segunda-feira, 24 de maio de 2021
O exército colocou a granada no bolso da CPI
domingo, 23 de maio de 2021
Tarso Genro, o capeta e o inferno
Acabo de ler um texto de Tarso Genro, intitulado: “Lula e Fernando Henrique não vão para o inferno: combaterão o capeta por aqui”.
O texto pode
ser lido aqui:
O texto de
Tarso, tirante o sempre instrutivo nariz de cera, tem duas partes: na primeira ele analisa o
almoço entre Lula e FHC; na segunda ele faz uma digressão histórica.
Sobre o almoço,
Tarso afirma que Lula e Fernando Henrique teriam ajustado “não uma aliança
eleitoral mas uma ‘visão’ comum de resistência contra o fascismo miliciano
instalado em Brasília”.
Não sei o
que FHC e Lula pensam desta interpretação.*
Mas suspeito
que ambos a acharão “um pouco exagerada”, mais ou menos como Mark Twain reagiu às
notícias sobre sua morte.
Afinal, “visão
comum” supõe alto nível de compromisso político e programático acerca do
presente e do futuro.
Pergunto:
para além das platitudes acerca da “república” e da “democracia” – frases que
FHC certamente sabe repetir de cor, não importa quantas vezes ele tenha traído a
república e a democracia – que tipo de “visão comum” poderia existir entre o PT
e o PSDB?
Pois, vamos
combinar, o problema do Brasil não se reduz a pessoa física de Bolsonaro, nem ao fascismo miliciano. Há um
programa político, econômico e social sendo implementado no país e, quanto a este programa, o PT e o PSDB têm
adotado posições muito diferentes, quando não antagônicas. Para que houvesse uma “visão
comum”, seria necessário que um dos partidos, ou ambos, mudassem seu ponto de
vista.
A não ser, é
claro, que Tarso acredite que FHC estaria disposto a trair seu partido. O que não me parece ser o
caso.
Sendo assim,
por qual motivo Tarso “exagera”? Uma possível explicação está na digressão histórica. Em
resumo de minha responsabilidade, Tarso simplesmente parece não enxergar outro
caminho, seja para combater o neofascismo, seja para mudar o país, que não seja
o caminho da aliança entre a esquerda e o “centro” (que na verdade não é
centro, mas direita gourmet).
Para chegar aquela conclusão, Tarso começa
criticando a “a atitude dos comunistas perante a ascensão do nazifascismo”, segundo
a qual “fascismo e social-democracia eram irmãos gêmeos” e que colocava “num
mesmo plano (...) as democracias parlamentares do ocidente e o nazifascismo em
ascensão”. Esta posição, segundo Tarso, teria levado “à impotência a
resistência ao fascismo”.
Supondo que
tudo isso fosse verdade, ainda assim falta a Tarso contar outra parte e muito importante da
história: o apoio que os capitalistas e a direita gourmet da época deram ao fascismo
italiano e ao nazismo alemão, exatamente para impedir a tal “revolução” que
Tarso considerava ilusória, mas que as classes dominantes da época achavam demasiado ameaçadora.
Depois de
falar dos comunistas, Tarso passa a analisar a postura das “grandes lideranças
políticas que, em distintas épocas, assumiram governos democráticos na
Federação, desde a Revolução 30 até os dias que correm”, constatando que elas “nunca
pretenderam encaminhar os seus liderados – de dentro e de fora dos seus
Governos – para uma luta contra o sistema capitalista”.
Isto é uma óbvia verdade,
assim como também é verdade que desde a Revolução de 1930 até os dias atuais, prevaleceram em nossa história a dependência externa, a desigualdade social e imensas restrições
às liberdades democráticas. Ou seja: pagamos um alto preço por não termos
lutado contra o capitalismo.
Que Tarso
não perceba isso, vá lá. Mas ele vai muito além: mistura num mesmo saco “Getúlio,
Juscelino, Jango, Sarney, Itamar, Fernando Henrique e Lula”, como defensores de
“políticas públicas de caráter social, mais ou menos avançadas (ou
progressistas e “populares”) em distintas épocas, em maior ou menor proximidade
de um pensamento de esquerda”.**
Fernando
Henrique foi o principal operador das políticas neoliberais. O que possa ter
ocorrido de “progressista” em seu governo perde importância, frente ao conjunto
da obra. Mas o que importa para Tarso não é a realidade histórica, mas sim um
FHC imaginário, com quem se possa compartilhar uma visão comum.
Para
sustentar este ponto de vista, Tarso mistura o FHC neoliberal com outros
presidentes, inclusive desenvolvimentistas, para depois afirmar que “as
narrativas de boa parte da esquerda socialista ancorada no pensamento dominante
da III internacional, sobre estes Governos – como se eles fossem suscetíveis a
se tornarem companheiros de viagem para um projeto socialista – sempre foi uma
discussão heroica, proposta por quem não conseguiu gerar um partido
revolucionário com independência de classe e assim pensou que a carona no
reformismo progressista facilitaria o advento do socialismo”.
Acontece que a “narrativa” crítica contra o governo FHC foi feita essencialmente pelo
Partido dos Trabalhadores. Portanto, se for para levar a sério o que ele escreveu, o que Tarso está propondo
é que mudemos nosso ponto de vista não sobre Vargas ou sobre JK; o que ele está
propondo é que mudemos profundamente o nosso ponto de vista sobre FHC e sobre o
neoliberalismo.
Quem aceitar este ponto de vista, realmente pode acreditar ser possível compartilharmos uma "visão comum" com FHC. Mas neste caso estaríamos, a pretexto de combater o capeta, traindo o povo brasileiro na luta contra o inferno do neoliberalismo.
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Lula e
Fernando Henrique não vão para o inferno: combaterão o capeta por aqui
Publicado
em: maio 23, 2021
Tarso Genro
(*)
Reza a lenda
que quando Guimarães Rosa esteve como diplomata na representação do País na
Colômbia (Bogotá), na Conferência Interamericana de 1948, nossa delegação
esteve por vários dias protegida na Embaixada local, já que em toda a cidade a
insurreição campeava e ninguém tinha condições de segurança para transitar nas
ruas ou mesmo viajar para sair da capital. O assassinato de Jorge Eliécer
Gaitán, líder popular anti-imperialista, despertara a ira do povo que se
traduziu num grande movimento político insurrecional. Depois da sua volta ao
Brasil, um jornalista perguntou a Guimarães Rosa o que ele fizera naqueles dias
históricos, obtendo dele a seguinte resposta: “reli Proust”. Rosa nunca foi um
alienado político, nem um insensível perante a sorte alheia, pois como Cônsul brasileiro
em Hamburgo durante o nazismo – antes do Brasil entrar na 2ª. Guerra –
“falsificou” centenas de passaportes que liberaram famílias judias para
viajarem e assim fugirem do massacre nazista. Ao dizer que somente “relera
Proust”, o grande escritor apenas afirmava que, independentemente das suas
preferências políticas, reconhecia a situação concreta e a sua impossibilidade
real de atuar sobre ela, ao contrário do que fizera em Hamburgo. O encontro de
Lula com Fernando Henrique ajustando – não uma aliança eleitoral mas uma
“visão” comum de resistência contra o fascismo miliciano instalado em Brasília
– mostra que ambos se convenceram, ao meu ver corretamente, que não teriam
nenhuma justificativa para “reler Proust”, fugindo do impasse que nos e lhes cerca.
Neste
contexto de tragédia nacional e dor alheia, sob pena de irem para a margem da
História sem dignidade, viram que o que está em jogo não é qualquer pleito
social democrata, mas a própria existência da República e da Democracia, Quando
nos aproximamos de 500 mil mortes provocadas pelo negacionismo criminoso e pela
inépcia arrogante do Governo conversa dos dois é um jato de luz na conjuntura.
Em alguns momentos, “reler Proust” é um ato de sabedoria política omissiva,
outras vezes é de omissão que seria um crime, como seria em Hamburgo e, em
outras oportunidades, omitir-se de tomar uma decisão pode ser uma negação da
verdade e igualmente uma ação de colaboração com o desastre. Lembremos um fato
histórico significativo para o movimento comunista mundial – hoje em desuso e
em vencimento – que foi a atitude dos comunistas perante a ascensão do
nazifascismo. No Sexto Congresso da Internacional Comunista, em 1928, com a
vitória do ponto de vista de Stálin, apoiado pela verve revolucionária de
Zinoviev, foi homologada a visão de que fascismo e social-democracia eram
irmãos gêmeos. Posição que colocava num mesmo plano, portanto, as democracias
parlamentares do ocidente e o nazifascismo em ascensão. A tragédia que se
seguiu é conhecida e a revogação tardia desta simplificação supostamente
revolucionaria não conseguiu bloquear as piores faces da barbárie.
A tese
chancelada neste Congresso “patrolou” todo o movimento comunista mundial, que
esperando a revolução que estaria no horizonte, aceitava uma falsa identidade
que levou à impotência a resistência ao fascismo. O que estava em jogo era
derrotar o fascismo no horizonte e não a aposta numa revolução que sequer ainda
mostrara a suas virtudes igualitárias na terra do bolchevismo.
As grandes
lideranças políticas que, em distintas épocas, assumiram governos democráticos
na Federação, desde a Revolução 30 até os dias que correm, nunca pretenderam
encaminhar os seus liderados – de dentro e de fora dos seus Governos – para uma
luta contra o sistema capitalista. Os seus programas sempre foram
“reformistas”, ora à direita, ora à esquerda e jamais propuseram revoluções de
natureza socialista.
Todos estes
líderes conviveram com grupos socialistas, social-democratas e comunistas, e
estiveram – segundo a história pessoal de cada um – mais próximos ou mais
distantes, tanto do conservadorismo tradicional, como das ideias de igualdade e
solidariedade do iluminismo democrático, que vêm atravessando o ciclo histórico
da revolução francesa, do qual a revolução russa foi o seu exemplo mais
radicalizado. O ciclo dos últimos sessenta anos de disputas pelas reformas do
capitalismo no Brasil, todavia, tem marcos políticos importantes que devem ser
lembrados, que não podem ficar subsumidos no debate imediato da reação fascista
e dos discursos do “mito”. Vários marcos exemplares foram produzidos no campo
do que se convencionou chamar esquerda, para o desenvolvimento de um Brasil
mais justo e soberano, como a declaração de “utilidade pública” (para
desapropriações destinadas à reforma agrária) ocorrida no fim do Governo João
Goulart: ela designava 10 km ao longo das margens das rodovias federais, se
terras improdutivas, para a efetivação da reforma agrária.
Getúlio,
Juscelino, Jango, Sarney, Itamar, Fernando Henrique e Lula – nem todos apontados
ou autodesignados como “esquerda”, jamais defenderam ideias comunistas ou
socialistas em qualquer sentido, mas sim políticas públicas de caráter social,
mais ou menos avançadas (ou progressistas e “populares”) em distintas épocas,
em maior ou menor proximidade de um pensamento de esquerda.
A aparente
radicalidade dos seus Governos veio mais do desconforto das nossas classes
dominantes de extração escravista do que de qualquer sentido “expropriatório”
dos privilégios dos ricos. Penso que alguns episódios políticos avançados em
termos democráticos, deste período, devem ser considerados neste momento de
unidade necessária: a coragem de Goulart em busca da Reforma Agrária defendida
por Brizola, as ações “desenvolvimentistas” de JK, as políticas de Direito Humanos
desenvolvidas no Governo FHC por Paulo Sérgio Pinheiro, os projetos sociais
estratégicos de Lula que retiraram da miséria 40 milhões de brasileiros e
inauguram o Brasil de respeito global. As narrativas de boa parte da esquerda
socialista ancorada no pensamento dominante da III internacional, sobre estes
Governos – como se eles fossem suscetíveis a se tornarem companheiros de viagem
para um projeto socialista – sempre foi uma discussão heroica, proposta por
quem não conseguiu gerar um partido revolucionário com independência de classe
e assim pensou que a carona no reformismo progressista facilitaria o advento do
socialismo.
Hoje,
todavia, o que importa é defender o país da agressão fascista, que faz o limite
para um campo único de resistência que, se fracassar, fechará o futuro para
todos num país dominado pelo crime e pelo ódio. Ainda bem que Lula e FHC
entenderam que não era o momento moral e político legítimo de ficar “relendo
Proust” e releram — cada um deles – a sua memória política democrática. Pode
até não dar certo, mas este almoço já está na História e o seu cardápio
político pode ajudar a mudá-la para melhor.
(*) Tarso
Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre,
ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações
Institucionais do Brasil.
Bolsonaro e Mussolini
Muita gente apontou a semelhança entre as imagens de Bolsonaro numa moto, em 23 de maio de 2021, e as de Benito Mussolini no episódio descrito por La Tribuna Ilustrata de 4 de junho de 1933.
A semelhança existe.
Mas é bom lembrar que Mussolini virou primeiro-ministro em 30 de outubro de 1922.
E só foi posto fora de circulação em 28 de abril de 1945.
Para que nosso Duce não dure tanto, a esquerda precisa reocupar as ruas. Já!
FHC, a "civilidade" e a "convulsão"
"Foi um gesto de civilidade. Minha mensagem é: podemos vir a ser adversários, mas não precisamos ser inimigos nem jogar pedras um no outro".
Foi com estas e outras frases do gênero que Fernando Henrique Cardoso justificou seu encontro com Lula, conforme se pode ler aqui:
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/foi-um-gesto-de-civilidade-nunca-rompi-com-lula-diz-fhc/
Não que se deva levar muito a sério o que FHC fala ou escreve.
Vamos lembrar que é dele a famosa frase: "esqueçam o que escrevemos no passado, porque o mundo mudou e a realidade hoje é outra".
A história desta frase está aqui:
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/10/13/mais!/7.html
Em 2006 e até pouco tempo atrás, FHC era capaz de dizer coisas muito diferentes, como se pode ler abaixo:
Explica-se: "o mundo mudou e a realidade hoje é outra". Mas não esqueçamos: o que mudou uma vez, pode mudar de novo.
Sobre a tática da direita gourmet em 2021 e 2022, pode-se ler aqui:
http://valterpomar.blogspot.com/2021/05/lula-fhc-e-o-cardapio-democratico.html
Para além da conjuntura, cabe refletir acerca do significado da palavra "civilidade", não apenas para FHC, mas para a direita gourmet e seus patrões.
Para eles, vale ao pé da letra o que está no dicionário, que define "civilidade" como um "conjunto de formalidades, de palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração; boas maneiras, cortesia, polidez".
A "elite" que comanda este país é capaz de demonstrar alguma (não muita, nem sempre) "civilidade" e ao mesmo tempo é capaz de apoiar - com atos e palavras - políticas que provocam sofrimento e dor em grande parte da população brasileira.
Para quem esqueceu: muito antes de Guedes e Roberto Campos Neto, tivemos Malan e Gustavo Franco.
Sendo assim, por qual motivo as "elites" gostam tanto de palavras como "civilidade"? Seria por uma concepção de democracia que contempla apenas as formalidades? Tratar-se-ia de cinismo e hipocrisia?
Um pouco de cada. Mas há também muito de esperteza.
Pois eles volta e meia exaltarem sua (suposta) "civilidade" não altera em absolutamente nada o comportamento explorador e opressor da classe dominante brasileira.
Mas pode alterar o ânimo da esquerda, parte da qual muitas vezes se deixa seduzir pelos temporários bons modos da Casa Grande e esquece o que se passa na Senzala.
Por estes e outros motivos, não se deve dar a mínima para as juras de "civilidade" vindas de FHC.
O Brasil só vai mudar para valer quando a esquerda e a maioria do povo derem a esta gente o tratamento prescrito por Lima Barreto no artigo “Sobre o maximalismo”, de 1 de março de 1919:
“Em resumo, porém, se pode dizer que todo o mal está no capitalismo, na insensibilidade moral da burguesia, na sua ganância sem freio de espécie alguma, que só vê na vida dinheiro, morra quem morrer, sofra quem sofrer”.
Contra este mal, Lima Barreto deseja e apela por uma “convulsão violenta” contra os que “nos saqueiam, nos esfaimam, emboscados atrás das leis republicanas. É preciso, pois não há outro meio de exterminá-la. Se a convulsão não trouxer ao mundo o reino da felicidade, pelo menos substituirá a camada podre, ruim, má, exploradora, sem ideal, sem gosto, perversa, sem inteligência, inimiga do saber, desleal, vesga que nos governa, por uma outra, até agora recalcada, que virá com outras ideias, com outra visão da vida, com outros sentimentos para com os homens, expulsando esses Shylocks que estão aí, com os seus bancos, casas de penhores e umas trapalhadas financeiras, para engazopar o povo”.
Estas e outras maravilhas de Lima Barreto podem ser lidas aqui:
https://autonomialiteraria.com.br/loja/historia-nao-contadas/lima-socialista/
Sem uma “convulsão” deste tipo – que assusta tanto as elites quanto assusta certa esquerda que tem mais a perder do que seus grilhões - civilidade continuará sendo um "conjunto de formalidades" e a maioria do povo continuará sendo privada dos direitos mais básicos.
sexta-feira, 21 de maio de 2021
Lula, FHC e o "cardápio democrático"
Está publicado na conta oficial de Lula no twitter: "A convite do ex-ministro Nelson Jobim, o ex-presidente Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se reuniram para um almoço com muita democracia no cardápio. Os ex-presidentes tiveram uma longa conversa sobre o Brasil, sobre nossa democracia, e o descaso do governo Bolsonaro no enfrentamento da pandemia".
Considerando
que Lula é adulto e vacinado, com quem ele almoça e conversa deveria ser um problema (quase só) dele.
E tendo em vista a lista de personagens com que Lula se reuniu nos últimos dias, que diferença faz um a mais, um a menos?
Mas como envolve Nelson Jobim e FHC, espero que tenham posto alguém para provar o tal "cardápio democrático" antes de Lula levar algo à boca.
Lembro uma frase de FHC sobre Lula, dita em abril de 2018: "Lula não é um preso político. É um político preso". E acrescentou: "justiça se cumpriu".
Quanto a Nelson Jobim, trata-se de um "grande estadista" envolvido em muitas “operações especiais”, como se pode confirmar lendo os textos abaixo:
... sobre
uma "arrumada" no texto constitucional de 1988:
https://www.migalhas.com.br/quentes/288732/especial-30-anos--dois-artigos-da-constituicao-nao-foram-votados-pela-constituinte
... sobre
Gilmar Mendes, a Abin e PF:
https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/495597/noticia.htm?sequence=1
... sobre
os militares chantageando Lula:
Que gente nossa acredite que FHC e Jobim gostam de um "cardápio democrático", só confirma que Bolsonaro cumpre bem o papel de bode na sala.
O que preocupa a classe dominante e a maioria de seus representantes, como FHC e Jobim, não é o sofrimento do povo, nem a soberania nacional, nem as liberdades democráticas.
O que os preocupa é que as pesquisas indicam que - se a eleição presidencial fosse hoje - Lula venceria.
Claro
que as pesquisas também indicam que há uma parcela expressiva da população que gostaria
de uma “terceira via”. Mas até agora não apareceu um “ator” capaz de
desempenhar tal papel.
O que a classe dominante e seus representantes podem fazer diante deste cenário? Não sei e talvez nem eles saibam ao certo. Mas uma coisa é certa: o ambiente exige que eles façam alguma “operação especial”.
Motivo a mais para estarmos alertas para todas as possibilidades que vêm sendo consideradas e cozinhadas pelo lado de lá, na cada vez mais alta temperatura proveniente da crise sanitária, social, econômica, política, nacional e internacional.
Uma alternativa para a classe dominante seria apoiar novamente Bolsonaro, que ainda preserva uma importante base eleitoral, base que pode aumentar se a pandemia refluir e se a situação econômica melhorar um pouco. Sendo bom lembrar que importantes setores do grande empresariado estão lucrando como nunca e neste particular não têm do que reclamar do cavernícola. Mas apoiar Bolsonaro significaria mais polarização e, portanto, mais riscos, pois o risco que corre o pau corre o machado.
Neste sentido, “inventar uma terceira via” seria o melhor para “elles”, mas até o momento não conseguiram tirar da cartola um “artista” capaz de desfazer a polarização.
Entretanto, não vamos nos esquecer que em 2018 Lula também liderava as pesquisas e foi a direita gourmet (e não Bolsonaro) que viabilizou o golpe contra Dilma, assim como a condenação, prisão e interdição eleitoral de Lula.
Os que em 2018 tiraram Lula, hoje poderiam tentar “tirar Bolsonaro”, já que isso os ajudaria a abrir espaço para uma “terceira via” da direita gourmet. Foi mais ou menos isto que ocorreu quando Collor foi afastado. Mas há muitas diferenças e riscos, a começar pelo vice Mourão, pela tutela militar e pela extrema direita.
Outra alternativa para a classe dominante seria tentar “cooptar a esquerda”. A chamada Carta aos Brasileiros mostrou que este caminho é possível. Mas o mundo e o Brasil mudaram muito. Uma das diferenças é que se hoje nos comprometêssemos
a “respeitar os contratos” – ou seja, se a esquerda se comprometesse a
preservar as contrarreformas adotadas desde o golpe de 2016 – teríamos imensas
dificuldades até mesmo para repetir o que fizemos entre 2003 e 2014.
Este talvez seja o maior dos obstáculos para uma “frente ampla” da esquerda com a direita gourmet (mesmo quando esta direita se apresenta fantasiada de “centro”). Que sentido faria elegermos Lula e mudarmos muito pouco, quase nada?
Vale dizer que a rapidez com que o Congresso e
o governo estão realizando mudanças estruturais têm também o propósito de criar fatos
consumados. O que cria dificuldades tanto para os que desejam fazer
de novo o que já fizemos, quanto para os que pretendem dar um salto de
qualidade.
Para derrotar Bolsonaro e eleger Lula, não nos interessa -a preços de hoje - que a “terceira via” (ou seja, a direita gourmet, os neoliberais tradicionais) se viabilize eleitoralmente. Mas tampouco nos interessa passar o pano nesta gente, indigesta demais inclusive do ponto de vista eleitoral.
E já que estamos tratando de neoliberais, vamos lembrar que eles adoram lembrar que não existe almoço grátis. Alguém almoça, alguém é almoçado e alguém paga a conta. Que não sejamos nós.
ps. duas companheiras me enviaram a mensagem abaixo, que fala por si mesma
domingo, 16 de maio de 2021
Roteiro da exposição sobre os desafios atuais do PT
SEM REVISÃO
Roteiro da exposição sobre os desafios atuais do PT
O que segue abaixo é o roteiro da exposição sobre o tema “Desafios
atuais do PT”, feita na reunião do “orfanato”, dia 15 de maio de 2021.
1/Por qual motivo debater os desafios atuais do PT?
-PT segue sendo a maior força política da esquerda brasileira
-um dos sinais disso é a força eleitoral
-importante perceber que a desproporção entre força eleitoral,
força política organizada e influência cultural é um grande problema
-este problema pode não impedir vitórias de curto prazo,
mas tende a bloquear vitórias de médio e longo prazo
-de toda maneira, PSOL, PCdoB, setores esquerda abrigados
PDT e PSB, PCO, UP, PSTU, PCB somados não têm a força isolada do PT
-o que significa que (ao menos no curto prazo) as possibilidades
do Brasil seguir um curso favorável às classes trabalhadoras, à maioria do
povo, dependem em grande medida do PT
-isto vale para o curto prazo (2021/2022)
-e vale também para o médio prazo (entendendo por médio
prazo, por exemplo, o período em que durar o atual padrão do conflito China x
EUA)
-cabe lembrar que o comunismo surge no Brasil depois da
revolução russa de 1917, mas só se converte em força relevante depois de 1945 e
perde esta relevância depois da desaparição da URSS, ou seja, o “médio prazo”
da vida do PC foi a Guerra Fria
2/As variáveis envolvidas na análise
-evidente que materializar as possibilidades favoráveis à
classe trabalhadora não depende só do PT, assim como não depende só da esquerda,
nem mesmo da classe trabalhadora
-vejam o texto do convite desta reunião
-lá se aponta como componentes da situação do
país a pandemia, pobreza, desigualdades, desemprego, subemprego, redução de
direitos, ataques a democracia e desmonte do Estado (com repercussão nas “políticas
sociais, no investimento produtivo para gerar emprego e renda, na redução de
recursos e de apoio à pesquisa e ao ensino, do básico ao pós-graduado”)
-no texto se diz também que, apesar do desastre, as
oposições ainda não conseguiram organizar movimentos com força para mudar os
rumos do país, seja pela remoção do Bolsonaro, como para impor outras políticas
a favor do povo
-o que falta nesta descrição da situação do país? 1/
a classe dominante 2/ a relação com o mundo 3/ a análise das mudanças em curso
no capitalismo brasileiro
-alguém pode falar que estes três elementos transcendem
a conjuntura (os “desafios atuais”), e é verdade que transcendem, mas acontece
que parte das dificuldades que temos enfrentado para definir nossa política na
conjuntura estão relacionadas a isso (assim como parte das opções feitas pela
esquerda depois do golpe de 1964 tiveram relação com a análise -vinda não de
Marx, mas de Celso Furtado – sobre a “estagnação” da economia brasileira, análise
desmentida logo em seguida pelo milagre)
3/o que está acontecendo com o capitalismo
brasileiro?
-depois do ciclo de 50 anos (1930-1980) de
industrialização, estamos já há 40 anos em um ciclo de reprimarização (1981-2021)
-este ciclo, se for até o final, encaixará o Brasil
no molde que ele tinha em 1920
-dois problemas:
1/naquela época, 40 milhões, mais de 80% no campo
2/hoje, mais de 210 milhões, mais de 80% nas cidades
-é daí (e não de políticas deste ou daquele
governo) que surgem as bases estruturais da pobreza, desigualdades, desemprego,
subemprego
-é por coerência com este projeto de país que a
classe dominante não vê sentido em manter o Estado e os direitos sociais do tamanho
previsto na Constituição de 1988, não vê sentido em investimento produtivo para
gerar emprego e renda, em recursos de apoio à pesquisa e ao ensino, em SUS tal
como defendido por nós etc.
-evidente que fazer 210 milhões caberem no figurino
de 40 milhões gera conflitos e, na ausência de políticas públicas sociais e algum
desenvolvimento, o caminho é tratar a questão social como “caso de polícia” e daí
derivam as restrições crescentes à democracia
4/Nossos governos e a reprimarização
-os governos Lula e Dilma não conseguiram reverter
a reprimarização
-no fundo, prevaleceu a tentativa de usar a renda
da primarização para melhorar a vida do povo, fortalecer o Estado e financiar uma
tímida reindustrialização
-a classe dominante e os setores médios reagiram
como nós vimos
5/O contexto mundial onde se insere a reprimarização
do Brasil
-o ciclo de reprimarização no Brasil começou, não
por coincidência, quando a URSS entrou no modo crise e desaparição (1979-1991)
-e a maior parte destes 40 anos de reprimarização correspondem
ao que chamamos de neoliberalismo
-se estruturou no mundo uma ordem em que ao Brasil era
reservado um determinado lugar na divisão social do trabalho: o de fornecedor
de produtos primários, importador de industrializados e estufa especulativa
6/Estaria em gestação um novo contexto mundial, uma
nova ordem mundial?
-por óbvio, ganha interesse saber se esta ordem
mundial está mudando e, portanto, se esta mudança poderia favorecer um ciclo de
reindustrialização no Brasil
-o debate sobre esta possível nova ordem mundial é a,
digamos, “parte decente” do debate sobre Biden
7/As variáveis do atual contexto mundial
-1991
até 2008, hegemonia dos EUA e de um certo padrão de capitalismo, curiosamente
assentada numa relação especial entre EUA e China
-crise de 2008 desfez o arranjo EUAxChina, abrindo um período
de conflito de desfecho incerto
-há quatro cenários:
1/um hipotético, de conversão dos EUA em um país socialista
2/outro também hipotético, que seria o desmanche dos EUA
tal-como-o-conhecemos-hoje
3/outro possível, que seria uma derrota parcial dos EUA (sua
conversão em potência regional com influência mundial)
4/outro também possível, que seria a vitória dos EUA e o prolongamento
de sua hegemonia por mais tempo
-entre os “cenários possíveis” o melhor para nós seria a “derrota
parcial”
-sabendo que esta derrota teria um efeito problemático de médio
prazo: concentração na região de um poder hoje disperso pelo mundo
-mas a derrota dos EUA, mesmo que parcial, reduziria durante
algum tempo a pressão sobre nós e poderia abrir uma janela através da qual poderíamos
mudar nosso lugar no mundo e nosso padrão social interno
-entretanto, do ponto de vista do “cálculo político”, é melhor
que analisemos o pior cenário, o de vitória dos EUA
-os EUA se tornaram hegemônicos depois da longa crise
1914-1945
-se mantiveram hegemônicos no mundo capitalista durante a
Guerra Fria
-venceram a Guerra Fria
-o que há de comum nos casos citados antes: a hegemonia dos
EUA está relacionada a liderança econômica e a força militar, de onde resulta
também certa hegemonia cultural
-o que há de diferente na situação atual?
-EUA mantêm a força militar, mas está sendo derrotado na competição
econômica e perdendo a hegemonia cultural
-para vencer a atual disputa, os EUA vai ter que fazer recoesão
interna e vai ter que recuperar a vanguarda econômica
-vai conseguir fazer? Não sei
-vai ter efeito? Não sei
-o que sei é que mesmo que tudo dê certo lá, isso não
resolve o nosso problema aqui, muito antes pelo contrário
-isso porque o principal problema dos EUA é recuperar a
vanguarda econômica
-e para fazer isso é preciso manter a periferia como
exportadora de primários e consumidora de industrializados
-portanto significa manter a atual política dos EUA para a
AL em geral e para o Brasil em particular
-ou seja: para os EUA interessa que o Brasil e a AL continuem
sendo primário-exportadoras (e menos industrializados do que antes, devido ao excesso de capacidade produtiva no mundo e a divisão mundial do trabalho atual)
-é por isso que Biden tende a acentuar o imperialismo (vide
China, Rússia, Peru, Palestina etc.)
-imperialismo não é apenas um fenômeno político-militar, é
um fenômeno econômico social
-a natureza profundamente econômica do conflito entre EUA e
China tem outro desdobramento, que precisa ser apontado: há um “excesso de
capitais” e há um “excesso de capacidade produtiva” instalada no mundo
-um ciclo longo de crescimento (25 anos dourados) só é
possível se: 1/ou bem se tiver início algo da estatura de uma corrida ao fundo do
mar ou uma corrida espacial 2/ou bem se ocorrer uma destruição em grande medida
dos capitais acumulados
-a primeira alternativa é em parte bloqueada pelas relação
custo benefício para o capital financeiro (o “curtoprazismo”)
-a segunda alternativa exigiria “queimar” capital acumulado
numa escala que só uma guerra possibilitaria
-resumo da ópera: por onde quer que olhemos o problema, a
conclusão é a seguinte:
1/as políticas que os EUA estão adotando para tentar vencer
a China vão levar os EUA a reforçar a pressão imperialista sobre nós
2/portanto, vão levar os EUA a defender que o Brasil
continue seu processo de reprimarização
8/Os capitalistas “brasileiros” e a “reprimarização”
-a classe dominante brasileira dá todos os sinais de que vai
continuar se adaptando a isto: reprimarização & estufa financeira
-da classe dominante “brasileira” não virá nada de novo,
salvo:
1/ se houver uma interrupção tão significativa das
exportações brasileiras que faça a classe dominante ter que investir produtivamente
aqui (caso do período 1914-1945)
2/se houver um movimento vindo de fora que de alguma forma estimule
uma reindustrialização (como houve nos anos 1940 a 1970)
3/ se houver uma pressão popular que imponha uma reindustrialização
contra a classe dominante
-vale dizer que no período Vargas de certa forma houve uma combinação
entre estas três variáveis (estímulos externos, interrupção de exportações e uma
revolução dirigida por um pedaço da classe dominante e por uma parte dos setores
médios)
-hoje os estímulos externos poderiam vir da China
-a interrupção das exportações poderia ocorrer, por exemplo
em caso de guerra de grande escala
-não há nenhum setor da classe dominante disposto a apostar
num ciclo de reindustrialização para valer
-pior: dados recentes indicam que a classe dominante brasileira
está relativamente satisfeita com o posto Ipiranga
-a insatisfação da classe dominante com governo Bolsonaro é
principalmente política
-a pior insatisfação parece ser com o seguinte fato: Bolsonaro
está alavancando a volta do PT/Lula à presidência
-ironicamente, o PT e Lula são a maior chance que o Brasil
tem de se reindustrializar
9/PT, Lula e a presidência da República
-as chances de Lula vencer estão
indicadas no Data Folha
-a pesquisa diz que Lula teria
41% contra 23% de Bolsonaro no primeiro turno;
-a pesquisa diz que Lula
venceria por 55% contra 32% de Bolsonaro no segundo turno
-o que a pesquisa também diz?
-diz que no primeiro turno há
59% da população que não teria como primeira opção votar em Lula.
-hipoteticamente, estes 59% poderiam
levar ao segundo turno uma candidatura que em tese poderia derrotar Lula
-por outro lado, 54% não
votaria em Bolsonaro de jeito nenhum
-portanto, uma terceira via que
fosse ao segundo turno (contra Bolsonaro ou contra Lula) teria enorme chance
-mas é um “espaço” (um “papel”)
que está disponível, sem que exista até agora um “ator” capaz de desempenhar o
papel
-portanto, há entre muitas as
seguintes duas conclusões que se pode extrair desta pesquisa:
-primeira conclusão: este
resultado (pró Lula e anti Bolsonaro) tão distante da eleição significa
turbulência: se fosse no parlamentarismo, haveria um voto de desconfiança e o
governo cairia; mas como é presidencialismo, se não houver impeachment, teremos
um presidente acuado e minoritário e muito perigoso durante 1 ano e 7 meses. Ou
seja: crise, crise e crise
-segunda conclusão: paradoxalmente
Bolsonaro talvez seja hoje o maior obstáculo para a classe dominante derrotar
Lula
10/o que a classe dominante
pode fazer?
-ou bem “tirar Bolsonaro” (para
abrir espaço para uma candidatura da direita gourmet)
-ou bem “mudar Bolsonaro” (para
ele ter mais chances eleitorais)
-ou bem “inventar uma alternativa
de terceira via” (para quebrar a polarização)
-ou bem “tentar cooptar PT/Lula”
(para ganharmos as eleições, sem tocar na política econômica)
-“tirar Bolsonaro” é uma hipótese (solução Collor), mas tem
uma complicação imensa: Mourão e a tutela militar, além da presença organizada da
extrema direita
-“mudar Bolsonaro” é possível, porque há certa margem de
manobra para fazer mais investimentos e políticas, além disto a pandemia tende
a refluir e situação micro-econômica pode melhorar
-construir uma terceira via (hipoteticamente falando, seria
o melhor, mas até o momento não conseguiram achar o “artista para desempenhar o
papel”, que teria como tarefa “desfazer a polarização”
-para “desfazer a polarização” seria necessário, por
exemplo:
a/tirar um coelho da cartola
b/eliminar pelo menos um dos pólos (saúde, interdição
política etc.)
c/que o desgaste mútuo abra espaço para uma terceira via
-em relação a alternativa “tentar cooptar Lula e o PT”, a
Carta aos Brasileiros mostrou que é possível tentar isto, mas há algumas
diferenças importantes (internas e externas) em relação a 2002, a principal
diferença é que a tensão em 2022 é muito maior do que foi em 2002, portanto as
chances de “êxito” de uma cooptação são muito menores
-seja como for, é importante perceber que todas estas possibilidades
estão sendo cozinhadas, estão sendo experimentadas
-daí decorre que não devemos trabalhar com a hipótese de
que temos pela frente uma campanha eleitoral
11/o que o PT está fazendo?
-infelizmente, grande parte do PT está se preparando para uma
campanha eleitoral
-e, pior, uma parte do PT está se preparando para a campanha
eleitoral de... 2002, ou seja, fazendo movimento em direção ao centro:
-seja do ponto de vista das alianças
-seja do ponto de vista programático
-a “babação” de alguns por Biden corresponde no fundo a esta
lógica
-sendo que há um aspecto a mais envolvido na “babação”: endividamento
público como solução mágica, que nos pouparia das dificuldades envolvidas na reforma
tributária, no uso das reservas, no enfrentamento da dívida pública e do
capital financeiro
-pode dar certo?
-eleitoralmente pode
-no governo não
-estrategicamente também não
12/o que o PT deveria fazer?
a/em primeiro lugar, enfrentar a batalha de 2021
-defender a pauta do povo
-enfatizar o fora Bolsonaro
-apostar na mobilização de rua (força própria)
(casos do Chile, Paraguai, Colombia, EUA)
b/preparar para a batalha de 2022
-em nenhum cenário vai ser uma eleição normal, uma “campanha
eleitoral”
(chacina de Jacarezinho, ataques em Roraima, performance em
Maceió, ameaças contra vereadores, agressão contra deputadas, mudança do regimento
da câmara etc.)
-tem que ter polarização ideológica e programática
-tem que ter polarização social, tem que ter mobilização
social (não apenas polarização eleitoral)
-principalmente tem que recuperar base organizada na classe
trabalhadora
13/destaques finais
-o papel da personalidade na história: em 2018 também
liderávamos as pesquisas, portanto guarda alta
-ou o PT muda radicalmente (linha, funcionalmente) ou esta
história não vai terminar bem
-época histórica de grandes transformações e conflitos
-é necessário ter a disposição de oferecer uma alternativa revolucionária,
anticapitalista, socialista, até porque se não fizermos isso nesses momentos de
crise, quando mesmo faremos?
-tem que ter luta, tem que ter mobilização de rua, temos
que insistir no impeachment
PONTOS ENFATIZADOS NO DEBATE
1/para vencer a batalha cultural, entre outras coisas, é preciso
superar o economicismo e entender que o objetivo socialista é o eixo organizador
de nossa intervenção na batalha cultural
2/o que significa colocar o socialismo em termos de
programa: orientação geral, controlar o capital financeiro, desenvolvimento com
ampliação da igualdade
3/riscos do impeachment abrir espaço para a direita
gourmet: o outro risco é maior, leniência com criminoso, riscos do inimigo
principal se fortalecer, necessidade de polarizar
4/recuperar presença organizada nos locais de trabalho,
moradia, estudo, cultura/lazer, formar militantes para intervir de forma
organizada, superar dinâmica eleitoral, superar esta ideia de que “se milita no
Partido”, o Partido é uma organização para militar na sociedade; para ter organização
pela base, direções têm que estimular e funcionar de outra forma
5/não tratar o governo Bolsonaro de forma caricatural, do
ponto de vista dos interesses das elites é um governo que “está dando certo”, a
pandemia os ajudou a passar a boiada
6/levar em conta mudança “sociológica” na classe trabalhadora,
redução do peso relativo proletariado industrial/ampliação do “pobretariado”,
isso cria dificuldades, mas cria dificuldades especialmente para estratégias de
tipo socialdemocrata reformista;
7/no movimento sindical, mas também em outros movimentos, acentuamos
a dependência em relação ao Estado, reduzimos a organização de base, adotamos
um discurso que não contribuiu para nosso lado polarizar (a tese do “país de
classe média”)
8/no movimento sindical, perdemos base na indústria e
aumentou nossa base no funcionalismo
9/dificuldade de mobilização contra o golpe
10/preocupação central de parte da direção sindical é com o
financiamento, via lobby no parlamento
11/o debate no PT sobre o movimento sindical é muito
escasso
12/parte do movimento sindical não valoriza adequadamente a
relação orgânica entre movimento sindical e outros movimentos
13/trabalhar pela unificação da Frente Brasil Popular e da Frente
Povo sem Medo
14/sem debate ideológico e sem estratégia, nossa “governabilidade”
num futuro governo será mais frágil e mais problemática do que tivemos nos
governos Lula e Dilma
15/no Brasil a questão racial é também em grande medida a questão
proletária (ver opiniões de Mariátegui sobre relação entre “questão camponesa”
e “questão indígena” no Peru)
16/fatos recentes confirmam que o PSOL tem os defeitos do
PT, sem necessariamente ter as qualidades
17/”pejotização” de parte da classe trabalhadora dificulta
mas também reforça a necessidade de saídas políticas, via por exemplo políticas
públicas
18/maior parte da classe trabalhadora é composta por jovens/mulheres/negros,
devemos estimular estes setores da classe trabalhadora a se organizar e imporem
sua “pauta”
19/o poder do individualismo burguês (contra a visão feudal,
contra os limites das guildas artesanais, contra os interesses coletivos da classe),
o socialismo marxista defende a propriedade coletiva como uma possibilidade de ampliar
as chances do indivíduo ser mais livre
20/Biden enfrenta diferentes tipos de oposição (trumpismo,
esquerda, no congresso etc.), o mais provável é que a resultante seja menos do que
ele pretende e muito menos do que acreditam algumas pessoas de esquerda no
Brasil
21/para vencer guerra contra China, Biden precisa de mais coesão
interna (como em 1964-68) e de relançamento industrial-tecnológico. Para isto eles
vão lutar para garantir mercados para os produtos industriais dos EUA, garantir
acesso a matérias primas, ter mercados para especulação e impedir surgimento de
novos concorrentes. Não interessa aos EUA estimular a reindustrialização do
Brasil.
22/o quadro internacional pode resultar em guerra propriamente
dito? Pode e estamos chegando cada vez chegar mais perto. Lembramos que New
Deal não foi suficiente para superar a crise, foi necessário uma guerra
23/se formos levar a sério o que dizem alguns, é como se no
conflito com a China devêssemos ficar do lado dos EUA
24/do ponto de vista programático, enfatizar que precisamos
de sistema financeiro sob controle público & reindustrializar tendo como carro
chefe de ampliação da infraestrutura social (SUS, habitação, saneamento)
SEM REVISÃO
terça-feira, 11 de maio de 2021
Artur Araújo, Biden e o vira-lata de Adam Smith
Acho que a frase é do Tolstói, no Anna Kariênina: “todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.
Mas no debate sobre o plano Biden, passa um pouco diferente: cada um é “feliz” também à sua maneira.
Há os que acham que o plano estaria “revolucionando o capitalismo”, há os que acham que se trataria de um “reformismo radical”, há os que falam de um “reformismo” que estaria enterrando o neoliberalismo, há quem apresente Biden como o "Lula estadounidense" e há – of course my horse - quem diga que Lula deveria ser o "Biden brasileiro".
Talvez por perceber que que a babação está meio over, Artur Araújo resolveu aplicar a técnica super eficiente e sempre divertida do Homer Simpson, a saber: “se a culpa é minha, eu ponho em quem eu quiser”. Em decorrência, vira-lata no fundo seria quem não defende “aplicarmos no Brasil os novos protocolos terapêuticos adotados pela maioria das nações, em particular Itália, Austrália, França, Coréia do Sul, Alemanha, Japão, Reino Unido, EUA. É bom para eles, para seus trabalhadores, e será bom para nós brasileiros”.
Vamos ao grão, tal como está exposto no texto “Viralatismo reverso, um vírus tabajara” (in: COMCIENCIA de 10 de maio de 2021, ao final coloco o endereço de acesso).
Segundo Artur, “foi necessária uma pandemia altamente contaminante e letal para provocar alterações qualitativas de orientações macroeconômicas e políticas que nem a Grande Recessão de 2009 tivera poder de provocar. Refiro-me não apenas ao Plano Biden – ou Planos, porque são várias iniciativas em distintos estados de formulação e implantação – mas também a mudanças, de ideias e de práticas, como as em curso na Itália, no Reino Unido, na União Europeia e em organismos internacionais como FMI e Banco Mundial. Se o colapso mundial iniciado em 2008 gerou uma forte intervenção estatal para suprimento de liquidez, socorro a instituições financeiras e, até, de suporte direto a grandes conglomerados privados, seguidos por um rápido retorno ao cânone liberal, o coronavírus traz em sua esteira a revisão de grande parte do conjunto dos princípios e normas que são fundamentos do neoliberalismo e que, ao que tudo indica, são revisões a vigorar por longo tempo”.
Confesso que não esperava ler, depois de dois parágrafos tão seguros, um cuidadoso “ao que tudo indica”. Talvez no fundo d’alma Artur lembre que: 1/as medidas adotadas, mesmo tomadas por seu valor de face, visam ativar a economia tal-como-ela-é, ou seja, controlada pelo capital monopolista financeiro et caterva; 2/portanto, mesmo que fosse verdade que estaria em curso uma revisão de “grande parte do conjunto de princípios e normas”, isto não significaria que os “fundamentos do neoliberalismo” serão tocados, se entendermos por “fundamentos”, entre outros, o controle da economia pelos oligopólios financeiros; 3/e mesmo que tudo corresse conforme desejado, ainda assim restariam duas questões: como se resolverá o conflito com a China e como ficará a relação com a periferia capitalista.
Este último detalhe me remete a algo que me intriga: até agora não vi um defensor do plano Biden negar que a política externa dos EUA segue/seguirá tão imperialista quanto sempre. Acontece que o imperialismo não é somente um fato militar, nem um fato político apenas. É também uma relação de subordinação da periferia ao centro. Relação que teve uma importância essencial em toda a história do capitalismo, inclusive em sua fase atual, neoliberal. Pergunto: estaria ocorrendo alguma “revisão” dos “princípios e normas” que regem a relação entre o centro e a periferia?
Ou isto é um detalhe, que não interessa a nós?
Voltando ao grão.
Artur afirma que “o primeiro elemento a ser destacado é a nítida percepção de que o Estado é elemento decisivo”; “em segundo lugar, cai por terra uma elaborada mitologia sobre finanças estatais”; em terceiro lugar, “paradas súbitas de demanda e produção, políticas estatais de socorro e suporte são a única possibilidade de evitar-se o caos e são os serviços públicos – quanto mais universais e gratuitos, melhor – a coluna vertebral de atendimento das populações de todas as faixas de renda e riqueza”; em quarto lugar, “afirma-se também a percepção de que tal alteração de normas e princípios é essencial para as tarefas do pós-pandemia”. E, finalmente - tremo de entusiasmo ao ler - “generaliza-se, adicionalmente, a convicção de que as mudanças são vitais para deter a tempo processos deletérios como os da hiperdualização disruptiva das sociedades; da acelerada crise ambiental e climática; e da hiperfinanceirização, que leva à redução acelerada do intervalo entre uma crise de reprodução ampliada e de realização dos capitais e a crise seguinte, que sempre está no horizonte imediato”.
Tenho a impressão de que a síntese de Artur está alguns graus de entusiasmo acima da vida real. Por sinal, ele mesmo tem suas dúvidas, como se pode ver no trecho que reproduzo a seguir: “abundam demonstrações de que vários pilares do liberalismo, da reaganomics, da TINA e do Consenso de Washington foram brutalmente abalados e tendem a ser substituídos por algo que se assemelha a um novo regime de acumulação no capitalismo global, ainda que preservadas a livre circulação de capitais, a dominância relativa e em queda do dólar dos EUA e o primado das finanças como fração hegemônica”.
Em resumo: acho que Artur exagera na
mão. Mas é compreensível, afinal seu objetivo ao exagerar na mão é polemizar com
as “elites”. Diz ele: “nossa convivência de décadas com o Complexo de Vira-Lata
que marca as 'elites' brasileiras diria que essa virada teórica e empírica nos
países centrais levaria a uma acelerada revisão do ultraliberalismo que domina
o país. Só que não. As fórmulas empregadas pelo liberalismo tabajara, para tentar impedir que
as novas ondas cheguem a nossas paradisíacas praias, vão do patético à mentira
aberta. Subitamente, o Postulado de Juracy – o que é bom para os EUA é bom para
o Brasil – é revogado e pululam “explicações” de por que, assim de repente, 'Brasil não é Estados Unidos.”
Talvez Artur fale em “travas” porque
ele parece inconformado com o fato das elites não perceberem que no fundo, no
fundo, poderiam sair ganhando mais ainda se mudassem um pouco de atitude. Vejam
o trecho: “Apesar da reiterada profissão de fé vira-lata, da admiração basbaque
pelo american way of life e pelas quinquilharias da
Flórida, nunca foram capazes de perceber uma das principais razões para os EUA
serem o que são: a mais aberta massificação do consumo interno e do acesso à
propriedade imobiliária, a potencialidade da acumulação de capital e de obtenção
de alta renda para os estratos superiores dos assalariados pela via dos gastos
da multidão.”
Artur, pelo visto, aderiu a mania de contar
a história de Chapeuzinho Vermelho, pulando a parte do lobo mau. Uma das “principais
razões” para os EUA serem o que são é o saque da riqueza alheia, seja sob a
forma colonialista do passado, seja sob a forma imperialista do presente. Disso
deriva a indústria da guerra, outra das “razões”. Uma terceira é a brutal
exploração, por séculos, da mão de obra escrava. E a não menos brutal
exploração da classe trabalhadora, que apesar de suavizada depois que os EUA
ascenderam à posição de hegemon, voltou a crescer muito no período neoliberal.
Pesando tudo isto, concluo que o "problema" das elites brasileiras vai muito além “da recusa reiterada e daninha a examinar o que se passa no mundo e a
propor uma versão brasileira da reorientação macroeconômica, política e social
em curso”.
Nem acho que o problema delas seja o “isolamento
paroquial, aldeão, causada pelo vírus do viralatismo reverso, que provoca
negação teimosa das mudanças corretas, necessárias e aceleradas por que passa o
mundo em pandemia e pós-pandêmico”.
O “problema” entre aspas das elites é que para sermos “um dos líderes do novo arranjo do capitalismo que se esboça”, seria necessário fazer pelo menos dois movimentos.
Um, de enfrentamento com os demais integrantes do “novo” arranjo, pois não há espaços vazios.
Outro, de coesão social interna, sem o que não será possível enfrentar os concorrentes/adversários/inimigos externos.
O primeiro movimento é de alto risco e os levaria a perder as posições atualmente ocupadas (primário-exportadoras), que como Artur mesmo reconhece, lhes garantem lucros maravilhosos.
O segundo movimento é ir contra a natureza mesma das elites. E como
eles suspeitam que não há lugar para dois Estados Unidos no mundo, e como não
têm vocação para sermos uma China, as elites preferem ficar onde estão.
Devemos odiar as elites brasileiras. Mas
não devemos subestimá-las. Elas são o que são, não principalmente por ignorância, mas
principalmente por interesse. E simplesmente não é de interesse delas mudar o
lugar do Brasil no mundo, pois os riscos são infinitamente maiores do que os possíveis ganhos.
Só para quem "não tem nada a perder" vale a pena correr estes riscos.
Aí vem a pergunta: será hora de “aplicarmos
no Brasil os novos protocolos terapêuticos adotados pela maioria das nações, em
particular Itália, Austrália, França, Coréia do Sul, Alemanha, Japão, Reino
Unido, EUA”? Será mesmo “bom para eles, para seus trabalhadores, e será bom para
nós brasileiros”?
Minha resposta é: o Brasil precisa de
protocolos terapêuticos diferentes. Pois nosso problema não é o de “liderar de
novo” o mundo. Nem é o de salvar o capitalismo de suas doenças crônicas.
E não vamos nos iludir: se a terapia salvar o monstro, o monstro vai continuar monstro. Estados Unidos mais forte não é “bom para nós brasileiros”. Afinal, nem o vira-lata de Adam Smith acreditava que a busca da felicidade individual das nações imperialistas seria capaz de produzir a felicidade geral de todas as nações e povos do mundo.
SEGUE O TEXTO CRITICADO.
https://www.comciencia.br/viralatismo-reverso-um-virus-tabajara/
Artur Araújo é especialista em gestão
pública e privada e consultor da Fundação Perseu Abramo e da Federação Nacional
dos Engenheiros.
VIRALATISMO
REVERSO, UM VÍRUS TABAJARA
Por Artur Araújo
Um país como o Brasil, com moeda
soberana bastante estável há décadas, com mercado interno de grandes
proporções, com razoável diversificação de parque produtivo, com abundância de
insumos básicos, com fortes vantagens demográficas, territoriais e climáticas –
e que só não transforma esses vetores em desenvolvimento com acelerada redução
de desigualdades e clara orientação de sustentabilidade por força de travas
ideológicas austericidas autoimpostas – é um país que tem que ser um dos
líderes do novo arranjo do capitalismo que se esboça. Porque pode ser e porque
precisa ser.
Foi
necessária uma pandemia altamente contaminante e letal para provocar alterações
qualitativas de orientações macroeconômicas e políticas que nem a Grande
Recessão de 2009 tivera poder de provocar. Refiro-me não apenas ao Plano Biden
– ou Planos, porque são várias iniciativas em distintos estados de formulação e
implantação – mas também a mudanças, de ideias e de práticas, como as em curso
na Itália, no Reino Unido, na União Europeia e em organismos internacionais
como FMI e Banco Mundial.
Se o colapso mundial iniciado em 2008
gerou uma forte intervenção estatal para suprimento de liquidez, socorro a
instituições financeiras e, até, de suporte direto a grandes conglomerados
privados, seguidos por um rápido retorno ao cânone liberal, o coronavírus traz
em sua esteira a revisão de grande parte do conjunto dos princípios e normas
que são fundamentos do neoliberalismo e que, ao que tudo indica, são revisões a
vigorar por longo tempo.
O primeiro elemento a ser destacado é
a nítida percepção de que o Estado é elemento decisivo, para intervenção direta
em todas as esferas da vida social e para coordenação de ações em quadros
complexos como o de uma pandemia. Não há mercado que dê conta dos desafios
colocados por fenômenos de forte alcance coletivo, porque a anarquia
característica da competição entre infinitos pequenos interesses privados
impede qualquer resultante convergente e acelerada, que enfrente eficazmente os
múltiplos problemas que afloram simultaneamente.
O “Estado mínimo”, se tivesse
continuado a operar, teria levado a mortandade em escala muito superior à dos
já horrendos mais de 3 milhões de humanos. O Estado revelou-se imprescindível
e, ainda mais importante, revelou-se que tem que ter porte e instrumental que
lhe permitam agir decisivamente.
Em segundo
lugar, cai por terra uma elaborada mitologia sobre finanças estatais.
Subitamente, bobagens interesseiras como a da equiparação de governos emissores
de moeda soberana a famílias e empresas usuárias dessa moeda revelam-se a
falácia que sempre foram e os trilhões de dólares corretamente emitidos, mundo
afora, para deter um colapso generalizado não provocam nenhum dos efeitos
apocalípticos com que a ortodoxia liberal nos ameaçava.
Uma terceira revelação é também
impactante: em paradas súbitas de demanda e produção, políticas estatais de
socorro e suporte são a única possibilidade de evitar-se o caos e são os
serviços públicos – quanto mais universais e gratuitos, melhor – a coluna
vertebral de atendimento das populações de todas as faixas de renda e riqueza.
A partir dessas constatações, que se
generalizam e ganham status de “nova verdade revelada” (ainda que fossem
conhecidas e propagadas há décadas por todos os críticos do liberalismo), afirma-se
também a percepção de que tal alteração de normas e princípios é essencial para
as tarefas do pós-pandemia.
Generaliza-se, adicionalmente, a
convicção de que as mudanças são vitais para deter a tempo processos deletérios
como os da hiperdualização disruptiva das sociedades; da acelerada crise
ambiental e climática; e da hiperfinanceirização, que leva à redução acelerada
do intervalo entre uma crise de reprodução ampliada e de realização dos
capitais e a crise seguinte, que sempre está no horizonte imediato.
A política econômica de endividamento
em “moeda estrangeira” (euros que a Itália não emite) do ex-falcão austericida
Mario Draghi para recolocar o país nos trilhos; os planos de reindustrialização
franco-alemã; as loas ao NHS e a criação de instrumentos de intervenção
econômica estatal em P&D e de planejamento da produção no Reino Unido; o
Plano Biden e sua versão Bruxelas: abundam demonstrações de que vários pilares
do liberalismo, da reaganomics, da TINA
e do Consenso de Washington foram brutalmente abalados e tendem a ser
substituídos por algo que se assemelha a um novo regime de acumulação no
capitalismo global, ainda que preservadas a livre circulação de capitais, a
dominância relativa e em queda do dólar dos EUA e o primado das finanças como fração
hegemônica.
Emissão
monetária; endividamento em moeda própria, tributação progressiva; forte
taxação de grandes rendas, patrimônios e heranças; investimentos estatais;
recuperação dos serviços públicos universais; programas de renda; políticas
industriais; Estado planejador e interventor. É longa e positiva a lista dos
assuntos que foram retirados do index prohibitorum vigente
desde a década de 1980. Valores de gastos estatais expressos em bilhões de
dólares passam a ser normalidades no noticiário.
Nossa convivência de décadas com o
Complexo de Vira-Lata que marca as “elites” brasileiras diria que essa virada
teórica e empírica nos países centrais levaria a uma acelerada revisão do
ultraliberalismo que domina o país.
Só que não.
As fórmulas
empregadas pelo liberalismo tabajara, para tentar impedir que as novas ondas
cheguem a nossas paradisíacas praias, vão do patético à mentira aberta.
Subitamente, o Postulado de Juracy – o que é bom para os EUA é bom para o
Brasil – é revogado e pululam “explicações” de por que, assim de repente,
“Brasil não é Estados Unidos”.
É evidente que a dimensão da economia
estadunidense, seu poderio militar e geopolítico, seu grau de interação nas
cadeias produtivas e nos circuitos financeiros globais são muito distintos
daqueles que nos caracterizam. Mas, no que importa para o aqui e agora e mesmo
a médio prazo, são muito mais distinções de escala do que de conteúdo.
Um país com moeda soberana bastante
estável há décadas, com mercado interno de grandes proporções, com razoável diversificação
de parque produtivo, com abundância de insumos básicos, com fortes vantagens
demográficas, territoriais e climáticas – e que só não transforma esses vetores
em desenvolvimento com acelerada redução de desigualdades e clara orientação de
sustentabilidade por força de travas ideológicas austericidas autoimpostas – é
um país que tem que ser um dos líderes do novo arranjo do capitalismo que se
esboça. Porque pode ser e porque precisa ser.
Há uma
dupla carapaça que envolve os farialimers em
suas diversas versões – a da rapaziada dos bancos, fintechs e corretoras; a do “jornalismo” econômico
dos veículos de comunicação grandes; a dos industriais embaladores; a dos
varejistas do contrabando e da sonegação; a dos burocratas de porta-giratória;
a dos acadêmicos a soldo – bloqueando até mesmo o debate inteligente sobre
alternativas ao que eles têm imposto ao país, com resultados de pífios a
desastrosos.
A primeira casca, evidentemente, é a
da obscena taxa de retorno que vêm obtendo desde o golpe parlamentar de 2016,
principalmente graças à celerada e acelerada desregulamentação, desproteção,
perda de direitos, perda de poder reivindicatório e queda estrutural do preço
da força de trabalho que atingem os trabalhadores. Lucram com a miséria de
multidões e preferem acumular capital via exacerbação de sua fatia na
repartição do excedente a buscar ganhos de escala em um mercado de massas que
viesse a ter forte demanda efetiva. O curtoprazismo e uma postura predatória
são marcantes. Se tudo capotar, se o país for se tornando uma entidade
incoerente, disfuncional e sujeita a coerção crescente, Miami aí vamos nós.
Há, no entanto, uma casca subjacente
que beira a patologia social. É a notória demofobia, que marca desde os
representantes diretos do grande capital até parcelas significativas das
camadas médias tradicionais (e mesmo boa parte da pretensa “nova classe média”
cantada em prosa e verso até 2015), passando pelos aparatos de Estado via as
“elites do funcionalismo”, com ênfase no Judiciário, no Ministério Público e em
determinadas carreiras do executivo, no topo da escala de remuneração e poder
fático.
Esse combo de frações de classes e
corporações tem um horror atávico à presença do povo em “seus” espaços, das
boas escolas aos bons hotéis e aos bons empregos. Para eles , a “distinção” tem
valor de uso, a posição relativa importa tanto quanto – por vezes, mais do que
– o ganho material absoluto que auferem. Apesar da reiterada profissão de fé
vira-lata, da admiração basbaque pelo american way of life e
pelas quinquilharias da Flórida, nunca foram capazes de perceber uma das
principais razões para os EUA serem o que são: a mais aberta massificação do
consumo interno e do acesso à propriedade imobiliária, a potencialidade da
acumulação de capital e de obtenção de alta renda para os estratos superiores
dos assalariados pela via dos gastos da multidão.
São essas
duas carapaças que abrigam e propagam a segunda epidemia que assola o Brasil, a
da recusa reiterada e daninha a examinar o que se passa no mundo e a propor uma
versão brasileira da reorientação macroeconômica, política e social em curso.
É a epidemia do isolamento paroquial,
aldeão, causada pelo vírus do viralatismo reverso, que provoca negação teimosa
das mudanças corretas, necessárias e aceleradas por que passa o mundo em
pandemia e pós-pandêmico.
O Brasil, como muito já se disse, não
é um país para principiantes ou amadores: temos muita capacidade de criar
inusitados, até um certo orgulho de nossas jabuticabas. No entanto, a súbita
reversão do viralatismo, o rompimento do alinhamento automático à matriz – que
eram demandas vitais e progressistas no passado até recentíssimo – agora é má
novidade.
Ironia das ironias: fecho o texto
afirmando que é hora de combatermos sem tréguas o vírus tabajara do viralatismo
reverso e de aplicarmos no Brasil os novos protocolos terapêuticos adotados
pela maioria das nações, em particular Itália, Austrália, França, Coréia do
Sul, Alemanha, Japão, Reino Unido, EUA.
É bom para eles, para seus
trabalhadores, e será bom para nós brasileiros.
Artur Araújo é especialista em gestão
pública e privada e consultor da Fundação Perseu Abramo e da Federação Nacional
dos Engenheiros.


