quarta-feira, 10 de novembro de 2021

A polêmica sobre a Nicarágua

Passei os últimos dias esperando a presidenta nacional do PT desautorizar publicamente o noticiário sobre Alckmin na vice.

Afinal, o assunto não foi tratado nem no Diretório Nacional, nem na Executiva Nacional do PT.

Portanto fiquei entusiasmado quando li uma postagem da companheira Gleisi Hoffman explicando que "nota sobre eleições (...) não foi submetida à direção partidária"...

... mas aí me dei conta que Gleisi não falava do Alckmin na vice, mas sim das eleições na Nicarágua!

Para quem não leu, aqui está:


Que a nota não foi submetida à direção, é verdade. 

O restante que está na nota da Gleisi também é certo.

Mas no contexto, o post da Gleisi desautoriza a nota da SRI.

Fui SRI do PT entre 2005 e 2010 e secretário executivo do Foro entre 2005 e 2013 e não me lembro de uma desautorização parecida, nem antes, nem durante, nem depois de eu sair da secretaria.

Será que a nota assinada pelo secretário de relações internacionais diz alguma barbaridade?

Fui no site do Partido e não achei a nota. 

Segundo informam a Carta Capital e o Poder360, a nota teria sido retirada. 

Está no site do Partido apenas a crítica feita pela presidenta, mas não está a nota criticada.

Como se vê, falar em defesa das liberdades é mais fácil do que praticar as liberdades, inclusive dentro de um partido de esquerda.

De toda forma, o assunto já é público, como se pode ler abaixo:

https://www.cartacapital.com.br/politica/os-bastidores-burocraticos-da-nota-do-pt-em-defesa-da-vitoria-na-nicaragua/

https://www.poder360.com.br/internacional/pt-exclui-nota-de-saudacao-a-reeleicao-de-ortega-na-nicaragua/

Pedi e consegui com outra pessoa a tal nota, que diz o seguinte:

"Saudação às eleições nicaraguenses" 

"O Partido dos Trabalhadores (PT) saúda as eleições nicaraguenses realizadas neste domingo, 7 de novembro, em uma grande manifestação popular e democrática deste país irmão". 

"Os resultados preliminares, que apontam para a reeleição de Daniel Ortega e Rosario Murillo, da FSLN, confirmam o apoio da população a um projeto político que tem como principal objetivo a construção de um país socialmente justo e igualitário". 

"Esta vitória será conquistada apesar das diversas tentativas de desestabilização do governo e do bloqueio internacional contra a Nicarágua e seu atual governo, uma situação que penaliza principalmente os mais pobres e necessitados". 

"Esperamos seguir com a FSLN neste caminho de construção de uma América Latina e Caribe livres e soberanos, uma região de paz e democracia social que possa servir de exemplo para todo o mundo".

Tirando o tom mais entusiasmado, a nota da SRI do PT é similar a nota divulgada pelo Foro de São Paulo, que afirma o seguinte:

"La Secretaría Ejecutiva del Foro de São Paulo saluda las elecciones realizadas en Nicaragua este 7 de noviembre, en ambiente de paz y gran participación popular".

"Esperamos que se confirmen los resultados preliminares, con la reelección del binomio Daniel Ortega y Rosario Murillo, reafirmando el deseo de la población por la continuidad del gobierno del FSLN, que ha trabajado exitosamente por el pueblo nicaragüense y la reconstrucción del país, a pesar de los intentos de desestabilización interna y externa".

"Juntos en el Foro de São Paulo, resistiremos contra las injerencias extranjeras en nuestros países para construir una América Latina y el Caribe de paz y justicia social".

A nota do Foro está disponível aqui: https://forodesaopaulo.org/saludo-a-las-elecciones-nicaraguenses-del-7n/

A nota do PT só tenho em pdf, porque como já se explicou foi retirada do site do Partido.

A nota da SRI é assinada por Romênio Pereira.

A nota do Foro é assinada por Monica Valente.

Ambos integram a comissão executiva nacional do PT.

Da companheira Gleisi a cada um dos filiados do Partido, todo mundo tem o direito de divergir do conteúdo das notas acima. 

Mas se o Partido quer mudar de posição acerca da Nicarágua e da FSLN, o certo é fazer um debate na instância adequada.

Discordo da atitude de desautorizar publicamente a posição expressa - legitimamente - pelo secretário da pasta e discordo da postura de retirar a nota do site do Partido.

Aliás, este método de "governar por tuítes" não é muito recomendável. 

Por fim: conheço um pouco a Nicarágua, conheço um pouco a FSLN e acho necessário debater em profundidade a situação naquele país.

Mas sinceramente não acho que o problema de fundo seja a Nicarágua.

O problema de fundo é a ofensiva do governo Biden sobre a região, ofensiva que inclui fazer demagogia (supostamente) em nome da democracia contra o "autoritarismo" (chinês, cubano, venezuelano, nicaraguense, do Foro de SP etc.).

É isto que está em jogo. Os nicaraguenses são apenas a bola da vez. Já vimos na Libia, na Siria e no Iraque como termina este tipo de operação.

ps. saiu a nota tão esperada por mim. Aqui vai.





 

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

"Se o Lula quer, quem sou eu para questioná-lo?"

Comecei a militar no PT em 1982 e me filiei em 1985.

Era uma época de grandes lutas e de grandes debates.

Um dos temas em debate era o socialismo.

Pudera.

Foi quando aconteceu a "queda do Muro de Berlim", o "massacre da Praça da Paz Celestial" e a desaparição da União Soviética.

Uma das questões que apareciam naquele debate era a crítica ao modelo de Estado e de partido que existiam nos chamados países socialistas.

E um dos alvos da crítica era o chamado "culto à personalidade".

O que se combinava com a crítica feita pelo PT ao caciquismo, ao coronelismo e ao cupulismo existentes na política brasileira, inclusive em partidos de esquerda.

Para citar um texto do início dos anos 1990: "A democracia é a vida do PT. Sem esta seiva, nosso projeto se exaure, fenece. Ninguém, nenhum parlamentar, nenhum prefeito, nenhuma liderança, nem mesmo o Lula, pode se sobrepor às maiorias e às decisões democráticas legitimamente firmadas no interior do PT".

Várias décadas depois, muita coisa mudou no mundo, no Brasil e no PT.

Um exemplo de mudança é a frase citada no título deste texto: "Se o Lula quer, quem sou eu para questioná-lo?"

Antes que me perguntem, a frase é real e foi escrita hoje, 8 de novembro de 2021.

De fato, se o Lula quer almoçar salada de chuchu, é um problema dele.

Mas a candidatura a vice-presidente da República é um problema nosso, é um problema de toda a esquerda, a começar pelos petistas.

Lula tem influência suficiente para convencer ou até para derrotar quem pensa diferente. 

Mas quem pensa diferente tem o dever de lutar pelo que acredita.

A não ser, é claro, para quem aderiu ao "culto à personalidade".

Ou ao culto dos que tentam falar em nome da tal "personalidade", mesmo que a própria tenha outra opinião ou não tenha se pronunciado a respeito.

Isto posto, vamos ao artigo do Celso Rocha de Barros, publicado na Folha de S. Paulo de 8 de novembro, falando da "Chapa Lula/Alckmin".

Barros diz ter "dúvidas se é possível", mas acha que a chapa Lula e Alckmin seria uma "boa ideia", porque permitiria "juntar o ajuste macroeconômico do PSDB com a redistribuição de renda do PT".

Lindo, né?

Infelizmente, a realidade conspira contra.

Acontece que o "ajuste macroeconômico" do PSDB resultou em privatização, desnacionalização, desindustrialização, financeirização, desemprego e - portanto - gerou uma "redistribuição" de riqueza e renda em favor dos ricos.

Temer e Bolsonaro deram continuidade ao mesmo "ajuste macroeconômico" neoliberal implementado pelos tucanos. E o resultado é ainda mais "redistribuição" em favor dos ricos.

É por isso  -e não por falta de criatividade - que não existem "acordos possíveis" entre o programa macroeconômico do PT e o do PSDB.

Claro que um governo de esquerda pode não ter força suficiente para aplicar seu programa de conjunto. Mas isto é diferente de assumir como se fosse seu o programa do inimigo.

Um exemplo deste desacordo de fundo entre PT e PSDB está na seguinte frase de Celso de Barros: "no longo prazo, a sindicalização é a melhor maneira de tornar a regulamentação estatal desnecessária".

Barros acha que isto poderia ser um ponto de acordo entre PT e PSDB: mais sindicatos e menos Estado.

Da minha parte, tenho dificuldade de escolher as palavras certas para falar de alguém que - em pleno século 21 e no meio de uma pandemia - defende tornar "desnecessária" a regulamentação estatal.

Precisamos de "mais sindicatos" e de "mais Estado"!

Vou pular as pessoas citadas por Barros (Marina Silva, Bernard Appy, Tabata Amaral, Nelson Barbosa, Guedes - não sei por qual motivo ele não cita Palocci) e passo direto à conclusão. 

Segundo Barros, "transformações profundas podem ser negociadas. Mesmo se a chapa não sair, é de uma solução com esse espírito que o Brasil precisa para voltar, não ao que era, mas ao caminho para o que queremos que seja".

Barros sabe muito bem que esta aliança não vai acontecer.

Se não fosse por outro motivo, pela bizarrice. Vamos combinar: depois de Temer, querer Alckmin é sadomasoquismo.

O que interessa a Barros é que o PT aceite o "espírito" da coisa, ou seja, incorpore no seu programa o ajuste neoliberal tucano.

Se o PT caísse nessa armadilha, estaria se suicidando como alternativa.

Como já disse o poeta: "mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução".

 

Alckmin, a vice de Lula e a fake news

O assunto "Alckmin na vice de Lula" segue rendendo.

Hoje Celso Rocha de Barros escreveu a respeito na Folha de S. Paulo. Noutro texto comentarei a respeito do que diz Barros, dando continuidade ao que escrevi aqui: http://valterpomar.blogspot.com/2021/11/no-balaio-do-kotscho-tem-chuchu-podre.html

A receita "Lula com chuchu" gerou diferentes reações na militância de esquerda.

Uma delas foi dizer que era fake news.

Quem diz isso desconsiderou duas coisas.

Primeiro, que as fake news causam dano político. Às vezes, causam mais dano do que notícia verdadeira.

Segundo, que em toda fake news pode ter uma ponta de verdade, como se pode ler aqui: https://www.dgabc.com.br/Noticia/3805989/marinho-admite-chance-de-chapa-entre-lula-e-alckmin

Outra reação foi achar que se tratava de um "plano genial" que nos garantiria derrotar Bolsonaro e Dória, elegendo Lula presidente e Haddad governador.

De fato é um plano "genial", mas no mesmo sentido em que eram "geniais" a fórmula do elixir da vida eterna e a receita da transformação de bosta em ouro, coincidentemente dois marcos do alquimismo.

Afinal de contas, no papel todo plano pode parecer "genial". Mas quando se analisam as variáveis do problema, a conclusão é: parece genial, mas é irrealizável; e mesmo que fosse realizável, seria imprestável.

Seja como for, a boataria sobre a vice (Alckmin é apenas um dos nomes lembrados) é uma confirmação por vias tortas de que tem gente caindo na real: a eleição presidencial não está ganha, muito antes pelo contrário. Mas confirma também que tem gente que não aprendeu nada, nem mesmo acerca do papel da traição na história. 



sexta-feira, 5 de novembro de 2021

No balaio do Kotscho tem chuchu podre

No passado, era comum que um partido criasse um jornal.

Mas com a Folha é diferente: trata-se de um jornal à busca de criar um partido.

Para a Folha, este seria o Santo Graal da política brasileira: um partido composto por pedaços do PT com pedaços do PSDB.

A versão mais recente desta fixação é a proposta de uma chapa Lula-Alckmin para disputar as eleições de 2022.

A proposta é tão exdrúxula, que fiquei pensando o que faria alguém achar que se trata de uma boa ideia para o povo, para a esquerda, para o PT, para Lula.

A resposta, claro, está na Folha.

Mais precisamente no UOL, no “balaio” do Kotscho, no texto que pode ser lido no link a seguir reproduzido:

https://noticias.uol.com.br/colunas/balaio-do-kotscho/2021/11/04/uma-chapa-lula-alckmin-sim-e-possivel-e-esta-e-uma-boa-noticia-da-folha.htm

Segundo Kotscho, “o simples fato de esta possibilidade estar sendo discutida é uma boa notícia para o país civilizado que sobreviveu à criminalização da política promovida pela Operação Lava Jato”.

Sobreviveu? Civilizado?

“Civilizado”, como sabem alguns, é o nome às vezes dado às pessoas que nascem numa ilha grega chamada “hipocrisia”. Seus descendentes migraram para o Brasil e deram origem à direita gourmet, que usa punhos de renda e aprendeu a ordem com que se usam talheres e copos num banquete.

Esta direita gourmet é a principal responsável pela situação que resultou em Bolsonaro. Dilma foi alvo de um impeachment ilegal. Lula foi condenado e preso. O golpista Temer implementou sua "ponte" para o passado. O povo brasileiro sofreu horrores com tudo isso. Alckmin está entre os "civilizados" que foram cúmplices ativos ou passivos disto tudo.

Eles viveram. Nós, parte de nós, sobrevivemos.

Já estou ouvindo alguém murmurar “não vamos ficar olhando no retrovisor, o que passou, passou. Vamos nos unir contra o inimigo principal”.

Acontece que o inimigo principal não é apenas a pessoa física de Bolsonaro, nem mesmo o bolsonarismo ou a extrema direita. Fazer com que acreditemos nisto é muito conveniente para quem deseja dar continuidade às políticas de Bolsonaro, sem Bolsonaro.

O inimigo principal é o contubérnio entre bolsonarismo e neoliberalismo. 

Claro que para gente de “classe média”, tirar Bolsonaro já estaria de bom tamanho. Mas para a imensa maioria do povo, não basta tirar Bolsonaro. Ou se criam as condições para que as pessoas possam ter emprego, não passar fome, ter saúde, ou de nada adiantará tirar Bolsonaro.

No fundo, é um problema de classe: quem aplaude a “possibilidade” de uma aliança entre PT e PSDB acha que é possível ter liberdades democráticas sem ter bem estar social.

Kotscho diz que uma aliança entre Alckmin e Lula teria “pelo menos” uma vantagem: “o país não votaria no escuro num salvador da pátria, como aconteceu em 2018: Lula já foi presidente da República por dois mandatos e deixou o governo com quase 90% de aprovação, enquanto Geraldo Alckmin governou São Paulo umas três ou quatro vezes. Virtudes e defeitos dos dois são de amplo conhecimento público, assim como a biografia política de cada um. Ninguém poderá dizer mais tarde que foi enganado”.

Enganado? Algum tucano votou “no escuro” em 2018? Bolsonaro escondeu o que era? 

Quando era presidente da Câmara, Temer salvou Bolsonaro de uma cassação certa, porque ele havia ameaçado a vida de FHC. E nem isto foi suficiente para FHC – segundo ele próprio – deixar de votar em branco em 2018. 

Nem os tucanos, nem a maioria dos que votaram em Bolsonaro votaram “no escuro”. Aliás, se o cavernícola tem alguma qualidade, é esta: não esconde seus cadáveres no armário.

Este argumento sem pé nem cabeça utilizado por Kotscho é acompanhado de outro, pior ainda: dizer que a aliança seria boa porque reuniria pessoas testadas e aprovadas. 

Kotscho releva dois “detalhes”: Lula foi presidente porque derrotou os tucanos; Alckmin foi governador em oposição ao PT. Ambos partidos – PT e PSDB – defendiam e seguem defendendo programas profundamente diferentes. Uma aliança deste tipo teria que base programática? 

Não é esta questão que aparece na lista que Kotscho faz, das “dificuldades” que “precisam ser contornadas” para “viabilizar a ideia”. 

Em primeiro lugar aparece convencer “tanto Lula quanto Alckmin”. 

Que alguém pense assim, é normal: parte da esquerda brasileira se deixou contaminar pelo jeito oligárquico de fazer política, no qual os “líderes” decidem e a massa “manobra”. Já vimos no que isso deu em algumas eleições, por exemplo em 2018 e 2020. 

Indo ao grão: esta chapa poderia “funcionar não apenas para ganhar as eleições, mas especialmente para governar"? Isto seria o “melhor para o país”?

O texto de Kotscho diz o seguinte: “Acima do cacife eleitoral de cada um, está a capacidade de ambos de dialogar com as diferentes forças políticas e entidades da sociedade civil, em busca de convergências. O grande desafio não é como ganhar a eleição, mas como governar depois, sem ter que distribuir emendas secretas para ter maioria no Congresso”.

Pergunta: “maioria” para aprovar o quê? Para aprovar a política do PT, da esquerda, dos setores democráticos e populares? Ou maioria para aprovar a política do PSDB, da direita, dos setores neoliberais e conservadores?

Sem responder a esta singela questão – o programa – não há como provar que uma aliança deste tipo seria boa para o país. E vamos lembrar, durante 20 anos (1994-2014) o PT e o PSDB se confrontaram diretamente. Depois de 2014 o confronto continuou, as vezes direto, as vezes indireto. Uma aliança de primeiro turno entre estes dois partidos não seria, portanto, algo trivial. Como disse recente o próprio Lula, recentemente e com palavras diferentes das que seguem, qual sentido teria uma aliança para manter o Guedes e/ou sua política?

A esse respeito do programa, Kotscho escreve várias frases pomposas, mas totalmente vazias de conteúdo concreto: “Num ambiente político tão conflagrado e beligerante como vivemos ultimamente, com um país em ruínas, que clama por equilíbrio, paz e união, para promover a reconstrução nacional, precisamos de homens públicos que se coloquem acima das picuinhas e dos projetos pessoais, experimentados na lida da vida pública e voltados para promover o bem-estar social. Ambos já estão velhos para alimentar vaidades”.

A última frase é totalmente falsa. Já as demais caberiam no discurso de qualquer demagogo, de qualquer partido, porque não dizem absolutamente nada sobre o que deve ser feito no âmbito da economia, do emprego, do setor financeiro, da política agrária e agrícola, das políticas sociais, da política externa, dos meios de comunicação, das forças armadas, da segurança pública etc.

Kotscho conta em seu texto duas histórias, uma meio natalina, outra meio chinesa. Como a memória é dele, vou falar em tese: não deu certo então e não dará nem daria certo em 2023, porque PT e PSDB expressam programas diferentes, interesses sociais diferentes.

Kotscho parece não compreender isso, como demonstra o seguinte trecho de seu texto: “Os 16 anos dos governos FHC e Lula, que se sucederam, foram os melhores e mais tranquilos do período pós redemocratização”.

Destes 16 anos, os 8 de FHC foram marcados por privatizações, desemprego, fuga de capitais, apagão e financeirização etc etc. Colocar no mesmo patamar – “melhores e mais tranquilos” – os 8 anos de FHC e os 8 anos de Lula é um prêmio para os tucanos e uma ofensa para os petistas.

E por falar em ofensa, apresentar Alckmin como “último remanescente do PSDB histórico” é uma barbaridade. Não sei o que Covas e Montoro defenderiam, se ainda estivessem vivos. O exemplo de Serra e de FHC – que não são citados, mas são tão “remanescentes” quanto – mostra que a idade não faz bem para certas pessoas. Mas Alckmin sempre foi mais conservador do que os “históricos” citados e sua possível mudança de partido não se dá por razões político-ideológicas que possam ser louvadas. 

Dizer que Alckmin é “apegado a valores democráticos e com olhar generoso em relação aos problemas sociais do Brasil" é pura e simplesmente uma mentira. Para não cansar o leitor com citações, lembro apenas do que Alckmin disse quando a caravana de Lula no Rio Grande do Sul, bem como a sede do Instituto Lula, foram alvo de atentados a bala e bomba.

Apesar disso tudo e otras cositas más, Kotscho comemora o “fato novo mais importante da atual campanha eleitoral: a disposição de Lula de caminhar em direção ao centro e a de Alckmin de se aliar a um antigo adversário, com quem já disputou a presidência”. Não faço ideia das fontes em que ele se baseia para afirmar isso, mas tenho certeza de que uma aliança deste tipo teria o feito oposto ao pretendido: fortaleceria as alternativas à esquerda e à direita.

E isto tem que ver com um detalhe que Kotscho desconsidera, quando lembra da campanha das Diretas. Aquela campanha não foi vitoriosa e o que veio depois foi o Colégio Eleitoral. E naquele momento o palanque das diretas se dividiu. De que lado ficaram os personagens que hoje são tucanos? Foram se aliar com a turma da ex-Arena, ex-PDS, então PFL e hoje DEM (até que mude de novo). 

Em resumo: "melhor para o país" é conquistarmos um governo disposto a transformar o Brasil, em benefício da maioria de nosso povo. Não está em jogo uma pessoa física, mas uma pessoa jurídica, que encarne um programa. Lula pode vencer se for visto não apenas como um ex-presidente que foi exitoso, não apenas como uma alternativa a Bolsonaro, mas principalmente se for visto como um instrumento a serviço de um futuro melhor para a imensa maioria do povo brasileiro.

Quem defende uma aliança entre Lula e Alckmin deixa tudo isso de lado. Ou seja, deixa de lado os interesses materiais e concretos da maioria do povo. 

Há quem diga que esta proposta foi inventada por alguns estrategistas de fundo de quintal, que acham que com ela poderiam abrir caminho para uma vitória na eleição para o governo do estado de São Paulo. 

Não sei dizer se tal acusação procede.

Mas tenho certeza de que a proposta de uma chapa Lula-Alckmin é muito funcional para um setor da elite, que desta forma não precisaria gastar energias tentando domesticar Bolsonaro, nem tentando criar uma “terceira via”, nem tampouco aprovando um semi-presidencialismo ou qualquer mandracaria do tipo.

Com a chapa Lula-Alckmin, estaria tudo resolvido.

O povo elegeria Lula e junto dele viria o vice que realmente presidiria o país, depois do impeachment.

O gênio que inventou esta fórmula merece ganhar o prêmio “cilício de ouro” da Opus Dei!

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Resolução sobre a conjuntura nacional

(versão não revisada)

A direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda, reunida no dia 31 de outubro de 2021, aprovou a seguinte resolução sobre a conjuntura e nossas tarefas.

1.Faltam dois meses para o final do ano de 2021 e menos de um ano para o segundo turno das eleições de 2022. Aproxima-se aquela fase do ano em que – mesmo em períodos de aguda crise econômica e social – a luta política tente a refluir. Dada a instabilidade geral – no mundo, na região e no Brasil –acontecimentos extraordinários e/ou imprevistos podem alterar a situação. Entretanto, o mais provável é que a correlação de forças existente neste final de 2021 se mantenha até que as “águas de março” venham “fechar o verão” de 2022. Vejamos a seguir alguns traços desta conjuntura e o que podemos fazer para deslocar a correlação de forças a nosso favor.

2.No plano mundial, prossegue a disputa entre os Estados Unidos e a República Popular da China. O esforço principal dos Estados Unidos é no sentido de recuperar a liderança econômica. Os governos Obama e Trump falharam neste objetivo. Até o momento, o governo Biden também segue falhando. Também por isto, é provável que os EUA optem por um confronto militar, terreno no qual ainda mantém a liderança. Entretanto, seja qual for o rumo dos acontecimentos, os EUA seguirão aplicando pressão máxima sobre a América Latina. A situação para a esquerda latino-americana e caribenha tende a ser mais difícil agora do que foi entre 1998 e 2008. É particularmente decisivo, para os EUA, impedir que o Brasil volte a ser governado por forças políticas interessadas numa integração regional autônoma.

3.No plano nacional, prossegue a ofensiva reacionária iniciada no dia seguinte ao segundo turno das eleições presidenciais de 2014. No plano político, esta ofensiva produziu o impeachment de 2016, a condenação/prisão/interdição eleitoral de Lula nas eleições seguintes ao impeachment, a comprovadamente fraudulenta vitória de Bolsonaro em 2018, a vitória dos partidos de direita nas eleições municipais de 2020. A ofensiva reacionária ampliou o armamento das elites, a consolidação do apoio militar e policial ao projeto da extrema direita e - fato novo que precisa ser acompanhado com atenção - a estruturação de uma corrente neofascista de massas, no momento encabeçada pelo bolsonarismo. A ofensiva reacionária desencadeada desde o final de 2014 produziu, também, um enfraquecimento do movimento sindical e popular e uma inflexão na pauta político-ideológica do país, onde cresce a influência de posições reacionárias, fundamentalistas, misóginas, racistas, lgtbfóbicas, pró destruição ambiental e negacionistas. Destaque-se que a extrema direita vem conseguindo combinar a defesa do status quo com um discurso aparentemente antisistêmico. É comum ver setores da esquerda criticando a incoerência desta conduta da extrema direita; mas nem toda a esquerda percebe estar em curso uma “operação de pinça”, que coloca a esquerda em uma armadilha: contra a extrema direita, defender as chamadas instituições, instituições que mantém o status quo, status quo que a extrema-direita defende e aprofunda.

4.A ofensiva política reacionária tem desdobramentos no plano das relações internacionais e, também, no plano econômico-social. O Brasil desde 2016 assumiu, por decisão dos governos Temer e Bolsonaro, a condição de linha auxiliar da política dos Estados Unidos. No plano econômico-social estamos retrocedendo um século. A palavra de ordem “agro é pop, agro é tech, agro é tudo” resume boa parte da política macroeconômica não apenas dos governos Temer e Bolsonaro, mas da classe dominante brasileira: fazer do Brasil uma potência primário-exportadora (vegetais, animais, minerais), importadora de produtos industrializados e “pasto” para engorda dos capitais especulativos. A opção por este caminho não começou agora: a rigor, a classe dominante brasileira nunca apostou todas as suas fichas na conversão do Brasil em uma potência industrial autônoma. O chamado desenvolvimento nacional, embora no limite beneficiasse fundamentalmente as elites, foi em grande medida feito apesar delas e contra elas.

5.A reprimarização do país – “agro é tudo” – tem um alto preço social. Num país em que a maioria da população vive nas cidades, a opção primário-exportadora torna “inempregável” (para usar a expressão notabilizada pelo lamentável FHC) a maior parte da população brasileira. É por isso que, conforme dados recém publicados pelo IBGE, de nossa população economicamente ativa de 116 milhões de pessoas, mais de 70 milhões estão fora do processo de trabalho formal: são os desempregados, desalentados, precarizados, “conta-propristas”. Em benefício desta população “inempregável”, as elites não enxergam necessidade de investir em saúde, educação, moradia, transporte, cultura. As elites temem – como reconheceu recentemente outro lamentável, o senhor Michel Temer - que essa situação possa levar as massas populares a "se rebelar" e "desagregar" a nação. A verdade é outra: só uma profunda “rebelião” pode construir uma nação verdadeiramente popular. É com medo disto que as elites tratam a “questão social” como caso de polícia, de milicia, de fundamentalismo religioso e de (mínima) transferência de renda com objetivos assumidamente clientelistas. Confirma-se assim a hipocrisia do discurso da direita contra projetos como o Bolsa Família: não somos nós nem nunca fomos nós da esquerda, mas eles da elite, quem trabalha para eternizar uma situação como a atual, em que mais pessoas dependem de transferências de renda do que sobrevivem de salários. A destruição das políticas públicas estruturais – a começar pelo emprego, pelo salário mínimo e pela previdência pública – constitui, portanto, um desdobramento da política macroeconômica da classe dominante brasileira. Não há como afirmar políticas estruturais de bem estar social sem derrotar quem hoje nos domina.

6.A regressão (que está na origem dos 600 mil mortos, 14 milhões de desempregados e 20 milhões de famintos) não teve, até agora, uma resposta à altura por parte da classe trabalhadora e de suas organizações. Parte desta resposta moderada deve-se às escolhas feitas, nas últimas décadas, por grande parte da esquerda política e social. Essas escolhas incluam a crença em que certas conquistas seriam “imperdíveis”, a confiança em determinadas instituições, a falta de política para ampliar a consciência de classe, a deterioração da influência organizada na classe trabalhadora, as derrotas políticas sofridas desde o final de 2014. Tudo isso contribuiu para o recuo de uma parte da classe trabalhadora. Além disso, existem aqueles setores que nunca se libertaram da hegemonia da classe dominante ou do absenteísmo político. Ademais, nos últimos anos parcelas da classe trabalhadora passaram a apoiar não apenas a direita, mas a extrema-direita. Esta situação torna muito mais difícil a luta contra a regressão que está em curso no país. Agreguem-se mais dois elementos: o crescimento da miséria estimula nos setores mais pobres um medo imenso de sofrer o mesmo destino dos miseráveis; e estimula nos setores com maiores salários o pior instinto da “classe média”: a raiva dos pobres e a inveja dos ricos.

7.Desta situação derivam tamanhas dificuldades de mobilização, que uma parte da esquerda não consegue ver outra saída que não a eleitoral. Mas trata-se de um círculo vicioso: depois de anos de crescente prioridade para os processos eleitorais, conseguimos o feito de vencer quatro eleições presidenciais seguidas, mas sofremos um golpe porque não acreditávamos que pudesse ocorrer, porque não controlávamos as instituições e, também, porque não tínhamos capacidade de mobilização autônoma. E agora, frente ao governo resultante do golpe, setores da esquerda reafirmam a fé nas instituições, não priorizam a reconstituição da nossa capacidade autônoma de mobilização e redobram a aposta nos processos eleitorais. 

8.Esta aposta unilateral ajuda a compreender a defesa de “virar a página do golpe”, feita logo depois daquele crime contra a Constituição; ajuda a explicar a crença de que Lula não seria condenado, não seria preso e poderia disputar as eleições presidenciais seguintes ao impeachment; ajuda a compreender a tática adotada por alguns setores nas eleições presidenciais de 2018, de buscar o apoio do “centro” golpista; ajuda a explicar a dificuldade de engajamento de alguns setores na campanha Lula Livre; ajuda a compreender a fé de alguns em uma grande vitória nas eleições municipais de 2020; ajuda a explicar a resistência ao Fora Bolsonaro por setores da oposição; ajuda a compreender parte da sabotagem passiva e ativa contra a retomada e o êxito das mobilizações de rua neste ano de 2021; e ajuda a explicar, principalmente, a desvinculação que alguns setores fazem entre as “ruas” e as “urnas”, como se a ausência de mobilização popular não fosse um obstáculo importante seja para uma vitória eleitoral, seja para a posse, seja para um novo governo exitoso. Vale destacar que alguns setores da esquerda sabem deste obstáculo, mas pretendem superá-lo através de uma “frente ampla” com parte dos golpistas. É como se dissessem: na impossibilidade de vencê-los, unamo-nos a uma parte deles.

9.Esta é, em linhas gerais, a conjuntura neste início de novembro de 2021. Uma conjuntura que exige da esquerda um enorme esforço de mobilização, para enfrentar imensos riscos e desafios. Mas não é esta a percepção de grande parte da esquerda, mesmerizada pelos números das pesquisas eleitorais, que apontam que se a eleição presidencial fosse hoje, Lula venceria. As pesquisas são reais, assim como é real a nossa possibilidade de vitória. Mas as eleições não são hoje e há vários fatores que podem alterar a situação, contra a esquerda.

10.Um desses fatores é a “naturalização” da situação. Um exemplo disto: quando a pandemia começou, havia na esquerda quem dissesse que o país não suportaria 100 mil mortos; e que diante de tamanha tragédia Bolsonaro inevitavelmente cairia; motivo pelo qual defendiam que bastaria à esquerda ser a campeã da defesa da vida, não sendo prudente ou necessário defender o Fora Bolsonaro, pois – diziam alguns – “o povo não quer saber de política”. Os que defenderam estas ideais, hoje não gostam de lembrar do que diziam, até porque sua previsão não se materializou: passamos das 600 mil mortes, parte importante das quais porque o governo Bolsonaro foi um ativo aliado da pandemia, mas apesar disso o cavernícola segue na presidência. A conclusão é óbvia: devíamos ter politizado ao máximo a luta contra o vírus, devíamos ter aproveitado as circunstâncias para tentar abreviar o fim do governo. Mas a resistência de setores da esquerda a politizar e sua aceitação tardia e a contragosto da defesa do impeachment permitiram a Bolsonaro ganhar tempo. Para isto concorreu o fato de que – mesmo frente às maiores desgraças – a tendência de parte das pessoas é “naturalizar”, é se acostumar com a situação, tornar o monstro parte da paisagem. Hoje morrem todo dia mais pessoas do que no início da pandemia, mas agora isto é visto como se fosse parte da ordem “natural” das coisas. 

11.O governo Bolsonaro se beneficia deste fenômeno da “naturalização”, não apenas no plano econômico e social, mas também no plano estritamente político. Vide a fraude de 2018 e as ameaças golpistas. Os que chefiam as famosas “instituições” sabem a gravidade do ocorrido, mas permitem que o cavernícola continue a presidir o país. As recentes declarações do futuro presidente do TSE, segundo as quais os crimes cometidos em 2018 não serão aceitos em 2022, são uma piada pronta. Assim como constituem uma piada de extremo mal gosto as declarações de que se deveria confiar na “boa fé” de Bolsonaro. Declarações que em alguns casos vêm dos mesmos que “descobriram”, em 2021, que a condenação, a prisão e a interdição eleitoral de Lula foram feitas ao arrepio da Constituição. “Descoberta” feita, convenientemente, quando o dano já era imenso. Motivo pelo qual vários ministros do STF deveriam ser moralmente condenados por genocídio culposo. O incrível é que esta farsa é validada por setores da esquerda, que manifestam seu contentamento com as decisões do judiciário, como se justiça póstuma fosse justiça e como se a cassação de um deputado bolsonarista não fosse apenas um “osso” caído da mesa, para compensar o fato de que se está poupando o criminoso maior.

12.Há quem diga que Bolsonaro continuar governando contribuiria para sua derrota, pois ele estaria o tempo todo dando “tiro no pé” e, portanto, chegaria sangrando e enfraquecido nas eleições de 2022. E há quem acuse ser por este “motivo” que alguns setores da esquerda não investem tudo no Fora Bolsonaro: o motivo seria a crença de que Bolsonaro seria nosso “melhor adversário”, primeiro porque supostamente chegará fraco nas eleições, segundo porque supostamente não teria o apoio dos setores de “centro” (nome que se dá, indevidamente, à direita que patrocinou o golpe de 2016 e aplaudiu os desmandos judiciais contra Lula). As duas premissas desconsideram que, apesar de fazer um governo de merda, o cavernícola segue com o apoio ativo de aproximadamente ¼ do eleitorado. Sendo assim, não é impossível, pelo contrário, que ele chegue em 2022 em melhor situação do que agora (vale lembrar que já vimos os efeitos do auxílio emergencial nas eleições municipais de 2020). Por outro lado, não é impossível que a direita gourmet faça em 2022 o que já fez em 2018. Naquele momento, a cúpula da direita sabia perfeitamente quem era Bolsonaro e do que ele era capaz e mesmo assim escolheu derrotar o “professor”; compreensível: trata-se de uma prioridade programática e a direita não tem pruridos – nem se comove com 600 mil mortos - na hora em que estão em jogo seus interesses de classe.

13.Embora evitem confessar, alguns setores da esquerda sabem disso tudo, e por isso respondem ao problema como já foi dito: propondo ao “centro” uma aliança. Segundo aqueles setores, para evitar que o “centro” apoie Bolsonaro em 2022, a esquerda deveria prometer ao “centro” que as “conquistas programáticas” derivadas do golpe de 2016 serão total ou no fundamental preservadas. Ou seja: o único que sairia de cena seria Bolsonaro; suas políticas continuariam. O que foi dito anteriormente é um exagero? Gostaríamos que fosse, mas infelizmente este é movimento que alguns setores da esquerda vêm fazendo, conscientemente e outros inconscientemente. Em alguns casos isto é óbvio, por exemplo quando se defende nada dizer acerca das forças armadas no programa de reconstrução e transformação nacional. Noutros casos é menos óbvio, como no caso das privatizações que estão em curso, ou da autonomia do Banco Central, ou do teto de gastos. Neste caso a pergunta é: vamos considerar estas mudanças como irreversíveis ou vamos fazer de tudo para revertê-las? Destaque-se que nem ao menos tentar responder estas questões já constitui uma resposta. 

14.Vale recordar que as pretendidas alianças com o “centro” (leia-se, com a direita gourmet) não se limitam ao plano nacional. Em várias eleições estaduais, parcelas da esquerda têm defendido fazer alianças – sempre em nome de derrotar o suposto inimigo principal – com setores com os quais não temos a menor identidade programática (por exemplo, o ex-governador Alckmin no estado de São Paulo). Uma das perguntas que precisariam ser respondidas por quem defende estas alianças é: qual seu preço? Quais os acordos programáticos? O que deixaríamos de defender? O que passaríamos a defender? Sabemos que várias destas pretendidas alianças com o “centro” não vão ocorrer, entre outros motivos graças ao fato de que alguns de nossos inimigos têm princípios de que não abrem mão, diferente de setores da esquerda que não vacilam nem mesmo em fazer alianças com setores do bolsonarismo. Mas mesmo não ocorrendo, o efeito prático de simplesmente tentar fazer alianças daquele tipo tende a ser negativo: em São Paulo, por exemplo, os que buscam uma aliança de primeiro turno com setores tucanos estão na prática estimulando o crescimento de candidaturas alternativas, seja à direita, seja à esquerda.

15.Em resumo: o quadro eleitoral em outubro de 2022 dificilmente será o mesmo de outubro de 2021. Bolsonaro não está derrotado. Sua permanência no governo lhe dá instrumentos seja para disputar com chances as eleições presidenciais, seja para operar uma variante golpista. Da mesma forma, podem ser superadas as dificuldades atuais da “terceira via” (nome que lembramos ser inadequado, pois a “via” programática da direita gourmet é também neoliberal, portanto não há “terceira” via). Ademais, nada garante que sigam inalteráveis, muito menos que cresçam as preferências eleitorais exibidas atualmente pela candidatura da esquerda. Por tudo isso, jogar parado não é garantia de vitória, muito antes pelo contrário. O que fazer? Em nossa opinião, é preciso – entre outras ações - corrigir a linha política e alterar a conduta prática. 

16.No imediato, temos pela frente cerca de três semanas, nos quais o conjunto da esquerda precisa se esforçar para que o ato convocado para 20 de novembro seja uma manifestação massiva pelo Fora Bolsonaro. Sabemos das dificuldades envolvidas, mas desistir de tentar não é uma opção. Devemos, também, defender que no dia 10 de dezembro – marco dos direitos humanos – se realizem manifestações em todas as cidades do país. E devemos propor à campanha Fora Bolsonaro que sinalize desde já as primeiras mobilizações do ano de 2022, por exemplo no final de janeiro e também por ocasião do aniversário do golpe militar, dia 1º de abril. Sem falar da importância de estimular a criatividade carnavalesca pelo Fora Bolsonaro e por outro governo para o Brasil. Em síntese: não podemos contribuir para “esfriar” o ambiente político, pois este esfriamento contribuiria para o bolsonarismo e para a direita gourmet conquistarem melhores posições contra nós. Neste sentido, é preciso reafirmar enfaticamente que seguimos defendendo o impeachment: diferente de muitos integrantes do TSE, entendemos que crimes contra a soberania e contra os direitos do povo, a começar pelo crime de genocídio, não podem ser relevados a pretexto de “lapsos” temporais. 

17.Para que o bolsonarismo e o neoliberalismo sejam derrotados, é essencial constituir um centro político – em torno da esquerda social e política que têm como referências principais o PT, o PSOL e o PCdoB –a partir do qual se possa formular um programa e uma tática para a esquerda enfrentar as disputas do ano de 2022. Destacamos que não se trata apenas das disputas eleitorais, até porque as próximas eleições não serão apenas eleições, serão uma guerra. É preciso um centro político de esquerda, que contribua para superar as limitações organizativas e políticas das “frentes” atualmente existentes. 

18.No terreno programático, é preciso indicar quais as medidas emergenciais que serão adotadas, já nos primeiros meses de um governo de esquerda, para enfrentar os problemas imediatos do povo brasileiro: a fome, o desemprego, a moradia, o acesso à saúde e a educação e, com destaque, a falta de perspectivas. A maioria do povo brasileiro, a classe trabalhadora, precisa reconstruir sua esperança em um futuro melhor. Não uma esperança passiva, mas uma esperança ativa, de quem luta para conquistar o que deseja. Por isso, é preciso – para além das medidas imediatas – apontar o rumo e indicar os obstáculos a serem enfrentados e superados. Entre estes obstáculos estão o capital financeiro, o latifúndio urbano e o agronegócio, a violência policial e criminosa, a tutela militar e judicial, o oligopólio da comunicação, o fundamentalismo, o patriarcado, o racismo, a lgbtfobia, a destruição ambiental, o genocídio dos povos indígenas, as forças sociais e políticas correspondentes. Quanto ao rumo, apontamos um Brasil soberano e integrado à América Latina e Caribe; um país com bem estar social e liberdades democráticas; um país desenvolvido e socialista.

19.Um país assim não será construído sem o PT, nem apesar do PT, nem contra o PT. Ao menos neste momento histórico, mudar o Brasil depende em grande medida do Partido dos Trabalhadores, não apenas de seus dirigentes e militantes, não apenas de seus eleitores e filiados, mas principalmente das dezenas de milhões de pessoas que têm o PT como referência. Mas é preciso dizer claramente: o patrimônio acumulado pelo PT ao longo de décadas não é eterno. Acumulam-se problemas que colocam em risco a higidez do PT, que ameaçam sua integridade, que colocam em risco sua sobrevivência. Em alguns estados e cidades, há fenômenos de degeneração aberta, por exemplo com o Partido participando de governos e coligações por razões unicamente fisiológicas. Desconhecer estes problemas e, pior, saber deles e não os enfrentar adequadamente, contribui para que a classe dominante possa continuar empurrando o Brasil em direção ao passado.

20.Neste sentido, nós estamos chamados a dar prosseguimento, em especial nos próximos meses, a uma batalha em várias frentes. Destacamos: no plano mundial, a luta contra o imperialismo e em favor dos povos da América Latina e Caribe; no plano nacional, a luta pelo impeachment e por um governo democrático e popular; no plano das esquerdas, o investimento na mobilização e na construção da unidade das esquerdas partidárias e sociais; no plano do Partido, a luta por uma nova direção e pela recuperação dos territórios perdidos junto a classe trabalhadora. Neste terceiro plano, é preciso análise atenta da experiência da Nova Primavera, que demonstra as potencialidades, mas também os limites de uma tentativa de revitalização que se dê nos marcos de uma estratégia política superada. É preciso atenção, também, para a experiência dos setoriais, que demostra como segue avançando a metamorfose dos mecanismos de formulação e ação militante que restam em nosso partido. É preciso, por fim, incidir no processo de definição do programa, da tática, da política de alianças e das candidaturas que disputarão as eleições de 2022, para que predomine a compreensão de que não temos pela frente eleições, mas uma “guerra” em que a classe dominante usará todas as suas armas. Apesar de muitas vezes dividida – como se viu na votação que propunha estabelecer algum tipo de controle sobre o Ministério Público – a classe dominante e seus representantes políticos, assim como as forças armadas e policiais, estão unidos contra o PT e contra Lula.

21. Visto de conjunto, estamos diante de desafios que às vezes parecem superar as forças de que dispomos. Lembramos, entretanto, que lutamos por alterar a correlação de forças exatamente na expectativa de que – no curso da própria luta - se criem as condições que nos permitirão ter êxito na luta contra os citados desafios. São inúmeros os sinais de que podemos triunfar: o acumulado histórico, a resistência ao golpe, a quase vitória em 2018, o enfrentamento contra Bolsonaro, o apoio a Lula, as imensas dificuldades que vive nosso povo (vide, além do que já foi citado anteriormente, a crise hídrica e energética, a inflação, as decorrências das privatizações e da reforma administrativa). Tudo isso e muito mais indica que o PT pode liderar amplas parcelas do povo numa luta vitoriosa contra o bolsonarismo e contra o neoliberalismo. 

22.Finalmente, é preciso lembrar o que foi dito no início. Vivemos num momento de muita instabilidade, no mundo, na região e no Brasil. Portanto, um momento em que podem acontecer reviravoltas súbitas e as vezes imprevistas. Também por isso não pode nos faltar, agora, o que não faltou à parte das forças progressistas nos anos 1920: a compreensão de que o Brasil necessitava de uma revolução. Sem as lutas dos anos 1920, não teria ocorrido a chamada Revolução de 1930, essencial para nosso desenvolvimento e industrialização. Hoje, diante de uma classe dominante que nos faz regredir a alguns dos problemas que o país vivia há cem anos, cabe à classe trabalhadora e a seus aliados manifestar aquela mesma disposição revolucionária, essencial para que o Brasil possa conquistar soberania, bem estar social, liberdades democráticas, desenvolvimento e socialismo.


sábado, 30 de outubro de 2021

Tópicos sobre conjuntura e tarefas (30 de outubro de 2021)

(não revisado)

1.Faltam dois meses para o final do ano de 2021 e menos de um ano para o segundo turno das eleições de 2022. Aproxima-se aquela fase do ano em que – mesmo em períodos de aguda crise econômica e social – a luta política tende a refluir. Dada a instabilidade geral – no mundo, na região e no Brasil – é possível que algum acontecimento extraordinário altere a situação. Salvo nesta hipótese, o mais provável é que a correlação de forças deste final de ano se mantenha até que as “águas de março” venham “fechar o verão”. Sendo assim, é sobremaneira importante analisar esta correlação de forças e suas tendências.

2.No plano mundial, prossegue a disputa entre os Estados Unidos e a República Popular da China. O esforço principal dos Estados Unidos é no sentido de recuperar a vanguarda econômica. Os governos Obama e Trump falharam neste objetivo. E até o momento, o governo Biden segue falhando. Motivo pelo qual segue altamente provável que, mais cedo ou mais tarde, o conflito escale para um confronto militar entre as duas potências. Entretanto, seja qual for o rumo dos acontecimentos mundiais, está evidente que os EUA seguirão aplicando pressão máxima sobre a América Latina. O que significa que a situação para a esquerda latino-americana e caribenha será mais difícil agora do que foi entre 1998 e 2008. É particularmente decisivo, para os EUA, impedir que o Brasil volte a ser governado por forças políticas interessadas numa integração regional autônoma.

3.No plano nacional, prossegue a ofensiva reacionária iniciada no dia seguinte ao segundo turno das eleições presidenciais de 2014. No plano político, esta ofensiva produziu o impeachment de 2016, a condenação/prisão/interdição eleitoral de Lula nas eleições seguintes ao impeachment, a comprovadamente fraudulenta vitória de Bolsonaro em 2018, a vitória dos partidos de direita nas eleições municipais de 2020. Ainda no plano político, a ofensiva reacionária ampliou o armamento das elites, a consolidação do apoio militar e policial ao projeto da extrema direita e – fato novo que precisa ser acompanhado com atenção -a estruturação de uma corrente neofacista de massas, no momento encabeçada pelo bolsonarismo. Registre-se, finalmente, que a ofensiva reacionária desencadeada desde o final de 2014 produziu, também, um enfraquecimento do movimento sindical e popular e uma inflexão na pauta político-ideológica do país, com a crescente influência de posições reacionárias, de uma visão de mundo fundamentalista, misógina, racista, lgtbfóbica, militante na destruição ambiental e cientificamente negacionista. Destaque-se que a extrema direita vem conseguindo combinar a defesa das posições da elite, com um discurso aparentemente antisistêmico. É comum que a esquerda critique a incoerência desta conduta; mas é menos frequente que a esquerda se apercebe que esta “operação de pinça” vem colocando a esquerda frente a uma armadilha: contra a extrema direita, defender as chamadas instituições que mantém o status quo, status quo que a extrema-direita defende e aprofunda.

4.A ofensiva política reacionária tem desdobramentos no plano das relações internacionais e no plano econômico-social. O Brasil desde 2016 assumiu, por decisão dos governos Temer e Bolsonaro, a condição de linha auxiliar da política dos Estados Unidos. No plano econômico e social, por sua vez, estamos retrocedendo um século. A palavra de ordem “agro é pop, agro é tech, agro é tudo” resume a política macroeconômica não apenas dos governos Temer e Bolsonaro, mas da classe dominante brasileira: fazer o Brasil voltar a ser uma potência exportadora de produtos primários (vegetais, animais, minerais), importadora de produtos industrializados e pasto para engorda dos capitais especulativos. A opção por este caminho não começou agora: a rigor, a classe dominante brasileira nunca apostou todas as suas fichas na conversão do Brasil em uma potência industrial autônoma. O desenvolvimento nacional, embora no limite beneficiasse fundamentalmente as elites, foi em grande medida feito apesar delas e contra elas.

5.A reprimarização do país – “agro é tudo” – tem um alto preço social. Num país em que a maioria da população vive nas cidades, a conversão primário-exportadora torna “inempregável” (para usar a expressão notabilizada pelo lamentável FHC) a maior parte da população brasileira. É por isso que, conforme dados recém publicados pelo IBGE, de nossa população economicamente ativa de 116 milhões de pessoas, mais de 70 milhões estão fora do processo de trabalho formal (desempregados, desalentados, precarizados, “conta-propristas”). E para esta força de trabalho “inempregável”, as elites não enxergam necessidade de investir em saúde, educação, moradia, transporte, cultura. Para estas elites, basta transformar a “questão social” em caso de polícia, de milicia, de fundamentalismo religioso e de (mínima) transferência de renda com objetivos assumidamente clientelistas. Confirma-se assim a hipocrisia do discurso da direita contra projetos como o Bolsa Família: não somos nós da esquerda, mas eles da elite quem trabalha para eternizar uma situação como a atual, em que mais pessoas vivem de transferência de renda do que de salários. A destruição das políticas públicas estruturais – a começar pelo emprego, salário mínimo e previdência pública – constitui, portanto, um desdobramento da política macroeconômica da classe dominante brasileira. Não há como retomar tais políticas estruturais sem derrotar quem hoje nos domina.

6.A regressão (que pode ser medida em 600 mil mortos, 14 milhões de desempregados, 20 milhões de famintos) não teve, até agora, uma resposta à altura por parte da classe trabalhadora e de suas organizações. Parte desta moderação deve-se às escolhas feitas, nas últimas décadas, pela maior parte da esquerda política e social. A crença em que certas conquistas eram “imperdíveis”, a confiança em determinadas instituições, a redução da consciência de classe, a deterioração da influência organizada na classe trabalhadora, as derrotas políticas sofridas desde o final de 2014, tudo isso levou uma parte da classe trabalhadora a recuar. Além daqueles setores que nunca se libertaram da hegemonia da classe dominante nem do absenteísmo político, parcelas importantes da classe trabalhadora passaram a apoiar a extrema-direita. Este caldo social torna muito mais difícil a luta contra a regressão que está em curso no país. Agreguem-se mais dois elementos: o crescimento da miséria estimula nos setores mais pobres um medo imenso de sofrer o mesmo destino dos miseráveis; e estimula nos setores com maiores salários o pior instinto da “classe média”: a raiva dos pobres e a inveja dos ricos.

7.As dificuldades de mobilização são tamanhas que uma parte da esquerda – frente a ofensiva reacionária – não consegue ver outra saída que não a eleitoral. Mas trata-se de um círculo vicioso: depois de anos de crescente prioridade para os processos eleitorais, conseguimos o feito de vencer quatro eleições presidenciais seguidas, mas sofremos um golpe porque não acreditávamos que pudesse ocorrer, porque não controlávamos as instituições e, também, porque não tínhamos capacidade de mobilização autônoma. E agora, frente aos governos resultantes deste golpe, setores da esquerda reafirmam a fé nas instituições, não priorizam a reconstituição da nossa capacidade autônoma de mobilização e redobram a aposta nos processos eleitorais.

8.Esta aposta unilateral ajuda a compreender a defesa de “virar a página do golpe”, feita logo depois do crime; ajuda a explicar a crença de que Lula não seria condenado, não seria preso e poderia disputar as eleições presidenciais de 2018; ajuda a compreender a tática adotada por alguns setores nas eleições presidenciais de 2018, de buscar o apoio do “centro” golpista; ajuda a explicar a dificuldade de engajamento de setores da esquerda na campanha Lula Livre; ajuda a compreender a fé em que teríamos uma grande vitória nas eleições municipais de 2020; ajuda a explicar a resistência ao Fora Bolsonaro; ajuda a compreender parte da sabotagem passiva e ativa contra a retomada e o êxito das mobilizações de rua neste ano de 2021; e ajuda a explicar, principalmente, a desvinculação que alguns setores fazem entre as “ruas” e as “urnas”, como se a ausência de mobilização popular não fosse um obstáculo importante seja para uma vitória eleitoral, seja para a posse, seja para um novo governo exitoso. Vale destacar que alguns setores sabem deste obstáculo, mas pretendem superá-lo através da constituição de uma “frente ampla” com parte dos golpistas. É como se dissessem: na impossibilidade de vencê-los, unamo-nos a uma parte deles.

9.Esta é, em linhas gerais, a conjuntura neste início de novembro de 2021. Mas não é esta a percepção de grande parte da esquerda, mesmerizada pelos números das pesquisas eleitorais, que apontam que se a eleição presidencial fosse hoje, Lula venceria. As pesquisas são reais, assim como é real a nossa possibilidade de vitória. Mas as eleições não são hoje e há vários fatores que podem alterar a situação, contra a esquerda.

10.O primeiro fator é a “naturalização” da situação. Um exemplo disto é a situação sanitária: quando a pandemia começou, havia na esquerda quem dissesse que o país não suportaria 100 mil mortos; e que diante de tamanha tragédia Bolsonaro inevitavelmente cairia; motivo pelo qual defendiam que bastaria à esquerda ser a campeã da defesa da vida. Nem pensar em defender o Fora Bolsonaro, pois o povo não quer saber de política. Hoje não gostam de lembrar que diziam isso, até porque ocorreu o que todos sabemos: mais de 600 mil mortes, parte importante dos quais porque o governo Bolsonaro foi um ativo aliado da pandemia, mas apesar disso o cavernícola segue na presidência. A conclusão é óbvia: era necessário politizar a luta contra o vírus, era necessário aproveitar as circunstâncias para derrubar o governo. Mas a resistência em politizar e a aceitação tardia e a contragosto do Fora Bolsonaro por setores da esquerda permitiram ao cavernícola ganhar tempo, para o que concorreu o fato de que – mesmo frente às maiores desgraças – a tendência de parte das pessoas é “naturalizar”, se acostumar com a situação, tornar o monstro parte da paisagem. Um exemplo banal disso: quando moramos numa casa frente a uma avenida de grande circulação de carros, nosso ouvido vai alterando o limiar do que é ou não aceitável. Hoje morrem todo dia mais pessoas do que no início da pandemia, mas há quem aceite isto como parte da ordem das coisas. Vale dizer que os defensores da posição que criticamos seguem ocupando postos importantes, onde cometem variantes novas dos erros antigos.

11.O governo Bolsonaro se beneficia deste fenômeno da “naturalização”, não apenas no plano econômico e social, mas também no plano estritamente político. Vide a fraude de 2018 e as ameaças golpistas. As elites, a começar pelos que chefiam as famosas instituições, sabem a gravidade do ocorrido, mas permitem que o cavernícola continue a presidir o país. As recentes declarações de quem será presidente do TSE durante o próximo pleito, declarações segundo as quais os crimes cometidos em 2018 não serão aceitos em 2022, são uma piada pronta. Assim como constituem uma piada de extremo mal gosto as declarações de que se deve confiar na “boa fé” de Bolsonaro. Declarações que em alguns casos vêm dos mesmos que “descobriram”, em 2021, que a condenação, a prisão e a interdição eleitoral de Lula foram ao arrepio da Constituição. “Descoberta” feita, convenientemente, quando o dano já era imenso. Aliás, que se diga: vários ministros do STF deveriam ser moralmente condenados por genocídio culposo. O incrível é que esta pantomima é validada por setores da esquerda, que manifestam seu contentamento com a justiça, como se justiça póstuma fosse justiça e como se a cassação de um deputado bolsonarista não fosse um “osso” caído da mesa, ao mesmo tempo que se poupa o criminoso maior.

12.Há quem diga que Bolsonaro continuar governando contribuiria para sua derrota, pois todo o tempo ele estaria dando “tiro no pé” e, portanto, chegará sangrando e enfraquecido nas eleições de 2022. E há quem acuse ser por este “motivo” que alguns setores da esquerda não investem tudo no Fora Bolsonaro: a crença de que ele seria nosso “melhor adversário”, primeiro porque supostamente chegará fraco nas eleições, segundo porque supostamente não teria o apoio dos setores de “centro” (nome que se dá, indevidamente, à direita que patrocinou o golpe de 2016 e os desmandos da chamada Operação Lava Jato). As duas premissas são totalmente questionáveis. Apesar de fazer um governo de merda, o cavernícola segue com o apoio ativo de ¼ do eleitorado. Sendo assim, não é impossível, pelo contrário, que ele chegue em 2022 em melhor situação do que agora (entre outros motivos porque já vimos os efeitos do auxílio emergencial nas eleições municipais de 2020, mas também devido ao efeito “naturalização” citado anteriormente). Por outro lado, não é impossível que a direita gourmet faça em 2022 o que já fez em 2018. Naquele momento, a cúpula da direita sabia perfeitamente quem era Bolsonaro e do que ele era capaz e mesmo assim escolheu derrotar o “professor”; compreensível: trata-se de uma prioridade programática e a direita não tem pruridos na hora de defender os seus interesses de classe.

13.Embora evitem explicitar, alguns setores da esquerda sabem disso tudo, e por isso respondem ao problema como já foi dito, a saber, propondo ao "centro" uma aliança. Mas o que não fica claro neste movimento de setores da esquerda é sua implicação, a saber: para evitar que o “centro” – para defender as conquistas programáticas do golpismo - venha a apoiar Bolsonaro em 2022 como já fez em 2018, a esquerda teria que garantir ao “centro” que aquelas conquistas programáticas serão total ou parcialmente preservadas. O único que sairia de cena seria Bolsonaro; suas políticas continuariam. A argumentação anterior seria um exagero dos que criticam a "frente ampla"? Gostaríamos que fosse, mas infelizmente este é movimento que alguns setores da esquerda vêm fazendo conscientemente e outros inconscientemente. Em alguns casos isto é óbvio, quando se defende nada dizer acerca das forças armadas no programa de reconstrução e transformação nacional. Noutros casos é menos óbvio, como no caso das privatizações que estão em curso, ou da autonomia do Banco Central, ou do teto de gastos. A pergunta é: vamos considerar estas mudanças como irreversíveis ou vamos fazer de tudo para revertê-las? Não tentar responder estas questões é uma resposta.

14.Vale recordar que as pretendidas alianças com o “centro” (leia-se, com a direita gourmet) não se limitam ao plano nacional. Em várias eleições estaduais, parcelas da esquerda têm defendido fazer alianças – sempre em nome de derrotar o suposto inimigo principal – com setores com os quais não temos a menor identidade programática (por exemplo, o ex-governador Alckmin no estado de São Paulo). Uma das perguntas que precisam ser respondidas por quem defende estas alianças é: qual o preço? Quais os acordos programáticos? O que deixaremos de defender? O que passaremos a defender? Sabemos que várias destas pretendidas alianças não vão ocorrer, graças ao fato de que alguns de nossos inimigos têm princípios de que não abrem mão, diferente de setores da esquerda que não vacilam nem mesmo em fazer alianças com setores do bolsonarismo. Mas mesmo não ocorrendo, o efeito prático de simplesmente tentar fazer alianças deste tipo tende a ser negativo: em São Paulo, por exemplo, os que buscam uma aliança de primeiro turno com setores tucanos estão na prática estimulando o crescimento de candidaturas alternativas, seja à direita, seja à esquerda.

15.Em resumo: o quadro eleitoral em outubro de 2022 dificilmente será o mesmo de outubro de 2021. Ademais, Bolsonaro não está derrotado. Sua permanência no governo lhe dá instrumentos seja para disputar com chances as eleições presidenciais, seja de operar uma variante golpista. Da mesma forma, podem vir a ser superadas as dificuldades atuais da “terceira via” (nome que lembramos ser inadequado, pois do ponto de vista programático a direita gourmet coincide com a direita bolsonarista). E nada garante que sigam inalteráveis, nem que cresçam as preferências eleitorais atuais pela candidatura da esquerda. Por tudo isso, jogar parado não é garantia de vitória, muito antes pelo contrário. O que fazer? Em nossa opinião, é preciso corrigir a linha política e alterar a conduta prática.

16.No imediato, temos pela frente cerca de 20 dias, nos quais o conjunto da esquerda deve se esforçar para que o ato convocado para 20 de novembro seja uma manifestação massiva pelo Fora Bolsonaro. Devemos defender, também, que no dia 10 de dezembro – marco dos direitos humanos – se realizem manifestações em todas as cidades do país. E devemos propor a campanha Fora Bolsonaro que sinalize desde já as primeiras mobilizações do ano de 2022, por exemplo no final de janeiro e também por ocasião do aniversário do golpe militar, dia 1º de abril. Sem falar em estimular a criatividade carnavalesca pelo Fora Bolsonaro e por outro governo para o Brasil. Não podemos “esfriar” o ambiente, pois isso contribuiria para o bolsonarismo e a direita gourmet conquistarem posições melhores contra nós. Neste sentido, é preciso reafirmar enfaticamente que seguimos defendendo o impeachment: diferente do presidente do TSE, entendemos que crimes contra a soberania e contra os direitos do povo, a começar pelo crime de genocídio, não podem ser relevados a pretexto de “lapsos” temporais.

17.Para que o bolsonarismo e o neoliberalismo sejam derrotados, é essencial constituir – em torno da esquerda social e política que têm como referências principais o PT, do PSOL e do PCdoB – um centro político a partir do qual se formule um programa e uma tática da esquerda para enfrentar as disputas do ano de 2022. Não se trata apenas das eleições, até porque as eleições não serão apenas eleições, serão uma guerra. As “frentes” atualmente existentes não estão à altura de enfrentar estes desafios.

18.No terreno programático, é preciso indicar quais as medidas emergenciais que serão adotadas, já nos primeiros meses de governo, para enfrentar os problemas imediatos do povo brasileiro: a fome, o desemprego, a moradia, o acesso à saúde e a educação e, com destaque, a falta de perspectivas. A maioria do povo brasileiro, a classe trabalhadora, precisa reconstruir sua esperança em um futuro melhor. Não uma esperança passiva, mas uma esperança ativa, de quem luta para conquistar o que deseja. Por isso, é preciso – para além das medidas imediatas – apontar o rumo e indicar os obstáculos a serem enfrentados e superados. De um lado o capital financeiro, o latifúndio urbano e o agronegócio, a violência policial e criminosa, a tutela militar e judicial, o oligopólio da comunicação, o fundamentalismo, o patriarcado, o racismo, a lgbtfobia, a destruição ambiental, o genocídio dos povos indígenas, as forças sociais e políticas correspondentes. De outro lado, um Brasil soberano e integrado à América Latina e Caribe; um país com bem estar social e liberdades democráticas; um país desenvolvido e socialista.

19.Um país assim não será construído sem o PT, nem apesar do PT, nem contra o PT. Ao menos neste momento histórico, mudar o Brasil depende em grande medida do Partido dos Trabalhadores, não apenas de seus dirigentes e militantes, não apenas de seus eleitores e filiados, mas principalmente das dezenas de milhões de pessoas que têm o PT como referência. Mas é preciso dizer claramente: o patrimônio acumulado pelo PT ao longo de décadas não é eterno. Acumulam-se problemas que colocam em risco a higidez do PT, que ameaçam sua integridade, que colocam em risco sua sobrevivência. Desconhecer estes problemas e, pior, saber deles e não os enfrentar adequadamente, contribui para que a classe dominante possa continuar empurrando o Brasil em direção ao passado.

20.Neste sentido, nós estamos chamados a dar prosseguimento, em especial nos próximos meses, a uma batalha em várias frentes. Destacamos: no plano mundial, a luta contra o imperialismo e em favor dos povos da América Latina e Caribe; no plano nacional, a luta pelo impeachment e por um governo democrático e popular; no plano das esquerdas, o investimento na mobilização e na construção da unidade das esquerdas partidárias e sociais; no plano do Partido, a luta por uma nova direção e pela recuperação dos territórios perdidos junto a classe trabalhadora. Neste terceiro plano, é preciso análise atenta da experiência da Nova Primavera, que demonstra as potencialidades, mas também os limites de uma tentativa de revitalização que se dá nos marcos de uma estratégia política superada. É preciso atenção, também, para a experiência dos setoriais, que demostra como segue avançando a metamorfose dos mecanismos de formulação e ação militante que restam em nosso partido. É preciso, por fim, incidir no processo de definição do programa, da tática, da política de alianças e das candidaturas que disputarão as eleições de 2022, para que predomine a compreensão de que não temos pela frente eleições, mas uma “guerra” em que a classe dominante usará todas as suas armas.

21.O que temos pela frente não é trivial. Visto de conjunto, estamos diante de desafios que as vezes parecem superar as forças de que dispomos. E de fato assim é: lutamos por alterar a correlação de forças, na expectativa de que na própria luta se criem as condições que nos permitirão ter êxito na tarefa. E há inúmeros sinais de que podemos triunfar: o acumulado histórico, a resistência ao golpe, a quase vitória em 2018, o enfrentamento contra Bolsonaro, o apoio a Lula, as imensas dificuldades que vive nosso povo e as inúmeras provas de que o PT é essencial na luta contra o bolsonarismo e contra o neoliberalismo. 

22.Finalmente, é preciso lembrar o que foi dito no início. Vivemos num momento de muita instabilidade, no mundo, na região e no Brasil. Portanto, um momento em que podem acontecer reviravoltas súbitas e as vezes imprevistas. Também por isso não pode nos faltar, agora, o que não faltou à parte das forças progressistas nos anos 1920: a compreensão de que o Brasil necessitava de uma revolução. Sem as lutas dos anos 1920, não teria ocorrido a chamada Revolução de 1930, essencial para nosso desenvolvimento e industrialização. Hoje, diante de uma classe dominante que nos faz regredir aos problemas que o país vivia há cem anos, cabe à classe trabalhadora e a seus aliados manifestar a mesma disposição revolucionária, essencial para que o Brasil possa conquistar soberania, bem estar social, liberdades democráticas, desenvolvimento e socialismo.

 

 

 


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Haddad, Alckmin e o que seria "melhor para São Paulo"

Está causando rebuliço nos meios petistas o tema tratado no texto abaixo:

https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/quem-tem-voto-em-sao-paulo-somos-o-alckmin-e-eu-diz-haddad/

Pulo a parte sobre quem teria voto no estado de São Paulo e me limito ao tema das alianças.

Segundo o texto de Carta Capital, Haddad estaria procurando construir uma aliança com Márcio França e com Geraldo Alckmin.

Alckmin estaria de saída do PSDB.

E França está no PSB.

Que em São Paulo é uma sublegenda do PSDB.

Carta Capital diz ainda que Haddad cogitaria ter França na vice e Alkmin disputando a vaga do Senado.

Destaque-se que as aspas atribuídas a Haddad não afirmam isso.

As declarações de Haddad citadas na revista são mais contidas: "mesmo quando uma aliança não é possível, voce pavimenta o caminho para uma solução boa para o Estado e para o país no segundo turno, que não foi o que aconteceu em 2018".

Haddad também teria dito, segundo Carta Capital, que se ele e Alckmin forem para o segundo turno, "teremos uma disputa de primeiríssimo nível. Se não, temos que decidir o que é melhor para São Paulo".

Sinceramente não sei onde se baseia a afirmação de que uma disputa contra Alckmin pode ser de alto nível. 

Mas é preciso considerar que, desde que o cavernícola entrou em cena, muita gente esqueceu do que os tucanos et caterva são capazes. 

Ainda segundo Carta Capital,  Haddad descarta a aliança com o PSOL, com os seguintes termos: "a gente respeita o PSOL, acha que o PSOL tem que lançar candidato, que o PT tem que lançar candidato. São programas diferentes e perspectivas também".

A pergunta é: o mesmo raciocínio não valeria ipsis litteris para o PSB? E para Alckmin?

Afinal, os programas e as perspectivas do PSB e do PT também são diferentes. 

Aliás, muito mais diferentes do que os programas do PT e do PSOL.

Pois, repito, em São Paulo o PSB é sublegenda do PSDB.

Motivo pelo qual esta aliança só aconteceria sobre o cadáver moral de uma das partes.

E teria como principais beneficiários não os supostos aliados, mas sim quem estiver à sua direita e à sua esquerda.

Já vimos em São Paulo capital no que dá este tipo de estratégia.

Motivo pelo qual o "melhor para São Paulo" é Haddad liderar uma candidatura, uma campanha e um programa de esquerda, bem longe dos tucanos e de suas variantes.