quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Opiniões sobre a estratégia

Texto enviado para publicação em uma antologia organizada por Roberto Regalado.

Depois da crise de 2008, ocorreu uma mudança na situação internacional e na situação interna de muitos países, inclusive na América Latina e Caribe, levando a uma intensificação do debate acerca de qual deve ser a estratégia das organizações comprometidas com a luta pelo socialismo. 

O que a crise de 2008 confirmou? Que o capitalismo, particularmente o tipo de capitalismo hegemônico no mundo até o momento, é instável e propenso a crises brutais, que se desdobram em crises e guerras sociais, políticas, econômicas, culturais e militares.

A crise de 2008 confirmou, também, que a classe capitalista dos Estados Unidos e países aliados não tem disposição efetiva de reformar o capitalismo, ao menos no sentido de reduzir as causas da instabilidade e das crises.

Pelo contrário, as classes dominantes dos EUA e aliados operam no sentido de manter e ampliar a taxa de lucro, nos patamares possibilitados pelos chamados mercados financeiros, o que produz mais instabilidade e crises, além de reduzir cada vez mais a possibilidade de “convivência pacífica” entre capitalismo, bem-estar social e liberdades democráticas. Assim como reduz as chances de “convivência pacífica” das grandes potências capitalistas entre si e destas frente aos demais países.

Portanto, vivemos em um período da história em que a luta entre as classes e a luta entre os Estados tendem ao acirramento, não à conciliação.

Parte da esquerda latino-americana e caribenha já sabia disto, antes de 2008. Mas uma boa parte da esquerda não acreditava e mesmo hoje segue preferindo apostar na possibilidade de convivência mais ou menos pacífica entre capitalismo, bem estar, liberdades e soberania nacional. Ou, pelo menos, acha que a incompatibilidade de convivência estaria restrita ao imperialismo, ao neoliberalismo e ao capital financeiro, não ao capitalismo.

Tais crenças partem de uma profunda ignorância acerca das tendências do capitalismo. Por outro lado, tais crenças revelam uma incompreensão acerca da relação profunda existente entre a luta pelo socialismo e as lutas por democracia, bem estar, soberania e integração, especialmente nos momentos de crise do capitalismo.

Desta combinação entre ignorância e incompreensão decorre, mesmo não sendo esta a intenção, uma atitude que enfraquece a luta por reformas e deixa a luta pelo socialismo numa espécie de “fila de espera”.

Este duplo enfraquecimento nem sempre fica explícito. Até pouco depois de 2008, se dizia que a América Latina estaria conseguindo avançar, melhorar a vida do povo, ampliar as liberdades, afirmar a soberania, construir a integração regional, contribuir para mudar o mundo, sem que para isso fosse necessário lutar por enfrentar e superar o capitalismo.

Um setor da esquerda afirmava, ademais, que colocar na ordem do dia a luta anticapitalista pelo socialismo atrapalharia, uma vez que o desenvolvimento seria uma das condições necessárias para que as mudanças anteriormente citadas fossem alcançadas. E (China malgré) não haveria desenvolvimento possível, que não fosse aquele regido pelo capitalismo.

A título de “compensação”, dizia-se também que aqueles êxitos fariam parte de um acúmulo de forças que, no futuro, permitiria avanços maiores em direção ao socialismo.

Os argumentos resumidos anteriormente perderam força, entre 2008 e 2018, devido às derrotas sofridas pelos governos chamados de progressistas e de esquerda na América Latina, devido aos retrocessos nas políticas de bem estar, nas liberdades democráticas, na soberania nacional e na integração regional tanto na América Latina quanto na Europa, assim como devido ao curso dos acontecimentos nos EUA.

Entretanto, mesmo depois que aquele tipo de acúmulo converteu-se num desacumulo de forças, parte importante da esquerda latino-americana e caribenha segue defendendo que o socialismo deva ser mantido na “fila de espera”.

Agora, o argumento utilizado não diz respeito aos avanços, mas sim aos retrocessos: a classe trabalhadora estaria ameaçada de perder tudo o que conquistou anteriormente. Logo, nossa tarefa seria resistir, impedir o desmonte, recuperar o terreno perdido. Como esse trabalho de resistência é apresentado como dependente de uma frente ampla em torno de um programa mínimo, colocar em pauta a luta pelo socialismo seria contraproducente, inconveniente, extemporâneo.

Em síntese, o raciocínio estratégico adotado por uma parte da esquerda latino-americana conduz à seguinte conclusão: o socialismo não seria uma necessidade urgente quando o capitalismo parece bem e a classe trabalhadora parece forte; e não seria uma possibilidade realista quando o capitalismo parece mal e a classe trabalhadora parece fraca. Portanto, nem nos momentos em que as coisas estão mais difíceis, nem nos momentos em que as coisas estão menos difíceis, em nenhuma situação a luta pelo socialismo ganharia efetiva centralidade estratégica.

Adotar este jeito de pensar pode levar, mais cedo ou mais tarde, à ruptura com o socialismo e à adesão a alguma variante da “moderna” socialdemocracia. Ou pode conduzir a uma relação romântica, religiosa, mística, com o socialismo, que perde assim qualquer sentido prático, político, estratégico.

Sendo assim, um dos desafios para aquelas organizações que buscam manter viva a luta pelo socialismo, é deixar claro que existem vínculos profundos entre os objetivos imediatos e os objetivos históricos, entre a tática e a estratégia, entre a luta pelo socialismo e as lutas por democracia, bem estar, soberania e integração.

Uma questão é: quais vínculos?

A resposta depende do que entendemos por “lutar pelo socialismo”.

Entendemos que lutar pelo socialismo é lutar para que a classe trabalhadora controle os meios de produção e os instrumentos de poder. Ou, visto de outro ângulo, lutar pelo socialismo é lutar para que a classe capitalista perca o controle dos meios de produção e dos instrumentos de poder. Se esta luta tiver êxito completo, a transição socialista desembocará numa sociedade comunista. Se esta luta não tiver êxito, a tendência é a regressão ao capitalismo.

Entretanto, há diversos exemplos históricos de que a classe trabalhadora pode melhorar de vida, mesmo sem controlar os principais meios de produção e os principais instrumentos de poder.

Mas tanto a experiência da socialdemocracia europeia, quanto a experiência do populismo e da esquerda latino-americana, confirmam haver limites para a melhoria de vida possível de ser conseguida, pela classe trabalhadora, nos marcos do capitalismo.

Estes limites são de dois tipos fundamentais: a) o quanto se pode melhorar de vida; b) a existência de uma “fronteira” que, ultrapassada, provoca uma reação geral dos capitalistas em favor do status quo ante.

Os pretextos para uma reação geral não estão relacionados com a quantidade e a qualidade da melhoria da vida da classe trabalhadora, mas sim com as necessidades concretas da acumulação de capital.

São essas necessidades concretas que explicam que, em certos períodos históricos, o capitalismo na Europa tenha sido capaz de tolerar níveis de bem-estar maiores do que foi e é capaz o capitalismo latinoamericano.

Por outro lado, a realização e a duração temporal de reformas favoráveis à classe trabalhadora dependem essencialmente da correlação de forças entre a classe capitalista e a classe trabalhadora dentro de cada país, assim como da correlação de forças entre os Estados no plano mundial.

Por mais que a situação pareça melhorar, e efetivamente melhore, em favor da classe trabalhadora, se ela não tiver controle sobre os meios de produção e sobre os instrumentos de poder em cada país, e se não for alterada a correlação de forças estre os Estados no plano mundial, então os capitalistas seguirão mantendo os meios necessários não apenas para limitar e reverter as citadas melhorias, quanto para fazer alterações ainda mais profundas em prejuízo da classe trabalhadora, se as necessidades da acumulação de capital assim o exigirem. 

Por isso é que a “luta pelo socialismo”, no sentido de uma estratégia através da qual a classe trabalhadora constrói e conquista controle sobre os meios de produção e os instrumentos de poder dentro de uma determinada sociedade, ao mesmo tempo em que altera a correlação de forças em plano mundial, é uma tarefa inescapável e inadiável, tanto para quem deseja fazer mudanças mais ou menos superficiais, quanto para quem deseja realizar transformações mais profundas e sustentáveis.

Deixar para “outro momento” a luta pelo socialismo não implica apenas em deixar esta luta para o “Dia de São Nunca”. Implica, também, enfraquecer a luta por reformas aqui e agora, pois a chance de termos sucesso nas reformas parciais depende de ampliar, e muito, o controle da classe trabalhadora sobre a produção e sobre o poder.

Aliás, a história confirma que as reformas podem se alimentar da revolução, embora a recíproca não seja verdadeira.

Portanto, a formulação estratégica acerca da luta pelo socialismo deve vincular a luta por conquistas imediatas e pontuais, com a luta pelo poder e a luta pelo controle dos meios de produção.

Uma questão é: qual destes aspectos é a variável dominante na “equação”?

Pensando no curto prazo, a resposta pode ser: a luta pelas reformas, pois uma classe trabalhadora submetida a um regime de absoluta escravidão não terá energias, nem tempo livre, para mais nada que não seja a sobrevivência biológica.

Pensando no longo prazo, a resposta pode ser: a luta pelo controle dos meios de produção. Pois nosso objetivo mais geral consiste no seguinte: quem produz as riquezas, decida o que produzir, como produzir e como distribuir as riquezas criadas.

Pensando no médio prazo, a resposta é: a luta pelo poder. Pois sem controlar o poder, a classe trabalhadora nunca irá além da luta por mudanças parciais, não vai conseguir estabelecer controle sobre os meios de produção.

Portanto, se o debate sobre a formulação estratégica consiste em definir como articular a luta por reformas, a luta pelo poder e a luta pelo controle dos meios de produção, o núcleo deste debate está em como construir e conquistar o poder político.

Ao longo dos séculos XIX, XX e dos 18 primeiros anos do século XXI, o movimento socialista lidou de muitas e diferentes maneiras com o tema do poder político. Os capitalistas tiveram que fazer o mesmo, seja para administrar as diferenças entre os próprios capitalistas, seja para enfrentar as classes trabalhadoras.

Apesar das mudanças ocorridas ao longo destes mais de duzentos anos, há uma constante: o Estado. Por isso o debate sobre o poder é, essencialmente, um debate sobre o Estado. E neste debate confrontaram-se e seguem confrontando-se, no movimento socialista, duas posições fundamentais:

a/os que consideram que o Estado é uma instituição dedicada a manter o funcionamento geral da sociedade;

b/os que consideram que o Estado é uma instituição dedicada a manter o funcionamento geral da sociedade, em benefício da classe dominante.

Para os defensores da primeira posição, conquistar o poder é conquistar o Estado. Para os defensores da segunda posição, conquistar o poder é destruir o Estado atual e construir outro. Ou, para ser mais preciso, destruir o núcleo duro que garante que o Estado atue em benefício da classe dominante.

A diferença entre ambas posições se dilui, nos períodos em que a classe capitalista exerce o poder através de ditaduras abertas. Nesses momentos, não há como conquistar o poder de Estado, sem confrontar e destruir seu núcleo duro. Isto ajuda a entender por qual motivo as revoluções vitoriosas, em que a classe trabalhadora conquistou o poder, construiu outro Estado e iniciou uma transição socialista, ocorreram em situações de guerras e ditaduras.

Mas quando a classe capitalista "opta" por exercer o poder “democraticamente”, fica explícita a diferença entre aquelas duas posições, existentes no movimento socialista, acerca do Estado. Nestas situações, o movimento socialista se divide entre os partidários da “reforma” e os da “revolução”. Prevalecendo, em geral, os primeiros.

Para os defensores da “reforma”, ao menos em sua versão clássica e extremada, trata-se de formular e implementar uma estratégia que permita controlar aquela parcela do poder de Estado que realmente está posta em disputa. O seu "programa máximo" é a condução do Estado tal como ele é. Não está em pauta a conquista do conjunto do poder de Estado, muito menos a destruição do Estado capitalista e a construção de um Estado socialista.

Dito de outra maneira, quando a classe capitalista aceita governar de forma “democrática”, um setor da esquerda adota como objetivo estratégico máximo a conquista do governo. E não se coloca o objetivo de controlar o poder.

Claro que em cada país, em cada época histórica, essa diretriz (governo sim, poder não) vai ser defendida e implementada de diferentes maneiras. Mas talvez a matriz de todas as experiências deste tipo tenha sido a postura da social-democracia alemã na revolução de 1918.

Já no caso da América Latina, a experiência mais rica e mais radical de estratégia reformista foi a da Unidade Popular chilena.  A peculiaridade desta experiência consiste em que os seus protagonistas tinham o propósito de transformar profundamente o Estado e construir uma área de propriedade social, tomando como alavanca o controle do próprio Estado. Portanto, no caso da Unidade Popular estamos diante de outra variante do reformismo, diferente da variante clássica e extremada a que nos referimos nos parágrafos anteriores.

Em 1973, um golpe militar não apenas interrompeu a experiência, como também destruiu grande parte das organizações da classe, ao mesmo tempo em que implementou um tipo de capitalismo mais explorador e opressor do que o existente no Chile antes de 1970.

Os integrantes da Unidade Popular não tinham dúvida de que os capitalistas chilenos e seus sócios internacionais tentariam dar um golpe. E lutaram contra ele. Mas o êxito na luta contra o golpe dependia, entre outras coisas, de que as organizações integrantes da Unidade Popular tivessem uma política adequada para o núcleo duro do Estado: as forças armadas. A ausência desta política, aliada a uma ilusão sobre o caráter das forças armadas, facilitou o golpe de Estado, demonstração prática de que “poder” e “governo” não são a mesma coisa.

A partir do que foi dito até agora, podemos concluir que há pelo menos três questões que o debate estratégico precisa esclarecer. A primeira delas diz respeito ao objetivo (capitalismo ou socialismo?). A segunda delas diz respeito ao Estado (governo ou poder?). A terceira delas diz respeito a como, concretamente, abordar a luta pelo poder.

Havia e seguem existindo na América Latina e Caribe muitas esquerdas e muitas estratégias. Mas existia e podemos dizer que segue existindo uma estratégica hegemônica, que podemos resumir assim: disputar eleições, eleger presidentes da República, governar para melhorar a vida do povo, ampliar as liberdades, a soberania e a integração, tendo como horizonte realizar transformações mais profundas, que para alguns seriam de tipo social-democrata e para outros seriam de tipo socialista, mas que em nenhum caso teriam como ponto de partida a expropriação dos capitalistas, seja da maior parte de seus meios de produção, seja da maior parte de seus instrumentos de poder.

Noutras palavras, a estratégia hegemônica na esquerda latino-americana e caribenha era e segue sendo similar a da Unidade Popular no Chile – ressalvado o fato óbvio de que se pretendia uma “estratégia chilena com final feliz” e agregada a variável “integração regional”.

Que balanço se pode fazer dos resultados práticos obtidos da aplicação desta estratégia? Por um lado, permitiu avanços importantes para a classe trabalhadora e para os povos da região, no terreno do bem-estar, das liberdades democráticas, da soberania nacional e da integração regional. Por outro lado, não conseguiu nem mesmo tentou superar determinantes estruturais no funcionamento do capitalismo regional e de sua articulação com o capitalismo mundial: a região não escapou da posição ocupada na divisão internacional do trabalho e prosseguiu sendo uma região de profunda desigualdade social. Finalmente, o tema do poder não foi resolvido, permitindo às classes capitalistas de cada país da região, em aliança com os capitalistas de outras regiões, deflagrar uma ofensiva que num curto espaço de tempo (2008-2018), substituiu a maior parte dos governos progressistas e de esquerda por governos conservadores; sendo que os que restam encontram-se sob forte pressão interna e externa.

Frente a esta situação, a esquerda latino-americana divide-se em duas posições fundamentais. De um lado, os que reivindicam que a estratégia adotada anteriormente continua válida. De outro lado, os que consideram que abriu-se um novo período histórico, que exige uma nova estratégia.

Entre os que defendem a necessidade de uma “nova estratégia”, há diferentes posições, desde “neosocialdemocratas” até esquerdistas alucinados. Além disso, como sempre nesse tipo de situação, o debate estratégico é atravessado por dificuldades táticas e organizativas de todo o tipo.

Feitas estas ressalvas, abordaremos a seguir, de forma sumária, oito temas que consideramos devam ser abordados no debate estratégico: a luta cultural, a luta social, a luta eleitoral-institucional, a auto-organização da classe, as relações internacionais, a política de alianças, o programa e a questão do poder.

Sobre cada um destes pontos, há uma enorme polêmica. De nossa parte, sustentamos que é necessário:

*estabelecer como objetivo a conquista do poder, isto é, converter a classe trabalhadora em classe dominante, não se contentando em ser governo e sem ter ilusões no caráter supostamente neutro do aparato estatal;

*construir um "caminho para o poder" que leve em consideração as condições históricas concretas em que estamos atuando, que exigem não apenas "conquistar" mas também "construir" o poder;

*construir um programa de transformações nacional e regionalmente articulado que combine medidas democrático-populares com medidas socialistas, isto é, que combine medidas em favor da classe trabalhadora com medidas que restrinjam severamente a propriedade e o poder dos capitalistas;

*abandonar a ilusão em que a classe capitalista, ou qualquer uma de suas frações, é ou pode vir a ser aliada estratégica das classes trabalhadoras. Ou, em outras palavras, abandonar a ideia de que seria correto ter como objetivo estratégico a construção de um "capitalismo democrático e popular". A aliança capaz de transformar nossos países é aquela entre a classe dos trabalhadores assalariados e a classe dos pequenos trabalhadores proprietários;

*perceber que a política de alianças inclui, também, governos, partidos e movimentos de outros países, especialmente da América Latina. Sobre isso, a esquerda regional possui muitas experiências importantes, como o Foro de São Paulo, criado em 1990, assim como algumas das alianças que tornaram possíveis a Unasul e a CELAC. Mas torna-se necessário que a esquerda entenda melhor a diferença entre a política externa do país e a política de relações internacionais do governo; a diferença entre os aliados regionais e os aliados de outras regiões do mundo; a diferença entre a esquerda estar aberta ao diálogo com todos os setores "progressistas" e a necessidade prioritária de construir alianças estratégicas com a esquerda antiimperialista e socialista; as diferenças qualitativas entre a China e os Estados Unidos; e, por último, mas não menos importante, é necessário levar em consideração a diferença de tradições entre as várias esquerdas latino-americanas e caribenhas;

*colocar no mais alto nível de importância a) a auto-organização da classe, através de seus diferentes instrumentos, com ênfase nos sindicatos e no partido político e b) a luta cultural, necessária para construir uma consciência de classe socialista-revolucionária, democrático-radical e nacional-popular;

*entender que a luta social (a mobilização independente das classes trabalhadoras em torno de seus objetivos imediatos), a luta eleitoral (a disputa por espaços no aparato estatal, pelos partidos ligados às classes trabalhadoras) e a ação institucional (dos mandatos, governos e de outras instituições do Estado conquistadas através da luta eleitoral) são diferentes formas que a luta de classes assume, sendo necessário analisar concretamente a centralidade de cada uma e a relação entre elas, a cada momento dado.

Portanto, do ponto de vista tático, a esquerda não deveria fetichizar as chamadas formas de luta. Não devemos dar nem à “institucionalidade”, nem à “luta social”, a condição de dimensão/espaço prioritário.

Do ponto de vista tático, as formas de luta são exatamente isso -- “formas” -- que podem ganhar maior ou menor importância, a depender das condições concretas.

Mas do ponto de vista estratégico, o que foi dito anteriormente não é exato. Do ponto de vista estratégico, é preciso reconhecer que a "luta social" é superior à "luta eleitoral-institucional".

A chamada luta institucional é, em si mesma, uma mediação entre a classe trabalhadora e a institucionalidade burguesa.

Portanto, um terreno onde a classe trabalhadora está sujeita a dois princípios liberais: o princípio do "voto individual" que supostamente iguala a todos; e o princípio da predominância do menos consciente sobre o mais consciente.

O primeiro princípio traz como consequência iludir as classes trabalhadoras acerca da natureza de classe do Estado.

O segundo princípio traz como consequência fazer o sucesso da classe trabalhadora depender do nível de consciência dos setores menos consciente desta classe.

A luta eleitoral e a ação institucional operam em um terreno construído e controlado, ao menos no fundamental, pela classe dominante.

Portanto, enquanto esse controle da classe dominante não for substancialmente modificado ou superado, a chamada institucionalidade continuará a ser um espaço que pode e deve ser parcialmente conquistado pela classe trabalhadora, que pode e deve ser disputado, mas sempre a partir "de fora" e tendo como objetivo “virar o mundo de ponta cabeça”.

Dito de outra forma, nosso sucesso estratégico depende do acúmulo de forças que a classe trabalhadora fizer fora da institucionalidade burguesa, não dentro dela.

Conclui-se que, nesse sentido estratégico, a luta social (entendia não como movimentos sociais específicos, mas como o conjunto da acumulação de forças desenvolvida pelas classes trabalhadoras) é mais importante para a classe trabalhadora do que a luta eleitoral-institucional.

Os que dentro da esquerda são oponentes dessa afirmação, frequentemente argumentam que a experiência regional latino-americana, desde 1998, teria comprovado a importância da disputa eleitoral e do exercício dos governos para toda a esquerda latino-americana.

De fato, desde 1998 até hoje, grande parte da acumulação de forças da esquerda latino-americana se deu no terreno eleitoral e na ocupação de espaços nas instituições do Estado existente. Este é o fato. Mas a luz dos acontecimentos ocorridos entre 2008 e 2018, que conclusões podemos sacar deste fato?

A esse respeito, apontamos quatro questões
.
Primeiro: a conquista dos governos esteve diretamente ligada à acumulação de forças que a esquerda de cada país fez, em outras áreas além da eleitoral.

Segundo: os avanços proporcionados pelos governos progressistas e de esquerda na América Latina estavam relacionados, em alguma medida, à força que a esquerda tinha fora das instituições.

Terceiro: a capacidade dos governos de resistir aos ataques internos (da classe dominante de cada país) e externos (dos Estados Unidos e seus aliados) também está relacionada à força e capacidade de mobilização que a esquerda de cada país tem na sociedade.

Quarto: várias das derrotas que sofremos na região estão vinculadas a superestimação do “institucional” frente ao “social”.

Uma destas derrotas ocorreu exatamente no Brasil, onde desde 1995, mas especialmente entre 2002 e 2014, predominou em parte importante da esquerda a ideia de que a luta eleitoral e a ação do governo seriam “formas superiores”, mais avançadas que a luta social, a luta cultural e a auto-organização da classe.

Para ser mais exato, predominou na prática uma superestimação da luta eleitoral e da ação institucional, deixando em segundo ou terceiro plano tudo que estivesse relacionado à auto-organização da classe, à luta cultural e às lutas sociais.

Claro que havia, também, um setor minoritário de esquerda que subestimava a importância das disputas eleitorais, subestimava a importância de governar o país, superestimava e fetichizava toda e qualquer luta e movimento social, mesmo quando hegemonizado pela direita.

Mas o golpe de 2016, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro em 2018 não podem ser imputados aos erros e preconceitos da ultra-esquerda. Podem, isto sim, ser relacionados às opções e efeitos colaterais de uma “estratégia” eleitoral e institucionalista.

O golpe de 2016 não teria sido tão bem sucedido se a esquerda brasileira não tivesse cometido determinados erros. E entre esses erros está, sem dúvida, ter optado por uma estratégia que acreditava no Estado como um espaço neutro e prioritário para o acúmulo de forças.

Uma estratégia adequada ao novo período histórico inclui combinar as disputas eleitorais e a presença nos governos, com a construção das condições para “ser poder”.

Este tipo de raciocínio pode parecer contrário ao senso comum. Pois estamos dizendo que, no momento em que estamos mais fracos, é quando precisamos de uma estratégia mais radical tanto do ponto de vista programático (mais socialista), quanto do ponto de vista do Estado (buscar ser poder, não apenas ser governo).

Na verdade, parece contraditório ao senso comum, especialmente para aqueles que deixaram de compreender a diferença entre tática e estratégia.

Quando falamos de uma estratégia mais radical, não estamos falando em adotar uma postura esquerdista no terreno da tática. Pelo contrário: quando se trata de definir orientações táticas, é fundamental considerar o senso comum, a correlação de forças, o nível de consciência das classes trabalhadoras.

Mas o mesmo não é verdade quando se trata de definir orientações estratégicas, porque elas visam definir o caminho em direção a objetivos que por enquanto não fazem parte do senso comum das pessoas.

No terreno estratégico, a esquerda está chamada a se orientar em uma direção necessariamente diferente daquela indicada pelo senso comum, hegemonizado pela classe dominante.

Por suposto, isto nos tira da “zona de conforto” em que atuamos a partir de 1999 em muitos países, nos quais era comum para a esquerda falar que seu objetivo estratégico era... eleger o presidente da República.

Claro que há setores da esquerda que acham que se pode e se deve continuar a dizer isto. Pensamos diferente: o sucesso da nova estratégia dos capitalistas impõe aos trabalhadores que também mudem de estratégia.

Claro que devemos continuar lutando por ser governo e por governar. Mas na nova situação regional, organizar nossa ação de curto e médio prazo em torno das disputas eleitorais muito dificilmente nos permitirá conquistar governos, fazer governos transformadores, defender estes governos contra golpes.

Afinal, a contraofensiva da direita não se limitou a nos impor derrotas eleitorais. Ela também está buscando destruir as condições necessárias, tanto para que os partidos de esquerda possam vencer, quanto para que possam governar.

Inclusive por isso, é preciso uma nova estratégia. E essa nova estratégia pode e deve aprender com a operação feita pela extrema direita no Brasil.

O sucesso da extrema-direita brasileira envolveu fatores circunstanciais, mas envolveu principalmente dois movimentos centrais e explícitos:

a) a construção de um núcleo duro de ideias;

b) a construção de um movimento de luta pelo poder.

Enquanto parte da esquerda brasileira abandonou há tempos a ideia de fundo contida na tese da “ditadura do proletariado”, a extrema-direita defendeu sem meias palavras a ditadura militar.

Enquanto parte da esquerda brasileira acreditava na neutralidade do Estado, a extrema-direita colonizava o núcleo duro do Estado: o judiciário e as forças armadas.

Enquanto parte da esquerda brasileira abandonava o marxismo, a extrema-direita colocava a luta contra o marxismo no centro de sua operação de ideias.

De maneira similar, o sucesso futuro da esquerda depende:

a) de construirmos um núcleo duro de ideias, a partir da análise marxista da luta de classes;

b) de construirmos um movimento de luta pelo poder, a partir da ação da classe trabalhadora.

O processo de formulação, no âmbito da teoria, e de aplicação, no âmbito da prática, de uma nova estratégia não será algo rápido nem tranquilo.

Envolverá lutas e polêmicas no âmbito da esquerda e dos setores democráticos, que conviverão com os ataques da extrema-direita e com as reviravoltas da situação nacional e internacional.

Uma nova estratégia não será formulada, portanto, a frio e distante das lutas práticas. Pelo contrário. Tampouco poderá ser formulada copiando estratégias de situações passadas, a exemplo da adotada nos anos 1960-1970.

Entretanto, se queremos não apenas voltar a governar, mas transformar profundamente nossas sociedades e impedir futuros retrocessos, é essencial recuperar a dimensão rupturista (ou seja, revolucionária) da esquerda e da classe trabalhadora.

Um desdobramento disto é a volta do tempo dos “partidos de combate”, ou seja, partidos estruturados não por filiados que disputam eleições, mas por militantes que contribuem para conduzir a luta de classes, inclusive as disputas eleitorais, no sentido da construção e da conquista do poder de Estado e da transição socialista.

Uma militância que precisa estar organizada para atuar junto a classe trabalhadora, de forma capilarizada.

Um dos muitos motivos para a derrota sofrida, nos últimos anos, pela maior parte da esquerda latino-americana, consiste na ausência de uma formulação estratégica capaz de articular adequadamente a luta por reformas, a luta pelo poder e a luta por controlar os meios de produção.

A ausência de uma formulação estratégica é um problema e contribui para as derrotas; mas a existência de uma estratégia aparentemente adequada não constitui, de per si, nenhuma garantia de vitória.

Entre outros motivos porque, ao longo do “intervalo temporal” existente entre “definir”, “lutar por” e “alcançar” os objetivos estratégicos citados no parágrafo anterior, a própria luta entre as classes e entre os Estados vai alterando as variáveis da equação estratégica.

Noutras palavras, ao implementar uma determinada estratégia, um partido pode desembocar em caminhos e resultados diferentes, em maior ou menor medida, daqueles estabelecidos inicialmente.

Por exemplo: o fato do Partido Socialdemocrata Alemão não ter nem ao menos tentado tomar o poder na revolução de 1918, inviabilizou diversas hipóteses e pressupostos contidos na estratégia adotada pelos revolucionários que tomaram o poder na Rússia em 1917.

Aliás, a experiência soviética (1917-1991) demonstra que ter clareza acerca do objetivo final, ter um caminho estratégico desenhado, obter importantes vitórias parciais, nada disto garante uma vitória definitiva.

As mudanças mais ou menos imprevistas no curso da luta de classes e da luta entre os Estados podem resultar em derrotas parciais ou gerais, que fazem a correlação de forças retroceder para antes do ponto de partida. E podem exigir longas operações de "retirada", como ocorreu no caso da NEP soviética nos anos 1920 e no caso das Reformas adotadas pela China a partir de 1978.

Noutras palavras, a implementação de uma determinada estratégia não é um processo linear e ascendente de acúmulo de forças. E mesmo quando se conquista o poder, o êxito da transição socialista não está garantido. Muito dependerá da estratégia que venha a ser adotada pela classe trabalhadora, por suas organizações, assim como pelo Estado de novo tipo que surja da revolução. 

Em qualquer caso, não se pode alcançar vitórias estratégicas, mesmo que parciais, sem clareza acerca do objetivo e do caminho a ser seguido. Neste sentido, é decisivo recolocar o socialismo e a luta pelo poder no centro de nossas formulações.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O projeto Moro e o esperado desmentido de Rui Costa


Todos sabem qual foi o papel jogado pelo então juiz Sérgio Moro, no golpe contra a presidenta Dilma, na condenação e prisão de Lula, na eleição de Bolsonaro.

Apesar disso, alguns petistas sempre que podiam “passaram o pano” tanto em Moro, quanto na Operação Lava Jato, buscando separar o joio do trigo, o lado bom do lado ruim, as intenções das realizações e assim por diante.

Todos têm uma opinião sobre qual será o papel jogado pelo agora Ministro Sérgio Moro, no combate contra o PT, contra a esquerda, o movimento sindical e os movimentos sociais, as liberdades democráticas de opinião e mobilização.

Apesar disso, como antes, há quem passe o pano.

O caso mais recente é o do governador da Bahia, que cometeu elogios à “Lei Anticrime” anunciada ontem, 4 de fevereiro de 2019, pelo ministro da Justiça e Segurança Pública.

Segundo a suspeitíssima revista Veja, o governador Rui Costa teria dito o seguinte: “No geral, o pacote tem o nosso apoio. Tem maior rigidez no combate ao crime organizado, embora não tenha dado tempo de ler todas as vírgulas. Nós precisamos olhar, com carinho, as vírgulas e os artigos, para que o rigor não signifique retirar qualquer valor de cidadania e direito de defesa das pessoas”.

Já segundo o Correio da Bahia, o governador teria dito que “preciso ler o projeto, até porque ele apresentou lá os principais pontos, mas conceitualmente eu manifestei meu apoio. Um país onde morrem 61 mil pessoas assassinadas, não é possível assistir isto passivamente”.

O mesmo Correio da Bahia atribui a Rui Costa a seguinte frase: “O que o povo brasileiro quer é que as ruas não sejam dominadas por bandidos. Não posso me omitir e adotar uma postura de oposição pela oposição. Aquilo que eu entender que vai melhorar a vida das pessoas, eu vou apoiar”.

Ninguém deseja que o governador se omita, nem que seja “oposição pela oposição”.
Mas nada justifica – especialmente sem ter lido o projeto, seus artigos e suas vírgulas – declarar seu apoio “conceitual” e dito que “no geral, o pacote tem o nosso apoio”.

Até porque, da leitura do projeto fica claro que ele é estruturado em torno de uma concepção “bolsonarista” de segurança pública, como aliás já foi demonstrado por inúmeras análises feitas por especialistas e não especialistas.

Ademais, estou certo que o governador da Bahia quer não apenas que as ruas, mas também que os palácios de governo não sejam dominados por bandidos. Neste sentido, não é preciso ser “oposição pela oposição” para perceber que o pacote de Moro serve para desviar a atenção do escandaloso envolvimento de Flávio Bolsonaro com as milícias. Sendo assim, é um escárnio elogiar o ministro Sérgio Moro e o governo Bolsonaro por uma pretensa “rigidez” no combate ao crime organizado.

Não li em nenhum lugar qual a opinião do governador da Bahia sobre o que diz o pacote de Moro acerca de homicídios cometidos por policiais. Mas a imprensa divulgou sua opinião sobre prisão em segunda instância. Salvo desmentido que eu não tenha lido ou que ainda venha a ser publicado, o governador teria dito ser a favor da prisão em segunda instância, desde que haja “provas robustas do crime cometido”.

Esta tese confronta toda a defesa “conceitual” feita pelos setores democráticos e de esquerda. Claro que o governador ressalva que Lula não deveria estar preso, porque no caso de Lula, segundo Rui Costa, faltariam provas. Mas a questão não é e nunca foi apenas Lula: trata-se de um preceito constitucional defendido publicamente não apenas pelo PT, mas por uma ampla e democrática frente.

Espero que o governador, depois de ler os artigos e vírgulas, mude de opinião. Ou que desminta o que foi publicado pela imprensa. 

Um comentário final: contra Bolsonaro, é impossível fazer “oposição pela oposição”. Contra um governo como o de Bolsonaro, só é possível fazer oposição pela democracia, pelo bem estar e pela soberania. Espantoso que haja gente que ainda não entendeu isto.


sábado, 12 de janeiro de 2019

Ciro, Luciana, Maringoni, Tarso, Fornazieri e a “incômoda” Venezuela

Ao comparecer a posse do presidente Nicolas Maduro, a presidenta nacional do PT sabia que seu gesto provocaria ataques da direita brasileira e internacional.

O que talvez ela não imaginasse fosse a reação que surgiria dentro da esquerda e da centro-esquerda brasileira.
A seguir, alguns exemplos disso.
Ciro Gomes (atualmente no PDT) disse que "o PT perdeu o norte. A burocracia do PT perdeu o rumo. Está que nem cachorro que cai do caminhão de mudança. E a dona Gleisi agrava isso. A grande questão é: por que não comparecer à posse do Jair Bolsonaro, eleito dentro das regras, reconhecido internacionalmente, e depois ir para a posse do Maduro, que a esmagadora maioria dos estados da OEA não reconhece legitimidade ao regime". E reverberou o site Sensacionalista, dizendo que “"Há muita gente dizendo que ela é uma infiltrada do Bolsonaro para destruir o que resta da decência e da respeitabilidade do pensamento progressista brasileiro".
Ou seja: Ciro pegou carona no assunto Venezuela, mas sua real preocupação é a suposta contradição existente entre o PT comparecer na posse de Maduro e não comparecer na posse de Bolsonaro.  
Ciro considera a si mesmo como parte daquilo que resta de “decência e respeitabilidade” no “pensamento progressista brasileiro”. Mas o que ele agrega como argumento resume-se ao “reconhecimento internacional”, o que pode ser relevante, mas não pode ser determinante para a decisão soberana de um governo ou de um partido acerca de suas relações internacionais. Sem falar que, se reconhecimento internacional também inclui comparecimento a posse, Maduro largou com vantagem frente a Bolsonaro. 
Luciana Genro (PSOL) também criticou a presidenta do PT. Segundo Luciana, numa mensagem divulgada pelo twitter dia 10 de janeiro as 9h38, ao representar o PT na posse de Maduro, Gleisi estaria “dando uma mãozinha para aqueles que querem liquidar a esquerda. Mas só uma esquerda mofada para apoiar Maduro a estas alturas. Há muito tempo deixou de ser um governo progressista. E o pior é que a oposição forte é burguesa e elitista”.
O fato é que grande parte da esquerda latino-americana apoia o governo Maduro, mesmo “a estas alturas”. Este apoio não significa, necessariamente, concordância com o que faz ou com o que deixa de fazer o governo Maduro. O apoio provém, muitas vezes, de um raciocínio muito simples: os Estados Unidos e a oposição local buscam maneiras de empurrar o país para uma guerra civil com intervenção estrangeira. Muitos dos que apoiam o governo Maduro o fazem, portanto, como forma de contribuir para impedir que tenhamos, na região, um cenário sírio.
Mas para Luciana esta questão não parece ser decisiva. O importante, segundo sua sintética declaração, é que Maduro deixou de ser um “governo progressista”. Ou seja, diferente de Ciro e suas preocupações com o reconhecimento internacional, o determinante para ela parece ser a linha adotada internamente pelo governo. O que, visto do ponto de vista de Luciana, faz muito sentido; afinal se Maduro merecesse ser apoiado por conta de seus inimigos, isto poderia levar a uma revisão total ou parcial da postura do PSOL frente aos governos Dilma e Lula.
Gilberto Maringoni (PSOL), diferente de Ciro e de Luciana, apoiou a presença de representantes da esquerda brasileira na posse de Maduro. E publicou a respeito um artigo, intitulado “Esquerda: como proceder com governos incômodos?”
Maringoni inicia assim seu artigo com a seguinte pergunta: “como tratar administrações que – sem serem de direita ou neoliberais – apresentam tantos problemas que se tornam incômodas para as forças democráticas e progressistas?” 
Portanto, Maringoni se propõe a tratar o problema do ponto de vista das “forças democráticas e progressistas”, não do ponto de vista da esquerda, nem mesmo do ponto de vista de um determinado partido. Acontece que as forças democráticas e progressistas são muito diversas. O que é incômodo para algumas, não é para outras. 
O PSOL, por exemplo, fez oposição às duas administrações de Lula (não apenas oposição a Dilma, a quem Maringoni acusa de ter realizado “uma gestão abertamente neoliberal e de direita, em especial em seu segundo mandato”). Já a maioria das forças democráticas e progressistas do mundo e do Brasil apoiou os governos Lula. 
Claro: como até o conselheiro Acácio perceberia, uma “maioria” se forma em torno de posições “democráticas” e “progressistas”, não em torno de posições de esquerda, socialistas e/ou revolucionárias. Portanto, a pergunta formulada por Maringoni pode ser adequada para partidos como o PDT e o PSB, mas não é suficiente para determinar a posição de partidos como o PT, o PCdoB e o PSOL. 
Ademais, caberia diferenciar claramente a posição que adotamos dentro do nosso próprio país e a posição que adotamos acerca do que se passa em outro país. E caberia distinguir entre a posição de um partido e a posição de um governo, acerca do que se passa em outros países. Nos dois casos, as posições podem ser idênticas, mas também podem ser muito diferentes, por diversos motivos.
Talvez por todos os motivos acima listados, no artigo citado Maringoni diz o seguinte sobre Maduro e seu governo: “Não faz uma gestão democrática. Há denúncias de corrupção e a ineficiência dá o tom em vários níveis de governo. (...) O problema maior está no autoritarismo e na violência. O governo perdeu as eleições legislativas, em 2015. Conseguiu evitar – valendo-se de artifícios jurídicos – que a oposição não obtivesse maioria qualificada para promover alterações constitucionais, mas perdeu a maioria simples. Sem força no Legislativo, o mandatário apelou para um expediente de duvidosa eficácia: convocou uma Constituinte, sem esclarecer a necessidade de uma nova arquitetura institucional. A Carta de 1999, elaborada no governo Chávez, até agora não sofreu qualquer mudança estrutural para melhor. Na verdade, buscou-se ali virar o jogo institucional com a Assembleia Nacional e ganhar tempo para colocar a casa em ordem, enquanto os preços do petróleo não subiam. (...)  Apesar de todos os percalços, a Venezuela controla sua produção, mantém o petróleo sob controle nacional, não adota o neoliberalismo como diretriz e não mudou sua política externa. Há excessos contra a oposição, mas o cerco econômico, político e comunicacional é brutal, bem como ações explícitas de sabotagem. Detalhe: não há alternativa imediata à esquerda de Maduro. A queda do governo conduzirá o país – sob a batuta da extrema-direita local – à condição de semiprotetorado dos EUA, com a alienação das maiores reservas petrolíferas do mundo”.
Repetiremos alguns itens: “Não faz uma gestão democrática”, “denúncias de corrupção”, “ineficiência”, “autoritarismo”, “violência”, “artifícios jurídicos”, “expediente de duvidosa eficácia”, “excessos contra a oposição”. 
Por outro lado: “mantém o petróleo sob controle nacional”, “não adota o neoliberalismo como diretriz”, “não mudou sua política externa”, “cerco econômico, político e comunicacional é brutal”, “ações explícitas de sabotagem”, “não há alternativa imediata à esquerda de Maduro”, “queda do governo conduzirá o país – sob a batuta da extrema-direita local – à condição de semiprotetorado dos EUA, com a alienação das maiores reservas petrolíferas do mundo”.
Em resumo, Maringoni elogia aquilo que, dadas as condições concretas, é garantido graças ao que ele critica. 
Em decorrência, concluo que se houvesse uma alternativa de esquerda e se a queda do governo Maduro não transformasse a Venezuela num semiprotetorado dos EUA, Maringoni  adotaria outra posição frente ao presidente venezuelano. 
Claro, se as coisas não fossem como são, seriam diferentes. Neste caso, todos - Maduro inclusive - adotariam outra posição. Mas como na vida prática esta posição é, digamos, meio “incômoda”, Maringoni usa a Nicarágua para tentar cobrir o flanco: “Para não nos alongarmos, uma menção á Nicarágua: o governo Ortega é indefensável. Uma gestão que investe com mão pesada sobre manifestantes e provoca quase duas centenas de mortes em poucos meses nada tem de popular. Nos dois casos, a esquerda não pode agir com o cinismo do Departamento de Estado, que sempre manteve seus “friendly dictators” tratados a pão de ló. Mas importa saber que algumas linhas não podem ser ultrapassadas”.
Ou seja: mesmo não havendo uma alternativa de esquerda, mesmo que a queda do governo Ortega transformasse a Nicarágua num semiprotetorado dos EUA, não se poderia defender o governo Ortega, porque ele “investe com mão pesada sobre manifestantes” e “provoca quase duas centenas de mortes em poucos meses”, nada tendo de “popular”. Estas seriam as “linhas” que “não podem ser ultrapassadas”. Linhas que, como é público e notório, a extrema direita e o imperialismo fazem de tudo para que sejam ultrapassadas, sempre que estão trabalhando para derrubar um governo. 
De toda forma, com os considerandos acima, Maringoni defende que “a defesa da legitimidade do mandato de Nicolás Maduro, em um mundo no qual a direita joga sujo para conquistar espaços, é iniciativa sobre a qual a esquerda não pode vacilar”.
Não sei se o PSOL mandou representantes à posse de Maduro. O PT mandou sua presidenta. Mas isto não quer dizer que dentro do PT não tenha havido muita gente “vacilando”. Pelo contrário, não foram poucos os que criticaram, pública ou privadamente, a posição de Gleisi. 
O mais conhecido destes críticos, até agora e até onde eu sei, foi Tarso Genro, para quem a “ida de Gleisi a posse de Maduro não ajuda na reconstrução da imagem do PT”. 
Em geral, os petistas críticos são, no fundo, adeptos da equação proposta por Maringoni: “sem ser de direita ou neoliberal”, a administração Maduro apresenta “tantos problemas” que se tornou “incômoda”. Em linguagem popular, são amigos nas horas boas.
O desdobramento completo disto está na posição de um ex-petista, Aldo Fornazieri, que numa mensagem postada na sua conta no facebook escreveu o seguinte: “hoje Nicolas Maduro toma posse para um novo mandato na Venezuela. O PT mandou a presidente do Partido, Gleisi Hoffmann, para a solenidade num evidente gesto de apoio ao regime. Penso que é um absurdo. O PT apanha e depois se queixa. O regime de Maduro não merece apoio. Causa a pobreza e a infelicidade de milhões de venezuelanos, hoje em diáspora por vários países da América Latina. Trata-se de um regime corrupto e incompetente que, efetivamente, não é uma democracia. Os venezuelanos precisam encontrar o seu próprio caminho, sem ingerência externa, seja do grupo de Lima, do qual o Brasil faz parte, seja por parte dos Estados Unidos. Mas ao mesmo tempo em que se condena a ingerência externa, não dá para apoiar este regime que causa tanto mal aos venezuelanos. A esquerda democrática não pode apoiar este regime.”
Ou seja: os Estados Unidos e sua gangue fazem ingerência. E a “esquerda democrática”, na concepção de Aldo, critica os EUA, mas repete sem “incômodo” algum os mesmos argumentos dos EUA para justificar sua ingerência.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Ciro confirma: não é apenas Bolsonaro que deseja livrar o Brasil do PT

O jornal El País publicou uma ótima entrevista com Ciro Gomes, feita pelo jornalista Florestan Fernandes Jr.

A íntegra da entrevista, concedida no dia 2 de janeiro de 2019, está disponível no seguinte endereço:

Toda a entrevista de Ciro é organizada, do início ao fim, pelo antipetismo.

Exemplo: a primeira pergunta da entrevista versou sobre o fato de Bolsonaro ter falado, em seu discurso de posse, de “libertar o povo do socialismo”.

Na resposta, Ciro faz diversas críticas, mas termina acusando Bolsonaro de ser um antipetista “superficial”.

Outro exemplo: a segunda pergunta da entrevista é sobre corrupção, Bolsonaro e Queiroz. 

Na resposta, Ciro cobra explicações. Mas agrega: Eu quero dar um tempo. Não quero ser um trombeteiro que nem um petista raivoso, que é o tipo mais parecido com um bolsominion.“

E Ciro?

Ciro, segundo ele próprio, prefere deixar “o Bolsonaro tomar pé das coisas. Mas daqui a uns 100 dias, tenho toda uma plataforma por onde vou começar a cobrar. Porque foi este o papel que a nação deu a mim. O papel da oposição é estimular Bolsonaro ao jogo democrático, obrigá-lo a seguir a institucionalidade democrática”.

Ficamos sabendo, portanto, que a “nação” deu um papel a Ciro Gomes. 

E este papel é ser uma oposição que “estimule” Bolsonaro “ao jogo democrático”, que o obrigue a “seguir a institucionalidade democrática”.

Segundo Ciro, a “rua” diz: “Ajuda o homem! O homem foi eleito, ajuda ele, não atrapalha”. 

E Ciro afirma que “nós temos que ter essa sensibilidade. Não em respeito ao Bolsonaro, mas em respeito ao milhões de brasileiros que deram a ele a maioria”

Portanto, diferente dos raivosos petistas, Ciro é um cara com “sensibilidade”.

Mas ele não sabe se Bolsonaro “conseguirá fazer um pacto de governabilidade”. 

O motivo citado é: “Eu, Ciro Gomes, não conheço uma única proposta do Governo Bolsonaro”.

E, ao responder sobre a “legalização das armas”, Ciro aproveita para dizer que devemos “chamar” Bolsonaro para “outra agenda”, “a do emprego, palavra que ele não citou uma vez sequer, nem no discurso oficial”.

Portanto, ele se propõe a “chamar” Bolsonaro para “a questão dos juros, da inadimplência de 63 milhões de brasileiros que estão com o nome sujo no SPC. Para discutir a questão da aposentadoria. Precisamos discutir aqueles assuntos que ele vai fugir deles”. 

Ciro acha que Bolsonaro vai “fugir” desses assuntos. 

E acha que Bolsonaro vai fugir porque “ele não entende o problema,  a equipe dele não entende o problema e, quando entende, interpreta de forma equivocada. Portanto, o remédio que vão propor será o remédio errado, que tenderá muito mais a agravar a doença socioeconômica do Brasil do que mitigá-la”. 

A linguagem de Ciro é deveras ambígua. As vezes parece “manha de político”, discurso de opositor “sensível” ao período em que o povo é tolerante com o eleito. 

Outras vezes parece que —coerente com a abordagem de Mangabeira Unger (ver https://jornalggn.com.br/noticia/mangabeira-unger-attacks-again-por-valter-pomar) — Ciro está disposto não propriamente a fazer oposição, mas sim a “orientar” Bolsonaro a seguir o caminho certo. 

Onde Ciro não é ambíguo é ao não “aceitar a provocação do Bolsonaro de discutir identitarismos” ... “não que o assunto não mereça discussão. Estou só dizendo que o Bolsonaro não pode escolher o campo de batalha”.

Muita gente da esquerda concorda com esta opinião de Ciro. Mas, na vida real, a questão é bem mais complicada: não se trata de uma “discussão”, nem de uma “provocação”.

Está em curso um ataque aos direitos humanos de uma parte da população brasileira. O campo de batalha está dado. Portanto, a alternativa realmente posta é: ou não travar o combate ou discutir como travar o combate. 

Nessa altura do campeonato, o entrevistador pergunta: “O senhor tem se colocado como nova liderança da oposição. Aceitaria o PT numa frente de oposição ao novo Governo?”

A resposta de Ciro é muito interessante. Reproduzo na íntegra:

“Acho que sim. Nosso inimigo não é o PT. Agora, nós precisamos não nos comprometer. Estou falando sob o ponto de vista histórico. Precisamos dar ao jovem brasileiro uma plataforma em que ele não precise de um salvador da pátria, de um guru, de um líder carismático que, preso, de dentro da cadeia, fica mandando recado. Isso é o fundo do poço. Não quer dizer que a gente abandone o Lula. A questão central do país não pode ser identitarista ou o salve Lula. Enquanto a agenda for esta, estamos fazendo exatamente o que o Bolsonaro quer que a gente faça. Ele não ganharia em hipótese nenhuma no Brasil que eu conheço se não fosse o antipetismo que o petismo cevou. O Palocci é réu confesso. E não é um petista periférico. Foi o homem que Lula escolheu para comandar a economia do Brasil por 8 anos e a Dilma escolheu para comandar o governo. O Levy foi escolhido pela Dilma. O Michel Temer foi escolhido pelo Lula. Se a gente ficar alisando essas coisas pela dor que tem do Lula estar onde está, não vamos pensar na questão brasileira. Cabe a oposição vigiar, cobrar. O que faz a burocracia do PT? Se retira da posse. Ora, quando o Aécio Neves nega o reconhecimento do sucesso eleitoral da Dilma, começa a plataforma do golpe. E o PT soube denunciar isso. Como é que se explica agora para o povo brasileiro que um adversário nosso, por mais deplorável que seja, não é reconhecido como vitorioso?”

Vamos por partes.

Ciro, como já foi dito, acha que a “nação” o escolheu para ser líder da oposição.

Nesta condição, ele “acha” que aceitaria que o PT fizesse parte de uma frente de oposição a Bolsonaro.

Curioso, não? O cidadão ficou em terceiro lugar, mas “acha” que aceitaria a, digamos, ajuda de quem ficou em segundo lugar.

E por que a dúvida?

Porque, embora Ciro diga que o PT não é “nosso inimigo”, “nós precisamos não nos comprometer”. 

O “nós”, no caso, é majestática figura: ele Ciro não quer se comprometer com o PT, porque “sob o ponto de vista histórico”, nós “precisamos dar ao jovem brasileiro uma plataforma em que ele não precise de um salvador da pátria, de um guru, de um líder carismático que, preso, de dentro da cadeia, fica mandando recado. Isso é o fundo do poço”. 

Realmente, parece o “fundo do poço” ver sua principal liderança condenada, presa e impedida ilegalmente de disputar uma eleição. 

Mas o que Ciro pretende que “nós” do PT façamos diante disso? 

Segundo Ciro, “não quer dizer que a gente abandone o Lula. A questão central do país não pode ser identitarista ou o salve Lula. 
Enquanto a agenda for esta, estamos fazendo exatamente o que o Bolsonaro quer que a gente faça”. 

Ou seja: os golpistas acham essencial manter Lula preso. Mas lutar por soltar Lula é fazer “exatamente” o que os golpistas querem que a gente faça. 

E a luta pela liberdade de Lula é posta no mesmo patamar do “identitarismo”.

E qual a base, digamos, racional desta argumentação? A resposta é: a tese de Ciro, segundo a qual a vitória de Bolsonaro é culpa do PT.

Portanto, segundo Ciro, enquanto houver PT, o Bolsonaro sairá vitorioso.

Vejam o que Ciro diz: Bolsonaro “não ganharia em hipótese nenhuma no Brasil que eu conheço se não fosse o antipetismo que o petismo cevou. O Palocci é réu confesso. E não é um petista periférico. Foi o homem que Lula escolheu para comandar a economia do Brasil por 8 anos e a Dilma escolheu para comandar o governo. O Levy foi escolhido pela Dilma. O Michel Temer foi escolhido pelo Lula. Se a gente ficar alisando essas coisas pela dor que tem do Lula estar onde está, não vamos pensar na questão brasileira”. 

Como papo de palanque, vá lá. 

Bolsonaro não teria vencido se Lula fosse candidato. Não bastava o antipetismo. Foi preciso um golpe, um “sequestro” e uma campanha de mentiras.

E falemos sério: alguém acredita mesmo que Lula está preso por conta de Palocci (que está solto), de Levy (que está no BNDES) e de Temer (que ao menos neste momento também segue solto)???

Lula não está preso por nada disso. E o antipetismo não resultou da soma de Temer/Levy/Palocci. 

Basta lembrar que estes três fizeram parte do governo federal em diferentes momentos, entre 2003 e 2014.

Talvez o problema seja outro: Ciro quer fazer uma oposição “sensível” contra Bolsonaro. 

Palavras dele: “Cabe a oposição vigiar, cobrar. O que faz a burocracia do PT? Se retira da posse. Ora, quando o Aécio Neves nega o reconhecimento do sucesso eleitoral da Dilma, começa a plataforma do golpe. E o PT soube denunciar isso. Como é que se explica agora para o povo brasileiro que um adversário nosso, por mais deplorável que seja, não é reconhecido como vitorioso?”

Ciro adora usar a palavra “burocracia”, ao referir-se ao PT.

Seu sonho é ficar com os votos do petismo, mas sem o PT. 

Mas será que foi a “burocracia” que decidiu se “retirar da posse” de Bolsonaro? Ou será que esta posição foi aplaudida pela imensa maioria dos petistas em todo o país. Se não por razões políticas, inclusive por razões morais, como salientou o insuspeito jornalista Jânio de Freitas?

Como se explica isso para o povo brasileiro? Simples assim: o presidente eleito, na campanha e depois da campanha, fez ameaças contra o PT e contra a esquerda que são absolutamente inaceitáveis numa democracia. Nada que ver, portanto, com a atitude de Aécio.

Noutros tempos, Ciro seria o primeiro a defender boicotar a posse. 

Hoje, pelo visto, está tentando vestir um figurino mais “paz e amor”. 

Menos quando diz respeito ao PT.

Talvez percebendo isto, o entrevistador pergunta: “o senhor fez parte dos Governos Lula e Dilma. Por que só agora descobriu estes problemas do PT?”

A resposta de Ciro é dizer que fez parte, mas foi se afastando. Revela que votou “no Haddad como cidadão”. Mas que não vota mais “nesta burocracia do PT”. 

E apresenta o seguinte motivo: “De lá pra cá eles se corromperam. Essa é a triste, dura e sofrida realidade. Apodreceram. Tomaram gosto pelas benesses do poder”.

A política brasileira é realmente interessante. Ciro tem uma trajetória longa na política brasileira. Passou por não sei quantos partidos. Faz parte de um clã oligárquico, os Ferreira Gomes. E se acha na condição de dizer que “eles”, os outros, se “corromperam”.

O “eles” inclui, paradoxalmente, setores do PT que sempre defenderam alianças com os Ferreira Gomes. E que defenderam, inclusive, apoiar Ciro como “plano B” em 2018.

O importante, entretanto, é perceber que Ciro usa a palavra “corromperam”. Não por coincidência, a mesma acusação que foi lançada contra o PT nos últimos anos e que frequenta grande parte das mensagens que Bolsonaro lança nas redes sociais.

O entrevistador insiste em saber por que Ciro, “que já esteve tantas vezes junto com o PT, não apoiou o Haddad”.

Ciro, o estadista, apresenta como primeiro motivo sua inconformidade contra Lula, por ter — segundo ele — imposto o nome de Dilma, quando ele Ciro e Eduardo Campos estariam melhor nas pesquisas.

Depois, o estadista destila sua inconformidade contra a decisão do PT, de manter a candidatura Lula: “todas as pedras do caminho sabiam que Lula não podia ser candidato pela lei da ficha limpa. E eles impõem a candidatura do Lula, mentem para a população brasileira explorando a boa fé do nosso povo mais pobre para comovê-lo até o limite da eleição e botar uma pessoa sem autoridade”.

Portanto, segundo Ciro, o PT deveria ter desistido de Lula desde a condenação em segunda instância. Ciro desconsidera todos os argumentos – democráticos, políticos, eleitorais – que levaram o PT a manter a candidatura Lula. Considera que insistir no nome de Lula teria sido uma exploração da boa fé do povo, visando... “botar uma pessoa sem autoridade”, ou seja, Haddad.

(Nesta narrativa não cabe, não encaixa, a versão segundo a qual Ciro teria sido convidado para ser vice de Lula e, depois, ser o candidato a sucessão. Sobre isso, mais ao fim da entrevista, Ciro diz o seguinte: “Ele me chamou para esta farsa. Ora, se eu estou denunciando uma farsa, uma fraude, e ele me chama para aperfeiçoar esta fraude, que tipo de homem eu sou, que tipo de líder eu seria no Brasil se eu, por qualquer tipo de ambição pessoal, fosse cumprir este papel imundo? Mandei dizer pra ele que me sentia insultado”. Ou seja: fraude não foi tirar Lula da disputa presidencial: fraude para Ciro teria sido insistir no nome de Lula.)

A pergunta óbvia é: se o PT tivesse desistido de Lula, quem se beneficiaria disto? Ciro imagina que teria sido ele. Pode ser. Como pode não ser. Isto nunca saberemos. O que sabemos é que, mesmo com Lula preso, o PT conseguiu levar uma “pessoa sem autoridade” ao segundo turno. E frente a esta situação, Ciro não teve a estatura de um Brizola.

Este são os fatos. E é por conta disto tudo que, hoje, Ciro está disposto a contribuir, ativamente, para a destruição do PT. Pois enquanto o PT existir, Ciro não poderá cumprir o papel que a “nação” destinou a ele.

E a destruição do PT começa por sua desmoralização.

É por isso que Ciro considera que Lula é um “preso comum”. 

E por qual motivo Lula seria um preso comum?

Segundo Ciro, se Lula “fosse um preso político, não tinha que recorrer aos tribunais. Lula não é condenado pelo Sérgio Moro, que eu sempre critiquei. É condenado por unanimidade pelo Tribunal Regional Federal. Tentou diversos recursos no STJ e STF. Portanto, por definição, é um preso comum. Mas se ele entende que é um preso político, não podia estar recorrendo às instâncias formais”. 

Este raciocínio de Ciro é típico dos tempos em que estamos vivendo.

Segundo ele, Lula seria -“por definição” - um preso “comum” porque foi condenado pelas instâncias comuns.

E se Lula acreditasse mesmo ser um preso político, então ele não poderia recorrer às “instâncias formais”.

O fato das instâncias comuns terem condenado sem provas e com claríssimas motivações políticas, é para Ciro um detalhe.

E o fato de que presos políticos, no Brasil e em outros países, em diferentes circunstâncias históricas, terem também recorrido às respectivas “instâncias formais”, é para Ciro outro detalhe.

O que importa para ele, falemos claro, é que Lula precisa ser considerado um preso comum.

Pois se Lula for considerado um preso político, então a insistência do PT em manter sua candidatura teria sido uma atitude absolutamente justa e necessária. 

Ciro reconhece que a sentença que condenou Lula é “frágil”. Mas insiste que isso (a sentença frágil) não o transformaria num preso político, porque “ele aceitou a dinâmica”.

Ciro “alisa” Moro, o TRF4 e a maioria do STF e do TSE. A sentença não foi “frágil”. Foi ilegal e injusta. Precisa ser anulada. 

E o que caracteriza uma prisão política não é a atitude do preso frente ao processo. O que caracteriza a natureza política da condenação é sua motivação, que levou a atropelos de toda ordem no processo, até resultar numa condenação sem provas.

Ciro confunde a discussão sobre a natureza política do processo e da condenação, com a discussão sobre qual tática se devia adotar frente ao processo. 

É óbvio que uma parte do PT demorou muito para perceber que estávamos diante de um processo político, que deveria ser respondido politicamente.

E é óbvio que uma parte da defesa de Lula segue acreditando demais no judiciário e acreditando de menos na luta política. 

Mas reconhecer que todo o processo e a condenação (e não apenas a prisão coercitiva) foi politica, não implica obrigatoriamente na adoção desta ou aquela tática. Por exemplo, não implica em aceitar a ideia do “asilo”.

Até porque defender que Lula pedisse “asilo político” poderia, entre outros problemas, mandar uma mensagem que confirmaria, junto a vários setores da população, inclusive setores da esquerda, a interpretação que hoje Ciro Gomes defende.

Dito de outra forma: ou Ciro é incoerente hoje, ou foi incoerente ontem, ou ambas coisas. Pois não se defende asilo político para preso comum. 

Ademais, se o processo é justo, se a condenação é tão somente “frágil”, o que pensar de alguém que está tentando fugir para evitar pagar sua pena?

Mas isto tudo são, digamos, detalhes. O essencial é que, para Ciro, só há futuro se o PT e Lula estiverem fora do caminho.

Segundo o próprio Ciro, a minha missão hoje é ajudar o jovem brasileiro a entender o nosso país e a formular um caminho (...) chamando o debate para a inteligência e não para estas mistificações superficiais. Porque o bicho mais parecido com o bolsominion (nome pejorativo para os seguidores de Bolsonaro) é o petista fanático. Tanto para o bolsominion como para o fanático do PT pode acontecer o diabo que eles relativizam o diabo”. 

Ou seja: Ciro sabe que suas chances em 2022 - ou quando seja - dependem de que Bolsonaro e o PT não tenham a força que exibiram em 2018. E por isso Ciro investe contra o inimigo que aprece momentaneamente mais frágil: o PT.

Ciro não tem limites: mistura críticas políticas às alianças com Renan Calheiros e Eunício de Oliveira, com acusações de corrupção contra o PT: “Lula e o PT deram 1 bilhão de reais em contratos sem licitação na Petrobras. Vai pro diabo a burocracia do PT. Tudo picaretagem da pura. O Sergio Machado metia a mão na Transpetro, eu cansei de dizer isso ao Lula. Então, PT, vai devagar comigo, porque eu não gostaria de transformar o PT em meu adversário”.

A violência verbal é tão grande, que o entrevistador comenta que, na prática, Ciro estaria transformando o PT em adversário.

Ele nega: “Não estou, não. Mas cada vez que eles vierem com uma dessas, e agora veio da sua pergunta, não porque você interpreta, mas porque eles estão dizendo, eu vou dizer porque eu não pude mais apoiar o PT. Eu engoli tudo o que eu podia engolir. E regozijei” (sic).

Regojizou...

Ciro é um cara curioso. Adora falar da “nação”, mas quando estava em curso a batalha do segundo turno, em que estavam em jogo os interesses mais profundos do povo e portanto da mais legítima nação brasileira, ele preferiu ir embora do país, sob o argumento de que “não estava na minha mão”, que era uma “eleição perdida”, que “todo mundo estava vendo isso”. 

E, apoiando-se no fato de que no Ceará Haddad teve 70% dos votos, diz que “portanto eu apoiei o Haddad. O que eu não faço mais é campanha com esta quadrilha (...) Se eu achasse que ia fazer diferença, eu engolia de novo, como engoli lá atrás. Agora, me obrigar, por uma solidariedade ao campo progressista... o Haddad é progressista, sem dúvida. Mas o PT é uma força corrupta. Estou falando da cúpula do PT, não da sua base”.

Segundo Ciro, o PT seria uma força corrupta.

Segundo Ciro, o PT seria uma quadrilha.

Frases que poderiam sair da boca de Bolsonaro.

Mas que Ciro repete, com “regojizo”.

Ciro acusa o PT de querer “tudo na imposição de uma hegemonia podre. Já foi. Agora eles encontraram alguém que tem coragem de encará-los. Eu sou pós PT”.

E deixa claro que pretende “criar uma corrente de opinião, que livre o Brasil desta burocracia corrompida do PT”.

Portanto, Ciro e Bolsonaro querem livrar o Brasil do PT.

Vou pular as coisas óbvias que Ciro diz sobre uma possível candidatura a presidência da República (“eu aceito que o meu partido cogite a minha candidatura”) e passo de novo à obsessão de Ciro: o PT.

Segundo ele, só “existe o Bolsonaro porque existe este tipo de petismo” (...) “eles se amam, na prática”.

Contra isto, Ciro se propõe a ser não uma terceira via, mas “a via”.

Ciro termina sua entrevista fazendo mais uma crítica ao PT. 

Segundo ele, foi “nas mãos do PT/PSDB que o Brasil faz a mais grave concentração bancária do mundo capitalista”.

E acrescenta:  “Durante o governo do PT/PSDB, nós criamos o seguinte fenômeno: seis brasileiros tem a renda equivalente a fortuna que somam 100 milhões de brasileiros. Aí estes 100 milhões de brasileiros estão obrigados a se conformar com o Bolsa Família. Isso é irrelevante? Não, é muito importante. Mas o país que eu sonho vai emancipar seu povo pelo trabalho decentemente remunerado e pela educação emancipadora”.

Suponhamos que Ciro estivesse em sono profundo na época em que, segundo ele, ocorria estava esta tragédia.

E aceitemos como correta a posição segundo a qual não haverá desenvolvimento democrático, popular ou socialista no Brasil, enquanto o grande capital financeiro exercer sua ditadura sobre o pais.

A pergunta é: Ciro acha mesmo que será possível enfrentar este monstro, sem o PT e contra o PT? Acha que será possível derrotar o capital financeiro, sem que o PT estava engajado nessa guerra?

Se há alguma sinceridade programática no que Ciro fala, a política dele contra o PT não faz o menor sentido.