terça-feira, 7 de novembro de 2023

Menu Valério: café com Boulos ou chá com Haddad

Acabo de ler a tréplica, através da qual Valerio Arcary polemiza com afirmações que fiz acerca da sua estratégia Boulos.

A etapa anterior da polêmica está aqui:
 
http://valterpomar.blogspot.com/2023/11/a-estrategia-boulos-uma-replica.html
 
Como é inevitável, a tréplica de Valério deixa de lado algumas das questões que abordei em meu texto original. 
 
Dentre elas, destaco uma: o tema da “marginalidade”, que a meu ver está na base da mudança profunda que Valério está operando em sua maneira de debater a estratégia.
 
Isto posto, registro maravilhado a capacidade que Valério tem de transformar retirada em desfile.
 
É o que ele faz, ao apresentar como uma lista de “acordos” entre nós, o que na verdade é um reconhecimento - ainda que parcial - dos erros e exageros cometidos por ele em seu texto original.
 
Mas no meio deste reconhecimento parcial, ele introduz en passant duas questões que merecem melhor discussão.
 
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A primeira delas é a seguinte: segundo Valério, “uma reorganização pela esquerda do lulismo virá ‘a quente’ e dependerá de uma nova onda de luta de massas que altere, qualitativamente, a relação social de forças? Justo. Mas, um ascenso não basta, como aprendemos em junho de 2013. Serão necessárias uma força e uma vontade consciente, um sujeito político coletivo, um polo de reorganização. O debate entre nós é de onde ele virá, de dentro do PT, de fora, ou ambos?”
 
Na minha opinião, é um erro colocar a questão como sendo de “reorganização”.
 
Colocada nesses termos, a tendência é que se descarte de antemão a posição, defendida por mim e  muito mais gente, de que, para a classe trabalhadora brasileira, a existência do PT – como principal partido da esquerda - continua sendo útil, necessária e indispensável.
 
Assim, no lugar de debater a “reorganização”, defendo que se debata a linha política, mais precisamente a estratégia e o programa.
 
Trocar de partido não nos levará para a esquerda, se a estratégia prosseguir estruturada, como hoje, pela ação estritamente eleitoral e institucional.
 
E para que uma mudança de linha tenha efeito real, nas atuais circunstâncias histórias, melhor não trocar de partido.
 
Evidentemente que – nas atuais condições histórias – continuará tendo imensa importância a disputa eleitoral pelo controle de parcelas do aparelho de Estado. Assim como continuará tendo imensa importância a ação dos governos e mandatos.
 
Mas o ocorrido em 2005 e principalmente em 2016 demonstrou, a quem não sabia ou não queria acreditar, que não basta ganhar eleições e governar.
 
Se não enfrentarmos o debate sobre a estratégia – especialmente sobre qual o papel das eleições e da ação de governo em nossa luta pelo socialismo – a troca de partidos pode inclusive piorar a situação da classe trabalhadora.
 
Isto posto, pensei estar óbvio que minha defesa da necessidade de mais luta social não tem nada que ver com o que propõe Arcary, a saber, criar as condições para superar o PT.
 
Defendo a necessidade de uma nova onda de mobilização direta da classe trabalhadora, porque sem isso não venceremos a classe dominante. Se essa onda não vier, seremos derrotados, restando saber quando e como. E se vier, mas não for em alguma medida coordenada com o PT, também seremos derrotados.
 
Aqueles que viram junho de 2013 como uma onda que visava “ultrapassar pela esquerda o PT” cometeram muitos erros, entre os quais não perceber o óbvio: a derrota do PT não beneficiaria a esquerda, mas sim a direita. Não beneficiaria e, acrescento, não beneficiará.
 
A ilusão a respeito tem que ver com a tal discussão acerca da “marginalidade”.
 
Arcary e outros olharam para junho de 2013 e imaginavam estar vendo a Rússia de 1917, com o governo do PT fazendo as vezes de governo Kerensky.
 
Entre outras diferenças, acontece que na Rússia de 1917 a radicalização proletária e camponesa deslocou a correlação de forças, da direita para a esquerda, nos marcos das principais organizações já existentes. Não em benefício de “coisa nova”, digamos assim.
 
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A segunda questão posta en passant por Valério diz respeito à estratégia.
 
Segundo ele, “podemos usar o termo estratégia em um grau inferior de abstração (…) Deveria, talvez, ter colocado aspas no título do artigo. Mas escolhi fazer uma fórmula polêmica para, nos limites do objetivo da discussão, contrapor Boulos a Haddad”.
 
Dito de outra forma: o que Valério chama de “estratégia Boulos” é o caminho pelo qual o PSOL derrotaria o PT e Boulos derrotaria Haddad.
 
Que Valério ache prudente colocar as coisas nesses termos, na véspera de uma eleição municipal onde Boulos é apoiado pelo PT, demonstra que o lobo perde o pelo, mas não perde o viço.
 
E que Valério queira chamar isso tudo de “estratégia”, é um direito dele. 
 
Direito exercido, diga-se também de passagem, por muita gente ilustre, para quem estratégia é como ganhar a eleição que virá depois da próxima, governo é igual a poder e o centro do mundo está no umbigo da vedete, perdão, do líder.
 
Valério reconhece que um dos “argumentos mais sérios esgrimidos contra a “estratégia” proposta por ele, é o de que a “aposta Boulos não é uma mudança de estratégia”.
 
Ao responder a esta crítica, Valério demonstra – sem perceber – que o argumento procede.
 
Ele começa dizendo que a “articulação” (!!haha, olha ela aí!!) social e política que sustenta Boulos não seria “mais do mesmo”, não seria “eleitoralismo reformista”, não seria a “estratégia do PT de 2023”.
 
Concordo com isso.
 
Aliás, advirto que parte da resposta de Valério não é ao que eu disse, mas ao que dizem e pensam seus colegas de PSOL e antigos camaradas de PSTU.
 
Depois Valério pergunta o seguinte: “Mas a ‘estratégia’ Lula, o Lula lá, não foi, durante a primeira década, a aplicação de uma tradição socialista compartilhada de que era necessária uma intervenção política-eleitoral combinada com o impulso das lutas operárias e populares? Era somente eleitoralismo desde 1989? O cálculo não era que, chegando ao poder, haveria obstáculos contrarrevolucionários insuperáveis sem uma ruptura?”
 
Às perguntas de Valério, respondo assim: de fato, era mais ou menos assim que pensávamos. Mas como as coisas não se passaram conforme prevíamos, não considero prudente cometer o mesmo, especialmente em condições totalmente diferentes (e piores)!
 
E aí está o nó do problema. O que Valério chama de “estratégia Boulos” é uma tentativa de replicar o que ele entende ter sido a estratégia adotada pelo PT nos anos 1980.
 
Acontece, em primeiro lugar, que a estratégia do PT nos anos 1980 não foi o que ele chama de “estratégia Lula”. 
 
Neste quesito, curiosamente, Arcary é mais lulista que muitos lulistas: reescreve a história passada, a partir de um de seus desfechos. 
 
Outros tentam, inclusive, copiar os modos e jeitos de falar da estrela principal, para ver se assim ganham o mesmo papel no remake.
 
Mas o problema central não está no modo Stanislavski de ser. 
 
O problema principal, penso, é responder o seguinte: por qual motivo a “estratégia Boulos” não teria o mesmo destino daquilo que Valério chama de “estratégia Lula”? Por qual motivo não chegaríamos na repudiada – por Valério – estratégia do PT em 2023?
 
Sobre isso, Valério diz que “a estratégia do PT mudou. (…) O que era uma hipótese nas resoluções do V Encontro, acabou se confirmando, só que em “câmara lenta”, e não foi porque o PT iniciou reformas estruturais. O que Boulos representa é uma aposta na mobilização social para ir além do neoliberalismo, para governar ‘a quente’, o ‘método’ da revolução permanente”.
 
Ou seja: o que impediria a “estratégia Boulos” de ter o mesmo desfecho da “estratégia Lula” seria… Boulos. Boulos e, como não podia deixar de ser, a revolução permanente. 
 
Com todo o respeito, isso não é um argumento sério.  Não porque Boulos não mereça respeito, não porque o PSoL não aposte na mobilização, mas porque muito mais qualidades do que essas não foram suficientes para impedir que o PT fizesse as escolhas que Valério critica.   
 
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Vejamos agora o que Valerio diz acerca do PSoL, partido que ele propõe como alternativa ao PT, enquanto principal partido da esquerda brasileira.
 
De saída, ele reconhece que “o PSol é um partido eleitoral, portanto, uma mediação, uma frente de correntes diversas, unindo tendências moderadas e radicais, garantindo um marco comum para a presença na legalidade, e posições institucionais. Mas não é verdade que o PSol não tem raízes sociais. Não e só o PT que tem militância. Essa soberba é, absurdamente, sectária”.
 
Como disse antes, nesta e noutras passagens Valério está discutindo não sei com quem, comigo é que não é. E não vou discutir "soberba" e "sectarismo" com quem é capaz de escrever, nas vésperas da eleição de 2024, que a vitória de Boulos na eleição de São Paulo capital é um passo para “diminuir” o PT.
 
Assim, me limito a registrar o seguinte: o PT, quando se converteu em partido hegemônico na esquerda brasileira, não era um “partido eleitoral”. Isto não é um detalhe.
 
Valério reconhece, também, que o PSoL viveu uma “relocalização”, desde 2016. Falando em português, o PSoL deu vários passos em direção, digamos, ao centro. E logo em seguida Valério acrescenta a frase: “O PSol tem autoridade nos movimentos feminista e negro, indígena e LGBT, estudantil e popular, ambiental e cultural, inclusive na classe operária. E foi o protagonismo do MTST que projetou Boulos, e abriu o caminho para o segundo turno em São Paulo em 2020”.
 
A língua é uma coisa linda, né? Repitamos: “O PSol tem autoridade nos movimentos (…) E foi o protagonismo do MTST que projetou Boulos”. 
 
Escrito deste jeito, um desavisado pode entender que o MTST é um dos movimentos impulsionados pelo PSoL e que Boulos seria psolista desde criancinha. 
 
Acontece que não é assim que as coisas se passaram. E, novamente, este não é um detalhe: a vinculação entre Lula e o PT é de um tipo totalmente diferente. Arcary está fazendo projeções acerca de Boulos & PSoL como se fossem criador e criatura. E não são.
 
Mas sigamos a narrativa: no começo, tínhamos o PSol. Aí o PSol se relocalizou. Aí cresceram os movimentos. Aí veio Boulos. E aí Boulos foi para o segundo turno. 
 
Uma “façanha”, num clima meio cavaleiro andante, ainda que o áudio que ouço no meu cérebro esteja mais para Jambo e Ruivão.
 
Segundo Arcary, esta "façanha" repetiu "a dinâmica do Rio de Janeiro em 2016, há, portanto, um padrão. O PSol não é somente Belém do Pará”. 
 
Mas qual seria o padrão que se repetiu? O padrão, na minha opinião, segundo o qual, quando o PT “deixa de ser PT”, alguém ocupa seu lugar, mesmo que o universo eleitoral da esquerda esteja mais ou menos estagnado, quando não em retração.
 
Valério está tão entusiasmado, que deixa todos estes "detalhes" de lado e chega ao ponto de afirmar o seguinte: “Conquistando mais de um milhão de votos em 2022, Boulos se afirmou como a segunda liderança popular mais influente do país, emparelhando, ou até superando Haddad, que tinha substituído Lula na eleição contra Bolsonaro em 2018”.
 
Ou seja: a liderança popular influente se constrói… nas urnas.     
 
E se compara com as outras no tête à tête, medindo pessoas, não partidos.  
 
É um argumento parecido ao que ouvimos de pessoas segundo as quais os votos seriam de fulano ou de beltrano, não do Partido, não da esquerda como um todo.
 
Este jeito de colocar o problema é todo atravessado por uma lógica eleitoral e individualista. E, como sempre, o excesso de velas põe fogo na igreja. 
 
Me refiro a já citada imprudência de Valério, que agora vou citar na íntegra: “a disputa da prefeitura de São Paulo em 2024 será a mãe de todas as batalhas futuras. Se Boulos sair reforçado, qualitativamente, por uma vitória, muda a relação de forças dentro da esquerda. O PT sairá, inescapavelmente, diminuído, mesmo tendo apoiado o Psol desde o primeiro turno”.
 
Outras pessoas ganharam a eleição de São Paulo capital, achando que isto as projetaria como presidenciáveis. Não foi isso o que aconteceu, em nenhum dos casos. 
 
Mas confesso que não lembro de quem tenha dado tiros no pé desse tipo: estando aliado com o PT, de quem dependerá grande parte do esforço militante capaz de produzir a vitória de Boulos, proclamar que o PT sairá inescapavelmente diminuído!!! 
 
Baita estímulo para o que o petismo se engaje com tudo!!!
 
(Pano rápido: tendo em vista o endosso que esta linha de argumentação de Valério dá para as posições defendidas por Quaquá e outros, cheguei a pensar que Valério havia sido "sequestrado" e que este texto estava sendo escrito por outra pessoa, cujo nome não vou mencionar para não criar mais confusão.)
 
A imprudência de Valério roça o alambrado do mau gosto, na insistência que faz acerca da “presença de Lula”, tema que já comentei no meu texto anterior. 
 
As frases de Valério são: “Mas ainda terá, talvez, a “carta” Lula o que pode atrasar a reorganização pela esquerda do PT. Sim, há um talvez, e não deve ser um tabu discutir. A presença de Lula é o principal fator de contençãotrasar a reorganização pela esquerda do PT. da crise do PT”.
 
A biologia é implacável. E o PT sem Lula seguramente enfrentará ainda maiores desafios. Mas o grau de enraizamento do petismo na classe trabalhadora, bem como os vínculos orgânicos entre Lula e o PT, não endossam a tese implícita da crise terminal. 
 
Por outro lado, já que Valério diz que devemos  abandonar todos os “tabus”, sugiro qual ele também discuta outras hipóteses ligadas a tal “carta” Lula, por exemplo a tentativa de trazer Boulos para o PT.
 
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Isto posto, vamos ao ponto seguinte: a esquerda do PT.
 
A esse respeito, começo ponderando que o jeito como Valério escreve a respeito tem duplo sentido. Quando ele fala em “reorganização pela esquerda do PT”, alguém poderia entender que se trata de reorganização do PT, quando ele na verdade está falando da reorganização da esquerda fora do PT.
 
Para Valério, “a experiência dos últimos trinta anos é desencorajadora de que o destino do PT poderá ser disputado pela sua ala esquerda”.
 
Notem que está escrito "disputado", não decidido. Lendo esta frase com aquela palavra, percebe-se como a ascensão de Valério ao campo majoritário do PSoL mudou um pouco sua maneira de ver o mundo. De repente, o papel das minorias na história torna-se irrelevante.
 
Ao contrário disto, é fato notório que a história do PT, entre 1993 e 2023, mas também entre 1980 e 1993, não pode ser compreendida sem levar em conta a existência, no interior do Partido, de uma ala esquerda, que disputa os destinos do Partido, mesmo quando não os decide. Em alguns momentos, esta esquerda, mesmo minoritária, mas as vezes majoritária, cumpriu papel decisivo, como em 1993, em 2005, em 2016 etc.
 
Claro, Valério tem razão ao apontar que esta ala esquerda não conseguiu impedir que o PT viesse moderando sua estratégia, seu programa e sua atuação prática. 
 
E Valério também tem razão ao dizer que há, na chamada esquerda do PT, uma tendência à “acomodação”, assim como tem razão em identificar outros problemas, que infelizmente não atingem apenas o PT, como sabe quem conhece outros partidos da esquerda, a começar pelo PSoL. 
 
E, finalmente, Valério tem razão quando aponta que a esquerda do PT cometeu muitos erros.
 
Pena que Valério, neste balanço de perdas e danos, esqueça de dizer que, mesmo enfraquecida, acomodada, diminuída etc etc., a esquerda do PT acertou no essencial: acertamos em defender o PT, contra aqueles que o condenaram à fogueira com todos os adjetivos possíveis e inimagináveis.
 
Sobre quais foram estes adjetivos, basta dar um google.
 
E o que ocorreu com todos os que se propuseram a "superar o PT pela esquerda"? Tirante o PSTU, que foi tão longe na tentativa que se aliou objetivamente à direita, todas as demais tentativas acabaram se somando a flotilha liderada pelo PT.
 
E o interessante – embora trágico – é que vários setores da esquerda não petista vem se submetendo a “hegemonia cultural” do grupo majoritário no Diretório Nacional do PT. 
 
Um exemplo disso é, exatamente, a tal “estratégia Boulos”: uma capitulação ao modo de pensar política que é predominante na CNB.
 
Valério acha que, com Boulos, está penetrando no “flanco esquerdo” da CNB. Mas, na verdade, está se submetendo à “hegemonia cultural” da CNB, que organiza sua estratégia a partir dos processos eleitorais.
 
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Valério admite, claro, que “pode dar tudo errado”, mas para exorcizar este risco invoca, que bom, a luta de classes.
 
Suas palavras são: “Sem uma onda de lutas sociais e populares todos os caminhos à esquerda ficarão bloqueados. Mas vai depender, também, e mais ainda, da capacidade da esquerda anticapitalista superar o sectarismo, e assimilar as lições do ciclo do PT/CUT do lulismo. Sem instrumentos de luta enraizados na base, sem democracia interna, sem controle das lideranças, sem educação marxista, sem internacionalismo a história pode, dramaticamente, se repetir. Sim, pode. Há muitos riscos. É verdade que não basta trocar os dirigentes, é preciso revolucionar as organizações, e construir sujeitos coletivos sociais e políticos melhores. Mas não avançaremos melhor com Boulos do que com Haddad?”
 
Minha vontade, neste momento, é pedir uma Kaiser antes de responder. Não pelos nomes citados, mas porque é simplesmente deprimente ver o problema ser apresentado mais ou menos assim: café com Boulos ou chá com Haddad? 
 
Afinal, uma das “lições do ciclo do PT/CUT do lulismo” – “ciclo” que não se encerrou, é bom lembrar – é a de que o papel do indivíduo na história não deve ser maior do que o das organizações coletivas. 
 
Outra lição é a de que, mesmo que as aparências enganem alguns, o petismo é historicamente superior ao que se convencionou chamar de “lulismo”.
 
(Não vou aqui discutir o significado do termo "lulismo", que eu pessoalmente não acho o mais adequado.)
 
Da mesma forma, é simplesmente incorreto – no meio deste caos que estamos, no mundo e no Brasil, e frente as enormes dificuldades que estamos vivendo dentro da esquerda – achar que nosso principal problema estratégico é escolher entre Haddad e Boulos.
 
O que Valério diz acerca da situação atual?
 
Diz que “ninguém poderá prever, sem enormes margens de erro, a realidade brasileira até 2026. O que é certo é que haverá luta de classes. Mas (…) um novo golpe não é a hipótese mais provável”. Afirma que derrotar a extrema-direita (…) permanece o centro da tática”. Sendo que “o desfecho da disputa” está em aberto e “o desempenho do governo depois de dez meses nos deixa em uma enorme insegurança de que estes objetivos poderão ser, mesmo que parcialmente, alcançados”.
 
Tudo é verdade. E tudo isto aponta para a necessidade de mudança de estratégia, ao mesmo tempo que reforça a necessidade de unidade da esquerda social e partidária, neste caso especialmente entre PT, PCdoB e PSOL.

Não vejo como combinar isso, com os objetivos e desdobramentos da tal “estratégia Boulos”, com os vereditos que Valério faz acerca da luta interna ao PT e com o pessimismo dele acerca dos rumos do governo.
 
Se tudo for como ele prevê, o futuro será de derrota e desagregação, não de superação.  

Uma dúvida final: a "estratégia Boulos" é a estratégia do Boulos?
 
 

Segue abaixo o texto acima criticado:
 
A “estratégia” Boulos, uma tréplica.
                                                                                                                      Valerio Arcary
 
Mais vale esperança boa que hipótese má 
Não há esperança sem temor, nem amor sem receio
Provérbios populares portugueses
 
1. Valter Pomar escreveu uma réplica ao artigo “A estratégia Boulos”1. Não é a primeira vez que se estabelece uma polêmica entre nós. Então, para favorecer o entendimento de aonde estão as diferenças, e não as exagerar, é um bom critério esclarecer quais são os acordos. Eles são cinco: (a) o PT não se resume ao lulismo? Justo. O lulismo é uma corrente eleitoral maior que o petismo, em especial, no Nordeste e não só, mas o núcleo dirigente do PT mantém uma influência hegemônica entre os trabalhadores e, à sua esquerda, há correntes que são minoritárias, e outras que são marginais, o que não é o mesmo; (b) o PT está à esquerda da maioria da classe trabalhadora? Justo. Até à esquerda de uma parte do voto, estritamente, “lulista”. Ademais, as eleições de 2022 confirmaram que o bolsonarismo penetrou em parcelas da classe trabalhadora; (c) o critério para definir esquerda anticapitalista como aqueles que nos seus programas defendem a necessidade de uma revolução é auto declaratório? Justo. A régua poderia ser mais esperança boa rigorosa. Mas, sendo insuficiente, evita discussões improdutivas e insolúveis no estilo quem são os revolucionários, realmente, revolucionários; (d) uma reorganização pela esquerda do lulismo virá “a quente” e dependerá de uma nova onda de luta de massas que altere, qualitativamente, a relação social de forças? Justo. Mas, um ascenso não basta, como aprendemos em junho de 2013. Serão necessárias uma força e uma vontade consciente, um sujeito político coletivo, um polo de reorganização. O debate entre nós é de onde ele virá, de dentro do PT, de fora, ou ambos? (e) estratégia é um conceito, derivado da cultura militar que nos remete à relação entre os fins e os meios e, na tradição socialista, à esperança boa questão dos caminhos para a luta pelo poder, se transição gradual negociada ou ruptura revolucionária. Justo. Mas não só. Podemos usar o termo estratégia em um grau inferior de abstração. Por exemplo: qual a nossa estratégia para derrotar o bolsonarismo? Ou para orientar a luta contra as privatizações em São Paulo?  Deveria, talvez, ter colocado aspas no título do artigo. Mas escolhi fazer uma fórmula polêmica para, nos limites do objetivo da discussão, contrapor Boulos a Haddad. Boulos é uma liderança nacional em formação. Ninguém, por maiores que sejam suas qualidades, poderá “substituir” o protagonismo da classe trabalhadora e dos oprimidos, os instrumentos de luta, e o papel dos movimentos sociais na luta de classes, nem a necessidade de uma nova estratégia, diferente da do PT. Justo.

2. Quais são as nossas diferenças? Elas parecem ser, nos limites deste debate, pelo menos, três: (a) um novo golpe é ou não é uma hipótese provável, depois da derrota do 8 de janeiro? (b) admitindo que tem uma dimensão tática, o que é muito controverso, a melhor localização dos revolucionários que permanecem no PT, será insistir, por tempo indefinido, na luta interna, acatando as decisões de uma maioria cada vez mais, social e politicamente adaptada? (c) a disputa da liderança pública da esquerda entre Haddad e Boulos, expressando diferentes articulações sociais e políticas, e distintas estratégias, é ou não, no limite do previsível hoje, o cenário mais provável? E Boulos não é uma aposta melhor?
esperança boa
 
3. Ninguém poderá prever, sem enormes margens de erro, a realidade brasileira até 2026. O que é certo é que haverá luta de classes. Mas indo ao ponto, um novo golpe não é a hipótese mais provável. A extrema-direita já se reposicionou no interior do regime e vai às eleições. Aguarda o desenlace das urnas na Argentina, uma possível vitória de Milei e, sobretudo, nos EUA, com Trump. O bolsonarismo é consciente que mantém influência de massas, entre um quarto e um terço da sociedade, com ainda muito peso, na institucionalidade e, também, por isso, não pode arriscar novas aventuras. A derrota da semi-insurreição de 8 de janeiro deixou os golpistas esperança boa na defensiva. É verdade que Bolsonaro preserva o lugar de liderança mais influente dentro da extrema-direita, mas já teve duas condenações e está inelegível. Por enquanto, bloqueia o caminho para um sucessor, e manobra através do PL para conquistar posições nas eleições municipais de 2024. Derrotá-los, sendo conscientes do perigo eleitoral para 2026, permanece o centro da tática. O desfecho da disputa dependerá, pelo menos, de quatro fatores: (a) a economia não pode parar de crescer, mesmo que lentamente, porque a estagnação, ou pior, uma contração ameaçará a ampla coligaçda disputa deão com os partidos burgueses, em especial, o centrão, portanto, a escolha da governabilidade “a frio”; (b) não bastará o crescimento, porque o governo Lula precisa responder, até 2026, às demandas populares mais agudas, alimentando a esperança de que é possível, através de uma estratégia reformista, melhorar a vida, (c) a corrente neofascista deverá ser derrotada, Bolsonaro preso, os golpistas não poderão ser anistiados, e sua audiência em parcelas populares do sudeste e sul do país neutralizada, recuperando audiência entre os trabalhadores com contrato que ganham acima de dois salários-mínimos, e nas camadas médias assalariadas; (d) o governo deverá se engajar na disputa política-ideológica na sociedade, e abandonar a ilusão de que as tarefas administrativas de “entregas” de obras serão suficientes para inverter a relação social de forças. Infelizmente, o desempenho do governo depois de dez meses nos deixa em uma enorme insegurança de que estes objetivos poderão ser, mesmo que parcialmente, alcançados.

4. A experiência dos últimos trinta anos é desencorajadora de que o destino do PT poderá ser disputado pela sua ala esquerda. Não é lúcido diminuir o impacto de acomodação social que a pressão do aparelho exerce sobre as correntes da esquerda do PT. Não deve ser, tampouco, absolutizada, claro. Mas, o mínimo de honestidade é reconhecer que o tempo não passou em vão. Nunca erraram? Quando, em 2003/04, uma parte da esquerda do PT fundou o PSol, as maiores correntes internas ficaram. Hoje são, comparativamente, menores. Entretanto, a maioria da CNB, onde os mais sociais-liberais se destacam, continua avassaladora. Não é segredo que Lula, sempre um ultra moderado, está um pouco à esquerda da CNB, assim como Gleici Hoffman!!! A CNB irá se dividir? Sim, é possível, em algum momento. Mas vai liberar forças progressivas? Improvável. A CNB perpetua não só posições de poder, conquista hegemonia cultural. O mais provável é que a direita da CNB, e não a esquerda do PT se fortaleçam, como na Argentina. Massa e não a esquerda do peronismo se fortaleceu. A nova geração de lideranças petistas foi educada no “institucionalismo”. A militância é uma carreira.  Os processos de PED são irrefreáveis. As lideranças públicas da esquerda petista têm espaços muito limitados, e não há qualquer possibilidade de que um dirigente da esquerda do PT venha a derrotar, internamente, Haddad. Nenhuma. É verdade que o PT interrompeu a dinâmica de crise que vinha acumulando desde 2013, e recuperou autoridade, em função do golpe institucional contra Dilma Rousseff em 2016 e, sobretudo, do impacto de sete anos de derrotas acumuladas. Atingiu o seu ápice em 2022 com o agigantamento de Lula ao sair da prisão liderando a campanha contra Bolsonaro.  A CNB conseguiu manter o controle interno sobre a esquerda do PT. Mas não conseguiu fechar, totalmente, o flanco à sua esquerda.

5. Os argumentos mais sérios esgrimidos contra a “estratégia” Boulos se resumem a três: (a) o PSol tem muito dos defeitos do PT, e pouco das qualidades; (c) a aposta Boulos não é uma mudança de estratégia, seria uma “fuga em frente” eleitoreira; (c) pode dar tudo errado, e acontecer algo como Syriza na Grécia e Podemos no Estado Espanhol, uma enorme desmoralização.

6. Primeiro: é verdade que o PSol é um partido eleitoral, portanto, uma mediação, uma frente de correntes diversas, unindo tendências moderadas e radicais, garantindo um marco comum para a presença na legalidade, e posições institucionais. Mas não é verdade que o PSol não tem raízes sociais. Não e só o PT que tem militância. Essa soberba é, absurdamente, sectária. É injusto não reconhecer, também, que a relocalização do PSol, desde 2016, abandonando a linha de oposição sistemática diante da iminência do golpe, e abraçando a defesa da Frente Única de Esquerda, na luta contra Temer e Bolsonaro permitiu conquistar muita simpatia. E impulsionou mobilização de massas desde então. O PSol tem autoridade nos movimentos feminista e negro, indígena e LGBT, estudantil e popular, ambiental e cultural, inclusive na classe operária. E foi o protagonismo do MTST que projetou Boulos, e abriu o caminho para o segundo turno em São Paulo em 2020. Sim, foi uma façanha, porque em uma situação reacionária. Repetiu a dinâmica do Rio de Janeiro em 2016, há, portanto, um padrão. O PSol não é somente Belém do Pará. Conquistando mais de um milhão de votos em 2022, Boulos se afirmou como a segunda liderança popular mais influente do país, emparelhando, ou até superando Haddad, que tinha substituído Lula na eleição contra Bolsonaro em 2018. Claro que ninguém pode prever qual será a situação daqui a três anos. Mas a disputa da prefeitura de São Paulo em 2024 será a mãe de todas as batalhas futuras. Se Boulos sair reforçado, qualitativamente, por uma vitória, muda a relação de forças dentro da esquerda. O PT sairá, inescapavelmente, diminuído, mesmo tendo apoiado o Psol desde o primeiro turno. Mas ainda terá, talvez, a “carta” Lula o que pode atrasar a reorganização pela esquerda do PT. Sim, há um talvez, e não deve ser um tabu discutir. A presença de Lua é o principal fator de contenção da crise do PT.

7. Segundo, não é verdade que a articulação social e política que sustenta Boulos é “mais do mesmo”: eleitoralismo reformista. Não é a estratégia do PT de 2023. Mas a “estratégia” Lula, o Lula lá, não foi, durante a primeira década, a aplicação de uma tradição socialista compartilhada de que era necessária uma intervenção política-eleitoral combinada com o impulso das lutas operárias e populares? Era somente eleitoralismo desde 1989? O cálculo não era que, chegando ao poder, haveria obstáculos contrarrevolucionários insuperáveis sem uma ruptura? O “método” ou tática “alemã”, por Rosa Luxemburgo. Mas a estratégia do PT mudou. Lula foi eleito e decidiu formar um governo de colaboração de classes apoiado na governabilidade “a frio” mantendo o núcleo duro do tripé de ajuste neoliberal com Palocci. O PT venceu quatro eleições seguidas, e foi surpreendido quando a maioria da classe dominante se uniu em 2016 para derrubar o governo Dilma Rousseff. O que era uma hipótese nas resoluções do V Encontro, acabou se confirmando, só que em “câmara lenta”, e não foi porque o PT iniciou reformas estruturais. O que Boulos representa é uma aposta na mobilização social para ir além do neoliberalismo, para governar “a quente”, o “método” da revolução permanente. A acusação de que o projeto que o PSol impulsiona não é de esquerda o bastante não é razoável. Ser revolucionário é proclamar revolução, já? Dizer que é o mesmo do PT não é sério. Admitir que teremos que improvisar é, somente, lucidez.
 
8. Terceiro. Pode dar tudo errado? Sempre pode. Mas o cálculo de que as forças agrupadas em torno do Psol terão o mesmo destino de Syriza e Podemos, ou que Boulos não merece confiança, e poderá vacilar e capitular é uma profecia catastrofista. Tudo vai depender da luta de classes. Sem uma onda de lutas sociais e populares todos os caminhos à esquerda ficarão bloqueados. Mas vai depender, também, e mais ainda, da capacidade da esquerda anticapitalista superar o sectarismo, e assimilar as lições do ciclo do PT/CUT do lulismo. Sem instrumentos de luta enraizados na base, sem democracia interna, sem controle das lideranças, sem educação marxista, sem internacionalismo a história pode, dramaticamente, se repetir. Sim, pode. Há muitos riscos. É verdade que não basta trocar os dirigentes, é preciso revolucionar as organizações, e construir sujeitos coletivos sociais e políticos melhores. Mas não avançaremos melhor com Boulos do que com Haddad?
              
                                                                                                                      Valerio Arcary

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Resolução sobre conjuntura

Segue abaixo a resolução que a executiva nacional da AE aprovou, no dia 29 de outubro, para publicação no dia 30 de outubro de 2023.

 

Aproveitar o fim-de-ano para corrigir os rumos

 

Esta resolução é publicada no dia 30 de outubro de 2023, um ano depois do segundo turno que elegeu Lula para seu terceiro mandato presidencial.

Ao longo deste ano, a tendência petista Articulação de Esquerda lembrou por diversas vezes que 2023 não é 2003, que a situação atual é muito mais difícil, que não se deve subestimar a extrema-direita, que o tempo corre contra nós, que para reconstruir será preciso transformar.

Evidentemente, outros setores do Partido pensam o mesmo, inclusive destacadas lideranças do grupo hoje majoritário no Diretório Nacional.

Entretanto, quando observadas de conjunto, tanto a ação prática do Partido, quanto a ação prática dos movimentos sociais por nós influenciados, assim como a ação prática do governo, operam com uma lógica muito parecida com a predominante em 2003.

Há vários exemplos disto: o tímido reajuste do salário mínimo, a atitude do ministro da Educação frente ao chamado Novo Ensino Médio, a escolha dos ministros da Comunicação e da Defesa, a presença de bolsonaristas em diversos postos de governo, inclusive ministérios.

Mas o principal exemplo da confusão entre 2023 e 2003 talvez seja o chamado Novo Marco Fiscal, que reincidiu em várias das premissas da política adotada pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central, nos anos de 2003 e 2004. Não apenas reincidiu, como em certo sentido foi ainda mais radical, como se vê no objetivo de alcançar o “déficit zero em 2024”.

Apontamos desde o início que esta proposta, além de filosoficamente neoliberal, era de um voluntarismo totalmente descolado da realidade. Para atingir o déficit zero, seria necessário ampliar significativamente a arrecadação e/ou cortar significativamente o orçamento público.

Como sabemos, a arrecadação federal vem caindo e as mudanças tributárias aprovadas pelo Congresso – que alguns insistem em comemorar, apresentando focinho de porco como se tomada fosse – não contribuem para reverter o quadro. Como resultado da queda na arrecadação, já estão ocorrendo contingenciamentos e o Orçamento 2024 está sob pressão, inclusive com ameaças contra os pisos constitucionais da saúde e da educação. No caso da saúde, o governo não cumprirá o piso em 2023.

A situação das receitas é tal que o próprio presidente Lula afirmou, publicamente, na comemoração de seu aniversário, que a meta de déficit zero é inexequível, agregando que não pretende fazer cortes no Orçamento. Esperamos que Lula implemente esta decisão. Mas, caso faça isso e caso as receitas não cresçam substancialmente, as regras do Novo Arcabouço Fiscal imporão restrições ainda maiores sobre as contas públicas no ano de 2025.

Sendo assim, uma pergunta que não quer calar é: por qual motivo o governo apoiou a proposta de déficit zero, que está no NAF proposto pelo ministro Haddad? Terá acreditado na lenda segundo a qual a arrecadação cresceria substancialmente? Ou foi surpreendido por acontecimentos inesperados?

Em nossa opinião, o que ocorre é que o governo segue influenciado por duas idéias incorretas: primeiro, a de que vivemos tempos normais e, segundo, a de que a correlação de forças nos obriga a ceder sem disputar.

Acontece que não vivemos tempos normais, vivemos tempos de guerra. E ceder sem disputar só tem servido para piorar a correlação de forças junto ao povo, como demonstra pesquisa de opinião divulgada nos últimos dias. Cabendo acrescentar que as concessões feitas à direita – com direito a ministérios, entre outras coisas – não se traduziram, ao menos até agora, em uma postura distinta por parte do Congresso Nacional, como se viu em votações simbólicas como o Marco Temporal, a taxação de fundos e o piso da enfermagem. Além da recente rejeição do nome indicado por Lula para Defensor Geral da União.

Tendo em vista o contraste entre a realidade e certas análises, somos obrigados a concluir que uma parte da esquerda parece viver numa bolha institucional, motivo pelo qual não se dá conta dos problemas crescentes que se avolumam. O resultado da eleição dos conselhos tutelares é um sinal disso. A pesquisa já citada, outro sinal. Se não houver uma mudança prática na conduta do governo, dos movimentos e do Partido, sofreremos uma derrota nas eleições municipais de 2024.

 

O genocídio na Palestina e a política brasileira

 

Como já foi dito, vivemos tempos de guerra. Um dos motivos disto é que a guerra é, neste tempo histórico, a principal arma com que conta o imperialismo para tentar reverter o declínio da hegemonia dos Estados Unidos. A tentativa de recuperar a hegemonia é a razão de fundo para as provocações contra a China em Taiwan, para o avanço da Otan até a fronteira da Rússia, bem como para o genocídio que Israel aprofunda, neste exato momento, contra o povo palestino.

No mundo inteiro, estão acontecendo imensas mobilizações contra o genocídio. No Brasil, até o momento em que aprovamos esta resolução, as mobilizações foram tímidas. Esperamos que a manifestação ocorrida em São Paulo capital, no dia 29 de outubro, possa ter sido um ponto de virada.

Há vários motivos que explicam a timidez das mobilizações, entre os quais destacamos dois: a pressão do sionismo sobre setores da esquerda brasileira e o fato de parte da esquerda estar descrente da importância das manifestações de rua.

A pressão do sionismo - corrente racista, surgida no século XIX e dominante entre os que governam o Estado de Israel – se exerce de várias formas. A principal delas é tratar como se fosse antisemitismo – portanto, análoga ao nazismo - qualquer crítica se faça ao Estado de Israel. A trágica e paradoxal verdade é o oposto disso: considerando que os palestinos também são semitas e considerando que contra eles se está conduzindo um extermínio étnico, a conclusão é que o sionismo é antisemita e o sionismo é análogo ao nazismo.

Mas a pressão do sionismo não é a única explicação para a timidez das manifestações realizadas no Brasil, em favor da Palestina, ao menos até este momento. Outra explicação é que cresceu, nas direções das principais organizações de massa do país, a começar pelo nosso Partido, uma ideia incorreta, segundo a qual a mobilização de rua é pouco efetiva, custa caro, dá trabalho, além de ser problemática, pois nas manifestações de rua podem ocorrer provocações de direita e de ultraesquerda etc.

É preciso mobilizar, em primeiro lugar exigindo que os bombardeios parem imediatamente e que se garanta a ajuda humanitária. O governo brasileiro e as Nações Unidas devem contribuir para construir uma solução para este conflito, solução que garanta a autodeterminação do povo palestino.

Em que termos isto se dará, é uma decisão que só o povo palestino poderá tomar. Inclusive por isso, discordamos dos que dividem o movimento de solidariedade e pela paz, a partir da polêmica acerca das táticas da resistência palestina e/ou das modalidades que assumirá a autodeterminação nacional. A nós cabe dar solidariedade à legítima luta pela libertação. Ao povo palestino cabem as demais decisões.

Reafirmamos que um povo ocupado tem o direito de resistir e lutar contra a ocupação. Nossa condenação contra qualquer ato de violência contra civis não implica, nunca, em esquecer a diferença qualitativa que existe entre a violência dos povos colonizados e oprimidos e a violência dos Estados e governos colonizadores e opressores.

O apoio ativo, o silêncio cúmplice e a “neutralidade” apregoada por muitos “progressistas”, “democratas” e, inclusive, setores de “esquerda”, frente aos atos terroristas que o Estado de Israel pratica, há décadas, contra o povo palestino devem ser caracterizados como o que são: colaboracionismo.

Como todos os povos colonizados, algum dia a Palestina será livre. Nesse dia, os nazi-sionistas terão seu Tribunal de Nuremberg. E nessa hora ocorrerá, também, o julgamento dos que colaboraram, ativa ou passivamente, com o nazi-sionismo.

Conclamamos a militância petista a realizar – em conjunto com outros partidos de esquerda e movimentos sociais – atos de massa em favor da Palestina. Não apenas por dever político e moral, mas também por razões pragmáticas: afinal, a extrema-direita manipula o noticiário acerca do conflito, como parte da campanha deles contra a esquerda. As mobilizações de rua são parte importante da nossa batalha por explicar a verdade dos fatos.

É preciso continuar as manifestações individuais e coletivas nas chamadas redes sociais, convocar atos públicos, em locais fechados, mas principalmente nas ruas e praças. É preciso explicar, para toda a população, que a única maneira de acabar com a inaceitável violência, é acabando com a inaceitável ocupação. É preciso fazer crescer a mobilização em favor da paz.

Aos que se iludem com a ideia de que o genocídio em Gaza é assunto distante, que não afetará as eleições municipais, alertamos: a naturalização da violência e do extermínio, como está ocorrendo em Gaza, contribui para a política de insegurança pública defendida pela extrema-direita, que já é parte importante do debate político e eleitoral. Além disso, faz parte da batalha pelo fim ou pela continuidade da hegemonia estadunidense, batalha que influencia todas as demais disputas que ocorrem no planeta, a começar pelas eleitorais.

 

Eleições na Argentina e a política brasileira

 

Tempos de crise e de guerra, são tempos de polarização ideológica, social e política. Isso é visível na maioria das recentes eleições presidenciais ocorridas na América Latina e Caribe, com destaque para as recentes disputas presidenciais no Equador e na Argentina.

No Equador, a direita foi vitoriosa. Mas na Argentina, ao contrário do que muitos previam, a eleição na Argentina foi para o segundo turno, que será no dia 19 de novembro de 2023. Também ao contrário do que muitos previam, o segundo turno não será disputado entre duas candidaturas de direita. E, igualmente contra certas previsões, a candidatura da extrema-direita não foi a mais votada no primeiro turno. Tendo em vista estes antecedentes, é possível vencer o segundo turno e fazer do peronista Sérgio Massa o próximo presidente argentino.

Passada a eleição, caberá extrair algumas lições da situação argentina, onde tivemos um governo peronista que optou por uma política econômica moderada. Um dos resultados disto foi que o atual presidente Alberto Fernandez, não disputou a reeleição, ao mesmo tempo que a direita e a extrema-direita se fortaleceram.

Mesmo que – como esperamos ocorra - vençamos as eleições, a polarização prosseguirá e os problemas estruturais também, restando saber como serão enfrentados pelo futuro presidente.

A ameaça da extrema-direita, como vimos no caso brasileiro, não se encerra com a vitória eleitoral das forças democráticas. E na base desta ameaça, está a piora das condições de vida de amplas massas do povo. Piora relacionada com a política econômica. Neste sentido, a experiência argentina nos alerta para vários dos riscos que corremos. É decisivo julgar, condenar e prender os criminosos do 8 de janeiro, a começar pelos criminosos fardados e seu então comandante em chefe; mas é tão decisivo quanto melhorar rapidamente a vida do povo e orientar o desenvolvimento nacional no sentido oposto à primário-exportação e ao rentismo financeiro.

 

A entrega da CEF para Arthur Lira: é preciso dar um freio de arrumação

 

No Brasil, apesar do golpe de 2016 e de tudo o que ocorreu depois, seguimos aplicando uma variante da “estratégia de centro-esquerda”, aplicada em nossos períodos anteriores na presidência da República.

Uma das materializações práticas disto é a ampliação do espaço ocupado, no governo federal, pelos partidos de direita que apoiaram o bolsonarismo. Destacamos as entregas dos ministérios dos Esportes e dos Portos e Aeroportos e, mais recentemente, a entrega da presidência da Caixa Econômica Federal para um homem indicado por Arthur Lira.

Estas concessões – além de afetarem negativamente a qualidade e a orientação das políticas públicas de nosso governo – não contribuem para o tipo de governabilidade de que necessitamos, para fazer um governo que reconstrua transformando. Pelo contrário, fortalecem o Centrão contra nós.

Conclamamos o Partido e o conjunto da esquerda a fazer chegar, ao presidente da República, a necessidade de um “freio de arrumação”, sob pena de sofrermos uma derrota nas eleições de 2024 e de reduzirmos nossa influência junto ao povo. Este freio de arrumação exige, entre outras medidas, enfrentar o tema da segurança pública, de uma perspectiva oposta à da direita. E inclui, principalmente, fazer da mobilização social um elemento central da nossa tática.

Para que isso ocorra, entretanto, é preciso um “freio de arrumação” no próprio Partido. É gravíssimo e inaceitável que o Diretório Nacional do PT tenha rasgado o estatuto do Partido, não em qualquer tema, mas exatamente naquele que estabelece como e quando se pode alterar nosso próprio estatuto. O clima de selva, de vale-tudo, em que uns rasgam o estatuto e outros vão buscar “reparação” na justiça, somados a difícil situação política e eleitoral, podem levar o Partido a uma crise profunda.

A situação mundial, continental e nacional, é extremamente perigosa. Mas é nos momentos de extrema crise, como os que vivemos, que se criam as condições para mudar profunda e estruturalmente a realidade. Para transformar esta possibilidade em realidade, é preciso colocar em movimento a maior parte da nossa classe trabalhadora. Esta deve ser uma das preocupações centrais de nossa tática em 2024, inclusive nas eleições do final do ano.

A executiva nacional da AE

Resolução aprovada no dia 29 de outubro e publicada no dia 30 de outubro de 2023

sábado, 4 de novembro de 2023

A estratégia Boulos: uma réplica?

Sou um leitor mais ou menos assíduo dos textos do companheiro Valério Arcary, desde aqueles textos que ele escreveu quando era da esquerda do PT, passando pelos escritos durante os mais de vinte anos em que Valério dirigiu o PSTU e, também, os textos que ele vem escrevendo enquanto integrante do PSOL e de seu campo majoritário.

Leio os textos de Valério porque, na melhor das hipóteses, aprendo algo. Na pior, me divirto tentando. Este último é o caso da leitura do texto intitulado “A estratégia Boulos”, disponível no endereço abaixo:

https://esquerdaonline.com.br/2023/11/01/a-estrategia-boulos/

O divertimento, nesse caso específico, está em assistir os malabarismos que Valério faz para apresentar, como suposta alternativa de esquerda ao PT, uma “estratégia” que mimetiza muitas das atitudes e características que Valério sempre criticou no PT.

O divertimento vem acompanhado de saudades daquela época em que os textos de Valério debatiam a estratégia socialista, a estratégia democrática e popular, a estratégia etapista, a via chilena para o socialismo e quetais. 

Hoje, sinal dos tempos, o que Valério nos apresenta é a “estratégia Boulos”. Que, na minha opinião, tem os defeitos, mas não tem as qualidades daquilo que o PT fez, principalmente a partir de 1995.

1/

O texto de Valério tem 9 pontos. No primeiro, ele apresenta o PT segundo Valério

Começa com um grande elogio (“um dos maiores partidos de esquerda do mundo”), para depois resumir as coisas assim: “a esquerda brasileira é liderada pelo PT, o PT é dirigido pela CNB (Construindo um novo Brasil), e a CNB é uma articulação de líderes, parlamentares e grupos que respondem à autoridade de Lula”

Um reducionismo que poderia ter saído da lavra de algum maximalista da própria CNB.

Mas o mais importante é aquilo que entendo como a "moral da história segundo Valério", a saber: a influência do PT “decorre de muitos fatores, mas o mais importante é que as expectativas reformistas ainda prevalecem na maioria dos trabalhadores”.

Esta conclusão de Valério é, antes que nada, um pouco óbvia: são raríssimos os momentos em que prevalecem, na maioria da classe trabalhadora de um país determinado, expectativas revolucionárias.

Além de um pouco óbvia, a conclusão de Valério é também um pouco otimista: afinal, somando as abstenções, os votos em branco e nulos e os votos no cavernícola, a maioria da classe trabalhadora brasileira não votou no PT em 2022. Quem votou no PT foi a maioria dos que têm consciência de classe.

Dito de outra forma: o PT está à esquerda da maioria da classe trabalhadora brasileira e sua influência não é apenas um reflexo mecânico do estado de ânimo da classe trabalhadora.

2/

Depois de ter reduzido o PT ao lulismo, Valério passa a tratar do que, na opinião dele, estaria “à esquerda do lulismo”.

Segundo Valério, existiria uma “esquerda anticapitalista”, composto por organizações que defendem “a necessidade da revolução”, mas que no plano tático estaria dividida em três campos: a esquerda do PT, o campo majoritário do PSOL e a oposição de esquerda.

Antes de entrar nos detalhes, três questionamentos acerca do critério.

Em primeiro lugar, não é politicamente razoável usar como régua, para catalogar a esquerda em campos, a defesa retórica do anticapitalismo e/ou da revolução.

Para simplificar, dou um exemplo: as diferenças entre a esquerda do PT e o PSTU não são “táticas”. 

Podem ter sido em algum momento, podem até voltar a ser, mas desde 2016 não são diferenças “táticas”.  O PSTU foi aliado objetivo da direita golpista, além de ter uma política internacional que vai ao encontro, em muitos casos, da política defendida por setores do imperialismo.

Em segundo lugar, onde ficam, na análise apresentada por Valério, os grupos que integram a minoria do PSOL? Onde ficam outras tendências que participam do atual Diretório Nacional do Partido e não são nem ao menos citadas? E onde fica o PCdoB, que noutro ponto de seu texto Valério afirma ter expressão em setores de vanguarda “incomparavelmente maior” que a de outros partidos?

Em terceiro lugar e mais importante: será correto o destaque dado, na “tática” das tendências e partidos citados, ao tema da candidatura que supostamente será defendida em 2026?

Este último me parece o ponto mais revelador da análise de Valério acerca da esquerda brasileira: o ponto de vista escolhido é prioritariamente eleitoral.

A saber: segundo Valério, a DS, a AE e OT “apostam, prioritariamente na reeleição de Lula que, entretanto, terá 81 anos em 2026”; as “correntes que constituem o bloco majoritário do Psol” “apostam em uma reorganização que tem Boulos como referência pública”; as forças da “oposição de esquerda” apostam “nas suas autoconstruções, sem uma liderança pública comum”.

Detalhe: “o terceiro campo é, qualitativamente, tão menor que os outros dois, que já está à margem da disputa que virá”. Ou seja: a disputa que virá será eleitoral. Uma certeza que, depois de 2016 e depois do 8 de janeiro de 2023, precisaria ser afirmada cum grano salis.

Feitas estas ressalvas aos critérios, um comentário sobre os detalhes: a “aposta” da AE, do ponto de vista tático, é na luta de massas. Se isto não ocorrer, o desempenho do governo e o resultado das próximas eleições tendem a ser negativos. E essa tendência negativa condicionaria a discussão sobre a candidatura do PT em 2026. Sem falar em cenários piores, que poderiam decorrer de uma deterioração no quadro econômico e social. Portanto, o resumo feito por Valério acerca de nossa tática elimina do horizonte aquilo que, ao menos para nós da AE, é o principal: a luta de massas.

3/

O terceiro ponto do texto de Valério tem como objetivo apresentar Boulos como "o cara". A maneira como ele tenta fazer isso é tão forçada, que chega a ser engraçada.

O ponto de partida é a frase: “As esperanças reformistas não morrem sozinhas”. Mais correto seria dizer: raramente morrem. Afinal, são raros os momentos em que, em algum país do mundo, a classe trabalhadora aderiu a esperanças revolucionárias.

A segunda afirmação chave feita por Valério, no ponto 3 de seu texto, é a seguinte: “Somente quando foram esgotadas todas as expectativas em soluções negociadas, o desafio da ruptura pode conquistar maioria entre os explorados”. Logo, “a luta revolucionária exige uma inesgotável paciência histórica”.

Alguém poderia perguntar: se isto é verdade, por qual motivo não se pode exercer esta “paciência histórica” dentro do PT, junto com a maioria dos trabalhadores com consciência de classe?

Valério, obviamente, não se faz esta pergunta, ao menos não neste texto. Ao invés disso, ele afirma o seguinte: “Mas o caminho para sair da marginalidade não é possível sem uma acumulação prévia que não se improvisa no calor da hora”.

Obviamente está faltando algo no raciocínio, que imagino seja o seguinte: enquanto as massas estão dominadas pelas expectativas reformistas, enquanto a situação revolucionária não aparece, os revolucionários estariam na “marginalidade”.

A palavra “marginalidade” é forte, bem mais forte que “minoria”. Obviamente Valério utiliza a palavra “marginalidade” no sentido de “estar nas margens”. O curioso é que esta imagem distorce o que efetivamente ocorreu, nos casos em que a revolução efetivamente ocorreu. 

Por exemplo: os bolcheviques, o PCCh e o M26 de julho começaram minoritários, mas é forçado dizer que estivessem nas "margens" do movimento feito pela classe trabalhadora russa, chinesa e cubana, respectivamente.

Na verdade, o termo “marginalidade” poderia se aplicar, com mais precisão, às forças autoproclamadas revolucionárias, naqueles países em que não houve revolução. 

Mas se é assim, o que Valério está apresentando é uma hipótese, que na minha interpretação tem por detrás um pressuposto oculto: o pressuposto de que os revolucionários só podem estar nas margens do movimento principal feito pela parcela da classe com consciência de classe. 

Dito de outra forma, o pressuposto é que os revolucionários não poderiam estar, por exemplo, no PT, onde estariam em minoria, mas “dentro das margens” do movimento principal construído pela vanguarda da classe.

Por qual motivo seria impossível, para quem é revolucionário, estar no PT? 

O único argumento razoável, embora errado, na minha opinião, é que seria muito difícil transformar minoria em maioria. 

Mas isto por acaso seria melhor ou mais fácil do que estar e/ou sair da "marginalidade"?

Segundo Valério, não seria possível “sair da marginalidade” sem “uma acumulação prévia que não se improvisa no calor da hora”.

Nesse ponto, a argumentação de Valério dá outra pirueta muito engraçada.

Afinal, segundo tudo o que veio se dizendo até agora, o “calor da hora” seria aquele momento em que a luta de classes faria a classe trabalhadora perder suas ilusões reformistas.

E onde foi que isso ocorreu? Nos poucos casos em que houve revoluções vitoriosas, só um caso se parece com este descrito por Valério: o da revolução russa de 1917, que de fevereiro até outubro viveu uma crescente radicalização, com os bolcheviques passando de minoria para a maioria. Embora seja mais exato dizer assim: em fevereiro de 1917, os trabalhadores com consciência de classe apoiavam, majoritariamente, a direita da socialdemocracia e a direita do socialismo revolucionário. E, em outubro de 1917, os trabalhadores com consciência de classe apoiavam, majoritariamente, a esquerda da socialdemocracia e a esquerda do socialismo revolucionário. 

Portanto, nem os bolcheviques, nem os SRs de esquerda, estavam na “marginalidade”. Eram minoria, o que é outra coisa.

O mais importante, no caso da Revolução Russa, é que setores da classe trabalhadora abandonaram a direita da esquerda e penderam para a esquerda da esquerda. 

No caso brasileiro, que Valério citará em seguida no seu texto, o que ocorreu foi outra coisa: parcelas expressivas da classe trabalhadora se afastaram da esquerda e se aproximaram da direita.  

Nas palavras de Valério: “A experiência dos governos de coalizão liderados pelo PT foi interrompida pelo golpe institucional em 2016. Esta é a chave para a compreensão da resiliência do lulismo”. 

Digamos que tenha sido isso o que ocorreu. Nesse caso, como deveria agir a esquerda que se autoproclama revolucionária? Ficar às margens??

Como sabemos, naquele contexto, a partir de 2016, o setor do PSTU liderado por Valério, um setor importante do PSOL e o grupo liderado por Boulos decidiram sair da “marginalidade”.

Mas atenção: a aproximação com o PT, a partir de 2016, é uma coisa; outra coisa é a hipótese sobre a qual Valério falava antes.

A hipótese era: no momento em que a situação revolucionária se aproxima, as massas abandonam as ilusões reformistas e se aproximam dos revolucionários, mas para isso os revolucionários teriam que fazer uma acumulação prévia de forças.

A realidade de 2016 era: frente a uma ofensiva reacionária, em que parte das massas aderia a posições de direita, os autoproclamados revolucionários se aproximaram dos supostamente reformistas.

Valério, na argumentação desenvolvida no texto, não distingue uma coisa da outra. E, portanto, confunde “acumulação de forças em tempos de paz e defensiva” com outra coisa totalmente diferente.

É verdade que ele alerta para a “perigosa ilusão de ótica” dos que confundem a presença de uma “liderança de revolucionários nos seus sindicatos”, ou em mandatos parlamentares, com a adesão das massas a posições revolucionárias. 

Ele chega até a dizer que “o apoio a Lula tem dimensão programática, mas o voto em revolucionários para a presidência de um sindicato ou para parlamentares é pessoal”, o que me parece um certo exagero.

Mas de repente, toda esta cautela some: “há uma exceção, e ela foi uma façanha enorme. Na cidade de São Paulo, Boulos superou a candidatura do PT em 2020. Por isso, sua candidatura em 2024 é muito maior que uma tática eleitoral. Boulos concentra uma aposta estratégica”.

Boulos, a exceção!!!!!

Repito: segundo Valério, o fato de Boulos ter superado a candidatura do PT no primeiro turno das eleições 2020 faria de sua candidatura em 2024 algo maior do que uma tática eleitoral. Boulos 2024 concentra, diz Valério, uma aposta estratégica.

[Antes de seguir, um comentário a margem: é com base neste tipo de raciocínio que Quaquá e outros questionam o apoio do PT a Boulos. Resumidamente, em minhas palavras e tradução livre, o PT estaria colocando azeitona em empada alheia.]

4/  

No ponto 4, Valério afirma que existiriam “três estratégias para a etapa pós-Lula”. 

Como eu disse antes, saudades do tempo em que debater “estratégia” significava debater o caminho da classe trabalhadora para o poder. 

E saudades do tempo em que a esquerda lembrava que ser governo não é ser poder; que disputar eleições e governar é parte importante da disputa pelo poder, mas existe muito mais coisa envolvida, sem o que ganhar eleições será totalmente insuficiente. 

Mas deixemos estes resmungos vintage de lado e vamos enfrentar o debate sobre aquilo que Valério afirma ser “um daqueles momentos raros em que uma questão central será incontornável: o que será da esquerda brasileira depois de Lula?”

Valério, a bem da verdade, embora seja reducionista na apresentação da questão, busca ser amplo na apresentação da problemática: “o fator chave deste processo será a luta de classes”. Mas quando vai ao grão, Valério apresenta as coisas de maneira assaz curiosa.

Diz que a “a aposta da esquerda do PT é defensiva” (...) “disputando espaço interno, e apoiando Lula até o fim”. 

Pergunta: a direita, perdão, o campo majoritário do PSOL não fará exatamente o mesmo? Ou o campo majoritário do PSOL pretende romper com o governo e lançar candidatura contra Lula em 2026?

Dito de outra forma: Valério apresenta como dilema da esquerda petista o que na verdade não é, ou pelo menos não deveria ser, um dilema para ninguém da esquerda que apoiou Lula no primeiro turno de 2022. 

Não existe, ou não deveria existir, a alternativa “não apoiar Lula até o fim” do seu mandato.

Valério, em seguida, afirma que “ninguém sabe se Lula poderá ou não concorrer em 2026”. 

O termo “poderá”, assim como a referência anterior aos 81 anos, trata a questão por um viés errado. 

O problema central não é a saúde biológica de Lula, o problema central é a saúde política do governo Lula.

Se o governo estiver bem, haverá duas alternativas: ou uma quarta candidatura de Lula ou lançarmos outro nome (como foi com Dilma em 2010). 

Se o governo estiver mal, dificilmente Lula será candidato, não por razões biológicas, mas por razões políticas. 

Acontece que se o governo não estiver bem, especialmente se ele estiver mal por conta da política econômica, uma eventual candidatura Haddad estará longe de ser óbvia.

O problema principal no raciocínio de Valério não está, entretanto, nos "detalhes" acima pontuados. 

O problema principal é que ele mistura, sem mediações, duas variáveis que – embora combinadas – são diferentes. 

Uma variável é a tática do PT nas eleições de 2026 e 2030 (supondo, é claro, que nada abale o sacrossanto calendário eleitoral). 

Outra variável é a correlação de forças no petismo. 

Valério passa a impressão de que uma coisa é igual a outra, como se o sucessor eleitoral de Lula fosse, também, seu sucessor em termos de influência dentro do PT.

Adaptando aqui o resumo feito por ele no início, é como se ele nos dissesse o seguinte: “a esquerda brasileira é liderada pelo PT, o PT é dirigido pela CNB (Construindo um novo Brasil), e a CNB é uma articulação de líderes, parlamentares e grupos que respondem à autoridade do sucessor de Lula”. 

Pois bem: mesmo que o resumo original fosse verdadeiro, e não é, esta segunda versão não é verdadeira. O sucessor eleitoral de Lula, seja quem e quando for, não terá a autoridade que Lula tem.

Evidente que a disputa sobre quem será o candidato do PT em 2026 e 2030 é um fator importante. 

Mas, a depender de como estiver o país em 2026, a candidatura de Haddad pode estar tão garantida quanto o déficit zero. 

Neste cenário, de um país e um governo em dificuldades, o problema principal não serão as supostas prévias. 

Sem falar que, a preços de hoje, os concorrentes de Haddad, dentro do Partido, não estão na esquerda petista. 

Seja como for, no cenário de um governo e um país em dificuldades, o problema principal será o risco da extrema direita ou da direita tradicional recuperarem o governo. 

Situação em que a esquerda pode se unificar, como aconteceu em 2018.

Enfim, os hipotéticos cenários de 2026 e 2030 não são suficientes para responder à questão que incomoda Valério: o futuro da esquerda. 

Quero dizer: não respondem, na minha opinião. 

Pois na opinião de Valério, no caso que ele considera mais provável, a saber, “uma candidatura Haddad com perfil e programa alinhado às posições mais moderadas no PT”, então nesse caso “uma possível reorganização à esquerda dependerá, essencialmente, de uma disputa exterior ao PT, não interna”.

E, claro, “quem se posiciona melhor nessa direção é o PSol, e a liderança de Boulos concentra esta esperança, mesmo se não vencer as eleições em São Paulo em 2024. Se, eventualmente, vencer, tudo se acelera. Já os partidos à esquerda do PSol são grupos de propaganda resignados, aparentemente, a um papel de eterna oposição testemunhal”.

Ou seja: a “reorganização da esquerda” brasileira, no entender de Valério, passa pelas eleições. Notem que nesse raciocínio há um não dito: o de que Boulos será candidato presidencial em 2026 ou em 2030, a depender de quem o PT lance. 

Ou seja: como já apontamos, nesta questão pontual, o que Valério sugere reforça algo que – quem diria – Quaquá e outros têm utilizado para questionar o apoio do PT a Boulos nas eleições de 2024.

E há uma outra questão não dita: a de que Boulos faria, em 2026 ou 2030, o mesmo que teria ocorrido em 2020 na eleição municipal de São Paulo. 

Ou seja: disputaria no primeiro turno e iria para o segundo turno, recebendo então o apoio e o legado petista, não apenas como candidato eventual, mas como sucessor na liderança da esquerda brasileira.

Finalmente, cabe citar a questão principal: supondo que tudo ocorra conforme este roteiro detalhado, a resultante seria uma esquerda melhor, sem os defeitos e com todas as qualidades do PT? 

Ou por este caminho teríamos, digamos, algo parecido com a frustração causada por certos partidos europeus da nova esquerda, que prometeram grandes novidades, mas terminaram entregando imensas frustrações?

5/

Valério, colega de profissão, abre o ponto 5 de seu texto perguntando “o que a história nos ensina” a respeito destas sucessões.

Segundo Valério, “a última vez que se colocou a questão foi há 45 anos atrás”, entre 1978 e 1980. Naquele momento, segundo ele, havia os que defendiam “até o fim” a presença da esquerda dentro do MDB, “sob a liderança dos liberais”; “os que imaginavam que a crise da ditadura abriria as condições para que uma organização revolucionária conquistasse influência de massas”; e “os que compreenderam a necessidade do PT como uma mediação para disputar a liderança das massas com o MDB e Brizola contra a ditadura”.

A descrição de Valério acerca daquele momento me parece incorreta, principalmente por ser incompleta. 

Como ele mesmo lembra, havia um “quarto elemento”: Brizola e o populismo de esquerda, contra o qual o PT travou, ao longo da década de 1980 e especialmente nas eleições de 1989, uma grande batalha que definiu que ocuparíamos o lugar que, entre 1945 e 1964, fora ocupado – de forma desigual e combinada - pelo Partido Comunista e pelo PTB.

Mas Valério está certo ao apontar que o elemento central, seja em 1980, seja em 1989, era o fato do PT representar a vanguarda da classe trabalhadora, que tinha como sua ponta de lança, naquele momento, os metalúrgicos do ABC.

O ciclo histórico do PT pode se encerrar numa eleição? Vamos supor que isso seja possível. Mas daí não decorre que o ciclo histórico de uma esquerda alternativa vá surgir num processo eleitoral. O PT pode ser superado eleitoralmente. Mas uma nova esquerda não surgirá de um processo eleitoral.

Valério provavelmente sabe disso. Mas ele parece focado demais na “oportunidade” que será aberta, mais cedo ou mais tarde, pela implacável biologia: “a questão é saber se o ciclo histórico do PT se esgotará ou não numa etapa pós-lulista”.

Esse foco o leva a concentrar-se na substituição do personagem central, como se isso fosse capaz de definir os rumos de toda a temporada.

6/

O foco no personagem o leva a fazer a seguinte pergunta: “Por que a estratégia Lula foi vitoriosa?”

A expressão “estratégia Lula” – que serve para naturalizar a expressão “estratégia Boulos” – passa a falsa impressão de que o PT se organizou, desde antes de existir, desde 1978, com o objetivo de fazer de Lula presidente da República.

Mesmo depois de 1989, é um erro resumir a estratégia do PT nesses termos anacrônicos. 

Mas, claro, a escolha destas palavras - "estratégia Lula" - torna tudo mais fácil para Valério. Afinal, é mais fácil imaginar uma “estratégia Boulos” do que construir, nos dias de hoje, os processos que tornaram possível o PT ser o que é e fizeram de Lula o que ele é.

[Outro comentário a margem: talvez também na linha de tornar mais fáceis as coisas, Valério se pergunta “por que o PT substituiu o PCB?” Na verdade, o PT não substituiu o PCB. O PCB já havia se tornado, sozinho, uma sombra do que fora. O que o PT fez foi ocupar, na política brasileira, um papel similar ao papel ocupado, no passado, pelo trabalhismo e pelo comunismo. Algo muito mais amplo do que “substituir o PCB”.]

Evidentemente, Valério tem noção de quão complexo foi o processo que fez do PT o que somos hoje. Seu texto cita vários elementos que comprovam isso. Entre os quais “a presença, compromisso e capacidade de Lula, porque o seu papel pessoal foi insubstituível”.

Não só "foi", como continuará sendo. Nos qualidades e nos defeitos (que Valério, cautelosamente, não cita, talvez para não ser obrigado a citar os defeitos do ungido por ele mesmo), Lula é insubstituível. Não porque seja um super-homem, mas apenas porque os processos históricos que o produziram, não são repetíveis. Donde deduzo que, na melhor das hipóteses, é inócuo, pura perda de tempo, achar que outra pessoa – por mais que se esforce em falar e agir parecido com Lula – será capaz de cumprir o mesmo papel.

7/

Infelizmente, é nesse erro que Valério incorre.

Mas antes de falar disso, uma lembrança ao estilo Mark Twain: as expectativas de Valério acerca da superação do PT são um pouco exageradas.

Valério diz que a “disputa pela liderança da esquerda na etapa pós-Lula vai passar por um processo cujo ritmo é ainda imprevisível, talvez mais lento, mas inexorável”.

Valério afirma, também, que esta luta “já começou e teve cinco momentos decisivos”, nos quais ele destaca o seguinte: a tática de Boulos nas eleições de 2018; a presença do PSol na campanha Lula Livre; o desempenho de Boulos nas eleições municipais de 2020; a campanha Fora Bolsonaro em 2021, “em que Boulos se afirmou como o orador mais popular na Paulista”; as eleições de 2022, em que Boulos se elegeu deputado de esquerda com a maior votação em todo o país”.

Segundo Valério, estes “acertos” posicionam “o PSol e Boulos como seu porta-voz, melhor do que qualquer outros no que está por vir.”

Curiosamente, Valério nos priva de qualquer análise sobre a trajetória de Boulos, que entrou no PSOL em março de 2018, para ser candidato. Muito diferente de Lula, que foi construtor do PT desde a véspera.

Não se trata de um detalhe, pois como sabemos na política brasileira – e inclusive na esquerda brasileira – está cada vez mais comum que as pessoas entrem e saiam de partidos. O que faria da “estratégia Boulos” algo muito diverso daquilo que Valério supõe.

Mas o mais grave é que, no jeito de Valério analisar os fatos, a disputa pela liderança da esquerda brasileira se trava principalmente através de disputas eleitorais. Dos cinco “momentos decisivos” citados por ele, três são eleitorais.

Alguém pode dizer: Lula foi candidato presidencial em 1989, 1994 e 1998, antes de vencer em 2002. E foi eleito deputado federal em 1986 e foi deputado constituinte. Acontece que o desempenho de Lula em todas essas eleições é inseparável da construção do PT, da construção da CUT, das grandes lutas sociais travadas no Brasil antes e depois de 1989.

Supondo que a “sucessão” da esquerda pudesse ser reduzida a sucessão de Lula; e supondo que o “sucessor” de Lula pudesse ser Boulos; a pergunta que devemos fazer é: que tipo de esquerda alternativa ao PT seria esta, se ela surgir basicamente da atividade eleitoral?

8/

Valério, que de bobo não tem nada, tem consciência de que está apostando alto e creando cuervos. Talvez por isso o ponto 8 de seu texto seja uma digressão sobre os perigos que nos cercam, entre os quais ele destaca o divórcio entre os “doutores” da revolução e os “gênios” da política

Os “gênios” seriam os que “estão se preparando para a disputa das candidaturas e coligações para as prefeituras, e até para vereadores, em 2024”. Os “doutores” seriam os que estão polemizando sobre a atualidade da teoria da revolução. 

Valério afirma que “todos estes debates e controvérsias têm o seu lugar. Mas não deveriam estar dissociados uns dos outros, e só fazem sentido se houver clareza de estratégia”.

Entendo a preocupação de Valério, mas o problema é que, aceita sua “teoria” acerca da “estratégia Boulos”, é inevitável que os “gênios da política” tomem conta, pois o próprio Valério deu centralidade aos temas eleitorais.

Exagero?

Vejamos o que ele diz acerca dos “três campos” que “teremos, nos próximos anos, na esquerda radical”: os que continuarão petistas, os que buscarão “ultrapassar, simultaneamente, Lula e Boulos, pela esquerda” e os que “defenderão que Boulos é a liderança melhor posicionada para impulsionar uma reorganização da esquerda brasileira que tenha o impulso de construir um instrumento de luta, com peso de massas, superior ao que hoje é o PT”.

Ou seja: a reorganização da esquerda brasileira, construir um partido de massas melhor e maior do que o PT, passa por reconhecer que uma determinada pessoa é “a liderança melhor posicionada”.

Noutros tempos se chamaria isto de culto à personalidade. No caso, um culto meio precoce.

9/

Com isso chegamos ao ponto final do texto de Valério, em que ele – depois de incursionar pelo perigoso terreno do papel do indivíduo na história – tenta salvar sua alma lembrando que “sem uma onda de ascenso não é provável uma reorganização pela esquerda bem-sucedida a ‘frio’.”

Aqui cabe perguntar o que é mesmo que Valério entende como “reorganização da esquerda”. Quando o PT se firmou, não foi apenas uma sigla substituindo outras, foi uma política substituindo outra, foi uma estratégia socialista substituindo outras (a do populismo e a do etapismo).

A questão é: a tal “estratégia Boulos”, que Valério nos apresenta como derivada da trajetória eleitoral de uma pessoa, seria capaz de substituir a estratégia atualmente hegemônica no PT, por outro tipo de estratégia?

Minha resposta é: não. Sem luta de massas, sem uma “onda de ascenso”, nem o PT mudará de estratégia, nem o PT será superado por outra estratégia.

O PT pode ser derrotado eleitoralmente, pela direita. Pode até, embora isto seja muito pouco provável, ser superado eleitoralmente por outra esquerda. Mas mudar de estratégia, sem luta de massas? Impossível.

Assim, a questão é saber o que devemos fazer para contribuir para que haja luta de massas. 

No passado, Valério era dos que criticava o PT por ser (supostamente) um obstáculo para a luta de massas. Não sei se ele segue pensando assim. 

Mas deste ponto de vista, seu texto sobre a “estratégia Boulos” é um retrocesso total, pois o problema deixa de ser a mudança da estratégia da esquerda e passa a ser a mudança do “líder” da esquerda, o que na prática nos deixa nos marcos da mesma estratégia.

Sendo assim as coisas, sua crítica aos que “ainda apostam no PT” não faz o menor sentido.

Diz Valério: “O argumento forte dos que ainda apostam no PT, mesmo que seja liderado por Haddad, é que o PSol é muito menor. Melhor mal organizados no PT do que desorganizados”.

Valério se equivoca: pelo menos em nosso caso, o argumento dos que apostam no PT não é que o PSOL é “menor”. O argumento, se tiver que escolher um, pois há vários, é que o fator decisivo é o vínculo com a classe trabalhadora. 

O PT era “menor” na década de 1980, mas tinha um tipo de vínculo com a classe que o PSoL não tem. 

E mesmo hoje, mesmo deformado por décadas de institucionalidade, o vínculo do PT com a classe é de um tipo, uma qualidade, diferente do vínculo que o PSoL possui.

Em segundo lugar, não existe “PT liderado por Haddad”, ao menos no mesmo sentido de “PT liderado por Lula”. 

O papel que hoje é exercido por Lula, não será exercido, no futuro, por ninguém. Não há ninguém com a mesma estatura, influência, relações etc.

Em terceiro lugar, não sei de onde Valério tira a ideia de que achamos que “melhor mal organizados no PT do que desorganizados”. 

O PT é um partido e também um movimento social. Dezenas de milhões de pessoas se consideram petistas. O desafio de organizar estas pessoas é imenso. O potencial transformador que isso tem é sem tamanho. Não se trata de um “negacionismo” conservador que expressa acomodação às pressões do gigantesco aparelho, trata-se de não escolher a “marginalidade” citada pelo próprio Valério. 

Aliás, falemos as coisas como elas são, o PSOL ganhou algum espaço de massas onde mimetizou o petismo, ocupando o espaço que deixamos aberto por nossos erros e opções.

Mas isso é o de menos, neste debate. 

O mais impressionante é a tranquilidade com que Valério reconhece que “o PSol é um partido sem definição estratégica”.

Ou seja: o Partido que Valério propõe como alternativa ao PT é “sem definição estratégica”. 

Por óbvio, caso este partido tivesse êxito na superação do PT, através de um caminho eleitoral, o que teríamos seria qualquer coisa, menos uma alternativa a estratégia hoje vigente no PT.

Mas se é assim, por qual motivo mesmo que se considera justo ou necessário, do ponto de vista da esquerda, do ponto de vista da classe trabalhadora, superar o PT?

Na ausência de definição estratégica do Partido, o jeito é depender das provas “de integridade moral, coragem pessoal e inteligência política” de quem Valério propõe como liderança alternativa.

Com Boulos, promete Valério, “a renovação da esquerda será geracional, mas, também, programática”. Como o PSoL não tem definição estratégica, a única garantia é que o novo líder da esquerda seja o fiador da “mobilização de massas" e do objetivo de "ir além do neoliberalismo”.

Por qual motivo o PSoL teria êxito, mesmo sem definição estratégica, mesmo atuando em uma situação histórica pior do que a enfrentada pelo PT?  Por acaso o "novo líder" seria mais confiável do que o "velho líder"? As vossas canções seriam melhores do que as nossas?

Valério, no que parece uma piada pronta, termina seu texto assim: “E depois? Depois, como Napoleão respondeu um dia, improvisamos”. 

Valério pode ser acusado de qualquer coisa, menos de falta de honestidade intelectual. Afinal, nada mais honesto do que terminar seu texto reconhecendo que, mesmo que tudo saia como ele planeja, o jeito vai ser improvisar.

E já que é assim, tendo em vista que a tal “estratégia Boulos” é no fundo uma réplica de má qualidade – quase todos os nossos defeitos e poucas de nossas qualidades - melhor seria terminar citando o outro Bonaparte. Não seria tão elegante, mas seria mais preciso.

De resto, Boulos prefeito 2024. E, acima de tudo e antes de mais nada, longa vida ao Partido dos Trabalhadores.

Segue o texto criticado acima

https://esquerdaonline.com.br/2023/11/01/a-estrategia-boulos/

A estratégia Boulos

 

Todas as flores de amanhã estão nas sementes de hoje.
Um dia vale por dois, para quem diz «Já» e não «Depois»
O caminho mais curto nem sempre é o mais a direito
Provérbios populares portugueses

1. O PT é um dos maiores partidos de esquerda do mundo. No Brasil de 2023 o lulismo é uma corrente eleitoral maior que a esquerda. A disparidade da influência do lulismo e da esquerda é desigual – maior no Nordeste do que no Sul, por exemplo – mas é nacional, e essa diferença de peso social e influência ideológica é qualitativa. A esquerda brasileira é liderada pelo PT, o PT é dirigido pela CNB (Construindo um novo Brasil), e a CNB é uma articulação de líderes, parlamentares e grupos que respondem à autoridade de Lula. A preferência pelo PT, em escala nacional, é constante desde 1999, e os últimos dados informam, de junho de 2023 que alcança 29% (1). O PSol é o segundo partido da esquerda brasileira, pontuando 3%, em 2022, o que significa, em grandes cidades, uma simpatia um pouco maior (2). Mas a métrica para avaliação da relação de forças dentro da esquerda exige um modelo com muitas outras variáveis: (a) implantação nacional, número de filiados ou simpatizantes e militância orgânica; (b) implantação nos movimentos sociais, como sindical, popular, feminista, negro, camponês, LGBT, estudantil, indígena; (c) simpatia no mundo da cultura, artes e acadêmico, ou intelectualidade; (d) audiência nas redes sociais ou capacidade de disputa na internet; (e) representação parlamentar. Considerando todos estes elementos, o peso do PT ainda é imenso e, se considerado o fator Lula, avassalador. Esta influência decorre de muitos fatores, mas o mais importante é que as expectativas reformistas ainda prevalecem na maioria dos trabalhadores.

2. À esquerda do lulismo há três campos. Hoje a esquerda anticapitalista, num sentido amplo de organizações que defendem no programa a necessidade da revolução no Brasil, em suas variadas tradições, mas fragmentação hemorrágica, está dividida no terreno tático em três campos: (a) primeiro campo é composto pelas tendências de esquerda do PT (Democracia Socialista, Articulação de Esquerda e O Trabalho) que apoiam e ou participam do governo Lula, ainda que com posicionamentos críticos sobre os aliados da coligação, e apostam, prioritariamente na reeleição de Lula que, entretanto, terá 81 anos em 2026; (b) o segundo campo é ocupado pelas correntes que constituem o bloco majoritário do PSol e defendeu não entrar no governo, mas sustenta o governo diante da oposição de extrema-direita, tanto no Congresso Nacional, quanto nas ruas, preservando a independência para votar contra e criticar, e liberando filiados para assumir cargos em seu nome pessoal e dos movimentos sociais que representam e apostam em uma reorganização que tem Boulos como referência pública; (c) o terceiro é a parcela da esquerda radical que se posiciona como oposição de esquerda, entre as quais, as mais representativas apresentaram três candidaturas à presidência em 2022, o PSTU, o PCB e a UP, e apostam nas suas autoconstruções, sem uma liderança pública comum. A relação de forças entre os três campos é muito assimétrica. O campo do PSol é, quantitativamente, maior que o da esquerda do PT, e o terceiro campo é, qualitativamente, tão menor que os outros dois, que já está à margem da disputa que virá.

3. As esperanças reformistas não morrem sozinhas. As lições que ficaram em um século de disputas na esquerda, em escala internacional, entre as organizações reformistas e as mais radicais, se concentram em uma questão central: fora de uma situação revolucionária a maioria dos trabalhadores não rompem com as direções moderadas. Somente quando foram esgotadas todas as expectativas em soluções negociadas, o desafio da ruptura pode conquistar maioria entre os explorados. A luta revolucionária exige uma inesgotável paciência histórica. Mas o caminho para sair da marginalidade não é possível sem uma acumulação prévia que não se improvisa no calor da hora. A experiência dos governos de coalizão liderados pelo PT foi interrompida pelo golpe institucional em 2016. Esta é a chave para a compreensão da resiliência do lulismo. Nenhum dos outros partidos de esquerda tem peso próprio nas massas populares. São organizações com expressão em setores de vanguarda, mesmo o PCdoB que é, incomparavelmente, a maior. A conquista de sindicatos e de mandatos pode alimentar uma perigosa ilusão de ótica. Os trabalhadores apoiam, até com alguma regularidade, a liderança de revolucionários nos seus sindicatos, porque os conhecem, pessoalmente, são honestos e combativos. Ou podem elegê-los deputados. Mas isso não autoriza a conclusão de que querem que governem. Não querem, porque temem o radicalismo.  Ao contrário do que muitos, apressadamente, pensam, o apoio a Lula tem dimensão programática, mas o voto em revolucionários para a presidência de um sindicato ou para parlamentares é pessoal. Somente o PSol conquistou um pequeno espaço próprio, essencialmente, nas eleições para deputados. Mas há uma exceção, e ela foi uma façanha enorme. Na cidade de São Paulo, Boulos superou a candidatura do PT em 2020. Por isso, sua candidatura em 2024 é muito maior que uma tática eleitoral. Boulos concentra uma aposta estratégica.        

4. Três estratégias para a etapa pós-Lula. Estamos diante de um daqueles momentos raros em que uma questão central será incontornável: o que será da esquerda brasileira depois de Lula? Não haverá transição sem disputa. O fator chave deste processo será a luta de classes, que condiciona a evolução da relação social de forças, e o destino do governo Lula. Apesar da vitória eleitoral, a longa etapa defensiva de refluxo nas lutas sociais não se inverteu, o país permanece fraturado, e a extrema-direita mantém influência sobre um quarto da população, autoridade sobre a massa da burguesia, maioria nas camadas médias, e influência sobre uma parcela dos trabalhadores com contratos, sobretudo, no sudeste e sul. A aposta da esquerda do PT é defensiva, manter posições e defender a posição de liderança do PT como instrumento político de representação dos trabalhadores, disputando espaço interno, e apoiando Lula até o fim. Mas ninguém sabe se Lula poderá ou não concorrer em 2026. Se concorrer, vencendo ou não, a sucessão interna ao petismo seria adiada, assim como a reorganização da esquerda. Mas, se não concorrer, a hipótese da esquerda do PT apresentar uma candidatura contra Haddad em prévias é improvável. Mesmo que o faça, dificilmente poderá conquistar a visibilidade que Juan Grabois, através de Pátria Grande, alcançou nas primárias do peronismo em agosto recente. O mais provável seria uma candidatura Haddad com perfil e programa alinhado às posições mais moderadas no PT, assim como Sergio Massa no peronismo. Do que decorre que uma possível reorganização à esquerda dependerá, essencialmente, de uma disputa exterior ao PT, não interna. Quem se posiciona melhor nessa direção é o PSol, e a liderança de Boulos concentra esta esperança, mesmo se não vencer as eleições em São Paulo em 2024. Se, eventualmente, vencer, tudo se acelera. Já os partidos à esquerda do PSol são grupos de propaganda resignados, aparentemente, a um papel de eterna oposição testemunhal.  

5. O que a história nos ensina? A última vez que se colocou a questão foi há 45 anos atrás. Entre 1978/80, no intervalo de apenas dois anos, um processo acelerado pela primeira onda de mobilizações operárias, sindicais e populares abriu uma luta política frontal na oposição. Então, a esquerda se dividiu em três campos: (a) os que defenderam até o fim a presença da esquerda dentro do MDB, sob a liderança dos liberais, como o PCB, o PCdoB, o MR-8; (b) os que imaginavam que a crise da ditadura abriria as condições para que uma organização revolucionária conquistasse influência de massas; (c) os que compreenderam a necessidade do PT como uma mediação para disputar a liderança das massas com o MDB e Brizola contra a ditadura. O protagonismo de Lula à frente das greves do ABC abriu a possibilidade de uma reorganização que deslocou, sobretudo, o papel do PCB, que tinha sido o principal instrumento de representação da esquerda no Brasil até 1964. A questão é saber se o ciclo histórico do PT se esgotará ou não numa etapa pós-lulista.

6. Por que a estratégia Lula foi vitoriosa? Que lições deixou o processo que iniciou em 1978/80, e deu um salto de qualidade entre as Diretas de 1984, e as primeiras eleições presidenciais em 1989? Por que o PT substituiu o PCB? Por que demorou dez anos? Podemos destacar a rara combinação de cinco fatores centrais, avançando dos mais objetivos para os subjetivos: (a) o primeiro foi o impacto da crise superinflacionária crônica sobre a experiência de vida de uma nova geração de trabalhadores urbanizados, que procuraram os sindicatos para se defender, e descobriram sua força social de choque na onda de greves; (b) o segundo foi o enfraquecimento da ditadura militar, depois de quinze anos no poder, e o deslocamento lento, mas ininterrupto, da maioria das camadas médias e do povo para a oposição, enquanto a liderança liberal-burguesa do MDB apostava no quietismo, e no calendário eleitoral da transição lenta segura do governo Figueiredo/Golbery; (c) o terceiro foi a explosão da direção do PCB com o retorno de Luís Carlos Prestes, a disputa fracional que levou ao afastamento do lendário líder histórico, e a capitulação à direção do MDB; (d) o quarto foi a união das três componentes fundamentais, ainda que com influência desigual, que apostaram no projeto de construção do PT para derrubar a ditadura e implodir o plano de transição negociada, e disputar com Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, mas, também, Leonel Brizola a liderança da oposição: os sindicalistas metalúrgicos, bancários, professores, petroleiros, entre outros; as correntes de esquerda que tinham se reorganizado na clandestinidade; e a esquerda social e popular católica; (e) o último e mais imprevisível dos fatores foi a presença, compromisso e capacidade de Lula, porque o seu papel pessoal foi insubstituível. Demorou dez anos, mas foi, paradoxalmente, rápido. Dez anos pode parecer uma eternidade na escala de uma vida, mas, na métrica da história, foi vertiginoso. A afirmação de um partido de esquerda, e de um metalúrgico na sua liderança, uma “revolução” na consciência política de uma geração, só foi possível, por muitos fatores, mas o principal foi que o PT acertou na linha: soube ser firme na luta contra a ditadura, e ser oposição aos governos Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique.  

7. A encruzilhada histórica. A disputa pela liderança da esquerda na etapa pós-Lula vai passar por um processo cujo ritmo é ainda imprevisível, talvez mais lento, mas inexorável. Esta luta já começou e teve cinco momentos decisivos: (a) as eleições de 2018 foram o primeiro, e a tática de apresentação da candidatura de Boulos, alicerçada na defesa da Frente Única e na identificação de Bolsonaro como o inimigo principal, permitiu despertar muito respeito, no primeiro turno, reforçado pelo engajamento leal no segundo turno, que foi fatal para Ciro Gomes; (b) o segundo foi, pela positiva, a presença do PSol na campanha Lula Livre e, pela negativa, a ausência da maioria da esquerda radical exterior ao PT; (c) o terceiro foram as eleições municipais de 2020, o desempenho extraordinário de Boulos, mas também, de Manuela D’Ávila, que se projetou como liderança feminista de projeção nacional; (d) o quarto foi a campanha Fora Bolsonaro em 2021, em que Boulos se afirmou como o orador mais popular na Paulista, e consolidou como referência nacional; (e) o quinto foram as eleições de 2022, em que o Psol, pela primeira vez, apoiou o PT desde o primeiro turno, e Boulos se elegeu deputado de esquerda com a maior votação em todo o país. São estes acertos que posicionam o PSol e Boulos como seu porta-voz, melhor do que qualquer outros no que está por vir.

8. A estratégia Boulos. Um dos perigos que nos cercam é o divórcio entre os “gênios” da política e os “doutores” da revolução. Existe uma parcela da esquerda que só tem interesse nos debates da tática, e outra que só se dedica a discussões de programa. Os primeiros estão se preparando para a disputa das candidaturas e coligações para as prefeituras, e até para vereadores, em 2024. Os segundos estão polemizando sobre a atualidade da teoria da revolução em Lenin, Trotsky, Luckácz ou Gramsci. Todos estes debates e controvérsias têm o seu lugar. Mas não deveriam estar dissociados uns dos outros, e só fazem sentido se houver clareza de estratégia. Teremos três campos, nos próximos anos, na esquerda radical: (a) os que se alinharão com a defesa do PT, independentemente, do desfecho do governo Lula, e mesmo que Haddad se consolide como seu herdeiro; (b) os que insistirão em permanecer adversários de Boulos, interna ou externamente ao PSol, na expectativa que será possível ultrapassar, simultaneamente, Lula e Boulos, pela esquerda; (c) os que defenderão que Boulos é a liderança melhor posicionada para impulsionar uma reorganização da esquerda brasileira que tenha o impulso de construir um instrumento de luta, com peso de massas, superior ao que hoje é o PT. 

9. Dois “negacionismos”. Sem uma onda de ascenso não é provável uma reorganização pela esquerda bem sucedida a “frio”. Mas entre a precipitação de um etapa pré-revolucionária, e a permanência da atual situação reacionária, há vários cenários intermediários possíveis. O Brasi não é “vulcânico”, como a Argentina, mas aqui as placas tectônicas também se movem. O argumento forte dos que ainda apostam no PT, mesmo que seja liderado por Haddad, é que o PSol é muito menor. Melhor mal organizados no PT do que desorganizados. Trata-se um “negacionismo” conservador que expressa acomodação às pressões do gigantesco aparelho. Os que apostam na possibilidade de construção de um partido revolucionário, realmente, revolucionário, o PRRR, têm como argumento forte que o PSOL é um partido eleitoral, portanto, reformista, e Boulos não merece confiança. Trata-se de outra forma de negacionismo. O PSol é um partido sem definição estratégica, mas já provou que recebe no seu interior todos os superrevolucionários que quiserem construir, lealmente. Já a desconfiança pessoal de Boulos é um argumento despolitizado. Uma aposta política não pode repousar em cálculos de preferências subjetivas. Boulos já deu provas de integridade moral, coragem pessoal e inteligência política.  A renovação da esquerda será geracional, mas, também, programática. O desafio é lutar pela mobilização de massas e ir além do neoliberalismo, E depois? Depois, como Napoleão respondeu um dia, improvisamos.  

Notas

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/06/datafolha-29-se-declaram-muito-petistas-e-25-muito-bolsonaristas.shtml. Consulta em 30 outubro 2023.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/10/datafolha-pt-tem-mais-simpatizantes-mas-tambem-e-o-partido-mais-rejeitado.shtml Consulta em 30 outubro 2023.