segunda-feira, 18 de setembro de 2023

PCO: a "ultra" de que a "extrema" gosta

Quem duvidar, me escreva que mando o áudio: a Jovem Pan, programa "Pingos nos is", se debulhando em elogios ao Rui Costa Pimenta, presidente do Partido da Causa Operária.

Motivo?

A entrevista concedida pelo Pimenta à revista Veja.


O trecho preferido pelos comentaristas da Jovem Pan é este: 

Pergunta da Veja: "Como o senhor avalia os inquéritos do ministro Moraes para investigar o ex-presidente Jair Bolsonaro?" 

Resposta de Pimenta: "Eu acho que tudo isso aí é político. Não acho que é a melhor maneira de tratar o movimento de extrema direita ou ultraconservador. A perseguição judicial não é o caminho. Veja o que está acontecendo nos Estados Unidos: o ex-presidente Donald Trump tem um processo atrás do outro,  um processo político, é visível, e a popularidade dele só cresce".

Já o meu trecho preferido segue abaixo:

Pergunta da Veja: "O dia 8 de janeiro foi o quê?"

Resposta de Pimenta: "Acho que o Bolsonaro acalentou essa ideia de golpe durante todo o seu governo, mas eu não acho que houve nenhuma tentativa real. É um grande exagero falar que o 8 de janeiro foi uma tentativa de golpe de Estado. Eu não acho que o pessoal que foi lá realmente estava organizando um golpe. Se estivesse, seria o golpe mais mal organizado da história. Foi uma baderna. É como aconteceu nos Estados Unidos, no Capitólio, uma baderna. Eu acho que a perseguição judicial contra esse pessoal é muito exagerada e indevida. Aquele pessoal é gente comum, simples. Umas 400 pessoas que foram indiciadas não têm dinheiro para pagar um advogado. Por que você vai perseguir essa gente?"

Noves fora os pontos pacíficos ("Na nossa opinião, quem tem que fazer a lei é o Congresso Nacional"), as obviedades ("tudo isso aí é político") e as pós-verdades ("não houve nenhuma tentativa real"), a "tese" de Pimenta desemboca na seguinte conclusão: a extrema-direita não deve ser submetida a julgamento.

Não apenas a "gente comum, simples", mas também os financiadores, os estimuladores, os comandantes e os beneficiários.

Pois se não houve tentativa de golpe, não há golpistas, não há crime contra a democracia, apenas "baderna".

Como alguém de esquerda chega a essa conclusão?










 



domingo, 17 de setembro de 2023

Glosando Celso Rocha de Barros: "PT, uma história"

(sem revisão)

Anotações sobre o texto “PT, uma história”

Celso Rocha de Barros é sociólogo e colunista da Folha de S.Paulo.

O livro PT, uma história foi publicado em 2022, pela Companhia das Letras.

No geral, um livro agradável de ler e bem editado (com direito a agradecimentos, notas, referências bibliográficas, índice remissivo etc.).

O livro é composto por dezesseis capítulos (os títulos dos capítulos são, pela ordem: "O lento tricô", "A república de São Bernardo", "Os PTs possíveis", "As duas democratizações", "Quantas camisas? Qual camisa?", "O caramujo", "1989", "O centro sem Estado", "PT versus PSDB", "A profissionalização", "A social-democracia petista", "Comandando o atraso", "A volta do Estado", "Dilma tenta o salto", "O PT cai primeiro", "Democracia em crise").

Tema em grande medida ausente: a política internacional do PT e a política externa dos governos Lula e Dilma. Foro de São Paulo não existe. Um possível motivo da ausência: ele contradiz a “narrativa” do livro.

Capítulo 1, O lento tricô, começa com Rosalina Santa Cruz saindo da prisão. Por qual motivo esta escolha? Reforça a ideia de “juntar Deus com Marx”, que será central na narrativa acerca do PT? Uma história do PT que começa não com os grandes movimentos da classe trabalhadora, mas sim com a “aproximação do catolicismo com a igualdade social”.

(Curioso: numa frase diz que “os evangelhos são claramente pró-pobres e desconfiados dos ricos”, duas linhas abaixo se lê que “as interpretações progressistas do Evangelho não sejam, obviamente, as únicas possíveis”). Evidentemente, o problema nunca foi a defesa retórica dos pobres, mas o como.

Como se diz na página 12: “A importância da esquerda católica para a história do Partido dos Trabalhadores é imensa. Junto com os sindicalistas, foram a grande força impulsionadora do partido e do resto da esquerda brasileira em seu renascimento após a ditadura” (...) “o peso dos católicos na construção do PT foi muito maior do que nos partidos socialistas e trabalhistas europeus.”

Como poderia ser diferente, num país majoritariamente católico??? Segundo o próprio livro, na época da ditadura, “mais de 90% dos brasileiros eram católicos”. Se é assim, a diferença, a variável, a questão essencial, não é a presença de católicos, mas sim o papel da classe trabalhadora. Mas, devido à narrativa escolhida, isso precisa ser minimizado.

Depois se confronta: “tanto o catolicismo de esquerda quanto os sobreviventes da luta armada produziram quadros e ideias para o Partido dos Trabalhadores. Mas, dos dois, só o catolicismo social produziu movimentos.” (página 13)

Curioso contrastar isto com a relação de presidentes do PT, desde 1980: Lula, Gushiken, Olívio Dutra, Rui Falcão, José Dirceu, José Genoíno, Marco Aurélio Garcia, Ricardo Berzoini, José Dutra, Gleisi Hoffman. 5 sindicalistas, 6 ex-integrantes de organizações de esquerda marxista, nenhum conhecido por ser liderança do catolicismo de esquerda, nenhum deles carola.

Especificamente sobre a Teologia da Libertação, ler o parágrafo final da página 13, onde se diz que a Igreja Católica brasileira teria virado a mais progressista do mundo porque “os católicos de esquerda brasileira foram hábeis” e, “ao contrário de alguns de seus congêneres latino-americanos, não desafiaram a hierarquia de forma aberta”, sendo que “a Teologia da Libertação se tornou a maior contribuição latino-americana ao pensamento católico”. A cereja do bolo: “não por acaso, a eleição em 2013 do primeiro papa latino-americano (...) trouxe um resgate de ao menos algumas das ideias dessa corrente”.

A banda conservadora da Igreja Católica brasileira e a reação conservadora ocorrida, no mundo e no Brasil antes de 2013, somem do relato.

Corolário: “a Igreja católica foi a incubadora de boa parte da sociedade civil que se reconstruiria após o fim do regime militar. Diversos movimentos sociais se colocaram sob a proteção da Igreja, que era a única instituição que a ditadura não tinha coragem de desmantelar” (página 14). Novamente, falta uma reflexão sobre o sindicalismo.

O papel da Igreja continua apresentado como essencial, quando se fala da esquerda marxista: “conforme foram saindo da prisão (...) uma parte foi atuar nos movimentos sociais urbanos, que se reorganizaram sob a proteção da Igreja católica. Isso foi facilitado pelo fato de algumas organizações de esquerda terem origem no catolicismo” (15).

O que vem a seguir é uma pérola: “O caso mais claro é o da AP, organização a que pertencia Fernando Santa Cruz, irmão de Rosalina. Formada em 1962 (...) a AP se converteu ao maoísmo nos anos 1960. Parece uma conversão improvável, e era mesmo (sic), mas tinha certa consistência de curto prazo: tanto os maoístas quanto os cristãos negavam a ênfase do marxismo “oficial” de Moscou na análise econômica e enfatizavam a importância da luta ideológica (o que, na China, ocorreu de forma autoritária). Embora a Revolução Cultural Chinesa e a revolução dos costumes dos anos 1960 fossem coisas completamente diferentes, era fácil aproximar as duas no plano das ideias. Por fim, as duas metades do “maoísmo cristão” davam absoluta prioridade ao trabalho de base da militância junto aos pobres”.

Isso acima é mixordia, não história.

Depois se fala da proletarização defendida pela AP, depois se fala novamente da Rosalina (que militara na AP e depois na VPR...) e depois se fala de Irma Passoni, CEBs e aí chegamos no Paulo Freire, sobre quem o livro diz: “Por sua importância para o resto da história deste livro, suas ideias merecem uma discussão em separado”. O interessante é que essa "discussão" apresenta Paulo Freire como um “cristão socialista”, omitindo os caminhos prévios.

Uma passagem relevadora do livro é quando afirma que: “A despeito do espírito de sua obra, Freire as vezes defendia lideranças de esquerda autoritárias, como se vê nas menções a Fidel Castro e Che Guevara em Pedagogia do Oprimido. Chegou a colaborar com um regime comunista – o da Guiné-Bissau após a independência. O livro que reúne suas cartas às autoridades do país africano é sua obra mais claramente “marxista ortodoxa” e, sob alguns aspectos, um retrocesso (sic) em relação a Pedagogia do Oprimido. Não por acaso, é o livro de Freire mais aceito pelos marxistas dogmáticos, que, no geral, desconfiavam do pedagogo.” (18)

Tem, como se vê, o livro distingue o Freire bom e o que não seria tão bom assim....

Outra passagem : “Na União Soviética de 1933, por exemplo, camponeses formados pela “pedagogia do oprimido” certamente pegariam em armas contra Stálin”. A palavra "certamente" chega a ser engraçada...

A moral da história do livro, o fio da narrativa escolhida, fica evidente também aqui: “Um partido em que os militantes fossem influenciados pelo universo cultural de Paulo Freire – que também era o do catolicismo progressista das CEBs – seria socialista e “basista”, formado na fé segundo a qual, como dizia Karl Marx, “a libertação da classe trabalhadora é tarefa da própria classe trabalhadora”. E “um partido assim dificilmente seria leninista e autoritário como os velhos partidos comunistas, e isso tudo é bom. Mas talvez tivesse dificuldades quando houvesse a chance real de chegar ao poder e precisasse pensar como Estado, não como movimento”. (18)

Um ponto interessante: “os católicos progressistas decidiram não formar seu próprio partido ou sua própria tendência dentro do PT, mas se tornaram grandes formadores de quadros para diferentes tendências e partidos de esquerda. Talvez sua influência tenha sido maior por isso” (19).

Das CEBs se passa ao tema do combate a inflação, aí aparece o Suplicy na história, bem como a dívida externa que teria explodido por “irresponsabilidade” da ditadura (20). E aí se fala do Movimento do Custo de Vida (20-21).

Tem passagens a respeito, que demonstram a dificuldade do autor de teorizar a complexidade: “dessa história, algumas coisas ficam claras: a Igreja patrocinava a organização social, mas sua aproximação com partidos clandestinos dependia de convergências reais de visão política: ambos eram aliados na construção dos movimentos de base, e parte importante dos católicos progressistas certamente apoiaria uma revolução brasileira. Mas os católicos progressistas não aceitavam se submeter à liderança das organizações marxistas, que não só eram ateias como também altamente hierarquizadas e dogmáticas. Os católicos já tinham suas próprias hierarquias e dogmas com que lidar".

"Em segundo lugar, os pobres acolheram bem os militantes de esquerda que os ajudavam a lugar contra problemas concretos (....) Mas continuavam desinteressados pelo marxismo dogmático (...) as donas de casa do Jardim Ângela anteciparam a postura pragmática que a matriz do maoismo, o PC da China, passaria adotar poucos anos depois, sob a liderança de Deng (...) não importava a cor do gato, desde que ele pegasse o rato”. (21)

Entre outras besteiras, convivem a descrição fática com a incompreensão teórica acerca da natureza eclética do pensamento popular, que é ao mesmo tempo pragmático e dogmático, como atesta aliás a atual onda pentecostal.

Detalhe: na página 21, é dito que as organizações de esquerda tiveram dificuldades em administrar a autonomia dos “novos movimentos que ajudaram a criar”; na página 13 é dito que só o catolicismo “produziu movimentos”. A vida é dura.

O texto avança então para o momento em que, além de tricô-para-trabalho-de-base, Rosalina Santa Cruz decide “participar de um jornal feminista”. Aí tem uma mixórdia de fontes e personagens, com direito a caricaturas do tipo “feministas de classe média, já engajadas na luta pelos direitos dos homossexuais, beijando outras mulheres”, ponte para tratar do Somos é daí falar da Convergência Socialista, com direito a citar Silvério Trevisan e James Green, acerca do qual o autor do livro afirma: “me permitirei defender o grupo de Green em um episódio decisivo para mostrar como um pouco de mentalidade organizacional e partidária pode ser útil a um movimento social” (o episódio diz respeito a participação no Primeiro de Maio de 1980).(26)

Ou seja: um episódio decisivo na história do país é abordado a partir da luta interna do Somos.

E daí o texto parte para o movimento negro, via Candeia, Lélia Gonzalez e Milton Barbosa.

A referência a “limpar privadas em Moscou” é para lá de esquisita: “comunistas brancos sofreram uma repressão pesada ao longo da história brasileira, mas não conheço caso em que tenham sido mandatos “limpar privadas”."

Depois de apresentar o Movimento Negro Unificado, o autor afirma que “os jovens do MNU também passaram por organizações de esquerda, como a AP e o PC. Mas as duas organizações que tiveram mais relevância na construção do MNU eram trotskistas: a Libelu e, especialmente, a Convergência Socialista”.

Feito todo este relato, chegamos ao clímax: “Aos poucos, as organizações de esquerda começaram a se adaptar aos movimentos. Como disse Sonia Alvarez, no início eram as organizações que julgavam que tipo de feminismo era aceitável para o marxismo ortodoxo. Com o temo, as feministas, os operários, os militantes negros, os militantes de bairro ou os LGBTQIA+ é que começaram a discutir que esquerda era aceitável para eles. Aí, sim, é que começa a história do Partido dos Trabalhadores” (30-31)

A passagem chama a atenção, seja pelo anacronismo, seja pela tentativa de contrapor como absolutos o PT, o marxismo e a “esquerda”, seja pela resultante, que é um PT meio imaginário, que não corresponde ao PT realmente existente em 1980.

E pior fica, quando se mistura no mesmo pacote o MCV, as CEBs, os clubes de mães, as associações de bairros, o Somos, o movimento estudantil e o MNU, com a OAB e a ABI, tudo isso junto e misturado como sendo a base do que seria a “sociedade civil” do Brasil durante a redemocratização. 

Nenhuma, nenhuma, referência ao sindicalismo.

Aliás, Lula não foi citado nenhuma vez até agora. Mas, pasmem, antes de citar Lula, quem aparece em nossa história é FHC!!!!

O autor cita uma passagem de um artigo de FHC no jornal Versus, em 1977, e conclui: “é muito, muito parecido com a proposta original do PT”. E vai além: diz que o PT “herdaria essa pauta” desenhada por FHC. (32).

E vem enfim o ápice: “Note-se que os sindicatos, que sempre foram a base dos partidos da esquerda democrática europeia, aparecem na lista de FHC só como um dos movimentos sociais que constituiriam o novo partido, sem ocupar um lugar especial. Como um país de industrialização tardia, talvez a esquerda democrática brasileira já estivesse começando como outra coisa, sem as referências da esquerda europeia. Por isso Cardoso não definia seu partido ideal como social-democrata: porque o Brasil não tinha a classe operária forte que sustentava a social-democracia brasileira europeia. No mapa dos movimentos sociais brasileiros de 1977, isso fazia sentido. E foi justamente quando a teoria já começava a desistir do proletariado que ele enfim entrou na briga e mudou completamente o cenário”.

A pergunta é: o cenário mudou complemente a partir da greve da Scania? Ou será que a descrição é que foi parcial?

Vejamos o próximo capítulo.

Capitulo 2, A república de São Bernardo

Começa as 10h45 do dia 12 de maio de 1978.

Depois volta aos tempos da ditadura. Numa certa passagem, uma frase incompreensível: “Enquanto os esquerdistas se proletarizavam, os direitistas se aburguesavam” (37), referindo-se a conversão de militares em altos funcionários de grandes empresas capitalistas.

Pelo caminho da Justiça do Trabalho, fala do varguismo e conclui que a relação do novo sindicalismo e do PT com o legado Vargas “começaria como negação radical e terminaria como reivindicação da herança” (cá entre nós, nem tão radical assim, considerando a trajetória do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e do próprio Lula).

Outra frase difícil de aceitar vem na 41: “Em uma coisa, e talvez só nisso, Vargas e seus sindicatos, a UDN e seus empresários, Castelo Branco e seus tecnocratas liberais, Geisel e seus tecnocratas estatistas, Prestes e o PCB, Roberto Simonsen e a Fiesp, Kennedy e Brejnev estavam de acordo: Lula precisava deixar o sertão nordestino e se tornar operário industrial”. É uma licença poética ao estilo Folha-Jovem Pan.

Mas é mais do que licença poética: depois de dizer que o grande debate brasileiro no século XX foi sobre quem controlaria esse processo (de industrialização), ele conclui que “o resultado foi um grande sucesso (....) O modelo gerou ineficiências e, por fim, se esgotou, mas deu certo por trinta anos” (42). A lógica que leva a falar que "deu certo" é a mesmo que leva a falar em ditabranda.

Em seguida vem um elogio a Maria Hermínia Tavares de Almeida e Leôncio Martins Rodrigues: “muito pouca gente conhecia melhor o sindicalismo brasileiro do que” eles, diz o autor.... (43). No caso do LMR, conhecia tanto que fez previsões opostas aos acontecimentos...

Tb é citado o James C. Davies, segundo quem “revoluções não acontecem quando as coisas vão mal, mas quando elas vão bem e param de melhorar; quando as expectativas foram elevadas pelo período de prosperidade, mas param de ser satisfeitas” (44). O caso em tela é outro e o máximo que se poderia dizer é que grandes lutas, não revoluções, é que se enquadram no caso citado.

De novo, quem comenta a greve do ABC em 28 de maio de 1978 é “nosso velho conhecido FHC” (45), não por acaso na Folha de S. Paulo. (45)

Nesse ponto o autor cita Lula: “ninguém tira da minha ideia que a igreja é conservadora”. Comentário que contrasta com o afirmado no capítulo 1.

Logo adiante (48): “Já falamos do papel do catolicismo como incubadora da sociedade civil brasileira. No sindicalismo, embora seu papel tenha sido um pouco menor, ele também foi fator decisivo”. 

Várias vezes FHC é citado.

Na 51: “Tornou-se difícil imaginar um partido de esquerda para o Brasil pós-abertura que não incluísse os grevistas do ABC. Afianl, na maior parte das democracias do mundo, havia um partido de esquerda com base sindical: os trabalhistas ingleses, tão próximos das organizações sindicais que, no início, a filiação ao partido devia ser feita através do sindicato; os social-democratas alemães que, como o PT, nasceram lutando por democracia” etc.

(sobre os social-democratas alemães, cá entre nós, nem a República defendiam direito)

Na 52, curiosos elogios à social-democracia sueca, ao partido comunista italiano e ao partido socialista espanhol.

Aí tem um longo trecho sobre socialismo e social-democracia, que precisa ser analisado em detalhe (páginas 52-53-54). 

Com base no que se diz nas passagens citadas, se afirma que “uma das teses principais deste livro” é que “a história do PT deve ser entendida como parte do movimento global de formação de partidos operários que, quando não foi interrompido por ditaduras de direita ou de esquerda, gerou grandes legendas social-democratas”. E aí cita Anderson e Hobsbawn.

Capítulo 3, “Os PTs possíveis”.

“Quem colocou na cabeça do Lula essa ideia do PT foram os trotskistas”. Fonte? FHC, é claro (56). Mas ele diz que FHC “exagerou” quando disse isso, que Lula já teria falado disso antes.

Tem uma “história” sucinta da Convergência Socialista. E fala dos lambertistas também. E tem uma mixórdia envolvendo Zé Maria, Almino Affonso e companhia.

Depois tem uma raciocínio revelador: os militares teriam deixado o PT prosperar porque “talvez a ditadura tivesse sociólogos que apostavam que partidos operários de massa evoluíam em geral para a social-democracia, mas não conheço registro disso”. (67)

Celso Rocha de Barros não consegue entender que não há “socialdemocracia” europeia fora da Europa...

Diz que “havia dois aspectos do PT que o tornava mais aceitável para a ditadura” (67-68), o de não ser vinculado uma rede internacional e o de ser fraco. Curioso que o fato do PT participar, posteriormente, da montagem de uma rede (o Foro) foge da cobertura do livro.

Capítulo 4 As duas democratizações

Escapa ao autor a relação entre a derrota das greves e a formação do Partido. 

Trata do desempenho eleitoral de 1982, depois passa para a formação da CUT.

Depois fala do caráter socialista ou não da CUT, para concluir que “não há dúvida de que os socialistas da Central eram sinceros em suas convicções, mas, no dia a dia entre os congressos, as pautas sindicais e de política imediata tinham absoluta prioridade”. E ele queria o quê? O terrível neste tipo de análise, para além da obviedade, é que ele confronta a realidade com uma caricatura. O "ser socialista" equivaleria a viver no ar, descolado das lutas reais... (76)

Depois diz que “é fácil contar a história do PT como sendo a história dos sindicatos”. E diz que “o sucesso da CUT mostra como, ao mesmo tempo que o PT perdia as brigas eleitorais, crescia na sociedade civil” (77).

Sobre Diadema, outra frase curiosa: “a administração petista em Diadema não conseguiu ser a vitrine que o partido esperava (...) entretanto, considerando os resultados eleitorais posteriores, deixou boa impressão no eleitorado”. Cita Valeska Peres Pinto e Cláudio Gonçalves Couto, para concluir que “o PT ainda não pensava como governo”.

Introduz o movimento das diretas, que teria reunido todas as forças políticas graças... a “atuação decisiva do presidente da OAB, Mário Sergio Duarte Garcia”. Não conta os detalhes que levaram a escolha de Tancredo Neves como candidato indireto.

E aí vem outra frase tola: “Até aí [Colégio], o que estava acontecendo era a democratização por baixo, e isso o PT jogava bem. Porém, quando ficou claro que a eleição seria indireta, o jogo voltou a ser pelo alto. E nisso o partido ainda tinha muito o que aprender” (81)

Conta a história do Colégio Eleitoral de maneira confusa e com erros (por exemplo, não houve expulsão). E termina cagando regra (não há outra palavra) sobre a decisão do PT de não ir ao Colégio: “foi um erro. Continuar com os comícios era puxar a transição para a esquerda. Não votar em Tancredo – por mais que o PT estivesse coberto de razão na defesa das Diretas – transmitia uma mensagem completamente diferente. As esperanças criadas pelos atos não se transformaram na frustração que os petistas queriam expressar com sua abstenção. Viraram esperança em Tancredo, a quem o PT parecia fazer oposição” (83). O texto todo é atravessado por este desejo anacrônico de que o PT tivesse amadurecido desde sempre (a la Benjamin Button).

Tem uma crítica anacrônica de Marina Silva a Lula. Mas ao mesmo tempo apresenta os avanços da pauta ambiental como se o Partido estivesse “fazendo progresso nas discussões da sociedade civil”.

A parte sobre Sarney é hilária: “Sarney não era um conservador radical (...) sua posse foi uma grande decepção. A campanha das diretas jamais teria sido interrompida se a expectativa fosse a vitória de Sarney no Colégio eleitoral. Sem dúvida, não era o que a população esperava da transição democrática” (86). Curiosamente, o autor não reconhece que pelo menos o PT teve sorte ao cometer o “erro” enfaticamente criticado na página 83.

Fala de Benedita e de Paim. Comentário enviesados sobre o tema racial.

Fala da gestão de Maria Luiza Fontenele, em Fortaleza.

O capítulo fecha com outra cagação de regra: “Enfim, se na democratização pelo alto o PT só apanhava e, como se viu no caso do Colégio Eleitoral, fazia besteira, na administração por baixo ele se garantia”.  E logo em seguida vem outra pérola: “E na segunda metade da década de 1980, a mará viraria a favor do PT. Em parte porque a Constituinte colocaria frente a frente a democratização pelo alto e por baixo. Em parte, porque o grande acordo pelo alto da Nova República enfrentaria crises seríssimas”. Mas se é assim, porque foi um erro? Porque foi besteira?? (92)

Capítulo 5, Quantas camisas? Qual camisa?

O autor, como historiados, é um típico jornalista: “Os comunistas ganharam hegemonia sobre a esquerda mundial quando a Revolução Russa lhes deu uma pátria mãe, um lugar em que o movimento havia vencido, sobrevivido e, nos seus próprios termos, “dado certo”. (93). O que está escrito, como está escrito, é puro anacronismo. Afinal, a Revolução Russa deu origem ao movimento comunista citado, não foi produto dele. 

O PT era um “partido de massas, com bases operárias fortes o suficientes para domesticar suas vanguardas, e a democracia brasileira estava em ascensão: nenhum partido do mundo se converteu à esquerda autoritária nessas condições”. Esta frase é bem típica do livro: a história do PT contada do ponto de vista da esquerda do PSDB.

Depois ele fala das tendências e diz que a “principal estratégia das tendências para ganhar influência no partido era fundar núcleos de base em que tinham maioria” (97). De onde ele tirou isso????

Baseia a defesa do socialismo na influência do Caio Prado Jr.

A parte mais interessante deste capítulo é quando afirma que “era perfeitamente possível que a burguesia não estivesse mesmo interessada em fazer nada muito progressista; mas isso não queria dizer que uma revolução socialista fosse possível, ou que não houvesse um enorme legado patrimonialista com o qual partido teria que lidar” (99).

Faz um sobrevoo sobre as tendências petistas. Para variar, baseado não em fatos, mas em teses...

A parte sobre Dirceu é feita sob encomenda. Tem frases do tipo: “Quando aceitou dissolver seu grupo na maioria petista”, “ao abdicar da atuação como membro de um grupo organizado” (105). Que grupo era esse? Não se diz... Sem falar na citada habilidade como datilógrafo (105)!

Fala da história da Articulação. Tem vários dados incorretos (grupo de petistas ligados à Articulação chegou a viajar para a Alemanha Oriental, na verdade foram enviados pela SNFP em nome do Partido) e besteiras (quarenta militantes estudantis, 109).

Noutra passagem diz assim: “No fim das contas, a constituição da Articulação favoreceu a evolução do PT para a socialdemocracia porque consolidou a influência de Lula e do setor sindical da legenda”. Mas reconhece que o manifesto dos 113 não era “particularmente moderado”.  Anacronismo, pois a velha Articulação foi uma coisa, a Unidade na Luta, o campo majoritário e a CNB atual foram e são outra coisa.

Tem observações tolas sobre a Nicarágua ("era como se as guerrilhas brasileiras tivessem sido bem sucedidas e liderado uma coalizão que integrasse tanto o MDB quanto os movimentos sociais”, 111).

Tem afirmações feitas diretamente do Olimpo: "os desvios da Nicarágua com relação à democracia podiam ser explicados (e talvez fossem mesmo explicáveis) pela turbulência inevitável de uma guerra civil” (112)

“Por outro lado, os limites para que o PT copiasse os nicaraguenses eram evidentes: a guerrilha brasileira havia sido destroçada” etc. (112)

Ai Weffort aparece informando que “Gramsci veio para nos salvar”, sendo apresentado como “o principal intelectual do PT, chegando a ocupar a secretaria geral do Partido” (113). E como se não bastasse, nos informa que “intelectuais como Weffort e Moisés ajudaram a colocar Gramsci no centro do debate petista”. Ser tucano ou ser amigo de tucano é mesmo tudo de bom.

Há uma vulgata sobre Gramsci, que inclui a afirmação “o poder não se toma, se constrói”, omitindo a versão correta do que o PT dizia: “o poder não apenas se toma, também se constrói”.

O cidadão deve gostar muito do Weffort, sobre quem diz: “filtrando Gramsci pela crítica de Rosa Luxemburgo”. Cá entre nós, Gramsci e Rosa teriam submetido Weffort a severas penas.

O mais incrível, na linha do deixa que eu invento, é a frase: “Na visão política de Gramsci, a violência continua existindo, mas quase sempre é sinal de fraqueza. Uma hegemonia burguesa robusta para ele não é o governo Médici. É o governo Lula.” (115) Mais uma demonstração das pontes secretas que unem a interpretação da ultraesquerda e a interpretação da tucanagem.

Na sequência fala da OSI/O Trabalho e seu papel na Carta aos Brasileiros.

O capítulo termina de maneira hilária (116-117). A fundação da Articulação dos 113 seria a origem da social-democratização. Como foi que isso deu na posição adotada frente ao Colégio Eleitoral em 1985, não se explica. Celso Rocha de Barros lê a Articulação dos 113, criada em 1983, com os olhos da CNB de 2023.

Capítulo 6, o caramujo

Trata do congresso constituinte de 1987-1988. Diz que foi ali que “a democracia brasileira começava a funcionar para valer” e o PT dava início a seu processo de revisão ideológica” (120)

Fala dos causos de sempre (assalto a banco, Leme), fala do projeto de Constituinte apresentado pelo PT. Fala besteira sobre o projeto Afonso e Arinos ("antecipou o que viria a ser a Constituição de 1988, ficava garantido que o Estado brasileiro deveria se tornar um Estado de bem-estar social, o crescimento ficaria para os cidadãos deliberarem através de mecanismos de participação social", 127).

Uma parte interessante sobre a dificuldade do PT combinar desenvolvimento com democracia (mas a questão, cá entre nós, transcende as dificuldades do PT).

“É indiscutível que a experiência de participação do PT na Assembleia Constituinte deixou o PT muito mais confortável dentro das instituições políticas brasileiras” (128). Mas se foi/era assim, porque mesmo o PT votou contra o texto final da Constituição de 1988?

Outra passagem assumidamente anacrônica, confirmando o que já foi dito sobre “a história do PT como ela deveria ter sido na opinião da esquerda tucana”: “Na Constituinte, a esquerda agiu razoavelmente unida (ou, ao menos, muito mais unida do que de hábito. Era como se o Partido Popular de Almino Afonso tivesse sido criado para escrever a Constituição brasileira”, 131).

Tem passagens interessantes sobre o SUS e sobre o Ministério Público.

Revelador discurso de Plínio, que mostra de onde veio - no caso da esquerda - certa crença, ilusão e estímulo a judicialização: “criamos um organismo que, a rigor, não depende de poder algum, que quebra uma multissecular forma de organização do Estado” (135).

O engraçado é a conclusão: “No finalzinho da Constituinte, o PT tomou uma daquelas decisões que visam sinalizar pureza, mas que só indicam sectarismo”(137). O autor é assim: como não concorda, nem entende, desqualifica. Cita a fala de Lula, mas diz que “mesmo assim, foi um erro votar contra o texto final da Constituinte” (138). Sugere que o PT poderia ter feito um voto em separado, como fizeram deputados liberais liderados pelo Bob Fields. E insiste que “o voto contra deu a impressão de que o partido se opunha ao documento que marcava a volta da democracia ao Brasil. Essa acusação voltaria para assombrar o PT em momentos importantes” (138).

Capítulo 7, 1989

Atribui ao Marcos Nobre a expressão “peemedebismo”. Amigos são coisa importante.

Cita a queda do Muro e o massacre da Praça da Paz. Cita Luiz Favre. Fontes fidedignas também são tudo de bom. Duas citações críticas à Alemanha Oriental são dadas em off. Por qual motivo falar em off, a essa altura do campeonato, sobre esse tema??? Incrível.

Transcreve na página 145 um trecho das opiniões econômicas do PT, escrito depois da Constituinte, mostrando que, na vida real, o PT seguia mais a esquerda do que o autor dá a entender. Mas ele, incrivelmente, diz que a crítica ao Estado feita pelo PT seria baseado num diagnóstico “semelhante” ao de Afif e de Covas. E vem em seguida outro trecho genial, revelador da matriz tucana de pensamento do autor: “É importante notar que essa convergência de diagnóstico porque nos anos seguintes a crítica de esquerda ao programa neoliberal foi uma resposta a um problema real: a crise do modelo de desenvolvimento puxado pelo Estado”. (145)

Fala das articulações de 1989. 

Diz, contra todas as evidências, que “o fato de Brizola e Lula terem praticamente a mesma votação no primeiro turno também mostra que o PT poderia ter votado em Tancredo no Colégio Eleitoral e a favor do texto final da Constituição, como fez o PDT, sem prejudicar sua imagem de independência em relação ao governo Sarney” (154).

É incrível a qualidade, profundidade e sapiência deste tipo de conclusão. Isso apesar de dizer, logo em seguida, que “uma diferença tão pequena mostra como a ascensão do PT a principal partido da esquerda brasileira nunca foi inevitável. Se as cartas nas mãos de Brizola fossem só um pouco melhores, ele poderia ter ido ao segundo e, em caso de vitória, consagrado a hegemonia trabalhista na esquerda do país. No mínimo, teria retardado em muitos anos o fortalecimento do PT” (155).

E o que teria feito a diferença? Segundo o autor, a paciência e a disciplina dos petistas!! O radicalismo dos petistas, isso pelo visto não teria contribuído em porra nenhuma. 

A parte sobre a crise da URSS é dispensável. E, a luz do que ocorreu na China, totalmente errada. A incapacidade de reformar sem acabar não era uma inevitabilidade.

Insiste na tese (atribuída corretamente a Lula e incorretamente a todos os dirigentes petistas) que foi um erro não pedir o apoio a Ulysses (159). E afirma que “o apoio de Ulysses teria provavelmente decidido a eleição. O imenso peso do PMDB seria uma força moderadora crível para o radicalismo do PT” (159). Novamente, anacronismo puro e total desconhecimento do que ocorreu no país em 1989 (recorda a inocência dos que achavam que Bolsonaro nunca seria eleito em 2018). 

Mas é interessante ver a que serveiu repetir esta tese sobre a diferença que Ulysses teria feito: pavimentou o caminho para o frente-amplismo de hoje em dia.

Outra passagem chocante: “hoje, vários dirigentes do Partido, a começar por Lula, admitem que foi bom ter perdido” (160) Que deve ter gente a pensar este tipo de idiotice, certamente; mas como alguém pode achar bom ter perdido para Collor????

Outro trecho curioso: depois de 1989, “era preciso mover o partido para o centro”, mas “quando o PT começou a aceitar uma economia de mercado regulada em vez do socialismo, o clima ideológico virou completamente contra qualquer regulação” (161). Traduzindo: quando um pedaço do PT foi chegando perto de teses desenvolvimentistas e socialdemocratas, não havia mais ambiente para que estas teses fossem realizáveis.

Capítulo 8, o centro sem Estado

“O centro dos anos 1990 tinha muito menos Estado do que o do pós-Guerra. E era para lá que o PT precisava ir, se quisesse ganhar as eleições” (163). É a TINA ("não há alternativa") versão tucana.

Falando da desindustrialização prematura, o autor afirma que “o Brasil deixou de ser industrial antes de se tornar rico. Com isso, a própria possibilidade de um partido social-democrata brasileiro, baseado em sindicatos, como o PT tinha tudo para ser, foi colocada em xeque. (...) Quando São Bernardo foi à social-democracia, ela já não estava mais lá” (165). O autor não percebe que não existe socialdemocracia europeia fora da Europa...

Tem frases inexplicáveis: “o PT sempre soube por que perdeu a eleição de 1989” (167).

Ou então: “em 2019, durante a pesquisa para este livro, perguntei a Francisco Weffort, o maior intelectual petista na década de 1980, um dos grandes estudiosos e críticos do populismo brasileiro, rompido com o partido há 25 anos, se o lulismo era um populismo” (167).

Não sei com base no quê se afirma que Weffort era o "maior intelectual petista na década de 1980".

Nas 170-171 e seguintes, o livro fala do balanço petista sobre a crise do socialismo real. Vendo o que aconteceu depois, tem vários poltrões. 

Curiosamente, depois de apresentar a posição do MAG, que não estava certo, mas não fazia parte dos poltrões, Celso Rocha de Barros diz que MAG, “por outro lado, também foi um dos grandes representantes de uma corrente muito forte no PT, o terceiro-mundismo, a aliança entre os países pobres para fazer frente aos países ricos. É uma ideia ótima, mas traz o risco de que tudo que se critique na discussão sobre socialismo volte pela porta do anti-imperialismo: as ditaduras de esquerda do Terceiro Mundo deixam de ser apontadas como modelos, mas tampouco são criticadas, pois são aliadas potenciais da luta terceiro-mundista. Essa tensão nos permite perguntar, inclusive, quanto da identidade social-democrata vem da posição da Europa na Guerra Fria, quando o continente fez questão de não dissolver sua identidade em nenhum dos polos ideológicos. Os social-democratas do Terceiro Mundo enfrentam outros desafios diplomáticos e isso talvez influencie suas formulações sobre si mesmos”. 

Para além de outros problemas do raciocínio acima, o principal segue sendo o já comentado: não há espaço para socialdemocracia europeia fora da Europa (e, também, fora daquela Guerra Fria) (173)

Na 175, se insinua que o tema da proporcionalidade foi adotado em 1991, na verdade foi em 1987.

Hilário o trecho da resolução congressual citado na página 177: se não resolvermos determinados problemas, o discurso acerca de nosso projeto de socialismo renovado ficará no papel.

Passa correndo pelo Fora Collor, pela expulsão da CS, sobre a ida de Erundina para o governo Itamar, sobre a criação do HV e sobre 1994.

Não fala nada da criação do Foro de São Paulo, ocorrida em 1990.

Elogia o trabalho do Lincoln Secco, intitulado História do PT, que teria sido o “autor que melhor compreendeu as dificuldades do PT em realizar suas potencialidades socialdemocratas” (183). Em latim, lupus lupus agnoscit.

Capítulo 9, PT versus PSDB

Segundo Celso Rocha de Barros, FHC teria alertado os tucanos sobre os riscos que corriam, adotando o nome de socialdemocratas, caso o PT se moderasse.

A autópsia da derrota de 1994 dentro do PT teria sido “notavelmente franca e aberta”. Ele cita a TD que Alípio Freire editou. Sobre isso, vale dizer: de fato, as análises da esquerda petista não incorrem no chapa-branquismo.

Fala dos quadros que o PT perdeu para o PSDB: Augusto de Franco e Weffort. Grandes quadros, grandes perdas, insubstituíveis: hahaha.

Fala da revista Esquerda 21.

Fala da postura de um setor do PT na eleição estadual de SP, em 1994, pró-Covas.

Fala do debate sobre a previdência e da proposta de Eduardo Jorge.

Fala do Encontro de Guarapari, numa versão desidratada do ocorrido.

Fala do MST.

Diz que “pela primeira vez o PT teve que fazer oposição a um governo funcional”,  o de FHC. Mas o melhor mesmo é o seguinte trecho: “o Brasil nunca teve uma democracia tão ‘normal”. Essa foi, inclusive, uma época de ouro para a ciência política brasileira, que mostrou que a política brasileira funcionava bem melhor do que se pensava” (207). 

Uma era de ouro mesmo, considerando o sucesso de muitos cientistas políticos...

Fala do PT em processo de moderação e o PSDB que parecia civilizar a direita herdada da ditadura.

Atenção para o trecho 207-208 (esquerda brâmane).

Capitulo 10, a profissionalização.

Confessa ter havido “sérias críticas” ao preço de venda da Vale (página 210). "Sérias críticas", pois afinal de contas tucano não se corrompe, algo o levou a merecer críticas... 

Noutra página (214), chega a dizer que “algumas medidas do governo tucano ajudaram a reduzir a corrupção brasileira”.

Fala do encontro do Hotel Glória.

Cita Milton Temer e sua microtendência...

Cita FHC emulando Brizola, acerca do PT como UDN de macacão (só não cita de que lado ficou FHC quando o fundamentalismo de procuradores, da mídia e de tudo o mais veio para cima do PT). (215)

Fala do Paulo de Tarso Venceslau. Diz que ele “não deveria ter sido expulso do Partido”. É engraçado, o autor de uma “história” dar tantos conselhos... 

Diz que Serra foi “talvez” o “melhor ministro da Saúde da história brasileira” (218).

Conta sobre 1997 uma história excessivamente sumária sobre a crise do RJ, história que em vários aspectos não é verdadeira (ver páginas 218-220).

Admite que o ocorrido em 1998 foi um estelionato eleitoral, mas salva a cara de FHC; “embora FHC não tivesse a medida exata do tamanho do estelionato: tinha a sincera esperança de que seria possível desvalorizar o real de maneira gradual e controlada”. (221)

Sobre o Fora FHC, apresenta a versão Dirceu (e não a de quem defendeu a proposta). (222)

Curiosamente, não fala do debate sobre a introdução do PED.

Nem fala da renúncia (ameaça de) do Dirceu, no debate sobre o Fora FHC.

Apresenta o tema do José Alencar de maneira mais dramática do que de fato foi. 

E não desenvolve, embora aponte explicitamente, o contraste entre a “ruptura necessária” de Celso Daniel e a Carta aos Brasileiros de Palloci. 

Fala da morte de Celso Daniel.

Não conta adequadamente o que foi o debate acerca da Carta aos Brasileiros no DN.

Capítulo 11, a socialdemocracia petista

Cita Gilberto Carvalho apresentando como “trágica” a disputa entre PT e PSDB. 

Fala da composição ministerial do primeiro governo Lula.

Cita o documento A Agenda Perdida (233).

Cita Nelson Barbosa como heterodoxo (234), o que em algum momento da vida deve mesmo ter sido verdade (Malan é um bom exemplo das piruetas e saltos mortais de alguns heterodoxos).

Diz que Lula teria perdido a paciência com Palocci quando o PIB foi de queda, não apenas baixo.

“Justa ou injustamente, muita gente no Partido colocou a culpa em Palocci” pelos resultados ruins das eleições de 2004. (235) Mais uma vez se confirma como ter amigos pode ser importante, para definir como voce ficará retratado para a história.

Cita a proposta de reforma da previdência (236).

E sobre as expulsões dos 4 parlamentares, diz o seguinte: “Os militantes expulsos tinham, e continuaram tendo, histórias valorosas de militância, mas a decisão da direção nacional foi correta” (237). A votação foi 55 a 24. A posição dos 24 que votaram contra a expulsão não comparece no texto, embora as falas deste momento do DN tenham sido inclusive publicadas pelo próprio Partido. Acho que esta passagem do livro não obedece nem mesmo ao padrão manual de redação...

Muito pior é a afirmação seguinte: “Os petistas que, sendo contra a reforma, votaram a favor dormiram com a consciência pesada. Por outro lado, se os radicais tivessem vencido e derrubado já no primeiro ano a estrutura de governança do primeiro governo de esquerda do Brasil, talvez não dormissem tranquilos”. (237) Não é uma história, é uma versão. Uma versão totalmente legítima, mas não é história.

Cita a matéria de Larry Rohter (238).

Ver a página 240 com atenção. Os dados não confirmam a afirmação de Barbosa. A austeridade nos comeu anos em que a situação já era favorável.

Ver também o debate sobre o PSOL e sobre a tributação, também na 240.

Outra afirmação genial: “o melhor resultado das políticas focalizadas foi o Bolsa Família, marca registrada do lulismo”, que teria DNA tucano... (241). Acontece que o "melhor resultado" do governo Lula decorreu da geração de empregos, da expansão do salário mínimo, da aposentadoria... tudo aquilo que a tucanagem trabalhou para destruir.

Mais adiante o texto diz o seguinte sobre os avanços do governo Lula: “nada disso foi feito com sacrifício dos ricos”. Ou seja: teria irritado os caras sem causar dano a eles (245).

Ver na pagina 248 o debate sobre o consumo e a politização.

Na página 249 e seguintes Celso Rocha de Barros fala das socialdemocracias tardias, conforme Jorge Lanzaro. Novamente o debate sobre o que seria socialdemocracia, no mundo e na América Latina. Uma mixórdia. Novamente, zero de reflexão sobre o Foro de SP.

Capítulo 12, comandando o atraso

Sobre Jefferson, é incrível: “Não há provas de que o PT tenha mesmo constituído um caixa dois único .... É difícil saber se a descrição do “caixa único” é incompleta, falsa ou verdadeira apenas sobre os primeiros anos do governo. Mas a evidencia de que o PT teria preferido ficar com os cargos e repassar o caixa dois a seus aliados é consistente com algumas evidências. Havia muito mais petistas no governo do que era justificável pelo tamanho da bancada do PT” (255).

Este tipo de raciocínio, feito no parágrafo acima, é filho legítimo do modo Lava Jato de pensar.

Segue-se um texto padrão Folha sobre o mensalão.

Tem direito a elogio a Lava Jato: “desdobramentos políticos de curto prazo muito ruins” mas “isso não apaga sua maior realização”, ter demonstrado que os partidos políticos eram financiados pelas empreiteiras etc. (258-259)

Afirmações de que o PT teria indicado Duque para “desviar dinheiro da empresa” (258-259)

Ver na página 261 a afirmação atribuída a um “jurista próximo do partido”. A fonte não é citada. Método jornalístico em livro de história é drurys.

A página 261 e suas viagens na maionese.

Importante ler o que está na página 262. Contradiz todo o restante.

Depois vem o debate petista sobre o mensalão. Com as simplificações e erros de sempre (262-264)

Digressão sobre voto proporcional e distrital, com eufemismos vários (266-267). Cita o Vacarezza.

Depois vem a queda do Palocci, com a frase: “Palocci foi um dos grandes ministros da Fazenda da história do Brasil” (269).

Celso Rocha de Barros atribui à Gilberto Carvalho o seguinte: “A dupla Palocci-Meirelles foi essencial para nos dar credibilidade, colocar a casa em ordem e dar condições de fazer o avanço seguinte” (269).

13, a volta do Estado

O máximo do equívoco factual: “Na eleição para a liderança do PT de 2005, o governo praticamente assumiu a condução do partido” (271).

“O Brasil não tinha interesse em hostilizar os americanos, com quem não tinha muitas pendências além da Alca” (273). Incrível.

Nas páginas 274 e 275, fala da política externa. Ouve o Rubem Barbosa... Diz que Celso Amorim teria “repreendido duramente” Marco Aurélio Garcia. Digamos que esta suposta repreensão seja algo pouco provável, mas vida que segue.

E, na página 276, é dito: “A América Latina estava alinhada com o progressimo, com a democracia e com a integração continental. Era tudo que Lula, Amorim e Garcia queriam”. Foro de SP? Zero.

Fala de Dilma. Cita a famosa crítica dela ao déficit nominal zero (rudimentar). Bem atual, aliás. Páginas 277-278.

Cita a reforma administrativa feita por Paulo Bernardo no MS.

Reclama dos investimentos feitos pela Petrobrás (280), relacionando-os com a corrupção.

Fala da mediação do Brasil no Irã, mas não cita a sacanagem de Obama.

Diz que “na Venezuela a democracia morreu” (286). Não agora, mas já ao longo da década de governo Chávez.

Sobre a crise de 2008, afirma que “as causas da crise ainda são objeto de debate”, mas aponta o dedo acusador - incrível isto!!! - para o excesso de poupança asiática e para o fato das empresas emprestarem para “qualquer um” (287).

Diz que a diferença de política macroeconômica do primeiro para o segundo governo Lula foi “muito pequena” (288).

Diz que “para surpresa geral”, Dilma não venceu a eleição no primeiro turno. (290) Surpresa geral, uma ova.

Critica o Serra, mas num clima de vamos passar o pano (291).

14, Dilma tenta o salto

Ler a página 292, apresenta uma dicotomia falsa sobre o que ocorreu.

Diz que “todos os testemunhos” confirmam que Dilma era “uma pessoa honesta”. O lavajatismo da Folha é incrível: as pessoas tem que provar que são inocentes (293).

Na página 295, adota o famoso critério “a culpa é de Dilma”.

Fala de uma ligação para FCH na 297. O FHC é onipresente no livro.

Discussão sobre LGBT e sobre cotas.

Apresenta Gleisi Hoffmann (301, 302).

Apresenta Haddad (304).

Fala da CNV e do general Villas Boas (310).

Fala do aumento das passagens em 2013. Segundo o livro, Dilma teria pedido a Haddad que adiasse o aumento.

Fala de 2013, do jeito esperado.

Associa, neste contexto, o PT dos anos 1980 com o Syriza e com o Podemos. De novo, não entendeu nada do que era o PT e, tampouco, o que são esses dois partidos, hoje ambos em dificuldades (313).

Fala do tema do plebiscito na linha Temer-Cardozo (“era inconstitucional”).

Traça um “paralelo óbvio entre junho de 2013 e as greves de 1978: as coisas que vinham rapidamente melhorando no país de repente pararam de melhorar”. Besteira, não é isso e não é óbvio.

Fala do movimento Volta Lula (316-317).

15, o PT cai primeiro

Apresenta, na página 321, uma reconstrução do que teria ocorrido entre 2015-2018. A linha é reduzir a responsabilidade dos tucanos.

Aponta que Mantega era a favor do ajuste de 2015 (322).

Diz que a “nova direita” (tipo Kim Kataguiri) “poderia ter sido um fenômeno positivo” (324).

Não conta corretamente a operação do Cunha contra Dilma.

Sobre as medidas da Lava Jato, chega a dizer que “cada uma dessas medidas era criticável, mas cada uma delas também podia ser defendida. Todas, entretanto, traziam riscos de abuso e manipulação política. Em 2015, o Brasil achou que valia a pensa correr esse risco.” "O Brasil achou", uma ova!!! (327)

Fala de Michel Temer.

Diz que houve resistências “no governo” a indicação de Temer como vice. Houve resistências no Partido, ora bolas (329).

Fala de Cardozo.

Erra sobre a Carta de Salvador, não explica que houve votação, divisão do plenário, votação de 55% a 45%. (333)

Lembra que foi Falcão que instruiu votar contra Cunha no Conselho de Ética (336).

Apresenta de modo curioso dois fatos: a saída de Cardozo e a condução coercitiva de Lula. Parece que a segunda teria ocorrido depois da primeira, quando na verdade Cardozo era ministro quando houve a condução (338). Amigos, para variar, são tudo de bom.

As observações sobre Moro na 338 são vergonhosas.

O mesmo vale para a maneira como se fala da decisão de Gilmar Mendes impedindo Lula de tomar posse como ministro (339).

Não há história em nada disso, há o ponto de vista da Folha. E muita pósverdade. Exemplo: “os deputados que votaram pelo impeachment de Dilma derrubaram a presidente para matar a Lava Jato” (340).

As páginas 342 e 343 são hilárias.

A derrubada de Dilma não foi um golpe, foi um “erro” (342).

16, democracia em crise

Na 344 e 345, nega que tenha havido golpe.

Divertido o que ele fala das expectativas de Haddad e de Gilberto Carvalho, na 350.

Sobre a prisão de Lula, ver 351 em diante.

Sobre Bolsonaro, ver 352 em diante.

Chega a ser patético: “não se sabe se a ameaça do general Villas Bôas influi na decisão do STF”, negando a Lula o direito de ser candidato (354).

Diz que não houve uma aliança de democratas contra Bolsonaro: “fingiram não ver quem era”. (356)

Afirma que, “no momento em que termino esse livro, Bolsonaro planeja, em plena luz do dia, sem que mais ninguém duvide de seus propósitos, um golpe caso seja derrotado na eleição de 2022” (359).

Ao mesmo tempo, chega a dizer que a prisão de Lula “foi extemporânea: ocorreu quando a operação já declinava” 360)

Ver as três últimas páginas.

Vaticina que “em caso de vitória petista, estaremos diante de certa ironia histórica: para ser bem-sucedido, Lula e o PT terão que realizar tarefas semelhantes às feitas por Ulysses Guimarães e o velho PMDB nos anos 1980” (360). Se isto for/fosse verdade, valeria especular sobre como evitar o mesmo desfecho daquela época. Mas isso não é feito.

Celso Rocha de Barros afirma que “a tarefa de reorganizar a democracia brasileira ficará para o PT e seus aliados. Isto é, ficará com o partido que não participou da “democratização pelo alto’ dos anos 1980”. (361). Isto é parcialmente verdade, pois mesmo que setores importantes do PT pensem exatamente assim, o dilema histórico não cabe no verbo "reorganizar" (organizar de novo).

Em resumo: uma “história” do PT, segundo o Manual de Redação da Folha.



















Juliano, 40

A respeito da festiva mensagem abaixo, apenas um detalhe: a frase original era "contra quase tudo, contra quase todos e contra a maioria de nós mesmos, venceremos!"

E foi usada pela primeira vez - se a memória não falha - quando a Articulação de Esquerda, recém-nascida, rachou na eleição da direção do PT de São Paulo capital.

Nós apoiamos Sonia Hipólito para a presidência do Diretório Municipal. Não vencemos. Mas a frase ficou. E, quem diria, é agora citada por ocasião do aniversário de 40 anos do Juliano. Aproveitando, parabéns a este que, em algum lugar do passado, passou em outras fileiras certos verões...








sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Recomendo leitura

 Recomendo a leitura do texto A recuperação “surpreendente” da economia brasileira.

O texto pode ser lido aqui:

A recuperação “surpreendente” da economia brasileira - Terapia Politica

A seguir destaco alguns trechos.

Trecho 1

"O quadro geral é de sucesso, portanto, reivindicado compreensivelmente pelo governo Lula. Atenção, porém. Não vamos exagerar e nem creditar ao novo governo méritos indevidos. O crescimento do PIB ainda é modesto. E uma parte significativa dele reflete o desempenho do setor primário exportador (agropecuária e mineração), que responde a fatores climáticos e reflete o extraordinário progresso desse setor nas décadas recentes".

Trecho 2

"A recuperação pode durar? Ela dependerá, daqui para frente, mais do impulso ao investimento. Fundamental será a eficácia do novo PAC, o programa de investimentos recém-lançado pelo governo. A política monetária do Banco Central precisa atrapalhar menos. (...) Importante, também, que a busca da meta ambiciosa de déficit primário zero em 2024 seja alcançada, sem obstruir o novo PAC e, se for politicamente possível, com a tributação dos super-ricos (....) .

Trecho 3

"Mantido um ritmo de crescimento na faixa, digamos, de 4% ao ano, o Brasil deixará para trás o tempo de estagnação e consolidará a sua posição de 8ª economia do mundo em termos de PIB por paridade de poder de compra, um pouco abaixo da Indonésia e acima do Reino Unido e da França".

O trecho 1 nos faz lembrar de algo fundamental: é possível crescimento nos marcos de um modelo primário exportador e controlado pelo setor financeiro. Portanto, para um governo de esquerda, não basta crescer, é preciso crescer implantando outro modelo.

O trecho 2 nos faz lembrar que não basta crescer com base no consumo, é preciso crescer com base no investimento; e investimento para valer depende do setor público. E tanto o Banco Central quanto a meta de déficit zero conspiram contra isso. 

O trecho 3 nos faz lembrar que o Brasil pode voltar a posição que já ocupamos, quando o PT foi criado e denunciava tudo isso que está aí. Portanto, se queremos algo além do que já tivemos, é preciso crescer muito mais e crescer de um jeito diferente.


Fufuca provoca saudades

Saudades do tempo em que um dos nossos problemas era enfrentar aqueles que - no debate sobre o chamado socialismo real - jogavam fora a criança junto com a água de banho.

Naquela época, chamava especial atenção o idealismo de algumas críticas, que desconsideravam totalmente as condições materiais, a ação dos inimigos, a correlação de forças etc.

O socialismo tinha que ser perfeito ou não seria socialismo.

O tempo passou.

E hoje, mais de 30 anos depois, o debate sobre o socialismo (e a luta por ele) perdeu muito espaço dentro da esquerda.

E,  no lugar do idealismo de antanho, hoje temos grandes doses de pragmatismo.

O engraçado é que os pragmáticos de hoje são, muitas vezes, os idealistas de antanho.

Antes, todos os problemas seriam ou falta de vontade ou erro da linha política.

Agora, não adiantaria de absolutamente nada ter a vontade de fazer diferente, não adiantaria mudar a linha política, não adiantaria tentar fazer diferente, pois simplesmente não haveria alternativa.

Alguns exageram na mão e dizem que o governo está sempre certo e ponto final.

Outros buscam argumentar e afirmam que "sem voto no Congresso, não se governa. Deveríamos ter aprendido alguma coisa com a derrocada golpista do governo Dilma".

Pois é: deveríamos ter aprendido várias "coisas" com o golpe contra Dilma.

Entre elas, que a politica de relação entre governo e congresso, esta que está sendo adotada agora, não impede golpes.

Nosso governo é um governo em disputa. Não é perfeito e nunca será. Perfeito ou não, é o nosso governo. E sempre há como melhorar, sempre há como fazer um pouco diferente, sempre há como fazer melhor.













quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Quando Dias Toffoli vai pedir para sair?

Primeiro o cidadão reconheceu que condenou Genoíno, sabendo que ele era inocente.

Depois o mesmo cidadão afirmou que o ocorrido com Lula foi “um dos maiores erros judiciários da história do país”.

O próximo passo, suponho, será contar em detalhes por quais motivos ele próprio foi cúmplice, ativo e passivo, desses tais "erros".

Em seguida virá a confissão: não foram “erros", mas sim crimes.

Finalmente, o pedido de demissão, acompanhado da renúncia voluntária a todos os direitos.

Exceto, talvez, o de escolher onde ficará preso.

Afinal, o imenso prejuízo causado pelos "erros" precisa ser "pago", de alguma forma.

E isso não será nem erro, nem vingança, apenas justiça.





El camino chileno al socialismo, 50 años después


 

Acaba de sair um de muitos livros rememorando e debatendo os 50 anos do golpe de Estado no Chile, contra o governo de Salvador Allende.

No texto abaixo, há um texto de minha autoria, que reproduzo a seguir.

El camino chileno al socialismo, 50 años después

Valter Pomar*

El 11 de septiembre de 1973, el gobierno chileno fue derrocado por un golpe de Estado. El presidente chileno Salvador Allende, elegido en 1970, murió el día del golpe. Luego comenzó una dictadura militar que sólo retrocedería a partir de 1988 (victoria del “no” en un plebiscito) y 1989 (elección de Patrício Aylwin).

Pero el repliegue fue parcial: por ejemplo, hasta el día de hoy los chilenos viven bajo una Constitución heredera de la aprobada en 1989. Por cierto, los herederos del general Pinochet -el rostro más identificado con el golpe de 1973 y la dictadura militar que le siguió- siguen siendo muy fuerte electoralmente, como se vio tanto en la reciente elección presidencial (19/12/2022) como en la elección de quienes aprobarán la “nueva” Constitución (5/7/2023).

El 11 de septiembre de 2023, por tanto, habrá quienes celebren y quienes denuncien el golpe de Estado que ya cumple cincuenta años. Y esta confrontación se extenderá también al debate de ideas, enriqueciendo cuantitativamente, no necesariamente cualitativamente, la ya muy extensa bibliografía sobre Chile, sobre el gobierno de la Unidad Popular, sobre la dictadura, sobre la Concertación, su crisis y los últimos acontecimientos.

Para la izquierda latinoamericana –es decir, para aquellas fuerzas políticas y sociales que defienden la integración regional, la soberanía nacional, el bienestar social, las libertades democráticas, el desarrollo y el socialismo– Chile y Cuba, Allende y el Che, son referentes obligatorios en cualquier debate estratégico.

Sin embargo, en cierto sentido, la experiencia chilena tiene más que enseñar a aquellas fuerzas políticas que, desde 1998, han conquistado o participado en gobiernos nacionales en países como, por ejemplo, Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguay, Paraguay, Bolivia, Ecuador, Colombia, Perú, El Salvador, Honduras, y por supuesto, el propio Chile.

Esta fue la opinión que defendí en 2013, cuando participé en un debate promovido por el Partido Comunista de España, sobre “la experiencia de la Unidad Popular, 40 años después del golpe”. Lo que sigue es una adaptación y actualización de dicha contribución.

En primer lugar, rindo homenaje a los que cayeron, tanto resistiendo el golpe como luchando contra la dictadura. También vale la pena rendir homenaje a quienes ayudaron a construir la victoria de la Unidad Popular y sus tres años de gobierno, que mejoraron la vida de los trabajadores en Chile.

Además de homenajear a los que lucharon, cabe preguntarse: ¿la experiencia histórica de la Unidad Popular y el golpe de Estado nos puede ayudar a enfrentar los desafíos actuales de la izquierda?

Nuestra respuesta a esta pregunta es: sí.

Ya se ha dicho que la izquierda necesita afrontar y superar tres déficits teóricos: el análisis del capitalismo del siglo XXI, el balance del socialismo del siglo XX y el debate sobre la estrategia.

Es precisamente en este tercer tema que, en mi opinión, la experiencia chilena de 1970-1973 nos puede ayudar mucho.

La construcción del socialismo supone que la clase obrera tiene el poder de reorganizar la sociedad. El tema del poder, en qué consiste, cómo construirlo, cómo conquistarlo, es por tanto un tema clave en toda reflexión política.

Durante el siglo XIX, los socialistas vieron el tema del poder a través del prisma que ofrecía la revolución francesa: 1789, 1848, 1871 fueron los paradigmas clásicos en torno a los cuales giraba la imaginación de anarquistas, sindicalistas revolucionarios, socialistas, socialdemócratas, populistas, comunistas, etc.

Las revoluciones rusas de 1905, febrero de 1917 y octubre de 1917 ofrecieron un nuevo paradigma, en torno al cual giró durante décadas la reflexión política, táctica y estratégica de los distintos sectores de la izquierda mundial.

Los paradigmas “francés” y “ruso” tenían similitudes: el protagonismo de la plebe urbana, el papel contradictorio de las masas campesinas, la insurrección seguida de guerra civil y contra enemigos externos, el carácter “permanente” de la revolución, el fantasma de la “Termidor”.

El aislamiento de la Rusia soviética y la derrota de los intentos revolucionarios en Alemania, Rumania e Italia, entre otros, dieron lugar -en las décadas de 1920 y 1930- a una reflexión sobre la estrategia a adoptar, ya sea en los países capitalistas desarrollados o en los países que no formaban parte del núcleo central metropolitano.

Esta reflexión tuvo lugar simultáneamente con otros debates, igualmente complejos, sobre la construcción del socialismo en la URSS, sobre cuál debe ser la política internacional de un Estado socialista, sobre la evolución del capitalismo y el imperialismo posteriores a la Primera Guerra Mundial, sobre cómo posicionarse frente a la cada vez más probable (segunda) guerra mundial.

Los escritos de Antonio Gramsci datan de este período, aunque su influencia (en varias versiones y lecturas contradictorias) se establecerá después de la Segunda Guerra Mundial, en una situación mundial diferente a la que sirvió de base a las reflexiones del comunista italiano.

En todo caso, hasta el final de la Segunda Guerra Mundial, cuando se debatían cuestiones de poder, predominaba en la izquierda el paradigma de la revolución rusa: el papel de vanguardia de la dirección del partido, el protagonismo de los plebeyos urbanos, la acumulación de fuerzas vía luchas sindicales, políticas e ideológicas, dualidad de poder, insurrección en el marco de la guerra civil, construcción del socialismo. Tal “modelo” estuvo presente incluso en quienes defendieron los Frentes Populares, incluso en sus versiones más moderadas, de alianzas estratégicas con sectores de la burguesía, en las políticas conocidas como “etapistas”.

Un nuevo paradigma se impondrá con el triunfo de la revolución china de 1949. En este paradigma se sigue destacando el papel del Partido, pero es un partido-ejército. El principal protagonismo pertenece a las masas campesinas. Las ciudades, otrora escenario de la insurrección decisiva, ahora están “rodeadas por el campo”. La anterior acumulación de fuerzas pasó a incluir experiencias precoces de doble poder, con liberación de territorios, formación de gobiernos y ejército popular. La insurrección urbana está al servicio de la guerra popular prolongada.

A estos dos paradigmas (“ruso” y “chino”) hay un tercero, que fue la guerra de liberación nacional. Este tercer paradigma se materializará de dos formas principales. El primero de ellos es antinazi, en países como Albania y Yugoslavia (donde a la derrota de los nazis le sigue el establecimiento de gobiernos de orientación socialista); Grecia (en este caso, las guerrillas comunistas son derrotadas por la intervención británica); Italia y Francia (en estos dos casos, la política de los partidos comunistas fue no transformar la guerra en revolución). La segunda forma en que se materializa el paradigma de la guerra de liberación nacional es la de la guerra anticolonial, como es el caso de Vietnam, Laos, Camboya, Angola, Mozambique y Guinea Bissau. Cabe mencionar, aun, dos situaciones contemporáneas: el Sáhara Occidental y Palestina. Vale la pena recordar que el que, quizás, fue el primer caso de una revolución anticolonial victoriosa, fue el de las llamadas 13 colonias contra el Imperio Británico.

Estos tres paradigmas (“ruso”, “chino” y “liberación nacional”) influyeron en el debate político y estratégico de la izquierda latinoamericana, desde la década de 1920 hasta la de 1950, en especial influyeron sobre aquella izquierda que toma en cuenta el impacto de la revuelta de Túpac Amaru, la revolución haitiana y la gran revolución mexicana, episodios que aterrorizaron a la élite continental.

Otra gran influencia, obviamente, fue la victoriosa revolución cubana de 1959: una revolución democrática antidictatorial, basada en la combinación de diferentes formas de lucha y organización, con énfasis en la combinación de la guerra de guerrillas en el campo y la insurrección urbana; revolución que, una vez victoriosa, demostró ser cada vez más popular, democrática y antiimperialista; y que acaba convirtiéndose en una revolución socialista.

La revolución cubana, especialmente sus interpretaciones foquistas, influyó fuertemente en la izquierda latinoamericana en las décadas de 1960 y 1970. Pero, con la excepción parcial de la revolución nicaragüense, las estrategias inspiradas en el ejemplo cubano no tuvieron éxito en ninguna parte de nuestro subcontinente.

Lo mismo, sin embargo, debe decirse de las otras estrategias adoptadas por la izquierda revolucionaria, hasta fines de los años 60. Por cierto, debemos reconocer que si las revoluciones son fenómenos raros, las revoluciones exitosas son fenómenos aún más raros y profundamente singulares: hay más constancia en las razones de la derrota que en las razones de la victoria.

En este contexto surge la experiencia del gobierno de la Unidad Popular chilena entre 1970 y 1973.

La historia de la Unidad Popular, los antecedentes de la victoria electoral de 1970, las vicisitudes del gobierno de Allende, el golpe de 1973, la dictadura que siguió (con similitudes y diferencias con otras dictaduras contemporáneas), las políticas neoliberales y los gobiernos de centroizquierda, son procesos cuyo estudio es fundamental para quienes hoy forman o pretenden formar parte de los gobiernos “progresistas y de izquierda” en América Latina.

En este estudio es necesario responder, entre otras preguntas, en qué medida la experiencia de la Unidad Popular constituye un paradigma positivo y útil para construir una nueva estrategia para las izquierdas latinoamericanas.

Demasiado reformista para los revolucionarios, demasiado revolucionaria para los reformistas, la estrategia ensayada por la Unidad Popular permaneció en una especie de limbo hasta 1998. Desde entonces, varios gobiernos de la región han comenzado a intentar construir el socialismo, no desde las revoluciones, sino de las victorias electorales.

Al mismo tiempo, otros partidos socialistas tuvieron que lidiar -en sus esquemas estratégicos- con gobiernos que buscaban implementar reformas más o menos profundas en el capitalismo.

Por lo tanto, al menos para algunos sectores de la izquierda regional, la experiencia posterior a 1998 de gobiernos como el chavista exigía retomar el debate sobre la orientación estratégica que pretendía materializarse en el gobierno de la Unidad Popular, evidentemente en la búsqueda de construir un “camino chileno con un final feliz”.

Esta revisión no tiene sentido, por supuesto, para quienes la revolución (y, en algunos casos, el socialismo) ya no forma parte del horizonte estratégico. Para gente así, no es posible diferenciar la lucha por el gobierno y la lucha por el poder. Son los que pensan que ganar unas elecciones es ganar poder; y que, por otro lado, los golpes serían cosa del pasado, pues la clase dominante también habría hecho “las paces con la democracia”.

Revisar tampoco tiene sentido para cualquiera que creya que los gobiernos progresistas y de izquierda son una aclimatación de la experiencia socialdemócrata europea o una variante de la experiencia populista latinoamericana. En ambos casos, se trataría de experiencias más o menos funcionales al esquema de dominación imperialista y capitalista, gobiernos más o menos reformistas que pronto serían superados por los acontecimientos, luego de lo cual la lucha de clases volvería a condiciones que exigirían – de parte de la izquierda – la adopción de algunos de los paradigmas revolucionarios clásicos.

Por lo tanto, sea por izquierdismo o por moderación, para algunos sectores de la izquierda la experiencia de la Unidad Popular Chilena no se veía con mucho que enseñarnos, desde un punto de vista estratégico, excepto desde un punto de vista negativo. Por cierto, es curioso notar estas y otras similitudes entre “melhoristas” e izquierdistas.

En cuanto a aquellos sectores que siguen teniendo el socialismo como objetivo estratégico, y por tanto quieren que la clase obrera tenga el poder necesario para construir el socialismo, el “caso” de la Unidad Popular entre 1970 y 1973 es estratégicamente actual. Y la pregunta clave es: ¿cómo convertir la cuota de poder obtenida en un proceso electoral, no solo en mejoras concretas para la vida de las personas, no solo en reformas estructurales, sino en una cuota de poder que permita el inicio de la transición socialista.?

En términos muy generales, en primer lugar, es necesario construir un apoyo sólido entre las clases trabajadoras, lo que incluye articular la mayoría de las organizaciones políticas y sociales bajo un solo comando estratégico. La combinación de lucha institucional y electoral, acción parlamentaria y de gobierno, lucha social y construcción partidaria sólo es virtuosa cuando se articula políticamente.

Segundo, es necesario ganar el apoyo de los sectores medios, dividir a las clases dominantes y aislar al principal enemigo. Evitar que suceda lo contrario: la clase dominante aislando a la izquierda, ganando el apoyo de los sectores medios y dividiendo a las clases trabajadoras.

En tercer lugar, es necesario combinar la disputa política con la disputa cultural. La construcción del poder necesario para iniciar una transición socialista es inseparable de la construcción de otra hegemonía ideológica, cultural.

Lo cual se refiere, en cuarto lugar, a la necesidad de ganar apoyo en organismos paraestatales, es decir, organismos aparentemente privados que realizan funciones públicas, como es el caso de las iglesias, las escuelas, la industria cultural y los medios de comunicación.

Quinto, es necesario ganar una mayoría electoral que sea suficiente para tener una hegemonía de izquierda en los órganos ejecutivos y legislativos fundamentales. Es insuficiente tener la presidencia de la República, pero sin tener mayoría en el Congreso, ni en los gobiernos y parlamentos subnacionales fundamentales.

En sexto lugar, es necesario evitar el sabotaje y la subversión por parte de los órganos no electivos del Estado, principalmente la alta burocracia, el poder judicial y las fuerzas armadas. Se trata de democratizar el acceso, establecer el control social, cambiar las doctrinas vigentes y, fundamentalmente, garantizar el respeto a la legalidad que emana de la soberanía popular. Por eso es tan decisiva la realización de los procesos constituyentes.

Séptimo, es necesario construir una red de solidaridad y protección internacional, que reduzca la injerencia externa que las metrópolis capitalistas centrales hacen en los procesos nacionalsocialistas. De ahí la centralidad de la integración regional latinoamericana y caribeña.

Octavo, es necesario construir un programa de transformación que no sea artificial, es decir, que parta de los problemas reales que enfrenta la sociedad y que construya soluciones que respondan a las necesidades de las clases populares, respetando los niveles de conciencia y la correlación de fuerzas. en cada momento, pero siempre teniendo en cuenta que cada paso genera nuevas necesidades, nuevos conflictos y nuevas reacciones, y corresponde a la dirección política del proceso anticiparse.

En el caso chileno, el programa de transformación siguió dos ejes fundamentales: el poder popular y el área de la propiedad social. Lo que nos lleva a un noveno tema, que es cómo convertir una economía dominada por el capitalismo privado en una economía capitalista hegemonizada por el capitalismo de Estado, bajo el liderazgo de un gobierno de izquierda.

Finalmente, hay que conservar la iniciativa táctica. El año 1973, en Chile, la clase dominante había decidido ir por el golpe. Y el gobierno de Allende perdió progresivamente la iniciativa, pasando a una postura cada vez más defensiva, confundiendo la defensa estratégica de la legalidad con la pasividad legalista frente a la subversión derechista.

El legalismo corresponde a la visión estática de la conciencia popular. La legalidad es siempre una mediación entre el derecho (que expresa la correlación de fuerzas pasada) y la legitimidad (que expresa la correlación de fuerzas presente). La burguesía lo sabe muy bien y no deja de invocar un supuesto apoyo popular cuando le interesa faltar al respeto a la ley.

La historia podría haber sido diferente si, por ejemplo, contra Tancazo, el presidente Allende hubiera aceptado las propuestas del general Prats para remover a los comandantes golpistas. También por eso, es un error decir que el golpe habría resultado inevitablemente victorioso.

El Partido de los Trabajadores, entre 1985 y 1989, implementó una estrategia política que hacía referencia explícita a la experiencia chilena de 1970-1973. Entre 1990 y 2002, la experiencia de la Unidad Popular se mantuvo presente, pero perdió influencia. Entre 2003 y 2016, los gobiernos del PT enfrentaron varias situaciones que hubieran sido mejor resueltas si se hubieran tenido en cuenta algunas lecciones de Chile. Y, en 2016, un golpe de Estado derrocó al gobierno brasileño, entonces encabezado por Dilma Rousseff, del PT.

Luego vino un gobierno golpista, bajo el cual se realizaron las elecciones presidenciales de 2018, en las que se impidió la participación del entonces expresidente Lula. Lula vio desde la cárcel la victoria y la toma de posesión de un hombre de las cavernas. Pero poco después, Lula fue liberado, recuperó el derecho a participar en las elecciones y ganó, por dos millones de votos de diferencia, las elecciones presidenciales de 2022.

El nuevo gobierno de Lula (2023-2026) vive dilemas estratégicos similares a los de sus dos primeros gobiernos (2003-2006, 2007-2010), pero en peores condiciones que en el pasado. Algo similar ocurre con otros gobiernos encabezados por partidos nacional-populares, de izquierda y progresistas en América Latina y el Caribe. Guardando las debidas proporciones, el cambio de escenario y el cambio de corazón de los protagonistas recuerda a veces lo que pasó cuando el Partido Socialista volvió a la presidencia de Chile, con Ricardo Lagos (2000-2006): el mundo era otro, Chile era otro, el Partido Socialista era otro, los problemas eran más grandes y los medios para resolverlos eran más pequeños. Pero, sobre todo, la estrategia predominante de la izquierda chilena fue otra. Y diferente en un sentido muy profundo: para amplios sectores, el “horizonte” había dejado de ser el socialismo y se había convertido, no en la socialdemocracia europea o el desarrollismo latinoamericano de los años 50-70, sino en el social liberalismo, es decir, el intento de hacer coexistir ciertos compromisos democráticos y sociales con las políticas económicas neoliberales y el sometimiento a la hegemonía estadounidense.

En ese momento, quizás muchos no se dieron cuenta de esto. Así como, hoy, muchos sectores de la izquierda latinoamericana y caribeña piensan sinceramente que no han cambiado de bando, que sólo están haciendo concesiones por la correlación de fuerzas, etc. Esta metamorfosis afecta, como ha demostrado el gobierno Boric, incluso a sectores que no hace mucho se veían como alternativas adecuadas a la “vieja izquierda".

Todo esto ocurre, paradójicamente pero no de manera sorprendente, en un entorno donde el escenario mundial es de crisis y guerras, que en otros tiempos desembocaron en rupturas y revoluciones. Y después de 40 años de neoliberalismo, que provocó profundos cambios en las clases trabajadoras, cambios que plantean nuevos desafíos teóricos y prácticos a las fuerzas políticas y sociales que siguen comprometidas con la derrota del capitalismo y el imperialismo.

Teniendo en cuenta la situación en su conjunto, cabe concluir que, así como nuestra poesía debe dibujarse en el futuro, nuestra estrategia también está por construirse. Pero parte de esta construcción es estudiar los cimientos, incluido el “camino chileno al socialismo”.

Valter Pomar es director de la Fundación Perseu Abramo, miembro del Directorio Nacional del PT y profesor de relaciones internacionales en la Universidad Federal del ABC.