segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Mangabeira Unger attacks again


No dia 15 de dezembro de 2018, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma interessante entrevista com o professor Mangabeira Unger.

Mangabeira é professor em Harvard. Sua trajetória política inclui uma passagem pelo governo Lula e o apoio à candidatura de Ciro Gomes a presidente em 2018.

Logo no início da entrevista, Mangabeira afirma que a eleição de 2018 foi “um plebiscito sobre a volta do PT”, no qual uma “maioria decisiva dos brasileiros estava disposta a pagar quase qualquer preço para evitar o retorno do PT”. 

Por quais motivos teria surgido esta suposta disposição, veremos adiante. 

De toda forma, é a partir desta premissa que Mangabeira afirma que o PT e o Lula “deveriam ter tido a grandeza de reconhecer que a maioria dos brasileiros não aceitaria a volta do PT”.

Não captei a lógica matemática de Mangabeira, pois os 57 milhões que votaram em Bolsonaro não são a maioria dos eleitores, muito menos a “maioria dos brasileiros”.

Mas entendi a lógica política de Mangabeira: ao afirmar que a eleição estava perdida desde o início, ele se dá ao direito de não falar do golpe, da interdição da candidatura Lula, dos crimes eleitorais cometidos pela campanha de Bolsonaro, da atitude dos que lavaram as mãos no segundo turno.

Nada disto importa, pois segundo Mangabeira “não havia qualquer chance de vitória do candidato do PT, mesmo que Lula pudesse ter sido candidato”.

Esta afirmação de Mangabeira contradiz todas as pesquisas que foram publicadas ao longo de 2018, antes da interdição de Lula. 

Mas é muito útil para os que defendem a performance do juiz Moro, da maioria do TRF4, do STF e do TSE. 

Afinal, se não havia “qualquer chance” de Lula vencer, então a condenação, a prisão e a interdição não teriam influído no resultado da campanha.

E que conclusão Mangabeira tira dessa “narrativa”? 

Bidu: a de que o “natural” é que o PT “desde o início tivesse apoiado Ciro”. 

A palavra “natural” faz sentido, pois o que Mangabeira está efetivamente sugerindo é que o PT deveria ter “naturalizado” o golpe, “naturalizado” a interdição de Lula, “naturalizado” a retirada da disputa política de um Partido que recebeu 31 milhões de votos no primeiro turno, demonstrando ter várias vezes mais votos que Ciro. 

A falta de lógica no raciocínio de Mangabeira é tão evidente, que a Folha pergunta: “E por que Ciro não venceu?”.

A resposta de Mangabeira é reconhecer que Ciro e seus aliados cometeram um erro. 

Registro que acho admirável esta capacidade de síntese: um erro, um único erro. 

E qual erro teria sido? 

O de ter ficado no “meio termo” entre “dois caminhos”.

Um caminho teria sido aceitar ser vice de Lula, para depois virar cabeça de chapa.

Outro caminho teria sido romper desde o início com o PT.

Se Ciro não tivesse ficado no “meio termo”, ele teria conseguido vencer?

Mangabeira dá a entender que sim. Ou seja: se Ciro tivesse se aliado ao PT, poderia ter vencido. E se tivesse rompido totalmente com o PT, poderia ter vencido. 

Que Ciro acreditava nisso, todos sabemos. Ele chegou até mesmo a se apresentar, durante uma entrevista, como o “futuro presidente do Brasil”.

Qual a base racional dessa certeza, Mangabeira não deixa claro.

Não devem ser algumas pesquisas publicadas ao longo do primeiro turno, pois afinal se as pesquisas forem aceitas para estimar as chances de Ciro, deveriam ser aceitas, também, para estimar as chances de Lula, aquele que segundo Mangabeira não teria “qualquer chance”.

Ciro teria vencido, segundo Mangabeira, se tivesse adotado uma de duas posições antagônicas. 

Noutros termos: se fosse o candidato do PT contra a direita, ou se fosse o candidato da direita contra o PT.

Deixemos de lado os sentimentos que nos causam quem admite ser água ou ser azeite, desde que isso lhe permita vencer as eleições. 

O que importa é que Mangabeira reconhece que a eleição estava polarizada entre petismo e antipetismo, logo Ciro só poderia vencer se ocupasse um dos polos.

Neste momento, fica claro como a “narrativa” de Mangabeira é generosa com Ciro Gomes.

Afinal, não é exato dizer que Ciro tenha ficado no “meio termo”. 

Pois quem estivesse neste lugar não teria atacado o PT e Lula como Ciro atacou. Nem teria se ausentado de todos os atos contrários à condenação e à prisão de Lula. 

O fato é que Ciro tentou ser o candidato da centro-direita contra o PT. 

Como esta operação não teve êxito, ele tentou ser o candidato da centro-esquerda sem o PT. 

E depois de tanto ziguezague, terminou sozinho, abandonado pelos que ele queria como aliados de centro-direita e como aliados de centro-esquerda. 

Mais exato, portanto, seria dizer que o ziguezague de Ciro durante a campanha passou, para alguns setores, a impressão de que ele estaria no “meio termo”. 

Seja como for, a questão é: segundo Mangabeira, Ciro poderia ganhar a eleição, desde que tivesse o apoio de Lula. Ou seja, o PT poderia ganhar a eleição, desde que tivesse Ciro como candidato a presidente. 

Convenhamos que isto enfraquece “um pouco” a tese segundo a  qual o PT perderia a eleição com qualquer um.  

Agora, alguém acredita que o “sistema” trataria Ciro Gomes com luva de pelicas, caso ele fosse o candidato apoiado pelo PT?

Voltemos à entrevista: a Folha pergunta se ao não declarar voto em Haddad no segundo turno, Ciro teria buscado consolidar o afastamento do PT.

A resposta de Mangabeira é extremamente reveladora: “Tarde demais para superar os males gerados por essa ambiguidade”. 

Ou seja, a resposta é... sim, ao não declarar voto em Haddad, Ciro teria buscado consolidar o afastamento do PT.

Portanto, segundo Mangabeira, a postura de Ciro Gomes no segundo turno era uma versão tardia da postura de “romper com o PT”.

Ajustando as palavras ditas por Mangabeira sobre o povo, no segundo turno Ciro demonstrou estar disposto a “pagar quase qualquer preço para evitar o retorno do PT”.

Na mesma resposta, Mangabeira diz outra coisa muito interessante: “Ciro passou muito tempo explicando-se para as classes ilustradas e endinheiradas, que na maioria jamais votariam nele, em vez de buscar o povão”.

Repito: Ciro não buscou o povão, Ciro gastou tempo com os endinheirados, que “na maioria jamais votariam nele”. Mas para buscar o povão, Ciro precisaria estar com o PT. O que ele não quis. 

Aqui vai surgindo a terrível conclusão, que Mangabeira não expressa desta forma, mas que fica implícita em seu raciocínio: para que esta situação vivida por Ciro em 2018 não se repita futuramente, é preciso que antes das próximas eleições o PT seja destruído, ou a partir de dentro, ou a partir de fora.

Esta hipótese parece contraditória com o fato de Mangabeira, segundo ele próprio, ter defendido que Ciro se compusesse com o PT em 2018. 

Mas leiamos com atenção a afirmação de Mangabeira: se Ciro escolhesse o acerto com o PT, não havia nenhum risco de que, no poder, Ciro se conduziria como “instrumento do lulismo”, pois Ciro não seria um “poste”.

Se eu entendi direito, o ilustre professor de Harvard está deixando claro que defendia o acordo, como um expediente tático, para ganhar a eleição. 

Mas se Ciro ganhasse, Mangabeira defende que Ciro desse uma “rasteira” no PT, atitude embelezada pela afirmação de que haveria uma diferença “substantiva” entre os projetos defendidos pelo PT e por Ciro.

Uma pausa para a reflexão daqueles que defenderam que o PT deveria apoiar Ciro em nome de tentar impedir a direita de chegar ao governo, e que agora são informados sobre o que Mangabeira acha que Ciro faria em seguida contra o PT, e que logo adiante serão informados que o programa de Ciro teria pontos de afinidade com o de Bolsonaro.

Outra pausa para reflexão: de um lado temos um partido com várias lideranças, de outro lado temos uma pessoa. Não surpreende, portanto, a facilidade com que Ciro pode se mover de uma posição a outra. Mas surpreende como se acha possível, com este nível de organicidade, governar um país. 

Fim da pausa.

É só neste momento da entrevista que a Folhapergunta como Mangabeira explica “a ascensão de Bolsonaro”. 

A resposta de Mangabeira ficaria melhor se dita em inglês: “PSDB e PT juntos, duas cabeças da mesma serpente, conduziram o Brasil por uma lógica de cooptação”. A corrupção teria sido um dos “corolários” disto. “E por trás dessa rejeição ao PT havia o repúdio à lógica da cooptação”.

Aqui está, portanto, a resposta à questão posta no início da entrevista: uma “maioria decisiva dos brasileiros estava disposta a pagar quase qualquer preço para evitar o retorno do PT”, porque repudiava a “lógica da cooptação”. 

Portanto, esqueçamos esta ideia de que houve um golpe, articulado por uma coalizão de forças que, em última instância, expressava os interesses dos grandes capitalistas brasileiros e de seus aliados estrangeiros.

Nãnãnãnãninha.

A verdade, segundo Mangabeira, é outra totalmente diferente. 

O PT teria sido rejeitado pelos “emergentes”, pela “pequena burguesia empreendedora mestiça morena, que vem de baixo”, por uma multidão de “trabalhadores pobres que vê nos emergentes a vanguarda”, pelo “Brasil profundo”.

Esqueçamos a nomenclatura e vamos ao miolo: é óbvio que parcela das classes trabalhadoras, assalariadas ou pequeno proprietárias, apoiou o golpe e votou contra o PT. 

Mas será realista, não digo uma análise, mas uma descrição do ocorrido no Brasil desde o final do segundo turno de 2014, sem falar dos grandes capitalistas e do governo dos EUA??

Mangabeira aponta o dedo para outro lugar, para um setor que estaria “órfão de projeto político”. E a Folha pergunta se “a esquerda abandonou essa população”. E Mangabeira responde: “Chamar de esquerda o PT é muito esquisito”.

Esquisito, segundo Mangabeira, porque o PT defenderia um projeto “nacional consumista”, que “democratizou a economia do lado da demanda e do consumo, não do lado da produção”, não tendo “qualquer projeto de mudança estrutural”.

Mangabeira não diz que o PT não era suficientemente de esquerda, radicalmente de esquerda, coerentemente de esquerda. Não discute qual setor social foi beneficiado pelo projeto que ele imputa ao PT. Diz apenas que era “esquisito” chamar o PT de esquerda, porque o projeto do PT não envolvia “mudança estrutural”.

Lendo isto, fica mais claro o caminho mental percorrido por gente que começou criticando o PT pela esquerda e terminou votando no Ciro. 

Mas a pergunta óbvia é: se o PT não seria de esquerda porque o projeto de país proposto pelo PT não envolveria qualquer “mudança estrutural”, que tipo de “mudança estrutural” Ciro defendia?

Na entrevista não é dito.

O dito é que, segundo Mangabeira, Bolsonaro teria sido o “beneficiário acidental” do desejo frustrado de uma parte da população brasileira que não se contentava com o “açúcar” oferecido pelo PT.

Mangabeira elogia o “esforço” que Bolsonaro fez “durante anos de construir um discurso e canais para esse Brasil desconhecido, que é agente decisivo hoje”.

E acrescenta: Bolsonaro “oferece soluções simplistas, mas que no imaginário apelavam para uma ideia de libertação e merecimento. Era a forma simplista e até distorcida e mentirosa de uma aspiração legítima”.

Se a Folha não errou na tradução, nem na transcrição do gravado, o que Mangabeira está dizendo é que Bolsonaro está no caminho certo. 

Portanto, a “mudança estrutural” que Bolsonaro e Mangabeira defendem possuem pontos de afinidade.

Até que ponto Mangabeira expressa, nesta questão, o ponto de vista de Ciro? Não sei.
Até porque um candidato que deu destaque ao tema do SPC não pode falar tão grosso contra um modelo “nacional consumista”.

Mas quem conhece as posições defendidas por Mangabeira, em outras ocasiões, sabe que seu elogio a Bolsonaro é coerente com a visão de país defendida pelo professor de Harvard. 

Neste sentido, pode parecer “esquisito” que Mangabeira escolha, para desqualificar o PT, a acusação de que não seríamos de esquerda.

Mas a acusação ganha todo sentido, quando Mangabeira afirma o seguinte: “PT não é esquerda. Precisamos de inovação estrutural. Andar demais com o PT é um perigo sob o ponto de vista desta tarefa”.

Ao mesmo tempo, Mangabeira diz que “a esquerda, para chegar ao governo, precisará de eleitores que votaram em Lula, não precisará necessariamente do PT e do Lula. Gostaria que Lula tivesse a grandeza de compreender tudo isso”.

O que entendi foi o seguinte: para ganhar numa próxima eleição, Ciro tem que apresentar-se como alternativa para os eleitores do PT e de Lula. Mas não vale a pena aliar-se com o PT, porque o PT é um obstáculo ao programa que Mangabeira defende, que por sua vez tem semelhanças com o programa que Bolsonaro defende. Neste sentido, o governo Bolsonaro pode abrir terreno para um futuro governo Ciro, seja pelo programa que Bolsonaro implementará, seja porque Bolsonaro contribuiria para destruir o PT, “libertando” seus eleitores para votar em Ciro.

E o cidadão ainda espera que Lula tenha a grandeza de compreender tudo isto!!!

Exagero da minha parte?

Não é não.

Perguntado se Bolsonaro fará um bom governo, Mangabeira responder que “me parece promissor, e falo como opositor, a ideia de impor o capitalismo aos capitalistas”.

Ou seja, o programa ultraliberal de Paulo Guedes virou “impor o capitalismo aos capitalistas”.

Mangabeira faz uma ressalva: isto “nem de longe é condição suficiente para o modelo de desenvolvimento que precisamos, mas é condição preliminar. A radicalização da concorrência, quebra dos carteis, a destruição dos favores dados aos graúdos pelos bancos públicos”.

Como se pode ler, Mangabeira elogia o programa ultraliberal de Paulo Guedes, apresentando-o como condição preliminar para o programa de desenvolvimento que ele, Mangabeira, defende. E que ele diz que Ciro defende, também.

Mas não para por aí.

Mangabeira elogia Bolsonaro por oferecer “aos emergentes um projeto político que responde às aspirações deles”. Ressalva considerar que “a resposta é tosca e irá frustrar parte da população. Mas é melhor do que nada”.

Para Mangabeira, a proposta de Bolsonaro não seria um caminho inaceitável e bárbaro, seria apenas uma forma “tosca e insuficiente” de constituir a “lógica do empoderamento”.

Vou pular as afirmações de Mangabeira sobre a “economia do conhecimento”, sobre o “experimentalismo radical”, sobre a “inovação institucional político e econômica”, assim como a proposta de “burilar nossa vitalidade”, pois fazem parte do blábláblá de 9 em cada 10 tudologos que tentam mascarar com palavreado bonito e vazio sua capitulação frente aos ataques que o grande capital está fazendo contra os direitos das classes trabalhadoras.

Passo direto a conclusão política: Mangabeira acha que o “atalho” defendido por Bolsonaro é uma “primeira onda” que ele julga “útil” ao país e “talvez, retrospectivamente, venhamos a pensar que ela foi necessária”.

Portanto, a postura de Ciro no segundo turno pode envolver muito mais do que parece. E a atitude de Ciro diante do PT pode ser muito mais destruidora do que parece.

Pois quem acredita não existir “qualquer indício concreto de ameaça direta à democracia”, não vê e nem verá nenhuma “ameaça” na continuidade da ofensiva contra o PT, contra o MST, contra o MTST, contra a CUT, contra as ideias da esquerda. 

Nem verá qualquer problema no fato de Lula estar preso. Aliás, diz Mangabeira, “Moro pode ser muito bom para o país”, porque contribuiria “para a desorganização dos acertos entra a oligarquia do poder e a oligarquia do dinheiro”. 

Um último comentário: Mangabeira foi ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República do Brasil. Não me lembro de, naquela época, ele ter dito algo tão tosco quanto afirmar que a política externa dos governos petistas era uma “sucursal da UNE”. 

Mas, vai saber, talvez ele ache que uma crítica tosca seja melhor do que nada.


Aqui está a íntegra da entrevista criticada:

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/12/bolsonaro-e-resposta-tosca-mas-nao-ameaca-a-democracia-diz-mangabeira-unger.shtml

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O que provoca desconforto na direção do PT


No dia 3 de dezembro de 2018, o professor Aldo Fornazieri publicou um artigo intitulado “O PT, a militância e a sociedade”.

Nele, prossegue uma polêmica iniciada em artigo anterior, intitulado “Destino de Lula: abandono e solidão”.

Fornazieri registra ter recebido “duas respostas diretas: uma de Valter Pomar, ex-membro da Executiva Nacional do PT e outro de Gleisi Hoffmann, presidente do partido”.

E agrega, de maneira quase ingênua: “Assim, o artigo atingiu um de seus objetivos que consistia em provocar desconforto na direção do PT”.

Bolsonaro eleito, soberania nacional rasgada, direitos sociais atacados, liberdades democráticas em questão, Lula preso, Dilma e Haddad no alvo da justiça, boatos de cassação da legenda...  
... e, como se não bastasse, Aldo Fornazieri escreve um artigo que tem como um de seus objetivos provocar “desconforto” na direção do PT.

Definitivamente, nada está tão ruim que não possa piorar. Mas como sou adepto da tese de que, em tempos de confusão e desorientação, não se deve deixar nada sem resposta, vamos a este novo artigo de Fornazieri.

Comecemos pelo ataque que ele faz contra Gleisi Hoffmann, a quem acusa de ter escrito um artigo “motivado pelo despeito”.

Despeito?

Fui lá no “pai dos burros” e achei duas definições para “despeito”: “ressentimento produzido por desconsideração, desfeita, humilhação ou ofensa”; “desgosto motivado pela preferência dada a outrem ou por decepção”.

Se entendi direito, Fornazieri acusa Gleisi de ressentimento produzido pela ofensa.

Segundo Fornazieri, o artigo de Gleisi começa afirmando que ele ofendeu "gratuitamente o PT, os nossos dirigentes e a nossa militância".

Fornazieri acredita que seu artigo “não ofende absolutamente ninguém. Trata-se de uma avaliação política que é comungada com milhares de petistas e de ativistas sociais. Só escrevi o artigo sobre o assunto Lula depois de ser instado por vários militantes e eleitores do PT.”

Estou seguro de que Fornazieri acredita mesmo ter sido instrumento de “vários” e porta-voz de “milhares”, assim como estou seguro de que ele acredita mesmo não ter ofendido “absolutamente ninguém”.

Mas usando o mesmo “método científico” adotado por Fornazieri, eu arriscaria dizer que: 1) Gleisi só decidiu publicar seu artigo depois de ser instada “por vários militantes e eleitores” e 2) o artigo de Gleisi expressa uma avaliação que é “comungada com milhares de petistas e ativistas sociais”.

Arriscaria dizer, também, que há dentro do PT quem ache Fornazieri motivado pelo “despeito”, neste caso por “desgosto motivado pela preferência dada a outrem ou por decepção”.

Espero não ter ofendido ninguém e, ainda assim, espero ter demonstrado que este estilo literário adotado por Fornazieri não conduz a lugar nenhum, entre outros motivos porque não é passível de “comprovação pelos fatos”.

Pulo a parte do artigo sobre a obrigação dos partidos em geral prestarem esclarecimentos aos cidadãos em geral, assim como pulo o parágrafo dedicado à polaridade “ética e transparência versus fake news”.

Passemos às conclusões: segundo Fornazieri, um partido político democrático precisa ser “aberto, transparente, acessível, interativo, dialógico”. E, claro, o PT “vem falhando nestes aspectos, tanto na comunicação com a sociedade, quanto com a militância”.

Cá entre nós: Fornazieri não precisaria ter citado os arcana imperii para chegar a esta conclusão.

Pois qualquer petista, inclusive os que não são doutores em ciência política, sabem que o Partido “vem falhando”.

E qualquer petista gostaria que nosso partido fosse “aberto, transparente, acessível, interativo, dialógico”. E eu acrescentaria, por minha conta e risco: uma perfeição, um modelo de virtude, um ambiente amigável e tudo o mais.

Mas todo petista sabe, também, que a vida anda dura, muito dura.

Assim como sabe que os problemas enfrentados pelo Partido vem de longe (inclusive da época em que Fornazieri era da direção) e vão demorar um bom tempo para serem superados.

Por isso, não vejo sentido no estilo “arrombador de porta aberta”, “descobridor da pólvora”, adotado por Fornazieri em várias passagens de seu texto.

Ele descobriu, por exemplo, que além de graves problemas de comunicação, “existem também erros políticos, no que diz respeito à campanha Lula Livre”.

E agrega (anotem aí): “Existiram duas ocasiões, de certa forma contínuas, que eram propícias para exercer o máximo de pressão pela liberdade de Lula: a) no contexto da condenação e da prisão; b) no contexto da sua candidatura à presidência da República. Nesses momentos havia uma sensibilidade social bastante ampla em favor de Lula, em favor de sua candidatura e contra a sua condenação e prisão. Nenhuma mobilização de envergadura, configurada numa campanha sistemática, foi lançada nesses momentos”.

Como diria Jack, não quero ofender ninguém, assim vou por partes.

Lula está preso. Portanto é óbvio que a campanha pela sua libertação não teve, até o momento, êxito.

A questão é: ela não teve êxito por quais motivos?

Um dos muitos motivos é o seguinte: as instituições de Estado estavam controladas por quem desejava condenar e prender.

Um segundo motivo é: a mobilização dos que eram contra a condenação e a prisão não atingiu força suficiente para derrotar os que desejam condenar e prender.

Por quais motivos foi assim?

Um dos muitos motivos é: as instituições do Estado burguês estão aí para isso mesmo e, quando pudemos, não fizemos nada para alterar seu funcionamento e composição, muito antes pelo contrário.

Outro motivo é: a maior parte da esquerda demorou a se dar conta de que a condenação e a prisão viriam e, portanto, demorou a pensar em tomar as medidas necessárias para enfrentar isso.

(Comentário: era uma absoluta minoria que dizia, desde 2015, que viriam pela frente tempos de guerra. Era absoluta minoria, também, quem falava com toda clareza o que estava no plano do lado de lá: condenar e prender Lula.)

Fornazieri desconsidera tudo isto (a postura majoritária nas instituições do Estado, os erros acumulados etc.) e – fazendo um coquetel de Lenin, Maquiavel e Lair Ribeiro—afirma que “uma das condições fundamentais do êxito político diz respeito a como saber lidar com o momento, com a ocasião, aproveitando-o”.

Verdade. Mas também é verdade que as chances de êxito tático não brotam do laboratório mental da Escola de Sociologia e Política, elas são construídas ao longo do tempo.

(Para usar uma imagem antiga, que Fornazieri deve lembrar: os bolcheviques não tomaram o poder em outubro de 1917 apenas porque eram táticos geniais, mas também porque haviam construído, ao longo de pelo menos 14 anos, os instrumentos que tornaram possível materializar sua tática genial. E, mesmo assim, não teriam tido êxito se as circunstâncias não fossem favoráveis, entre elas os de cima não conseguirem mais governar como antes e os de baixo não aceitarem mais ser governados como antes.)

Trazendo para os tempos modernos e para a discussão presente: Fornazieri cobra do PT de 2016-2018 que faça algo para o que não se preparou entre 1995 e 2015. E, o que é pior, Fornazieri não inclui na equação este “detalhe”, talvez porque tenha “culpa no cartório” pelas opções do PT nos anos 1990.

As campanhas realizadas, quando da condenação e da prisão, e quando da candidatura de Lula à presidência da República, foram evidentemente insuficientes para atingir os objetivos de anular a pena, impedir a prisão, libertar e garantir a candidatura.

Mas é simplesmente falso dizer que “nenhuma mobilização de envergadura, configurada numa campanha sistemática, foi lançada nesses momentos”.  

Se isto fosse verdade, Haddad não teria recebido 31 milhões de votos no primeiro turno, pois ao menos no primeiro turno sua candidatura foi sustentada por Lula, pela campanha realmente existente em favor de Lula.

Apesar de ser falsa, porque Fornazieri insiste nesta afirmação?

Porque é um mentiroso?

Não, de jeito nenhum. Fornazieri tem outros defeitos, não esse.

Fornazieri insiste em repetir uma afirmação falsa, porque a lógica dele é “maximalista”.

Noutras palavras: como não atingimos os objetivos desejados, Fornazieri diz que “nenhuma” coisa foi feita, nada “capaz de criar força suficiente para promover uma pressão para uma virada nos tribunais e nos meios políticos em favor de Lula”.

O cidadão arromba porta aberta.

É óbvio que não demos uma virada.

Mas isso não quer dizer que “nenhuma” coisa, que “nada” foi feito.

Quer dizer que não foi feito o suficiente.

E não foi feito o suficiente, devido a uma mistura de erros táticos e de um acumulado de erros estratégicos nossos, mais um acumulado de acertos do lado de lá.

Sobre estes últimos, Fornazieri nada fala. É como se a tal luta de classes fosse travada no espelho de cristal da sala de jantar da vovó.
Fornazieri coloca no seu texto umas frases feitas extraídas de certa (con)fusão entre Lenin, Maquiavel e Lair Ribeiro.

Uma destas frases diz assim: “Em política o êxito depende também do respeito, da reputação e do temor. Respeito e reputação se conquistam pelo exemplo da conduta, pela eficiência no agir e pela realização de feitos significativos. O temor se conquista pela força que um agente dispõe e do saber usá-la. No Brasil, país de capitalismo predatório e de elites predadoras e golpistas, um partido progressista e de esquerda se faz respeitar e temer muito mais pela força do que por outros predicados. É esta força organizada e mobilizada que o PT ficou a dever”.

Claro que existe um grão de razão nesta argumentação de Fornazieri.

O grão é o seguinte: o PT foi se domesticando, desde os anos 1990. 

Em alguma parte deste tempo, Fornazieri defendia a domesticação.

Um PT mais domesticado era apresentado, entre outras coisas, como útil para ganhar algumas eleições.

Mas quando a classe dominante mudou de conduta, a domesticação virou uma armadilha, pois o único jeito de não levar mordida era mostrar os dentes.

Mas havíamos desaprendido isto.

Este desaprender não tem, como Fornazieri parece achar, causas apenas intelectuais, teóricas, ideológicas. O desaprender a “rosnar e morder” é um problema essencialmente prático.

Os movimentos sociais, os sindicatos, os partidos de esquerda, perderam capilaridade, capacidade real de mobilização, musculatura.

E uma parte de nosso partido (e de outras organizações de esquerda) acreditou naquilo que vários, Fornazieri inclusive, defendiam nos anos 1990.

Agora, precisamos reaprender velhas canções e antigas formas de luta.

Sem levar em conta tudo isso, não vamos entender por quais motivos tivemos imensos problemas de mobilização, por exemplo desde 2015 até 2018.

As pílulas de sabedoria que Fornazieri nos oferece não são capazes de resolver este problema.

E a maneira como Fornazieri “passa carão” na direção não ajuda, não porque a direção não mereça carão (quem sou eu para dizer o contrário...). mas porque não identifica onde estão os problemas fundamentais .

Fornazieri  diz que “a responsabilidade de gerar cultura de mobilização e disposição de luta é dos partidos, dos sindicatos e dos movimentos sociais. Nas décadas de 1980-90 o PT mobilizava. 

O fato é que nos treze anos de governo do PT, o partido não se mobilizou e se afastou das bases, das periferias. Os sindicatos e alguns movimentos sociais foram viver à sombra do poder. O que explica, por exemplo, que no processo do impeachment que resultou no golpe somente no final de 2015 foi convocada uma manifestação em defesa da democracia e do governo? Já haviam ocorrido várias manifestações, com milhares de pessoas, pedindo a derrubada de Dilma”.

Por partes: é falso que somente “no final de 2015” tenha sido convocada uma manifestação em defesa da democracia e do governo.

Recomendo a Fornazieri que leia a cronologia de 2015-2016, publicada pelo insuspeito jornal O Estado de S. Paulo, para lembrar os acontecimentos.

Nesta cronologia está registrado, no dia 13 de março de 2015, o seguinte: “CUT, UNE e MST realizam manifestações em 23 Estados. Milhares vão às ruas em defesa da Petrobrás, contra o impeachment da presidente e o ajuste fiscal do governo federal.”


Corrigida a informação falsa, vamos ao núcleo do problema: “Nas décadas de 1980-90 o PT mobilizava. O fato é que nos treze anos de governo do PT, o partido não se mobilizou e se afastou das bases, das periferias”.

Aqui tem dois problemas, que Fornazieri não percebe.

Problema um: mobilização, o PT fez a vida inteira e continua fazendo. Inclusive nos anos de 2003 a 2016, quando estava na presidência, o PT fez inúmeras mobilizações. A questão é que a natureza da mobilização, assim como a natureza da relação com as bases, até mesmos as bases que se mobilizavam, tudo isto foi se alterando.

Problema dois: não se combate um golpe com “mobilização” de tipo normal.

Quem duvida, compare as manifestações em 1972 e 1973, no Chile. 

A maior manifestação foi feita na véspera do golpe. Mas os golpistas não estavam mais contando povo nas ruas, estavam contando tropas.

Aqui no Brasil, para deter o golpe, teríamos tido que fazer mobilizações de outro tipo. Para isso não bastava ter movimento social, governo e partido. Era preciso ter movimentos, governo e partidos dispostos ao combate total. E isto não tínhamos. E não tínhamos porque não construímos isso. E não construímos isso porque não nos preparamos para o óbvio, para algo que iria ocorrer mais cedo ou mais tarde: para a “insurreição da burguesia”.

Portanto 1, frases do tipo “os sindicatos e alguns movimentos sociais foram viver à sombra do poder” nem chegam perto de arranhar o problema real. Exceto pela insistência em falar de “poder”, algo que nunca tivemos, nem chegamos perto de ter.

Portanto 2, Fornazieri incorre em erro quando afirma que “a questão de fundo da crítica que o Pomar me dirige é a de que o PT é vítima do golpe etc., etc., etc., e que, por isso, não pode ser culpado”.

O que eu disse é que Fornazieri é mais um dos que acham que “a culpa” é do PT.

Mas isto não é “a questão de fundo”.

A resposta sobre qual é a questão de fundo está nas respostas dadas para esta saraivada de perguntas que Fornazieri faz, como parte de seu estilo literário, que deixa o antagonista desnorteado que nem um boxeador que recebeu vários golpes.

Seguem as perguntas: “Por que só se mobilizou tardiamente em 2015? Por que na véspera da votação do impeachment o partido e o governo avaliavam que venceriam a votação? Por que ministros do governo saíram do ministério três dias antes da votação e foram votar contra a Dilma? O PT e o governo não perceberam que tomavam café, almoçavam e jantavam com os inimigos? E o que dizer dos ministros do STF cuja maioria foi constituída pelos governos petistas?”

E quais as respostas?

Segundo Fornazieri, “o fato é que o PT tornou-se um partido de gabinetes e de mandatos: perdeu as ruas, perdeu as bases, perdeu a organização e perdeu a mobilização. Tudo isto, em boa medida, a resolução do partido aprovada no final de semana reconhece. E isto é bom se se tornar efetivo”.

Esta é a “questão”: Fornazieri dá uma resposta rasa para os problemas de fundo que ele aponta.

Para começo de conversa, se o PT tivesse perdido tudo o que ele fala, não teríamos tido 31 milhões de votos no primeiro turno.

Assim, talvez o certo seria dizer que o PT tornou-se um partido onde gabinetes e mandatos tem mais peso do que deveriam ter, um partido que perdeu parte das ruas, que perdeu das bases que já teve, que perdeu parte importante da sua organização e perdeu parte importante da sua capacidade de mobilização.

Em segundo lugar, a questão é: por quê?

E a resposta é: porque  a orientação estratégica que prevaleceu no PT, desde 1995, pressupunha que precisávamos de um partido para ganhar eleições, não para conquistar o poder.

É esta orientação errada que está por detrás dos “erros” listados, noutra saraivada de perguntas, pelo Fornazieri: “não foi um erro formar a chapa com Michel Temer? Não foi erro, em 2010, se aliar a Sérgio Cabral no Rio e apoiar Roseana Sarney no Maranhão contra Flávio Dino? Quem nomeou os Procuradores Gerais da República que se voltaram contra o PT? Quem nomeou os comandantes militares, os chefes da Abin, os diretores da PF?”

Portanto, me parece óbvio que o PT cometeu erros. E a questão não é saber quais erros. Mas por quais motivos eles foram cometidos. E os motivos fundamentais estão ligados a uma visão estratégica equivocada. 

O equívoco principal era o seguinte: achar que se a gente tivesse como objetivos ser governo para ampliar a democracia, o bem estar social, a soberania e a integração, deixando de lado o socialismo e principalmente abrindo mão da luta pelo poder old style, o lado de lá não faria o que fez.

Mas o lado de lá fez o que obviamente faria, mais cedo ou mais tarde. Todo o restante, inclusive o golpe, a condenação, prisão e interdição de Lula, decorrem deste fato: o lado de lá mudou de estratégia.

Compreender isto é muito mais fácil do que construir uma estratégia capaz de enfrentar a nova situação. 

Deste ponto de vista, os textos de Fornazieri -- escritos, segundo ele mesmo, tendo como um de seus objetivos "provocar desconforto na direção do PT" -- trazem mais sombras do que luz. Ou seja, até produzem algum desconforto, mas no lugar errado.

Algo  bastante coerente, vindo de quem nega ser distópico, mas assume ser "movido por uma consciência estoica". Se lembro bem das lições filosóficas, a explicação está dada. 


O artigo de Fornazieri está disponível aqui:  
https://www.brasil247.com/pt/colunistas/aldofornazieri/376670/O-PT-a-milit%C3%A2ncia-e-a-sociedade.htm

No referido artigo, Aldo polemiza com Gleisi Hoffmann e com o autor destas linhas.
O artigo de Gleisi Hoffmann está aqui: https://jornalggn.com.br/noticia/ninguem-separa-o-pt-de-lula-por-gleisi-hoffmann-em-resposta-a-aldo-fornazieri

E o meu artigo está aqui: htps://valterpomar.blogspot.com/2018/11/aldo-fornazieri-e-o-destino-de-lula.html