segunda-feira, 24 de maio de 2021

O exército colocou a granada no bolso da CPI

Pensamento positivo é apresentar como meio cheio o copo meio vazio.

Lembro, por exemplo, de algumas reuniões onde quem perdia a votação apresentava a notícia assim: X membros votaram pela linha justa.

Ontem tivemos uma dessas: segundo uma otimista fonte, "quatro generais defenderam a prisão de Pazuello em reunião do Alto Comando neste domingo".

Como é óbvio, o fato é: o Alto Comando não prendeu Pazuello, mas sim o passou (retroativamente) para a reserva. Algo parecido fizeram com o cavernícola, quando este resolveu agir como bombista.

Apenas parecido, pois neste caso o principal objetivo do Alto Comando é apagar suas digitais nos crimes cometidos por Pazuello. Como o próprio disse ele estava na Saúde cumprindo uma missão. Qual missão, basta ver o número de óbitos.

Ao passar Pazuello para a reserva, a cúpula do exército também colocou uma "granada" de efeito moral no bolso da CPI.

Ao tirar de cena um dos pretextos adotados por quem resistia a mandar para o "xilindró" um depoente mentiroso, a cúpula das forças armadas deixa o ônus todo nas costas dos ilustres parlamentares.

Vamos ver se a CPI faz a coisa certa. Ou se prevalece a posição de que, mentiroso ou não, criminoso ou não, na reserva  ou não, os generais merecem tratamento VIP.

E quem não mexe com Pazuello, como vai mexer com quem respaldou seus crimes enquanto general da ativa??





domingo, 23 de maio de 2021

Tarso Genro, o capeta e o inferno

Acabo de ler um texto de Tarso Genro, intitulado: “Lula e Fernando Henrique não vão para o inferno: combaterão o capeta por aqui”.

O texto pode ser lido aqui:

https://www.sul21.com.br/colunas/tarso-genro/2021/05/lula-e-fernando-henrique-nao-vao-para-o-inferno-combaterao-o-capeta-por-aqui/

O texto de Tarso, tirante o sempre instrutivo nariz de cera, tem duas partes: na primeira ele analisa o almoço entre Lula e FHC; na segunda ele faz uma digressão histórica.

Sobre o almoço, Tarso afirma que Lula e Fernando Henrique teriam ajustado “não uma aliança eleitoral mas uma ‘visão’ comum de resistência contra o fascismo miliciano instalado em Brasília”.

Não sei o que FHC e Lula pensam desta interpretação.*

Mas suspeito que ambos a acharão “um pouco exagerada”, mais ou menos como Mark Twain reagiu às notícias sobre sua morte.

Afinal, “visão comum” supõe alto nível de compromisso político e programático acerca do presente e do futuro.

Pergunto: para além das platitudes acerca da “república” e da “democracia” – frases que FHC certamente sabe repetir de cor, não importa quantas vezes ele tenha traído a república e a democracia – que tipo de “visão comum” poderia existir entre o PT e o PSDB?

Pois, vamos combinar, o problema do Brasil não se reduz a pessoa física de Bolsonaro, nem ao fascismo miliciano. Há um programa político, econômico e social sendo implementado no país e, quanto a este programa, o PT e o PSDB têm adotado posições muito diferentes, quando não antagônicas. Para que houvesse uma “visão comum”, seria necessário que um dos partidos, ou ambos, mudassem seu ponto de vista.  

A não ser, é claro, que Tarso acredite que FHC estaria disposto a trair seu partido. O que não me parece ser o caso.

Sendo assim, por qual motivo Tarso “exagera”? Uma possível explicação está na digressão histórica. Em resumo de minha responsabilidade, Tarso simplesmente parece não enxergar outro caminho, seja para combater o neofascismo, seja para mudar o país, que não seja o caminho da aliança entre a esquerda e o “centro” (que na verdade não é centro, mas direita gourmet).

Para chegar aquela conclusão, Tarso começa criticando a “a atitude dos comunistas perante a ascensão do nazifascismo”, segundo a qual “fascismo e social-democracia eram irmãos gêmeos” e que colocava “num mesmo plano (...) as democracias parlamentares do ocidente e o nazifascismo em ascensão”. Esta posição, segundo Tarso, teria levado “à impotência a resistência ao fascismo”.

Supondo que tudo isso fosse verdade, ainda assim falta a Tarso contar outra parte e muito importante da história: o apoio que os capitalistas e a direita gourmet da época deram ao fascismo italiano e ao nazismo alemão, exatamente para impedir a tal “revolução” que Tarso considerava ilusória, mas que as classes dominantes da época achavam demasiado ameaçadora.

Depois de falar dos comunistas, Tarso passa a analisar a postura das “grandes lideranças políticas que, em distintas épocas, assumiram governos democráticos na Federação, desde a Revolução 30 até os dias que correm”, constatando que elas “nunca pretenderam encaminhar os seus liderados – de dentro e de fora dos seus Governos – para uma luta contra o sistema capitalista”.

Isto é uma óbvia verdade, assim como também é verdade que desde a Revolução de 1930 até os dias atuais, prevaleceram em nossa história a dependência externa, a desigualdade social e imensas restrições às liberdades democráticas. Ou seja: pagamos um alto preço por não termos lutado contra o capitalismo.

Que Tarso não perceba isso, vá lá. Mas ele vai muito além: mistura num mesmo saco “Getúlio, Juscelino, Jango, Sarney, Itamar, Fernando Henrique e Lula”, como defensores de “políticas públicas de caráter social, mais ou menos avançadas (ou progressistas e “populares”) em distintas épocas, em maior ou menor proximidade de um pensamento de esquerda”.**

Fernando Henrique foi o principal operador das políticas neoliberais. O que possa ter ocorrido de “progressista” em seu governo perde importância, frente ao conjunto da obra. Mas o que importa para Tarso não é a realidade histórica, mas sim um FHC imaginário, com quem se possa compartilhar uma visão comum.

Para sustentar este ponto de vista, Tarso mistura o FHC neoliberal com outros presidentes, inclusive desenvolvimentistas, para depois afirmar que “as narrativas de boa parte da esquerda socialista ancorada no pensamento dominante da III internacional, sobre estes Governos – como se eles fossem suscetíveis a se tornarem companheiros de viagem para um projeto socialista – sempre foi uma discussão heroica, proposta por quem não conseguiu gerar um partido revolucionário com independência de classe e assim pensou que a carona no reformismo progressista facilitaria o advento do socialismo”.

Acontece que a “narrativa” crítica contra o governo FHC foi feita essencialmente pelo Partido dos Trabalhadores. Portanto, se for para levar a sério o que ele escreveu, o que Tarso está propondo é que mudemos nosso ponto de vista não sobre Vargas ou sobre JK; o que ele está propondo é que mudemos profundamente o nosso ponto de vista sobre FHC e sobre o neoliberalismo.

Quem aceitar este ponto de vista, realmente pode acreditar ser possível compartilharmos uma "visão comum" com FHC. Mas neste caso estaríamos, a pretexto de combater o capeta, traindo o povo brasileiro na luta contra o inferno do neoliberalismo. 


*ps. se Tarso tivesse se limitado a defender a conveniência de manter pontes com a direita gourmet, ou se tivesse sustentado a necessidade de uma aliança eleitoral com esta gente, vá lá. Mas Tarso mantém algumas características de seus tempos de esquerdista, entre as quais a de não saber diferenciar adequadamente tática de estratégia, programa de princípios e assim por diante. Por isso, as vezes ele não sabe a hora de parar...

** detalhe curioso, que me foi apontado por uma companheira: por qual motivo Tarso não cita Dilma??


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Lula e Fernando Henrique não vão para o inferno: combaterão o capeta por aqui

Publicado em: maio 23, 2021

Tarso Genro (*)

Reza a lenda que quando Guimarães Rosa esteve como diplomata na representação do País na Colômbia (Bogotá), na Conferência Interamericana de 1948, nossa delegação esteve por vários dias protegida na Embaixada local, já que em toda a cidade a insurreição campeava e ninguém tinha condições de segurança para transitar nas ruas ou mesmo viajar para sair da capital. O assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, líder popular anti-imperialista, despertara a ira do povo que se traduziu num grande movimento político insurrecional. Depois da sua volta ao Brasil, um jornalista perguntou a Guimarães Rosa o que ele fizera naqueles dias históricos, obtendo dele a seguinte resposta: “reli Proust”. Rosa nunca foi um alienado político, nem um insensível perante a sorte alheia, pois como Cônsul brasileiro em Hamburgo durante o nazismo – antes do Brasil entrar na 2ª. Guerra – “falsificou” centenas de passaportes que liberaram famílias judias para viajarem e assim fugirem do massacre nazista. Ao dizer que somente “relera Proust”, o grande escritor apenas afirmava que, independentemente das suas preferências políticas, reconhecia a situação concreta e a sua impossibilidade real de atuar sobre ela, ao contrário do que fizera em Hamburgo. O encontro de Lula com Fernando Henrique ajustando – não uma aliança eleitoral mas uma “visão” comum de resistência contra o fascismo miliciano instalado em Brasília – mostra que ambos se convenceram, ao meu ver corretamente, que não teriam nenhuma justificativa para “reler Proust”, fugindo do impasse que nos e lhes cerca.

Neste contexto de tragédia nacional e dor alheia, sob pena de irem para a margem da História sem dignidade, viram que o que está em jogo não é qualquer pleito social democrata, mas a própria existência da República e da Democracia, Quando nos aproximamos de 500 mil mortes provocadas pelo negacionismo criminoso e pela inépcia arrogante do Governo conversa dos dois é um jato de luz na conjuntura. Em alguns momentos, “reler Proust” é um ato de sabedoria política omissiva, outras vezes é de omissão que seria um crime, como seria em Hamburgo e, em outras oportunidades, omitir-se de tomar uma decisão pode ser uma negação da verdade e igualmente uma ação de colaboração com o desastre. Lembremos um fato histórico significativo para o movimento comunista mundial – hoje em desuso e em vencimento – que foi a atitude dos comunistas perante a ascensão do nazifascismo. No Sexto Congresso da Internacional Comunista, em 1928, com a vitória do ponto de vista de Stálin, apoiado pela verve revolucionária de Zinoviev, foi homologada a visão de que fascismo e social-democracia eram irmãos gêmeos. Posição que colocava num mesmo plano, portanto, as democracias parlamentares do ocidente e o nazifascismo em ascensão. A tragédia que se seguiu é conhecida e a revogação tardia desta simplificação supostamente revolucionaria não conseguiu bloquear as piores faces da barbárie.

A tese chancelada neste Congresso “patrolou” todo o movimento comunista mundial, que esperando a revolução que estaria no horizonte, aceitava uma falsa identidade que levou à impotência a resistência ao fascismo. O que estava em jogo era derrotar o fascismo no horizonte e não a aposta numa revolução que sequer ainda mostrara a suas virtudes igualitárias na terra do bolchevismo.

As grandes lideranças políticas que, em distintas épocas, assumiram governos democráticos na Federação, desde a Revolução 30 até os dias que correm, nunca pretenderam encaminhar os seus liderados – de dentro e de fora dos seus Governos – para uma luta contra o sistema capitalista. Os seus programas sempre foram “reformistas”, ora à direita, ora à esquerda e jamais propuseram revoluções de natureza socialista.

Todos estes líderes conviveram com grupos socialistas, social-democratas e comunistas, e estiveram – segundo a história pessoal de cada um – mais próximos ou mais distantes, tanto do conservadorismo tradicional, como das ideias de igualdade e solidariedade do iluminismo democrático, que vêm atravessando o ciclo histórico da revolução francesa, do qual a revolução russa foi o seu exemplo mais radicalizado. O ciclo dos últimos sessenta anos de disputas pelas reformas do capitalismo no Brasil, todavia, tem marcos políticos importantes que devem ser lembrados, que não podem ficar subsumidos no debate imediato da reação fascista e dos discursos do “mito”. Vários marcos exemplares foram produzidos no campo do que se convencionou chamar esquerda, para o desenvolvimento de um Brasil mais justo e soberano, como a declaração de “utilidade pública” (para desapropriações destinadas à reforma agrária) ocorrida no fim do Governo João Goulart: ela designava 10 km ao longo das margens das rodovias federais, se terras improdutivas, para a efetivação da reforma agrária.

Getúlio, Juscelino, Jango, Sarney, Itamar, Fernando Henrique e Lula – nem todos apontados ou autodesignados como “esquerda”, jamais defenderam ideias comunistas ou socialistas em qualquer sentido, mas sim políticas públicas de caráter social, mais ou menos avançadas (ou progressistas e “populares”) em distintas épocas, em maior ou menor proximidade de um pensamento de esquerda.

A aparente radicalidade dos seus Governos veio mais do desconforto das nossas classes dominantes de extração escravista do que de qualquer sentido “expropriatório” dos privilégios dos ricos. Penso que alguns episódios políticos avançados em termos democráticos, deste período, devem ser considerados neste momento de unidade necessária: a coragem de Goulart em busca da Reforma Agrária defendida por Brizola, as ações “desenvolvimentistas” de JK, as políticas de Direito Humanos desenvolvidas no Governo FHC por Paulo Sérgio Pinheiro, os projetos sociais estratégicos de Lula que retiraram da miséria 40 milhões de brasileiros e inauguram o Brasil de respeito global. As narrativas de boa parte da esquerda socialista ancorada no pensamento dominante da III internacional, sobre estes Governos – como se eles fossem suscetíveis a se tornarem companheiros de viagem para um projeto socialista – sempre foi uma discussão heroica, proposta por quem não conseguiu gerar um partido revolucionário com independência de classe e assim pensou que a carona no reformismo progressista facilitaria o advento do socialismo.

Hoje, todavia, o que importa é defender o país da agressão fascista, que faz o limite para um campo único de resistência que, se fracassar, fechará o futuro para todos num país dominado pelo crime e pelo ódio. Ainda bem que Lula e FHC entenderam que não era o momento moral e político legítimo de ficar “relendo Proust” e releram — cada um deles – a sua memória política democrática. Pode até não dar certo, mas este almoço já está na História e o seu cardápio político pode ajudar a mudá-la para melhor.

(*) Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.

Bolsonaro e Mussolini

Muita gente apontou a semelhança entre as imagens de Bolsonaro numa moto, em 23 de maio de 2021, e as de Benito Mussolini no episódio descrito por La Tribuna Ilustrata de 4 de junho de 1933.


A semelhança existe.

Mas é bom lembrar que Mussolini virou primeiro-ministro em 30 de outubro de 1922.

E só foi posto fora de circulação em 28 de abril de 1945.

Para que nosso Duce não dure tanto, a esquerda precisa reocupar as ruas. Já!

FHC, a "civilidade" e a "convulsão"

"Foi um gesto de civilidade. Minha mensagem é: podemos vir a ser adversários, mas não precisamos ser inimigos nem jogar pedras um no outro".

Foi com estas e outras frases do gênero que Fernando Henrique Cardoso justificou seu encontro com Lula, conforme se pode ler aqui: 

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/foi-um-gesto-de-civilidade-nunca-rompi-com-lula-diz-fhc/

Não que se deva levar muito a sério o que FHC fala ou escreve. 

Vamos lembrar que é dele a famosa frase: "esqueçam o que escrevemos no passado, porque o mundo mudou e a realidade hoje é outra".

A história desta frase está aqui: 

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/10/13/mais!/7.html

Em 2006 e até pouco tempo atrás, FHC era capaz de dizer coisas muito diferentes, como se pode ler abaixo:  

Explica-se: "o mundo mudou e a realidade hoje é outra". Mas não esqueçamos: o que mudou uma vez, pode mudar de novo. 

Sobre a tática da direita gourmet em 2021 e 2022, pode-se ler aqui: 

http://valterpomar.blogspot.com/2021/05/lula-fhc-e-o-cardapio-democratico.html

Para além da conjuntura, cabe refletir acerca do significado da palavra "civilidade", não apenas para FHC, mas para a direita gourmet e seus patrões.

Para eles, vale ao pé da letra o que está no dicionário, que define "civilidade" como um "conjunto de formalidades, de palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração; boas maneiras, cortesia, polidez".

A "elite" que comanda este país é capaz de demonstrar alguma (não muita, nem sempre) "civilidade" e ao mesmo tempo é capaz de apoiar - com atos e palavras - políticas que provocam sofrimento e dor em grande parte da população brasileira.

Para quem esqueceu: muito antes de Guedes e Roberto Campos Neto, tivemos Malan e Gustavo Franco.

Sendo assim, por qual motivo as "elites" gostam tanto de palavras como "civilidade"? Seria por uma concepção de democracia que contempla apenas as formalidades? Tratar-se-ia de cinismo e hipocrisia? 

Um pouco de cada. Mas há também muito de esperteza.

Pois eles volta e meia exaltarem sua (suposta) "civilidade" não altera em absolutamente nada o comportamento explorador e opressor da classe dominante brasileira.

Mas pode alterar o ânimo da esquerda, parte da qual muitas vezes se deixa seduzir pelos temporários bons modos da Casa Grande e esquece o que se passa na Senzala.

Por estes e outros motivos, não se deve dar a mínima para as juras de "civilidade" vindas de FHC.  

O Brasil só vai mudar para valer quando a esquerda e a maioria do povo derem a esta gente o tratamento prescrito por Lima Barreto no artigo “Sobre o maximalismo”, de 1 de março de 1919: 

“Em resumo, porém, se pode dizer que todo o mal está no capitalismo, na insensibilidade moral da burguesia, na sua ganância sem freio de espécie alguma, que só vê na vida dinheiro, morra quem morrer, sofra quem sofrer”. 

Contra este mal, Lima Barreto deseja e apela por uma “convulsão violenta” contra os que “nos saqueiam, nos esfaimam, emboscados atrás das leis republicanas. É preciso, pois não há outro meio de exterminá-la. Se a convulsão não trouxer ao mundo o reino da felicidade, pelo menos substituirá a camada podre, ruim, má, exploradora, sem ideal, sem gosto, perversa, sem inteligência, inimiga do saber, desleal, vesga que nos governa, por uma outra, até agora recalcada, que virá com outras ideias, com outra visão da vida, com outros sentimentos para com os homens, expulsando esses Shylocks que estão aí, com os seus bancos, casas de penhores e umas trapalhadas financeiras, para engazopar o povo”. 

Estas e outras maravilhas de Lima Barreto podem ser lidas aqui: 

https://autonomialiteraria.com.br/loja/historia-nao-contadas/lima-socialista/

Sem uma “convulsão” deste tipo – que assusta tanto as elites quanto assusta certa esquerda que tem mais a perder do que seus grilhões -  civilidade continuará sendo um "conjunto de formalidades" e a maioria do povo continuará sendo privada dos direitos mais básicos.


 






 


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Lula, FHC e o "cardápio democrático"

Está publicado na conta oficial de Lula no twitter: "A convite do ex-ministro Nelson Jobim, o ex-presidente Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se reuniram para um almoço com muita democracia no cardápio. Os ex-presidentes tiveram uma longa conversa sobre o Brasil, sobre nossa democracia, e o descaso do governo Bolsonaro no enfrentamento da pandemia". 

Considerando que Lula é adulto e vacinado, com quem ele almoça e conversa deveria ser um problema (quase só) dele.

E tendo em vista a lista de personagens com que Lula se reuniu nos últimos dias, que diferença faz um a mais, um a menos?

Mas como envolve Nelson Jobim e FHC, espero que tenham posto alguém para provar o tal "cardápio democrático" antes de Lula levar algo à boca.

Lembro uma frase de FHC sobre Lula, dita em abril de 2018: "Lula não é um preso político. É um político preso". E acrescentou: "justiça se cumpriu". 

Quanto a Nelson Jobim, trata-se de um "grande estadista" envolvido em muitas “operações especiais”, como se pode confirmar lendo os textos abaixo:

... sobre uma "arrumada" no texto constitucional de 1988: 

https://www.migalhas.com.br/quentes/288732/especial-30-anos--dois-artigos-da-constituicao-nao-foram-votados-pela-constituinte

... sobre Gilmar Mendes, a Abin e PF:

https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/495597/noticia.htm?sequence=1

... sobre os militares chantageando Lula:

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Carta-aberta-de-Alipio-Freire-a-Paulo-Vannuchi/4/15256

Que gente nossa acredite que FHC e Jobim gostam de um "cardápio democrático", só confirma que Bolsonaro cumpre bem o papel de bode na sala.

O que preocupa a classe dominante e a maioria de seus representantes, como FHC e Jobim, não é o sofrimento do povo, nem a soberania nacional, nem as liberdades democráticas.

O que os preocupa é que as pesquisas indicam que - se a eleição presidencial fosse hoje - Lula venceria. 

Claro que as pesquisas também indicam que há uma parcela expressiva da população que gostaria de uma “terceira via”. Mas até agora não apareceu um “ator” capaz de desempenhar tal papel.

O que a classe dominante e seus representantes podem fazer diante deste cenário? Não sei e talvez nem eles saibam ao certo. Mas uma coisa é certa: o ambiente exige que eles façam alguma “operação especial”. 

Motivo a mais para estarmos alertas para todas as possibilidades que vêm sendo consideradas e cozinhadas pelo lado de lá, na cada vez mais alta temperatura proveniente da crise sanitária, social, econômica, política, nacional e internacional.

Uma alternativa para a classe dominante seria apoiar novamente Bolsonaro, que ainda preserva uma importante base eleitoral, base que pode aumentar se a pandemia refluir e se a situação econômica melhorar um pouco. Sendo bom lembrar que importantes setores do grande empresariado estão lucrando como nunca e neste particular não têm do que reclamar do cavernícola. Mas apoiar Bolsonaro significaria mais polarização e, portanto, mais riscos, pois o risco que corre o pau corre o machado.

Neste sentido, “inventar uma terceira via” seria o melhor para “elles”, mas até o momento não conseguiram tirar da cartola um “artista” capaz de desfazer a polarização. 

Entretanto, não vamos nos esquecer que em 2018 Lula também liderava as pesquisas e foi a direita gourmet (e não Bolsonaro) que viabilizou o golpe contra Dilma, assim como a condenação, prisão e interdição eleitoral de Lula. 

Os que em 2018 tiraram Lula, hoje poderiam tentar “tirar Bolsonaro”, já que isso os ajudaria a abrir espaço para uma “terceira via” da direita gourmet. Foi mais ou menos isto que ocorreu quando Collor foi afastado. Mas há muitas diferenças e riscos, a começar pelo vice Mourão, pela tutela militar e pela extrema direita.

Outra alternativa para a classe dominante seria tentar “cooptar a esquerda”. A chamada Carta aos Brasileiros mostrou que este caminho é possível. Mas o mundo e o Brasil mudaram muito. Uma das diferenças é que se hoje nos comprometêssemos a “respeitar os contratos” – ou seja, se a esquerda se comprometesse a preservar as contrarreformas adotadas desde o golpe de 2016 – teríamos imensas dificuldades até mesmo para repetir o que fizemos entre 2003 e 2014.

Este talvez seja o maior dos obstáculos para uma “frente ampla” da esquerda com a direita gourmet (mesmo quando esta direita se apresenta fantasiada de “centro”). Que sentido faria elegermos Lula e mudarmos muito pouco, quase nada?

Vale dizer que a rapidez com que o Congresso e o governo estão realizando mudanças estruturais têm também o propósito de criar fatos consumados. O que cria dificuldades tanto para os que desejam fazer de novo o que já fizemos, quanto para os que pretendem dar um salto de qualidade.

Para derrotar Bolsonaro e eleger Lula, não nos interessa -a preços de hoje - que a “terceira via” (ou seja, a direita gourmet, os neoliberais tradicionais) se viabilize eleitoralmente. Mas tampouco nos interessa passar o pano nesta gente, indigesta demais inclusive do ponto de vista eleitoral.

E já que estamos tratando de neoliberais, vamos lembrar que eles adoram lembrar que não existe almoço grátis. Alguém almoça, alguém é almoçado e alguém paga a conta. Que não sejamos nós.

ps. duas companheiras me enviaram a mensagem abaixo, que fala por si mesma



domingo, 16 de maio de 2021

Roteiro da exposição sobre os desafios atuais do PT

 

SEM REVISÃO

 

Roteiro da exposição sobre os desafios atuais do PT

 

O que segue abaixo é o roteiro da exposição sobre o tema “Desafios atuais do PT”, feita na reunião do “orfanato”, dia 15 de maio de 2021.

 

1/Por qual motivo debater os desafios atuais do PT?

-PT segue sendo a maior força política da esquerda brasileira

-um dos sinais disso é a força eleitoral

-importante perceber que a desproporção entre força eleitoral, força política organizada e influência cultural é um grande problema

-este problema pode não impedir vitórias de curto prazo, mas tende a bloquear vitórias de médio e longo prazo

-de toda maneira, PSOL, PCdoB, setores esquerda abrigados PDT e PSB, PCO, UP, PSTU, PCB somados não têm a força isolada do PT

-o que significa que (ao menos no curto prazo) as possibilidades do Brasil seguir um curso favorável às classes trabalhadoras, à maioria do povo, dependem em grande medida do PT

-isto vale para o curto prazo (2021/2022)

-e vale também para o médio prazo (entendendo por médio prazo, por exemplo, o período em que durar o atual padrão do conflito China x EUA)

-cabe lembrar que o comunismo surge no Brasil depois da revolução russa de 1917, mas só se converte em força relevante depois de 1945 e perde esta relevância depois da desaparição da URSS, ou seja, o “médio prazo” da vida do PC foi a Guerra Fria

 

2/As variáveis envolvidas na análise

-evidente que materializar as possibilidades favoráveis à classe trabalhadora não depende só do PT, assim como não depende só da esquerda, nem mesmo da classe trabalhadora

-vejam o texto do convite desta reunião

-lá se aponta como componentes da situação do país a pandemia, pobreza, desigualdades, desemprego, subemprego, redução de direitos, ataques a democracia e desmonte do Estado (com repercussão nas “políticas sociais, no investimento produtivo para gerar emprego e renda, na redução de recursos e de apoio à pesquisa e ao ensino, do básico ao pós-graduado”)

-no texto se diz também que, apesar do desastre, as oposições ainda não conseguiram organizar movimentos com força para mudar os rumos do país, seja pela remoção do Bolsonaro, como para impor outras políticas a favor do povo

-o que falta nesta descrição da situação do país? 1/ a classe dominante 2/ a relação com o mundo 3/ a análise das mudanças em curso no capitalismo brasileiro

-alguém pode falar que estes três elementos transcendem a conjuntura (os “desafios atuais”), e é verdade que transcendem, mas acontece que parte das dificuldades que temos enfrentado para definir nossa política na conjuntura estão relacionadas a isso (assim como parte das opções feitas pela esquerda depois do golpe de 1964 tiveram relação com a análise -vinda não de Marx, mas de Celso Furtado – sobre a “estagnação” da economia brasileira, análise desmentida logo em seguida pelo milagre)

 

3/o que está acontecendo com o capitalismo brasileiro?

-depois do ciclo de 50 anos (1930-1980) de industrialização, estamos já há 40 anos em um ciclo de reprimarização (1981-2021)

-este ciclo, se for até o final, encaixará o Brasil no molde que ele tinha em 1920

-dois problemas:

1/naquela época, 40 milhões, mais de 80% no campo

2/hoje, mais de 210 milhões, mais de 80% nas cidades

-é daí (e não de políticas deste ou daquele governo) que surgem as bases estruturais da pobreza, desigualdades, desemprego, subemprego

-é por coerência com este projeto de país que a classe dominante não vê sentido em manter o Estado e os direitos sociais do tamanho previsto na Constituição de 1988, não vê sentido em investimento produtivo para gerar emprego e renda, em recursos de apoio à pesquisa e ao ensino, em SUS tal como defendido por nós etc.

-evidente que fazer 210 milhões caberem no figurino de 40 milhões gera conflitos e, na ausência de políticas públicas sociais e algum desenvolvimento, o caminho é tratar a questão social como “caso de polícia” e daí derivam as restrições crescentes à democracia

 

4/Nossos governos e a reprimarização

-os governos Lula e Dilma não conseguiram reverter a reprimarização

-no fundo, prevaleceu a tentativa de usar a renda da primarização para melhorar a vida do povo, fortalecer o Estado e financiar uma tímida reindustrialização

-a classe dominante e os setores médios reagiram como nós vimos

 

5/O contexto mundial onde se insere a reprimarização do Brasil

-o ciclo de reprimarização no Brasil começou, não por coincidência, quando a URSS entrou no modo crise e desaparição (1979-1991)

-e a maior parte destes 40 anos de reprimarização correspondem ao que chamamos de neoliberalismo

-se estruturou no mundo uma ordem em que ao Brasil era reservado um determinado lugar na divisão social do trabalho: o de fornecedor de produtos primários, importador de industrializados e estufa especulativa

 

6/Estaria em gestação um novo contexto mundial, uma nova ordem mundial?

-por óbvio, ganha interesse saber se esta ordem mundial está mudando e, portanto, se esta mudança poderia favorecer um ciclo de reindustrialização no Brasil

-o debate sobre esta possível nova ordem mundial é a, digamos, “parte decente” do debate sobre Biden

 

7/As variáveis do atual contexto mundial

-1991 até 2008, hegemonia dos EUA e de um certo padrão de capitalismo, curiosamente assentada numa relação especial entre EUA e China

-crise de 2008 desfez o arranjo EUAxChina, abrindo um período de conflito de desfecho incerto

-há quatro cenários:

1/um hipotético, de conversão dos EUA em um país socialista

2/outro também hipotético, que seria o desmanche dos EUA tal-como-o-conhecemos-hoje

3/outro possível, que seria uma derrota parcial dos EUA (sua conversão em potência regional com influência mundial)

4/outro também possível, que seria a vitória dos EUA e o prolongamento de sua hegemonia por mais tempo

-entre os “cenários possíveis” o melhor para nós seria a “derrota parcial”

-sabendo que esta derrota teria um efeito problemático de médio prazo: concentração na região de um poder hoje disperso pelo mundo

-mas a derrota dos EUA, mesmo que parcial, reduziria durante algum tempo a pressão sobre nós e poderia abrir uma janela através da qual poderíamos mudar nosso lugar no mundo e nosso padrão social interno

-entretanto, do ponto de vista do “cálculo político”, é melhor que analisemos o pior cenário, o de vitória dos EUA

-os EUA se tornaram hegemônicos depois da longa crise 1914-1945

-se mantiveram hegemônicos no mundo capitalista durante a Guerra Fria

-venceram a Guerra Fria

-o que há de comum nos casos citados antes: a hegemonia dos EUA está relacionada a liderança econômica e a força militar, de onde resulta também certa hegemonia cultural

-o que há de diferente na situação atual?

-EUA mantêm a força militar, mas está sendo derrotado na competição econômica e perdendo a hegemonia cultural

-para vencer a atual disputa, os EUA vai ter que fazer recoesão interna e vai ter que recuperar a vanguarda econômica

-vai conseguir fazer? Não sei

-vai ter efeito? Não sei

-o que sei é que mesmo que tudo dê certo lá, isso não resolve o nosso problema aqui, muito antes pelo contrário

-isso porque o principal problema dos EUA é recuperar a vanguarda econômica

-e para fazer isso é preciso manter a periferia como exportadora de primários e consumidora de industrializados

-portanto significa manter a atual política dos EUA para a AL em geral e para o Brasil em particular

-ou seja: para os EUA interessa que o Brasil e a AL continuem sendo primário-exportadoras (e menos industrializados do que antes, devido ao excesso de capacidade produtiva no mundo e a divisão mundial do trabalho atual)

-é por isso que Biden tende a acentuar o imperialismo (vide China, Rússia, Peru, Palestina etc.)

-imperialismo não é apenas um fenômeno político-militar, é um fenômeno econômico social

-a natureza profundamente econômica do conflito entre EUA e China tem outro desdobramento, que precisa ser apontado: há um “excesso de capitais” e há um “excesso de capacidade produtiva” instalada no mundo

-um ciclo longo de crescimento (25 anos dourados) só é possível se: 1/ou bem se tiver início algo da estatura de uma corrida ao fundo do mar ou uma corrida espacial 2/ou bem se ocorrer uma destruição em grande medida dos capitais acumulados

-a primeira alternativa é em parte bloqueada pelas relação custo benefício para o capital financeiro (o “curtoprazismo”)

-a segunda alternativa exigiria “queimar” capital acumulado numa escala que só uma guerra possibilitaria

-resumo da ópera: por onde quer que olhemos o problema, a conclusão é a seguinte:

1/as políticas que os EUA estão adotando para tentar vencer a China vão levar os EUA a reforçar a pressão imperialista sobre nós

2/portanto, vão levar os EUA a defender que o Brasil continue seu processo de reprimarização

 

8/Os capitalistas “brasileiros” e a “reprimarização”

-a classe dominante brasileira dá todos os sinais de que vai continuar se adaptando a isto: reprimarização & estufa financeira

-da classe dominante “brasileira” não virá nada de novo, salvo:

1/ se houver uma interrupção tão significativa das exportações brasileiras que faça a classe dominante ter que investir produtivamente aqui (caso do período 1914-1945)

2/se houver um movimento vindo de fora que de alguma forma estimule uma reindustrialização (como houve nos anos 1940 a 1970)

3/ se houver uma pressão popular que imponha uma reindustrialização contra a classe dominante

-vale dizer que no período Vargas de certa forma houve uma combinação entre estas três variáveis (estímulos externos, interrupção de exportações e uma revolução dirigida por um pedaço da classe dominante e por uma parte dos setores médios)

-hoje os estímulos externos poderiam vir da China

-a interrupção das exportações poderia ocorrer, por exemplo em caso de guerra de grande escala

-não há nenhum setor da classe dominante disposto a apostar num ciclo de reindustrialização para valer

-pior: dados recentes indicam que a classe dominante brasileira está relativamente satisfeita com o posto Ipiranga

-a insatisfação da classe dominante com governo Bolsonaro é principalmente política

-a pior insatisfação parece ser com o seguinte fato: Bolsonaro está alavancando a volta do PT/Lula à presidência

-ironicamente, o PT e Lula são a maior chance que o Brasil tem de se reindustrializar

 

9/PT, Lula e a presidência da República

-as chances de Lula vencer estão indicadas no Data Folha

-a pesquisa diz que Lula teria 41% contra 23% de Bolsonaro no primeiro turno;

-a pesquisa diz que Lula venceria por 55% contra 32% de Bolsonaro no segundo turno

-o que a pesquisa também diz?

-diz que no primeiro turno há 59% da população que não teria como primeira opção votar em Lula.

-hipoteticamente, estes 59% poderiam levar ao segundo turno uma candidatura que em tese poderia derrotar Lula

-por outro lado, 54% não votaria em Bolsonaro de jeito nenhum

-portanto, uma terceira via que fosse ao segundo turno (contra Bolsonaro ou contra Lula) teria enorme chance

-mas é um “espaço” (um “papel”) que está disponível, sem que exista até agora um “ator” capaz de desempenhar o papel

-portanto, há entre muitas as seguintes duas conclusões que se pode extrair desta pesquisa:

-primeira conclusão: este resultado (pró Lula e anti Bolsonaro) tão distante da eleição significa turbulência: se fosse no parlamentarismo, haveria um voto de desconfiança e o governo cairia; mas como é presidencialismo, se não houver impeachment, teremos um presidente acuado e minoritário e muito perigoso durante 1 ano e 7 meses. Ou seja: crise, crise e crise

-segunda conclusão: paradoxalmente Bolsonaro talvez seja hoje o maior obstáculo para a classe dominante derrotar Lula

 

10/o que a classe dominante pode fazer?

-ou bem “tirar Bolsonaro” (para abrir espaço para uma candidatura da direita gourmet)

-ou bem “mudar Bolsonaro” (para ele ter mais chances eleitorais)

-ou bem “inventar uma alternativa de terceira via” (para quebrar a polarização)

-ou bem “tentar cooptar PT/Lula” (para ganharmos as eleições, sem tocar na política econômica)

-“tirar Bolsonaro” é uma hipótese (solução Collor), mas tem uma complicação imensa: Mourão e a tutela militar, além da presença organizada da extrema direita

-“mudar Bolsonaro” é possível, porque há certa margem de manobra para fazer mais investimentos e políticas, além disto a pandemia tende a refluir e situação micro-econômica pode melhorar

-construir uma terceira via (hipoteticamente falando, seria o melhor, mas até o momento não conseguiram achar o “artista para desempenhar o papel”, que teria como tarefa “desfazer a polarização”

-para “desfazer a polarização” seria necessário, por exemplo:

a/tirar um coelho da cartola

b/eliminar pelo menos um dos pólos (saúde, interdição política etc.)

c/que o desgaste mútuo abra espaço para uma terceira via

-em relação a alternativa “tentar cooptar Lula e o PT”, a Carta aos Brasileiros mostrou que é possível tentar isto, mas há algumas diferenças importantes (internas e externas) em relação a 2002, a principal diferença é que a tensão em 2022 é muito maior do que foi em 2002, portanto as chances de “êxito” de uma cooptação são muito menores

-seja como for, é importante perceber que todas estas possibilidades estão sendo cozinhadas, estão sendo experimentadas

-daí decorre que não devemos trabalhar com a hipótese de que temos pela frente uma campanha eleitoral

 

11/o que o PT está fazendo?

-infelizmente, grande parte do PT está se preparando para uma campanha eleitoral

-e, pior, uma parte do PT está se preparando para a campanha eleitoral de... 2002, ou seja, fazendo movimento em direção ao centro:

-seja do ponto de vista das alianças

-seja do ponto de vista programático

-a “babação” de alguns por Biden corresponde no fundo a esta lógica

-sendo que há um aspecto a mais envolvido na “babação”: endividamento público como solução mágica, que nos pouparia das dificuldades envolvidas na reforma tributária, no uso das reservas, no enfrentamento da dívida pública e do capital financeiro

-pode dar certo?

-eleitoralmente pode

-no governo não

-estrategicamente também não

 

12/o que o PT deveria fazer?

a/em primeiro lugar, enfrentar a batalha de 2021

-defender a pauta do povo

-enfatizar o fora Bolsonaro

-apostar na mobilização de rua (força própria)

(casos do Chile, Paraguai, Colombia, EUA)

b/preparar para a batalha de 2022

-em nenhum cenário vai ser uma eleição normal, uma “campanha eleitoral”

(chacina de Jacarezinho, ataques em Roraima, performance em Maceió, ameaças contra vereadores, agressão contra deputadas, mudança do regimento da câmara etc.)

-tem que ter polarização ideológica e programática

-tem que ter polarização social, tem que ter mobilização social (não apenas polarização eleitoral)

-principalmente tem que recuperar base organizada na classe trabalhadora

 

13/destaques finais

-o papel da personalidade na história: em 2018 também liderávamos as pesquisas, portanto guarda alta

-ou o PT muda radicalmente (linha, funcionalmente) ou esta história não vai terminar bem

-época histórica de grandes transformações e conflitos

-é necessário ter a disposição de oferecer uma alternativa revolucionária, anticapitalista, socialista, até porque se não fizermos isso nesses momentos de crise, quando mesmo faremos?

-tem que ter luta, tem que ter mobilização de rua, temos que insistir no impeachment

 

PONTOS ENFATIZADOS NO DEBATE

1/para vencer a batalha cultural, entre outras coisas, é preciso superar o economicismo e entender que o objetivo socialista é o eixo organizador de nossa intervenção na batalha cultural

2/o que significa colocar o socialismo em termos de programa: orientação geral, controlar o capital financeiro, desenvolvimento com ampliação da igualdade

3/riscos do impeachment abrir espaço para a direita gourmet: o outro risco é maior, leniência com criminoso, riscos do inimigo principal se fortalecer, necessidade de polarizar

4/recuperar presença organizada nos locais de trabalho, moradia, estudo, cultura/lazer, formar militantes para intervir de forma organizada, superar dinâmica eleitoral, superar esta ideia de que “se milita no Partido”, o Partido é uma organização para militar na sociedade; para ter organização pela base, direções têm que estimular e funcionar de outra forma

5/não tratar o governo Bolsonaro de forma caricatural, do ponto de vista dos interesses das elites é um governo que “está dando certo”, a pandemia os ajudou a passar a boiada

6/levar em conta mudança “sociológica” na classe trabalhadora, redução do peso relativo proletariado industrial/ampliação do “pobretariado”, isso cria dificuldades, mas cria dificuldades especialmente para estratégias de tipo socialdemocrata reformista;

7/no movimento sindical, mas também em outros movimentos, acentuamos a dependência em relação ao Estado, reduzimos a organização de base, adotamos um discurso que não contribuiu para nosso lado polarizar (a tese do “país de classe média”)

8/no movimento sindical, perdemos base na indústria e aumentou nossa base no funcionalismo

9/dificuldade de mobilização contra o golpe

10/preocupação central de parte da direção sindical é com o financiamento, via lobby no parlamento

11/o debate no PT sobre o movimento sindical é muito escasso

12/parte do movimento sindical não valoriza adequadamente a relação orgânica entre movimento sindical e outros movimentos

13/trabalhar pela unificação da Frente Brasil Popular e da Frente Povo sem Medo

14/sem debate ideológico e sem estratégia, nossa “governabilidade” num futuro governo será mais frágil e mais problemática do que tivemos nos governos Lula e Dilma

15/no Brasil a questão racial é também em grande medida a questão proletária (ver opiniões de Mariátegui sobre relação entre “questão camponesa” e “questão indígena” no Peru)

16/fatos recentes confirmam que o PSOL tem os defeitos do PT, sem necessariamente ter as qualidades

17/”pejotização” de parte da classe trabalhadora dificulta mas também reforça a necessidade de saídas políticas, via por exemplo políticas públicas

18/maior parte da classe trabalhadora é composta por jovens/mulheres/negros, devemos estimular estes setores da classe trabalhadora a se organizar e imporem sua “pauta”

19/o poder do individualismo burguês (contra a visão feudal, contra os limites das guildas artesanais, contra os interesses coletivos da classe), o socialismo marxista defende a propriedade coletiva como uma possibilidade de ampliar as chances do indivíduo ser mais livre

20/Biden enfrenta diferentes tipos de oposição (trumpismo, esquerda, no congresso etc.), o mais provável é que a resultante seja menos do que ele pretende e muito menos do que acreditam algumas pessoas de esquerda no Brasil

21/para vencer guerra contra China, Biden precisa de mais coesão interna (como em 1964-68) e de relançamento industrial-tecnológico. Para isto eles vão lutar para garantir mercados para os produtos industriais dos EUA, garantir acesso a matérias primas, ter mercados para especulação e impedir surgimento de novos concorrentes. Não interessa aos EUA estimular a reindustrialização do Brasil.

22/o quadro internacional pode resultar em guerra propriamente dito? Pode e estamos chegando cada vez chegar mais perto. Lembramos que New Deal não foi suficiente para superar a crise, foi necessário uma guerra

23/se formos levar a sério o que dizem alguns, é como se no conflito com a China devêssemos ficar do lado dos EUA

24/do ponto de vista programático, enfatizar que precisamos de sistema financeiro sob controle público & reindustrializar tendo como carro chefe de ampliação da infraestrutura social (SUS, habitação, saneamento)

 

SEM REVISÃO

 

 

 

terça-feira, 11 de maio de 2021

Artur Araújo, Biden e o vira-lata de Adam Smith

Acho que a frase é do Tolstói, no Anna Kariênina: “todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. 

Mas no debate sobre o plano Biden, passa um pouco diferente: cada um é “feliz” também à sua maneira. 

Há os que acham que o plano estaria “revolucionando o capitalismo”, há os que acham que se trataria de um “reformismo radical”, há os que falam de um “reformismo” que estaria enterrando o neoliberalismo, há quem apresente Biden como o "Lula estadounidense" e há – of course my horse - quem diga que Lula deveria ser o "Biden brasileiro".

Talvez por perceber que que a babação está meio over, Artur Araújo resolveu aplicar a técnica super eficiente e sempre divertida do Homer Simpson, a saber: “se a culpa é minha, eu ponho em quem eu quiser”. Em decorrência, vira-lata no fundo seria quem não defende “aplicarmos no Brasil os novos protocolos terapêuticos adotados pela maioria das nações, em particular Itália, Austrália, França, Coréia do Sul, Alemanha, Japão, Reino Unido, EUA. É bom para eles, para seus trabalhadores, e será bom para nós brasileiros”.

Vamos ao grão, tal como está exposto no texto “Viralatismo reverso, um vírus tabajara” (in: COMCIENCIA de 10 de maio de 2021, ao final coloco o endereço de acesso).

Segundo Artur, “foi necessária uma pandemia altamente contaminante e letal para provocar alterações qualitativas de orientações macroeconômicas e políticas que nem a Grande Recessão de 2009 tivera poder de provocar. Refiro-me não apenas ao Plano Biden – ou Planos, porque são várias iniciativas em distintos estados de formulação e implantação – mas também a mudanças, de ideias e de práticas, como as em curso na Itália, no Reino Unido, na União Europeia e em organismos internacionais como FMI e Banco Mundial. Se o colapso mundial iniciado em 2008 gerou uma forte intervenção estatal para suprimento de liquidez, socorro a instituições financeiras e, até, de suporte direto a grandes conglomerados privados, seguidos por um rápido retorno ao cânone liberal, o coronavírus traz em sua esteira a revisão de grande parte do conjunto dos princípios e normas que são fundamentos do neoliberalismo e que, ao que tudo indica, são revisões a vigorar por longo tempo”.

Confesso que não esperava ler, depois de dois parágrafos tão seguros, um cuidadoso “ao que tudo indica”. Talvez no fundo d’alma Artur lembre que: 1/as medidas adotadas, mesmo tomadas por seu valor de face, visam ativar a economia tal-como-ela-é, ou seja, controlada pelo capital monopolista financeiro et caterva; 2/portanto, mesmo que fosse verdade que estaria em curso uma revisão de “grande parte do conjunto de princípios e normas”, isto não significaria que os “fundamentos do neoliberalismo” serão tocados, se entendermos por “fundamentos”, entre outros, o controle da economia pelos oligopólios financeiros; 3/e mesmo que tudo corresse conforme desejado, ainda assim restariam duas questões: como se resolverá o conflito com a China e como ficará a relação com a periferia capitalista.

Este último detalhe me remete a algo que me intriga: até agora não vi um defensor do plano Biden negar que a política externa dos EUA segue/seguirá tão imperialista quanto sempre. Acontece que o imperialismo não é somente um fato militar, nem um fato político apenas. É também uma relação de subordinação da periferia ao centro. Relação que teve uma importância essencial em toda a história do capitalismo, inclusive em sua fase atual, neoliberal. Pergunto: estaria ocorrendo alguma “revisão” dos “princípios e normas” que regem a relação entre o centro e a periferia?

Ou isto é um detalhe, que não interessa a nós?

Voltando ao grão.

Artur afirma que “o primeiro elemento a ser destacado é a nítida percepção de que o Estado é elemento decisivo”; “em segundo lugar, cai por terra uma elaborada mitologia sobre finanças estatais”; em terceiro lugar, “paradas súbitas de demanda e produção, políticas estatais de socorro e suporte são a única possibilidade de evitar-se o caos e são os serviços públicos – quanto mais universais e gratuitos, melhor – a coluna vertebral de atendimento das populações de todas as faixas de renda e riqueza”; em quarto lugar, “afirma-se também a percepção de que tal alteração de normas e princípios é essencial para as tarefas do pós-pandemia”. E, finalmente - tremo de entusiasmo ao ler - “generaliza-se, adicionalmente, a convicção de que as mudanças são vitais para deter a tempo processos deletérios como os da hiperdualização disruptiva das sociedades; da acelerada crise ambiental e climática; e da hiperfinanceirização, que leva à redução acelerada do intervalo entre uma crise de reprodução ampliada e de realização dos capitais e a crise seguinte, que sempre está no horizonte imediato”.

Tenho a impressão de que a síntese de Artur está alguns graus de entusiasmo acima da vida real. Por sinal, ele mesmo tem suas dúvidas, como se pode ver no trecho que reproduzo a seguir: “abundam demonstrações de que vários pilares do liberalismo, da reaganomics, da TINA e do Consenso de Washington foram brutalmente abalados e tendem a ser substituídos por algo que se assemelha a um novo regime de acumulação no capitalismo global, ainda que preservadas a livre circulação de capitais, a dominância relativa e em queda do dólar dos EUA e o primado das finanças como fração hegemônica”.

 Perceberam os “vários pilares”? Quais seriam os outros, que não foram “brutalmente abalados”?

 Notaram o “tendem”? Se tendem, quais seriam as contratendências?

 Mistérios não revelados por Artur.

 Mas o maior mistério é o tal “novo regime de acumulação”, no qual seriam preservadas “a livre circulação de capitais, a dominância relativa e em queda do dólar dos EUA e o primado das finanças como fração hegemônica”.

 Espero que alguém explique como pode ser chamado de “novo” um regime de acumulação onde estaria preservado “o primado das finanças como fração hegemônica”.

 Afinal, se as palavras têm algum significado, o "regime de acumulação" atual baseia-se exatamente nisto. Se isto não muda, como falar de algo qualitativamente “novo”?

 Minha impressão é que Artur leva a sério demais as definições que os neoliberais dão acerca do neoliberalismo. Pois, desde 1980 até hoje, se há algo que este povo fez foi lançar mão do Estado, emitir moeda e endividar-se brutalmente. Não é verdade que estes e outros assuntos estivessem no index prohibitorum da vida real, embora estivessem nas fábulas que eram e seguem sendo contadas em muitas faculdades de economia. Aliás, nem o velho capitalismo liberal recuou da necessidade de cobrar mais impostos, fazer investimentos estatais, políticas industriais e serviços públicos... quando isso foi necessário para vencer guerras ou crises. 

Em resumo: acho que Artur exagera na mão. Mas é compreensível, afinal seu objetivo ao exagerar na mão é polemizar com as “elites”. Diz ele: “nossa convivência de décadas com o Complexo de Vira-Lata que marca as 'elites' brasileiras diria que essa virada teórica e empírica nos países centrais levaria a uma acelerada revisão do ultraliberalismo que domina o país. Só que não. As fórmulas empregadas pelo liberalismo tabajara, para tentar impedir que as novas ondas cheguem a nossas paradisíacas praias, vão do patético à mentira aberta. Subitamente, o Postulado de Juracy – o que é bom para os EUA é bom para o Brasil – é revogado e pululam “explicações” de por que, assim de repente, 'Brasil não é Estados Unidos.”

 Se o que Artur fala é verdade, também poderia ser dito o oposto: depois de “décadas” defendendo que o Brasil não deveria seguir os EUA, uma parte da esquerda resolveu defender o Postulado de Juracy.

 Que a elite faça cópia seletiva do que é feito nos EUA, eu entendo. Entre outros motivos, acontece que as elites defendem um capitalismo subalterno, dependente, que por definição não concorra nem ameace os Estados Unidos.

 Que nós tiremos sarro das elites por isto, eu também entendo e apoio.

 Mas devemos parar por aí. Porque de fato o Brasil não é os Estados Unidos. E confesso que estou intrigado com o fato de Artur não levar isto em conta adequadamente.

 Vejamos o que ele diz a respeito: “É evidente que a dimensão da economia estadunidense, seu poderio militar e geopolítico, seu grau de interação nas cadeias produtivas e nos circuitos financeiros globais são muito distintos daqueles que nos caracterizam. Mas, no que importa para o aqui e agora e mesmo a médio prazo, são muito mais distinções de escala do que de conteúdo”.

 Como, distinções de “escala”?

 Os EUA são uma nação imperialista, nós uma nação submetida ao imperialismo. Isto é uma distinção de “escala”??

 Acontece que Artur pensa muito longe e muito grande. O que ele defende é, pura e simplesmente, que o Brasil pode ser “um dos líderes do novo arranjo do capitalismo que se esboça”. Bingo! Como diria o poeta: “ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal”!!

 Artur acha que o Brasil “pode ser” e “precisa ser” um dos líderes deste “novo arranjo”. Não sei se ele combinou com os “russos” a respeito. Mas sei o motivo pelo qual ele acha que ainda não despertamos para esta possibilidade: “travas ideológicas austericidas autoimpostas”.

 E pronto: depois dos socialistas utópicos, temos entre nós os "capitalistas utópicos", que vão se dedicar a remover as “travas ideológicas” que impedem o Brasil de ser o que pode e precisa ser. E assim séculos de subordinação, dependência, exploração e reacionarismo político, social e econômico viram “travas ideológicas”. E nem uma palavra é dita sobre dois pequenos detalhes: os interesses do grande capital aqui instalado e as imposições do imperialismo dos EUA.

 Claro que há “travas ideológicas”; mas faz tempo que a gente aprendeu que é o ser social que determina a consciência social. As travas ideológicas têm bases materiais muito fortes, que precisam ser eliminadas; e essas bases materiais incluem a relação da nossa sociedade com o imperialismo em geral e com os EUA em particular. Não há "debate inteligente" que resolva isto. Até porque as alternativas neoliberais têm produzidos resultados que – para o grande capital – não são “de pífios a desastrosos”.

 O próprio Artur reconhece isso, quando fala “da obscena taxa de retorno que vêm obtendo desde o golpe parlamentar de 2016”. Sem tocar nisso, não há "debate inteligente" que os demova do curtoprazismo e da postura predatória. Só uma convulsão social incontrolável – ou a ameaça de – pode convencer este povo. Ou derrubá-los, o que seria bem melhor para nós. Aliás, é por medo disto que surge a “notória demofobia” de que também fala Artur.

Talvez Artur fale em “travas” porque ele parece inconformado com o fato das elites não perceberem que no fundo, no fundo, poderiam sair ganhando mais ainda se mudassem um pouco de atitude. Vejam o trecho: “Apesar da reiterada profissão de fé vira-lata, da admiração basbaque pelo american way of life e pelas quinquilharias da Flórida, nunca foram capazes de perceber uma das principais razões para os EUA serem o que são: a mais aberta massificação do consumo interno e do acesso à propriedade imobiliária, a potencialidade da acumulação de capital e de obtenção de alta renda para os estratos superiores dos assalariados pela via dos gastos da multidão.”

Artur, pelo visto, aderiu a mania de contar a história de Chapeuzinho Vermelho, pulando a parte do lobo mau. Uma das “principais razões” para os EUA serem o que são é o saque da riqueza alheia, seja sob a forma colonialista do passado, seja sob a forma imperialista do presente. Disso deriva a indústria da guerra, outra das “razões”. Uma terceira é a brutal exploração, por séculos, da mão de obra escrava. E a não menos brutal exploração da classe trabalhadora, que apesar de suavizada depois que os EUA ascenderam à posição de hegemon, voltou a crescer muito no período neoliberal.

Pesando tudo isto, concluo que o "problema" das elites brasileiras vai muito além da recusa reiterada e daninha a examinar o que se passa no mundo e a propor uma versão brasileira da reorientação macroeconômica, política e social em curso”.

Nem acho que o problema delas seja o “isolamento paroquial, aldeão, causada pelo vírus do viralatismo reverso, que provoca negação teimosa das mudanças corretas, necessárias e aceleradas por que passa o mundo em pandemia e pós-pandêmico”.

O “problema” entre aspas das elites é que para sermos “um dos líderes do novo arranjo do capitalismo que se esboça”, seria necessário fazer pelo menos dois movimentos.

 Um, de enfrentamento com os demais integrantes do “novo” arranjo, pois não há espaços vazios.

Outro, de coesão social interna, sem o que não será possível enfrentar os concorrentes/adversários/inimigos externos. 

O primeiro movimento é de alto risco e os levaria a perder as posições atualmente ocupadas (primário-exportadoras), que como Artur mesmo reconhece, lhes garantem lucros maravilhosos. 

O segundo movimento é ir contra a natureza mesma das elites. E como eles suspeitam que não há lugar para dois Estados Unidos no mundo, e como não têm vocação para sermos uma China, as elites preferem ficar onde estão.

Devemos odiar as elites brasileiras. Mas não devemos subestimá-las. Elas são o que são, não principalmente por ignorância, mas principalmente por interesse. E simplesmente não é de interesse delas mudar o lugar do Brasil no mundo, pois os riscos são infinitamente maiores do que os possíveis ganhos.

Só para quem "não tem nada a perder" vale a pena correr estes riscos.

Aí vem a pergunta: será hora de “aplicarmos no Brasil os novos protocolos terapêuticos adotados pela maioria das nações, em particular Itália, Austrália, França, Coréia do Sul, Alemanha, Japão, Reino Unido, EUA”? Será mesmo “bom para eles, para seus trabalhadores, e será bom para nós brasileiros”?

Minha resposta é: o Brasil precisa de protocolos terapêuticos diferentes. Pois nosso problema não é o de “liderar de novo” o mundo. Nem é o de salvar o capitalismo de suas doenças crônicas.

E não vamos nos iludir: se a terapia salvar o monstro, o monstro vai continuar monstro. Estados Unidos mais forte não é “bom para nós brasileiros”. Afinal, nem o vira-lata de Adam Smith acreditava que a busca da felicidade individual das nações imperialistas seria capaz de produzir a felicidade geral de todas as nações e povos do mundo.


SEGUE O TEXTO CRITICADO. 

https://www.comciencia.br/viralatismo-reverso-um-virus-tabajara/

 

Artur Araújo é especialista em gestão pública e privada e consultor da Fundação Perseu Abramo e da Federação Nacional dos Engenheiros.

 

 

VIRALATISMO REVERSO, UM VÍRUS TABAJARA

10 DE MAIO DE 2021 COMCIENCIA

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Por Artur Araújo

Um país como o Brasil, com moeda soberana bastante estável há décadas, com mercado interno de grandes proporções, com razoável diversificação de parque produtivo, com abundância de insumos básicos, com fortes vantagens demográficas, territoriais e climáticas – e que só não transforma esses vetores em desenvolvimento com acelerada redução de desigualdades e clara orientação de sustentabilidade por força de travas ideológicas austericidas autoimpostas – é um país que tem que ser um dos líderes do novo arranjo do capitalismo que se esboça. Porque pode ser e porque precisa ser.

Foi necessária uma pandemia altamente contaminante e letal para provocar alterações qualitativas de orientações macroeconômicas e políticas que nem a Grande Recessão de 2009 tivera poder de provocar. Refiro-me não apenas ao Plano Biden – ou Planos, porque são várias iniciativas em distintos estados de formulação e implantação – mas também a mudanças, de ideias e de práticas, como as em curso na Itália, no Reino Unido, na União Europeia e em organismos internacionais como FMI e Banco Mundial.

Se o colapso mundial iniciado em 2008 gerou uma forte intervenção estatal para suprimento de liquidez, socorro a instituições financeiras e, até, de suporte direto a grandes conglomerados privados, seguidos por um rápido retorno ao cânone liberal, o coronavírus traz em sua esteira a revisão de grande parte do conjunto dos princípios e normas que são fundamentos do neoliberalismo e que, ao que tudo indica, são revisões a vigorar por longo tempo.

O primeiro elemento a ser destacado é a nítida percepção de que o Estado é elemento decisivo, para intervenção direta em todas as esferas da vida social e para coordenação de ações em quadros complexos como o de uma pandemia. Não há mercado que dê conta dos desafios colocados por fenômenos de forte alcance coletivo, porque a anarquia característica da competição entre infinitos pequenos interesses privados impede qualquer resultante convergente e acelerada, que enfrente eficazmente os múltiplos problemas que afloram simultaneamente.

O “Estado mínimo”, se tivesse continuado a operar, teria levado a mortandade em escala muito superior à dos já horrendos mais de 3 milhões de humanos. O Estado revelou-se imprescindível e, ainda mais importante, revelou-se que tem que ter porte e instrumental que lhe permitam agir decisivamente.

Em segundo lugar, cai por terra uma elaborada mitologia sobre finanças estatais. Subitamente, bobagens interesseiras como a da equiparação de governos emissores de moeda soberana a famílias e empresas usuárias dessa moeda revelam-se a falácia que sempre foram e os trilhões de dólares corretamente emitidos, mundo afora, para deter um colapso generalizado não provocam nenhum dos efeitos apocalípticos com que a ortodoxia liberal nos ameaçava.

Uma terceira revelação é também impactante: em paradas súbitas de demanda e produção, políticas estatais de socorro e suporte são a única possibilidade de evitar-se o caos e são os serviços públicos – quanto mais universais e gratuitos, melhor – a coluna vertebral de atendimento das populações de todas as faixas de renda e riqueza.

A partir dessas constatações, que se generalizam e ganham status de “nova verdade revelada” (ainda que fossem conhecidas e propagadas há décadas por todos os críticos do liberalismo), afirma-se também a percepção de que tal alteração de normas e princípios é essencial para as tarefas do pós-pandemia.

Generaliza-se, adicionalmente, a convicção de que as mudanças são vitais para deter a tempo processos deletérios como os da hiperdualização disruptiva das sociedades; da acelerada crise ambiental e climática; e da hiperfinanceirização, que leva à redução acelerada do intervalo entre uma crise de reprodução ampliada e de realização dos capitais e a crise seguinte, que sempre está no horizonte imediato.

A política econômica de endividamento em “moeda estrangeira” (euros que a Itália não emite) do ex-falcão austericida Mario Draghi para recolocar o país nos trilhos; os planos de reindustrialização franco-alemã; as loas ao NHS e a criação de instrumentos de intervenção econômica estatal em P&D e de planejamento da produção no Reino Unido; o Plano Biden e sua versão Bruxelas: abundam demonstrações de que vários pilares do liberalismo, da reaganomics, da TINA e do Consenso de Washington foram brutalmente abalados e tendem a ser substituídos por algo que se assemelha a um novo regime de acumulação no capitalismo global, ainda que preservadas a livre circulação de capitais, a dominância relativa e em queda do dólar dos EUA e o primado das finanças como fração hegemônica.

Emissão monetária; endividamento em moeda própria, tributação progressiva; forte taxação de grandes rendas, patrimônios e heranças; investimentos estatais; recuperação dos serviços públicos universais; programas de renda; políticas industriais; Estado planejador e interventor. É longa e positiva a lista dos assuntos que foram retirados do index prohibitorum vigente desde a década de 1980. Valores de gastos estatais expressos em bilhões de dólares passam a ser normalidades no noticiário.

Nossa convivência de décadas com o Complexo de Vira-Lata que marca as “elites” brasileiras diria que essa virada teórica e empírica nos países centrais levaria a uma acelerada revisão do ultraliberalismo que domina o país.

Só que não.

As fórmulas empregadas pelo liberalismo tabajara, para tentar impedir que as novas ondas cheguem a nossas paradisíacas praias, vão do patético à mentira aberta. Subitamente, o Postulado de Juracy – o que é bom para os EUA é bom para o Brasil – é revogado e pululam “explicações” de por que, assim de repente, “Brasil não é Estados Unidos”.

É evidente que a dimensão da economia estadunidense, seu poderio militar e geopolítico, seu grau de interação nas cadeias produtivas e nos circuitos financeiros globais são muito distintos daqueles que nos caracterizam. Mas, no que importa para o aqui e agora e mesmo a médio prazo, são muito mais distinções de escala do que de conteúdo.

Um país com moeda soberana bastante estável há décadas, com mercado interno de grandes proporções, com razoável diversificação de parque produtivo, com abundância de insumos básicos, com fortes vantagens demográficas, territoriais e climáticas – e que só não transforma esses vetores em desenvolvimento com acelerada redução de desigualdades e clara orientação de sustentabilidade por força de travas ideológicas austericidas autoimpostas – é um país que tem que ser um dos líderes do novo arranjo do capitalismo que se esboça. Porque pode ser e porque precisa ser.

Há uma dupla carapaça que envolve os farialimers em suas diversas versões – a da rapaziada dos bancos, fintechs e corretoras; a do “jornalismo” econômico dos veículos de comunicação grandes; a dos industriais embaladores; a dos varejistas do contrabando e da sonegação; a dos burocratas de porta-giratória; a dos acadêmicos a soldo – bloqueando até mesmo o debate inteligente sobre alternativas ao que eles têm imposto ao país, com resultados de pífios a desastrosos.

A primeira casca, evidentemente, é a da obscena taxa de retorno que vêm obtendo desde o golpe parlamentar de 2016, principalmente graças à celerada e acelerada desregulamentação, desproteção, perda de direitos, perda de poder reivindicatório e queda estrutural do preço da força de trabalho que atingem os trabalhadores. Lucram com a miséria de multidões e preferem acumular capital via exacerbação de sua fatia na repartição do excedente a buscar ganhos de escala em um mercado de massas que viesse a ter forte demanda efetiva. O curtoprazismo e uma postura predatória são marcantes. Se tudo capotar, se o país for se tornando uma entidade incoerente, disfuncional e sujeita a coerção crescente, Miami aí vamos nós.

Há, no entanto, uma casca subjacente que beira a patologia social. É a notória demofobia, que marca desde os representantes diretos do grande capital até parcelas significativas das camadas médias tradicionais (e mesmo boa parte da pretensa “nova classe média” cantada em prosa e verso até 2015), passando pelos aparatos de Estado via as “elites do funcionalismo”, com ênfase no Judiciário, no Ministério Público e em determinadas carreiras do executivo, no topo da escala de remuneração e poder fático.

Esse combo de frações de classes e corporações tem um horror atávico à presença do povo em “seus” espaços, das boas escolas aos bons hotéis e aos bons empregos. Para eles , a “distinção” tem valor de uso, a posição relativa importa tanto quanto – por vezes, mais do que – o ganho material absoluto que auferem. Apesar da reiterada profissão de fé vira-lata, da admiração basbaque pelo american way of life e pelas quinquilharias da Flórida, nunca foram capazes de perceber uma das principais razões para os EUA serem o que são: a mais aberta massificação do consumo interno e do acesso à propriedade imobiliária, a potencialidade da acumulação de capital e de obtenção de alta renda para os estratos superiores dos assalariados pela via dos gastos da multidão.

São essas duas carapaças que abrigam e propagam a segunda epidemia que assola o Brasil, a da recusa reiterada e daninha a examinar o que se passa no mundo e a propor uma versão brasileira da reorientação macroeconômica, política e social em curso.

É a epidemia do isolamento paroquial, aldeão, causada pelo vírus do viralatismo reverso, que provoca negação teimosa das mudanças corretas, necessárias e aceleradas por que passa o mundo em pandemia e pós-pandêmico.

O Brasil, como muito já se disse, não é um país para principiantes ou amadores: temos muita capacidade de criar inusitados, até um certo orgulho de nossas jabuticabas. No entanto, a súbita reversão do viralatismo, o rompimento do alinhamento automático à matriz – que eram demandas vitais e progressistas no passado até recentíssimo – agora é má novidade.

Ironia das ironias: fecho o texto afirmando que é hora de combatermos sem tréguas o vírus tabajara do viralatismo reverso e de aplicarmos no Brasil os novos protocolos terapêuticos adotados pela maioria das nações, em particular Itália, Austrália, França, Coréia do Sul, Alemanha, Japão, Reino Unido, EUA.

É bom para eles, para seus trabalhadores, e será bom para nós brasileiros. 

Artur Araújo é especialista em gestão pública e privada e consultor da Fundação Perseu Abramo e da Federação Nacional dos Engenheiros.