sábado, 17 de julho de 2021

Janine Ribeiro e Cuba: o crime compensa?

Ciro Gomes não está só. 

Renato Janine Ribeiro concorda com ele: “Cuba tem 2 problemas graves. Um é o bloqueio, outro a ditadura”.

Para quem não leu, está no facebook do ex-ministro da Educação:

“Cuba: eta assunto complicado... Não tanto na realidade, mas nas discussões. Para mim, é simples conceitualmente. Cuba tem 2 problemas graves. Um é o bloqueio, outro a ditadura.  Os EUA impuseram a Cuba um tratamento pior do que ao Vietnã, embora esse país os tenha derrotado numa guerra. O bloqueio (aka embargo) pune até navios de terceiros países que aportem em Cuba. Tem que acabar. E Biden está muito enganado se quer os votos da Flórida. Inútil agradar os exilados cubanos provectos, que nunca votarão nele. Agora, nada justifica tratar cidadãos como crianças que precisam ser tuteladas. Ditadura não tem justificativa. Como acabar com o impasse? Mais fácil Biden dar o primeiro passo. Encerrar o bloqueio afeta muito menos os EUA do que acabar a ditadura afeta o PCC. E tira o álibi do bloqueio para manter a ditadura.  Se for preciso haver uma mediação, penso no papa Francisco. Ele poderá fazer os dois lados superarem o ódio e pensarem no futuro. (Em tempo: Biden é católico)”.

Não concordo que a realidade seja "simples".

Mas concordo que a discussão é simples.

Afinal, o bloqueio dos EUA tem como objetivo derrubar o governo cubano e o que Renato propõe é, sem tirar nem por, trocar o fim do bloqueio pelo fim do governo cubano

Portanto, o que Renato propõe é exatamente aquilo que o governo dos EUA deseja.

Para chegar a esta conclusão e ficar em paz com sua consciência, Renato tem que distorcer a realidade. 

Primeiro, diz que Cuba tem “2 problemas graves. Um é o bloqueio, outro a ditadura.”

Posto desta forma, fica parecendo que seriam dois problemas simétricos e equivalentes. 

Renato chega a dizer que encerrar o bloqueio afetaria “muito menos” os EUA do que “acabar a ditadura afeta o PCC”. 

"Muito menos"? 

A realidade é outra: o fim do bloqueio não causaria nenhum efeito negativo para o povo dos EUA!

Só afetaria as pretensões dos setores dos EUA que acreditam que só com o bloqueio vão conseguir acabar com a "ditadura" cubana.

Enquanto isso, a "ditadura" cubana não trabalha para derrubar o governo, nem causa sofrimento algum ao povo dos EUA. 

Portanto, ao contrário do que diz Janine, não existe ódio nos “dois lados”.

O ódio é totalmente unilateral.

Acontece que Renato acha que o bloqueio seria um “álibi” para “manter a ditadura”. 

Ou seja: em outras palavras, Janine está dizendo que o PCC teria interesse na manutenção do bloqueio, pois isto supostamente serviria de "álibi" para manter sua "ditadura".

Incrível, não?!

Biden deveria contratar Renato Janine Ribeiro para uma consultoria.

Quem sabe nosso ex-ministro não convence os gringos de que o melhor caminho para derrotar a "ditadura" cubana seria suspender o bloqueio e assim acabar com o "alibi".

Seria cômico, se não fosse trágico.

Certamente podemos discutir se Cuba é ou não uma "ditadura", assim como podemos discutir se existe ou não socialismo em Cuba. 

A discussão é livre. E por isso mesmo, vai aqui minha opinião: quem defende trocar o fim do bloqueio pelo fim do atual governo cubano precisa se dar conta de que está "simplemente" aderindo à tese de que o crime compensa.

E, muito mais grave, está propondo um caminho que vai acabar com a soberania cubana, pois é isso o que de fato significa derrubar o governo cubano por pressão dos EUA.

Felizmente, a maior parte da esquerda brasileira tem memória e sabe de que lado ficar nesta luta entre o imperialismo e a valente república caribenha.

Cuba livre!






sexta-feira, 16 de julho de 2021

Ciro Gomes, Cuba e os gusanos

 Recomendo a quem tiver estômago fraco evitar o vídeo de 4 minutos em que Ciro Gomes fala sobre Cuba e a política externa brasileira.

Ciro abre o vídeo afirmando que “nosso querido povo cubano está sofrendo. Existem duas bombas-relógio armadas há muito tempo sobre este povo valoroso. Uma é o bloqueio econômico. Outra é a ditadura política.”

Como spoiler é proibido pela Convenção de Genebra, me limito ao seguinte: ao contabilizar o tempo dedicado a cada tema, evidencia-se que o objetivo real do vídeo é atacar a política externa do PT, através de um ataque ao governo cubano. A política externa de Bolsonaro e a agressão dos Estados Unidos são coadjuvantes.

Politicamente falando, portanto, o vídeo é uma peça de campanha eleitoral de quem ambiciona ser a terceira via nas eleições presidenciais brasileiros. Mas este vídeo de Ciro Gomes mostra que ele sua opção política não tem limites nem fronteiras. Explico.

Ciro sabe que a situação de Cuba é difícil. Colônia espanhola até o final do século XIX, depois protetorado ianque, depois ditadura cruel e paraíso das máfias, Cuba só se tornou uma nação independente graças ao triunfo da revolução de 1959, que a pressão das massas e a sabotagem do imperialismo empurraram em direção ao socialismo.

Em Cuba, a soberania nacional é inseparável do socialismo: se um cair, o outro cairá. E como o socialismo cubano estava intimamente vinculado ao soviético, depois de dezembro de 1991 nove em cada dez analistas previam que a “ditadura” cubana cairia.

Mas não caiu. Sobreviveu com imensas dificuldades, sobreviveu a muitos de seus inimigos e sobreviveu a seus próprios erros, que tanto Fidel quanto Raul Castro reconheceram inúmeras vezes.

Vai continuar sobrevivendo? Ninguém sabe. A URSS já nos demonstrou que o pior pode acontecer. E nesse momento a situação em Cuba é particularmente difícil, entre outros motivos porque o acirramento do bloqueio criminoso dos EUA se dá em meio a pandemia, que além dos efeitos sanitários, afeta as poucas fontes de divisas de Cuba, sem as quais a Ilha não consegue comprar produtos básicos, afetando da alimentação ao fornecimento de energia elétrica. E tudo isso incide sobre um país no qual estão em curso, já há alguns anos, um conjunto de reformas econômicas e sociais patrocinadas pelo governo exatamente para tentar superar – na medida em que isso é possível numa pequena ilha tão perto de Washington - problemas estruturais do socialismo cubano.

Em qualquer país do mundo uma situação dessas provocaria conflitos sociais. Em qualquer país do mundo este conflito produziria choques entre o governo e setores da população. Não importando se quem governa é de esquerda, de direita ou um ornitorrinco.

Podemos divergir sobre o tamanho dos conflitos ocorridos em Cuba, sobre a resposta do governo, sobre o papel relativo dos EUA e dos problemas acumulados há décadas. O que não se pode nunca perder de vista é a assimetria das forças e das intenções envolvidas.

Cuba não ameaça a vida do povo dos EUA, Cuba não trabalha dia e noite para derrubar o governo dos EUA. Já o criminoso bloqueio visa exatamente isso: sufocar Cuba, desesperar o povo cubano, produzir conflitos e no limite tentar derrubar aquilo que Biden, Bolsonaro e Ciro chamam de “ditadura”.

O que está em jogo, portanto, é a soberania nacional cubana. Sem a qual não será possível nenhum tipo de socialismo, nem tampouco liberdades democráticas. Apesar de sua crítica retórica ao bloqueio, a posição de Ciro é a mesma dos gusanos. Aliás, ele cada vez mais parece um. Kafka explica.

Governador Wellington e o que falta para o impeachment de Bolsonaro

Veja para alguns petistas é como Coca Cola: sabem que faz mal, mas não conseguem resistir. A mais recente vítima foi o governador Wellington Dias, cuja entrevista à revista Veja eu reproduzo ao final.

Na entrevista, Wellington lembra que o Brasil tem 2,7% da população mundial e já alcançou mais de 13% do número de óbitos do mundo”.

Mas diz ter dúvida “se o objetivo era causar as mortes ou se tinha mesmo alguém que acreditava que a propagação do vírus era uma forma de se livrar rápido do problema”.

Wellington reconhece que “se houve mesmo incentivo à propagação do vírus para se livrar da pandemia, foi uma política genocida”. Mas defende “esperar o resultado da CPI”.

Se entendi direito o raciocínio, a dúvida estaria em saber se o genocídio é culposo ou doloso. 

Talvez no fundo desta dúvida esteja o coração bondoso de Wellington, que consegue lembrar que teve uma “relação sempre respeitosa” com Bolsonaro quando conviveu com ele no Congresso.

Infelizmente, vai além: diz que Bolsonaro precisa “colocar o interesse do país acima das disputas políticas. Infelizmente, ele procura manter um tensionamento permanente. A disputa política fica sempre em primeiro plano e a pauta de interesse público em segundo”.

Que certa direita raciocine deste jeito, eu entendo: para eles, interessa estigmatizar a “disputa política”, a “luta de classes” e as “ideologias”, porque para eles interessa manter o status quo, que eles apresentam como se fosse o “interesse do país”. 

Mas para nós de esquerda, raciocinar assim é um desastre, pois do que precisamos é exatamente convencer o povo a fazer disputa política, a diferenciar nossos interesses dos interesses da elite, a perceber que cada classe vê de maneira diferente o que é o “interesse público”.

No fundo do raciocínio de Wellington, está a crença de que vamos derrotar a política de “tensionamento permanente” adotada por Bolsonaro através do “diálogo”.


Textualmente ele diz que “temos uma situação tão grave no Brasil que devemos priorizar o diálogo. Lula se coloca como alternativa pela sua reconhecida capacidade de dialogar, ouvir e tolerar. Há a necessidade de alguém com experiência democrática, alguém empenhado em fortalecer as instituições que foram atingidas nesse período. Há a necessidade de criar uma política de pacificação dentro do país, aliada a um plano que possa fortalecer a economia, gerar emprego e renda”.


Pergunto: diálogo é bom, mas será suficiente? Não haverá resistências, interesses contrariados, setores irredutíveis?


Apesar da boa vontade de Wellington, a Veja não perdoa e lhe fez as perguntas de sempre sobre a corrupção. 


O governador respondeu que “nós vamos defender o combate à corrupção, que ainda é grave no Brasil”; disse que “pagou e pagará qualquer um que cometer crime de corrupção em nossos governos. Quem cometeu, quem a Justiça comprovou que cometeu, foi expulso do PT”; disse também que não foi o PT, mas “pessoas do meu partido, em meio a 1,5 milhão de militantes, infelizmente, também foram para o descaminho”. 


Sentindo o gosto de sangue, Veja pergunta quem foi para o descaminho, e Wellington cita o caso do “ex-ministro Palocci”, corrupto confesso apesar de ser “uma pessoa preparada, com capacidade técnica extraordinária”. 


(ps. certamente Palocci era preparado e tinha capacidade técnica, mas usou essas qualidades em favor de uma política que interessava ao grande capital. A corrupção foi sua paga!)


Veja insiste e Wellington diz que “o ex-ministro José Dirceu foi julgado, condenado e cumpriu pena, mas ele sustenta que não participou de nenhuma ilegalidade”. 


Ou seja: Veja adotou o mesmo script executado na entrevista com Gilberto Carvalho. E Wellington foi parar no mesmo lugar.


No tema da frente ampla, Wellington diz que não acredita na formação de uma frente ampla para as eleições de 2022. Mas faz uma análise positiva das alianças feitas entre 2003 e 2010. E alimenta a tese de que os problemas começaram quando Dilma foi à reeleição.


Textualmente: Em 2014, havia a oportunidade de uma alternância, mas o Lula nunca sugeriu isso a ela. Foi aí que começaram os problemas”, pois era um momento muito tenso e exigia uma capacidade de diálogo, de articulação, realmente muito elevada, e ela tinha essa dificuldade”. 


E agrega: “Olhando para trás, acho que, se Lula tivesse sido candidato em 2014, creio que não teríamos enfrentado os problemas que enfrentamos”.


Ou seja: os “problemas” do golpe, da extrema direita, da ingerência dos Estados Unidos, da intervenção militar, do programa neoliberal da ponte para o futuro e tudo mais, teriam sido superados com “diálogo”.


E coerente com isto, Wellington diz que “não podemos banalizar o instrumento do impeachment. Ou existe uma prova muito concreta, robusta, ou temos de respeitar a soberania da vontade popular. No caso de Bolsonaro, na minha opinião, ainda não há uma comprovação que permita o impeachment. Não duvido que venha a surgir. Se tiver desvios, especialmente nesse caso da Covaxin, aí muda tudo. Se o remédio necessário for o impeachment, vamos usar. Mas não podemos levar o país a aventuras”.

Ou seja, "muda tudo" apenas se houver corrupção comprovada envolvendo pessoalmente o presidente. Todos os demais crimes cometidos pelo cavernícola não são suficientes para Wellington defender o impeachment de Bolsonaro.

Como se isto não bastasse, Wellington ainda fala positivamente de Aécio Neves. Sua declaração a respeito é tão insólita, que prefiro apenas reproduzir a pergunta e a resposta, que encerram a entrevista.

É verdade que o senhor chegou a cogitar a possibilidade de formar uma chapa com Aécio Neves em 2010? Na época teve aquela dobradinha em Minas Gerais, de Lula e Aécio, o Lulécio. Esse diálogo foi aberto pela boa relação dele com o Lula, pela possibilidade de ele se filiar a um partido da nossa base e como um líder destacado, citado para ser candidato a presidente pelo campo político apoiado pelo Lula. Eu estava no segundo mandato de governador e meu nome era lembrado como alternativa para vice. Hoje eu brinco que ele perdeu a chance de ser presidente e ainda tirou a minha de ser vice.


SEGUE A INTEGRA DA ENTREVISTA Publicado em VEJA de 21 de julho de 2021, edição nº 2747

 

Wellington Dias: “É preciso dialogar”

JULY 15, 2021

WELLINGTON DIAS - Cristiano Mariz/VEJA

O governador do Piauí é um petista moderado, muito próximo a Lula e que não esconde o entusiasmo diante da perspectiva de o PT voltar ao Palácio do Planalto em 2023. Embora admita que há espaço para uma candidatura que represente a chamada terceira via, Wellington Dias acredita que a tendência, por enquanto, é mesmo a polarização entre Jair Bolsonaro e Lula — estratégia, ressalte-se, que atende aos interesses de ambos. Ao ser questionado sobre a possibilidade de impeachment, por exemplo, ele critica a banalização do instrumento e ressalta que ainda não vê provas suficientes para iniciar uma ação de destituição do presidente da República, embora seu partido tenha sido um dos signatários do mais recente pedido de impedimento. À frente do Consórcio Nordeste, grupo que reúne os estados da região, Dias afirma que a pressão dos governadores acelerou a vacinação no país, uma bem-sucedida contraposição à política do governo federal que ele avalia como “desastrosa”. Em entrevista a VEJA, olhando também para o passado, o governador admite que a candidatura à reeleição de Dilma Rousseff foi um erro, diz não ver problemas em firmar aliança com o chamado Centrão e revela que chegou a participar de conversas para a formação de uma insólita chapa com o tucano Aécio Neves (MG) com vistas às eleições presidenciais de 2010. A seguir os principais trechos.

O senhor segue a mesma linha dos oposicionistas de que o governo adotou uma política genocida no enfrentamento da pandemia? Ninguém pode negar que tivemos uma tragédia no Brasil. Cito um dado apenas: o Brasil tem 2,7% da população mundial e já alcançou mais de 13% do número de óbitos do mundo. O Brasil tem cerca de quatro vezes mais óbitos do que a proporção de sua população. É uma tragédia. Não seguir a ciência levou a essa tragédia. Não ter monitoramento, não ter a compra de insumos, não ter plano para prevenção e tratamento, não fazer a compra de vacina quando teve oportunidade, tudo isso junto levou a esse resultado desastroso.

O presidente teria deixado de fazer isso deliberadamente para matar as pessoas? Precisa ser analisado se o objetivo era causar as mortes ou se tinha mesmo alguém que acreditava que a propagação do vírus era uma forma de se livrar rápido do problema. A ciência negou isso o tempo inteiro. Se houve mesmo incentivo à propagação do vírus para se livrar da pandemia, foi uma política genocida. Vamos esperar o resultado da CPI.

Qual a impressão que o senhor tem do presidente Bolsonaro? Eu convivi com o deputado Jair Bolsonaro no Congresso. Nesse período atuamos em um mesmo bloco e mantivemos relação sempre respeitosa. O presidente precisa colocar o interesse do país acima das disputas políticas. Infelizmente, ele procura manter um tensionamento permanente. A disputa política fica sempre em primeiro plano e a pauta de interesse público em segundo.

E sobre o governo Bolsonaro? Além dos problemas no combate à pandemia, o que precisamos hoje na política é de diálogo. Na área econômica, não é possível acreditar apenas no livre mercado. Há necessidade de ter um plano, uma presença forte do governo estimulando o setor privado para que a gente tenha chance. O país está dependendo das commodities muito mais do que antes. Commodities que, sob o ponto de vista econômico, geram crescimento, mas não muito emprego e renda. Também estamos estragando nossas relações internacionais, metendo-nos o tempo todo em assuntos impróprios. A imagem do Brasil no exterior é péssima, especialmente por causa da política ambiental, da questão indígena, da forma como tratamos a segurança. O armamento vai na contramão da história. Em resumo: o governo é muito ruim.

Por que o eleitor deve acreditar que o PT é alternativa a todos esses problemas? Temos uma situação tão grave no Brasil que devemos priorizar o diálogo. Lula se coloca como alternativa pela sua reconhecida capacidade de dialogar, ouvir e tolerar. Há a necessidade de alguém com experiência democrática, alguém empenhado em fortalecer as instituições que foram atingidas nesse período. Há a necessidade de criar uma política de pacificação dentro do país, aliada a um plano que possa fortalecer a economia, gerar emprego e renda.

A corrupção não será um empecilho a esse projeto eleitoral do ex-presidente? Hoje é mais fácil responder sobre isso. Foram dezessete processos que criaram para o Lula e para outros líderes uma imagem de corrupção. Destes, catorze já foram arquivados. O que houve, na verdade, foi uma estratégia política coordenada pelo juiz Sergio Moro, que depois se tornou ministro do governo que ajudou a eleger com pretensões de ir ao Supremo. Eu sempre disse que a Lava-Jato era uma ação contra os líderes políticos e empresariais. Nós vamos defender o combate à corrupção, que ainda é grave no Brasil. Mas não dessa maneira.

O senhor fala como se não tivesse havido casos gravíssimos de corrupção durante os governos do PT. Pagou e pagará qualquer um que cometer crime de corrupção em nossos governos. Quem cometeu, quem a Justiça comprovou que cometeu, foi expulso do PT. O que precisa ser dito, em alto e bom som, é que, enquanto partido, continuamos defendendo a ideia de que quem cometer corrupção terá de pagar. O que não podemos é permitir o espetáculo processual, expondo pessoas inocentes.

O PT se corrompeu? Digo que pessoas do meu partido, em meio a 1,5 milhão de militantes, infelizmente, também foram para o descaminho.

Quem? O ex-ministro Palocci confessou em depoimentos, não sou eu quem o está julgando. Era uma pessoa preparada, com capacidade técnica extraordinária.

Apenas ele? O ex-ministro José Dirceu foi julgado, condenado e cumpriu pena, mas ele sustenta que não participou de nenhuma ilegalidade. No caso do mensalão, foram apresentadas apenas provas testemunhais.

O senhor acredita na formação de uma frente ampla para enfrentar o presidente Bolsonaro em 2022? Sinceramente, não. Um campo político com o apoio que tem o ex-presidente Lula dificilmente abrirá mão de utilizar essa vantagem. O que estou dizendo: é possível que o ex-ministro Ciro Gomes seja candidato? Sim. Que o campo do ex-presidente Fernando Henrique, Doria, Eduardo Leite, lancem candidato? Sim. Defendo o entendimento pensando no interesse maior.

Hoje o PT critica a aliança que o governo fez com o chamado Centrão, mas o partido fez a mesma aliança quando estava no poder. Em todos os lugares do mundo você governa com os partidos que ajudaram a construir a vitória. Qualquer presidente precisa confiar a composição de um governo a um conjunto de líderes. Evidentemente, o ideal é que as escolhas priorizem afinidade, conhecimento e experiência nas áreas de atuação. Fui governador entre 2003 e 2010, período em que Lula foi presidente. Vi de perto a capacidade dele de dialogar, construindo uma maioria no Congresso que permitiu a aprovação de projetos importantes. O que não pode é submeter o país a qualquer caminho que seja prejudicial ao interesse da população.

O senhor considera que as escolhas foram adequadas nos governos petistas? Tanto foram adequadas que isso foi o que gerou problemas, principalmente na gestão da presidenta Dilma. O conflito que ela enfrentou tinha a ver com determinados anseios de aliados que queriam indicação em determinadas áreas que não foram atendidas.

O senhor faz muitos elogios ao governo Lula, mas pouco fala sobre o governo Dilma, que foi destituída por um processo de impeachment. Dilma foi uma presidenta honesta, uma presidenta com elevado espírito público. Em 2009, eu avaliava que não seria uma tarefa fácil substituir um dos maiores presidentes da história deste país. Havia a necessidade de ter alguém que tivesse uma experiência maior em relação à política. Dilma foi eleita para o primeiro mandato e seguiu o programa daquele primeiro mandato. Em 2014, havia a oportunidade de uma alternância, mas o Lula nunca sugeriu isso a ela. Foi aí que começaram os problemas.

Lula errou ao não impor sua candidatura em 2014? O que o presidente Lula diz é que, quando houve a alteração constitucional prevendo a reeleição, Fernando Henrique exerceu esse direito. Ele também teve o direito à reeleição. Por isso, não seria razoável a primeira mulher presidente do Brasil não exercer esse direito. O problema é que era um momento muito tenso e exigia uma capacidade de diálogo, de articulação, realmente muito elevada, e ela tinha essa dificuldade.

Mas o que a ex-presidente poderia ter feito de diferente? Eu estava no Congresso Nacional, no Senado Federal, era líder do bloco de apoio ao governo da presidenta Dilma. Repito: uma pessoa honesta, uma pessoa de grande espírito público, mas tinha muitas dificuldades em relação aos líderes. Você não é obrigado a dizer sim aos pleitos que são apresentados. Mas é razoável que ouça, é razoável que receba e responda. E que responda com uma justificativa adequada e uma política de respeito. Olhando para trás, acho que, se Lula tivesse sido candidato em 2014, creio que não teríamos enfrentado os problemas que enfrentamos.

Defender o impeachment do presidente Bolsonaro é uma estratégia correta? Compreendo que a democracia prevê a figura do afastamento de um presidente da República, mas não podemos banalizar o instrumento do impeachment. Ou existe uma prova muito concreta, robusta, ou temos de respeitar a soberania da vontade popular. No caso de Bolsonaro, na minha opinião, ainda não há uma comprovação que permita o impeachment. Não duvido que venha a surgir. Se tiver desvios, especialmente nesse caso da Covaxin, aí muda tudo. Se o remédio necessário for o impeachment, vamos usar. Mas não podemos levar o país a aventuras.

É verdade que o senhor chegou a cogitar a possibilidade de formar uma chapa com Aécio Neves em 2010? Na época teve aquela dobradinha em Minas Gerais, de Lula e Aécio, o Lulécio. Esse diálogo foi aberto pela boa relação dele com o Lula, pela possibilidade de ele se filiar a um partido da nossa base e como um líder destacado, citado para ser candidato a presidente pelo campo político apoiado pelo Lula. Eu estava no segundo mandato de governador e meu nome era lembrado como alternativa para vice. Hoje eu brinco que ele perdeu a chance de ser presidente e ainda tirou a minha de ser vice.

Publicado em VEJA de 21 de julho de 2021, edição nº 2747

 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Discussão sobre como fazer "análise de conjuntura"

(sem revisão)

Todos fazemos “análise de conjuntura”, o tempo todo; mas a maioria de nós faz isso sem método, ou seja, sem um roteiro estruturado.

Isso contribui para o fato – conhecido de todos nós – de que uma mesma conjuntura seja interpretada de maneira completamente diferente, por pessoas que militam em uma mesma organização. Ou, pelo contrário, que seja interpretada de maneira igual, por pessoas que militam em organizações diferentes.

Além da falta de método, existem três outras circunstâncias que contribuem para esta multiplicidade de análises diferentes. 

Primeira circunstância, já citada, é a ausência de método. 

A segunda é a utilização de métodos diferentes. 

A terceira é a diferença nas informações disponíveis (por exemplo: as recentes manifestações em Cuba reuniram centenas ou reuniram milhares de pessoas? As manifestações na Paulista tiveram mais gente ou tem menos gente?). 

E uma quarta é o “lugar de fala”. E eu quero começar por este ponto.

Análise de conjuntura não é diletantismo, é uma ferramenta para definir e/ou ajustar a tática. E a tática está em função da estratégia. E a estratégia muda de organização para organização, de pessoa para pessoa. 

Estratégias diferentes vão enfatizar, vão valorizar diferentemente determinados componentes da conjuntura. 

Por exemplo: uma estratégia cujo objetivo é mudar o país através de políticas públicas implementadas por governos eleitos vai dar sempre enorme atenção para os processos eleitorais e para o que diz respeito aos processos eleitorais. 

É por isso que muitos dirigentes de certos partidos políticos sabem dizer pouco sobre o que está acontecendo no cotidiano da classe trabalhadora e/ou nas manifestações de rua, mas sabem dizer muito sobre o que está acontecendo nas negociações de alianças entre partidos.

Outro exemplo: uma estratégia baseada no acúmulo de forças nas instituições e nos processos eleitorais é capaz de gastar horas analisando o que o ministro Y do STF jantou ontem, o que o presidente da Câmara tomou no café da manhã e qual o significado oculto de uma frase dita por um senador no cafezinho. Já uma estratégia baseada na construção de um poder popular alternativo vai dar mais ênfase para o estado de ânimo, o nível de consciência, mobilização e organização das massas populares.

Os exemplos que dei, que certamente são caricaturais, mas não são falsos, visam enfatizar o seguinte: uma estratégia (que inclui o programa de transformações e inclui o mapa do nosso caminho para o poder), para se materializar, supõe vitórias táticas. 

Mas não supõe quaisquer vitória tática, supõe vitórias táticas que fortaleçam aquele determinado caminho estratégico. Por isso, a opção por uma determinada estratégica conduz a determinadas opções táticas e isso, por sua vez, conduz a enfatizar ou a interpretar diferentemente os acontecimentos conjunturais.

Um exemplo: como pode uma pessoa experiente, com anos de governo, subestimar a vinda do diretor da CIA ao Brasil neste momento? 

Como pode uma pessoa experiente achar que os comandantes das forças armadas estariam contrários ou mesmo neutros frente a estratégia geral do bolsonarismo? 

Como pode alguém ficar perplexo diante do fato de que os militares em 2021 absolveram Pazuello, tendo em vista o que os militares vieram fazendo no Brasil desde sabe-se lá quando?

A resposta é: no esquema estratégico de algumas pessoas, não cabe enfrentar-se com as forças armadas. 

Portanto, se buscará desesperadamente na realidade tudo aquilo que possa servir de base para esta opção. 

Assim, se o general tal foi educado e amistoso conosco em um encontro privado, LOGO ele é profissional, legalista, defensor da Constituição, um democrata etc. Detalhe: isso que eu acabei de falar não é invenção, mas são “argumentos” (!!) utilizados por algumas pessoas para defender o Villas Boas, que quase foi objeto de um manifesto de apoio assinado por pessoas de impecável passado revolucionário, que se deixaram iludir, assim como o Salvador Allende se deixou iludir pelo Pinochet. 

As pessoas veem, na tática, aquilo que a estratégia “precisa” que elas vejam.

É por isso, por exemplo, que grupos de ultra-esquerda olham para um black block (mesmo que seja um BB provocador, um P2) e enxergam ali a violência revolucionária em marcha, os sinais de uma revolução que se aproxima no horizonte.

Retomando portanto: 1/quando fazemos uma análise de conjuntura, é preciso ter claro de que ponto de vista estratégico fazemos esta análise e portanto 2/é preciso ter claro o que queremos da tática, quais são os nossos objetivos táticos, pois eles é que vão definir as 3/perguntas que faremos na análise de conjuntura.

Portanto os conceitos estratégia, tática e análise de conjuntura estão vinculados entre si, assim como todos os aspectos da luta de classes estão vinculados na realidade.

Acontece que atuamos no Brasil de 2021, onde convivem – conflituosamente ou amistosamente - diferentes partidos e diferentes estratégias. Além do mais, convivemos em espaços e em situações diferentes. Por exemplo: a campanha Fora Bolsonaro. Participam dela organizações diferentes, com estratégias e táticas diferentes. Isso necessariamente vai produzir análises de conjuntura distintas. Algumas destas análises podem ser simplesmente falsas (do tipo: as manifestações de rua já atingiram um patamar tal que torna possível obrigar o Artur Lyra a submeter o impeachment a análise da Câmara e, mais ainda, a aceitar colocar em votação uma PEC que na prática antecipa as eleições presidenciais). Outras podem ser apostas, no bom sentido da palavra: as mobilizações, se mantiverem um patamar de participação razoável, vão desenferrujando os músculos e acumulando forças, o que é útil seja no caso de ser mantido o calendário eleitoral, seja no caso de afastamento do Bolsonaro (por golpe, saúde, renúncia ou impeachment), seja no caso de um governo Mourão, seja no caso de convocação de eleições antecipadas.

Tudo isto significa, como é óbvio, que o “roteiro para análise de conjuntura” depende do quem faz e de para qual objetivo faz.

Um último comentário, antes de entrar no roteiro propriamente dito: a conjuntura é um fotograma de um filme. A maioria dos filmes não são plano contínuo, nem são filmados em um dia só. Portanto, o trabalho é interrompido e retomado. E quando se começa um novo dia de filmagens, é comum que alguma coisa tenha saído do lugar, o que gera situações cômicas para quem assiste um filme com atenção, por exemplo um artista usando duas camisas diferentes numa mesma cena, sem que ele tenha trocado de camisa. Para tentar evitar essas situações, existe o famoso contra-regra.

Pois bem: uma organização precisa de contra-regra, para não perder a memória do que foi dito na análise de ontem. Seja para percebermos os erros que cometemos, seja para não termos que repetir todos os elementos cada vez que fazemos uma análise. 

Claro que se a análise for enviesada, estiver baseada em um equívoco, isto vai produzir desdobramentos equivocados. 

Por exemplo: existe um certo personagem que certa vez vi bater na mesa e dizer que “de uma coisa tenho certeza, Bolsonaro nunca será eleito presidente”. 

O mesmo personagem disse anos antes que estava convencido de que não haveria golpe, porque as elites tinham feito as pazes com as urnas. 

E mais recentemente foi um dos que defendeu que o centro da tática era "a defesa da vida" e não o Fora Bolsonaro, como se fosse possível separar os temas.

Este personagem, que segue muito influente,  precisaria de um contra-regra, parece um serial killer analítico: comete erros em série. 

Mas por qual motivo ele comete erros em série? Penso que é porque ele tem uma interpretação errada do conjunto da obra, da história recente do Brasil e principalmente das perspectivas da luta de classes. 

Como ele não considera possível – por definição – uma mudança revolucionária, todas as análises que ele faz minimizam tudo que conduz a situações extremas, a rupturas, inclusive as que vem do lado de lá.

Alguém pode se perguntar por qual motivo uma pessoa capaz de cometer tantos erros, continua sendo tão influente. A resposta óbvia é: ele não está sozinho. A esquerda brasileira conseguiu vencer 4 eleições presidenciais, mas não conseguiu evitar um golpe. E não conseguimos evitar o golpe entre 2016 e 2018 em parte porque a maioria de nós 1/achava que golpes eram coisas do passado 2/achava que os EUA não iriam permitir 3/confiava nas instituições 4/não apostava o quanto se devia apostar na conscientização, mobilização e organização de massas. 

Pois bem: cá estamos nós em 2021 e entre nós segue existindo um bom número de pessoas que acha que 1/golpes são coisa do passado e em 2022 tudo se resolverá eleitoralmente 2/o governo Biden está noutra "vibe", isto apesar do Biden ter sido vice de Obama quando o golpe de 2016 aconteceu 3/as instituições são confiáveis: os militares, o judiciário, o parlamento, a direita gourmet 4/é mais importante acertar os detalhes da eleição do parlamentar XYZ do que trabalhar para recuperar a capacidade de mobilização e organização de massas.

Um exemplo desta reincidência no erro: no debate feito no PT sobre o programa de reconstrução e transformação, não apenas se deu um tratamento light do agronegócio e do capital financeiro, como não se incluiu NADA, insisto, NADA, sobre o tema forças armadas. Se remeteu o assunto para uma comissão, que até hoje não se reuniu. 

Enfim, alguns de nós têm um problema teórico e estratégico a resolver, sem o qual não haverá boa análise de conjuntura e boa tática.

Isto posto e para encerrar, um roteiro que acho adequado é o seguinte:

1/determinar em qual período estamos, o que implica em compreender o sentido geral da história (mundial, regional, nacional), ou seja, compreender o curso geral da luta entre os Estados e da luta entre as classes;

2/determinar em que momento estamos desta história (ascenso, descenso, equilíbrio), ou seja, determinar quais são as grandes questões que estão em jogo neste momento;

3/determinar, com base nisso, o programa estratégico (o que queremos fazer) e o mapa do caminho (como alcançar o poder necessário para implementar o programa) de cada uma das forças em pugna (Estados em âmbito mundial e classes em âmbito nacional);

4/noutros termos, tudo que foi dito antes visa definir qual a guerra que está sendo travada (Socialismo contra capitalismo? Capitalismo democrático contra neoliberalismo? Democracia contra autoritarismo? Nação contra imperialismo? Democracia contra fascismo? etc.);

5/toda guerra é feita de múltiplas batalhas, que são simultâneas. Mas há algumas batalhas que são mais importantes que outras, devido a seus efeitos militares (destruição de forças inimigas), econômicos (captura de fontes de energia, suprimentos), sociais (causam problemas no funcionamento cotidiano da retaguarda do inimigo), políticos (desorganizam a capacidade do inimigo comandar) e ideológicos (quebram a vontade do inimigo). Por exemplo: se o governo cubano caísse, isso não teria efeitos militares, econômicos, sociais e políticos sobre nós. Mas teria efeitos ideológicos imensos.

6/cada batalha exige uma tática. Ou seja: para cada batalha é necessário fazer um exame do que está em jogo, de quais são as forças envolvidas, quais são as táticas adotadas por cada um delas. E, a partir daí, determinar qual é o centro da tática. Novamente usando a metáfora da guerra: é preciso definir qual rua, qual prédio, qual choque específico vai definir o rumo da batalha. 

7/do mesmo jeito que há batalhas mais importantes do que outras, dentro de uma batalha há conflitos mais importantes que outros. Quando a agenda do Lula decidiu que ele faria X atividades antes de ir para o último debate com o Collor no segundo turno, a agenda não percebeu que aquele debate era (ou poderia ser) central na definição do rumo da batalha. 

O que chamamos de análise de conjuntura é, portanto, a definição dos elementos que compõem uma determinada batalha. 

É muito comum que, ao fazer a análise, muitas pessoas se dediquem a “contar histórias”, ou seja, fazem uma análise descritiva. Falam de tudo e... nada, pois uma descrição é uma descrição. E a análise de conjuntura não é uma descrição, a análise de conjuntura tem como objetivo orientar a ação. Portanto, tem que definir onde concentrar esforços.

Por exemplo: em nossa guerra contra o capitalismo brasileiro, há  uma batalha importante contra o governo Bolsonaro. Ou, se quiserem de outro jeito, em nossa guerra contra o governo Bolsonaro, há várias batalhas ocorrendo. Qual destas batalhas (no STF, na CPI da Covid, na luta contra as contrarreformas no parlamento, nas ruas, nas pesquisas eleitorais, na luta contra  etc.) é NESTE MOMENTO o centro da tática?

Aqui eu quero chamar a atenção para três coisas: 

*primeiro, o acaso (ou seja, aquilo que nos surpreende não porque fosse imprevisível, mas porque nossa capacidade de análise não nos permitiu ver); 

*segundo, a dúvida (nem sempre é possível definir onde a represa vai romper primeiro, até porque ela pode romper em vários lugares ao mesmo tempo e eventualmente pressão em dois pontos pode ser melhor, desde que articuladas entre si); 

*terceiro, a continuidade: a vitória em uma batalha decisiva não significa que a guerra acabou, portanto o planejamento estratégico e tático é permanente e deve sempre buscar antecipar o passo seguinte.

No concreto: a facada. A facada não aconteceu por acaso. Mas para nós pareceu obra do acaso, no sentido de que não estava na nossa previsão (o que revela uma falha grave na nossa capacidade analítica). Seja como for, o acaso pode provocar reviravoltas. Os golpistas de 1954 não contavam com o suicídio de Vargas. Neste sentido, a política em geral e a análise de conjuntura em particular são algo muito complexo, no sentido de que são “síntese de múltiplas determinações”.

No concreto: CPI da Covid ou mobilização de ruas? Ou ambas? Detalhe: quem fala que é a CPI é o centro da tática precisa lembrar que na CPI a esquerda é minoritária, fazemos parte de uma frente hegemonizada por parte da direita gourmet. 

No concreto: o que virá pela frente? 15 meses de desgaste, eleições livres e Lula presidente? Ou Bolsonaro seguirá o caminho de Tancredo, ou de Jânio, ou de Collor? Ou a situação pode melhorar e Bolsonaro pode ganhar a eleição? Ou pode perder e dará um golpe? A discussão sobre cenários – que sempre é arriscada, pois o mundo das hipóteses parece um sumidouro – é no fundo uma discussão sobre as tendências possíveis, os desdobramentos possíveis.

Voltando ao ponto, é preciso considerar: qual a guerra, quais as batalhas que compõem esta guerra, qual a tática em cada uma destas batalhas, qual a batalha central neste momento, qual a tática nesta batalha central (ou seja, qual o centro da tática).

As questões relativas a "guerra" (período, momento, programa, poder) dependem de uma análise dos conflitos estruturais, fundamentais, entre os Estados no plano mundial e entre as classes no plano nacional.

Já as questões relativas as "batalhas" remetem para a análise dos conflitos conjunturais, do momento, entre os Estados e as classes. Portanto, a “escolha” do que precisa ser acompanhado não é fixa, não é imutável. Semana passada Cuba não estava na nossa lista, agora está. Mas é óbvio que Cuba estava na lista do Biden. Conclusão: o ideal para uma organização permanente é ter um grupo de análise de conjuntura que acumule informação e análise sobre tudo de relevante o tempo todo. Ou que pelo menos saiba onde conseguir esta informação.

Se eu dispusesse dos meios para fazer isso, eu repassaria todo o dia os seguintes temas:

I-o conflito Estados Unidos x China

II-as ações dos EUA na América Latina

III-as relações EUA x Brasil

IV-a situação do grande capital (destaque para financeiro e primário-exportador)

V-a situação da classe trabalhadora (estado de animo, consciência, mobilização e organização dos diferentes segmentos: pequenos proprietários, assalariados, desempregados, subocupados, diferentes setores, homens e mulheres, juventude, moradores de periferia, negros e negras);

VI-aparatos de poder da classe dominante (forças armadas/policias/milicias, judiciário, congresso, meios de comunicação, igrejas conservadoras);

VII-Bolsonaro, seu governo, suas políticas, seus movimentos, a extrema direita;

VIII-Lula, o PT, as esquerdas;

IX-a direita gourmet; 

X-o centrão;

XI-fatos e processos impactantes (pandemia, crise energética etc.).

Quando falo repassar, eu sempre lembro: não se trata de contar uma história, descrever os fatos, se trata isto sim de verificar quais as movimentações em curso numa determinada batalha, no conjunto de batalhas, na guerra como um todo. Sempre definindo o centro da tática (onde concentrar esforços). Sabendo que o centro da tática pode mudar. Hoje é trabalhar pela derrubada imediata de Bolsonaro e por antecipação das eleições. Amanhã pode ser derrubar Mourão. Depois de amanhã pode ser a campanha Lula presidente. E depois de depois de amanhã pode ser a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

(sem revisão)

De Roberto Regalado, sobre Cuba

Reproduzo abaixo texto que acabo de receber (14h48 de quinta-feira 15 de julho), enviado por nosso camarada Roberto Regalado. 

A la Revolución Cubana hay que defenderla
sin condicionamiento ni vacilación alguna

Roberto Regalado

A la Revolución cubana hay que defenderla sin vacilación o condicionamiento alguno. Nadie dude, ni un solo instante, en apoyarla con toda energía y sin el más mínimo reparo. Esto es válido, tanto para las amigas y los amigos de otros países que siempre han sido solidarios con ella a sabiendas de que las condiciones y las características de sus propias luchas, correlaciones de fuerzas y/o concepciones programáticas son diferentes a las de Cuba, como para las cubanas y los cubanos que desean espacios de diálogo, debate, concertación y construcción de consensos sobre de dónde viene, dónde está y hacia dónde va nuestro socialismo.

Amplia repercusión tienen y seguirán teniendo las denuncias del macro ataque cibernético contra Cuba, realizado desde los Estados Unidos y con fondos de los contribuyentes de esa nación, a partir del 15 de junio de 2021, catalizador de los inusuales brotes de protestas violentas en diversas partes del territorio nacional, ocurridos el domingo 11 de julio y los días subsiguientes. Este es un «granito de arena» que la administración de Joe Biden «le pone» o «le deja poner» al endurecimiento sin precedentes de las agresiones contra todo el pueblo cubano que heredó del gobierno de Donald Trump.

Como tantas veces lo ha hecho a lo largo de más de 61 años, en las últimas semanas el imperialismo norteamericano hizo «una punción» en la sociedad cubana, para medir si su genocida política de agresión, amenaza, aislamiento político y bloqueo económico y comercial, había producido el «descontento suficiente» para asestarle un golpe de muerte a su sistema socialista, al estilo de las llamadas revoluciones de colores que hace más de tres décadas y media estallaron en Europa oriental. Esta vez la «punción» encontró más «descontento utilizable» del que yo calculaba, pero la correlación social y política de fuerzas sigue siendo mayoritaria y decisivamente favorable a la Revolución.

No hay espacio ni lugar para duda o confusión alguna. A la Revolución cubana hay que apoyarla con toda firmeza. Lo digo en forma explícita: ni las corrientes con remotos orígenes populares convertidas en funcionales a la democracia burguesa, como la socialdemocracia, escapan hoy del largo brazo de la concentración extrema de la propiedad, la producción y el poder político. Ninguna escapa de ser parte orgánica de la democracia neoliberal del capitalismo real, mucho menos en aquellas naciones donde se produjo el «efecto de rebote» de la restauración capitalista derivada del derrumbe del bloque euroasiático de la segunda posguerra mundial.

Aunque no hay relación ni comparación posible entre las «revoluciones de colores» y la historia pasada y presente de la Revolución Cubana, cabe recordar que, según el célebre historiador Eric Hobsbawm, cuando los gobernantes europeos orientales dejaron sus cargos:

Fueron reemplazados [...] por los hombres y ([...] muy pocas) mujeres que antes habían representado la disidencia o la oposición y que habían organizado (o, tal vez mejor, que habían logrado convocar) las manifestaciones de masas que dieron la señal para la pacífica abdicación de los antiguos regímenes. [...] Se habló mucho de «sociedad civil», es decir, del conjunto de organizaciones voluntarias de los ciudadanos o de las actividades privadas que tomaban el lugar de los estados autoritarios, así como del retorno a los principios revolucionarios antes de que los distorsionara el bolchevismo. Por desgracia, como en 1848, el momento de la libertad y la verdad duró poco. La política y los puestos desde los que se dirigían las cuestiones de estado volvieron a manos de quienes normalmente desempeñan esas funciones. Los «frentes» o «movimientos cívicos» se desmoronaron tan rápidamente como habían surgido.[1]

Y a ese párrafo, Hobsbawm le insertó una nota a pie de página que añadía:

El autor recuerda una de esas discusiones en una conferencia en Washington durante 1991, en que el embajador español hizo bajar de las nubes al recordar a los jóvenes (en aquel tiempo casi todos comunistas liberales) estudiantes y ex estudiantes que sentían poco más o menos lo mismo tras la muerte del general Franco en 1975. En su opinión, la «sociedad civil» solo significaba que los jóvenes ideólogos que por un momento se encontraban hablando en nombre de todo el pueblo se sentían tentados a considerar aquello como una situación permanente.[2]

Refundar el socialismo cubano es el único medio de preservar la soberanía nacional y crear condiciones para la emancipación plena y el desarrollo económico y social del país. Esta refundación tiene que basarse en el pensamiento antiimperialista, latinoamericanista, ético e incluyente de José Martí, y en la concepción de teoría de la revolución social de fundamento marxista y leninista, que no solo se nutre de los aportes fundacionales de los clásicos, sino de toda la amplitud, diversidad, complejidad, riqueza y debate acumulados en la interminable marcha del viejo topo de la historia, con sus experiencias positivas y negativas pasadas y presentes. Eso presupone acabar de practicarle el exorcismo al marxismo‑leninismo soviético, aún resiliente en Cuba pese haber transcurrido más de tres décadas y media del estallido de la crisis terminal del socialismo real en Europa oriental, y tres décadas exactas de la disolución y desmembramiento de la propia Unión Soviética. Imprescindible es darles el lugar que les corresponde a todas las ideas emancipadoras y socialistas que labraron la historia de Cuba: a las de Julio Antonio Mella, Antonio Guiteras, José Antonio Echevarría, Raúl Roa García y muchos otros luchadores y luchadoras de extraordinarios méritos.

La situación por la que atraviesa Cuba es, ante todo, resultado de la desestabilización de espectro completo,[3] que a partir de la elección de Hugo Chávez a la presidencia de Venezuela, en diciembre de 1998, azota a todos los gobiernos y todas las fuerzas políticas de izquierda y progresistas de América Latina, sin distinción alguna entre los objetivos, programas y políticas de cada uno de ellos. Esta estrategia no está solo destinada a derrocar o derrotar a la Revolución cubana y los gobiernos latinoamericanos y caribeños que quieran transformar revolucionariamente sus respectivas sociedades, sino también a los que, en forma moderada y gradual, se proponen realizar reformas sin afectar los fundamentos capitalistas del sistema político y social. El capitalismo realmente existente de nuestros días necesita que en América Latina y el Caribe impere una «democracia» basada en lo que Zemelman llamó la «alternancia dentro del proyecto»:[4] una «alternancia» entre Bolsonaro y sus pares en Brasil, entre Macri y sus pares en Argentina, entre Uribe, Duque y sus pares en Colombia, y así sucesivamente en todos los países.

Tanto en Cuba como en el resto de la región, la efectividad de la desestabilización de espectro completo es directamente proporcional a la cantidad y la gravedad de los errores, las deficiencias y las debilidades de cada gobierno, movimiento popular y fuerza política que dicha estrategia logra detectar y utilizar en contra de ellos, y esa efectividad se multiplica mientras más proyectos y procesos transformadores o reformadores logra derrocar, derrotar o colocar en situaciones extremas. Para los gobiernos, los movimientos populares y las fuerzas políticas de izquierda y progresistas de América Latina y el Caribe, defender a Cuba es defenderse ellos mismos, mientras que para Cuba defender a esos gobiernos, movimientos y fuerzas políticas es defenderse a sí misma.

Solo así se podrá crear, defender y mantener un espacio de intercambio franco y respetuoso en el que Cuba socialice sus experiencias sobre la relación entre gobierno y poder, y sobre la necesidad de que el poder sea resistente a toda prueba, y las fuerzas populares de América Latina y el Caribe socialicen con ella las suyas sobre cómo convertir la diversidad social y política en fuerza social y política, cómo construir colectivamente nuevos conocimientos y posicionamientos políticos, y cómo conducir procesos participativos de concertación, construcción y renovación de la unidad social y nacional.

A todas las compañeras y todos los compañeros que durante más de cuatro décadas hemos luchado juntos, con posiciones unas veces concordantes y otras discrepantes, pero siempre constructivas, respetuosas y amistosas, en el Foro de Sao Paulo, en el Foro Social Mundial, en los Seminarios Internacionales «Los partidos y una nueva sociedad», en la Asamblea de los Pueblos del Caribe y en otros espacios, redes y campañas de movimientos populares y fuerzas políticas de izquierda y progresistas, les pido pleno respaldo a la Revolución Cubana en este momento definitorio.

Por su historia, por su obra nacional y por su labor internacionalista, Cuba merece ser apoyada y defendida. A ese mérito y ese derecho bien ganados, se le añade la realidad contundente e incontrovertible que apoyar y defender al socialismo cubano es la premisa esencial para poder refundarlo. ¿Cómo refundar un proyecto emancipador al que se dejó morir cuando se le podía salvar? ¿Cómo refundar al proyecto histórico de la Revolución de Octubre de 1917, después que la marchitaron y la dejaron morir?

Estoy consciente de que, además de invocar el mérito y el derecho bien ganados por la Revolución cubana, que la hacen merecedora de apoyo, respaldo y solidaridad, también invoco que la defensa del socialismo cubano es condición esencial hoy para su refundación mañana, un proceso de diálogo, debate, concertación y construcción de consensos que aún no se ha abierto, que no se sabe si se abrirá, ni cómo, cuándo y sobre qué base será, si es que algún día se produce, pero lo que sí se sabe es que, si no defendemos al socialismo cubano hoy, nunca se despejarán esas incógnitas.

Los que, quizás sí o quizás no, podrían ser los primeros pasos muy preliminares de ese proceso se estaban dando cuando los hechos del domingo 11 de julio y días subsiguientes nos obligaron a priorizar lo fundamental: la defensa de la Revolución. En mi caso personal hacía semanas que venía escribiendo una serie titulada «El “triángulo de las Bermudas” por el que navega Cuba», cuyo artículo final «se me quedó en el tintero» y, día a día, hago el ejercicio de actualizarlo y reactualizarlo a tono con el flujo de los acontecimientos, sin saber qué dirá exactamente cuando vea la luz. En ese contexto fue positivo escuchar al presidente de la República y primer secretario del PCC, Miguel Díaz Canel Bermúdez, decir en el acto por al 60 aniversario del discurso de Fidel conocido como «Palabras a los intelectuales», efectuado el 28 de junio de 2021: «Me honra ratificarles hoy que “Dentro de la Revolución” sigue existiendo espacio para todo y para todos, excepto para quienes pretenden destruir el proyecto colectivo». Yo espero que pronto podamos transitar por esa senda.

A todas y todos los internacionalistas hermanos les pido su apoyo irrestricto a la nueva dirección del Partido Comunista de Cuba y del Gobierno Revolucionario cubano. Es una labor titánica ser continuidad de la generación fundacional que condujo la edificación socialista a través del primer gran período histórico de la Revolución Cubana. Es titánico asumir semejante responsabilidad, con avatares añadidos como haber enfrentado, de inicio, un desastre de aviación, luego un tornado en la Ciudad de La Habana, también los embates de huracanes, a todo lo cual se sumaron el recrudecimiento sin precedentes del bloqueo decretado por Donald Trump, el azote de la COVID 19 y, para colmo, la «punción» del imperialismo norteamericano a la sociedad cubana, que registra un mayor «descontento utilizable» para la desestabilización de espectro competo.

Con ese reconocimiento concluyen estas páginas, escritas con la convicción de que el futuro de la Revolución cubana depende de la emancipación de América Latina y el Caribe, tanto como la emancipación de América Latina y el Caribe depende del futuro de la Revolución cubana.

 



[1]     Erick Hobsbawm: Historia del siglo xx, Crítica, Barcelona, 2009, p. 486.

[2]     Ibíd.

[3]     El término desestabilización de espectro completo es una respetuosa paráfrasis de los conceptos guerra de espectro completo y dominación de espectro completo formulados por la luchadora social, profesora e investigadora Dr. Ana Esther Ceceña, que abarcan una multiplicidad de elementos políticos, ideológicos, económicos y sociales, incluida la amenaza y el uso de la fuerza y el uso de técnicas de guerra sicológica, cuyo efecto es similar al de un terremoto que no se detiene y al de un pulpo que golpea, a un mismo tiempo, con todas sus patas. Véase: «Los golpes de espectro completo», en (https://www.alainet.org), 25‑5‑2014 (consultado 14‑7‑2021).

[4]     Véase a Hugo Zemelman: «Enseñanzas del gobierno de la Unidad Popular en Chile», Gobiernos de izquierda en América Latina: el desafío del cambio, Beatriz Stolowicz (coordinadora), Plaza y Valdés Editores, México, 1999.