quinta-feira, 13 de março de 2025

A vaquinha, o PED e o TSE

 O PT é um partido legal.

Portanto, submetido a uma séries de regras e restrições.

Entre elas, a de prestar contas regulares ao TSE.
Tal prestação é pública.

Exemplo disso está no link abaixo:


Através do link acima se acessa uma informação muito interessante: a lista de pessoas que pagou ao Partido até o dia 27/6/2024.

Quem não está nessa lista, é porque não pagou o que devia até 27/6/2024.

A próxima lista será divulgada até 27/6/2025. 

Suspeito que parte dos devedores da lista disponível no link acima seguirão devedores na próxima lista.

Acontece que detentor de cargo eletivo que não estiver quite com o Partido, não poderá ser candidato na eleição das direções partidárias em 2025.

Portanto, imagino que alguém, em algum lugar, já deve estar organizando uma vaquinha para pagar o que deve. 

Quem? Pesquisem e descobrirão.

quarta-feira, 12 de março de 2025

A carta de Rui Falcão

Recomendo fortemente a leitura da Carta aberta do companheiro Rui Falcão à militância petista, divulgada hoje na página do Partido dos Trabalhadores.

A Carta pode ser lida ao final deste comentário ou diretamente no endereço:

https://pt.org.br/carta-aberta-a-militancia-petista-por-rui-falcao/

A Carta de Rui Falcão é um alento nesses tempos de "guerra civil" na tendência "Construindo um novo Brasil".

É um alento especialmente porque apresenta uma análise política que, concordemos ou não, possui começo, meio e fim. Mostrando, portanto, que o processo de renovação das direções partidárias não precisa se limitar "a conquista de cargos e espaços de poder".

Rui Falcão destaca que nosso partido "precisa voltar a representar um projeto civilizatório que se contraponha à ordem estabelecida pelos bilionários. Não pode haver dúvidas que somente a esquerda e seu maior partido, o PT, expressam uma alternativa estruturalmente antissistema, que proponha a transformação radical da economia, da sociedade e do Estado. O mundo vive hoje uma crise global, econômica, social, política, cultural e ambiental, todas elas entrelaçadas de forma indissociável com o capitalismo, a opressão racial e com os antagonismos e conflitos bélicos associados a eles".

A Carta não usa o termo "socialismo", mas o sentido apontado é evidentemente esse.

Rui Falcão defende "apoiar o governo na resistência às pressões do capital financeiro, que se movimenta para abocanhar o orçamento público, em nome da austeridade, tentando impedir a aplicação das políticas de justiça social e desenvolvimento. Querem que nosso governo abdique das políticas de união, reconstrução e transformação, e passe a adotar o programa dos representantes do grande capital".

A Carta não explicita que um de nossos grandes obstáculos na luta contra o capital é o "arcabouço fiscal", mas vale lembrar que recentemente Rui votou contra as medidas de ajuste propostas pela Fazenda.

Rui Falcão defende "deixar claro, na comunicação e na prática, que a missão do governo é caminhar em direção a "plena emancipação", "democratizando renda, riqueza e poder". Salvo engano, a Carta não explicita o papel que têm, para dar conta destes objetivos, a reforma agrária, a industrialização e o combate ao agronegócio.

"No tempo que nos falta até as urnas", a carta defende "marchar com as duas propostas definidas como prioritárias por nossa bancada na Câmara dos Deputados para 2025: aprovar a isenção de imposto sobre renda para quem ganha até cinco mil reais mensais, com maior tributação para valores acima de 50 mil; e votar a PEC que elimina a escala 6 x1 e reduz a jornada de trabalho para 36 horas semanais. Mas também precisamos avançar em outros temas fundamentais, como a segurança pública, a democratização do Estado e o fim da tutela militar com a alteração do Art. 142 da Constituição Federal. Praticamente abandonamos a discussão da reforma política, essencial para criar um ambiente de apoio a propostas fundamentais como a adoção do voto em lista partidária e a implementação de plebiscitos convocados pelo Poder Executivo e por iniciativa popular".

Infelizmente, Rui não incluiu na Carta uma referência a necessidade de demitir imediatamente o ministro da Defesa, que todos sabemos ser defensor da Anistia para os golpistas. Mas certamente Rui segue pensando que José Múcio não deveria ter sido nomeado. Assim como certamente defende posições avançadas sobre a necessidade de lutar contra o oligopólio privado de comunicação; e também por uma Assembleia Constituinte, nos termos aprovados por pelo menos dois congressos partidários.

A Carta rechaça "os apelos à despolarização, palavra da moda que significa levar-nos a uma transição efetiva para o centro, com um forte rebaixamento ideológico, programático e organizacional", lembrando ademais que "a correlação de forças não pode ser vista como um elemento geológico, como os mares e as montanhas, cuja mutação independe da ação humana, da luta política, e se processa no tempo infinito". 

Rui Falcão fala ainda que "a construção de coalizões para vencer as eleições e governar não pode ser vista como contraditória com a disputa pública de hegemonia pelos partidos do campo popular. O partido não pode ser reduzido a um braço institucional do governo de frente ampla". E diz que "somente será possível implementar nosso programa" se "o nosso campo e o próprio governo forem capazes de criar um clima de mobilização social, que pressione as instituições de fora para dentro, como ocorreu durante a Constituinte de 1988".

Obviamente, dar conta dessas tarefas depende em grande medida do que faça nosso Partido, que no último período não teve propriamente êxito neste mister. Um dos motivos pelos quais não é possível concordar com Rui quando ele afirma que o legado de Gleisi Hoffmann "é inquestionável, mesmo para quem dela discorde".

(Cá entre nós, ultimamente anda muito difícil achar algo ou alguém "inquestionável".)

A verdade é que desde 2017 até hoje vimos o aprofundamento do que a Carta aponta como um sério problema, a saber: "a dinâmica da democracia liberal empurra os partidos de massa para se converterem em partidos eleitorais e, em seguida, meras legendas controladas por governos e mandatos parlamentares".

Neste sentido, chama atenção o fato da Carta defender que "o direito à organização de tendências não pode mais ser visto como oportunidade para organizar partidos dentro do partido, esvaziando as instâncias e fechando as portas para a participação do militante comum"; ao mesmo tempo que não desenvolve raciocínio análogo sobre quais medidas organizativas deveriam ser adotadas para enfrentar o crescente controle dos mandatos por sobre as instâncias partidárias.

Como parlamentar e dirigente experiente, Rui certamente deve ter várias ideias a respeito de como reverter o crescente controle de "governos e mandatos parlamentares" sobre nosso Partido.  

Aliás, concordando inteiramente com Rui quando ele afirma que "o estatuto do PT merece ser rigorosamente respeitado e somente pode ser alterado por decisão congressual", lembramos que uma das mais recente alterações estatutárias -ilegítimas e ilegais - foi aquela que abriu as portas para os mandatos vitalícios, tanto de parlamentares quanto de dirigentes. Medida apresentada pela companheira Gleisi Hoffmann.

Por fim, é sem dúvida fundamental que os fundos partidários sejam "repartidos e implementados de modo mais transparente, evitando privilégios e garantindo sua plena gestão pelo coletivo da direção". Mas é importante lembrar que "gestão coletiva" só vai acontecer quando a tesouraria deixar de ser controlada pelo "partido dentro do partido". Controle que vem desde 1995, portanto trinta anos.

Haveria outras coisas a comentar sobre o que Carta diz ou não diz acerca de certos temas estratégicos - como por exemplo nossa política externa, o combate ao racismo, a defesa dos direitos das mulheres, a questão ambiental e da juventude - mas o que mais importa é que a Carta coloca o debate noutro patamar, adequado para quem deseja mudar o rumo e a direção de nosso Partido.

É o caso, por exemplo, da tendência petista Articulação de Esquerda, que neste final-de-semana de 15 e 16 de março lançará uma chapa para concorrer ao Diretório Nacional, assim como lançará uma candidatura da própria AE à presidência nacional do PT.


Segue a Carta citada

Queridas companheiras, queridos companheiros

Nosso partido recentemente completou 45 anos de vida e luta. Temos todas as razões para sentirmos orgulho dessa trajetória de quase meio século. Nossa história é a síntese das grandes jornadas populares do nosso tempo, de suas conquistas e derrotas, de seus acertos e erros.

O Partido dos Trabalhadores é o principal instrumento que dá voz aos assalariados da cidade e do campo, organizando-os para dirigir a nação. Como está escrito em nosso Manifesto de Fundação: “o país só será efetivamente independente quando o Estado for dirigido pelas massas trabalhadoras”.

Desde 2023, voltamos a governar o Brasil. Como sempre afirmamos, liderar o Poder Executivo é passo fundamental para que nosso partido possa se enraizar na vida do povo e conquistar sua confiança. A vitória contra o bolsonarismo em 2022, portanto, foi um capítulo crucial, depois de seis anos marcados por golpismo, repressão e retrocesso.

Passados mais de dois anos da posse do presidente Lula, nossa maior liderança, conseguimos avançar em muitas frentes, reconstruindo um país que tinha sido destruído pelas políticas neoliberais das administrações anteriores, desde que a presidenta Dilma Rousseff foi derrubada por um golpe parlamentar. Os indicadores econômicos e sociais são uma clara demonstração de nossos êxitos, apesar das dificuldades.

Mas estaríamos cegos à realidade se desconsiderássemos ou subestimássemos os obstáculos que temos pela frente. A recuperação do país ainda não foi suficiente para isolar e derrotar a extrema direita. Tampouco nos permitiu uma ofensiva sustentável contra ideias e valores liberais, avançando na construção da hegemonia de esquerda. Estamos longe de uma correlação favorável de forças tanto nas instituições, a exemplo do parlamento, quanto na sociedade, mas a correlação não pode ser vista como um elemento geológico, como os mares e as montanhas, cuja mutação independe da ação humana, da luta política, e se processa no tempo infinito.

Queridas companheiras, queridos companheiros

Aproxima-se uma batalha decisiva, a das eleições de 2026.

Daqui a alguns meses nosso partido elegerá novas direções, e esse é um processo essencial para nos prepararmos para a campanha de reeleição do presidente Lula, ajustando nossa orientação política e nossa organização para um embate de tanta importância.

A companheira Gleisi Hoffmann, ao me suceder na presidência do PT, a partir de 2017, conduziu com coragem a resistência à extrema direita e a preparação de nosso partido para a sucessão presidencial de 2022. Após a vitória, sempre foi uma referência no enfrentamento ao reacionarismo e no fortalecimento da esquerda dentro do próprio governo.

Seu legado é inquestionável, mesmo para quem dela discorde. Temos um notável ponto de partida para o trabalho a ser feito, mas novos desafios batem à porta. O processo de renovação deve ser marcado pelo debate sobre como enfrentá-los. Não podemos nos aprofundar numa disputa que vise apenas a conquista de cargos e espaços de poder.

Às voltas com a mais persistente crise do capitalismo e da democracia liberal desde a Segunda Guerra Mundial, nosso partido precisa voltar a representar um projeto civilizatório que se contraponha à ordem estabelecida pelos bilionários. Não pode haver dúvidas que somente a esquerda e seu maior partido, o PT, expressam uma alternativa estruturalmente antissistema, que proponha a transformação radical da economia, da sociedade e do Estado.

O mundo vive hoje uma crise global, econômica, social, política, cultural e ambiental, todas elas entrelaçadas de forma indissociável com o capitalismo, a opressão racial e com os antagonismos e conflitos bélicos associados a eles.

Retomo nosso texto fundacional: “o PT buscará conquistar a liberdade para que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores”. Precisamos desse sentido de destino para aprofundarmos nossa unidade, recuperarmos nossa organização e ampliarmos a formação de nossos militantes. Para provocarmos entusiasmo e mobilização, especialmente na juventude, é necessário defender um futuro que signifique a plena emancipação de nossa gente diante de todas as formas de exploração e opressão.   

Devemos deixar claro, na comunicação e na prática, que a missão do governo é caminhar em direção a esse destino, democratizando renda, riqueza e poder. “Colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda” foi a maneira que o presidente Lula encontrou para sintetizar o nosso programa. Não podemos duvidar que somente a consolidação e o aprofundamento de medidas com esses objetivos poderão reforçar os laços de identidade do governo e do PT com as classes trabalhadoras e o povo.

No tempo que nos falta até as urnas, precisamos marchar com as duas propostas definidas como prioritárias por nossa bancada na Câmara dos Deputados para 2025: aprovar a isenção de imposto sobre renda para quem ganha até cinco mil reais mensais, com maior tributação para valores acima de 50 mil; e votar a PEC que elimina a escala 6 x1 e reduz a jornada de trabalho para 36 horas semanais.

Mas também precisamos avançar em outros temas fundamentais, como a segurança pública, a democratização do Estado e o fim da tutela militar com a alteração do Art. 142 da Constituição Federal. Praticamente abandonamos a discussão da reforma política, essencial para criar um ambiente de apoio a propostas fundamentais como a adoção do voto em lista partidária e a implementação de plebiscitos convocados pelo Poder Executivo e por iniciativa popular.

Nosso papel é apoiar o governo na resistência às pressões do capital financeiro, que se movimenta para abocanhar o orçamento público, em nome da austeridade, tentando impedir a aplicação das políticas de justiça social e desenvolvimento. Querem que nosso governo abdique das políticas de união, reconstrução e transformação, e passe a adotar o programa dos representantes do grande capital. Os setores rentistas do empresariado recorrem a todas as armas para proteger seus interesses e impedir a tributação dos mais ricos, preservando a todo custo a herança neoliberal de Temer e Bolsonaro.

Não temos maioria no parlamento. Precisamos de alianças. Somente será possível implementar nosso programa, contudo, se o nosso campo e o próprio governo forem capazes de criar um clima de mobilização social, que pressione as instituições de fora para dentro, como ocorreu durante a Constituinte de 1988. Mesmo com uma pequena bancada progressista, direitos sociais avançados foram conquistados porque tínhamos um pé na institucionalidade e outro na rua.

Nosso partido deve rechaçar os apelos à despolarização, palavra da moda que significa levar-nos a uma transição efetiva para o centro, com um forte rebaixamento ideológico, programático e organizacional. A construção de coalizões para vencer as eleições e governar não pode ser vista como contraditória com a disputa pública de hegemonia pelos partidos do campo popular. O partido não pode ser reduzido a um braço institucional do governo de frente ampla.

O combate à extrema-direita somente poderá ser bem-sucedido se formos capazes de lhe fazer uma contraposição frontal, aguerrida e popular. A história nos ensina que fórmulas gelatinosas facilitam a ascensão do fascismo.

Para cumprir suas tarefas históricas, o PT precisa se reconverter em um partido de massas, mesclando a concorrência eleitoral com a incorporação de amplas frações do povo à luta política. Sabemos o caminho das pedras. Muito se fala, com razão, em ampliar nossa atuação nas redes sociais. Mas isso não é suficiente: os meios digitais devem estar a serviço, entre outros objetivos, à reimplantação territorial nos locais de moradia, trabalho e estudo.

Aprendamos com as igrejas evangélicas: o PT somente será hegemônico quando, ao lado de cada templo, em cada bairro, houver uma sede partidária aberta às mais distintas atividades políticas, culturais e recreativas. Não basta abrirmos comitês somente em época eleitoral, a cada dois anos. Temos que estar inseridos diretamente na vida do povo e de suas organizações.

Não é um processo fácil. A dinâmica da democracia liberal empurra os partidos de massa para se converterem em partidos eleitorais e, em seguida, meras legendas controladas por governos e mandatos parlamentares. Precisamos, mais uma vez, ter as forças necessárias para remar contra a maré.

Nosso partido também precisa se democratizar, para estar à altura de sua missão. O direito à organização de tendências não pode mais ser visto como oportunidade para organizar partidos dentro do partido, esvaziando as instâncias e fechando as portas para a participação do militante comum. Os fundos partidários devem ser repartidos e implementados de modo mais transparente, evitando privilégios e garantindo sua plena gestão pelo coletivo da direção. Além do que, é preciso retomar as políticas de auto-sustentação pelos filiados para não ficar na dependência exclusiva de recursos públicos ou estatais.

O estatuto do PT merece ser rigorosamente respeitado e somente pode ser alterado por decisão congressual. Novos mecanismos de deliberação da base precisam ser desenvolvidos, como a realização de plebiscitos para as grandes decisões políticas. Antes do surgimento da internet, com voto em papel, foram consultas impositivas à militância que decidiram pelo boicote ao colégio eleitoral (1985) e pela defesa do presidencialismo (1993), orientando o PT em episódios primordiais. Com as novas tecnologias, esse tipo de participação poderia ser frequente, massivo e seguro.

Queridas companheiras, queridos companheiros

O processo eleitoral interno que está sendo inaugurado nestes dias é uma chance para elevarmos o PT a um novo patamar, em um cenário interno e externo de conturbações extremas.

Desse desafio depende, em grande medida, a reeleição do presidente Lula e a continuidade de nosso projeto histórico.

A valentia, a generosidade e a integração de toda a militância é essencial, em mais essa hora da verdade.

Viva o Partido dos Trabalhadores!

Rui Falcão, ex-presidente nacional do PT e deputado federal.

São Paulo, 12 de março de 2025.

O Estadão prefere Edinho




Edinho foi recebido na Embaixada dos Estados Unidos, foi sabatinado pelo BTG Pactual e foi convidado para uma reunião assistida, entre outros, pelo senhor Antonio Palocci.

Mas até agora nada foi mais revelador do que o editorial publicado no dia 12 de março de 2025 pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O editorial pode ser lido ao final ou no link a seguir:


O editorial toma partido pela candidatura de Edinho.

Diz assim: “Quem suceder a Gleisi (…) dirá muito sobre a bússola que orientará o futuro imediato do partido do presidente Lula da Silva”.

OESP acusa Gleisi de contribuir “enormemente (…) para a continuidade da polarização. Ela foi uma defensora incansável de posições radicalmente opostas ao que se esperava para um governo de frente ampla. Com seus ataques à política econômica, muitos dos quais em golpes abaixo da cintura do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, Gleisi fez do PT um caso único no mundo: o partido do presidente e líder da coalizão governista é aquele que primeiro e mais enfaticamente se opõe a iniciativas do próprio governo – uma oposição a si mesmo”.

Já Edinho é elogiado como “um político moderado e conciliador, além de próximo a Haddad e ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ele tem protagonizado o que poderia ser impensável até pouco tempo atrás: um petista que admite problemas e fragilidades do seu partido e abertamente defende mudança de rumos na legenda (…) Edinho Silva ainda padece do pecado da santificação de Lula, mas ao menos vem apontando o óbvio: o País (e, claro, o seu partido) precisa sair da armadilha da polarização e da radicalização. Não é exagero, portanto, enxergá-lo como a grande chance de um imprescindível aggiornamento do PT e, por consequência, da esquerda tradicional brasileira.”

O presidente talvez não concorde, seu preferido talvez não perceba, mas a burguesia dona do Estadão não tem dúvida: considera Edinho como um instrumento contra “o populismo arcaico do demiurgo petista”. Ou seja: um instrumento contra Lula e contra o PT.

Não sabemos como terminará a disputa entre os diferentes setores da tendência “Construindo um Novo Brasil” (CNB). Portanto, não sabemos se Edinho será candidato. E, se for, não sabemos o que farão os derrotados.

O que sabemos é que a maioria do Partido - ou seja, quem não pertence, não apoia nem vota na “CNB” - precisa disputar e vencer a eleição da nova presidência do Partido, marcada para o dia 6 de julho de 2025.

Este é o caminho mais seguro e reto para derrotar o Estadão e sua classe, abrindo caminho para a transformação do Brasil em benefício da maioria do povo brasileiro.





Segue abaixo o editorial do jornal OESP:

Opinião do Estadão

A disputa envolvendo a presidência do PT importa não só aos petistas e à esquerda: a transição do partido de Lula indicará o rumo do governo e, por consequência, do País

O Brasil não passará incólume à profunda crise que abate o PT. A fissura da legenda, levada ao paroxismo no conflito aberto entre os morubixabas que integram a sua principal corrente, envolve a sucessão de Gleisi Hoffmann na presidência do partido, posto que ela ocupava desde 2017. Não está em jogo, porém, apenas a escolha de um nome para presidir o partido – se fosse só isso, não teria a menor importância. Quem suceder a Gleisi, contudo, também dirá muito sobre a bússola que orientará o futuro imediato do partido do presidente Lula da Silva. É nessa condição que é preciso reconhecer: o que acontece hoje no PT interessa muito ao restante do País, porque os rumos do partido decerto afetarão os rumos do governo Lula.

Nesses oito anos, coube a Gleisi não só liderar o partido durante o calvário enfrentado por petistas ante a Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão do presidente Lula da Silva. Ela também esteve no epicentro de alguns dos principais conflitos envolvendo o PT, contribuindo enormemente não para a pacificação e a reconstrução de um país fraturado, e sim para a continuidade da polarização. Ela foi uma defensora incansável de posições radicalmente opostas ao que se esperava para um governo de frente ampla. Com seus ataques à política econômica, muitos dos quais em golpes abaixo da cintura do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, Gleisi fez do PT um caso único no mundo: o partido do presidente e líder da coalizão governista é aquele que primeiro e mais enfaticamente se opõe a iniciativas do próprio governo – uma oposição a si mesmo.

Agora ministra, Gleisi se opõe duramente a outro petista, até aqui tido como favorito para lhe suceder: Edinho Silva, ex-ministro e ex-prefeito de Araraquara. Conhecido como um político moderado e conciliador, além de próximo a Haddad e ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ele tem protagonizado o que poderia ser impensável até pouco tempo atrás: um petista que admite problemas e fragilidades do seu partido e abertamente defende mudança de rumos na legenda.

Como se sabe, petistas costumam viver numa espécie de metaverso, uma realidade própria na qual convivem a convicção das próprias virtudes, a transferência para terceiros de culpas e fracassos que deveriam ser creditados a si mesmos e a mitificação exacerbada dos poderes supostamente sobrenaturais de seu maior líder. Edinho Silva ainda padece do pecado da santificação de Lula, mas ao menos vem apontando o óbvio: o País (e, claro, o seu partido) precisa sair da armadilha da polarização e da radicalização. Não é exagero, portanto, enxergá-lo como a grande chance de um imprescindível aggiornamento do PT e, por consequência, da esquerda tradicional brasileira.

Mas o ex-prefeito vem sendo sabotado – e sob as barbas de Lula, que até aqui demonstrou apoio a Edinho Silva. Conflitos internos são comuns a partidos, e especialmente ao PT, onde há 45 anos convivem infinitas correntes que se digladiam na disputa pelo poder. Mas desta vez o conflito ganhou contornos de guerrilha. A combustão petista atingiu o auge no vazamento de uma reunião na casa de Gleisi, na qual Lula foi chamado a ouvir sobre a resistência de dirigentes ao nome de Edinho Silva. O grupo de Gleisi apresentou nomes alternativos: o deputado José Guimarães (CE), o ex-ministro José Dirceu (SP), o senador Humberto Costa (PE) e Paulo Okamotto, diretor do Instituto Lula.

Não é preciso pensar muito para reconhecer que tais nomes estão aquém dos desafios do partido, além de simbolizarem tudo o que a maioria dos brasileiros não deseja hoje: um PT (e o governo Lula, por consequência) mais radical e mais à esquerda. Mas o problema, ao que consta, não se resume à divergência de ideias e destino do partido. A tesouraria petista, hoje nas mãos de uma aliada de Gleisi, é um dos pomos da discórdia. Nem Gleisi nem Edinho abrem mão do controle do cargo, responsável pela gestão dos milionários recursos do fundo eleitoral – no ano passado, o PT recebeu quase R$ 620 milhões.

Nessa disputa por poder e dinheiro, não se sabe se o PT finalmente se atualizará e fará o governo Lula mudar de rumo, ou se permanecerá atrelado ao populismo arcaico do demiurgo petista, que se julga intérprete de um povo que não existe mais.

terça-feira, 11 de março de 2025

O busílis da CNB



Quem acompanha a “luta interna” no Partido dos Trabalhadores sabe que ela nunca foi propriamente interna.

Aliás, sendo o PT um partido legal e de massas, isso não deveria surpreender ninguém.

Apesar disso, uma das coisas mais comuns dentro do PT era ouvir integrantes da “Construindo um Novo Brasil” (CNB) criticando as outras tendências por fazerem “luta pública” e “levarem para a imprensa as divergências internas do Partido”.

Ao menos em parte, sempre foi uma crítica hipócrita.

Primeiro, porque até as pedras sabem quem são os especialistas em vazamento. 

Segundo e principalmente porque, na condição de tendência relativamente majoritária, é muito comum a CNB decidir as coisas fora das instâncias partidárias. Mais comum ainda é evitar até mesmo reunir as instâncias, funcionando na base da “maioria presumida”. 

O que deixa parte das demais tendências na dúvida: reclamar publicamente ou silenciar obsequiosamente?

De um tempo para cá, entretanto, a CNB rasgou a fantasia e tornou-se assumidamente a maior fonte de fofocas & vazamentos. Exemplo disso é a matéria reproduzida abaixo.


(Abaixo transcrevo a íntegra do texto fotografado acima.)

A grande dúvida é: qual o fundo político da divergência? Evidentemente, nós que não somos da CNB temos uma opinião a respeito. Mas até agora não veio a público nenhum texto da própria CNB ou de alguma de suas alas explicando qual o busílis.

Isso sim seria um vazamento de utilidade pública! Pois luta interna é algo desgastante, mas luta interna que parece ser fenícia é absolutamente deprimente.

Segue abaixo o texto “foto-printado” acima:

Em meio a crise interna sobre sucessão na presidência do PT, Gleisi e Edinho fazem reunião para esfriar ânimos - O Globo

Em meio à escalada da tensão envolvendo a eleição para a presidência do PT, Gleisi Hoffmann marcou uma reunião com Edinho Silva, favorito do presidente Lula para sucedê-la no comando partidário. A conversa deve ocorrer hoje. A sugestão do encontro partiu da própria Gleisi após Edinho afirmar que estava “indignado” com o vazamento de uma reunião entre Lula e integrantes da corrente majoritária do partido, a CNB.

Para o ex-prefeito, Lula foi “usado” ao ser convidado para uma reunião na casa da ministra, na última quinta, com o objetivo de desestimular sua candidatura. No encontro, petistas adversários da candidatura de Edinho elencaram razões pelas quais ele não seria eleito em julho. E disseram ao presidente que estão trabalhando para viabilizar outra candidatura. Lula, que apoia Edinho, apenas ouviu.

O ex-prefeito também foi criticado por ter comparecido recentemente a um almoço oferecido por Marta Suplicy em que o ex-ministro Antonio Palocci estava. A aliados, Edinho disse que a lista de convidados foi de responsabilidade de Marta.

Edinho expressou insatisfação em evento na cidade de Matão (SP), no domingo, quando disse que o presidente foi usado pelos responsáveis pela reunião: "Lula vai para uma reunião para que a gente possa construir unidade e ela é vazada para a imprensa como instrumento de luta interna. Nós não podemos aceitar. Eu estou muito indignado com o que aconteceu, da forma como aconteceu, mas isso não me desestimula. Ao contrário, isso me estimula a lutar para a construção do partido que nós temos que construir".

De acordo com o blog de Julia Duailibi no g1, foi uma foto postada nas redes por Washington Quaquá que fez com que a imprensa fosse atrás da informação. Quaquáintegra o grupo de Gleisi, que não quer Edinho no comando da sigla.

Edinho lembrou que gostaria de ser o candidato de Gleisi, a quem chamou de “maior presidente da história do PT”: "Pra mim, a Gleisi é a maior presidente da história do PT. E eu estive com a Gleisi as duas vezes que ela foi candidata a presidente".

Gleisi, por sua vez, e outros petistas que demonstram resistência ao nome de Edinho têm defendido sua substituição.

Lula sinalizou a integrantes da legenda que vai dobrar a aposta no apoio a Edinho e que a chance de mudar de ideia é nula.






segunda-feira, 10 de março de 2025

Recurso acerca das novas filiações ao PT

Abaixo segue a versão quase definitiva do recurso que será protocolado logo mais, acerca das novas filiações ao Partido dos Trabalhadores.

Companheira Sonia Braga, secretária nacional de organização

Cc Presidente Humberto Costa

Cc Secretário geral Henrique Fontana

Na reunião da comissão executiva nacional do PT, realizada no dia 7 de março, o companheiro Humberto Costa afirmou que deveríamos buscar que, no PED 2025, votasse o maior número possível de pessoas. O companheiro Humberto fez referência, também, ao “republicanismo”. 

Nesse espírito, venho pedir que se aplique o previsto no estatuto do PT, artigo décimo, parágrafo único, a saber: "Para os casos em que as Comissões Executivas Estaduais ou a Nacional considerarem ter havido volume excessivo de novas filiações, causando prejuízos à democracia partidária, será decretado, sob sua supervisão, o recadastramento de todos os novos filiados e novas filiadas, observado o disposto no artigo 6º deste Estatuto".

O que seria um “volume excessivo de novas filiações”? O estatuto não define um parâmetro. 

Além da ausência de parâmetro estatutário, é preciso lembrar que para  realmente governar o país, o PT precisa ser muito maior do que é hoje. 

Quão maior? Para definir este tamanho ideal, seria necessário contabilizar quantos militantes precisaríamos ter para estarmos presentes em cada escola, em cada empresa, em cada bairro, em cada parlamento, em cada governo, em cada instituição importante deste país.

Tanto para definir este número ideal, quanto para chegar a ele, seria necessário que o Partido fizesse uma campanha nacional organizada e permanente de filiações. 

Mas não é isso que temos feito. E não foi isso que encerramos no dia 28 de fevereiro de 2025. Atualmente, quem filia são as as próprias pessoas, as tendências, os mandatos, os líderes individuais e, inclusive, gente de direita que entra no Partido e quer se apossar dos diretórios. 

O resultado deste processo descentralizado e muitas vezes caótico é um crescimento, tanto em termos de quantidade quanto em termos de qualidade, que muitas vezes não beneficia principalmente o Partido, enquanto força coletiva organizada; mas beneficia grupos que buscam usar estas filiações exclusivamente para ganhar as eleições internas e dirigir o Partido.

As filiações encerradas em 28 de fevereiro de 2025 estão cheias de exemplos disso. 

Em termos absolutos, é possível dizer que crescemos pouco (cerca de 13% ou 341 mil novos filiados), bem menos do que precisaríamos. Mas existe o crescimento absoluto e o crescimento relativo: 341 mil novas filiações podem não ser excessivas em termos absolutos. Mas tudo indica que há excessos relativos. 

Por exemplo:  se destas 341 mil, a maior parte se concentra em alguns poucos estados e cidades, onde o PT teve um baixo desempenho eleitoral nas eleições 2024, podemos ter neste caso um “volume excessivo” em termos relativos.

Mesmo assim, é preciso dar o benefício da dúvida. Quem sabe, passada a derrota eleitoral, não tenha havido um esforço extra nestes estados e cidades, exatamente para criar as condições para vitórias futuras? 

Coerente com o benefício da dúvida, o estatuto prevê a possibilidade de um recadastramento, com o objetivo de separar o joio do trigo, separar as filiações legítimas daquelas que foram feitas de forma contraditória com as diretrizes de nosso Partido.

Isto posto, cabe perguntar: como descobrir onde houve “volume excessivo” em termos relativos?

Como o Partido adota o método de deixar a filiação a cargo dos indivíduos, das tendências, dos mandatos e de grupos, é difícil ter um quadro preciso e coerente do ocorrido.

A rigor, a única fonte de dados disponível é a tabela distribuída pela SORG, onde as novas filiações aparecem organizadas por cidades. Com base nesta tabela, sempre tomando como base os dados da SORG, é possível estabelecer vários parâmetros que podem indicar a existência de um “volume excessivo” em termos relativos.

Os parâmetros que adotamos neste recurso são os seguintes:

-a distribuição das novas filiações por estados;

-a distribuição das novas filiações por tamanho do eleitorado das cidades;

-a distribuição das novas filiações por tamanho da votação do PT nas eleições de 2024;

-a média de crescimento no número de filiados.

A seguir faremos uma análise panorâmica, tomando como base os parâmetros acima. E, ao final, apresentamos nosso recurso de maneira sucinta.

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Vejamos primeiro os estados. Se organizarmos uma tabela dos estados brasileiros, comparando o tamanho do eleitorado, o número de filiados em outubro de 2024, o número de filiados em fevereiro de 2025, bem como o número de novas filiações feitas entre outubro24 e fevereiro 25, constataremos que houve 20 mudanças de posição entre os estados, no que toca ao número de filiados. 

Os 10 estados que melhoraram sua posição no ranking de filiados foram: Rio de Janeiro (+82 mil), Pernambuco (+26 mil), Ceará (+39 mil), Pará (+25 mil), Maranhão (+21 mil), Espírito Santo (+3700), Amazonas (+10 mil), Piauí (+7,6 mil), Sergipe (+8,4 mil) e Amapá (+8,4 mil).

Chama a atenção a falta de correspondência entre o tamanho & o resultado eleitoral dos estados vis a vis o crescimento no número de filiados. 

Por exemplo: o Amapá tem 571 mil eleitores, o Piauí tem 2 milhões e 698 mil. Os resultados eleitorais também foram muito diferentes. Qual a explicação política para o Amapá ter mais filiados novos do que o Piauí??

Detalhe: o crescimento do número de filiados no Amapá se deu basicamente em duas cidades, Macapá e Santana. 

Em Macapá o PT não teve candidatura própria a prefeito nas eleições de 2024.Elegemos um vereador em Macapá. Todos os vereadores petistas obtiveram 7676 votos. Mas entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025 crescemos de 9.970 para 13.135 filiados. Filiamos 3.165 novas pessoas ao Partido, um número superior a votação obtida pelo único vereador eleito.

Em Santana o PT também não teve candidatura própria a prefeito nas eleições de 2024. Elegemos uma vereadora. Todas nossas candidaturas a vereador tiveram, somadas, 6.485 votos. Mas entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, crescemos de 6190 filiados para 10126 filiados. Filiamos 3936 novas pessoas ao Partido, um número superior a votação obtida pela única vereadora eleita.

Isto posto, neste caso parece haver uma explicação para a situação do Amapá: a filiação de pessoas ligadas ao Senador Randolfe Rodrigues, ex-PT, ex-PSOL, ex-Rede, ex-sem partido e agora novamente PT. Confirmada esta explicação, haveria uma justificativa política que pode ser considerada compatível.

Desconhecemos se existem explicações similares para os demais estados e cidades onde houve um expressivo número de novas filiações.

Para exemplificar isto, citemos duas cidades de outro estado que mudou de posição no ranking: Sergipe (8,4 mil novas filiações).

Em Brejo Grande (SE) o PT tinha 165 filiados em outubro de 2024, passou a ter 572 filiados em fevereiro de 2025. Um acréscimo de 426 novos integrantes. O detalhe interessante é que em 2024 não tivemos candidatura a prefeito naquela cidade. E não encontramos registro de um único voto para vereador. 

Em Propriá (SE) o PT tinha 382 filiados em outubro de 2024, passou a ter 718 filiados em fevereiro de 2025. Um acréscimo de 336 novos filiados. Entretanto, não tivemos candidatura a prefeito e não elegemos nenhum vereador. Obtivemos 402 votos a vereador, um número inferior ao número total de filiados e pouco maior do que o número de novos filiados.

Também para exemplificar, vejamos o caso de outro estado que mudou de posição no ranking: o Amazonas (10 mil novas filiações).

A maior parte das novas filiações no estado do Amazonas se concentra em algumas poucas cidades, por exemplo Alvarães, Manaus, Maués, Parintins e Benjamin Constant. 

Destas 5 cidades citadas acima, o PT só teve candidato a prefeito em uma única, a saber, Manaus. Em duas delas, temos mais filiados que votos para vereador em 2024: Maués (1508 filiados x 529 votos) e Parintins (2136 filiados x 936 votos). Noutra, tivemos 1739 votos para vereador e filiamos 840 novos pessoas, uma proporção inusitada.

Vejamos o caso de mais um estado que mudou de posição no ranking: o Pará (25 mil novos filiados)

Citaremos uma cidade: Goianésia do Pará. Tínhamos 416 filiados em outubro de 2024, passamos a ter 1230 em fevereiro de 2025. Mas não tivemos candidatura a prefeito, não elegemos vereador. E nossa chapa para vereadores teve, ao todo, 405 votos. Um número menor do que o acréscimo de 814 novos filiados.

Há casos similares em Pernambuco (26 mil novos filiados), Ceará (+39 mil), Pará (+25 mil), Maranhão (+21 mil), Espírito Santo (+3700).

Mas o caso mais ilustrativo do tipo de problema que estamos detectando parece ser o do estado do Rio de Janeiro, onde foram feitas 82 mil das 341 mil novas filiações. 

Salientamos que os dados abaixo se baseiam na lista divulgada pela Sorg.

O estado do RJ tem aproximadamente 13 milhões de eleitores, enquanto o estado de São Paulo tem cerca de 34 milhões de eleitores. Mas em São Paulo tivemos 22.229 novas filiações, contra 82.832 do Rio de Janeiro.

Em todo o Brasil, há 45 cidades onde houve maior número absoluto de novas filiações. Das 45 cidades, 13 são do Rio de Janeiro. 

Somando o eleitorado total destas 45 cidades, temos 33.578.916 eleitores e eleitoras. Somando o número de filiados que havia nestas cidades em outubro de 2024, tínhamos 688.127 filiados e filiados.

Somando o número de filiados que passou a existir nestas cidades em fevereiro de 2025, passamos a ter 870.480 filiados e filiadas. Ou seja, houve 187.708 novas filiações.

Como já dissemos, destas 45 cidades, 13 são do estado do Rio de Janeiro. E nessas 13 cidades estão 9.013.490 eleitores e 74.242 novos filiados. Nas demais 32 cidades estão 24.565.426 eleitores e 113.466 novos filiados.

É evidente a desproporção entre cidades do RJ versus cidades dos demais estados, quando se compara o tamanho do eleitorado e o número de novos filiados. Alguém pode dizer que isso reflete a maior presença do Partido, no estado do Rio de Janeiro frente ao restante do país. Acontece que quando consideramos, por exemplo, a votação para vereador obtida nessas cidades em 2024, a desproporção prossegue.

Nas 45 cidades o PT obteve nas eleições de 2024 um total de 1.905.339 votos para vereador. Já nas 13 cidades do Rio de Janeiro, tivemos 348.903.

Portanto: nas cidades onde tivemos 348 mil votos para vereador em 2024, filiamos 74 mil pessoas. Nas demais cidades onde tivemos 1.557.339 votos para verador, filiamos 113 mil pessoas. Novamente fica evidente a desproporção.

O caso mais gritante de desproporção parece ser Itaguaí (RJ). Em Itaguaí, se forem exatos os dados da UOL (Itaguaí (RJ): Apuração e Resultados | Eleições 2024 | 1º turno), não tivemos candidatura a prefeito, nem tivemos chapa de vereador. Entretanto, passamos de 1240 para 2254 filiados, um acréscimo de 1014.

Vejamos outras cidades.

Belford Roxo (RJ) tem mais ou menos 483 mil habitantes. Nas eleições municipais de 2024, o PT não lançou candidatura própria a prefeito. Todas as nossas candidaturas a vereador conseguiram, segundo a UOL, 3,73% dos votos ou 9.252 votos.

Quantos filiados o PT tinha na época da eleição de 2024? Segundo a secretaria nacional de organização, exatos 5101.

Quantos filiados o PT passou a ter em 28 de fevereiro de 2025? Segundo a mesma Sorg, exatos 11.904.

Ou seja, 6804 novos integrantes. Se a conta não está errada, crescemos 133%.

E em quatro meses (novembro de 2024 a fevereiro de 2025) passamos a ter em Belford Roxo mais filiados que eleitores. 

Vejamos agora o caso de São Gonçalo (RJ), cidade com mais de 896 mil habitantes (segundo  o IBGE 2022). A candidatura do PT a prefeito teve 10,55% dos votos válidos. As candidaturas petistas a vereador obtiveram 5,32% dos votos. Em números absolutos, 48.457 e 23.748, respectivamente.

Esse resultado foi pior que em 2020. Em 2020, com o mesmo candidato a prefeito, tivemos 49,21% dos votos válidos para a prefeitura de São Gonçalo, ou seja, 183.811 votos.

Uma queda expressiva: de 183 mil para 48 mil.

Mas, apesar desse resultado negativo, o PT conseguiu ampliar significativamente o número de filiados em São Gonçalo. 

Em outubro de 2024 tínhamos 18.825 filiados, em fevereiro de 2025 passamos a ter 29.490. Ao todo, 10.670 novos filiados e filiadas.

Ou seja: 135 mil eleitores a menos, 10 mil filiados a mais!

Em São Gonçalo, o número atual de filiados supera o número de votos que obtivemos para vereador.

Ademais, calculado percentualmente, tivemos em São Gonçalo um crescimento de 56% no número total de filiados. Bem mais que a média nacional, que foi de 12% de crescimento. Com o seguinte detalhe: a média nacional se deu num contexto de crescimento da votação; enquanto que o crescimento em São Gonçalo se deu num ambiente de redução da votação.

Outro caso: a cidade de Mesquita (RJ).

Em 2024, o PT teve candidato a prefeito em Mesquita. O Doutor Luiz Claudio teve 4986 votos.

O PT também lançou candidaturas a vereador. Não elegemos ninguém. Mas somadas as votações das oito candidaturas petistas (Isadora Tafarel, Augusto Cesar, Eduardo Costa, Cleber Louzada, Professora Simone, PC do Alto Uruguai, Elisa Campos e Haile Teffe), chegamos a ter 2800 votos. A votação total do Partido chegou a 3.359, o que deve incluir o voto de legenda. Números que podem ser considerados frustrantes, especialmente levando em conta que, em outubro de 2024, segundo dados da Sorg, havia em Mesquita 3641 filiados e filiadas.  

Apesar disso, de outubro de 2024 até 28 de fevereiro de 2025 saltamos de 3641 para 6456 filiados e filiadas. Um acréscimo de 2815 novos aderentes ao Partido.

Em apenas quatro meses, conseguimos trazer para o Partido um número que superou a votação obtida por nossa nominata de vereadores.

E agora temos mais filiados ao Partido do que o número de pessoas que votou em nossa candidatura a prefeito.

Salvo engano, em 2024, em todo o país, o PT atingiu 7.365.428 de votos. Portanto, o número atual de 2.949.507 filiados e filiadas no país como um todo corresponde a mais ou menos 40% do total de votos em nossas candidaturas no país como um todo.

Mas em Mesquita, como já dissemos, o número atual de filiados (6456) supera o número de votantes em outubro de 2024 (4986).

Por fim, mas não menos importante, vejamos o caso de Maricá.

Maricá está em sexto lugar em número absoluto de novos filiados: 9541. Na sua frente estão quatro capitais de estado e uma cidade do Rio de Janeiro com 896 mil habitantes. Enquanto Maricá tem 223 mil habitantes.

Só para comparar com duas outras cidades em que reelegemos nosso projeto: em Juiz de Fora, fomos de 6.174 para 6.762, ou seja, 588 novas filiações. E em Contagem, fomos de 8.533 para 9.044, ou seja, 511 novas filiações.

Ou seja: mesmo que possam existir motivos políticos que explicam o ocorrido, ainda assim estamos diante de um crescimento desproporcional.

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Os indícios de “volume excessivo de novas filiações” são muito fortes quando consideramos, também, a votação obtida na eleição de vereadores em 2024 versus o número de novas filiações.

Não é fácil fazer esta comparação, por conta das fontes (TSE e SORG) e por conta do manejo dos dados. Mas, descontados os erros que podem existir e precisam ser checados, os resultados a que chegamos são expostos nPo quadro a seguir. Lembrando que, segundo a Sorg, temos em todo o país 4273 Diretórios Municipais e 540 Comissões Provisórias.

Sempre com base nos dados da Sorg, apresentamos o seguinte resumo: 

Total de Municípios: 5.605 

Municípios sem votos no PT em 2024:  2.101 

Municípios com votos no PT em 2024: 3.503 

Municípios com filiados e sem votos: 2.095 

Municípios sem filiados e com votos: 0

Municípios com mais filiados que votos: 541 

Municípios com mais votos que filiados:  2.962 

Municípios que aumentaram mais de 50% o número de filiados: 216 

Municípios em que o número de filiados mais que dobrou: 67 

Munícipios em que aumentou o número de filiados: 3.744 

Alertamos que nos dados acima existe pelo menos uma distorção, que são as unidades do Distrito Federal, onde não houve eleições em 2024 e, portanto, aparecem com zero voto e ao mesmo tempo crescimento nas filiações. 

Mas mesmo descontada esta distorção, ainda assim existe um número expressivo de cidades onde – com base nos dados da SORG – teríamos mais filiados que votos. Inclusive casos em que houve crescimento no número de filiados e zero voto. 

Segundo estudo elaborado pela SORG, existiriam 2068 cidades onde tivemos zero voto para vereador nas eleições de 2024. Nessas 2068 cidades, temos 257 mil filiados. Detalhe, destes 257 mil, 19 mil foram novas filiações feitas entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025. Como já dissemos, estes dados podem conter erros. Mas como estamos trabalhando com informações compiladas pela Sorg, não há como não levar em consideração.

Além disso, sempre segundo os dados da SORG, há um número de municípios (entre 67 e 216) onde houve um crescimento muito expressivo (de 50% a 100%), em muitos dos quais não parece haver correlação entre a votação em 2024 e o crescimento do número de filiados.

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Finalmente, há o tema da média de filiações. Como se pode constatar com a tabela que mandamos anexa, houve um crescimento aproximado de 13% no número de filiados entre outubro de 2024 e fevereiro 2025. Em 863 cidades houve um crescimento acima de 13%. O que é normal, afinal média implica em algo abaixo e algo acima. Mas há casos em que o número é dez vezes maior do que a média nacional. É o caso, já citado, da cidade de Belford Roxo (133%). Maricá teve um crescimento de 112%.

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Todos os dados acima citados foram muitas vezes compilados manualmente, sendo sujeitos a muitos erros. Encaminhamos em anexo alguma das tabelas utilizadas.

Mesmo levando em conta os possíveis erros, há elementos suficientes para que recorramos à SORG, à Comissão Executiva Nacional e ao Diretório Nacional para que aprove o seguinte recurso:

1/que em todas as cidades aptas a participar do PED, nas quais a SORG detecte um número de filiados maior do que o número de votos dados à chapa de vereadores do PT nas eleições municipais de 2024, se determine recadastramento, nos termos do artigo décimo, parágrafo único;

2/pelos motivos citados no recurso, que se determine imediato recadastramento, nos termos do artigo décimo, parágrafo único, nas cidades de Brejo Grande (SE), Propriá (SE), Alvarães (AM), Maués (AM), Parintins (AM), Benjamin Constant (AM), Goianésia do Pará (PA);

3/pelos motivos citados no recurso, que se determine imediato recadastramento, nos termos do artigo décimo, parágrafo único, nas cidades de Itaguai (RJ), Belford Roxo (RJ), São Gonçalo (RJ), Mesquita (RJ), Itaguaí (RJ) Maricá (RJ), Petrópolis (RJ), Japeri (RJ), São João de Meriti (RJ), Itaboraí (RJ), Nova Iguaçu (RJ), Duque de Caxias (RJ), Niterói (RJ) e Rio de Janeiro (RJ); 

4/que se determine imediato recadastramento, nos termos do artigo décimo, parágrafo único, nas cidades abaixo listadas, onde houve um crescimento igual ou maior que 10 vezes a média nacional, que foi de 13%: BATALHA, PRIMAVERA, PORTEL, MATÕES, PEDRA BRANCA, FERNANDO FALCÃO, OLHO D'ÁGUA DO CASADO, VISEU, ICÓ, CRAÍBAS, BOCA DA MATA, BREJO GRANDE, ESPÍRITO SANTO DO DOURADO, CACIMBINHAS, CAMUTANGA, BOA ESPERANÇA DO NORTE, SÃO VICENTE FÉRRER, ALTINHO, PEDREIRAS, GOIANÉSIA DO PARÁ, SERRA DO RAMALHO, BENJAMIN CONSTANT, ITAGUAÇU DA BAHIA, COARACI, ÁGUA BRANCA, SANHARÓ, PALMEIRA DOS ÍNDIOS, POÇO DAS TRINCHEIRAS, JANDUÍS, ICATU, ABAETETUBA, JUNQUEIRO, ÁGUA BRANCA, MACEIÓ, CAJUEIRO, GARRAFÃO DO NORTE, TERRA ALTA, SÃO PEDRO DO PIAUÍ, ALTO ALEGRE, SÃO MIGUEL DOS CAMPOS, URUBURETAMA, CAPINZAL DO NORTE, MURICI, TUTÓIA, SÃO DOMINGOS DO PRATA, BELFORD ROXO, BREVES, CARIDADE, ULIANÓPOLIS, ARAPIRACA;

5/que o Diretório Nacional garanta urna eletrônica nos estados e cidades com maior número de filiados, bem como nas 67 cidades em que o número de filiados mais que dobrou entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025.

6/solicitamos, por fim, que a SORG forneça as seguintes informações: quantos novos filiados se filiaram individualmente? Quantos novos filiados tem abonador de filiação? Quantos novos filiados foram registrados utilizando senha de dirigente partidário?

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Reiteramos, finalmente, que o PT precisaria ser bem maior do que ele é hoje. Mas para que tenhamos militantes e não apenas fichas assinadas, é preciso que o Partido coordene as campanhas de filiação. Enquanto isso não ocorrer, é indispensável que a direção nacional do Partido impeça que ocorra aquele tipo filiação que parece ter como único objetivo conquistar espaço nas instâncias partidárias. As solicitações feitas acima, o recadastramento previsto no estatuto e a obrigatoriedade de urna eletrônica contribuirão nesse sentido.



sexta-feira, 7 de março de 2025

Humberto Costa será “homologado”?

Segundo o Estadão, a CNB decidiu e a CEN vai homologar Humberto Costa no lugar de Gleisi Hoffmann.

Pode?

Não, não pode.

 O caso é o seguinte: se Gleisi renuncia o DN deve eleger um substituto. 

Se Gleisi se licencia por um prazo longo, o DN deve eleger um substituto.

Nos dois casos acima, o vice assume até que o DN se reúna.

Se Gleisi se licencia por um prazo curto, o vice assume até ela voltar.

Em qualquer caso o vice deve assumir.

Acontece que o PT não tem “o vice”.

O PT tem 5 vices.

E nenhum deles é primeiro-vice.

Portanto tem uma decisão preliminar, a saber, quem é “o vice”.

E esta decisão compete ao Diretório Nacional (DN).

A Comissão Executiva Nacional (CEN) não pode decidir os cargos de quem é da CEN. 

Só o DN pode fazer isso.

Pergunta: em 2019, quando o DN elegeu a CEN, por qual motivo não hierarquizou os vices?

Talvez porque a Construindo um novo Brasil (CNB) na época não quis fazer isso.

Agora a CNB quer fazer isso. 

Agora a CNB quer decidir quem é o vice. E quer que a CEN homologue esta decisão.

Mas a CEN não tem poder estatutário para fazer isso.

A CNB tem todo o direito de propor quem quiser. Mas a instância que pode deliberar é o DN.

Onde a CNB não tem 50% dos votos.

Nada que um diálogo prévio não resolva.

Mas como disse um ex-tesoureiro do PT, a turma da “Construindo uma nova briga” está ocupada demais. 

Não tem tempo e/ou não acha importante conversar previamente com os outros setores do Partido.

Azar o nosso. Pois quem semeia vento, colhe tempestade.