segunda-feira, 25 de março de 2024

O PT e as dúvidas de Quaquá sobre Brazão



Quaquá tem dúvidas.

Todos temos.

Mas as dúvidas de Quaquá são bastante especiais.

Dizem respeito a Brazão.

Domingos Brazão.

Brazão seria ou não seria um dos mandantes do assassinato de Marielle e Anderson?

Em janeiro Quaquá já manifestara suas dúvidas.

Sobre isso, ler aqui: Valter Pomar: “Quero ser amigo do Quaquá”

Em março, Quaquá parece seguir em dúvida.

Segundo a imprensa - que, óbvio, sempre pode estar mentindo, distorcendo ou exagerando - Quaquá seguiria em dúvida, mesmo depois das prisões efetuadas pela PF neste domingo 24 de março.

Citando palavras publicadas na imprensa: "Não vou dizer que é inocente nem culpado. Não vi ainda provas cabais. Eu o conheço há 20 anos. Será uma surpresa negativa. Foi crime brutal."

De fato, foi um crime brutal.

De fato, cabe a justiça definir se é inocente ou culpado.

De fato, cabal-cabal-mesmo só uma confissão ou algo do gênero.

Ademais, é correto ter dúvidas sobre o caso, inclusive acerca do envolvimento dos generais e do Cavernícola na trama toda.

Nada disso é problema.

Problema mesmo é conhecer Brazão "há 20 anos" e ficar "negativamente surpreso" com a, digamos, hipótese dele ser mandante de um crime.

Recomendo a Quaquá ler as 479 páginas do relatório final do caso.

Foi postado ontem no grupo de zap do Diretório Nacional do PT.

Se ler este relatório, talvez a "surpresa" de Quaquá passe.

Para facilitar, pois 479 páginas é do peru, recomendo ir direto na página 171, onde é citado um caso público, ocorrido em 2014, onde Brazão teria dito o seguinte: "Mando matar vagabundo mesmo. Sempre mandei. Mas vagabundo. Vagabunda ainda não mandei matar”.

Na página 172, um conselheiro do TCE, em depoimento à polícia, afirma que Brazão teria dito o seguinte: "Se ele fizer isso ele morre. Eu começo por um neto, depois um filho, faço ele sofrer muito, e por último ele morre".

Na página 146 tem o seguinte trecho, da lavra dos delegados da PF: "Domingos Brazão e sua família são o exemplo dos muitos casos de sucesso no cotidiano brasileiro, que misturam o ingresso na política com uma ascensão patrimonial vertiginosa".

Na página 132 tem uma citação de um livro do Chico Góis, publicado em 2013 e intitulado Os ben$ que os políticos fazem. Nesta citação, Chico Gois, resume assim a trajetória do cidadão que Quaquá conhece há 20 anos: "A história do menino de periferia carioca que se tornou deputado bem votado, é repleta de acusações de combustíveis, desvio de recursos, grilagem de terras, simpatia com as milícias que aterrorizam as comunidades e homicídios".

Enfim, Quaquá não tem motivo para ficar "surpreso".

Ninguém tem.

Nem com Domingos Brazão.

Nem com as declarações de Quaquá.

Afinal, 20 anos de conhecimento constituem motivos de sobra para ter cautela nas declarações públicas a respeito.

Entretanto, cabe ao Diretório Nacional do PT, que vai reunir-se nesta terça-feira dia 26 de março, decidir se essas manifestações públicas de dúvida são compatíveis com a condição de vice-presidente nacional do PT.

Na minha opinião, não são.

Quaquá deveria pedir, imediatamente, para sair do posto que ocupa.

E parar de comprometer o PT com suas elevadas e justificadas dúvidas a respeito.

Se Quaquá não fizer isso, alguém terá de fazer por ele.

Ou não poderá alegar "surpresa" depois.



domingo, 24 de março de 2024

A realidade paralela de Ricardo Capelli

Faz tempo que Ricardo Capelli pensa o que pensa.

Pode-se confirmar isto lendo aqui: Valter Pomar: Resposta ao texto de Ricardo Capelli

Sendo assim, não me surpreendo com sua postagem acerca do golpe e das forças armadas.


O mais triste nesta postagem é a ignorância histórica.

Desde 1964 até hoje, uma das principais características das forças armadas brasileiras é sua submissão de fato à uma potência estrangeira, os Estados Unidos.

Por isso, mas também por razões práticas as mais diversas, se dependesse apenas ou principalmente destas forças armadas que temos hoje, correríamos mesmo o risco de virar um "protetorado indefeso".

Portanto, se queremos ter forças armadas à altura dos "tempos de guerra" em que vivemos, faz-se necessário implementar mudanças estruturais em nossa política de Defesa.

E a primeira dessas mudanças é tratar a Defesa como um assunto da sociedade. Dito de outra forma, submeter a política de defesa e as instituições militares ao domínio do chamado "poder civil".

Por isso, se queremos forças armadas capazes de defender o Brasil, se queremos ter uma relação harmoniosa com as forças armadas, se queremos uma relação que mire o futuro, então é indispensável superar a herança que recebemos, não apenas do bolsonarismo, mas principalmente da ditadura militar.

Neste sentido, é um imenso erro a decisão imputada por Capelli a "Lula oficial".

Digo imputada, porque uma decisão de "Lula oficial" precisaria estar materializada em algum documento legal, não em recados ou meias declarações.

Aliás, o fato de - até agora, pelo menos - não ter havido nenhum documento oficial é demonstrativo da dificuldade não apenas moral e política, mas também legal, de tentar silenciar a obrigação líquida e certa que o governo tem, de manifestar-se acerca do golpe consumado em primeiro de abril de 1964.

Dificuldade moral, porque temos uma dívida com os que lutaram antes de nós.

Dificuldade política, porque o golpe de 1964 e a ditadura militar impediram as reformas estruturais pelas quais lutamos ainda hoje.

Dificuldades legais, porque o governo tem obrigações que vem descumprindo, neste caso da Memória, Justiça e Reparação.

Imenso erro, porque ajudaria muito, no enfrentamento político da extrema-direita, um balanço público do que foi o golpe de 1964 e a ditadura militar.

O problema é que setores do governo parecem acreditar que a melhor e mais eficaz maneira de tratar a extrema-direita é deixar o assunto nas mãos do STF.

Além de confiarem demasiado em Alexandre Moraes e companhia, estes setores não refletem acerca do que aconteceu conosco, com o PT.

Não se derrota judicialmente um movimento político-ideológico de massas. 

A extrema-direita brasileira é um movimento político-ideológico de massas. Medidas judiciais contra seus líderes não são suficientes para resolver o problema.

Para derrotar a extrema-direita, será necessário, para além da justiça, um movimento político-ideológico de massas, dirigido pela esquerda.

Um movimento que, além de defender a soberania, o desenvolvimento e o bem-estar social, também defenda as liberdades democráticas.

Ao adotar a postura que vem adotando frente ao sistema político, frente ao Supremo, frente ao Congresso, frente aos meios de comunicação, frente ao fundamentalismo religioso, frente a violência policial e frente às forças armadas, um pedaço da esquerda demostra que seu discurso em favor da democracia é, em boa medida, demagogia inconsequente.

Ou, é claro, pode ser apenas a realidade paralela vivida por certas pessoas que, depois de trilharem um longo caminho para chegarem aonde chegaram, agora mudaram de lado, embora as vezes eles próprios e alguns de seus amigos ainda não tenham se dado conta disto.

No caso de Aldo Rebelo, acho que já se deram conta.



Brazão preso & atos de 23 de março

Antes de falar dos atos de 23 de março, um rápido comentário sobre a principal notícia do dia, até agora: a prisão dos mandantes do assassinato de Marielle e de Anderson.

Segundo informam diversos meios, entre os presos está Domingos Brazão, do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.

Confirma-se, mais uma vez, que o crime organizado penetrou profundamente todas as estruturas do estado no Rio de Janeiro.

Não é por coincidência que tenha sido nesse terreno adubado que floresceu o Cavernícola e sua quadrilha.

Motivo suficiente para que a esquerda do Rio de Janeiro enfrente e supere a falta de critérios e a promiscuidade política tão presentes em alguns setores e indivíduos.

Exemplo do que deveria ser evitado, por exemplo, foi a declaração dada - em janeiro de 2024 - pelo deputado federal e vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, acerca de Brazão.

Maiores detalhes aqui: Valter Pomar: “Quero ser amigo do Quaquá”

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Isto posto, passemos aos atos de 23 de março.

Até agora, 9h30 da manhã de domingo 24/3, um balanço preliminar indica o seguinte:

-na esmagadora maioria das cidades do país, pequenas, médias e grandes, não se tem notícia de que algo tenha sido tentado, organizado e realizado;

-por exemplo: capitais como Palmas (TO) e Natal (RN), além de grandes cidades como Osasco (SP) não realizaram atos;

-houve pelo menos uma capital - Rio de Janeiro (RJ) - onde o ato foi cancelado devido às chuvas;

-nas capitais onde ocorreram atos - caso de Porto Alegre, Campo Grande, São Paulo, Salvador, Belém, Aracaju e Distrito Federal - a única que realizou um ato expressivo foi Aracaju (SE), mas nesse caso o ato foi no dia 22 de março e combinado com uma mobilização já tradicional, por conta do Dia da Água;

-nas duas cidades que as Frentes decidiram ser prioritárias, São Paulo (SP) e Salvador (BA), o ato não chegou a reunir 10 mil pessoas (somando as duas cidades e tomando em conta as avaliações mais benevolentes); 

-no caso de São Paulo chovia, em Salvador não;

-no  caso de São Paulo, foi um ato estritamente político, em Salvador teve show em seguida ao ato político;

-em ambos casos, foram atos de militantes, não de massa. Mas a imensa maioria dos militantes petistas não atendeu a convocação - mesmo que protocolar - feita pela direção do Partido, inclusive pela presidenta nacional;

-embora tenham sido atos de militantes, não contaram nem mesmo com a participação da maioria dos integrantes das direções partidárias e sindicais atuantes nas respectivas cidades (isso não se aplica ao PCdoB, que estava realizando um Festival nacional em Salvador);

-há casos diferentes do acima exposto, como parece ter sido o caso de Porto Alegre (RS), onde teria havido uma presença maior de figuras públicas do Partido dos Trabalhadores, inclusive da pré-candidata à prefeita Maria do Rosário;

-no caso específico do PT, do PSOL e do PCdoB, além da ausência dos dirigentes, também tivemos a ausência da maioria dos parlamentares federais, estaduais e municipais, com as exceções já referidas;

-em São Paulo capital, o pré-candidato a prefeito Boulos (PSOL) não participou do ato;

-em Salvador, o pré-candidato a prefeito Geraldo Júnior (PMDB) esteve presente ao ato;

-no caso específico de Salvador, embora tenham circulado cards anunciando a presença do governador Jerônimo e do senador Jaques Wagner, ambos não compareceram;

-vale dizer que o ato em Salvador foi no Pelourinho por estímulo expresso do governador;

-a presidenta Gleisi Hoffmann, assim como a presidenta do PCdoB Luciana Santos, estiveram no ato de Salvador;

-finalmente, além de terem sido atos de militantes, há informações de que também foram atos para militantes. Nem na preparação dos atos, nem nos discursos feitos, houve a preocupação de dialogar com o conjunto da população. Cabendo sempre lembrar que o golpe e a ditadura militar causaram danos para a imensa maioria da população brasileira, não apenas para a esquerda que foi perseguida.

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Com base no levantamento parcial acima citado, constata-se que os atos de 23 de março foram uma demonstração de fraqueza.

Alguns dizem que foi assim, por razões supostamente estruturais (desmobilização geral, perda de representatividade de algumas entidades, desorganização na convocação etc.).

Outros dizem que foi assim, por razões supostamente táticas (o tema não atrai, havia divergência de orientações, o dia escolhido, a natureza descentralizada dos atos).

Há quem diga que, ainda assim, melhor ter feito algo do que não ter feito nada

Até porque, mesmo que o Cavernícola não tivesse feito nada no dia 25 de janeiro, ainda assim caberia repudiar nas ruas os 60 anos do golpe.

E há, também, os que dizem que há algo positivo no ocorrido: serve de alerta para o que pode acontecer no dia 1 de maio de 2024 e na Marcha à Brasília, caso não se altere substancialmente a linha política e os métodos organizativos.

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Para além do balanço, cabe também discutir algumas implicações políticas.

Embora acuada pelas investigações, a extrema direita segue forte nas instituições, com boas perspectivas eleitorais em inúmeras cidades e demonstrou no dia 25 de fevereiro ser também capaz de ocupar as ruas.

Na ausência de mobilização popular autônoma, o enfrentamento da extrema-direita depende da capacidade de ação do governo federal e da disposição da direita neoliberal tradicional, majoritária nas instituições.

Acontece que a disposição da direita tradicional tem um preço, e quem paga parte deste preço é a popularidade do governo. 

Ou seja: do jeito que está, a conta não fecha. 

Ou melhor, do jeito que está, a conta pode fechar contra nós

Se não houver uma inflexão na linha política do governo e uma alteração significativa na conduta prática do conjunto da esquerda política e social, as perspectivas de curto prazo não são positivas.

E mesmo que não soframos derrotas no curto prazo, as perspectivas de médio prazo seguirão extremamente preocupantes, pois não existe a menor possibilidade de fazer transformações estruturais no Brasil, se essas transformações dependerem das atuais "instituições" e da correlação de forças que nelas se produz e reproduz.

Um detalhe adicional: diante das dificuldades, alguns setores propõem fazer não uma inflexão para avançar, mas sim uma inflexão para recuar. 

Um exemplo disto é o que alguns já estão fazendo frente ao tema golpe e ditadura militar. No caso, a decisão de desmobilizar não fortalece a esquerda e não enfraquece a extrema-direita. E como a extrema-direita demonstrou força, a polarização segue existindo, mas é totalmente assimétrica em favor deles. 

Para mais detalhes, ler aqui: Valter Pomar: A realidade paralela de Ricardo Capelli

Enfim, uma situação que o Diretório Nacional do PT, convocado para o dia 26 de março de 2024, deveria debater com muito cuidado e atenção.



domingo, 17 de março de 2024

Marcha da Família com Deus pela Liberdade: uma sexagenária cheia de vida?

Roteiro do programa Contramola de 18/3/2024

No dia 18 de março de 1964, o jornal Folha de S.Paulo publicou um anúncio muito especial.

Vou ler trechos do referido anúncio:

“O nosso direito de amar a Deus, e a liberdade e a dignidade de nossos maridos, filhos e irmãos, estão ameaçados pelos comunistas, primários em seus instintos e brutos em seus sentimentos”.

“Eles se acham em plena marcha para submeter o Brasil à escravidão da sua ditadura retrógrada, anti-humana, anti-cristã e fracassada na quase faminta Rússia e na faminta China”.

“Explorando condições difíceis que eles próprios ajudaram artificialmente a criar neste País da Esperança e do Futuro, os comunistas, altamente acumpliciados, preparam-se para o assalto final às Igrejas de todos os credos e a todas as liberdades de todos os cidadãos”.

“Vamos para as ruas, antes que os inimigos cheguem às nossas Igrejas!

“Compareça à “Grande Marcha da Família com Deus pela Liberdade” que será realizada dia 19, partindo Às 16 horas da Praça da República para a Praça da Sé”.

O anúncio era assinado por dezenas de entidades.

Abrindo a lista de signatários, estavam a União Cívica Feminina (UCF) e o Movimento de Arregimentação Feminina (MAF).

Outros dos signatários foram:

Fraterna Amizade Cristã Urbana e Rural
Círculos Operários Católicos
Associações Cristãs de Moços
Associação Comercial de São Paulo
Sociedade Rural Brasileira
Clube dos Diretores Lojistas
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
Centro das Indústrias do Estado de São Paulo

Como já dissemos, o anúncio foi publicado no dia 18 de março de 1964; no dia seguinte, no dia 19 de março, uma quinta-feira, aconteceu a primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

Digo a primeira, porque aconteceram muitas, entre os dias 19 de março e 8 de junho de 1964.

A Marcha de São Paulo foi a precursora.

A Marcha do Rio de Janeiro, no dia 2 de abril, foi a mais concorrida, pois comemorava a vitória do golpe, iniciado no dia 31 de março e consumado no dia 1 de abril.

Aliás, o dia apropriado: o da mentira!

A Marcha de 19 de março e as seguintes foram concebidas como uma resposta ao comício realizado na sexta-feira, dia 13 de março de 1964, em frente à Estação Central do Brasil, comício no qual discursaram João Goulart e Leonel Brizola, entre outros.

O discurso feito por Leonel Brizola está disponível, na íntegra, no seguinte endereço:

https://upassos.wordpress.com/2011/04/18/o-discurso-de-brizola-no-comcio-da-central-do-brasil-13-de-maro-de-1964/

O discurso feito por João Goulart está disponível, na íntegra, no seguinte endereço:

https://memoria.ebc.com.br/cidadania/2014/03/discurso-de-jango-na-central-do-brasil-em-1964]

Vou citar uns trechos do discurso de Jango:

Estaríamos, sim, ameaçando o regime se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, que de norte a sul, de leste a oeste levanta o seu grande clamor pelas reformas de estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será como complemento da abolição do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros que vegetam no interior, em revoltantes condições de miséria.

Ameaça à democracia não é vir confraternizar com o povo na rua. Ameaça à democracia é empulhar o povo explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos das mais expressivas figuras do episcopado brasileiro.

O inolvidável Papa João XXIII é quem nos ensina que a dignidade da pessoa humana exige normalmente como fundamento natural para a vida, o direito ao uso dos bens da terra, ao qual corresponde a obrigação fundamental de conceder uma propriedade privada a todos.

É dentro desta autêntica doutrina cristã que o governo brasileiro vem procurando situar a sua política social, particularmente a que diz respeito à nossa realidade agrária.

O cristianismo nunca foi o escudo para os privilégios condenados pelos Santos Padres. Nem os rosários podem ser erguidos como armas contra os que reclamam a disseminação da propriedade privada da terra, ainda em mãos de uns poucos afortunados.

Àqueles que reclamam do Presidente de República uma palavra tranquilizadora para a Nação, o que posso dizer-lhes é que só conquistaremos a paz social pela justiça social.

O discurso de Jango tem outros trechos muito importantes.

De conjunto, o discurso sinalizou que o governo ia acelerar o passo em direção às reformas de base.

No seu discurso, Jango sinalizou, também, a expectativa de que as Forças Armadas apoiariam a ação do governo.

Frente ao Comício de 13 de março, a reação da direita foi acelerar as providências para o golpe.

O golpe não foi uma reação ao comício, nem foi uma reação ao esquerdismo de Jango, como reza uma lenda que foi recentemente endossada pelo jornalista Azedo, num artigo publicado no Correio Braziliense, dia 13 de março de 2024, artigo que no fundo reforça a tese segundo a qual “a culpa é da vítima”.

O artigo de Azedo está aqui: Análise: um comício que marcou a história do Brasil (correiobraziliense.com.br)

O golpe de 1964, sempre é bom lembrar, foi uma continuação do golpe tentado e frustrado em 1954.

Por esses e por outros motivos, o golpe de 1964 não foi uma reação ao comício. Mas, isto sim, o golpe foi acelerado pelo comício.

Algo parecido ocorreu no Chile, em 1973.

Pinochet era comandante do Exército e fingia ser um defensor da Constituição.

Quando Allende contou a Pinochet que convocaria um plebiscito, para o povo decidir sobre a continuidade ou não do governo da Unidade Popular, Pinochet pisou no acelerador e antecipou o golpe de Estado.

Dito isto, voltemos à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ou melhor, voltemos uns dias antes, ao Comício do 13 de março de 1964.

Os líderes da direita acompanharam atentamente o comício.

E estavam preocupados, principalmente aqueles que sabiam de fato confirmado por sondagens feitas na época, mas não publicadas, a saber, sabiam que o governo Jango tinha o apoio da maioria do povo.

Mais detalhes sobre a aprovação do governo Jango, ler aqui:

https://www.camara.leg.br/noticias/429807-jango-tinha-70-de-aprovacao-as-vesperas-do-golpe-de-64-aponta-pesquisa/

Por isso, para o golpe ter sucesso, não bastava ter apoio clerical, midiático, parlamentar, militar e empresarial; era preciso, também, passar a impressão de que os golpistas tinham o apoio da maioria da população.

É também por isso que líderes da direita encamparam uma iniciativa de setores católicos anticomunistas; mas ao mesmo tempo aqueles líderes decidiram dar caráter mais amplo à iniciativa, para que ela não ficasse restrita a uma denominação religiosa.

Aqueles setores católicos anticomunistas tinham ficado particularmente irritados com a seguinte passagem do discurso de Jango:

(...) Ameaça à democracia é empulhar o povo explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do anticomunismo (...) O cristianismo nunca foi o escudo para os privilégios condenados pelos Santos Padres. Nem os rosários podem ser erguidos como armas contra os que reclamam a disseminação da propriedade privada da terra, ainda em mãos de uns poucos afortunados”.

Na época, se dizia que uma “Irmã” chamada Ana de Lurdes teria sugerido “convocar as mulheres às ruas”, para “castigar” Goulart “pela ofensa que fizera ao “Santo Rosário”!

Aqui vale destacar três coisas.

Primeiro: destacar que na época havia um forte movimento de mulheres católicas, conservadoras e anticomunistas.

Num texto publicado na época, pode-se ler o seguinte:

“Alguém te dirá um dia, porventura, que a revolução brasileira foi uma arrancada de ricos contra pobres, de patrões contra operários. Por este livro saberás o quanto isso é falso. A revolução autêntica não se deu a 31 de março, mas a 19 de março. Foi tua mãe quem a fez, pensando em ti, para que tu continuasses livre e em regime de livre iniciativa pudesses construir o futuro esplendoroso do grande Brasil de amanhã”.

Segundo: destacar que na época havia um movimento chamado “Cruzada do Rosário em Família”, movimento criado nos Estados Unidos, nos anos 1940, por um padre chamado Patrick Peyton, com o objetivo de combater o “materialismo ateu” e a “deformação dos costumes”, garantindo assim a “unidade da família” e salvando “sua formação moral e cristã”.

O lema da “Cruzada do Rosário” era “família que reza unida, permanece unida”.

Na época, se dizia que as manifestações lideradas pelo Padre Peyton teriam reunido 600 mil pessoas em Recife, em 1961; e cerca de um milhão de pessoas, na cidade do Rio de Janeiro, em 1962; e um milhão e meio de pessoas, em São Paulo capital, no mês de agosto de 1964, depois do golpe.

Dizem os especialistas que a Cruzada tinha o apoio da CIA e que não se limitava a realizar estas atividades multitudinárias: também fazia trabalho de base nos locais, nas paróquias.

Terceiro, destacar que os marchantes mobilizaram também o mito da Revolução Constitucionalista.

Esse foi um dos motivos pelos quais a Marcha com Deus começou na Praça da República.

Como diz um texto também da época:

“MMDC – Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo – é um poema da vida brasileira, escrito numa placa de mármore, na praça da República, onde caíram varados a bala, os primeiros quatro mártires da Revolução de 32. Eles jogaram e perderam, na batalha pela liberdade de ser, liberdade de existir. Dali partiu a marcha, reencetando a batalha perdida da outra vez. Na lembrança daqueles mortos, encontrará o paulista vigor e fé para nova batalha, após cada batalha perdida”.

A Marcha do dia 19 de março começou com uma exibição musical da banda da Força Pública, matriz da atual Polícia Militar.

A Marcha chegou na Praça da Sé, recebida pelo badalar de sinos das igrejas.

E, claro, ao som do hino de 32!

Na marcha foi distribuído um "Manifesto ao Povo do Brasil".

E os marchantes carregavam muitas faixas e repetiam palavras de ordem, por exemplo:

“Reformas sim, comunismo não”.

“Tá chegando a hora de Jango ir embora”.

“Reformas sociais sim, comunismo não”.

“Vermelho bom, só batom”.

“Democracia sim, comunismo não”.

“Verde e amarelo, sem foice nem martelo”.

“Queremos um governo cristão”.

“Defendamos a Constituição”.

Entre as faixas, havia uma que dizia também: “Instituto Braile de Santos”.

Na Praça da Sé, houve vários discursos, entre os quais os do senador Audo de Moura Andrade, aquele que presidiria a sessão do Congresso que, no dia 1 de abril, proclamaria vaga a presidência da República.

Também discursaram o deputado Herbert Levy, mais conhecido por conta da Gazeta Mercantil; o senador Padre Calazans, da UDN; a deputada estadual paulista Conceição da Costa Neves; Lino de Matos, do Partido Trabalhista Nacional; Plínio Salgado, do Partido da Representação Popular; Gama e Silva, reitor da USP; o deputado Antonio Silva da Cunha Bueno; e Miguel Reale!!

Sim, teve um Miguel Reale na lista de oradores da Marcha de 19 de março, mostrando que quem sai aos seus não degenera, exceto se...

Um dos mais ilustres participantes da Marcha foi o Marechal Dutra, ex-presidente, que declarou à Folha de S. Paulo o seguinte:

Não posso me furtar a fazer um apelo à lucidez e ao tradicional bom senso dos meus compatriotas, no sentido de que se unam aos democratas, enquanto é tempo, a fim de evitar o advento de condições que lancem o Brasil no desastre da irremediável secessão interna. O respeito à Constituição é a palavra de ordem dos patriotas. A fidelidade à lei é o compromisso sagrado dos democratas perante a nação. (...) Nada de bom se resolve no clima do desentendimento, e é impossível sobreviver democraticamente na subversão”.

Outra ilustre participante foi dona Leonor de Barros, esposa do governador Ademar de Barros.

A reação da esquerda a Marcha? Foram várias.

Destaco as que desmereceram a Marcha como um ato “religioso” e de “classe média”.

Mesma atitude adotada por alguns, frente à manifestação de golpistas realizada no dia 25 de fevereiro de 2024.

Teve um elemento religioso? Teve.

Teve presença da chamada classe média? Teve.

Mas apesar disso ou por isso mesmo, as Marchas – foram ao todo 69, realizadas entre 19 de março e 1 de junho, incluindo nesta conta muitas Marchas realizadas em cidades do interior do estado de São Paulo – atingiram o objetivo: criar a aparência de que o golpe tinha respaldo majoritário na população.

Aliás, cá entre nós, sugiro responder a seguinte questão: se os golpistas de 1964 tinham maioria nas Forças Armadas e tinha, também, maioria no Congresso e no STF da época, por quais motivos gastaram tempo fazendo movimentação de rua?

As respostas para a questão acima ajudam a entender, também, por quais motivos a esquerda de 2024 - sem maioria no Congresso, sem maioria nas Forças Armadas, com um STF neoliberal e que sabemos o que fez no verão passado - precisa necessariamente mobilizar as ruas.

A extrema-direita, tanto em 1964 quanto em 2024, não teve nem tem dúvidas a respeito da importância de ocupar as ruas.

Hoje, mobilizam muita gente que não tinha nascido em 1964, mas que usa com prazer um figurino parecido com a da Marcha sexagenária.

O figurino é vintage, mas não está deslocado. Pois os dilemas de fundo do Brasil seguem muito parecidos, sessenta anos depois.

Infelizmente, uma parte da esquerda resiste a tirar as devidas consequências deste fato.

Um último comentário.

Um dos temas da Marcha era a defesa do Congresso e da Constituição, contra a suposta ameaça de Jango e dos comunistas.

Menos de 15 dias depois, o Ato Institucional número 1, assinado pelo autoproclamado “Comando Supremo da Revolução, representado pelos Comandantes-em-Chefe do Exército, da Marinha e da Aeronáutica”, afirmou o seguinte:

É indispensável fixar o conceito do movimento civil e militar que acaba de abrir ao Brasil uma nova perspectiva sobre o seu futuro. O que houve e continuará a haver neste momento, não só no espírito e no comportamento das classes armadas, como na opinião pública nacional, é uma autêntica revolução.

(...)

A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada pela normatividade anterior à sua vitória. Os Chefes da revolução vitoriosa, graças à ação das Forças Armadas e ao apoio inequívoco da Nação, representam o Povo e em seu nome exercem o Poder Constituinte, de que o Povo é o único titular. O Ato Institucional que é hoje editado pelos Comandantes-em-Chefe do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, em nome da revolução que se tornou vitoriosa com o apoio da Nação na sua quase totalidade, se destina a assegurar ao novo governo a ser instituído, os meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direto e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende a restauração da ordem interna e do prestígio internacional da nossa Pátria. A revolução vitoriosa necessita de se institucionalizar e se apressa pela sua institucionalização a limitar os plenos poderes de que efetivamente dispõe.

O presente Ato institucional só poderia ser editado pela revolução vitoriosa, representada pelos Comandos em Chefe das três Armas que respondem, no momento, pela realização dos objetivos revolucionários, cuja frustração estão decididas a impedir. Os processos constitucionais não funcionaram para destituir o governo, que deliberadamente se dispunha a bolchevizar o País. Destituído pela revolução, só a esta cabe ditar as normas e os processos de constituição do novo governo e atribuir-lhe os poderes ou os instrumentos jurídicos que lhe assegurem o exercício do Poder no exclusivo interesse do Pais. Para demonstrar que não pretendemos radicalizar o processo revolucionário, decidimos manter a Constituição de 1946, limitando-nos a modificá-la, apenas, na parte relativa aos poderes do Presidente da República, a fim de que este possa cumprir a missão de restaurar no Brasil a ordem econômica e financeira e tomar as urgentes medidas destinadas a drenar o bolsão comunista, cuja purulência já se havia infiltrado não só na cúpula do governo como nas suas dependências administrativas. Para reduzir ainda mais os plenos poderes de que se acha investida a revolução vitoriosa, resolvemos, igualmente, manter o Congresso Nacional, com as reservas relativas aos seus poderes, constantes do presente Ato Institucional.

Fica, assim, bem claro que a revolução não procura legitimar-se através do Congresso. Este é que recebe deste Ato Institucional, resultante do exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções, a sua legitimação.

Moral da história: a época empurrava grande parte das forças políticas para uma ruptura. A esquerda defendia que esta ruptura exigiria uma nova Constituição, elaborada pelo povo. Já a direita primeiro afirmou defender a Constituição, depois deu um golpe e, em seguida, rasgou a Constituição, tudo isso sem e contra o povo.

Apesar disso, Luiz Carlos Azedo, no texto já citado, diz queem vez de apostar num “dispositivo militar”, era mais importante respeitar as decisões do Congresso e convencer a sociedade de que as reformas eram necessárias. E não as impor”.

Vamos por partes.

Na época do governo Goulart, a esquerda estava tendo êxito em convencer a sociedade de que as reformas eram necessárias. E a maioria do povo apoiava o governo, segundo o Ibope. Como é óbvio, o golpe ocorreu exatamente porque os golpistas temiam perder as eleições presidenciais de 1965, assim como Pinochet temia perder o plebiscito convocado por Allende.

O governo Goulart não desrespeitou as decisões do Congresso. Aliás, no discurso de 13 de março de 1964, Jango diz que para fazer mais, seria preciso mudar a Constituição. Logo, quem “impôs” algo foi o golpe, não o governo Goulart. Claro, os golpistas acusavam o governo Jango de atentar contra a Constituição. E os golpistas de 64 também diziam que eles é que defendiam a democracia. Mas deixemos para a direita a tarefa de repetir, sessenta anos depois, essa “história alternativa”.

O verdadeiro dilema que o governo Jango experimentava, como experimenta qualquer um que tenta fazer reformas num marco institucional hostil, é: como furar o cerco?

A decisão do governo Jango foi a de apelar para a mobilização popular. E para se convencer da necessidade de mobilização, Jango não precisa ser emprenhado pelo ouvido por Prestes, como afirma Azedo, em mais uma versão de “a culpa é do PT”, digo, “dos comunistas”. Cá entre nós, o trabalhismo daquela época tinha no seu meio gente que viveu tanto 1930, quanto a Cadeia da Legalidade.

Seja como for, só é possível fazer mobilização popular, se ela for acompanhada de medidas práticas, que mostrem ao povo de que lado o governo realmente está, não apenas na retórica, mas na ação.

O problema não residia, portanto, em “respeitar” ou não respeitar “as decisões do Congresso”; o problema residia em aceitar ou não a correlação de forças congressual como sendo o limite do que o governo podia, ou não podia, fazer.

Ao decidir ultrapassar este limite, o governo sabia que viriam reações ainda maiores. E foi este, na minha opinião, o erro fatal: não estar preparado para estas reações.

Portanto, diferente do que diz Azedo, o problema não foi a disposição de usar um dispositivo militar, para combater o golpismo. O problema foi confiar num “dispositivo” fake, de araque, que não existia de verdade. O erro foi confiar que havia, naquelas forças armadas, efetiva disposição de combater os golpistas e seus aliados estrangeiros.

No final de seu discurso, dia 13 de março de 1964, Jango disse: “só conquistaremos a paz social pela justiça social”.

Faltou, em nome da paz, se preparar para fazer a guerra contra os patrocinadores e beneficiários da injustiça social.


ps 1. acusei outra pessoa de ser culpada pelo que disse Azedo. Na versão acima, está corrigido. Mil agradecimentos ao Gilberto Maringoni, pelo alerta. 

ps 2. quem quiser ler mais a respeito, sugiro as obras citadas abaixo, onde está parte das informações comentadas no texto.

PRESOT, Aline Alves. As Marchas da família com Deus pela liberdade e o golpe de 1964. Dissertação de mestrado – Programa de Pós-Graduação em História Social. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2004.

RODEGHERO, Carla Simone. Religião e patriotismo: o anticomunismo católico nos Estados Unidos e no Brasil nos anos da Guerra Fria. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 22, n.44, p. 463-487, 2002.

CORDEIRO, Janaína Martins. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Paulo: direitas, participação política e golpe no Brasil, 1964. Rev. hist. (São Paulo), n.180, a01720, 2021, http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2021.167214

 

A geopolítica de Cantalice

O PT tem vários intelectuais.

Um deles é Alberto Cantalice.

Está sempre buscando interpretar os acontecimentos.

E usa, como um dos meios para difundir suas conclusões, o X.

Uma de suas postagens mais recentes no X diz assim: “Os 40 anos de neoliberalismo produziram uma catástrofe no Modo de Produção Capitalista. Hoje no mundo somente duas alternativas se apresentam: o Fascismo de Trump, Meloni, Bolsonaro, Milei, Le Pen. Ou o Socialismo-Democrático de Lula, Sánchez, Sanders, Boric, Petro, Lopez Obrador. Tendo a China como um caminho do meio”.

Deixa eu ver se eu entendi.

Tem o “Modo de Produção Capitalista”, com maiúsculas.

Como grafavam alguns manuais, o MPC.

Aí aconteceu uma catástrofe “no” MPC.

Quem produziu a catástrofe?

Segundo Cantalice, “os 40 anos de neoliberalismo”.

Cantalice não fala sobre como essa “catástrofe” teria distribuído seus efeitos sobre os diferentes setores sociais.

Na ausência desse “detalhe”, alguém pode achar que, antes do neoliberalismo, vivíamos num paraíso, agora perdido.

Segundo Cantalice, como resultado da “catástrofe” neoliberal, hoje no mundo só teríamos duas alternativas: “fascismo” ou “socialismo-democrático”.

Se entendi bem, trata-se de uma versão muito esquisitona e um pouco descafeinada da disjuntiva “socialismo ou barbárie” de Engels, citado por Rosa Luxemburgo.

A disjuntiva versão Cantalice é “fascismo ou socialismo democrático”. Fascismo com F maíusculo e Socialismo-Democrático com maíusculas e hifen!

A disjuntiva é esquisitona, entre outros motivos, porque Catalice pula da categoria “Modo de Produção Capitalista” para fascismo/socialismo-democrático e, depois, salta para líderes individuais.

A disjuntiva é descafeinada, porque há um certo abismo entre o socialismo de Engels/Rosa e o de Cantalice.

Mas seja lá o que for o socialismo-democrático-segundo-Cantalice, evidentemente ele exclui desta categoria líderes que não considera muito democráticos.

Entretanto, como ficaria ridículo fazer uma disjuntiva sobre o mundo atual e excluir a China da equação, resta a Cantalice fazer um puxadinho no seu mapa do caminho, colocando a China como um “caminho do meio”.

Curiosamente, em todos os outros casos ele cita nomes de pessoas, nesse caso ele cita o nome do país: a China.

Sei que a China foi conhecida no passado como “Império do Meio”, mas o que mesmo Cantalice quereria dizer com “caminho do meio” no ano de 2024, no contexto da tal disjuntiva por ele estabelecida?

Difícil responder.

Afinal, “caminho do meio entre fascismo e socialismo-democrático”, do ponto de vista político, deveria ser a democracia burguesa ou liberal ou como queiram chamar. A China não é isso, evidentemente.

Seria então um “caminho do meio” do ponto de vista econômico?

Se o critério for a presença de empresários capitalistas privados, em todos os países citados eles existem e passam muito bem, obrigado. Por este critério, não consigo imaginar como a China foi parar no “caminho do meio”.

Se o critério for a presença do Estado, em todos os casos citados a presença do Estado é menor do que na China. Portanto, tampouco vejo como colocar a China no “meio”.

Enfim, mexo, remexo e não consigo entender a lógica do argumento de Cantalice.

O que era esquisito, agora começa a virar um pouco bizarro.

Não apenas porque caberia muita discussão sobre em que medida os líderes citados por Cantalice se enquadram no tal “socialismo democrático”.

Não apenas porque a disjuntiva cancela a existência da turma do Biden, que há apenas 4 anos era apresentado como alguém que iria, diziam, “provocar uma revolução no capitalismo”. 

Não apenas porque se fala da extrema-direita fascista, omitindo a existência da direita tradicional.

Mas principalmente por dois motivos adicionais.

A saber:

1/ alguém acredita que os desdobramentos de curto prazo da atual situação mundial cabem dentro das duas “alternativas” indicadas por Cantalice? Onde situar, na “disjuntiva-de-Cantalice-com-caminho-do-meio, Putin/Rússia? E a Índia? E a África? E...

2/ alguém acredita mesmo que a saída de médio prazo para a “catástrofe” causada pelo neoliberalismo seria um Modo de Produção Capitalista com mais democracia e políticas sociais?

Talvez a resposta esteja nos Tuítes Completos do Cantalice.

Mas temo que lá só haverá tuítes.

Aliás, X.

E X me lembra que a verdade está lá fora.

Bem longe de certas postagens.


 

 

sábado, 16 de março de 2024

Horácio Martins de Carvalho, presente!


Horácio Martins de Carvalho nasceu em 28 de fevereiro de 1941.

A despedida será no domingo, 17 de março de 2024, em Curitiba.

Aos que não o conheceram, seguem um vídeo e um texto.

Horário Martins de Carvalho, presente, agora e sempre!


 (24) Horácio Martins de Carvalho - YouTube

O saber como mercadoria. Entrevista especial com Horácio Martins de Carvalho - Instituto Humanitas Unisinos - IHU


Um fungador na Defesa?

Até que evoluímos!!

Saímos da “granada no bolso” para “pisar no calcanhar e fungar no cangote”.

Que o autor das aspas parece durão, está sugerido pelos números de recente anuário de segurança pública.

Sendo assim, há quem acredite que o fungador seria o cara ideal para substituir o virtuose que nem nomeado deveria ter sido.

Substituindo Múcio na Defesa, o fungador poderia, dizem, ser durão com os barnabés fardados e armados.

Temo, entretanto, que o fungador seja do tipo que se encanta com uniformes.

E que, no final das contas, seu rosnado vire ronronar.

É por esses e por outros que, como reconheceu o presidente Lula, estamos “aquém”.

Dá tempo de mudar. Mas tem que ser rápido!