenciais (nos três níveis) foi bem menor do que o número de eleitores. E que o número de pessoas que acessou os debates entre as chapas nacionais também foi menor do que o número de votantes. Além disso, ao menos nacionalmente o Partido não fez chegar, a todos os filiados e filiadas, nenhum material informando quais eram as chapas que estavam disputando as eleições.

A verdade é que o Partido organiza uma eleição de grande porte, porém com métodos e com meios extremamente precários. Basta dizer que já registramos vários casos de erros materiais na transcrição dos votos para as planilhas e boletins oficiais.

Mas, para piorar, alguns setores do Partido adotam meios que corrompem a qualidade do processo: abuso de poder econômico, interferência de outros partidos, transporte de filiados, fabricação de atas, ingerências ilegais, alteração das regras no meio do processo, monopolização dos dados oficiais do processo por parte de uma única tendência etc.

Infelizmente, a reiteração dos problemas acima citados revela que eles já se tornaram parte integrante do modus operandi de um setor do Partido. Portanto, se faz necessário denunciar e combater publicamente estas práticas.

Quando escrevemos este texto, ainda não foram consolidados todos os recursos sobre o processo. Mas os dados preliminares reafirmam a tese que temos defendido, desde 2001: o PED não é um bom método para eleger direções e definir política. Ele não é a causa da degeneração de alguns setores do Partido, mas o PED facilita e estimula a degeneração, à medida que impõe uma dinâmica que traz junto todos os problemas dos processos eleitorais tradicionais, agravados por práticas que mesmo no terreno eleitoral conseguimos coibir e evitar com certo êxito.

Chapas nacionais: a CNB

O boletim divulgado pela Sorg no dia 11 de setembro informa que a chapa Lula Livre para Mudar o Brasil obteve 154.263 votos ou 52,9%. Esta chapa foi apresentada pela tendência petista Construindo um Novo Brasil (CNB).

Esta maioria absoluta foi possível graças ao resultado obtido em alguns estados. Vejamos aqui o número total de votos de cada estado e o respectivo número de votos obtido pela chapa Lula Livre para Mudar o Brasil. Indicamos aqueles casos em que o número de votos foi maior que 50% do total de votos válidos no respectivo estado.

Acre 1.613, 1.428 88%
Alagoas 4.095, 2.975 72%
Amapá 3.237, 907
Amazonas 9.767, 2.137
Bahia 8.062, 1.438
Ceará 33.949, 22.682 66,8%
Distrito Federal 5.651, 1.260
Espírito Santo 5.104, 2.480
Goiás 7.042, 4.186 59,4%
Maranhão 14.236, 5.086
Minas Gerais 34.961, 20.313 58%
Mato Grosso do Sul 5.466, 2.905 53%
Mato Grosso 4.428, 2.957 66,7%
Pará 18.527, 13.957 75,3%
Paraíba 4.224, 1.722
Pernambuco 19.493, 10.466 53,6%
Piauí 16.143, 7.936
Paraná 7.626,5.304 69,5%
Rio de Janeiro 17.115, 9.113 53,2%
Rio Grande do Norte 3.148, 1.024
Rondônia 1.693,751
Roraima 233, 209 89,6%
Rio Grande do Sul 22.101, 1.652
Santa Catarina 8.591, 3.956
Sergipe 6.359, 1.988
São Paulo 44.098, 24.380 55%
Tocantins 3.934, 1.048

Portanto, em 13 estados a chapa da CNB obteve mais do que 50% dos votos. Em alguns destes estados, o número absoluto de votantes é muito baixo (Roraima, Acre). Em outros estados, o percentual obtido pela CNB é próximo ao percentual nacional.

Mas há alguns pontos fora da curva, ou seja, estados que contribuem com parcela expressiva da votação nacional e onde a CNB obteve uma vantagem expressiva: Ceará (11,6% do total de votos válidos nacionais e 66% dos votos da CNB), Minas Gerais (12% dos votos válidos nacionais e 58% dos votos da CNB), Pará (6% dos votos válidos nacionais e 75% dos votos na CNB), São Paulo (15% dos votos válidos nacionais e 55% dos votos na CNB).

Sem o desempenho obtido nestes quatro estados, é possível que a CNB não alcançasse maioria absoluta. Também por este motivo, vale analisar como foi o desempenho estadual da CNB em eleições passadas, especialmente nestes estados. Por enquanto, entretanto, queremos destacar a série histórica.

Novamente vamos nos basear em dados compilados a partir de informações não consolidadas pela Sorg, portanto dados que apresentam incongruências (incluindo aí o fato de que em 2017 não se votou diretamente nas chapas nacionais). Lembramos, ademais, que a atual configuração da CNB não é a mesma da Articulação Unidade na Luta ou do Campo Majoritário. Lembramos, finalmente, que em alguns PED a CNB apresentou chapas nacionais em aliança com outros setores. Com as ressalvas indicadas, vejamos o desempenho “da” CNB em cada PED:

2001: 105 mil votos, 51,7%
2005: 116 mil votos, 41,9%
2007: 126 mil votos, 42,6%
2009: 252 mil votos, 55,1%
2013: 200 mil votos, 53,6%
2017: 141 mil votos, 46%
2019: 154 mil votos, 52,9%

A partir destes números, podemos desenhar duas curvas.

A curva de números absolutos cresce suavemente entre 2001 e 2007 (ganho de 20 mil eleitores), depois cresce muito entre 2007 e 2009 (ganho de 125 mil eleitores), depois decresce entre 2009 e 2017 (perde 110 mil eleitores), depois cresce modestamente entre 2017 e 2019 (ganha 13 mil eleitores).

Ao que tudo indica, esta curva de números absolutos acompanha, com algumas discrepâncias, o comparecimento geral dos petistas.

Já a curva de números relativos é diferente: cai muito entre 2001 e 2005, se mantém estável entre 2005 e 2007, cresce muito entre 2007 e 2009, se mantém estável entre 2009 e 2013, cai bastante entre 2013 e 2017, cresce entre 2017 e 2019.

Esta curva de números relativos, ao que tudo indica, é no essencial comandada pela política. A CNB é sempre maioria, mas esta maioria é absoluta ou relativa a depender de razões políticas.

Foi por razões essencialmente políticas que a CNB obteve a maioria absoluta em 2001: marchávamos para conquistar a presidência da República, orientados por uma linha política respaldada pela maioria do Partido.

Foi por razões essencialmente políticas que a CNB perdeu a maioria absoluta em 2005 e não a reconquistou em 2007: a chamada “crise do mensalão” desorganizou o grupo dirigente e, ao mesmo tempo, provocou uma reação muito crítica na base partidária.

Foi por razões essencialmente políticas que a CNB recuperou a maioria absoluta em 2009: a mudança na política do governo, os impactos positivos sobre o país, a atitude frente a crise de 2008 e, inclusive, a ilusão de que os desgastes causados pelo chamado “mensalão” haviam sido superados.

Foi por razões essencialmente políticas que a CNB perdeu a maioria absoluta em 2017: o impeachment, a radicalização da base partidária e o repúdio aos que queriam “virar a página do golpe”.

Se isto é verdade, se é verdade que a curva de votos relativos da CNB é comandada pela política, como explicar a maioria absoluta conquistada (ao menos segundo a “última parcial”) em 2019???

A questão é: em 2019, a maioria absoluta do eleitorado petista votou na chapa apresentada pela CNB porque considerou que ali está uma política adequada (como aconteceu em 2001 e em 2013)? Ou será que em 2019 a maioria absoluta foi obtida graças a outros fatores? Ou estamos diante de uma combinação de variáveis?

Pensamos que podemos nos aproximar da resposta para esta questão, fazendo uma análise do desempenho obtido pela CNB nos estados. Como demonstramos, a maioria absoluta não foi obtida em todo o país, mas em 13 estados. A saber:

Acre 1.613, 1.428 88%
Alagoas 4.095, 2.975 72%
Ceará 33.949, 22.682 66,8%
Goiás 7.042, 4.186 59,4%
Minas Gerais 34.961, 20.313 58%
Mato Grosso do Sul 5.466, 2.905 53%
Mato Grosso 4.428, 2.957 66,7%
Pará 18.527, 13.957 75,3%
Pernambuco 19.493, 10.466 53,6%
Paraná 7.626,5.304 69,5%
Rio de Janeiro 17.115, 9.113 53,2%
Roraima 233, 209 89,6%
São Paulo 44.098, 24.380 55%

Em todos eles, a CNB é maioria nas respectivas direções estaduais. Em quatro deles (Alagoas, Ceará, Pernambuco, Pará) pode-se argumentar que o PT foi “vitorioso” nas eleições de 2018, mesmo que esta “vitória” tenha sido apoiar no primeiro ou no segundo turno candidaturas de outros partidos. Nos demais casos, fomos derrotados, as vezes de maneira aplastradora.

E aí vale perguntar: em estados como Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Acre, Paraná, quais seriam os motivos essencialmente políticos capazes de explicar que a CNB tenha conseguido maioria absoluta dos votos?

Dizendo de outra forma: caso a CNB tivesse obtido maioria relativa, a explicação poderia ser apenas política. Mas uma maioria absoluta, garantida pelo desempenho da chapa nacional da CNB nesses estados, não pode ser explicada apenas ou essencialmente pela política.  

E quando se olha o cenário nacional, parece óbvio que o cenário de 2019 não pode ser comparado a 2001, 2009 e 2013. Diferente desses três anos, em 2019 a política nacional da CNB está muito longe de ser clara e atrativa.

Entretanto, pode-se argumentar que: a) a prisão de Lula e a vitória de Bolsonaro empurraram o Partido para uma posição mais cautelosa; b) que a postura da atual presidenta do PT, pelo menos a postura que adotava antes de virar candidata oficial da CNB, parecia o máximo do radicalismo possível e garantiu muitos votos para a CNB, embora a cúpula desta tendência e a presidenta se choquem com frequência; c) que o apoio de Lula conta muito; d) que os setores da CNB defensores de “virar a página do golpe” foram muito cautelosos, até terminar a eleição (logo depois veio a entrevista de Rui Costa nas páginas da revista Veja).

Mas algumas destas razões também estavam presentes em 2005, em 2007 e em 2017, anos em que a CNB obteve maioria relativa. Portanto, para explicar a maioria absoluta obtida em 2019, consideramos necessário levar em conta outros fatores: a incapacidade de forjar uma alternativa política e eleitoral, o peso da inércia no “eleitorado” petista, a influência das máquinas parlamentares e governamentais, além das fraudes.

Destes outros fatores, nos parecem essenciais a influência das máquinas (que jogaram um papel decisivo exatamente nos estados onde a CNB obteve um resultado fora da curva) e das fraudes (que incluem desde transporte ilegal, intimidação a fiscais, engravidamento de urnas, falsificação de atas, alteração das regras no meio do processo etc.).

Quais serão os efeitos da maioria absoluta obtida pela CNB? Em nossa opinião, serão desastrosos.

Na prática, a CNB poderá decidir sozinha quais serão os rumos do Partido. E como a CNB está dividida, mas aderiu a uma versão franciscana do centralismo democrático, isto quer dizer que quem for maioria na CNB poderá decidir os rumos do Partido. Ou seja: em tese, 26,5% do PT poderão impor sua vontade sobre 100% do PT.

Isto já seria ruim em qualquer situação. Mas na situação atual pode ser desastroso. Pois hoje estamos enfrentando uma “operação em pinça” contra o PT: de um lado a extrema-direita, que nos quer aniquilar; de outro lado, a centro-direita-com-aliados-na-esquerda, que nos quer anular. Frente a esta operação em pinça, qual será a política da maioria? Melhor dizendo, qual será a política da “maioria da maioria”?

Tudo indica que será uma repetição canhestra da política de alianças adotada entre 1995 e 2016. Acontece que, naquele momento, o PT liderava aquela política de alianças. Querer que o mesmo ocorra agora, é querer o impossível. Construir uma política alternativa, nesta situação, será difícil em quaisquer condições. Construir uma política alternativa, com o Partido dirigido por uma maioria absoluta conquistada nas bases que foram conquistadas, é praticamente impossível. Especialmente levando em consideração o peso assumido pelos governadores, que possuem agenda própria, como se vê na reforma da previdência e, também, nas recentes declarações do governador da Bahia.

Noutras palavras, a maioria absoluta da CNB não garante que o Partido tenha “estabilidade” para enfrentar o que já está acontecendo, muito menos o que virá. Esta maioria absoluta indica que novas crises e novas derrotas virão. Haverá uma alternativa?

O desempenho nacional das chapas minoritárias

Além da chapa Lula Livre para mudar o Brasil, da CNB, havia outras 8 chapas. Somadas, elas obtêm 47% dos votos. Mas estas chapas minoritárias não se coligaram, nem se coligarão. Duas fazem parte do campo ampliado da CNB. Outras duas fazem parte do campo de alianças construído pela CNB na gestão 2017-2019. E cada uma das 8 chapas obteve, isoladamente, votações muito inferiores a obtida pela CNB.

Aliás, uma das constantes em todos os PED realizados desde 2001 até 2019 é que a segunda chapa (seja qual for) nunca chegou perto de ter a metade dos votos da chapa da CNB.

Mesmo quando a CNB teve seu pior desempenho, em 2005 (42% dos votos), a segunda chapa obteve 12,2%. Ou seja, nenhuma das chapas minoritárias nunca recebeu, isoladamente, uma votação que fosse eleitoralmente competitiva. Quem se jacta de estar em “segundo lugar” deveria refletir a esse respeito.

Como, por variados motivos, as chapas minoritárias nunca se uniram, nunca a CNB enfrentou uma disputa contra uma oposição que fosse eleitoralmente competitiva. Outra questão, tão importante quanto, é verificar se o “discurso” apresentado pelas chapas minoritárias foi efetivamente uma alternativa global ao “discurso” da maioria, ou se em alguns casos tratava-se de uma variante frente a qual o original podia ser até mais convincente e atrativo.

Outros elementos a considerar, ao analisar o desempenho das chapas minoritárias, é sua composição e seu histórico. No caso do PED 2019, temos duas chapas novatas em termos de PED (Repensar o PT e Nas lutas, ruas e redes) e 6 chapas veteranas (ou seja, que já disputaram outros PED, com esta ou com conformações parecidas).

Das chapas veteranas, duas se organizam em torno de uma única tendência (Articulação de Esquerda, no caso da chapa Em tempos de guerra, a esperança é vermelha; O Trabalho, no caso da chapa Diálogo e Ação Petista). Outras 4 chapas foram organizadas a partir de coalizões de tendências (Movimento PT e Tribo; DS, Avante e MS; Novo Rumo e EPS) ou de parlamentares (Resistência).

A maioria destas chapas e de seus integrantes fez alianças cruzadas nos estados e municípios, inclusive com a CNB. Em alguns casos, há sinais de que estas alianças locais incluíram a transferência de votos para chapas nacionais. Isto torna ainda mais difícil saber, com certeza, qual a força isolada de cada uma das chapas e de cada um de seus componentes. Um número aproximado poderá ser deduzido das indicações que serão feitas ao DN, em novembro de 2019.

De toda forma, o ranking no PED 2019, conforme o boletim da Sorg de 11 de setembro, é o seguinte:

290 13,3%
200 10,7%
250 9,1%
220 5,2%
270 3,7%
210 2,1%
260 1,7%
230 1,3%

Quanto a análise da série histórica: como já dissemos, o PED de 2017 foi feito com base em regras diferentes do PED 2019. Em 2017 os filiados não votaram em chapas nacionais. Este fato altera pouco a análise do desempenho da chapa da CNB, devido ao seu volume; mas pode afetar muito o desempenho relativo de cada uma das chapas minoritárias. Assim, para uma análise da evolução histórica, o ideal seria comparar os resultados do PED de 2013, de 2017 e de 2019. Um problema é que em 2013 e 2017, a composição de algumas chapas minoritárias era muito distinta da atual.

Independente da análise do desempenho eleitoral de cada uma e do conjunto das chapas minoritárias, é óbvio que não foi atingido, no dia 8 de setembro, o objetivo de eleger uma maioria comprometida com uma “nova maioria”, uma “nova estratégia” e um “novo padrão de funcionamento”.