terça-feira, 9 de março de 2021

Kennedy, Lula e a polarização

 Recomendo a leitura do texto de Kennedy Alencar, que está disponível no texto abaixo:

https://noticias.uol.com.br/colunas/kennedy-alencar/2021/03/09/polarizacao-e-nova-uma-escolha-muito-dificil-enrustida.htm

Recomendo, mas demarco: o texto fala muitas coisas certas, mas merece um "pequeno ajuste temporal".

Não é verdade que entre 1994 e 2014 a polarização PT e PSDB era "bem aceita pela grande imprensa e o mercado". 

Nem é verdade que "desde 2018, a coisa mudou".

A verdade é que o PSDB foi se "radicalizando" e em 2014 simplesmente partiu para o golpe.

Foi o golpismo tucano & da direita gourmet que abriram o caminho para Bolsonaro.

Tampouco é verdade que a grande imprensa e o mercado tenham tratado a polarização entre o PT e Jair Bolsonaro como uma "armadilha que evitaria uma escolha sensata". 

Como o próprio Kennedy descreve em seu texto, a maior parte da grande imprensa e do mercado escolheram Bolsonaro para derrotar o Haddad e Lula.

Portanto, não achavam que existia equivalência entre os dois extremos. Achavam o PT pior.

Kennedy parece não se conformar com isto, afinal na opinião dele Lula é um "político que aplicou uma política de centro no Brasil, tentando uma reforma negociada do capitalismo selvagem brasileiro, a tal conciliação por cima com as elites".

A conclusão, que Kennedy não tira, é óbvia: o andar de cima não gosta de conciliação do povo com as elites, o andar de cima gosta de conciliação das elites com as elites.

Por não ter entendido este "detalhe", muita gente foi surpreendida pelo golpe e por tudo o mais.


SEGUE O TEXTO CRITICADO

Kennedy Alencar

Colunista do UOL

09/03/2021 10h14

PT e PSDB polarizaram disputas presidenciais em seis oportunidades seguidas, entre 1994 e 2014. Era uma polarização bem aceita pela grande imprensa e o mercado. Com a moderação do PT ao centro em 1995, no rescaldo de uma derrota para Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno no ano anterior, passou a se enxergar uma maturidade institucional que deixava nas mãos do eleitor uma escolha racional, que colocaria o país num rumo sem risco de aventuras políticas e econômicas.

Desde 2018, a coisa mudou. A polarização entre o PT e Jair Bolsonaro passou a ser vista como a sagração da divisão do país, uma armadilha que evitaria uma escolha sensata. Trataram como ameaça semelhante a Bolsonaro um partido que governou democraticamente e aceitou um golpe parlamentar porque o STF covardemente o convalidou. Colocaram o PT ao lado de Bolsonaro. A tal da falsa equivalência ganhou a praça.

No segundo turno de 2018, o telejornalismo estava interessado nos compromissos de Fernando Haddad e do genocida com a democracia. Parece piada, ainda mais feita pela parcela da imprensa que atuou como assessoria de imprensa da Lava Jato _essa, sim, uma ameaça à democracia por ter corrompido a lei processual penal.

Mas a coisa mais caricata daquele segundo turno foi o editorial de 8 de outubro do jornal "O Estado de S.Paulo", intitulado "Uma escolha muito difícil". No texto, estavam todos os falsos argumentos para acalmar a consciência de quem quisesse apertar 17 ou anular o voto, o que significava socorrer Bolsonaro.

Muitas pessoas esclarecidas dizem que não poderiam avalizar "a-roubalheira-do-PT". Ajudaram direta ou indiretamente a eleger o defensor do Ustra contra um professor universitário democrata, preparado e moderado. Há aqueles que anularam e agora dizem que escolheram Haddad, mas basta ler o que diziam e escreviam na época para desconfiar disso. O voto nulo foi o esconderijo de muitos democratas de pandemia. Outros votaram mesmo em Bolsonaro e não ousam dizer o nome desse amor eleitoral porque pega mal depois do vexame de Sergio Moro, Paulo Guedes e da tragédia do coronavírus. Óleo de peroba e tentativa de reescrever biografias estão em alta no jornalismo brasileiro. Essa gente que cobra autocrítica de todo mundo tem queixo de vidro quando se menciona o que fizeram no verão passado.

Com a decisão do ministro do STF Edson Fachin que devolve Lula ao jogo eleitoral, pois, na prática, anula duas sentenças e uma denúncia contra o petista, volta-se com o fantasma da polarização que vai acabar com o país, projeto no qual Bolsonaro está bastante empenhado.

Vemos ex-ministros de Bolsonaro, que toparam servir ao genocida e foram escanteados, alertando contra o risco de cisão social do Brasil. O palestrante por vocação Deltan Dallagnol, que não deveria ser autorizado a conduzir mais nenhuma investigação no Ministério Público, está preocupado com o combate a corrupção. Quem achou que Bolsonaro ressignificaria a política no Brasil passou recibo do medo de enfrentar Lula na cédula eleitoral. Moralistas sem moral querem dar aula de democracia.

Jornalistas voltaram a dizer que a polarização é um risco danado, que o mercado que encheu as burras no governo Lula está arisco e que o Brasil, coitado, está fadado a escolher entre dois extremos e vai desaparecer da face da terra. A ladainha não para.

Ora, se a imprensa tivesse feito o seu trabalho em 2018, Bolsonaro não teria sido eleito. Mas certo jornalismo profissional queria muito ter os superministros Moro e Guedes alojados em Brasília. O "risco da polarização" é a velha "Uma escolha muito difícil" enrustida, aquela que atirou o Brasil no abismo. Lembram?

Essa conversa de que a volta de Lula ao jogo é uma forma de fortalecer os extremos e alijar o centro da disputa é desonestidade intelectual e/ou burrice pura. Que centro? A centro-direita e a direita?

Se houve um político que aplicou uma política de centro no Brasil, tentando uma reforma negociada do capitalismo selvagem brasileiro, a tal conciliação por cima com as elites, esse político foi Lula.

O cenário político está cheio de possíveis presidenciáveis. Que se apresentem e deixem o eleitor escolher. É legítimo criticar o PT e apontar um rumo diferente para o Brasil. Mas é legítimo que Lula, que não teve um julgamento imparcial e foi alijado de uma disputa na qual era líder nas pesquisas, possa, se tiver condições de concorrer, decidir se quer tentar a Presidência novamente. O nome disso é democracia.

Tem uma turma que não aprendeu nada e continua fazendo o jogo do obscurantismo no Brasil.

Fachin, Lula e a crise

Nos momentos “normais”, os acontecimentos de curto prazo são muito previsíveis; já o médio prazo é imprevisível e as vezes desaba sobre nossas cabeças de maneira aparentemente surpreendente.

Já nos momentos de crise, os acontecimentos de médio prazo são muito previsíveis; por outro lado, o curto prazo é no maior caso das vezes imprevisível e muitas vezes também desaba sobre nossas cabeças de maneira aparentemente surpreendente.

A decisão de Fachin, por exemplo, pegou de surpresa a imensa maioria das pessoas. Mas a surpresa decorre do quê, exatamente? De que tenha partido de um “lavajatista” uma decisão que beneficia a principal vítima da Lava Jato.

Mas o que parece um paradoxo, na verdade é uma decorrência do caos: em momentos de crise imensa como a que estamos vivendo, nada funciona “normalmente”, ao menos no curto prazo. E faz tempo que as coisas não estão funcionando “normalmente”, se estivessem Moro não teria sido o juiz dos casos em que Lula foi condenado.

Mas atenção: se o que foi dito antes é verdadeiro, então é importante saber se as coisas já voltaram ao normal ou se a crise continua grave e crescente. E se a resposta for que a crise vai piorar, então é melhor “deixar as barbas de molho” e “ficar de guarda alta”, pois do mesmo jeito que neste momento fomos beneficiados por uma decisão surpreendente, também logo ali podemos vir a ser prejudicados por um desdobramento inesperado.

Por conta disto é muito interessante, mas não é essencial entender as motivações precisas da pessoa Fachin (salvar Moro? preservar a Lava Jato?). Aliás, o simples fato de uma decisão monocrática ser capaz de produzir reviravoltas desta magnitude é um indicativo de crise; e são múltiplas (e neste caso algumas aparecem ser impublicáveis) as razões pelas quais um indivíduo toma determinadas decisões em momentos assim.

Quanto ao mérito, a decisão de Fachin é o reconhecimento tardio de que Moro não podia ter sido o juiz dos casos do Sitio e do Triplex. Mas se o juiz não tivesse sido o Moro, Lula não teria sido condenado, Lula não teria sido preso, Lula não teria sido interditado eleitoralmente. E se Lula estivesse livre, provavelmente teria vencido as eleições.

Moro foi Juiz-sem-dever-ser “apenas” para impedir Lula de ganhar as eleições. E a questão é: se o STF tivesse feito Justiça em 2018, a história do Brasil teria sido outra. Teria sido melhor.

Não teríamos 260 mil pessoas mortas, porque o SUS teria garantido vacina e o governo federal teria garantido as condições para que toda a população pudesse fazer isolamento social.

Não teríamos quase 40 milhões de pessoas de fato desempregadas, porque teríamos implementado uma política de desenvolvimento.

E assim por diante.

Portanto, para o Lula “pessoa física” a decisão de Fachin é um ato de justiça tardia, apesar disso não apagar 580 dias de prisão, não reverter os efeitos colaterais da perseguição de Moro e não eliminar a necessidade de punir a quadrilha de justiceiros que – com o apoio de inúmeros cúmplices -- enganou o país nos últimos anos.

Mas para o Lula “pessoa jurídica”, para a esquerda e para a classe trabalhadora, a decisão de Fachin não é suficiente. Pois o principal efeito da perseguição de Moro e da OLJ não foi sobre a pessoa física de Lula. O principal efeito foi a eleição de Bolsonaro e suas múltiplas decorrências econômicas, sociais e políticas: 260 mil mortos, dezenas de milhões de desempregados, catástrofe econômico-social etc. E o único jeito de “reparar” este estrago é atravessando no sentido oposto a “ponte para o futuro”.

Donde decorre que o mais importante é refletir sobre o que faremos com a principal oportunidade política criada pela decisão de Fachin, a devolução dos direitos políticos de Lula. Por exemplo: Lula será candidato à presidência da República?

A resposta tem que ser: sim, será, tem que ser, precisa ser. 

Mas – vamos lembrar que estamos numa situação de crise – esta decisão causará efeitos imediatos na conjuntura de 2021.

Pois vamos lembrar que um dos motivos que levam Lula a ter que ser candidato à presidência é para ajudar a interromper o genocídio de vidas, de empregos, de futuro, de esperança. 

E este genocídio não pode ser interrompido em outubro de 2022. O genocídio tem que ser interrompido agora, já.

E como parece óbvio, os responsáveis pelo genocídio não vão sair de cena sem reação e luta. Daí a necessidade de fazer o povo brasileiro entrar em cena -- como protagonista, não como espectador. Sem ilusões no STF, no parlamento, nas forças armadas e na classe dominante. A salvação da classe trabalhadora só pode ser obra da própria classe trabalhadora. Ninguém melhor do que o Lula para falar disso, para estimular isso, para convocar isto.



 



 

quarta-feira, 3 de março de 2021

Até quando vamos adiar nosso "levante de Varsóvia"?

A notícia saiu em algum lugar: 1.910 novas mortes pelo novo coronavírus e 71.704 novos casos da doença nesta quarta-feira 3 de março. O total de mortos chegou a 259.271 e o de casos a 10.718.630, descontando as subnotificações.

Enquanto isso, um professor universitário teve que escolher entre sofrer um processo administrativo ou assinar um Termo de Ajuste de Conduta segundo o qual por dois anos (dois anos!!!) não poderá emitir “manifestação desapreço no recinto da repartição” acerca do desprezível cavernícola que desgoverna esta país.

O que estamos esperando para fazer algo à altura de tanta violência?

Por que continuamos a nos comportar como se as coisas estivessem normais?

Até quando vamos fingir que é motivo de tranquilidade o fato das "instituições" estarem "funcionando" em meio a tanta tragédia?

Por quanto tempo ainda continuaremos resignados dentro do gueto, esperando chegar a hora em que uma nova leva será levada de trem até as câmaras de gás?

Até quando vamos adiar nosso "levante de Varsóvia"? 

Até passar o "Expresso 2022"?

Até ser tarde demais?

ps1.Até terminar como o original?

ps2.Esperando o quê?

(um velho amigo gostava muito da música abaixo, do Chico)

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro fica assim pensando

Assim pensando o tempo passa

E a gente vai ficando pra trás

Esperando, esperando, esperando

Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando o aumento

Desde o ano passado

Para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande no bilhete pela federal

Todo mês

Esperando, esperando, esperando

Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando o aumento

Para o mês que vem

Esperando a festa

Esperando a sorte

E a mulher de Pedro

Esperando um filho

Pra esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro tá esperando a morte

Ou esperando o dia de voltar pro norte

Pedro não sabe, mas talvez no fundo

Espere alguma coisa mais linda que o mundo

Maior do que o mar

Mas pra que sonhar

Se dá o desespero de esperar demais

Pedro pedreiro quer voltar atrás

Quer ser pedreiro pobre e nada mais

Sem ficar esperando, esperando, esperando

Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando o aumento para o mês que vem

Esperando um filho pra esperar também

Esperando a festa

Esperando a sorte

Esperando a morte

Esperando o norte

Esperando o dia de esperar ninguém

Esperando enfim nada mais além

Da esperança aflita, bendita, infinita

Do apito de um trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando

Pedro pedreiro pedreiro esperando

Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem

Que já vem

Que já vem

Que já vem

Que já vem

Que já vem

Que já vem

Que já vem

Que já vem

Que já vem

Que já vem

Que já vem...





terça-feira, 2 de março de 2021

Resolução sobre conjuntura

A direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda, reunida no dia 28 de fevereiro de 2021, aprova a seguinte resolução sobre a situação nacional e nossas tarefas imediatas.

1.O ano de 2020 terminou com quase 200 mil mortos devido a pandemia do Covid 19, isto considerando os dados oficiais, notoriamente subestimados. Passaram-se apenas dois meses de 2021 e o número de mortos já ultrapassa os 250 mil, indicando uma aceleração catastrófica da doença, devido a novas cepas, a ausência de medidas adequadas de isolamento social e a desastrosa política de vacinação adotada pelo governo federal. O capitão-presidente Jair Bolsonaro é o maior aliado do vírus. Ele e o general-ministro Eduardo Pazzuelo e os demais responsáveis precisam ser destituídos de seus postos, submetidos a julgamento e punidos por esta tragédia.

2.Ao lado da peste e da morte, avança a fome. O fim do auxílio emergencial, o crescimento do desemprego (que atinge cerca de 40 milhões de pessoas) e a inflação empurram parte importante da população brasileira para uma situação inaceitável. As políticas implementadas pelo governo federal – a começar por aquelas defendidas pelo ministro Paulo Guedes – são direta e indiretamente responsáveis por esta tragédia. A financeirização, a desindustrialização, a primarização, a privatização de empresas públicas (como a Petrobrás, a Eletrobrás, os Correios) e os cortes em todas as áreas sociais já seriam desastrosas em qualquer cenário. Em meio a uma pandemia, constituem crimes inafiançáveis contra o povo brasileiro, tão genocidas quanto o apoio que Bolsonaro da à transmissão do Covid 19. Por isso não basta o impeachment do “presidente”: é necessário colocar para fora este governo e suas políticas.

3.Ao lado da peste, da morte e da fome, avança a guerra. Grande parte do governo Bolsonaro está sob gestão militar. A presidência, a vice-presidência, vários ministérios, diversos escalões da administração direta e indireta, órgãos públicos dos mais diferentes tipos estão sob gestão militar. Além dos ganhos pessoais, a instituição também está sendo beneficiada na distribuição do orçamento público. Ao mesmo tempo, empodera-se as estruturas policiais em todo o país. Facilita-se a importação e a comercialização de armamentos de “uso pessoal”. Um governo tutelado pelas forças armadas e presidido por um aliado das criminosas milícias está incentivando abertamente as camadas ricas da população a se armarem. O objetivo é claro: como treinaram no Haiti e como praticam cotidianamente nas periferias, trata-se de impor a “lei e a ordem” sobre os setores populares, sobre os negros e as negras, sobre as mulheres, sobre a juventude trabalhadora, sobre a esquerda.

4.Peste, morte, fome e guerra anunciam que o apocalipse pode estar às nossas portas. Uma das consequências é que se aprofunda o conflito entre as diferentes facções do condomínio que deu o golpe parlamentar de 2016 contra Dilma e o golpe judiciário de 2018 contra Lula. A eleição da presidência da Câmara dos Deputados, a prisão do deputado Daniel Silveira e o fim da Operação Lava Jato são os acontecimentos mais recentes de uma guerra que não põe em questão um consenso que há entre eles: manter o povo do lado de fora e do lado de baixo. Fora do poder e debaixo do tacão.

5.Frente a esta situação, a classe trabalhadora encontra-se na defensiva e a esquerda encontra-se dividida em relação à tática. A defensiva pode ser ilustrada pelo resultado das eleições municipais, assim como pela reduzida mobilização de rua contra um governo cuja popularidade, não obstante, vem caindo nas pesquisas. Não é apenas a pandemia, o golpe e seus efeitos, que explicam a defensiva da classe trabalhadora. Parte desta defensiva resulta do péssimo exemplo que veio de uma parte da esquerda, nos últimos anos, o de achar melhor fazer um acordo ruim do que arriscar uma boa luta.

6.Neste momento, predomina na esquerda brasileira uma tática que pode ser resumida assim: tentar derrotar Bolsonaro através de uma frente ampla entre a esquerda, o centro e parte da direita. Esta é a política adotada pelo PDT de Ciro Gomes, pelo PSB, pelo PCdoB, por boa parte do PT e até mesmo por metade da bancada federal do PSOL, inclusive pelo que até ontem era sua corrente supostamente mais radicalizada e esquerdista. No fundo desta política, há uma persistente ilusão de classe, que se manifesta também e por exemplo na crença no STF como defensor da democracia, na cúpula das FFAA como inocentes nos crimes de Bolsonaro, na busca de aliados no grande empresariado etc.

7.Um rápido panorama sobre os acontecimentos dos últimos doze meses ilustra o que estamos dizendo. Quando a pandemia estava começando, setores importantes da esquerda resistiram a defender o impeachment. Diziam que era hora de “defender a vida, não de fazer política”. O resultado foi que perdemos uma oportunidade de afastar Bolsonaro, que seguiu livre para continuar matando. E na prática a política sanitária defendida por nós foi derrotada: não houve o isolamento necessário, não há vacinação adequada. E o auxílio emergencial que nós corretamente defendemos, foi capitalizado politicamente pelas forças de direita.

8.Hoje, em alguns aspectos parece que voltamos ao ponto de partida: a pandemia em curva de crescimento, novo debate sobre o auxílio emergencial, conflitos entre o presidente e governadores, setores da esquerda dizendo não acreditar ser possível fazer o impeachment. Os que agem assim esquecem que a correlação de forças necessária para nossa vitória não é como a chuva, que cai do céu. Constrói-se. E isso exige demarcar posição – em primeiro lugar contra Bolsonaro e suas politicas – o que não se fez na imensa maioria das campanhas eleitorais de 2020, assim como não ainda não estamos conseguindo fazer na mobilização de rua. Mesmo em situações extremas, como o fechamento das fábricas da Ford, prevaleceu tanto nas bases quanto na direção da classe trabalhadora uma posição tímida frente à violência da agressão. Sendo esta a atitude que prevaleceu, não há por que admirar-se do resultado das eleições municipais, em que 75% dos votos válidos beneficiaram candidaturas de direita.

9.O ano de 2020 terminou e o de 2021 começou com a esquerda votando para a presidência do Senado em um candidato também apoiado por Bolsonaro. No caso da Câmara, a maior parte da esquerda aceitou que as direitas polarizassem a disputa pela presidência da Câmara, sem demarcar campo próprio. Argumentando que Arthur Lira defenderia retrocessos políticos, apoiou-se Baleia Rossi, golpista e defensor de um programa neoliberal. Vitorioso Arthur Lira, sua primeira medida foi encaminhar a aprovação da autonomia do Banco Central; defender que um novo auxílio emergencial deva ser financiado com recursos da saúde e da educação; e propor ampliar a imunidade parlamentar (o que na prática serviria apenas para proteger facínoras). E o que faz diante disso uma parte da oposição de centro e esquerda? Divide-se entre as diferentes opções propostas pela direita e começa a preparar-se para… 2022. No caso do PT, primeiro debatendo um programa (que nada fala das forças armadas) e depois “colocando o bloco na rua”.

10.A tática hegemônica na esquerda, pior do que errada, é ineficaz. É errada porque compromete a esquerda com posições neoliberais e muito pouco democráticas, como é o caso das posturas de Dória, Maia, Baleia e Temer. E é ineficaz porque não contribui para reconquistar – para a esquerda e contra Bolsonaro – os setores populares que se afastaram da esquerda, particularmente desde 2015. Para que esta reconquista seja possível, a esquerda precisa reocupar território perdido nos locais de moradia, nos locais de trabalho, nos locais de estudo, nos espaços de cultura e lazer. E isso precisa ser feito aqui e agora, em torno das questões imediatas: a luta contra a pandemia e a vacinação para todos e todas, a luta contra o desemprego e pelo auxílio emergencial, a luta pelo Fora Bolsonaro e pela devolução dos direitos políticos de Lula. O centro da tática não são as eleições presidenciais de 2022, mas sim a disputa em curso neste ano de 2021. É para esta disputa que temos que “colocar o bloco na rua”; sem esta disputa, nossas chances de vencer as próximas eleições presidenciais serão muito reduzidas (sem falar que não sabemos como estará o país, caso Bolsonaro siga “presidindo”).

11.Ou alteramos esta postura, ou na melhor das hipóteses 2022 será uma versão piorada de 2020. É preciso subir o tom e dar visibilidade de massas à insatisfação crescente. Não basta fazer oposição parlamentar, lives e carreatas pontuais. É preciso retomar a mobilização, é preciso reocupar as ruas, é preciso colocar a classe trabalhadora em movimento, é preciso radicalizar na luta contra o governo genocida e suas políticas. Por exemplo convocando – por iniciativa da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo – 48 horas de paralisação nacional contra este governo que está matando o povo brasileiro. Ao mesmo tempo, nossos governos estaduais e municipais, nossas bancadas e as organizações de massa que influenciamos precisam articular e implementar um programa comum de combate ao Covid 19, que parta do princípio de que Bolsonaro é o maior aliado do vírus e que seu impeachment é uma medida de salvação nacional.

12.O êxito da luta contra o governo Bolsonaro depende em boa medida das escolhas que venham ser feitas pelo Partido dos Trabalhadores. E a verdade é que o PT está dividido profundamente em torno da linha política a adotar. As resoluções do 7º Congresso Nacional do PT – até hoje não publicadas, porque até hoje não foram devidamente finalizadas pelo Diretório Nacional – não dão conta da situação que vivemos. É preciso convocar, imediatamente, um Encontro nacional extraordinário, único espaço idôneo para dirimir as profundas divergências que impedem nosso partido de cumprir seu papel nesta conjuntura dramática que o país vive.

10.Por fim: vivemos um momento de crise profunda, em que parece que tudo pode acontecer, inclusive nada. Mas o mais provável é que – frente ao avanço da peste, da morte, da fome e da guerra – haja um aprofundamento da disputa política no país. Se o povo brasileiro não entrar em cena, a disputa será resolvida na luta entre as diferentes quadrilhas da classe dominante, com parcelas da esquerda submissas ao suposto mal menor. Só uma grande onda de lutas sociais reverterá a catástrofe. O PT deve fazer de tudo para estimular e buscar dirigir esta luta. Sem ilusões no STF, no parlamento, nas forças armadas e na classe dominante. A salvação da classe trabalhadora só pode ser obra da própria classe trabalhadora.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Comentários sobre o texto do Lincoln Secco

 Lincoln Secco, professor da USP, escreveu um artigo intitulado “O que aconteceu com aquele PT?”

O texto está disponível em vários lugares, entre os quais:

https://aterraeredonda.com.br/o-que-aconteceu-com-aquele-pt/

O texto faz uma análise crítica acerca da trajetória do PT, o que é ótimo. Mas adota uma chave de interpretação que na minha opinião não consegue captar adequadamente como “aquilo” deu “nisso”.

 

Não parece ser assim, porque o estilo de Secco envolve grudar uma descrição as vezes pitoresca com uma conclusão lacradora, passando a impressão de que uma coisa decorre da outra. É assim no seu artigo e também no seu livro, que se chama (mas não é) História do PT.

 

Vou dar um exemplo do que critico: “Sintomático da falta de ideias, é que a geração de dirigentes sindicais ou da luta armada foi gradualmente derrubada pelos escândalos do mensalão e a operação lava jato. Dirigentes históricos como José Dirceu e José Genoíno foram substituídos não por jovens ativistas de movimentos sociais ou intelectuais orgânicos de esquerda, mas por burocratas que iniciaram a carreira política como gestores ou políticos profissionais locais. A direção de ex integrantes dos sindicatos e das organizações da luta armada cedeu lugar a outra. Não por acaso, alguns dos principais formuladores da CNB exerceram um mesmo cargo: a secretaria de finanças, através da qual se fazia a interface da direção nacional com as doações empresariais para campanhas e a distribuição de verbas do fundo partidário público. O PT deles não é o partido dos trabalhadores, mas o dos tesoureiros”.

 

Comecemos pelo final: “Não por acaso, alguns dos principais formuladores da CNB exerceram um mesmo cargo: a secretaria de finanças, através da qual se fazia a interface da direção nacional com as doações empresariais para campanhas e a distribuição de verbas do fundo partidário público. O PT deles não é o partido dos trabalhadores, mas o dos tesoureiros”.

 

Quem foram os tesoureiros do PT, desde 1995 até hoje? Cito de memória, correndo o risco de esquecer de alguém:  Clara Ant, Delúbio Soares, José Pimentel, Paulo Ferreira, João Vacari, Emidio de Souza, Marcio Macedo. Hoje é Gleice Andrade. Nenhum desses pode ser enquadrado na categoria “principais formuladores da CNB”. Por outro lado, a maioria deles teve uma larga trajetória política e sindical antes de virarem tesoureiros do PT. Falar que “o PT deles não é o partido dos trabalhadores, mas o dos tesoureiros” é uma desqualificação que não ajuda a compreender por qual motivo o controle das finanças ganhou uma importância tão grande em um partido de trabalhadores, a tal ponto do grupo majoritário – entre 1995 e 2021 – nunca ter aberto mão da tesouraria.

 

Vejamos agora a primeira parte: “Sintomático da falta de ideias, é que a geração de dirigentes sindicais ou da luta armada foi gradualmente derrubada pelos escândalos do mensalão e a operação lava jato. Dirigentes históricos como José Dirceu e José Genoíno foram substituídos não por jovens ativistas de movimentos sociais ou intelectuais orgânicos de esquerda, mas por burocratas que iniciaram a carreira política como gestores ou políticos profissionais locais. A direção de ex integrantes dos sindicatos e das organizações da luta armada cedeu lugar a outra”.

 

Que está em curso uma transição geracional no PT é inegável. Aliás, inegável e inevitável. E que uma parte dos novos dirigentes seja de “burocratas que iniciaram a carreira política como gestores ou políticos profissionais”, também é inevitável em um partido que governou o país entre 2003 e 2016. Não há como comemorar nossa presença nos governos e achar que isso não teria implicações diversas, inclusive mudar a experiência primeva de nossos quadros dirigentes. Agora, achar que no contexto histórico que estamos vivendo “jovens ativistas de movimentos sociais ou intelectuais orgânicos de esquerda” seriam qualitativamente superiores aos “burocratas que iniciaram a carreira política como gestores ou políticos profissionais” é pura ilusão (compreensível, mas errada assim mesmo). Mas a maior ilusão é a referência feita a Dirceu e Genoíno, que a mim soa como éramos felizes e não sabíamos....

 

Entretanto, o mais importante é que não foram as “ideias”, nem foi a “falta de ideias” que explicam o ocorrido com o PT. Nem é verdade que hoje não haja “ideias”. Houve escolhas políticas, as vezes muito bem fundamentadas, que contribuíram para determinados desfechos.

 

Resumidamente: a história deste processo não pode ser simplificada. Aliás, foram simplificações deste tipo, mas no caso acerca do movimento comunista, que fizeram alguns dirigentes do PT acharem que estavam imunes às consequências de determinadas opções políticas.

 

Quando falo de simplificação, refiro-me a frases como: “É de certa maneira o mesmo partido conciliador que venceu quatro eleições presidenciais no século XXI, cuja direção envelheceu agarrada a cargos e desapegada de ideais e sofreu um golpe de Estado em 2016”. O problema não foi o envelhecimento, nem o apego a cargos ou o desapego a ideias; quer estes problemas existam ou não, o problema principal sempre foi a linha política. E este “detalhe” fica soterrado pela retórica.

 

Como luta interna, digamos assim, pode ser útil dizer algo assim: “como um cadáver adiado, esse grupo que hoje parasita a história do PT e consome seus últimos recursos simbólicos, manteve-se intacto em sucessivas disputas internas porque ainda tinha resultados eleitorais para entregar ao seu séquito. Afinal, sob a política de acomodação no poder o PT ganhou quatro eleições e tudo parecia ir muito bem”.

 

Mas como história, não soa bem. Por exemplo: a CNB teve maioria absoluta ou relativa em todas as disputas internas entre 1995 e 2019. Isso não ocorreu porque eles tinham “resultados eleitorais para entregar ao seu séquito”. O processo é muito mais complexo. Chamar milhões de pessoas (pois foram e são milhões) que confiaram na política proposta pelo “campo majoritário” e depois proposta pela “CNB” de “séquito” é reduzir a base do PT a uma clientela. Não é assim, simplesmente não é assim. Aliás, foi por acreditar neste tipo de interpretação que algumas pessoas saíram do PT, para depois descobrir que o PT não saiu delas.

 

Enfim, não vou glosar frase a frase o texto de Lincoln Secco; há passagens com as quais estou de acordo, há conclusões que me parecem acertadas, mas como escrevi antes, o conjunto da obra não ajuda a compreender como aquilo deu nisso.

 

Concluo chamando a atenção para uma passagem em que Lincoln diz que “não cabe a um intelectual definir o que a esquerda deve fazer e muito menos os capas pretas petistas”. Acontece que Lincoln faz isso o tempo todo no seu texto, explicita ou implicitamente. Ele chega até a classificar quem seria de esquerda e quem não seria. Na verdade, o artigo de Lincoln é o de um participante da luta interna do PT, mas que não quer ser visto nem julgado como um participante da luta interna do PT. Para evitar isso ele se refugia na categoria de “intelectual”, um esconderijo paradoxalmente convencional para quem concorda com o que diz Gramsci acerca dos intelectuais.

 

Um exemplo de luta interna disfarçada de análise de um “intelectual”: “A esquerda partidária nunca foi uma ameaça à CNB. Quando eu escrevi a História do PT em 2010, ainda parecia correto falar em esquerda e direita do partido. Hoje é diferente. Há petistas de direita e de esquerda. Essa é uma mudança resultante da fragilidade organizativa do partido, mas também da sua hegemonia no campo democrático popular. Pois de outra maneira não se entenderia por que um político petista ataca o próprio partido mas não abandona a legenda do PT. Tal personagem “fictício” não é da “direita do PT”. Ele é mesmo de direita, talvez do centro, e provavelmente social liberal e democrata. De novo cumpre lembrar que não se trata de ataque a uma pessoa específica, que deve pensar de si mesma outra coisa. Trata-se de uma caracterização das suas opiniões e ações públicas”.

Eu não sei se entendi direito o que está escrito acima. Do que entendi, sou de opinião que a expressão “nunca foi” é incorreta. Mas o que me preocupa é a decorrência disto. Se for verdade a afirmação de Lincoln, então os problemas vividos pelo PT ou não serão superados, ou serão superados através de um impulso que venha da própria CNB. Mas ao mesmo tempo Lincoln diz ser necessário “derrotar os novos capas pretas (como eram chamados os caciques partidários pelos militantes). Para isso seus opositores precisariam de duas coisas: um projeto radical para o país e a capacidade de impor medo à direção”. Pode-se concordar ou discordar, mas não consigo entender como falar isso e ao mesmo tempo falar que não cabe a um intelectual definir o que a esquerda deve fazer e muito menos os capas pretas petistas”.

Um comentário final. Lincoln afirma que “A esquerda precisa estabelecer seus objetivos estratégicos. Já que não é revolucionária, ela será uma esquerda social democrata de verdade”. Esta frase é um resumo genial do erro cometido por uma parte da velha Articulação, do Campo Majoritário e da CNB. Na vida real, o único jeito de ser uma “esquerda social democrata de verdade” é ser revolucionário. Foi por não entender isto que uma parte do PT nos empurrou para a situação em que estamos. Portanto, o conselho de Lincoln equivale a um “continuem errando”.

SEGUE O TEXTO CRITICADO NA ÍNTEGRA

O que aconteceu com aquele PT?

27/02/2021

Por LINCOLN SECCO*

O Partido dos Trabalhadores era muito mais uma rede de expressões regionais e sociais plurais do que um partido centralizado em São Paulo

Quando a primeira vereadora negra eleita no Rio de Janeiro tomou posse, a Câmara quis negar-lhe carro oficial porque ele não poderia subir o morro da favela em que ela morava. Naquele ano vários operários chegaram à câmara dos deputados. A primeira bancada em São Paulo elegeu três mulheres de esquerda. Os mandatos foram concebidos como coletivos e faziam plenárias regulares. Ao partido confluíam militantes do movimento de saúde e habitação, psicólogos e arquitetos, professores e estudantes, empregadas domésticas e pequenos comerciantes, gays e lésbicas, donas de casa e integrantes do movimento negro, clubes de mães, e católicos das comunidades eclesiais de base, ecologistas e grupos de teatro. Havia reuniões em sindicatos e salões paroquiais, quadras de escola e centros espíritas, praças públicas e sindicatos e, principalmente, nas casas de militantes.

Não! Este não é o retrato da esquerda nas eleições municipais brasileiras de 2020 e nem de algum novo partido – movimento europeu. Trata-se das eleições de 1982! e, claro, da história do PT. É de certa maneira o mesmo partido conciliador que venceu quatro eleições presidenciais no século XXI, cuja direção envelheceu agarrada a cargos e desapegada de ideais e sofreu um golpe de Estado em 2016.

Lutas de classes

A primeira prefeita de uma capital do PT foi Maria Luiza Fontenelle, em Fortaleza. Ela governou com os conselhos populares e foi acusada de incentivar a população a ocupar prédios abandonados e de convocar uma greve dos próprios funcionários municipais. Em Diadema, o vice-prefeito Tonhão se aliou ao movimento de moradia e enfrentou a polícia e o prefeito do seu próprio partido. Em Salvador militantes de um grupo clandestino abrigado no PT resolveu expropriar um banco. Bancários atiravam bolinhas de gude nas vidraças dos bancos à noite. Mesmo nas campanhas eleitorais milhares de militantes eram presos na boca de urna, corriam da polícia ou entravam em confronto com adversários da direita.

A oposição metalúrgica de São Paulo enfatizava a organização no local de trabalho e uma central sindical que reunisse também oposições sindicais e não apenas direções eleitas dos sindicatos. Por isso a CUT se chamou Central Única dos Trabalhadores, era contra a legislação trabalhista legada por Getúlio Vargas (a CLT), o imposto sindical e a tutela do Estado sobre os sindicatos. Mas aquele era um momento ascensional das lutas e uma superação positiva da CLT estava no horizonte radical da classe trabalhadora. Ainda assim, os comunistas e velhos trabalhistas alertavam para o risco de deixar ao relento os pequenos sindicatos e as categorias profissionais menos mobilizadas. Ruim com o pelego, pior sem ele, diziam. Isso porque a ausência de apoio jurídico aos trabalhadores e trabalhadoras impede a proteção dos direitos na hora da contratação e rescisão, em que a pessoa está sozinha diante da empresa. Destruir sindicatos pode gerar instabilidade nas relações trabalhistas também para o empresário, mas o maior perdedor não é ele, pois na maioria dos casos não surge uma mobilização espontânea para pressionar os patrões.

Apesar do discurso da CUT e do PT, nos anos 1980 a auto organização da classe trabalhadora buscou assumir as direções sindicais e não suprimi-las e acabou por conviver com a legislação trabalhista e manter e até ampliar o patrimônio material e jurídico dos sindicatos. Isso não impedia inovar as formas de luta. Depois de derrotas anteriores devido à repressão do exército, em 1985 a campanha salarial do ABC paulista adotou a tática da Vaca Brava. Conhecendo o mapa da cadeia produtiva, os trabalhadores paravam um setor numa fábrica e impediam o fornecimento para outras empresas. Nos anos 1970 a greve pipoca interrompia diferentes setores numa mesma fábrica. Agora, os trabalhadores de uma montadora ficavam parados por falta de entrega de peças e não por estarem em greve. Mas quando o fornecimento se normalizava era a vez deles declararem greve.

Trajetórias

Aquele PT dos anos 1980 também não foi só uma agremiação operária que se espraiou a partir das greves metalúrgicas do ABC paulista. Decerto, o sindicalismo e a liderança de Lula foram vitais e exerceram uma atração centrípeta. Mas isso só aconteceu porque havia energia social espalhada pelo país que se auto organizou autonomamente. A pesquisa nas fontes históricas permite reconstituir um movimento que era muito mais uma rede de expressões regionais e sociais plurais do que um partido centralizado em São Paulo.

Suas contradições e lutas internas também nasceram dessa diversidade. Trabalhadores manuais sem educação universitária e que compuseram as primeiras direções partidárias nunca vieram a ter cargos públicos executivos destacados ou ministérios nos governos petistas como foram os casos de Osmarino Amâncio dos seringueiros do Acre; os irmãos Ganzer dos agricultores do oeste do Pará; Manoel da Conceição dos trabalhadores rurais do interior maranhense ou sindicalistas de São Paulo como Jacó Bittar, Vicentinho e Meneghelli. Claro que houve exceções importantes:, Lula, o torneiro mecânico da Villares, foi presidente; a empregada doméstica Benedita da Silva, governadora do Rio de Janeiro; e o metalúrgico da Braseixos João Paulo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados.

A experiência de um partido formado por núcleos de base e surgido em barracões de sem terra, seringais, conventos católicos, sindicatos, grupos de esquerda e no movimento estudantil logo chocou-se com a realidade da institucionalização. A partir de 1984 o PT gradualmente substitui aquela lógica federativa de núcleos pela disputa de tendências organizadas. Ou melhor: entre a Articulação, tendência dominante que congregava a força dos sindicatos e os políticos de maior expressão eleitoral, e os grupos da esquerda partidária. A adoção da proporcionalidade na composição das direções do PT foi o modus vivendi encontrado pelos dirigentes.

Apesar da oligarquização inerente aos partidos políticos, as direções petistas tinham um projeto para o país. Mesmo domesticado por sucessivas concessões, alianças, compromissos e abandono de ideais, o programa reformista que chegou ao poder em 2003 alterou a feição do Brasil, mudou as relações entre classes e legou programas sociais e de direitos humanos.

Desde o V Encontro Nacional de 1987 o PT visou eleger Lula presidente e implementar o programa democrático popular. Ao longo dos anos 1990 aquele programa incorporou a defesa de cotas raciais, políticas específicas para mulheres e jovens e muitas outras. Internamente, os congressos do PT garantiram creches para que as mães participassem das discussões políticas e estabeleceu 30% delas nos cargos de direção (hoje 50%).

Todavia, aquelas iniciativas não contraditavam o programa geral. Estavam integradas, ainda que de forma incipiente. Se por um lado o PT perdeu o protagonismo em políticas nas quais foi o pioneiro, por outro os novos militantes muitas vezes reduzem suas ações ao puro taticismo. Voltarei a esse tema depois.

A pergunta que se faz hoje é o que aconteceu com aquele PT?

A dialética do poder

É um truísmo relembrar todos os erros dos governos petistas: a política econômica, a missão no Haiti, as leis que fortaleceram o aparato jurídico-repressivo e tudo aquilo que ficou conhecido indevidamente como republicanismo.

Um exemplo disso foram as nomeações para o STF. A Constituição garante ao Presidente da República e à maioria que ele constitui no Senado Federal, o poder de interferir na sua composição. Dessa forma é dever constitucional do presidente nomear pessoas que estejam de acordo com o programa que a população livremente estabeleceu pelo voto. Quando Fernando Henrique Cardoso foi eleito, ele nomeou juízes que criaram o entendimento jurídico dentro do qual ele ergueu o modelo econômico escolhido pelo povo. Caberia aos juízes inviabilizar questionamentos que duvidassem das privatizações, por exemplo. Em 2002 o povo escolheu um novo modelo de desenvolvimento e era esperado do presidente que nomeasse para o STF juízes que calçariam sua opção pelo social, punição dos criminosos da ditadura etc. Mas, ao contrário de FHC, Lula seguiu uma interpretação errônea do que seria a República pois o STF é um tribunal político. É que o Direito não é só um conjunto de fatos ou normas, como rezam os positivistas, mas a expressão de uma relação de poder. Nada disso atenta contra a Democracia. Esta é apenas a forma de um domínio encoberto pelo consenso da sociedade. A violação do direito ocorre se um dos lados usa a força e se põe fora da legalidade. Afinal, a própria imprensa trata tranquilamente da posição partidária dos membros da suprema corte dos Estados Unidos, mas vocifera contra qualquer “escolha política” em países latino americanos, como a Venezuela ou Argentina.

Os equívocos de Lula não eram pessoais, mas derivados de uma cultura política marcada pela recusa do vanguardismo e pelo obreirismo. Ela permitiu ao partido crescer colado às lutas cotidianas do povo, mas também introduziu o preconceito contra o marxismo e o desleixo com o debate estratégico. Quando o PT chegou ao governo (e não ao poder), o seu núcleo dirigente estava despreparado para conceber essa diferença. Agiu como se o Estado fosse um órgão neutro e deixou intocadas as forças armadas e o poder judiciário.

Obviamente que não se tratou apenas de uma escolha ou desconhecimento de uma teoria marxista do Estado, mas também da acomodação pragmática aos cargos e ao receio de confrontos. Mas independentemente disso, o conflito social se acirraria de qualquer modo, pois as classes dominantes não toleram que os pobres aumentem sua participação no orçamento público. Bastou a inversão do ciclo econômico para que elas optassem pelo golpe de Estado, apoiado nos militares, no congresso, na mídia e sancionado pelo poder judiciário.

Apesar de toda a propaganda midiática, o PT demonstrou que estava preparado para administrar o Estado melhor do que os partidos conservadores e com um grau muito menor de corrupção. No entanto, não estava preparado para exercer o poder.

Uma crise programática

Ao transformar o PT e a CUT em meras correias de transmissão do Governo federal, aquela Articulação que tinha promovido o aggiornamento social democrata do PT perdeu sua função histórica. Desprovida de ideais, sobrou-lhe os cargos. Como um cadáver adiado, esse grupo que hoje parasita a história do PT e consome seus últimos recursos simbólicos, manteve-se intacto em sucessivas disputas internas porque ainda tinha resultados eleitorais para entregar ao seu séquito. Afinal, sob a política de acomodação no poder o PT ganhou quatro eleições e tudo parecia ir muito bem.

Sintomático da falta de ideias, é que a geração de dirigentes sindicais ou da luta armada foi gradualmente derrubada pelos escândalos do mensalão e a operação lava jato. Dirigentes históricos como José Dirceu e José Genoíno foram substituídos não por jovens ativistas de movimentos sociais ou intelectuais orgânicos de esquerda, mas por burocratas que iniciaram a carreira política como gestores ou políticos profissionais locais. A direção de ex integrantes dos sindicatos e das organizações da luta armada cedeu lugar a outra. Não por acaso, alguns dos principais formuladores da CNB exerceram um mesmo cargo: a secretaria de finanças, através da qual se fazia a interface da direção nacional com as doações empresariais para campanhas e a distribuição de verbas do fundo partidário público. O PT deles não é o partido dos trabalhadores, mas o dos tesoureiros.

Antigos dirigentes podem ser caracterizados como neopetistas enquanto novos militantes como defensores das bandeiras históricas do partido. Não se trata de simples corte geracional, portanto. O ex governador baiano Jacques Wagner, que elogiou o seu secretário de segurança pública quando ele atirou em militantes do MST em 2013, é fundador do PT, mas não é de esquerda. Camila Moreno, jovem da comissão executiva nacional defende bandeiras históricas do partido.

Não cabe a um intelectual definir o que a esquerda deve fazer e muito menos os capas pretas petistas. Mas é evidente que o modelo de governo negocial que o PT usou não funciona mais. Não que não deva haver alianças para governar. Mas a esquerda só mantêm seus objetivos se ameaçar, antes de negociar. Isso vale também para a luta interna do PT. A esquerda partidária nunca foi uma ameaça à CNB. Quando eu escrevi a História do PT em 2010, ainda parecia correto falar em esquerda e direita do partido. Hoje é diferente. Há petistas de direita e de esquerda. Essa é uma mudança resultante da fragilidade organizativa do partido, mas também da sua hegemonia no campo democrático popular. Pois de outra maneira não se entenderia por que um político petista ataca o próprio partido mas não abandona a legenda do PT. Tal personagem “fictício” não é da “direita do PT”. Ele é mesmo de direita, talvez do centro, e provavelmente social liberal e democrata. De novo cumpre lembrar que não se trata de ataque a uma pessoa específica, que deve pensar de si mesma outra coisa. Trata-se de uma caracterização das suas opiniões e ações públicas.

Mas é preciso dizer que o antigo PT tem muito a nos ensinar. Parcelas da “nova” esquerda parecem ter desaprendido a centralidade da classe social, enquanto a “velha” militância não aprendeu que a classe em si mesma precisa ser ressignificada e assumir suas faces negra e feminina que são majoritárias no Brasil. Sem essa vinculação do parcial com o apelo ao universal e das táticas com a estratégia, vamos defender pautas legítimas, porém facilmente assimiláveis pela ordem burguesa. Obviamente que não se deve generalizar e dispomos de muitas teóricas que o tempo todo nos chamam a atenção para isso como Silvia Federici e Roswitha Scholz com grande sofisticação teórica e base historiográfica. Ou no movimento negro Angela Davis e o brasileiro Clovis Moura, entre uma miríade de outras. O problema continua sendo integrar a teoria numa prática realmente socialista e classista.

A imprensa corporativa, por exemplo, condena o racismo, mas defende o ajuste fiscal. Mas no Brasil negros e pardos são a maioria da classe trabalhadora. Portanto, o ajuste fiscal é racista. O ataque aos direitos trabalhistas e ao sistema único de saúde são manifestações de um racismo histórico. Basta ver o que houve com a escola pública quando ela se universalizou: os recursos minguaram e ela perdeu a importância do passado. É só olhar para o que ocorre nas universidades públicas depois da expansão promovida pelos governos do PT: estão sendo asfixiadas financeiramente.

O motivo é óbvio: aquilo que atende a pobres e negros deve ser de péssima qualidade. Combater a propaganda ou uma fala racista de uma celebridade é válido, mas não altera a vida material da maioria dos negros e negras do país. Inserir estudantes proletários na universidade foi um passo tão importante quanto colocar todas as crianças na escola primária. Mas é fácil manter essa política cortando verbas de permanência estudantil e depauperando os salários docentes. É à luz dessas questões estruturais que a esquerda precisa redesenhar sua estratégia e promover o encontro da classe com os que a vivenciam em suas múltiplas dimensões.

2020-2022

A aritmética não define o fracasso do PT. Sua queda brutal nas eleições de 2016 refletiu sua derrota política assinalada pela queda da presidenta Dilma Roussef. Quatro anos depois a situação eleitoral do partido não mudou substancialmente, mas a taxa de preferência partidária voltou a subir. Mesmo em seus momentos mais baixos, o PT é o partido de maior preferência dos eleitores desde 1999.

Por outro lado, o bolsonarismo está longe de derrotado.

Ao PT sobrou duas tarefas. Uma interna e outra externa. A primeira consiste em derrotar os novos capas pretas (como eram chamados os caciques partidários pelos militantes). Para isso seus opositores precisariam de duas coisas: um projeto radical para o país e a capacidade de impor medo à direção. Externamente a tarefa é parecida. Independentemente da disputa eleitoral, cabe atacar no cotidiano as ações da direita. Radicalizar e não propor alternativas bem comportadas no congresso nacional para corrigir a política econômica do governo. Vincular cada luta com uma ideia força global. O tempo de uma oposição parlamentar acabou quando a política se deslocou para as ruas e as redes sociais e um movimento fascista de discurso anti sistêmico chegou ao poder. A mera construção de uma frente do centro (PDT, PSB) com a esquerda (PT, PSol, PC do B) é a via preferida dos dirigentes petistas. Ela é improvável porque os partidos acreditam necessitar de candidatos próprios no primeiro turno em função da legislação eleitoral que impede coligações proporcionais.

Para a esquerda voltar à mesa de negociações terá que ser temível. Começando por questionar velhos tabus. Além da necessária defesa da classe trabalhadora, por que não discutir a extinção do senado, dos cartórios e do segundo turno (ou uma alternativa intermediária como a de países como Bolívia e Argentina)? Essa é até mesmo uma agenda que reabre a discussão com as classes médias. Seria preciso propor resolutamente uma alíquota máxima de apuração do imposto bem maior. Ela já alcançou na história do Brasil patamares “nórdicos” antes do golpe de 1964 e mesmo no final da ditadura manteve-se alta. Em 1988 ampliaram-se os direitos sociais, mas diminuiu-se o potencial de arrecadação. Essa é a contradição básica da nossa Constituição. Houve redução no número de faixas de renda tributadas e a alíquota máxima foi diminuída. Some-se a isso o fim do imposto sobre lucros e dividendos e as leis de responsabilidade fiscal e do teto dos gastos públicos, estabelecidas ao longo das décadas. Aliás, foi o ministro ultra liberal Paulo Guedes quem demonstrou intenção de cobrar imposto sobre os lucros e dividendos e reinstituir a contribuição sobre movimentações financeiras. Contra a posição da maioria neoliberal do Congresso e do seu presidente o “democrata” César Maia.

A esquerda precisa estabelecer seus objetivos estratégicos. Já que não é revolucionária, ela será uma esquerda social democrata de verdade, defensora de uma classe social e de um Estado prioritariamente voltado a ela ou será uma esquerda social liberal que compensa monetariamente indivíduos expulsos do processo produtivo? Será nacionalista ou globalizante e semi colonial? Por fim, pretende derrotar Bolsonaro ou eleger um governo de esquerda? Não se trata da mesma coisa. Daí deriva um programa, sua operacionalização, as táticas, as alianças etc.

O PT é a expressão partidária de um vasto campo democrático popular que se estabeleceu desde a massificação da política eleitoral nos anos 1940. Dificilmente poderia ser substituído sem desagregar o espaço material que ocupa. Ele não é ideologicamente coeso. Como no peronismo argentino, petistas de direita e de esquerda continuarão se defrontando. Somente quando a classe trabalhadora recobrar forças para se movimentar é que aquele campo popular abrirá a chance do PT ou outra organização liderar uma nova era de construção de direitos sociais e trabalhistas no Brasil.

*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de História do PT (Ateliê Editorial).

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Imunidade, impunidade e imprudência

Recomendo a todos que assistam o vídeo em que o senhor Daniel Silveira agride política e pessoalmente vários ministros do Supremo Tribunal Federal, com destaque para Fachin e Alexandre Moraes.

Tem ofensas contra a esquerda.

Tem ofensas contra o STF e seus integrantes.

Tem ofensas pessoais, ofensas políticas e duas acusações diretas.

Uma a ministro que venderia sentenças.

Outra a ministro que teria vínculos com o PCC.

Algum dia saberemos se este vídeo foi um ex abrupto ou se fazia parte de um plano. Seja como for, era impossível aos ministros do STF fazer cara de paisagem frente à acusação de venda de sentenças e vínculos com o PCC, sem falar nas ameaças explícitas de agressão física.

Não sei dizer a dosimetria, mas estes aspectos devem ter pesado muito na decisão de Alexandre Moraes, depois respaldada por todos os outros integrantes do Supremo, de mandar prender o senhor Daniel. Talvez estes aspectos tenham pesado mais do que a “defesa das instituições”, como muita gente gosta de acreditar.

A questão é que o senhor Daniel Silveira não é um cidadão comum, nem um Ratinho, muito menos um general, é um parlamentar. E o artigo 53 da Constituição determina que deputados e senadores são invioláveis por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos; e que não poderão ser presos, salvo em flagrante de crime inafiançável.

Segundo li em textos de especialistas, seriam crimes inafiançáveis os hediondos, de racismo, tortura, tráfico de drogas, terrorismo, participação de ações em grupos armados contra a ordem constitucional e o Estado Democrático. Não há dúvida de que o senhor Daniel Silveira pode ser enquadrado em algum desses crimes; mesmo assim resta a questão do flagrante.

A esse respeito, embora haja opiniões diversas entre os tais especialistas, mesmo os favoráveis à prisão reconhecem explícita ou implicitamente que a decisão de prisão foi tomada digamos “no limite da lei”. Claro que a decisão definitiva sobre a prisão será tomada pelo Congresso: "Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas à Casa respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão", diz a Constituição.

A prisão de um parlamentar e o recurso à Lei de Segurança Nacional levaram algumas pessoas de esquerda a questionar a decisão do STF. Foi o que fizeram, cada um de seu jeito, Breno Altman, o Partido da Causa Operária e Lula.

De fato, o ministro Alexandre de Moraes citou artigos da LSN para embasar a prisão. Herança da ditadura, a LSN foi concebida e está escrita para ser um instrumento contra a esquerda e contra o povo, não contra a extrema direita e o neofascismo e as elites.

No terreno dos princípios, não há dúvida: a LSN precisa ser revogada e precisa ser substituída por uma Lei de Defesa das Liberdades Democráticas. Mas atenção: não fomos nós da esquerda que invocamos esta Lei para prender (santa ironia) um defensor desta Lei. Pergunto: nós da esquerda, que fomos vítimas da ditadura, de Daniel e de Alexandre, agora deveríamos nos meter na briga entre eles e pedir que tenham modos? Deveríamos por causa da LSN e de uma visão heterodoxa acerca do que seria “flagrante” sermos contra a prisão de um facínora?

Na boa, vamos ser práticos: se a prisão não tivesse ocorrido, não aconteceria nada, absolutamente nada. Toda a esquerda poderia pedir a cassação do sujeito e nada iria acontecer. E se a Câmara porventura decidir que ele deve ser solto, total ou parcialmente (tornozeleira, por exemplo), não será uma vitória da Constituição, do garantismo e da imunidade parlamentar, será uma vitória da extrema direita.

A prisão dele cria um precedente?

Este temor não procede. A elite não precisa e nunca precisou de pretexto algum para punir a esquerda, mesmo que ao arrepio da Lei. A ideia de que se formos moderados, eles também serão moderados, se formos republicanos, eles também serão republicanos, já foi desmoralizada várias vezes pela história, inclusive nos governos Lula e Dilma.

Aliás, não se trata apenas ou principalmente da esquerda: não há e nunca houve “garantismo” para o povo pobre, preto e periférico de nosso país. Quantos foram mortos por “balas perdidas”? Quantos estão cumprindo pena sem trânsito em julgado? Nesta Brasil varonil, o garantismo é no fundamental para inglês ver.

O argumento de que não podemos ser a favor da prisão do senhor Daniel, porque estaríamos criando pretextos que poderão ser usados contra nós lembra argumentos que ouvimos em 2019 e início de 2020, quando alguns diziam que não podíamos defender o Fora Bolsonaro e o impeachment, porque ao fazê-lo estaríamos nos igualando ao golpismo da direita contra Dilma.

Como demonstra este caso citado acima, no fundo o argumento de que apoiar a prisão poderia ser utilizado como pretexto contra a esquerda tem como pano de fundo apresentar o bolsonarismo e a esquerda, como se fossem ambos legítimos.

Não são.

Nazismo e comunismo não são simétricos. Fascismo e socialismo revolucionário não são simétricos. Reação e revolução não são a mesma coisa. Aliás, tanto não são que boa parte desta gente que gosta de posar de liberal, na hora do vamos ver ficam do lado do fascismo, como fizeram desde 2016, apoiando o golpe, a condenação e prisão de Lula, apoiando Bolsonaro no segundo turno etc.

Não estamos diante de um “extremismo legítimo”. Não estamos diante da defesa de ideias em tese, que em tese possam ser consideradas legítimas. Nada disso. Por exemplo: a defesa do racismo não é legítima. E não vamos deixar de afirmar isso, com medo de que a direita possa tentar criminalizar o comunismo ou a defesa da revolução.

Isso seria atentar contra a liberdade de expressão?

Digamos assim: se vamos relativizar os ataques do senhor Daniel Silveira contra a ordem-democrática-liberal-burguesa, então por esta mesma lógica deveríamos relativizar todos os ataques, inclusive os de Bolsonaro.

Claro, Daniel Silveira é peixe pequeno. Há muitos outros no parlamento, no governo e nas forças armadas, a começar pelo réu confesso Villas Bôas. Aliás, este cidadão -- além de golpista -- é um grande artista: iludiu muita gente na esquerda. Mas deve ser o brilho dos tais botões dourados, pois dentre os que se iludiram ontem, há os que seguem iludidos hoje, acreditando que Villas Bôas agiu só e não teve o respaldo do restante do comando. Me faz lembrar a teoria dos porões, segundo o qual a tortura não era uma política de Estado.

Mas desde quando somos adeptos da tese do “ou todos nos locupletamos ou restaure-se a moralidade”? Só vamos punir um fascista quando pudermos punir todos?? E só vamos punir os fascistas quando for possível fazê-lo com base na legislação verdadeiramente democrática que vamos aprovar algum dia numa Assembleia Nacional Constituinte que será convocada depois que vencermos de forma avassaladora as próximas eleições???

Evidente: zero de confiança no Supremo. O que move a maioria dos ministros não é a justiça, não é a democracia, não é a Constituição. Se fosse, teriam nos ajudado a barrar o golpe iniciado em 2016. Se fosse, teriam reagido a chantagem do General Villas Bôas, feita no dia 3 de abril de 2018. Na época, a maioria do STF se curvou. Três anos depois, um dos que fizeram genuflexão veio a público dizer ser “intolerável” a tentativa por parte dos militares de tentar pressionar a Corte em 2018. Três anos depois tornou-se intolerável? Bom, tirando o deboche talvez inconsciente, antes tarde do que nunca. Mas se agora Fachin descobriu que Villas Bôas cometeu um crime, que tal mandar prender o criminoso? Ou o crime terá prescrito?

Um último comentário, não acerca deste episódio isolado, mas sobre o conjunto da obra. Desde 2016 o Brasil está no limite da lei. Tanto na briga da direita contra a esquerda, quanto na briga da direita contra a direita, o judiciário passou a ser utilizado explicita e abertamente como instrumento de guerra partidária. Neste ambiente, seguir acreditando e defendendo um republicanismo abstrato não é mais mera ingenuidade, é total imprudência. Prisão para o facínora!