sábado, 14 de novembro de 2020

Pesquisas e "voto útil" no Rio de Janeiro



As eleições na cidade do Rio de Janeiro demonstram o risco que correm os que decidem o seu voto com base nas pesquisas.

No Rio, há mais ou menos um mês, havia quem propusesse "voto útil" na candidatura do PT, supostamente em troca do voto útil na candidatura do PSOL em outra cidade do país.

Também no Rio, mas há uma semana, começou a circular um abaixo assinado pedindo "voto útil", não mais na candidatura do PT, mas agora na candidatura do PDT. 

Alguns dos signatários deste abaixo assinado eram os mesmos que, pouco antes, pediam voto útil na candidatura do PT.

Motivo da mudança?

As pesquisas, que primeiro mostravam a candidatura do PT e, depois, mostravam a candidatura do PDT como tendo, supostamente, maiores chances de ir ao segundo turno.

Pois bem: neste sábado, 14 de novembro, véspera da eleição, sai uma nova pesquisa de intenção de voto.

Desta vez, a pesquisa diz que é a candidatura do PT que tem maiores chances de ir ao segundo turno.

Moral da história: terrível a vida dos que decidem seu voto com base nas pesquisas.

No Rio de Janeiro, não importa o que digam as pesquisas, a melhor opção é Benedita da Silva, 13, do Partido dos Trabalhadores.

E, em todos os lugares do país, vale o mesmo: erra quem deixa as pesquisas decidirem seu voto.






sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Declaração de voto

Voto em Campinas. E, portanto, meu voto é de Pedro Tourinho prefeito 13 e de Guida Calixto vereadora 13020.

Mas se fosse eleitor em São Paulo, votaria em Jilmar Tatto 13.

Primeiro, porque não acredito em “voto útil”, orientado por pesquisas e pelo medo. Voto útil de verdade, sem aspas, é voto naquilo que acreditamos ser o melhor.

Segundo, porque Jilmar Tatto tem mais experiência administrativa, o melhor programa e maior retaguarda partidária para governar a cidade mais difícil do país: São Paulo

Terceiro, porque ele é o candidato do Partido dos Trabalhadores.

Para a direita, ser do PT é um horror. Mas não vejo problema algum em horrorizar as elites de merda que controlam este país.

Para alguns setores da esquerda, ser do PT não constitui um bom argumento. E como suposta prova disto, apresentam uma extensa relação do que seriam nossos erros, defeitos e traições. Aos que pensam assim, proponho um exercício mental: como teria sido a história do Brasil, entre 1980 e 2020, se o PT não tivesse existido. 

Isto posto, boa luta a cada militante petista que está na batalha por conquistar votos. Dia 15, vote 13, vote PT!

E Fora Bolsonaro, Mourão, seu governo, sua política e seus cúmplices, do Norte ao Sul do Brasil!

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Pesquisas em SP capital: com os dois pés no Covas

Os grandes ilusionistas atraem a tua atenção para um ponto, para que noutro ponto possam fazer a “mágica”.

É, em parte, o que está ocorrendo com as pesquisas sobre a eleição em São Paulo capital. 

A grande imprensa e suas pesquisas chamam a atenção da esquerda para a queda de Russomano e para a disputa do eleitorado petista.

Enquanto isso, vão fazendo sua “mágica”: empurrando Covas para uma vitória no primeiro turno.

A manchete da Folha de S.Paulo de hoje é “Covas vai a 32%; Boulos, em triplo empate, está com 16%”.

Repito aqui o destacado por uma amiga: “Em 2016, no mesmo ponto da eleição, João Doria (PSDB) tinha 35% dos válidos (e 30% dos totais), e acabou eleito no primeiro turno –quando o candidato precisa de 50% mais um voto para vencer”.

Ao ler a manchete, os candidatos em “triplo empate” são estimulados a lutar entre si para decidir quem vai ao segundo turno. Mas esta luta (que, por motivos óbvios, não vou chamar de fratricida) não altera a soma geral dos blocos de votos, nem afeta a transferência de votos em direção a Covas, que poderá seguir crescendo em direção à vitória. 

Por quais motivos a mágica pode funcionar?

Um motivo: a aceitação acrítica das pesquisas. Aliás, ocorre algo pior: o debate político, o debate sobre os problemas nacionais, estaduais e municipais; o debate sobre o perfil das candidaturas e de seus programas de governo; tudo isto vai perdendo espaço para... as pesquisas. A coisa chega a tal ponto que uma das candidaturas da esquerda dá grande espaço, no seu horário de TV, para um esquete com bonequinhos que fazem uma corrida (infelizmente, a descaracterização não para por aí, mas falar disso fica para outro momento). 

Outro motivo: uma percepção indevida sobre a dinâmica da eleição em dois turnos e sobre a composição social das diferentes candidaturas. Aliás, quando comparamos a votação das candidaturas de esquerda em 2016 e em 2020, percebemos que um de nossos problemas continua mais ou menos o mesmo: nosso núcleo duro gira em torno de 20% do eleitorado. Portanto, nosso esforço deveria ser ganhar votos para além deste núcleo duro, conquistar os votos de quem não tem candidato, ou de quem vota nas candidaturas da direita.

Um último comentário: a mais recente pesquisa DataFolha diz que Boulos teria crescido de 14% para 16% e diz que Tatto teria ido de 6% para 4%. É possível que isto tenha ocorrido? Claro, até porque há forças trabalhando neste sentido, inclusive alguns "generais paraguaios" (ver: http://valterpomar.blogspot.com/2020/11/o-globo-e-eleicao-paulistana-perdao.html). Além disso, o dado é compatível com uma das afirmações feitas acima: a disputa (no caso, fratricida) é, no que diz respeito a forçar um segundo turno, um jogo de soma zero. Mas a mesma pesquisa DataFolha contém várias outras informações (conhecimento entre os eleitores, composição social do voto etc.) que sugerem números diferentes. A mais importante é a famosa margem de erro: 3 pontos percentuais. Logo, Boulos pode ter subido ou pode ter caído, Tatto pode ter subido ou pode ter caído, pois alterações dentro da margem de erro podem simplesmente não ter ocorrido.

Mas, claro, isto faz parte da mágica.

No mundo real, se os "generais paraguaios" não atrapalharem demais, quem vai decidir é o voto do povão e a militância vietnamita.

Portanto, vamos à luta: no dia 15, é Tatto 13.

ps1.no país, várias candidaturas petistas crescem na reta final. 

ps2.no país, as candidaturas bolsonaristas caem na reta final.

ps3.no país, as candidaturas da direita não bolsonarista são a grande aposta de uma boa parte das elites.



quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Roteiro para a fala no TRIBUTO A DAVID CAPISTRANO FILHO



Boa noite a todos, boa noite a todas.

 

Na divisão de trabalho desta homenagem, me coube falar da relação entre o David e o PT. E farei isto sempre que possível com base no que o próprio David disse ou escreveu.

 

Começo falando de um evento que ocorreu entre os dias 20 e 24 de novembro de 1987: o seminário internacional sobre os 70 anos de tentativas de construção do socialismo, organizado pelo Instituto Cajamar.

 

Foi um evento muito importante, que contou com a participação entre outros de Lula e de Prestes.

 

Terminado o seminário, editamos um livro com as atas do seminário.

 

20 anos depois, a Fundação Perseu Abramo republicou este livro em versão fac-símile.

 

Vou ler para vocês a fala do David, onde ele apresenta sua visão sobre o PT.

 

Apesar de todo o respeito que devo à memória de meu pai, que dedicou a vida e a morte à luta revolucionária no PCB, nós temos que, sem nenhuma espécie de reverência, dizer o seguinte: acabou. PCB, PC do B, a experiência de organização e de atividade política inspirada na experiência da III Internacional, “acabou”, é hoje uma expressão residual, não têm mais a menor importância quando se fala de esquerda, de movimento de massa, de unidade de esquerda. Quando a gente fala dos problemas da esquerda no Brasil hoje, temos que pensar nos problemas da organização política que é herdeira de um conjunto muito variado, muito vasto, muito amplo de experiências e de lutas populares dos trabalhadores de várias inspirações ideológicas, que é o PT. Até porque as outras correntes que se possa com muita generosidade chamar de esquerda no país não têm claramente um projeto partidário que permita uma articulação em termos de militância.É o caso da corrente pedetista, brizolista. Embora Brizola tenha prestígio, vai demonstrar isso nas futuras eleições presidenciais, não é uma corrente estruturada com a qual nós devemos nos medir, competir na disputa das entidades de massa e da influência política e ideológica no país. Muito menos essas coisinhas tipo partido socialista, essa coisa chamada esquerda do PMDB. A organização depositária da possibilidade de desenvolvimento e fortalecimento do movimento revolucionário, do movimento da classe trabalhadora, do movimento pelo socialismo no nosso país, é o Partido dos Trabalhadores, as forças, as correntes e os militantes que estão reunidos no Partido dos Trabalhadores. existe enorme desafio à frente do PT para que ele se converta efetivamente no organismo capaz de impulsionar e de dar uma consequência positiva, um final feliz à luta que todos nós desejamos vitoriosa pela transformação revolucionária de nossa sociedade.

Uma coisa importante que não pode faltar no projeto e no desenvolvimento do PT é a consciência do tamanho do desafio que nós temos que enfrentar, do tipo de sociedade em que nós vivemos, a reinterpretação daquele verso ufanista, “criança, não verás nenhum país como este”. Um país onde nós trabalhadores, os de baixo, o povo, nunca conhecemos o sabor de uma vitória plena. Nunca houve neste país um dia da caça, nunca.Todos os processos que em outros países levaram a afirmações vitoriosas de movimentos populares, de movimento de natureza revolucionária, de natureza rebelde, de cunho popular, aqui foram resolvidos por cima. Foi assim com a independência, foi assim com todo o processo de industrialização, de urbanização, de modernização vivida pelo país. Nós temos uma tradição negativa, uma carga pesada para revirar e para derrotar neste país, uma elite competente, classes dominantes competentes, que foram capazes de dirigir um processo rigoroso de transformação econômica do país, de industrialização, de urbanização, de criação de uma infra-estrutura de transporte e comunicação. Classes dominantes extremamente ferozes, que jamais hesitaram diante do uso de toda a sorte de meios para conservar a continuidade de seu poder e de sua dominação.

Não podemos jamais nos esquecer disso e incorrer em qualquer consideração a respeito de supostas facilidades que possamos enfrentar na nossa luta atual e no futuro. Nós vivemos num país, só para citar um pequeno exemplo, onde as classes dominantes foram capazes de adiar durante 60 anos uma medida que do ponto de vista da economia estava madura, como foi a abolição da escravidão, por conveniência política. Uma elite dominante que foi capaz, para manter a estrutura de poder, a estrutura social e o latifúndio no Nordeste, de impedir que o processo de industrialização do Sul do país se fizesse com a mão-de-obra, com o braço do trabalhador do Nordeste, e patrocinou para isto a importação da mão-de-obra da Itália, da Espanha e de tantos outros países.

Nós temos uma tradição e uma carga de ferocidade, de autoritarismo de um Estado que pode se orgulhar de uma história contínua, durante séculos, que nós nunca conseguimos derrotar, nunca conseguimos pôr abaixo. E evidentemente temos pela frente toda a herança desses anos de ditadura. São enormes desafios, enormes tarefas,para que a classe trabalhadora possa se apresentar como classe dirigente nacional, capaz de oferecer um rumo para este país. E ela é a única que pode se oferecer como classe dirigente nacional. Mais que nunca é necessário que nós nos preparemos para isto, ajudemos, lutemos nessa direção. Para essa tarefa de qualificar a classe trabalhadora como classe dirigente nacional nós temos de desenvolver plenamente a extrema originalidade do Partido dos Trabalhadores, originalidade que, aliás, radica principalmente em ter mais uma vez desafiado certos dogmas.

Um dos dogmas da concepção leninista, por exemplo, é uma idéia que posso chamar até de iluminista, a idéia de que temos que partir de um núcleo central, de um programa definido. É por isso que a esquerda disputa em torno de questões que para o comum dos mortais parecem bizantinas, parecem quinquilharias. Uma palavra diferente num programa é motivo de uma cisão, é motivo de racha. Isso tem lógica dentro da concepção leninista de partido, quando o partido se constrói como núcleo de intelectuais revolucionários profissionais que vão iluminar e conduzir as massas e vão transformar suas idéias em força através da adesão das massas trabalhadoras. O processo do PT é um processo difícil, tumultuoso, novo, porque é de cabeça para baixo, é a partir da luta, da experiência, a partir do enraizamento no mundo do trabalho, que vai se construindo esse instrumento de luta e esse instrumento de libertação. Mesmo sendo este processo invertido, novo, original, é necessário evidentemente que conquistemos pontes em direção ao mundo do saber, ao mundo da intelectualidade, em direção às camadas de onde não nasceu primeiramente o Partido dos Trabalhadores, mas sem as quais não conseguirá a classe trabalhadora se afirmar como classe dirigente nacional. Até por que a própria classe trabalhadora, como fruto de todo um processo de revolução técnica e científica, não vai mais sendo composta apenas do tradicional proletariado industrial, vai comportando em seu interior novas camadas que podemos classificar, de certa forma, de trabalhadores intelectuais.

Temos esses desafios pela frente a partir de nossa limpidez, a partir de nossa transparência, a partir do nosso radicalismo no sentido bastante saudável e necessário de ir às raízes. Vamos superar elementos, que temos ainda em nossa prática, de sectarismo, de intolerância, e construiremos um partido com essas pontes para o mundo do saber, com essas pontes para as camadas médias, com a condição de intérprete de uma vocação e de uma capacidade dirigente nacional da classe operária e dos trabalhadores, um partido que apresente a todos os lutadores a sua imagem de um partido que ele de fato é e precisa perseverar nesta direção, ideologicamente pluralista e generoso com todos que se situem no terreno da luta, aceitando a unidade de ação com todos que queiram brigar, com todos que estejam conscientes da necessidade de uma luta feroz, de uma luta tenaz, de uma luta difícil para derrubar essa elite brasileira, esta classe dominante brasileira e construir um país diferente, um Brasil socialista.

 

No PT, David foi da executiva do Partido no estado de SP, exatamente em 1988, quando ganhamos muitas cidades importantes, entre as quais Santos, onde ele assume a secretaria de Saúde.

 

Nessa época, ele também contribuiu ativamente nos debates sobre a crise do socialismo soviético, lutando para não jogar a criança fora junto com a água suja.

 

E contribuiu no debate sobre qual deveria ser a estratégia do PT, após as eleições de 1989.

 

Em 1993, ele participa da criação do movimento “A hora da verdade”, defende o presidencialismo e luta para que o PT se mantenha na oposição ao governo Itamar.

 

Ele e um companheiro de Franco da Rocha eram os únicos prefeitos petistas vinculados a este movimento “hora da verdade”.

 

E ele era super ativo.

 

Por exemplo: durante o 9º encontro estadual do PT em SP, David foi um dos autores de um documento, distribuído a todos os delegados, intitulado “A Carta aos delegados(as) da Articulação. Em defesa da verdade”.

 

O documento dá uma ideia de como David pensava, neste momento, a luta interna no PT. Segue a íntegra:

 

Pela primeira vez, a Articulação se apresenta

dividida num encontro estadual: duas teses, duas

chapas, dois candidatos a presidência.

De um lado estão os defensores da tese Por um

governo democrático e popular, que lançaram no início do ano o Manifesto A hora da verdade e que

defendem Arlindo Chinaglia para presidente estadual do PT. De outro lado, estão os signatários da

tese Unidade na Luta.

Essa divisão criou a expectativa de que o 9º

Encontro Estadual seria marcado pelo debate

franco das divergências. Não é isso o que está

acontecendo.

Os mesmos companheiros que há menos de 60

dias propunham que o PT namorasse o governo

Itamar, agora fazem discursos de inflamada oposição.

Os mesmos que defendiam uma política de

alianças baseada em negociações eleitoreiras,

agora disputam para ver quem ataca mais o

PSDB.

Os mesmos “notáveis” que ainda ontem tentavam dirigir o partido através da imprensa, agora

se apresentam como os campeões da democracia

interna.

Os mesmos que hoje dizem defender a unidade

da Articulação, ontem propunham formar uma

tendência reunindo a Articulação com o Projeto

para o Brasil, dos deputados José Genoíno e Eduardo Jorge, na conhecida Operação Comodoro.

Os mesmos que criticam a Articulação Hora

da Verdade por buscar a unidade da esquerda

petista, já consumaram um acordo político e eleitoral com a direita petista. Acobertam aqueles

que defendiam a ida do Partido para o governo

Itamar. Absorvem os que propunham aproximar

nosso partido do governo Fleury. Protegem aqueles que chamaram a militância de burra, por ter

optado maciçamente pelo presidencialismo. Defendem aqueles que querem levar o PT para a socialdemocracia.

Esta atitude dos que dirigem a Unidade na

Luta está impedindo a discussão política no Encontro. Este jogo de cena, este oportunismo de

palanque, destina-se a confundir os delegados e a

garantir o controle da direção partidária.

Nós, militantes da Articulação, signatários da

tese Por um governo democrático e popular, entendemos que a apresentação leal das divergências faz parte da ética na política. Repudiamos os

conchavos de que participa um pequeno número

de dirigentes. Preferimos deixar claro o que pensamos.

Achamos que para dirigir a campanha Lula e

a ação partidária, num momento em que a burguesia tenta desqualificar nosso partido e nosso

candidato a presidente, é necessária uma direção

firme, que recuse as ambiguidades e as vacilações.

Uma direção que busque atrair e dirigir nossos aliados, e não seguir a seu reboque. Uma direção que tenha a ousadia de proclamar a falência

das elites dirigentes do país, a necessidade de reformas profundas, e que tenha a coragem de assumir os enfrentamentos que a mudança vai exigir

de um governo democrático e popular.

Com base nesse programa e num partido democratizado, coerente e revitalizado, se tornará possível realizar uma campanha eleitoral de

massas, um verdadeiro movimento por reformas

estruturais, que ganhe milhões não apenas para

votar mas principalmente para apoiar ativamente um governo comprometido com o fim do apartheid social e com a luta pelo socialismo.

Esses são os motivos pelos quais apresentamos

nossa tese, nossa chapa, nossos candidatos. Evitando os acordos de cúpula, garantiremos que a

decisão seja realmente dos delegados, das bases.

Para que a unidade seja realmente construída na

luta.

 

Neste 9º encontro, David fez uma fala memorável sobre a política de alianças, lembrando que ele como prefeito de Santos fazia alianças amplas, mas não se subordinava aos aliados de direita, mas sim os mantinha “na ponta do chicote”.

 

Aliás, o David era um orador poderoso.

 

A esquerda ganhou o encontro de SP, assim como ganhou o 8º encontro nacional do PT.

 

Nessa época, a revista Teoria e Debate publicou uma longa entrevista com dona Maria Augusta Capistrano, onde obviamente o pai de David e o próprio David foram muito citados.

 

Aliás, é um capítulo particular a influência, na personalidade de David, tanto do David pai, quanto da mãe.

 

Na citada entrevista, dia 1/12/1993, Maria Augusta diz o seguinte:

 

Fiquei muito satisfeita quando meu filho foi para o PT, porque eu acho que é o caminho certo para qualquer cidadão de esquerda. O PT é o partido em que as pessoas se encontram para tentar acertar. O PT hoje é o herdeiro das lutas da classe operária brasileira, o partido que defende os interesses da classe operária dentro de uma formulação de acordo com uma época que está se vivendo. Por isso, eu apóio o PT.

 

Em 1994 houve uma prévia para escolher a candidatura do PT ao governo de SP.

 

De um lado estavam os apoiadores de Dirceu.

 

De outro lado estavam os apoiadores de Telma.

 

David apoiou Telma, entendo que basicamente por razões internas a Santos.

 

Dirceu foi vitorioso, num processo muito duro, que incluiu uma reunião da CEE em que um cidadão compareceu armado.

 

Ficamos de fora do segundo turno estadual e David esteve entre os que defenderam apoiar Mário Covas contra Rossi, no segundo turno.

 

Passada a eleição, no 10º encontro nacional do PT em Guarapari, a esquerda do partido perdeu a maioria que tinha no Diretório Nacional do Partido.

 

Perdemos por 2 votos na chapa e por 16 votos na presidência.

 

Naquele encontro ocorreram vários episódios bizarros, entre os quais a crítica feita por Cesar Benjamin contra José Dirceu, no momento em que se faziam as defesas das duas candidaturas a presidência nacional do PT, de um lado o candidato da esquerda do Partido, o Hamilton Pereira (Pedro Tierra) e de outro lado o José Dirceu.

 

Sem entrar em detalhes, a coisa quase transformou-se em pancadaria generalizada.

 

Depois do encontro, David foi uma das pessoas que conversou com César Benjamim, privadamente.

 

David censurou Cesar Benjamin, entre outras coisas por não ter informado, previamente, o que diria no discurso.

 

Na conversa, César reconheceu que havia errado.

 

Mas logo depois, sem avisar previamente ninguém, César saiu do PT, comunicando isto através de um artigo publicado na Folha de SP.

 

A esquerda perdeu a direção nacional e a direção estadual de São Paulo.

 

Depois disso, veio a fase final do governo de David em Santos.

 

David era uma pessoa muito inteligente, muito culta e muito ativa.

 

E sua maneira de tratar as pessoas era muito peculiar.

 

Ele era capaz de te criticar publicamente de maneira quase ofensiva.

 

Mas também era capaz de se preocupar sinceramente contigo, no plano pessoal.

 

É também por isso, creio, que algumas pessoas guardem do David lembranças aparentemente antagônicas.

 

Do ponto de vista político, David não tinha absolutamente nada de sectário.

 

Estabelecido o objetivo, construía as alianças que fossem necessárias para aquele objetivo.

 

E do ponto de vista administrativo, era um cara muito interessante.

 

Ele era verdadeiramente animado pela ideia de que cabia ao poder público melhorar a vida das pessoas.

 

E colocava toda a sua energia e criatividade a serviço disso.

 

No ano de 1996, tivemos prévias para escolher a candidatura do PT à prefeitura de Santos.

 

Houve prévias entre Telma de Souza e uma outra companheira.

 

David não apoiou Telma.

 

O processo foi duríssimo, com direito novamente a diversas situações bizarras, entre as quais pessoas armadas na sede do Partido.

 

Telma venceu e, na campanha, ela manteve distância de David.

 

Como é óbvio que aconteceria, a divisão levou a nossa derrota.

 

Aliás, um registro.

 

Recentemente, nosso candidato a prefeito de Santos, o companheiro Douglas, respondendo a uma pergunta provocativa, denunciou como xenofobia e fascismo a atitude dos que, em Santos, diziam que David e outros eram “gafanhotos”, vindos de fora.

 

Infelizmente, não foi só na direita que se falava de gafanhotos. Mas sobre isso Douglas já disse o que teria que ser dito e recomendo a todos que vejam no YouTube o que ele disse.

 

O final do governo de David foi muito difícil. Outras pessoas aqui podem falar melhor deste período, bem como do que veio depois, essa fase da saúde família em São Paulo, com o Jatene.

 

No dia de seu enterro, foi emocionante ver as sirenes das ambulâncias tocando em sua homenagem, quando o cortejo passou em frente a um hospital em Santos.

 

Na cerimônia anterior a cremação, uma oração infelizmente não foi longa o suficiente para fazer David ressuscitar (de irritação).

 

David era uma pessoa singular, muito especial, muito capaz, muito trabalhador, muito politizado.

 

David teria sido um ótimo ministro da Saúde.

 

David teria sido um ótimo presidente nacional do PT.

 

E seguramente estaria comandando, dentro e fora do PT, a luta contra o social-liberalismo, a socialdemocracia e também contra certo “esquerdismo de redes sociais”.

 

E, principalmente, acho que ele estaria animando as pessoas, contra o baixo astral, contra a desesperança.

 

Tudo o que eu falei aqui, eu testemunhei pessoalmente. Outras situações que eu testemunhei, ficam para outra ocasião.

 

Quero terminar dizendo que ele era muito gozado, muito divertido. Por exemplo, dizia que não gostava de ver certos filmes sobre derrotas que sofremos na luta revolucionária, porque ele chorava.

 

David foi embora muito novo. Faz muita falta.


https://www.youtube.com/watch?v=3EHFMnp_7Ug&feature=youtu.be

 

O Globo e a eleição paulistana: perdão pela falha!

Ontem participei de uma homenagem ao companheiro David Capistrano.

Ele nos deixou em 2000.

Me coube falar da relação entre Davi Capistrano e o PT.

Hoje me dei conta de que cometi uma falha grave.

Esqueci de citar uma das mais geniais (e politicamente incorretas) frases de sua lavra.

A de que o PT teria uma base composta por soldados vietnamitas, dirigentes intermediários que lembravam aqueles sargentos ianques de filme e um estado-maior composto por generais paraguaios.

Lembrei disto ao ler uma notícia, publicada no jornal O Globo, sobre uma reunião em que dirigentes do Partido teriam feito pressão pela retirada da candidatura Tatto.

Certamente a notícia é falsa.

Pois seria simplesmente inacreditável que altos dirigentes nacionais se prestassem a fazer este tipo de serviço e ainda vazassem para a imprensa... do Rio!!

Pois vamos combinar: há seis meses, quando se definia qual seria nossa tática em São Paulo, havia várias alternativas e todas eram legítimas e factíveis.

Hoje, faltando poucos dias para a eleição, só há duas alternativas.

Uma é ampliar ao máximo a campanha, conquistar o máximo de votos populares, votar em Jilmar Tatto 13.

A outra é capitular ao bullying. 

Capitulação que teria efeitos catastróficos, não apenas sobre a eleição de São Paulo. 

Pois um partido que cede a este tipo de pressão, dificilmente levantará novamente a cabeça. E muito dificilmente terá o respeito da militância vietnamita.

Mas, como já disse, certamente a notícia publicada pelo Globo deve ser falsa.

Pois nem os generais paraguaios seriam capazes de tanta torpeza.

Todo apoio ao companheiro Tatto e, principalmente, aos milhares de militantes do PT que seguem buscando voto, não entre os convertidos, mas no povão.

ps. para os que gostam de citação, vai uma adaptação bíblica: Tudo tem seu tempo. O tempo agora é de lutar, lutar e lutar. 


 

 

 

 

Tatto, Boulos e as viagens de Gulliver

Amanhecer do dia 11 de novembro.

Café antes do trabalho.

Leitura das mensagens.

Duas encabeçam a lista.

Uma, enviada por uma petista indignada com a pressão psolista nas redes sociais, traz um divertido card em que o velho Mouro pede que os petistas se unam em torno do melhor aluno de Stanislavski.

Outra, enviada por um esquerdista, que passou seus últimos 18 anos azucrinando dia e noite o PT com uma retórica haikai contra nossas "traições", mas que agora pede “lucidez” ao Partido.

O fato é que alguns dos apoiadores da campanha Boulos dedicam a maior parte do seu tempo a assediar o voto dos eleitores petistas.

Ou seja: do voto de quem, hoje, já se decidiu a votar em Tatto.

Os argumentos são variados.

Mas a prioridade é, em si mesma, um equívoco total.

Pois o que vai decidir esta eleição, tanto no segundo quanto no primeiro turno, não é o voto dos já convertidos à esquerda.

O que vai decidir esta eleição é o voto dos que ainda não votam na esquerda.

Os que não querem ir votar, os que no momento dizem que vão votar branco, nulo, em nenhuma das candidaturas. E os que votam, por enquanto, nas diferentes candidaturas da direita.

Infelizmente, a atitude de alguns dos apoiadores da campanha Boulos é, do ponto de vista estritamente eleitoral, funcional às candidaturas da direita.

Neste sentido, ao contrário das melhores intenções, esta atitude autofágica não contribui para que tenhamos segundo turno; nem contribui para que tenhamos a esquerda no segundo turno.

Mas, claro, é uma atitude funcional do ponto de vista dos que têm como objetivo real, não o de governar São Paulo, não o de ganhar as eleições, não o de levar a esquerda ao segundo turno, mas sim o de disputar com o PT.

E o PT?

A campanha de Tatto tem como prioridade conquistar os votos do povão.

E, por isso, tem que resistir calada ao bullying diário, tanto de alguns apoiadores de Boulos, quanto de militantes que estão costeando o alambrado.

Alguns, porque no fundo resolveram fazer luta interna, na hora errada e do jeito errado.

Outros, porque se curvaram tanto à lógica institucional, que acham normal sacrificar seu partido, em nome de um suposto resultado eleitoral.

E, claro, há também os “jeniais” estrategistas, que acham que as eleições são como as partidas de xadrez que jogam contra si mesmos.

Na noite de 15 de novembro veremos o que o povão decidiu. Se haverá segundo turno, quem estará no segundo turno, qual a votação efetiva do PT.

Mas qualquer que seja o resultado, ficam duas certezas. Tem gente que vai sair melhor e maior do que entrou. E tem gente que, na ânsia de ser maior, vem se apequenando e se domesticando.

É da vida.

Swift explica.

Dia 15, vamos votar no 13. Em São Paulo, com Tatto.

 

 

 

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A pesquisa Ibope e a eleição de São Paulo

Ontem o Ibope divulgou nova rodada de pesquisas.

No caso da cidade de São Paulo, comparando a pesquisa de 9 de novembro com a de 30 de outubro, teria ocorrido o seguinte:

1/a candidatura de Covas teria subido muito e lideraria isolado;

2/o segundo lugar estaria sendo disputado por Boulos, Russomano e França;

3/depois viria um terceiro pelotão, onde estariam Tatto e Mamãe Falei;

4/em seguida viriam as demais candidaturas.

Não cito os números, porque a pesquisa tem uma margem de erro de 3 pontos percentuais, o que torna possível qualquer malabarismo. Por exemplo: Tatto poderia ter de 3% a 9%, Boulos poderia ter de 16% a 10%.

Assim, números deixados de lado, e supondo que a pesquisa não esteja manipulada, nem contenha nenhuma falha metodológica mortal, o que podemos dizer?

1/que é provável que haja segundo turno;

2/que é muito provável que a candidatura Covas, apoiada por Doria e por Marta, esteja no segundo turno;

3/que não está decidido quem mais estará no segundo turno, disputando contra Covas;

4/que provavelmente Russomano não estará no segundo turno: aliás, em todas as partes, as candidaturas apoiadas por Bolsonaro passam por dificuldades;

5/que, a depender do que ocorra nos próximos dias, há margem estatística em alguns casos e política noutros casos para que vários postulantes consigam estar no segundo turno: Boulos, França, Tatto, Mamãe Falei e inclusive Russomano.

Entretanto, a maneira como o Ibope divulgou seus números e a maneira como as pessoas se habituaram a ler as pesquisas, induz muita gente a achar que Boulos seria o melhor posicionado para estar no segundo turno, pois supostamente estaria em segundo lugar.

Motivo pelo qual alguns de seus apoiadores tem se dedicado, diuturnamente, a conquistar votos de petistas. Acham que, fazendo isto, Boulos teria grande chance de estar no segundo turno.

Veremos, em poucos dias, se este tipo de movimentação terá efeitos eleitorais e quais efeitos eleitorais terá. Mas há fortes sinais de que os defensores do voto útil possam terminar como aquele famoso aprendiz de feiticeiro.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a campanha pelo “voto útil” também está em marcha, mas nesse caso para tentar beneficiar a candidatura do PDT. O que, certamente, não era o resultado esperado por alguns que defendiam o voto útil com o argumento de “trocar o Rio por São Paulo”.

Já em São Paulo, os defensores do “voto útil” deveriam ficar espertos para uma informação que consta da mesmíssima pesquisa em que se baseiam, a saber: Boulos estaria congelado, sem cair, nem subir. Some-se isto com a presença de Márcio França, candidato do PDT de Ciro Gomes e do PSB de São Paulo (ou seja, dos tucanos anti-Dória); e a conclusão é de que defender o “voto útil” pode ser meio caminho andado para o voto mais inútil da história de muita gente.

Isto posto, e a bem da verdade, não é a primeira vez que o PT sofre este tipo de pressão.

Foi assim no início de nossa trajetória, quando, em nome de derrotar a direita, se pedia ao PT que abrisse mão de lançar candidaturas. Ou que as retirasse, em favor de candidaturas supostamente melhor posicionadas.

O impressionante, portanto, não é que haja campanha pelo voto útil. Nem é impressionante a crença nas pesquisas, a certeza com que algumas pessoas fazem cálculos de viabilidade e apostas neste ou naquele tipo de segundo turno, ou as certezas absolutas sobre o que vai ocorrer em 2022, à luz do resultado X ou Y em 2020.

O que impressiona é a vista curta com que alguns petistas tratam o assunto. É impressionante, mas não é surpreendente: de um lado, há setores que estão fazendo luta interna, na hora e do jeito errado; de outro lado, há setores que transformaram as disputas eleitorais no alfa e ômega da sua atividade política.

Convenhamos, não é nem um pouco misterioso o que está em jogo. Afinal, quando vários defensores do “voto útil” falam que é preciso deixar de lado os interesses partidários, eles estão expondo honestamente o núcleo do problema. Pois olhando a história dos últimos 40 anos, nada foi mais importante para a luta do povo brasileiro, nada foi mais importante para as liberdades democráticas, do que a construção de uma esquerda de massas, nucleada pelo PT.

O fato é que a pressão brutal para que o PT “desista” de sua candidatura em São Paulo visa objetivos muito mais estratégicos. Afinal, um partido de esquerda que, no auge da batalha, desiste da luta por temor da derrota, muito dificilmente voltará a levantar a cabeça.

Por isso, para além de muitos outros argumentos que já foram expostos noutros textos, fazer campanha, defender a candidatura e votar em Tatto prefeito de São Paulo tem um significado que transcende a eleição de 2020 e o município de São Paulo.