segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

O interessante embate entre Siqueira e Guimarães (parte 2)

O deputado José Guimarães é um defensor de primeira hora da federação. 

E um entusiasta da “frente ampla”, não apenas no país mas também em seu estado, o Ceará, onde é um dos principais responsáveis (até agora) pela manutenção da aliança com os Ferreira Gomes.

Sendo assim, Guimarães deve ter ficado bastante desgostoso com a entrevista de Siqueira à Folha de S. Paulo

Afinal, mesmo que o objetivo de Siqueira fosse apenas conseguir mais concessões da parte do PT, a forma como ele agiu – pública e desrespeitosamente – causa muitos problemas.

Compreende-se, portanto, o tom da rápida resposta dada por Guimarães (ver a integra ao final): “nós não fomos procurar nenhum desses partidos para fazer federação. Nós iniciamos o debate a partir da solicitação deles, e não tem nada definido. Portanto, se um dos partidos discorda de uma ou outra tese do PT, se discute isso internamente. O PT não vai resolver nada das federações pelas páginas de jornais ou recebendo pito desse ou daquele partido. O PT tem história, tem maturidade. Esse tipo de posição do presidente do PSB não ajuda, só atrapalha, e complica fortemente aquele desejo que é quase unânime na bancada de deputados do PSB e de muitos deputados do PT”.

Destaco, da reposta acima, duas frases: 

i/“o PT não vai resolver nada das federações pelas páginas de jornais”; 

ii/“desejo que é quase unânime na bancada de deputados do PSB e de muitos deputados do PT”.

Registro: desde 16 de dezembro até hoje 7 de fevereiro a partir das 19h00, a direção nacional do PT não recebeu nenhum informe das negociações.

Nenhum. Ficamos sabendo de tudo pelas páginas dos jornais ou através de relatos informais.

Registro: a federação é um desejo “quase unânime” da bancada do PSB. Já no PT, é desejo de “muitos deputados”. O porquê dessa diferença, pode-se imaginar.

Isto posto, há um problema: se deixarmos de lado o tom da entrevista de Guimarães e nos concentrarmos no conteúdo do que foi dito por ele, a coisa toda segue preocupante.

Comecemos por onde o presidente do PSB começou: a direção da federação.

Segundo Guimarães, “no debate que fizemos com os quatro partidos sobre o estatuto da federação foi colocado um critério para respeitar o tamanho dos partidos, tamanho do Congresso, ninguém pode querer ser mais do que outro se não tem voto para isso”.

Como já argumentamos em outro lugar (http://valterpomar.blogspot.com/2022/02/como-sera-o-pt-aos-46-anos.html), é um erro naturalizar este tipo de critério parar aferir o “tamanho” do PT. 

O PT é muito maior do que o tamanho de suas bancadas, o PT é muito maior do que sua votação nas eleições para prefeituras e governos de estado. Politica e estratégicamente falando, o PT é maior inclusive do que sua votação nas disputas presidenciais.

Ao naturalizar este tipo de critério (eleitoral congressual), abrimos as portas para adotarmos critérios análogos, como por exemplo o número de prefeitos. 

Guimarães tem razão ao dizer que “eleição municipal é outra coisa, em federação você parte do princípio nacional”. 

O problema é que a federação vai valer também para as eleições municipais de 2024. E qual será o critério adotado nesse caso?

Acontece que Guimarães e muitos outros tendem a olhar a política e o próprio PT do ponto de vista do Congresso Nacional. 

E deste ponto de vista, o “tamanho” do PT é “o tamanho das bancadas no Congresso que decide Fundo Eleitoral, Fundo Partidário, liderança no Congresso”. 

Na medida em que pensam isto, não se dão conta de que a dinâmica da federação -se vier a ser aprovada – vai nos levar mais e mais a adotar a lógica da “cooperativa de parlamentares”, predominante em outros partidos.

Sigamos.

Guimarães reclama que “nem batemos o martelo porque não tem definição sobre a federação. Se o Siqueira discorda, que ele diga na reunião, que ele converse conosco”.

Realmente, Siqueira agiu mal, especialmente por ele ser um privilegiado: participa de reuniões sobre as quais a executiva e o diretório nacional do PT não receberam nenhum informe, desde o dia 16 de dezembro de 2021 até o dia 7 de fevereiro de 2022, a partir das 19h00.

Guimarães também reclama da postura do presidente nacional do PSB, no tocante às eleições estaduais: “Ficamos, primeiro, com surpresa. E uma certa indignação. Temos tratado o PSB com o máximo de respeito. Nunca levamos para imprensa as divergências e os problemas que acontecem nas reuniões com os quatro partidos. Essa conduta a gente vai manter. Estamos respondendo por conta de uma exigência partidária. Há um ambiente que, pela responsabilidade que nós temos, que eu tenho, como vice-presidente nacional do PT, não poderia silenciar frente ao que foi dito, por meio da imprensa. E não é a primeira vez”.

Não é a primeira vez, mas isto não impediu nossos gestos de excessiva boa vontade. 

Por exemplo: “Humberto Costa acabou de fazer um baita de um gesto. Renunciou a uma candidatura que está em primeiro lugar ao Governo de Pernambuco [em apoio ao nome do PSB]. Isso não conta?”

Deveria contar, se o mundo fosse justo. Mas no mundo real, concessões “antes da hora” acabam sendo contraprodutivas. 

Sinalizam fraqueza, desespero, pressa, insegurança. 

Todos os gestos do PT sobre a federação (inclusive as lideranças no congresso) emitiram, para o presidente do PSB, o seguinte sinal: eles estão precisando de nós mais do que nós deles. E sentindo gosto de sangue, ele partiu para o ataque.

Infelizmente, Guimarães percebeu o problema mas ainda não parece ter aprendido a lição. 

No caso do ES, apresenta como “condição” o apoio de Renato Casagrande a Lula. Mais nada. No caso do Rio, lembra que o apoio já está concedido. E no caso do Rio Grande do Sul, diz quais “nós vamos discutir lá na frente. O PT tem um bom candidato [Edegar Pretto], o PSB também [Beto Albuquerque], tem a Manuela D'Ávila [PC do B], então até sugerimos que esses três partidos sentassem para discutir o melhor caminho, para se unificar”. Ou seja, sinaliza para uma solução ao estilo Pernambuco.

No caso de São Paulo, Guimarães defende “unir Haddad, Márcio França, Guilherme Boulos e Geraldo Alckmin” (....) “vamos analisar qual é o melhor nome para ganhar, qual é o nome mais forte. Isso é que tem que considerar, e não impor nome A ou B”.

Mas, ato contínuo, Guimarães afirma: “o PT dificilmente deixará de ter candidato a governador de São Paulo, pelo que representa o Haddad. Agora, isso é motivo para não sair a federação? Não. Isso é motivo para ter dificuldade para apoiar o Lula? Não. Nós vamos ter que administrar”.

"Administrar" é palavra bonita, mas como???

A federação é um ato nacional. Uma vez estabelecida, os partidos federados só poderão ter uma única candidatura a governador em cada estado do país. 

Se a decisão sobre a candidatura a governador for tomada em âmbito nacional, prevalecerá a candidatura que tiver apoio de 2/3 da direção da federação. 

Compreende-se, portanto, a tática de Siqueira: definir desde já as candidaturas a governador e, também, definir desde já a candidatura "nata" dos prefeitos, bem como uma composição da direção que possibilite ao PSB ter poder de veto sozinho e/ou poder compor com mais facilidade uma maioria de 2/3.

Para Siqueira, estas garantias são mais importantes do que os parlamentares a mais que uma federação supostamente possa eleger, assim como as tais garantias são mais importantes do que eleger Lula etc.

Do ponto de vista de Siqueira, participar de uma federação hegemonizada pelo PT não pode enfraquecer o poder de barganha do PSB.

Se – como defende Guimarães – “temos que agregar outras forças de centro”, “temos que atrair o Alckmin, temos que sentar com o PSD do Gilberto Kassab”, “com várias forças, ainda que não seja coligações formais”, então nas contas de Siqueira o PSB pode terminar perdendo importância se estiver amarrado numa federação hegemonizada pelo PT.

Por isso, para ele não bastam as concessões feitas até agora – concessões que nós, petistas contrários à federação, são suficientemente inaceitáveis. Para Siqueira é preciso muito mais. E é preciso demonstrar publicamente "quem manda".

Não sei se Guimarães e outros defensores da federação estão dispostos a pagar o preço exigido pelo presidente do PSB. Na entrevista Guimarães falou duro: “Quem não quiser não vai. Quem não quiser não vai [repete]. Não estamos pedindo favor a ninguém para compor a federação”.

Mas ao mesmo tempo repetiu o mantra: “A federação é uma necessidade estratégica para o país. E o interesse é nacional, não pode ser interesse menor desse ou daquele partido. Até porque se fôssemos levar em consideração só esse negócio de deputado, o PT pode fazer uma baita campanha de legenda e, pela força que o Lula tem hoje, aumentar fortemente a sua bancada, com federação ou sem federação”.

Notem: "com ou sem federação", o PT pode aumentar fortemente a sua bancada.

Eu complementaria: havendo federação, parte deste aumento vai ser transferido para os partidos federados.

Mas o principal é o seguinte: se “a federação é uma necessidade estratégica”, então está dada a senha para o PT sacrificar seus interesses “menores” no altar do PSB, digo, da pátria.

Por isso, embora aplauda as palavras duras de Guimarães, considero que o risco continua posto.

E na origem do risco estão duas ideias erradas.

A primeira é velha: a de organizar a governabilidade principalmente em torno de maiorias congressuais.

A segunda é nova: achar que uma “federação” vai contribuir de maneira transcendental para a governabilidade.

As contas de Guimarães são curiosas: “A federação é um instrumento (...) para ajudar a mudar a correlação de forças no Congresso. Com 130 deputados [atual tamanho da esquerda], ninguém consegue praticamente nada. É preciso ter de 180 a 200 deputados [de um total de 513], essa é a meta. Se não for isso é conversa fiada e a gente não muda a realidade”.

Com 130, praticamente nada.

Com 180 a 200, mudamos a realidade.

É óbvio que a suposição é que estes 180 a 200 vão atrair “por gravidade” o que falta para chegar na maioria (257).

Pode ser. Pode. Como também pode dar tudo errado, por diversos fatores. 

Mas na dúvida, há uma única coisa certa nisto tudo: o PT é o núcleo duro de qualquer movimento exitoso (seja eleitoral, de governabilidade congressual, de sustentação popular etc.)

A federação atualmente em discussão – como está sendo demonstrado pelos fatos – só vai acontecer se o PT pagar uma conta que o enfraquecerá demasiadamente.

E reduzir a força do PT vai levar, mais cedo ou mais tarde, a desmontar todo o resto, inclusive os planos de “governabilidade”.

Essa foi a experiência de nosso período na presidência da República.

Por isso, diferente de Guimarães, considero que “estratégico” não é a federação; estratégico é o PT.

Siqueira sabe disso. E por isso nos ataca.

Por fim: como diz o próprio Guimarães, não ter federação não interdita a construção do palanque com o Lula.

E não se deve fazer aliança “a ferro e fogo”. Nem no Ceará, nem em nenhum lugar.

 

 

A ENTREVISTA DE Carlos Siqueira

Presidente do PSB cobra reciprocidade do PT e admite riscos a federação

Givaldo Barbosa/Agência O Globo

As conversas entre PT, PSB, PV e PC do B parecem estar avançando no sentido de vocês formarem uma federação, mas ainda existem impasses estaduais. Hoje, de 0 a 10, qual a chance o sr. vê de a federação sair até março? Você disse que está avançando, eu diria que está apenas sendo discutida. Não há avanço nem retrocesso.

O que há é a discussão de como essa federação funcionará. E essas normas têm um centro, que é o comando da federação.

Hoje, a proposta do PT é que numa assembleia de 50, que decidirá todas as questões fundamentais da federação, o PT tenha 27, sugere 15 para o PSB, 4 para o PC do B e 4 para o PV. Ou seja, o PT fica com a maioria.

Nada obstante o quórum ser qualificado de dois terços [para tomar decisões], obviamente que quem tem 27 tem mais condições de chegar a dois terços do que quem tem 15, que é o que nos competirá se entrarmos na federação.

Então, a questão da federação não está diretamente ligada às questões estaduais, das candidaturas em que queremos o apoio do PT.

São conversas que caminham em paralelo, então. São coisas distintas, muito embora o que for definido sobre os governos estaduais tenha uma repercussão também sobre a decisão que vamos tomar sobre a federação.

O essencial a ser examinado é se o PSB quer continuar tendo sua política e decidindo as coisas essenciais ou [se quer estar] numa estrutura que tem essa configuração com a maioria de um partido. [Tem que decidir se] deseja entregar o seu destino a essa federação.

Essa é a discussão que tem de ser processada no âmbito do PSB e dos outros partidos.

Não há como o PT não ter 27? O PT tem suas razões, nós reconhecemos, de ter essa quantidade. O PSB, por seu turno, admite a discussão, mas ainda não há decisão [do partido].

Ademais, tem o problema do tempo. O TSE achou que devia desconhecer o prazo que o Congresso estabeleceu em lei, que é agosto, e estabeleceu um prazo demasiadamente curto [os partidos têm até 1º de março para registrar federações] para se processar uma discussão sobre a federação, que precisava ser profunda e com tempo suficiente até março. É muito pouco tempo.

Há como formar esse comando sem o PT ter a maioria? Não. Isso já está estabelecido. Teve discussão. Eu fiz proposta de agregar mais membros ao PSB considerando o número de prefeitos e vereadores que nós temos, que é maior do que o do PT. Mas o PT mantém a proposta deles e vamos examinar se convém ou não.

O que há para ser feito, então, sobre a composição? É compreensível que o PT queira ter um número maior de representantes na assembleia, mas não precisa ser tanto. Isso pode ser melhorado se eles refletirem e concluírem que precisa ter um equilíbrio na composição. Por isso eu proponho que se agregue a questão dos prefeitos. Isso daria um equilíbrio a todos.

Se o PSB fechar a federação, significa perder autonomia sobre o próprio partido? Nesses termos, com essa composição, sim. Nos termos que estão estabelecidos, não tenho dúvida que o partido perde muito da sua autonomia sobre questões essenciais, sobretudo no plano eleitoral. Mas a matéria está em discussão, vamos ver se ela progride.

Então a decisão passa por decidir se vão perder ou não autonomia? Mantida essa composição, sim. Se não mudar a composição, vai ter muita dificuldade de aprovar a federação no âmbito do diretório nacional do PSB.

O sr. vai levar a discussão ao diretório nacional quando? Quando ela acabar entre os partidos. Não se trata do quórum qualificado [para tomar decisões], mas do peso que cada um terá.

Pessoalmente, o sr. acha que é bom para o PSB entrar na federação? Eu tenho procurado, pelo menos publicamente, não me posicionar a esse respeito, porque dentro do partido há divergências. Nessa fase quero apenas colher as opiniões e formar minha convicção para convocar o diretório nacional.

Sobre os palanques estaduais, que é uma questão que corre em paralelo... Sim. Nós já estamos apoiando o PT para quatro governos estaduais. Apoiamos o candidato ao governador na Bahia, no Piauí, em Sergipe e no Rio Grande do Norte.

O PT tem sinalizado com dois estados só até agora: Pernambuco e Rio de Janeiro. Mas nós temos cinco demandas para eles [e queremos o apoio em] São Paulo, Rio Grande do Sul e Espírito Santo.

No Rio Grande do Sul, o sr. recebeu sinalização de que ele vai apoiá-los? Não. Mas espero que eles cedam em tudo. Na política tem uma coisa que se chama reciprocidade.

Em São Paulo, que é o palanque tido como mais complicado, vocês não cogitam abrir mão da candidatura do Márcio França (PSB-SP)? Não. Eu já disse e reitero sempre: ele só não será candidato se ele não desejar. E no momento ele deseja. Acho ainda mais. Que ele tem melhores condições eleitorais do que o próprio [Fernando] Haddad.

Lula tem dito que vê chance real de o PT ganhar e uma das razões é que Haddad pontua na frente do França nas pesquisas. Isso não é um sintoma de que Haddad de fato está melhor? Eu respeito muito a opinião do presidente Lula, mas ele também achava isso no Recife, que a candidata dele [Marília Arraes (PT-PE)] ganharia a eleição para a prefeitura do Recife no ano passado. E ela perdeu com 100 mil votos de diferença do nosso, do prefeito João Campos (PSB-PE).

Política não é matemática. Política se faz com vários fatores que vão muito além de pesquisas.

Isso pode ser um problema nas eleições municipais. Nós temos geralmente nas eleições de 1.000 a 1.100 candidatos a prefeito e elegemos 250 prefeitos. O PT elegeu 180. Não sabemos onde haverá conflito, mas isso ocorrerá provavelmente nas grandes cidades. E pode acontecer com o PV e com o PC do B.

Tem de haver regras que possam garantir a candidatura nata à reeleição de todos os 250 prefeitos do PSB. E eu fiz essa proposta, inicialmente o PT discordou, mas depois admitiu consultar.

Agora, em termos de aliança, já está decidido que o PSB apoiará o ex-presidente Lula? Não está decidido, mas é o mais provável. Por isso estamos trabalhando fortemente porque consideramos que o ex-presidente Lula reúne as condições para derrotar Bolsonaro e pregamos que a frente não pode ficar restrita à esquerda. A frente tem de ampliar para o centro.

Vocês têm conversado sobre indicar o vice caso o ex-governador Geraldo Alckmin se filie ao PSB. Soube que ele esteve com integrantes do PSB nesta semana. Ele mandou sinal de fumaça que vai se filiar? Ele esteve conosco, fizemos o convite. Sabemos que temos divergências sobre alguns assuntos, mas nessas circunstâncias achamos simbólico acenar para um campo político que não é o nosso, que é o centro político, que precisa ser conquistado.

O PSD também deveria fazer parte da frente, na sua avaliação? Sim.

O PSB abriria mão da filiação do Alckmin para que ele fosse ao PSD, se essa possibilidade existir? Não podemos abrir mão da filiação do Alckmin porque nós convidamos e temos palavra. Agora, se ele vai ser convidado para ser vice, não cabe ao PSB, cabe ao PT.

O sr. acha que o PT está subindo no salto ao não ceder já em alguns estados? Eu não sou muito apreciador da expressão salto alto. Temos relações com o PT que são antigas e remonta ao ano de 1989.

Em todas as eleições seguintes nós os apoiamos no primeiro turno ou no segundo. É bom que se lembre que política é uma parceria de mão dupla. De mão única, acaba dando uma trombada.

Nós esperamos que eles nos apoiem nos cinco estados que demandamos.

E no Espírito Santo? Nós demandamos apoio ao governador Renato Casagrande. Eu pensei que estava bem encaminhado, mas nesta semana eu mandei para a presidente do PT Gleisi [Hoffmann (PR)] uma matéria do senador Fabiano Contarato (PT-ES) se apresentando como candidato. É preciso que o PT adote as providências para viabilizar esse apoio.

Em meio às discussões com o PT, ouvimos que o sr. estaria contrariado com declarações que Marcelo Freixo (PSB) teria dado de apoio a Haddad em São Paulo. O sr. conversou com ele? Ele esteve esta semana comigo, conversamos. Eu expressei publicamente não só a minha opinião, mas expressei uma certa indignação que houve de muitas pessoas no PSB, que acharam inadmissível a declaração dele.

Ele diz que foi invenção da jornalista, mas a verdade é que não houve um desmentido no dia seguinte sobre a matéria.

Qual a vantagem de formar a federação, se existem tantos impasses? A federação se torna um instrumento poderoso eleitoralmente nessas eleições, para eleger, no caso do PSB, mais três ou quatro deputados, não mais que isso.

Tem de se examinar se essa vantagem é suficiente para entrar na federação ou não. Porque eu não consigo ver outras vantagens para o futuro.

Apesar disso, estou esperançoso que tanto o PT e os demais partidos reflitam sobre as dificuldades para fechar a federação e aprovem regras que são democráticas e aceitáveis.

 

A ENTREVISTA DE JOSÉ GUIMARÃES

PT não aceita pito nem considera federação com PSB essencial, afirma deputado

O presidente do PSB manifestou preocupação de o PT tentar ter a hegemonia em uma eventual federação. Como o partido irá contornar essa insatisfação? O PT não iniciou o debate sobre federação somente por questões eleitorais. O PT entende que a federação é um instrumento que pode ser fundamental para alterar a correlação de forças dentro do Congresso, com um bloco de esquerda, centro esquerda, que seja capaz de iniciar uma nova governabilidade congressual.

Agora, nós não fomos procurar nenhum desses partidos para fazer federação. Nós iniciamos o debate a partir da solicitação deles, e não tem nada definido. Portanto, se um dos partidos discorda de uma ou outra tese do PT, se discute isso internamente.

O PT não vai resolver nada das federações pelas páginas de jornais ou recebendo pito desse ou daquele partido. O PT tem história, tem maturidade.

Esse tipo de posição do presidente do PSB não ajuda, só atrapalha, e complica fortemente aquele desejo que é quase unânime na bancada de deputados do PSB e de muitos deputados do PT.

O PT não estaria obtendo apoio ao presidente Lula sem dar algo relevante em troca? No debate que fizemos com os quatro partidos sobre o estatuto da federação foi colocado um critério para respeitar o tamanho dos partidos, tamanho do Congresso, ninguém pode querer ser mais do que outro se não tem voto para isso.

Mas em número de prefeitos o PSB é maior. Eleição municipal é outra coisa, em federação você parte do princípio nacional. Nós levantamos essa ideia, e PV e PC do B concordaram. Mas nem batemos o martelo porque não tem definição sobre a federação. Se o Siqueira discorda, que ele diga na reunião, que ele converse conosco.

Mas ele não manifestou isso a vocês, em reuniões? Ele manifestou na reunião, eu estava nela, e eu tinha entendido que havia um consenso que se respeitasse o princípio da proporcionalidade. Ninguém tira tamanho dos partidos por decreto. O partido tem representatividade social, tem voto. O PT é do seu tamanho e é desse tamanho que nós vamos para a eleição.O PT, então, não abre mão dessa proporcionalidade? O PT não vai abrir mão de seu tamanho, porque estaríamos incorrendo em um erro grave. É um tamanho dado pelas urnas, não é por decreto. É o tamanho das bancadas no Congresso que decide Fundo Eleitoral, Fundo Partidário, liderança no Congresso.

Essa ideia de que o PT quer hegemonizar... passamos 2021 com um espírito de boa vontade tamanho que temos dois líderes no Congresso que são do PSB, o Alessandro Molon [líder da oposição] e o Marcelo Freixo [líder da minoria].

O PSB vai participar da federação com o seu tamanho, o PT com o seu tamanho, o PV com o seu tamanho, o PC do B com o seu tamanho. Isso é respeito e reconhecimento do que o eleitor decidiu na última eleição e poderá decidir na próxima. E temos que agregar outras forças de centro.

Temos que atrair o Alckmin, temos que sentar com o PSD do Gilberto Kassab. E com várias forças, ainda que não seja coligações formais. Temos vários palanques estaduais com o MDB, como no Pará, em Alagoas.

​O PSB argumenta só ter pedido apoio a seus candidatos em cinco estados, incluindo São Paulo. O que o PT está disposto a ceder? Veja bem, Humberto Costa acabou de fazer um baita de um gesto. Renunciou a uma candidatura que está em primeiro lugar ao Governo de Pernambuco [em apoio ao nome do PSB]. Isso não conta?

Eu já falei para o Siqueira: no Espírito Santo é só o governador Renato Casagrande apoiar o Lula. Ele não declarou apoio ainda, como vamos apoiar um cara se você não sabe se ele apoia o Moro ou o Lula? Na hora que ele se dispuser a sentar com o PT, respeitando o PT e declarando apoio ao Lula, estaremos no palanque do Casagrande no Espírito Santo.

Com o Freixo [pré-candidato do PSB ao governo do Rio], já tínhamos discutido lá atrás [apoiar]. No Rio Grande do Sul nós vamos discutir lá na frente. O PT tem um bom candidato [Edegar Pretto], o PSB também [Beto Albuquerque], tem a Manuela D'Ávila [PC do B], então até sugerimos que esses três partidos sentassem para discutir o melhor caminho, para se unificar.

E em São Paulo? O Fernando Haddad foi nosso candidato à Presidência [em 2018], se colocou como alternativa. É o candidato do PT, como o PSB diz que tem candidato, o Márcio França. Eu defendo a ideia de que em São Paulo devemos unir Haddad, Márcio França, Guilherme Boulos [PSOL] e Geraldo Alckmin [ex-PSDB, que negocia ser vice de Lula].

Se esses quatro personagens tiverem grandeza política e tiverem compromisso com o estado de São Paulo, nós podemos ganhar a eleição. E vamos analisar qual é o melhor nome para ganhar, qual é o nome mais forte. Isso é que tem que considerar, e não impor nome A ou B.

Evidentemente, e aí falo a você com todas as letras, o PT dificilmente deixará de ter candidato a governador de São Paulo, pelo que representa o Haddad. Agora, isso é motivo para não sair a federação? Não. Isso é motivo para ter dificuldade para apoiar o Lula? Não. Nós vamos ter que administrar.

Acho que São Paulo é um emblema, e eles sabem da nossa opinião. E nós nunca fomos externar publicamente nenhuma posição de desrespeito com o Márcio França. Eu acho que quando o Siqueira fala do Haddad é um pouco de falta de respeito. O Haddad é um quadro extraordinário da política brasileira, assim como é o Boulos, o Márcio França. Tínhamos todas as razões pretéritas para reclamar, mas não vamos fazer em respeito à história de cada partido e cada candidato.

Quais razões pretéritas? Na eleição passada, o Márcio França não quis o apoio do PT quando disputou com o João Doria [PSDB]. Mas não vamos ficar... Veja bem, essa eleição é não é trivial, é diferente. Temos que interditar essa ameaça que ronda o Brasil, que é o Bolsonaro. Portanto as forças que têm algum compromisso com a democracia têm que estar juntas. E o nome que pode somar, aglutinar e liderar isso, é o Lula.

Qual foi a repercussão da entrevista do Siqueira dentro do partido? Pelo que nós representamos, pelo que nós somos, evidentemente que a militância não aceita que alguém de outro partido fique dando pito no PT. 'Faça isso senão não vou...' Quem não quiser não vai. Quem não quiser não vai [repete]. Não estamos pedindo favor a ninguém para compor a federação.

A federação é uma necessidade estratégica para o país. E o interesse é nacional, não pode ser interesse menor desse ou daquele partido. Até porque se fôssemos levar em consideração só esse negócio de deputado, o PT pode fazer uma baita campanha de legenda e, pela força que o Lula tem hoje, aumentar fortemente a sua bancada, com federação ou sem federação.

A federação é um instrumento que eu vejo para ajudar a mudar a correlação de forças no Congresso. Com 130 deputados [atual tamanho da esquerda], ninguém consegue praticamente nada. É preciso ter de 180 a 200 deputados [de um total de 513], essa é a meta. Se não for isso é conversa fiada e a gente não muda a realidade.

Como Lula e a Gleisi [Hoffmann, presidente do partido] receberam as cobranças que ele [Siqueira] fez? Com surpresa. Eu não falei com o presidente Lula, falei com a Gleisi. Ficamos, primeiro, com surpresa. E uma certa indignação. Temos tratado o PSB com o máximo de respeito. Nunca levamos para imprensa as divergências e os problemas que acontecem nas reuniões com os quatro partidos.

Essa conduta a gente vai manter. Estamos respondendo por conta de uma exigência partidária. Há um ambiente que, pela responsabilidade que nós temos, que eu tenho, como vice-presidente nacional do PT, não poderia silenciar frente ao que foi dito, por meio da imprensa. E não é a primeira vez.

O sr., então, considera importante a federação, mas não acha que seja fundamental para o PT? Não tem problema se não sair. E não é com imposição de ninguém que nós vamos ou não para federação.

E queria dizer que tudo isso que ele disse e que eu estou falando também não é motivo para interditar o diálogo, interditar a construção do palanque com o Lula, que é a centralidade da esquerda, interditar o debate com a federação. Não adianta governos estaduais se não tivermos uma mudança profunda nesse ambiente político que o Bolsonaro representa.

No Ceará, o PT de Lula e o PDT de Ciro Gomes seguirão unidos? A tendência aqui [Ceará] é manter a aliança em torno do Camilo Santana [atual governador, do PT] para o Senado, escolhendo um nome para governador que contemple não só o PT, mas o PDT.

Mesmo com as críticas que Ciro faz a Lula e ao PT? São críticas desrespeitosas, infundadas, e que só atrapalham a nossa aliança no Ceará. Nós temos evidentemente considerado isso, não vamos fazer aliança no Ceará a ferro e fogo. São as contradições da política, mas nós, do PT, não vamos nos render a nada. Para nós do PT do Ceará é Lula, Camilo e aumentar a nossa bancada.

 

O interessante embate entre Siqueira e Guimarães (parte 1)

Dizia um poeta: “Cinzenta, caro amigo, é toda teoria, verdejante e dourada é a árvore da vida”.

No caso da federação, vale o oposto: na teoria a federação é verdejante dourada, mas na prática é esfumaçada e cinzenta.

A prova disto está na troca de chumbo entre Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB, e José Guimarães, vice-presidente nacional do PT.

A entrevista de Siqueira foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, no domingo 6 de fevereiro de 2022. A de Guimarães saiu no dia seguinte. Ao final reproduzo a íntegra do que saiu publicado.

Comecemos por Siqueira: das duas, uma. Ou ele resolveu atear fogo aos barcos, ou está esticando a corda para ganhar mais na negociação.

Diante de uma afirmação da Folha (“as conversas entre PT, PSB, PV e PC do B parecem estar avançando”), Siqueira responde assim: “Você disse que está avançando, eu diria que está apenas sendo discutida. Não há avanço nem retrocesso”.

E onde está “pegando”? No programa? Nas candidaturas? Na discussão sobre a presença do PSB em governos de direita, como o de Leite no Rio Grande do Sul?

Não.

Segundo Siqueira, o problema está na discussão sobre “como essa federação funcionará. E essas normas têm um centro, que é o comando da federação”.

Nada de novo: desde que os partidos existem, o tema organizativo é central. Natural: dentro de certos limites, a linha política sempre pode ser ajustada, mais para a direita ou mais para a esquerda. E o papel aceita de tudo.

Já o controle das decisões é algo pão pão, queijo queijo.

Sobre isso, Siqueira conta o seguinte: “Hoje, a proposta do PT é que numa assembleia de 50, que decidirá todas as questões fundamentais da federação, o PT tenha 27, sugere 15 para o PSB, 4 para o PC do B e 4 para o PV. Ou seja, o PT fica com a maioria”.

Fica com a maioria, mas para tomar decisões (quais? Siqueira não diz) será necessário “quórum ser qualificado de dois terços”.

Um quórum de dois terços significa ter 33 ou 34 votos. Falando em tese, se somarmos o PT com o PCdoB e o PV daria 2/3.

(Isto supondo que os partidos vão votar unidos, como bancadas.)

Siqueira não está de acordo com isto. Como ele mesmo diz, “quem tem 27 tem mais condições de chegar a dois terços do que quem tem 15, que é o que nos competirá se entrarmos na federação”.

Na opinião de Siqueira, o PSB precisa decidir se “quer continuar tendo sua política e decidindo as coisas essenciais ou [se quer estar] numa estrutura que tem essa configuração com a maioria de um partido. [Tem que decidir se] deseja entregar o seu destino a essa federação”.

Não deixa de ser engraçado: para nós, petistas contrários à federação, a proposta de 2/3 é inaceitável por dar poder de veto à minoria.

Para Siqueira, a proposta de 2/3 é inaceitável por tornar possível – em tese – uma maioria composta por PV, PCdoB e PT.

Siqueira está falando sério? Ou está tensionando para negociar melhores condições? Façam suas apostas.

O fato é que ele apresenta uma proposta alternativa: “Eu fiz proposta de agregar mais membros ao PSB considerando o número de prefeitos e vereadores que nós temos, que é maior do que o do PT. Mas o PT mantém a proposta deles e vamos examinar se convém ou não”.

Diz também: “É compreensível que o PT queira ter um número maior de representantes na assembleia, mas não precisa ser tanto. Isso pode ser melhorado se eles refletirem e concluírem que precisa ter um equilíbrio na composição. Por isso eu proponho que se agregue a questão dos prefeitos. Isso daria um equilíbrio a todos”.

Isso daria um “equilíbrio a todos” significa: seria mais fácil vetar as posições do PT e seria mais fácil derrotar o PT.

Sem isso, o PSB “perde muito da sua autonomia sobre questões essenciais, sobretudo no plano eleitoral. Mas a matéria está em discussão, vamos ver se ela progride. (...) Se não mudar a composição, vai ter muita dificuldade de aprovar a federação no âmbito do diretório nacional do PSB. (...) Não se trata do quórum qualificado [para tomar decisões], mas do peso que cada um terá”.

Não é maravilhoso?

No PT nos informaram que a proposta da federação partiu do PSB. Apesar disso, o que temos visto até esta entrevista é o PT fazendo concessões e o PSB regateando condições.

Aliás, perguntado se “pessoalmente” acha “que é bom para o PSB entrar na federação?”, Siqueira responde o seguinte: “Eu tenho procurado, pelo menos publicamente, não me posicionar a esse respeito, porque dentro do partido há divergências. Nessa fase quero apenas colher as opiniões e formar minha convicção para convocar o diretório nacional”.

Já no PT, alguns dirigentes favoráveis à federação fazem campanha aberta e não se importam de desrespeitar a decisão do Diretório Nacional do Partido, adotada no dia 16 de dezembro, segundo a qual caberia à executiva nacional “conduzir” as negociações.

E antes mesmo das negociações terminarem, os mesmos dirigentes já estão retirando candidaturas em favor do PSB, como fizeram em Pernambuco.

E por falar em candidaturas: segundo o presidente do PSB, “a questão da federação não está diretamente ligada às questões estaduais, das candidaturas em que queremos o apoio do PT. São conversas que caminham em paralelo (...) são coisas distintas, muito embora o que for definido sobre os governos estaduais tenha uma repercussão também sobre a decisão que vamos tomar sobre a federação”.

Segundo Siqueira, o PSB estaria apoiando o candidato a governador do PT na Bahia, no Piauí, em Sergipe e no Rio Grande do Norte. E pede o apoio do PT em Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Espírito Santo.

Siqueira espera que “eles” (o PT) “cedam em tudo. Na política tem uma coisa que se chama reciprocidade”.

(Pergunto, sem esperar resposta: que tipo de “reciprocidade” se deve dar ao PSB pelo apoio dado pelos “socialistas” ao golpe de 2016?)

Siqueira fala, também, das eleições municipais. Diz expressamente o seguinte: em 2020 “elegemos 250 prefeitos. O PT elegeu 180 (...) Tem de haver regras que possam garantir a candidatura nata à reeleição de todos os 250 prefeitos do PSB. E eu fiz essa proposta, inicialmente o PT discordou, mas depois admitiu consultar”.

Candidatura nata, tomem nota!

Convenhamos, Siqueira pode ter muitos defeitos, mas pelo menos fala direto. Inclusive sobre a candidatura Lula: “Não está decidido” que o PSB vá apoiar Lula, “mas é o mais provável”.

Para bom entendedor: o PSB pode apoiar Lula, se o PT apoiar os pleitos do PSB.

Toma lá, dá cá.

E atenção: o vice não entra na conta de perdas e ganhos. Pois Alckmin é de “um campo político que não é o nosso” e “se ele vai ser convidado para ser vice, não cabe ao PSB, cabe ao PT”.

Por isso, provavelmente, o Rio de Janeiro não entra na conta da “reciprocidade”: o PT é apoiado em 4 estados pelo PSB, o PSB pede apoio do PT em 4 estados e o Rio fica fora da conta pois o Freixo é um recém-chegado. Aliás, reproduzo na integra a seguinte passagem da entrevista:

Em meio às discussões com o PT, ouvimos que o sr. estaria contrariado com declarações que Marcelo Freixo (PSB) teria dado de apoio a Haddad em São Paulo. O sr. conversou com ele?

Ele esteve esta semana comigo, conversamos. Eu expressei publicamente não só a minha opinião, mas expressei uma certa indignação que houve de muitas pessoas no PSB, que acharam inadmissível a declaração dele. Ele diz que foi invenção da jornalista, mas a verdade é que não houve um desmentido no dia seguinte sobre a matéria.

Depois de ouvir tudo isto, a Folha fez a pergunta óbvia:

“Qual a vantagem de formar a federação, se existem tantos impasses?”

Resposta: “A federação se torna um instrumento poderoso eleitoralmente nessas eleições, para eleger, no caso do PSB, mais três ou quatro deputados, não mais que isso”.

Ou seja: não é o futuro do Brasil, não é a unidade da esquerda, não é a eleição de Lula. A federação serve, segundo o presidente do PSB, para eleger “três ou quatro deputados, não mais que isso”.

E completou: “Tem de se examinar se essa vantagem é suficiente para entrar na federação ou não. Porque eu não consigo ver outras vantagens para o futuro”.

Novamente, pergunto: Siqueira está falando sério ou está esticando a corda para conseguir mais concessões?

Seja qual for o motivo real, a entrevista de Siqueira confirmou uma de suas teses: “política é uma parceria de mão dupla. De mão única, acaba dando uma trombada”.

Depois de fechar os olhos para muita coisa, depois de fazer inúmeras concessões, depois de colocar em risco a higidez do Partido, os petistas defensores da federação se viram diante de uma situação um pouco, digamos, constrangedora.

E, se entendi direito o ocorrido, o deputado José Guimarães foi escalado para responder. Veremos na continuação a resposta do deputado, num certo sentido ainda mais interessante do que a entrevista de Siqueira.

(continua)

(sem revisão)

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Como será o PT aos 46 anos?

O PT completa, no dia 10 de fevereiro de 2022, 42 anos de idade. 

Logo depois, entre fevereiro e março de 2022, o Diretório Nacional do Partido tomará duas decisões que vão incidir pesadamente sobre nosso futuro de curto e médio prazo: quem ocupará a candidatura a vice de Lula e se faremos ou não uma "federação" com o Partido Socialista Brasileiro.

Num sinal dos tempos, ambos debates estão sendo até hoje (6 de fevereiro de 2022) travados essencialmente fora das instâncias partidárias.

Nunca (repito, nunca) o Diretório Nacional do PT abriu formalmente a discussão sobre a vice. 

E nunca (repito, nunca) o nome de Alckmin foi proposto oficialmente como vice de Lula. 

Mas o debate corre solto e o próprio Lula admitiu a possibilidade, a depender do partido ao qual Alckmin vier a se filiar e, claro, noblesse oblige, a depender do que decidirá o próprio PT.

Também nunca (repito, nunca) o Diretório ou a Executiva Nacional do PT debateu as propostas que foram apresentadas pela companheira Gleisi Hoffman nas reuniões com o PSB, o PV e o PCdoB acerca da tal "federação". 

No dia 16 de dezembro de 2021 o Diretório Nacional do PT deliberou o seguinte: caberia à executiva nacional “conduzir” o processo. 

Mas entre o dia 16 de dezembro de 2021 e o dia 6 de fevereiro de 2022, aconteceram várias reuniões e nenhum (repito, nenhum) informe foi dado à direção partidária. 

O primeiro informe (!) a respeito está previsto para ser dado em uma reunião da executiva nacional convocada para o dia 7 de fevereiro de 2022. 

Nesse meio tempo a imprensa vem publicando matérias e mais matérias, ficando cada vez mais evidente o seguinte: o maior beneficiado pela Federação (o PSB) faz chantagem e adota a tática das “uvas verdes”, com o explícito propósito de conseguir mais e mais concessões da parte do PT.

Se o PT fizer parte desta "federação" e se o PT aceitar um vice como Alckmin, ambas medidas vão afetar profundamente o Partido. 

Se tudo correr como alguns planejam, o aniversariante de 2026 será bem distinto do aniversariante de 2022.

Exagero? 

É isto que pensam os otimistas de plantão, aquela turma que dizia que o mensalão ia virar “piada de salão”, que a Operação Lava Jato estaria prestando bons serviços ao país (“exceto” pelos ataques ao PT), que "conversar" seria um antídoto para o golpe, que Lula não seria condenado, preso e interditado, sem falar do famoso cidadão que na campanha de 2018 bateu na mesa e disse: “de uma coisa tenho certeza, Bolsonaro nunca será presidente”.

Um dos argumentos dos otimistas é, pasmem, comparar Alckmin a José de Alencar. 

Segundo nossos “polianas”, Alckmin cumpriria hoje o mesmo papel de Alencar em 2002: “ampliar ao centro”. 

Curiosamente, apesar de se repetir esta tese o tempo todo, não há pesquisas comprovando tal hipótese, nem sobre agora, nem sobre 2002. 

Além disso, há um detalhe fundamental, esquecido pelos autores da peregrina e monstruosa comparação: Alencar não era um defensor da política de juros altos, já Alckmin sempre foi e segue sendo um protagonista do neoliberalismo. 

Também por conta disto, Alencar cumpriu um papel positivo na crise de 2005, não aceitou ser instrumento do golpe em 2005 e não atrapalhou a “inflexão desenvolvimentista” na política do governo Lula a partir de 2006. 

Já Alckmin, antes e também em 2005-2006, estava na outra margem do rio; e do outro lado ficou desde então até hoje. 

Portanto, mesmo que ele fosse eleitoralmente útil (e pensamos o contrário disto), sua “contribuição” para um futuro governo Lula será na melhor das hipóteses... neoliberal.

E o problema não se limita à pessoa de Alckmin, mas inclui também as concessões programáticas que a presença do sempre tucano implicaria. 

Ou alguém acha realmente possível - ao mesmo tempo - ter Alckmin na vice e ter um programa antineoliberal?

Mas para além das concessões e dos riscos, há algo muito mais grave: aceitar um vice como Alckmin é a ponta do iceberg da política denominada “virar a página do golpe”.

Esta política foi defendida por Humberto Costa logo depois do golpe de 2016. Na época, a então senadora Gleisi Hoffmann se opôs a isso. Hoje, Gleisi parece ter mudado de ideia. Exemplo disso é a comemoração feita acerca da operação que levou Humberto Costa a desistir da candidatura a governador de Pernambuco em 2022, mesmo que isso leve o PT a apoiar um candidato "socialista" que em 2016 fez questão de licenciar-se de seu cargo executivo para dar seu voto pelo impeachment da presidenta Dilma.

Entre outros problemas, a aplicação desta tática causa desdobramentos desmoralizantes, entre os quais i/ dizer que o golpe de 2016 ocorreu por falta de “flexibilidade” de Dilma e ii/obrigar nossa base em Pernambuco a fazer campanha para um golpista.

Na opinião dos otimistas, tais purgantes sairão facilmente pela urina, pois o que importaria mesmo seria tirar Bolsonaro (mesmo às custas de manter parte do programa neoliberal-bolsonarista). 

Em nossa opinião, mesmo supondo que a tática supostamente “ampla” obtenha os efeitos pretendidos (e, em nossa opinião, esta tática não contribui para o tipo de campanha que precisamos fazer), ainda assim o purgante não vai "sair pela urina".

E cálculo renal, como sabem alguns, dói pacas. 

Os efeitos cumulativos das concessões desmoralizantes causarão uma erosão crescente em algumas características indispensáveis para um partido de esquerda.

Um fato é: de 2003 a 2016 ganhamos quatro eleições presidenciais, governamos o país e melhoramos a vida do povo. 

Mas nossas vitórias eleitorais presidenciais não se traduziram em fortalecimento equivalente de nossa presença institucional em governos estaduais e municipais, nem tampouco se traduziram em fortalecimento equivalente de nossas presenças nos parlamentos municipais, estaduais e nacional. 

O mesmo ocorreu no âmbito da organização da classe trabalhadora: nossos partidos, sindicatos e movimentos não se fortaleceram. 

Houve mais recursos materiais, humanos e financeiros, em alguns casos houve mais filiações, mas a nossa organicidade e nossa capilaridade não cresceram, pelo contrário: em geral, recuaram.

Portanto, para termos um partido enraizado na classe trabalhadora, um partido vivo, um partido que atue também nos anos ímpares, um partido disposto a lutar efetivamente pela transformação do Brasil, é preciso algo mais do que ganhar eleições, é preciso algo mais do que ter mandatos legislativos e governar administrações nos três níveis.

Se foi assim no passado, não é difícil imaginar os problemas que virão pela frente, especialmente se nosso ponto de partida forem concessões tão grandes à direita gourmet, não bolsonarista mas também neoliberal e golpista.

Entretanto, não só de alkmistas se faz a tormenta em formação . 

Há também a "federação". 

Já demonstramos, em outros lugares, que esta iniciativa incorre em inúmeros problemas, um dos quais é ter como parceiro principal um partido que apoiou Aécio no segundo turno de 2014, um partido que apoiou o golpe de 2016, um partido que - considerando as bancadas e governos por todo o país - possui na média um perfil de centro-direita, apesar (ou por causa) do nome. 

Um partido que, ademais, está recebendo novos filiados vindos da direita (ao contrário do que diziam alguns defensores da "federação", que prometiam que ocorreria uma “depuração” positiva do PSB). 

Já demonstramos, também, serem diversionistas as estimativas que falam no crescimento da bancada federal petista por causa da "federação": é óbvio que tende a ocorrer um crescimento do PT em 2022, mas a questão é saber quanto deste crescimento vai ser desviado em direção ao PSB, em função do “efeito coligação”. 

Além disso, já alertamos para o fato de que a coligação tem efeitos nacionais e nos obrigará, em milhares de municípios, a ter uma única candidatura junto com o PSB.

Mas para além destes problemas, há um sobre o qual se tem falado pouco: o efeito da federação sobre um dos pilares do PT, a saber, a condição de partido militante.

Todo mundo sabe que no PT, há tempos, existe uma disputa entre a natureza militante do Partido e a dinâmica institucional, que transfere poder crescente aos governos e aos mandatos parlamentares. 

Ao longo destes 42 anos, a disputa se fez presente e o fato é que, apesar de tudo, continuamos a manter uma dinâmica militante superior a de outros partidos. 

Pois bem: a "federação" vai sufocar esta dinâmica militante.

Não se trata apenas do mau exemplo consistente em  propor compor a direção da tal "federação" com base na proporção entre as bancadas parlamentares. 

Se trata de algo mais.

Como é público, a “fórmula” proposta para funcionamento da direção da suposta "federação" seria baseada na proporcionalidade das bancadas, o que hoje implicaria em uma maioria absoluta do PT. 

Mas a mesma "fórmula" prevê o seguinte: decisões “importantes” seriam tomadas por 2/3, constituindo na prática um direito de veto dos partidos minoritários.

Vale dizer o seguinte: em entrevista concedida no dia 5 de fevereiro ao jornal Folha de S. Paulo, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, afirma que nem mesmo esta solução lhe agrada e defende incluir na conta os prefeitos (o PSB tem mais do que o PT).

Seja como for, num caso ou noutro, como se faria nas situações em que não houvesse acordo, consenso ou maioria de 2/3? 

No caso da votação das bancadas, Gleisi Hoffmann - em entrevista ao blog Manifesto Petista no dia 4 de fevereiro de 2022 - defendeu a liberação onde não houver consenso. E no caso da escolha de candidaturas, elencou alternativas como a prevalência de quem já governa, pesquisas etc. 

Mas no limite, se nada disso der certo, como seriam decididas as candidaturas da tal "federação", por exemplo as candidaturas a prefeituras?

No PT, numa situação limite, onde não há consenso, existem alternativas previstas em estatuto. E todas elas remetem, no limite, para o seguinte ponto: prevalece a vontade da maioria dos filiados. 

Pois bem, aceita a federação, a vontade da maioria dos filiados petistas estaria subordinada à vontade dos parlamentares... de outros partidos! Se eles não aceitarem, estaria criado um impasse.

A moral da história é a seguinte: o PT ainda é um partido militante, mas a "federação" na prática será uma cooperativa de parlamentares. 

Portanto, com a "federação" tende a se institucionalizar um problema já existente no PT, que é a submissão crescente do partido-militância ao partido-bancadas. 

Com um agravante: as bancadas dos outros partidos teriam poder de veto!

Aos problemas postos neste método, a companheira Gleisi Hoffmann – na entrevista já citada – oferece como alternativa a ideia de que a federação seria um espaço idôneo para “um grande exercício de consenso", chegando a comparar este “exercício” com o esforço de unidade feito (segundo ela) dentro do próprio Partido dos Trabalhadores.

As palavras exatas de Gleisi são: “a federação não é um espaço onde um partido se sobreponha ao outro”. 

Bonito de dizer, mas na prática significaria o seguinte: a vontade da base do Partido estará subordinada à vontade minoritária de outros partidos, mais exatamente à vontade da bancada de outros partidos.

No caso da vida parlamentar, se não houver consenso, a "federação" pode liberar os partidos para “se manifestarem”. Mas como “liberar os partidos” em temas como escolha de candidaturas, se a lei determina que a federação precisa ter uma única candidatura em cada âmbito?

Na prática, portanto, de cima para baixo e de fora para dentro, se está criando uma regra que afetará profundamente a natureza do Partido. 

Motivo pelo qual se justificaria convocar um congresso do Partido.

Mas a companheira Gleisi Hoffmann não concorda com isso. 

Segundo ela, a “união de partidos para um objetivo comum” pode ser aprovada pela “direção máxima”, que para ela é o Diretório Nacional.

Uma lógica assaz curiosa: a própria Gleisi defende que candidaturas a presidência da República e política de alianças sejam deliberadas num encontro ou congresso partidário. 

Mas a federação - embora preceda do ponto de vista lógico a definição de candidaturas e alianças; e embora dure por 4 anos - poderia ser decidida apenas pelo Diretório.

Resumindo: a expectativa de vitória em 2022 faz muita gente boa aceitar qualquer concessão como se isto fosse útil e inevitável. Mas do mesmo jeito que ocorreu entre 2003 e 2016, tudo tem seu preço.

O preço da aliança com Alckmin é rebaixar o programa: em nome de derrotar o bolsonarismo, conciliar com o neoliberalismo.

Já o preço da federação é ainda mais alto: mudar na prática a natureza do PT. 

Ainda somos um partido de militantes, apesar de todos os problemas. Mas se a federação for aprovada, isto estará em questão. E o saldo disto para a organização da classe será um desastre.

O PT certamente existirá em 2026. Mas se for aprovado um vice neoliberal e golpista e, principalmente, se for aprovada a federação, teremos em 2026 um aniversário muito diferente do atual. 


sábado, 5 de fevereiro de 2022

A entrevista de Gleisi Hoffmann

No dia 4 de fevereiro de 2022, a companheira Gleisi Hoffmann concedeu uma entrevista ao blog MANIFESTO PETISTA.

A entrevista está disponível no seguinte endereço:

https://www.youtube.com/watch?v=FbJoY2HNkQI

Entre as pessoas que assistiram a entrevista, um grande número deixou mensagens criticando as posições da presidenta, especialmente acerca de Alckmin e acerca da federação.

E houve também pelo menos uma pessoa crítica aos entrevistadores, que supostamente teriam “pegado leve” e deixado a presidenta do PT “nadar de braçada”.

Na minha opinião, parte desta crítica procede em termos: nosso principal objetivo é ouvir a opinião das pessoas entrevistadas sobre os temas em debate. Para isso cabe a nós perguntar tudo o que deve ser perguntado, no tempo disponível e respeitando a pessoa convidada. Portanto, não nos cabe "pegar pesado".

Mas a outra parte da crítica, também na minha opinião, simplesmente não procede: infelizmente, mesmo em águas supostamente tranquilas, a presidenta do PT não "nadou de braçada".

A seguir, um resumo da entrevista.

A primeira questão (de Rui Falcão) feita à Gleisi foi referente aos “comitês de luta”. Ela deu a resposta padrão a respeito, baseada numa interpretação excessivamente otimista do processo de encontros setoriais do Partido e na expectativa de que ali na frente os “comitês de luta” virarão “comitês Lula”, como parte de uma campanha massiva e militante.  

A segunda questão (feita por José Genoíno) foi referente à federação. Genoíno lembrou que se está negociando uma federação com partidos que estão à direita do PT e perguntou se isto não criaria dificuldades políticas e programáticas para o Partido, na eleição e no eventual governo.

A resposta de Gleisi foi que ela não concorda que isto vá acontecer. Gleisi acha que os problemas de direitismo limitam-se a setores desses partidos, especialmente em algumas regiões do país. E que a federação, como vai se conformar em torno da candidatura Lula, vai depurar os setores mais alinhados à direita - “a tendência é que saiam”- ficando os defensores de um programa mais “à esquerda e centro-esquerda”.

Ou seja: segundo Gleisi o alinhamento programático se daria em torno da candidatura Lula, como em tese aconteceria... numa coligação.

Também na resposta dada à questão feita por Genoíno, Gleisi citou o caso de Pernambuco, onde Humberto Costa teria tido um “gesto generoso” ao retirar a pré-candidatura dele. 

Não foi citado nem pelos entrevistadores, nem pela Gleisi, o nome do candidato a governador do PSB, ao que tudo indica um deputado que em 2016 votou pelo impeachment de Dilma.

Ou seja: o ponto de partida de Gleisi -premissa para tudo o que ela fala a seguir - é que não haveria impedimento programático numa aliança entre o PT e o PSB.

(Talvez por pudor, não se falou do apoio do PSB a Aécio no segundo turno de 2014, do voto do PSB em favor do impeachment, nem de fatos mais recentes em âmbito nacional, estadual e municipal. Pelo visto, basta agora apoiar Lula para nós aceitarmos “virar a página” e olvidarmos os malfeitos, como se os problemas fossem apenas passados e não também presentes e futuros). 

Em seguida fiz duas questões: em que momento e em que lugar se vai decidir pela vice, portanto em que momento e lugar a militância que não concorda com entregar a vice para alguém como Alckmin vai poder apresentar um nome alternativo? E como será o funcionamento das federações nos municípios?

A resposta de Gleisi para a primeira pergunta foi: a proposta “Alckmin vice” teve origem em São Paulo, ganhou vida própria, mas não há discussão “institucional” a respeito e há uma série de preliminares (Alckmin precisa se filiar a um partido, se houver federação esta precisa debater o assunto, o PT precisa discutir, há o debate programático etc.).

Um ponto importante da resposta foi a afirmação peremptória, feita por Gleisi, de que a decisão sobre candidatura vai ser feita em um encontro do Partido (pode parecer uma obviedade, mas algumas pessoas estavam crentes de que o assunto vice poderia ser resolvido na executiva ou no diretório nacional do PT).

Sobre o tema das federações, Gleisi afirmou que as discussões (feitas desde 16 de dezembro de 2021) são preliminares e que o (primeiro!!!) informe a respeito será dado na reunião da executiva nacional convocada para o dia 7 de fevereiro de 2022. 

Especificamente sobre o tema dos municípios, disse que ainda não foi debatido entre os partidos, mas haveria uma “reivindicação” do PSB – que ela Gleisi “não acha de todo ruim” – segundo a qual a indicação dos partidos governantes teria “precedência”.

Gleisi deu como exemplo Juiz de Fora e Contagem: nestas cidades governadas pelo PT, as indicações do PT para a sua própria sucessão teriam “precedência”.

Como a própria Gleisi explicou, as “negociações” feitas até agora não foram precedidas de discussão na direção do PT e, portanto, o que foi tratado corresponde, pelo menos no caso do petismo, à opinião dos dirigentes envolvidos nas tratativas. 

Isto posto, a reivindicação do PSB chama a atenção para dois problemas pouco debatidos: i/a obrigação dos partidos federados terem candidaturas únicas à prefeitura em todos os municípios do Brasil; ii/o que fazer caso não haja acordo.

A esse respeito, Gleisi falou de “acordo” e de “pesquisa” como possível método de solução. Mas de novo fica no ar o seguinte: e se não tiver acordo, resolve como? No voto? Quem vota?

Gleisi considera possível ir resolvendo estes problemas “ao caminhar”, depois de 2022, talvez revendo o estatuto aprovado agora. 

Neste sentido, ela parece imbuída da ideia de que a federação seria um espaço idôneo para “um grande exercício de consenso", chegando a comparar com esforço de unidade feito (segundo ela) dentro do próprio Partido dos Trabalhadores.

As palavras de Gleisi são: “a federação não é um espaço onde um partido se sobreponha ao outro”. 

A consequência prática desta visão cândida é: i/ou submeter o PT aos consensos possíveis com os demais partidos; ii/ou, se não houver consenso, a federação liberar os partidos para “se manifestarem”.

Como parece óbvio, esta visão cândida reflete um ponto de vista estritamente parlamentar. Mas como “liberar os partidos” em temas como escolha de candidaturas, se a lei determina que a federação precisa ter uma única candidatura em cada âmbito? Além do mais, qual o sentido da federação, se em questões fundamentais não houver consenso??

Neste ponto da entrevista, foi perguntado e Gleisi confirmou que o PT está solicitando ao TSE o adiamento do prazo limite (hoje fixado em 1 de março de 2022) para registro de uma federação.

Na sequência, foi pedido (por Celso Marcondes) a Gleisi que falasse das “virtudes” de Alckmin; Celso perguntou também se não foram discutidos outros nomes.

A resposta de Gleisi foi a padrão: “nunca fizemos discussão de nomes para vice”. Como é óbvio, ela está se referindo às instâncias formais do Partido. Mas na informalidade, o debate corre solto, constituindo uma óbvia pressão sobre as instâncias. 

Um ponto divertido é: Gleisi não citou absolutamente nenhuma virtude de Alckmin, exceto (indiretamente) o desejo de “São Paulo” em tirar Alckmin da disputa, favorecendo Márcio França e Fernando Haddad.

Ao mesmo tempo, Gleisi falou que o debate programático precede e deve constituir o“norte” do debate sobre a vice. E defendeu que nosso programa não deve amaciar e não deve ter como objetivo atender o “mercado”.

Também neste ponto Gleisi falou da possibilidade de Alckmin se filiar ao PSB e da possibilidade de o PSB indicar Alckmin como candidato a vice. 

Possibilidade que, aliás, contradiz a tese, defendida no início da entrevista ao MANIFESTO pela mesma Gleisi, tese segundo a qual uma federação com o PT depuraria o PSB.  

A esta altura da entrevista, a Maria Carlotto fez uma síntese das perguntas e comentários das pessoas que estavam acompanhando a entrevista: “quando a militância será ouvida?”, “é  possível ter um programa de esquerda e um vice neoliberal, da Opus Dei, como Alckmin?”, além de muitas críticas à federação.

Rita Camacho aproveitou a deixa para perguntar se a revogação da reforma trabalhista seria uma premissa (seja da federação, seja da definição sobre a vice). Rita disse, também, ter sentido numa entrevista de Gleisi que ela estaria admitindo flexibilizar e perguntou: “tem algo de bom na reforma trabalhista?”

Gleisi respondeu existir uma discussão “sobre o verbo: revogar ou revisar”. Ela disse não achar isto importante, pois “até para revisar tem que revogar todas as disposições em contrário”. E defendeu “revogar e construir uma nova legislação”, “consertar o que deu errado”, pois a “maioria da reforma trabalhista deu errado”. E defendeu “se mirar no exemplo da Espanha” (vale lembrar que na Espanha houve uma revisão parcial da reforma anterior, revisão negociada com o empresariado). Para bom entendedor, meia palavra basta.

Gleisi também reafirmou que a federação “não está aprovada”: para aprovar tem que ser “levada uma proposta às instâncias partidárias”. Ela chegou a dizer explicitamente que ela “como presidente, mais alguns companheiros” estão discutindo o estatuto etc. e “vamos levar para as direções dos nossos partidos propostas”. 

Assumidamente trata-se de um procedimento totalmente diferente do aprovado pelo Diretório Nacional do PT, dia 16 de dezembro de 2021, determinando que as negociações deveriam ser “conduzidas” pela executiva nacional do Partido.

Ainda sobre o tema, Gleisi disse ser contra levar o tema da federação para um congresso do PT. Para ela, a “união de partidos para um objetivo comum” pode ser aprovado pela “direção máxima”, que para ela é o Diretório Nacional. 

Uma lógica curiosa: candidaturas e política de alianças serão deliberadas num encontro, mas a federação - embora preceda do ponto de vista lógico e embora dure por 4 anos - poderia ser decidida apenas pelo Diretório.

Fica claro, nesta como em outras questões, estarmos diante de visões profundamente diferentes acerca de certos temas. O que para uns seria praticamente a diluição do PT em um partido-de-partidos, para outros seria uma coligação melhorada; o que para uns é rebaixamento programático, para outros é um acordo aceitável; e assim por diante.

Gleisi voltou neste ponto a falar da vice, lembrando estarmos num “momento muito duro da história”, falando da ameaça nacional e internacional da extrema-direita, para justificar a necessidade de um programa e de uma aliança “que nos dê condições de não deixar esta gente voltar”. 

Foi o mais perto que ela chegou de justificar uma aliança “mais ampla”, mas sempre “sem abrir mão de questões fundamentais no programa”: “privatizações”, “política fiscal ampliada”, “reversão das reformas feitas em prejuízo do povo”. O problema é: será possível atender estes dois objetivos?

Em seguida Natália Sena perguntou a Gleisi sobre as “fórmulas” do funcionamento das direções da federação: baseado na proporcionalidade das bancadas, maioria do PT na direção da federação, mas decisões importantes seriam tomadas por 2/3, constituindo na prática um direito de veto dos partidos minoritários.

Gleisi respondeu que a referência para elaborar esta fórmula foi a mesma adotada para definição do fundo partidário, do fundo eleitoral e do tempo de horário eleitoral gratuito.

A resposta de Gleisi revela existir um problema adicional no tema da federação, problema pouco debatido: o PT é um partido militante, mas a federação é uma cooperativa de parlamentares. Na prática, com a federação tende a se institucionalizar um problema já existente no PT, que é a submissão crescente do partido-militância ao partido-bancadas.

Ademais, o critério de 2/3 seria adotado onde “não chegarmos a consenso”, mas Gleisi reafirmou que a federação será um “espaço de construção e diálogo para construir o consenso, um exercício permanente de convivência de forças”. 

No caso da votação das bancadas, Gleisi reiterou o método de liberação onde não houver consenso. E no caso da escolha de candidaturas, a resposta foi a dada anteriormente: consenso, prevalência de quem já governa, pesquisas etc. 

Mas no limite, se nada disso der certo, como decidir as candidaturas da federação? 

Gleisi não respondeu.

Será possível firmar uma federação deixando isto em aberto??

Douglas Martins fez duas perguntas, uma sobre o prazo e outra sobre o programa. Gleisi respondeu que o prazo de 1 de março dificulta, mas não inviabiliza. E sobre o programa, Gleisi considera que os partidos envolvidos no debate da federação tiveram posições muito semelhantes na reforma trabalhista e previdenciária e a “vários outros temas” no Congresso nacional. 

Gleisi também chamou a atenção para o seguinte: a federação não precisa agora de um programa de governo, mas de uma “carta programática”, “assim como” aconteceu com o PT quando ele foi “lançado”. Segundo Gleisi, estaria sendo elaborada tal proposta.

Já o programa de governo, lembra Gleisi, poderá ser debatido pela federação (se esta vier a ser formada) com outros partidos. Por exemplo, o PSOL e a Rede, mas também outros partidos. Sobre o PSD e o MDB, entre outros, nada foi falado.

A comparação feita por Gleisi, entre o PT e a federação, reforça as preocupações dos que consideram que a eventual adesão a uma federação não é algo trivial. Aliás, registre-se: na hora de falar dos supostos benefícios da federação, Gleisi é enfática; mas na hora de falar dos evidentes malefícios, Gleisi minimiza, como se a federação fosse apenas uma coligação com outro nome.

Para “aliviar”, Rui pediu a Gleisi que falasse do aniversário do PT. 

O que Gleisi afirmou neste momento da entrevista acerca da importância do PT é – na minha opinião – contraditório com o movimento de diluição do Partido em uma federação. 

Contraditório do ponto de vista programático e estratégico, mas contraditório também do ponto de vista eleitoral. 

Afinal - e disto não se falou na entrevista - do ponto de vista estritamente eleitoral, a federação funcionará como uma coligação proporcional. E o efeito das coligações proporcionais sobre o PT é reconhecidamente negativo. Portanto, a federação neste momento significa transferir para o PSB realmente existente (em cada estado e cidade do Brasil sabemos o que isso significa) parte dos benefícios deste bom momento vivido pelo PT. 

A última pergunta foi feita por mim, acerca da pressão feita pelo PSB para o PT retirar suas candidaturas a governador em vários estados, especificamente em São Paulo e Rio Grande do Sul. A pergunta foi: “numa situação limite, se o PSB chegar e nos disser ou é isso ou é nada, qual deve ser a nossa postura?”

A resposta de Gleisi foi: “eu não trabalho com esta hipótese”. 

O curioso é que ela considera “óbvio” que Carlos Siqueira tensione, mas ela não parece achar igualmente óbvio que nós do PT tensionemos também, da mesma forma e no sentido oposto. 

Na opinião de Gleisi, vamos ter um “entendimento político” tanto em São Paulo como no Rio Grande do Sul e Espírito Santo. E informou que esta semana haverá reunião com PSB, PV e PCdoB para debater o a situação desses estados.

Como em outras questões envolvendo a federação, Gleisi parece acreditar que conversando tudo se resolve. Pode ser que seja assim, até porque como todo bom chantagista, a cúpula do PSB não joga dinheiro fora e sabe muito bem dos benefícios eleitorais advindos de uma aliança com o PT e com o Lula nestas eleições de 2022.

Eles operam para maximizar estes benefícios. E até agora tem tido êxito.

Mas é exatamente nisto que reside o problema: numa conjuntura tão favorável, por qual motivo deveríamos fazer tantas concessões? 

Por quais motivos deveríamos montar uma federação e nos amarrar por quatro anos com um partido como o PSB? 

Por quais motívos deveríamos  aceitar discutir a entrega da vice para a direita golpista e neoliberal? 

Para tudo isto, a resposta sempre gira ao redor do "ampliar as chances de derrotar Bolsonaro e eleger Lula".

O que não tem nenhuma resposta crível é a pergunta feita por alguns ouvintes da entrevista: como fazer tantas concessões e, ao mesmo tempo, manter um programa que não "amacie" com o mercado?

A expectativa de vitória em 2022 faz muita gente boa aceitar qualquer concessão como se fosse útil e inevitável. Mas do mesmo jeito que ocorreu entre 2003 e 2016, tudo tem seu preço.

O preço da aliança com Alckmin é rebaixar o programa: em nome de derrotar o bolsonarismo, conciliar com o nenoliberalismo.

O preço da federação é mudar na prática a natureza do PT.

Ainda somos um partido de militantes, apesar de todos os problemas.

Mas se a federação for aprovada, isto estará em questão.

E o saldo disto para a organização da classe será um desastre.

Embora tenha gente que não acredita mais nisto, nós seguimos acreditando: a existência do PT é decisiva para o futuro da classe trabalhadora e do Brasil.

Matar o PT, sufocar o PT, desmoralizar o PT, corromper o PT, é a meta permanente da classe dominante.

E não consigo deixar de pensar em um livro chamado El sastre de Ulm, que conta a história de um importante dirigente do Partido Comunista Italiano, o Lucio Magri.

Magri conta o seguinte: num determinado momento foi tomada uma decisão muito grave, que  acabou levando ao fim do PCI.

A esse respeito, Magri confessa o seguinte: "eu estava convencido do contrário, porém me resignei a um silêncio que era um consentimento". 

E acrescenta: "voltando a pensar em minha vida política, creio que  entre tantos erros que eu cometi, esse silêncio foi o único em que o erro se mesclava com a vileza".

Embora a atual direção do PT tenha alguns candidatos a Magri, também tem muita gente preocupada com os problemas reais.

Assim, fica o convite aos contrários, seja aos contrários a entregar a vice para um golpista neoliberal, seja aos contrários a amarrar o PT numa federação mal ajambrada: afastem a resignação, manifestem-se privadamente, manifestem-se publicamente, votem contra.

Da nossa parte, esta disputa será feita não apenas no Diretório, mas também no congresso do Partido.

Por último, mas não menos importante,: o Leão da Montanha citado por Douglas Martins no pós-entrevista (disponível no youtube) era um personagem engraçado da Hanna-Barbera,  que tinha entre seus bordões o "saída pela esquerda".

Se pintasse algo difícil de fazer ou de explicar, vinha a resposta: "saída pela esquerda".

O Leão da Montanha é ótimo. Mas a luta de classes não é um desenho animado.

(sem revisão)

 

 

 

 


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Atendendo a pedidos

(sem revisão)

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Um companheiro de São José dos Campos (SP) me enviou agora há pouco duas mensagens.

A primeira diz assim: “Os Rasputins do partido : Valter Pomar e Breno Altmann que gostam de história  e fazer digresões deveriam relembrar seus livros”.

A segunda informa que o autor da frase acima estaria se baseando num texto de Cláudio Daniel, intitulado “Para entender a chapa Lula-Alckmin”.

Reproduzo ao final o texto.

O texto começa dizendo o seguinte: “A tática eleitoral defendida por setores do PT, ainda não oficializada pelo Partido, tem gerado controvérsias, sobretudo por parte de grupos trotsquistas, como o PSOL, que desejam uma chapa 100% de esquerda, sem nenhum tipo de aliança com partidos burgueses ou líderes de direita como Geraldo Alckmin. O tema merece debate aprofundado”.

Realmente, o tema merece debate aprofundado. Um bom começo seria evitar simplificações. Por exemplo: se a tática de aliança com Alckmin é defendida por setores do PT, isto significa que outros setores do PT não defendem esta tática. Como a decisão será tomada pelo PT (e não pelo PSOL ou pelo PCdoB), é obviamente mais relevante debater a opinião destes setores do PT do que debater a opinião de “grupos trotsquistas” do PSOL.

Pois bem: entre os setores do PT contrários a uma aliança com Alckmin há nuances. Mas eu desconheço que exista alguém defendendo “nenhum tipo de aliança com partidos burgueses ou líderes de direita”. Afinal, trata-se de uma eleição de dois turnos, num país como o Brasil, numa conjuntura como a de 2022.

Nuances a parte, os setores do PT contrários a tal “tática ainda não oficializada” são 100% contrários a entregar a vice-presidência para um neoliberal golpista. São coisas um pouco diferentes: “entregar a vice” e “não fazer nenhum tipo de aliança”.

O autor do texto vai buscar argumentos em 1847. Diz que Marx, Engels, Lênin, Stálin e Dimitrov defenderam isto ou aquilo. Este jeito de argumentar - tirar citações do seu contexto e usar isto como argumento de autoridade - é um método que não é cientificamente sério.

Por exemplo: Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista no final de 1847, num momento histórico de revoluções burguesas contra a ordem feudal. E o que aconteceu em 1848-1849? A burguesia prometeu ao proletariado “liberdade, igualdade e fraternidade”; mas traiu a revolução e ofereceu ao proletariado “infantaria, cavalaria e artilharia”. O trocadilho genial é do Marx.

Lênin morreu em 1924, portanto ele estava morto quando a Internacional Comunista aprovou a política da Frente Popular. Mas ao longo de sua atuação, Lenin defendeu diferentes posições táticas acerca da burguesia. Afinal, como ele dizia, a essência do marxismo é a análise concreta da realidade concreta (e não repetir citações fora de contexto).

Stalin também defendeu posições diferentes acerca de como tratar a burguesia, algumas tão “gentis” que ele ressuscitasse no Brasil de 2022 correria o risco de acusado de “trotsquista” pelos “claudios danieis” da vida.

E Dimitrov? Recomendo ler o citado relatório, pois nele há frases sobre a burguesia que não tem absolutamente nada que ver com a lenda difundida pelo Claudio Daniel.

O Informe apresentado por Dimitrov no VII Congresso Mundial da Internacional Comunista, no dia 2 de Agosto de 1935, pode ser lido no link a seguir:

https://www.marxists.org/portugues/dimitrov/1935/fascismo/index.htm

Neste documento há um item específico sobre a frente popular.

Vejamos o que diz o texto:

“A frente popular antifascista

“Na mobilização das massas trabalhadoras para a luta contra o fascismo, temos como tarefa especialmente importante a criação de uma extensa frente popular antifascista, sobre a base da frente única proletária. O êxito de toda a luta do proletariado está intimamente unido à criação da aliança de luta do proletariado com os camponeses trabalhadores e com as massas mais importantes da pequena burguesia urbana, que formam a maioria da população, mesmo nos países industrialmente desenvolvidos.

“O fascismo, em suas campanhas de agitação destinadas à conquista de tais massas, tenta opor as massas trabalhadoras da cidade e do campo ao proletariado revolucionário e assustar os pequenos burgueses com o fantasma do «perigo vermelho». Temos que devolver os tiros e indicar aos camponeses trabalhadores, aos artesãos e aos trabalhadores intelectuais, de onde os ameaça o verdadeiro perigo; temos que os fazer ver concretamente quem joga sobre os camponeses a carga das contribuições e impostos, quem os suga por meio de juros usurários, expulsa de seu terreno o camponês e sua família e o condena ao desemprego e à mendicância. Precisamos esclarecer objetivamente, explicar paciente e tenazmente, quem arruína os artesãos à força de impostos e taxas de todo gênero, de rendas pesadas e de uma concorrência insuportável para eles, quem atira à rua e priva de trabalhos as extensas massas dos trabalhadores intelectuais.

“Mas isto não basta.

“O fundamental, o decisivo, para estabelecer a frente popular antifascista, é a ação decidida do proletariado revolucionário em defesa das reivindicações destes setores e, em particular, dos camponeses trabalhadores, de reivindicações que estejam na razão dos interesses primordiais do proletariado, combinando no decorrer da luta as aspirações da classe operária com estas reivindicações.

“Para a criação da frente popular antifascista, tem grande importância saber abordar de maneira acertada todos os partidos e organizações que envolvem uma parte considerável de camponeses trabalhadores e as massas principais da pequena burguesia urbana.

“Nos países capitalistas, a maioria destes partidos e organizações — tanto econômicas como políticas — se encontra ainda sob a influência da burguesia e acompanha esta. A composição social destes partidos e organizações não é homogênea. Nela aparecem, ao lado dos camponeses muito ricos; ao lado de pequenos comerciantes, homens de grandes negócios; mas a direção está na mão dos últimos, os agentes do grande capital. Isto nos obriga a dar a estas organizações um tratamento diferente, levando em conta que, com frequência, a massa de seus filiados não conhece a verdadeira face política de sua própria direção. Em determinadas circunstâncias, podemos e devemos dirigir nossos esforços no sentido de ganhar para a frente popular antifascista estes partidos e organizações ou setores isolados deles apesar de sua direção burguesa. Assim acontece atualmente na França, por exemplo, com o partido radical; nos Estados Unidos, com as diversas organizações de granjeiros (farmers); na Polônia com o «Stronictwo Ludowe»; na Iugoslávia com o Partido Camponês croata; na Bulgária com a Liga dos Agricultores; na Grécia com os «agraristas», etc. Mas, independentemente disto, de que existam possibilidades de atrair estes partidos e estas organizações para a frente popular, nossa tática tem que ser orientada, sob quaisquer condições, no sentido de arrastar para a frente popular antifascista os pequenos burgueses camponeses, artesãos, etc., envolvidos neles”.

“Assim, pois, como vedes, temos que acabar por completo com o menosprezo e a atitude depreciativa, que surgem com bastante frequência em nossa situação, a respeito dos diversos partidos e organizações de camponeses, artesãos e de massas da pequena burguesia urbana”.

Como se pode perceber, ao contrário do que escreveu Claudio Daniel, a maior preocupação do Dimitrov é libertar as massas da influência da burguesia.

Vejamos agora um outro trecho, que fala de como deveria ser um governo:

 “Exigimos de todo governo de frente única uma politica completamente diversa. Exigimos-lhe que realize determinadas reivindicações cardiais revolucionárias consoantes com a situação, como, por exemplo, o controle da produção, o controle sobre os bancos, a dissolução da polícia, sua substituição por uma milícia operária armada, etc. Há quinze anos, Lenin nos convidava a que concentrássemos toda a atenção «em procurar formas de transição ou de aproximação para a revolução proletária». Poderá acontecer que o Governo de frente única seja, numa série de países, uma das formas transitórias mais importantes. Os doutrinários «de esquerda» passaram sempre de longe em relação a esta indicação de Lenin, falando somente da «meta», como propagandistas limitados, sem preocupar-se jamais com as «formas de transição». E os oportunistas de direita tentaram estabelecer uma «fase democrática intermediária especial» entre a ditadura burguesa e a ditadura do proletariado, para sugerir à classe operária a ilusão de um pacífico passeio parlamentar de uma ditadura a outra. A esta «fase intermediária» fictícia chamavam também «forma de transição», e invocavam inclusive o nome de Lenin! Mas não foi difícil descobrir a fraude, pois Lenin falava de uma forma de transição e de aproximação da «revolução proletária», isto é, a destruição da ditadura burguesa, e não de uma formá transitória qualquer entre a ditadura burguesa e a proletária”.

Espero que  estes dois trechos sejam suficientes para perceber que i/Dimitrov escreve num contexto histórico muito diferente do nosso e ii/a opinião dele sobre a burguesia não tem nada que ver com a lenda difundida por Cláudio Daniel. Num resumo: frente popular não é igual a frente com a grande burguesia.

Adiante: Claudio Daniel lembra que na década de 1930 houve na França e na Espanha governos de “coalizões formadas por comunistas, anarquistas, social-democratas e setores da burguesia que se opunham ao fascismo”. Verdade. E como foi que terminaram? No caso da França, traindo a esquerda. No caso da Espanha, derrotado pelos fascistas. E um dos motivos da derrota – no caso da Espanha – foi ter aceito a dicotomia “ou fazer a revolução ou fazer a guerra civil”. Não fizeram a revolução e perderam a guerra civil.

Sobre a China, o Claudio Daniel fornece uma informação totalmente falsa. Ele diz: “na China, Mao Zedong firmou uma aliança com o militar nacionalista e autoritário Chiang Kai Shek, líder do Kuomitang, ao longo de quase duas décadas, para apoiar a unificação do território chinês, dividido entre os vários senhores da guerra das diversas províncias chinesas, e depois para lutar contra as forças de ocupação japonesa. Esta aliança só foi rompida em 1945”.

A verdade é: até 1927 o Partido Comunista fez uma aliança com o Kuomitang contra os “senhores da guerra”. E de 1937 até 1945 houve uma aliança entre o PC e o Kuomitang contra os japoneses. Mas entre 1927 e 1937 houve uma guerra civil entre o Kuomitang e o Partido Comunista. Guerra civil que foi retomada entre 1945 e 1949. Portanto, é falso, é mentira, é ignorância histórica que a aliança durou “quase duas décadas”.

Mas esta mentira tem seu motivo de ser: em 1927 o PC foi traído, atacado e massacrado pelo Kuomitang (dezenas de milhares de assassinados). Detalhe: o PC da China afirma, em seus documentos oficiais, que um dos motivos do massacre foi o “desvio de direita”, as posições de direita que prevaleciam na direção do PC. Obviamente, falar disso não contribui para quem defende as posições de Claudio Daniel.

Claudio Daniel usa como argumento para defender uma aliança com Alckmin o tratado Molotov-Ribentrop. Provavelmente ele quer argumentar que podemos fazer aliança com qualquer um, desde que isso nos ajude a atingir nossos objetivos. Falando em tese, concordo com isso. O problema é: nosso objetivo neste ano de 2022 é derrotar a pessoa do Bolsonaro ou é derrotar a política do Bolsonaro. Se for derrotar a pessoa, vale aliança até com o Moro e com o Mourão. Mas se nosso objetivo é derrotar não só a pessoa, mas também a política de Bolsonaro, então é preciso criar as condições para derrotar a política neoliberal (pois, vamos lembrar, a política do governo Bolsonaro é neoliberal). E a pergunta é: aliança com Alckmin e com a direita gourmet ajuda a derrotar o neoliberalismo??

O principal problema dos exemplos citados antes e os outros (Cuba, Angola, Moçambique etc.) reside nisso: nenhum deles responde o que fazer na situação concreta em que estamos, no Brasil de 2022.

O Claudio Daniel (e quem acredita em suas opiniões) tem alguma obsessão particular contra “o menchevique Leon Trotsky e seus discípulos”. Mas a obsessão é tão grande, que o torna cego às evidências históricas. Trotsky foi mesmo menchevique, depois rompeu com os mencheviques, virou independente, depois entrou no Partido Bolchevique, do qual foi expulso. Ao longo de décadas de atuação política, é mentira que ele nunca tenha defendido “qualquer acordo ou aliança tática com setores da direita ou da burguesia”. Há, claro, setores da esquerda – alguns se declaram seguidores de Trotsky, alguns não – que tem posição por princípio contra qualquer aliança. Mas, repito, este não é o caso dos setores do PT que se opõe a fazer uma aliança que entregue a vice-presidência para um golpista neoliberal.

Aliás, ontem ouvi um cidadão muito respeitável defender Alckmin com o seguinte argumento: comparando-o com José de Alencar. Eu votei contra José de Alencar ser vice de Lula em 2002, mas a comparação não tem pé nem cabeça. Os fatos são: Alencar era um crítico da política pró-capital financeiro do PSDB, Alckmin sempre foi um defensor das políticas neoliberais.

Deixando de lado as comparações históricas sem pé nem cabeça, Claudio Daniel diz que “a tática defendida por Lula e setores do PT tem os seguintes objetivos: conquistar o maior número de votos possível no estado de São Paulo, para garantir a vitória no primeiro turno e evitar a polarização ideológica em hipotético segundo turno; acalmar o empresariado nacional, que sempre viu Lula e o PT com desconfiança; tirar Alckmin das eleições estaduais em São Paulo, abrindo uma brecha para a possível vitória de Fernando Haddad, que poderá ser o primeiro governador petista no principal estado da federação e ninho histórico dos tucanos; caso o Congresso Nacional tenha maioria de esquerda, Alckmin será uma figura decorativa, sem poder algum; caso a maioria seja de direita, Alckmin poderá ser o interlocutor entre o Palácio do Planalto e o Legislativo”.

A lista de objetivos acima é uma aplicação do que eu chamo de “teoria do tudo de bom”. Vamos por partes:

1/”conquistar o maior número de votos possível no estado de São Paulo, para garantir a vitória no primeiro turno e evitar a polarização ideológica em hipotético segundo turno”

-a polarização ideológica não estará posta em “hipotético segundo turno”, ela está posta desde já, portanto se o objetivo é este, perda de tempo;

-não vencemos no primeiro turno em 2002, nem em 2006, nem em 2010, nem em 2014. É possível vencer no primeiro turno em 2022? Hipoteticamente sim, mas construir uma política com este objetivo é temerário. Em 2006 e em 2014 teve gente confiando nisso e o efeito prático foi péssimo;

-os cálculos eleitorais sobre SP partem do pressuposto de que o eleitorado tucano vai acompanhar Alckmin, mais ou menos como o eleitorado petista acompanha Lula não importa quem seja seu vice. Digamos que isso é uma hipótese não comprovada pelas pesquisas divulgadas até agora;

2/”acalmar o empresariado nacional, que sempre viu Lula e o PT com desconfiança”

-a única coisa capaz de acalmar o empresariado nacional é manter e ampliar os seus lucros. Isto não se garante com um vice, isto se garante com a adoção de determinadas políticas de governo. O problema é: será possível, no Brasil de 2022-2026, no atual cenário mundial, implementar uma política “ganha-ganha”, ou seja, que ao mesmo tempo amplie os lucros do empresariado e melhore a vida do povo?

3/”tirar Alckmin das eleições estaduais em São Paulo, abrindo uma brecha para a possível vitória de Fernando Haddad, que poderá ser o primeiro governador petista no principal estado da federação e ninho histórico dos tucanos”

-espero que Haddad ganhe as eleições de São Paulo, mas convenhamos a aposta é alta, a saber, a de que o eleitorado tucano de SP (que votou 45 nas últimas 7 eleições vai agora votar 13 duas vezes...);

4/” caso o Congresso Nacional tenha maioria de esquerda, Alckmin será uma figura decorativa, sem poder algum; caso a maioria seja de direita, Alckmin poderá ser o interlocutor entre o Palácio do Planalto e o Legislativo”

-achar que pode haver maioria de esquerda no Congresso Nacional é um delírio. E entregar a Alckmin o papel de interlocutor é repetir o mesmo erro já cometido ao entregar a Temer este papel.

Claudio Daniel lembra, no final de seu texto, que “essa é uma aliança tática, não permanente, que tem o objetivo de isolar e derrotar Bolsonaro e permitir a adoção de uma agenda política democrático-popular. Não é uma frente para se fazer a revolução, pelo simples fato de que a revolução é feita pela violência organizada das massas, liderada por um partido marxista-leninista, e não o resultado de uma eleição dentro do velho estado burguês”.

Eu não sei em que mundo vive o Cláudio Daniel. No mundo em que eu vivo, no Brasil de 2022, a disjuntiva não é “frente eleitoral com a burguesia” versus “frente revolucionária”. A discussão é sobre a natureza da frente eleitoral. Alguns defendem uma frente democrática popular, outros defendem uma frente tão ampla que inclui golpistas e neoliberais.

Os que defendem uma frente com golpistas e neoliberais têm o direito de fazê-lo, mas deveriam ser honestos e reconhecer que o governo resultante desta frente não adotará uma “agenda política democrático-popular”. Uma frente com Alckmin vai dar numa agenda social-liberal.

Claudio fala outras coisas que prefiro não comentar, pois também sou pragmático e acho melhor não dar atenção para cortina de fumaça.

Aliás, só comentei este texto a pedido do meu amigo de São José dos Campos.

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SEGUE O TEXTO COMENTADO

"PARA ENTENDER A CHAPA LULA-ALCKMIN. 

A tática eleitoral defendida por setores do PT, ainda não oficializada pelo Partido, tem gerado controvérsias, sobretudo por parte de grupos trotsquistas, como o PSOL, que desejam uma chapa 100% de esquerda, sem nenhum tipo de aliança com partidos burgueses ou líderes de direita como Geraldo Alckmin. O tema merece debate aprofundado. 

Já no Manifesto Comunista, Marx e Engels defendem que os comunistas devem se aliar à burguesia sempre que esta assumir uma postura progressista – por exemplo, numa revolução democrática contra regimes monárquico-feudais ou governos autoritários. 

Esta posição foi retomada por Lênin, Stalin e a III Internacional, que desde o famoso relatório apresentado pelo líder comunista búlgaro Dimitrov passou a apoiar as Frentes Populares contra o fascismo. Esta política da III Internacional foi implementada na década de 1930 em países como a França e a Espanha, em que ascenderam ao poder coalizões formadas por comunistas, anarquistas, social-democratas e setores da burguesia que se opunham ao fascismo. 

Na China, Mao Zedong firmou uma aliança com o militar nacionalista e autoritário Chiang Kai Shek, líder do Kuomitang, ao longo de quase duas décadas, para apoiar a unificação do território chinês, dividido entre os vários senhores da guerra das diversas províncias chinesas, e depois para lutar contra as forças de ocupação japonesa. Esta aliança só foi rompida em 1945, quando ocorreu a guerra civil entre comunistas e nacionalistas, que culminou com a revolução socialista chinesa de 1949 e a fuga dos nacionalistas para ilha chinesa de Taiwan, que se autoproclamou “independente” com apoio dos EUA, ocupando a vaga pertencente à China na ONU até meados da década de 1970.   

A União Soviética, por sua vez, após ver recusada a sua proposta de uma frente antifascista pelos governos da Inglaterra e da França, assinou um Tratado de Não-Agressão com a Alemanha de Hitler. Essa tática genial de Stalin permitiu que a URSS, entre 1939 e 1941, pudesse produzir milhares de tanques, aviões, submarinos e outras armas para a guerra inevitável contra o III Reich. Com essa política acertada de Stalin, o Exército Vermelho conseguiu impor dura derrota às tropas nazistas, expulsá-las do território soviético e de toda a Europa Oriental, até a conquista de Berlim Oriental, onde os soldados soviéticos hastearam a bandeira vermelha com a foice e o martelo sobre as ruínas do Reichstag. 

Já nos anos 1950-1960-1970, em Cuba, Angola, Moçambique e outros países, os comunistas também formaram frentes com setores da burguesia, para enfrentar o colonialismo, o imperialismo, conquistar a democracia e posteriormente avançarem na construção do poder popular e do socialismo. Durante todo esse período, o menchevique Leon Trotsky e seus discípulos se opuseram de maneira enfática contra qualquer acordo ou aliança tática com setores da direita ou da burguesia, alegando a “independência política da classe operária”. Curiosamente, ao longo desse período, os trotsquistas nunca fizeram nenhuma revolução vitoriosa, em lugar algum do mundo.

No caso brasileiro, a tática defendida por Lula e setores do PT tem os seguintes objetivos: conquistar o maior número de votos possível no estado de São Paulo, para garantir a vitória no primeiro turno e evitar a polarização ideológica em hipotético segundo turno; acalmar o empresariado nacional, que sempre viu Lula e o PT com desconfiança; tirar Alckmin das eleições estaduais em São Paulo, abrindo uma brecha para a possível vitória de Fernando Haddad, que poderá ser o primeiro governador petista no principal estado da federação e ninho histórico dos tucanos; caso o Congresso Nacional tenha maioria de esquerda, Alckmin será uma figura decorativa, sem poder algum; caso a maioria seja de direita, Alckmin poderá ser o interlocutor entre o Palácio do Planalto e o Legislativo.

Claro: essa é uma aliança tática, não permanente, que tem o objetivo de isolar e derrotar Bolsonaro e permitir a adoção de uma agenda política democrático-popular. Não é uma frente para se fazer a revolução, pelo simples fato de que a revolução é feita pela violência organizada das massas, liderada por um partido marxista-leninista, e não o resultado de uma eleição dentro do velho estado burguês. Na atual correlação de forças, não é possível pensarmos numa ruptura revolucionária – não temos um Partido Comunista autêntico, nem um Exército Popular – logo, a única alternativa viável hoje é a da Frente Popular, com Alckmin ou outro representante da burguesia como vice de Lula. 

De nada adiantaria lançarmos uma candidatura 100% de esquerda, porque ela seria derrotada e teríamos mais quatro ou oito anos de fascismo no Brasil. Este é um pensamento pragmático e marxistas são pragmáticos. Insistir na tática aventureira dos trotsquistas é fazer o jogo do fascismo e do imperialismo, que aliás é o único papel que eles desempenharam na história desde a sua origem até os dias de hoje."    

Cláudio Daniel