terça-feira, 23 de junho de 2015

Entrevista ao Wilson Junior sobre o Foro de SP

1. No período em que você foi secretário-executivo do Foro de São Paulo, quais foram as lições mais importantes que você tirou dessa experiência? Desde que saiu do cargo de secretário-executivo, qual é a sua relação com o Foro, quem atualmente ocupa o cargo, e como é feita essa seleção?

A lição mais importante? A de que existir um espaço como o Foro é extremamente útil para a integração latinoamericana e caribenha, bem como para os processos de transformação que estão em curso em cada país. Eu deixei de ser secretário-executivo do Foro de SP em novembro de 2013. Desde então, a única relação que mantenho com o Foro é de leitor das resoluções. A secretária-executiva atual do Foro é a companheira Monica Valente. A tradição é: a pessoa que ocupa a secretaria de relações internacionais do PT também assume a secretaria-executiva do Foro de SP.

2. Na sua opinião, quais foram as maiores conquistas do Foro de São Paulo na última década, e quais são os seus maiores desafios hoje? Em que pontos o Foro de São Paulo é diferente do que era quando começou?
A maior conquista do Foro é ter contribuído para transformar a região, num sentido progressista e de esquerda. O Foro de SP quando começou era composto basicamente por partidos de oposição. Hoje, cresceu a presença de partidos que participam dos seus respectivos governos nacionais. Isto é uma das principais diferenças. Não sou a pessoa adequada para falar dos desafios, isto compete a quem está participando, o que não é o meu caso.

3. O Foro de São Paulo se apresenta como um foro de debates da esquerda latino-americana, criado para se contrapor ao neoliberalismo, com grande ênfase em uma maior integração da América Latina e Caribe. A proposta é similar à do Fórum Social Mundial? Qual seria a principal diferença? Ainda, qual é a relação do Foro com a Unasul? Você acredita que muitas idéias desenvolvidas no Foro influenciam o modus operandidesse órgão?

O Foro de São Paulo surge antes do Fórum Social Mundial. E, num certo sentido, ajuda a criar o ambiente que tornou possível a existência do FSM. O Foro de SP reúne partidos políticos. Já o FSM cria uma série de restrições à presença dos partidos. O Foro de SP consensua um plano de ação e uma visão comum, há setores do FSM que se opõem a isto. O Foro de SP contribuiu indiretamente para as inflexões no Mercosul, bem como para a criação da Unasul e da Celac. Num sentido muito geral, muito genérico, é possível dizer que as ideias desenvolvidas no Foro estão presentes na ação da Unasul.

4. Em "Notas Sobre as Relações Internacionais do PT", fica evidente que você dá grande importância ao tema, e é uma referência como quadro teórico desse campo no Partido dos Trabalhadores. Como você acha que a sua visão e a do Foro influenciaram e influenciam as políticas externas do PT, e como governo do Partido dos Trabalhadores poderia melhorar nesse campo?

Não sou a pessoa adequada para responder como minha visão influenciou e influencia a política de relações internacionais do PT. Desde que sai da secretaria executiva do Foro, nunca mais participei de nenhuma atividade partidária para debater as relações internacionais. O PT influenciou e foi influenciado pelo Foro de SP. No caso do governo Lula, a influência principal foi do setor progressista, democrático, nacionalista do Itamaraty.
5. Muitos partidos de esquerda da América Latina e Caribe fazem parte do Foro de São Paulo, conforme a lista disponibilizada no próprio site oficial do Foro. No entanto, todos os partidos têm igual importância e engajamento nas atividades e nas convicções ideológicas do Foro de São Paulo?

Não sei como é hoje. No período em que fui secretário, havia um engajamento desigual. Mas importância todos têm, até porque o sistema de funcionamento do Foro não vincula participação com tamanho ou assiduidade.


6. Você é membro do diretório nacional do PT, tendo sido já Secretário de Assuntos Internacionais. Qual é o papel do PT no Foro de São Paulo? É possível afirmar que o PT e o Partido Comunista Cubano conceberam o Foro desde o princípio, e ainda hoje ocupam uma posição estratégica fundamental para a estratégia socialista latino-americana?

Eu fui membro do DN de 1997 até 2013. Desde dezembro de 2013 eu sou suplente da direção. O PT e o PC de Cuba foram decisivos na criação do Foro e cumprem um papel importante para sua existência até hoje. Ambos partidos continuam sendo muito importantes na definição dos destinos da região.

7. No livro "A Estrela na Janela", bem como em diversos escritos seus, fica evidente que, na sua opinião, o caminho mais progressista para o Brasil passa pela integração latino-americana, possibilitada pela eleição de governantes de esquerda ligados ao Foro de São Paulo. Você acha que hoje a América Latina está mais perto de atingir esse fim de ser uma "Pátria Grande", ou uma "URSAL" (expressão utilizada nos primeiros anos do Foro para designar a União das Repúblicas Socialistas da América Latina) do que antes de 2003? Quais são os principais obstáculos da atualidade para atingir esse fim?

Depende. Em termos de integração estamos melhor do que em 1990 e pior do que em 2005. Os principais obstáculos? Há os de sempre, que são os Estados Unidos e a classe dominante local. Mas estes não são os decisivos, pois sempre estiveram aí. Os obstáculos decisivos são nossos erros e insuficiências.


8. Qual é a importância do BRICS para a esquerda latino-americana? A aproximação com a Rússia e China é o melhor caminho para a integração latino-americana? O que o PT pode aprender com a China, em termos de experiência socialista? No que consiste o "Seminário Brasil-China", quantas edições já ocorreram, e quais foram os principais proveitos tirados por esse contato com o Partido Comunista Chinês? O trabalho do seu pai, Wladimir Pomar, foi importante para as recentes aproximações entre Brasil e China?


Os BRICS não são importantes em si. Eles são importantes a depender da estratégia que defendamos.
A integração latinoamericana e caribenha pode se beneficiar de uma relação adequada com China e Rússia, bem como com Índia e África do Sul. Mas "o melhor caminho" não é a relação com os BRICs, mas sim aprofundar relação entre nós, países da região.
O mais importante que podemos aprender com a China é a não copiar modelos. Há outros aprendizados, mas este é o principal. Quem pode falar do Seminário Brasil-China são as companheiras Monica Valente e Iole Iliada, esta última vice-presidente da Fundação Perseu Abramo. Não sou a pessoa adequada para avaliar o trabalho do Wladimir Pomar.

9. Hoje existem muitos críticos do Foro de São Paulo, que afirmam que esse é um espaço em que a velha esquerda socialista/comunista anterior à queda do muro de Berlim se rearticulou em uma nova estratégia socialista internacional para o continente latino-americano, de maneira discreta, tendo feito formidáveis avanços com a eleição de tantos presidentes ligados ao Foro. Essa concepção é correta, ou peca em alguns pontos? A proeminência do Partido Comunista Cubano no Foro não colocaria em xeque o caráter democrático do ideal socialista almejado pelo Foro?

Começando pelo final, tudo depende do que entendemos por democracia. E no meu conceito, um dos critérios é: é o povo de cada país que deve dizer a última palavra sobre que democracia deseja. Motivo pelo qual eu acho que determinadas críticas ao PC cubano são anti-democráticas, pois no fundo desejam que lá se implante um sistema eleitoral que favoreça uma minoria pró-EUA. Quanto à concepção que você resume, eu te diria o seguinte: que bom que na América Latina conseguimos criar um espaço onde várias esquerdas cooperam contra os inimigos comuns. Azar dos inimigos, sorte a nossa.

10. Ainda sobre democracia, você acredita que a via socialista é compatível com a subsistência de instituições democráticas, independentes e imparciais? A posse de um poder hegemônico não sacrifica necessariamente a democracia e as liberdades individuais? O socialismo que o Foro almeja é uma etapa intermediária para o comunismo, ou algo mais parecido com um Estado de bem-estar social inclinado à esquerda?

No Foro de São Paulo convivem comunistas, socialistas, social-democratas, nacionalistas etc. E dentro de cada uma destas famílias, há diversas visões. Portanto, não considero possível dar uma resposta precisa à tua pergunta. Minha opinião absolutamente pessoal sobre as tuas perguntas é: 1) eu chamo de socialismo o processo de transição do capitalismo ao comunismo; 2) o chamado Estado de Bem Estar pode existir no capitalismo e no socialismo; 3) democracia não é uma coisa, é uma relação social historicamente determinada, assim como o poder, a hegemonia e inclusive as liberdades individuais; 4) por isso temos exemplos, na história, tanto de ditaduras capitalistas quanto de democracias socialistas; 5) independência e imparcialidade não são valores absolutos: tem que ver em relação ao quê.

11. Outra grande polêmica entre os críticos do Foro de São Paulo é a participação das FARC nos seus encontros. Membros das FARC participam dos encontros hoje, deixaram de participar após a eleição do PT no Brasil, ou nunca participaram? Em uma entrevista, você afirmou que as FARC nunca participaram do Foro, mas Raul Reyes, em uma entrevista à Folha, afirma ter presidido com o ex-presidente Lula um dos encontros do Foro. Essa afirmação procede? O Hugo Chávez também afirma ter conhecido Reyes em um dos encontros do Foro, junta com Lula. Não comprometeria a credibilidade do Foro a convivência entre partidos legais e uma organização guerrilheira clandestina, conhecida por envolvimento em seqüestros e narcotráfico?

Se você leu minhas entrevistas, não tenho porque repetir o que já disse. Está tudo lá. Lembro, adicionalmente, que quando o Foro foi criado, em vários países havia luta armada contra ditaduras. É o caso de El Salvador, por exemplo. O atual presidente de El Salvador era em 1990 um líder guerrilheiro. Por fim, especificamente sobre as FARC, acho que devemos apoiar as negociações de paz que estão em curso em Havana. Certos discursos sobre sequestros e narcotráfico são utilizados para inviabilizar as negociações.

12. Como você vê as críticas, em geral, ao Foro? Há poucos anos, dar importância ao Foro de São Paulo parecia coisa de teóricos da conspiração, mas agora cada vez mais se tem falado a respeito, sobretudo entre militantes de direita. Ontem, por exemplo, um movimento de liberais protestou em frente a um consulado venezuelano em São Paulo, com os dizeres "Fora Foro de São Paulo". Seriam, de alguma forma, sinal do sucesso do Foro de São Paulo, que começa a incomodar determinados setores da sociedade?

Olha, eu gostaria de te responder que sim, que é um sinal de sucesso do Foro. Mas temo que a insistência com que falam do assunto esteja ligado a algo mais simples: estes setores da direita são cavernícolas.

13. Você tem criticado com veemência algumas atitudes do governo Dilma, bem como a atual estratégia predominante do PT, mas sempre como alguém que empreende uma luta dentro do âmbito do Partido. Como se dá essa dialética entre partido e governo? Por que você não considera razoável a atitude de boa parcela da esquerda que rompeu com o PT, afirmando que o Partido se corrompeu ao grande capital, traindo seus ideais socialistas e sua militância? Para que a América Latina seja socialista/comunista, é indispensável que o PT esteja à frente desse processo, ou seria possível formar uma nova frente de esquerda que dispense o PT?

O sucesso da integração depende, em boa medida, dos rumos que Brasil, Argentina e Venezuela adotarem. Os rumos do Brasil dependem, em boa medida, das opções feitas pelo PT. No atual período histórico, não considero possível avançar na integração sem o PT ou contra o PT. Por outro lado, com o PT é possível tanto avançar quanto recuar.
Isto posto, quem transforma o PT em inimigo principal acaba de braços dados com a direita. Agora, se formos derrotados, não será por culpa destas pessoas. Será por culpa nossa. Especialmente daqueles que insistem em manter uma estratégia política superada pela realidade.

14. Por que você acha que a tendência majoritária do PT está adotando uma postura "suicida", ao não mudar de estratégia? Você tem afirmado a necessidade do PT mudar sua política de alianças, sobretudo rompendo com partidos como o PMDB, mas isso não tornaria altamente improvável sua eleição, ou ainda sua governabilidade impraticável?

Olhe a realidade: que tipo de governabilidade é possível atualmente, tendo o PMDB como "aliado principal"? Olha o passado recente: o PMDB era "aliado principal" nas eleições de 2002 e 2010? A aliança estratégica com o PMDB foi uma opção errada, não era necessária nem inevitável. E está nos conduzindo a derrota. Mudar de estratégia é arriscado? Claro. Mas melhor correr um risco do que caminhar bovinamente para o matadouro.
15. É possível que o PT possa levar adiante seu programa pro Brasil, bem como praticar as resoluções do Foro de São Paulo, sem mudar o quadro institucional atualmente estabelecido?
O PT não tem que aplicar as resoluções do Foro. O Foro não centraliza ninguém, não impõe suas resoluções a nenhum de seus integrantes. O PT tem que aplicar as resoluções do PT. E as resoluções do PT falam que é preciso uma reforma política profunda, porque a atual institucionalidade é um obstáculo para as reformas estruturais que o Brasil necessita.

16. Em 2005, o então presidente Lula, em comemoração aos 15 anos do Foro de São Paulo, afirmou: "Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política." A partir daí, muitos passaram a entender o Foro como uma organização discreta, interferindo, com suas resoluções, a política dos países, "sem que parecesse", com seus partidos obedecendo a uma agenda socialista/comunista que não explicitam em seus programas eleitorais, mas cumprem em obediência ao Foro. Você acha que as palavras do Lula foram mal interpretadas?

Não sei se entendi a tua dúvida. A frase do Lula é correta. A agenda do Foro não é "socialista" nem "comunista". A agenda do Foro é antineoliberal, antiimperalista, pró-integração regional.
E, como já disse, ninguém obedece ao Foro, pois o Foro não manda em nenhum dos partidos que o integram. Por outro lado, veja: em todos os países da região, há partidos socialistas e comunistas atuando, participando das eleições, governando etc. Portanto, a existência de uma "agenda" socialista ou comunista, defendida pelos respectivos partidos socialistas e comunistas, faz parte da paisagem, exceto é claro para os saudosos das ditaduras.

17. Por fim, é possível dizer que o PT passou por uma "metamorfose", para usar uma expressão sua, e perdeu seu projeto ideológico de vista, ou o PT apenas não fez reformas mais profundas no Brasil, como Cuba ou Venezuela, porque o Brasil vive uma conjuntura diferente que ainda não permite isso, mas talvez um dia permitirá uma democratização mais profunda?

O Brasil vive uma conjuntura diferente. Agora, esta conjuntura diferente poderia ser diferente e com reformas. Se nossa conjuntura é diferente e sem reformas, isto está ligado a determinadas opções feitas (e outras não feitas) pelo PT.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

À militância petista, sobre o 5º Congresso

(texto em debate na direção nacional da AE/sujeito a emendas)

Os resultados do 5º Congresso do Partido dos Trabalhadores eram aguardados com expectativa por dezenas de milhões de brasileiros e de brasileiras que desde 1980 vem dedicando suas esperanças e empenhando suas melhores energias e recursos para construir um Partido capaz de representar os interesses e ajudar a organizar a ação das classes trabalhadoras na luta por um Brasil democrático, popular e socialista.

Parcela importante desta "nação petista” esperava que o 5º Congresso aprovasse mudanças na linha política e no funcionamento do Partido, mudanças na ação de nossas bancadas parlamentares e na ação do governo Dilma.

O melhor exemplo deste apelo por mudanças foi o manifesto assinado por todos os petistas que integram a executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores, intitulado “O PT de volta para a classe trabalhadora”.

Um dos parágrafos deste manifesto afirma: "Sabemos o que ocorreu na história recente com partidos de esquerda que aplicaram políticas de ajuste fiscal inspiradas pelo FMI, como se viu em alguns países da Europa: entraram em crise, foram derrotados em eleições, perderam sua base social. Não queremos que o mesmo aconteça com o PT!”

O texto dos sindicalistas petistas defende ainda ser tempo de "mudar de política e de plano econômico, o que, na nossa opinião, é essencial para a sobrevivência do PT como partido dos trabalhadores”.

O espírito presente no manifesto dos petistas cutistas é amplamente majoritário nas bases vivas do Partido, que sabem que ganhamos a eleição presidencial de 2014 na perspectiva de uma transformação democrático-popular do Brasil, mas agora corremos um sério risco de desmonte e reversão das mudanças feitas ao longo dos últimos 12 anos, devido à ação combinada da contra-ofensiva da direita com as opções equivocadas feitas neste início do segundo mandato da presidenta Dilma.

Desmonte e reversão que causariam danos graves aos BRICS, à integração regional, à soberania nacional, ao desenvolvimento do país, à democracia e ao bem estar da maioria trabalhadora. E, claro, causariam danos graves também ao conjunto da esquerda brasileira.

Tragicamente, as resoluções do 5º Congresso nacional do PT -- pelo que disseram e principalmente pelo que deixaram de dizer-- frustraram as expectativas e as esperanças das bases vivas do petismo.

Comprovou-se assim, mais uma vez, que nossas principais dificuldades não decorrem da ação da oposição de direita, do oligopólio da mídia ou do grande capital, seja transnacional, financeiro, agropecuário ou monopolista. Nossos inimigos e nossos adversários estão apenas fazendo a sua parte. 

Se eles estão tendo êxito, é no fundamental devido a erros, ações e omissões que têm origem nas fileiras do Partido. Ações e omissões na elaboração, na ação política, na maneira de organizar o Partido e nas relações com a sociedade, especialmente com a classe trabalhadora. 

A imensa maioria dos delegados e delegadas presentes ao Congresso do PT reconheceu que a situação é grave. Mesmo a "Carta de Salvador" -- aprovada na primeira sessão do Congresso --prometia mudanças.

Mas quando o debate disse respeito ao presente, não ao passado nem ao futuro, o que prevaleceu foi o conservadorismo.

Foi recusada, por exemplo, a democratização do sistema de eleição das direções partidárias; não se abriu mão do financiamento empresarial privado,  portanto não se foi ao fundo da questão da corrupção; não foi admitido o esgotamento da “aliança estratégica” com o PMDB; não foi dada a preferência devida à construção de uma frente de esquerda pelas reformas estruturais.

Mais grave que tudo, o Partido foi impedido de dizer claramente aquilo que todo petista sabe: que o ajuste fiscal atualmente em curso afeta a classe trabalhadora, ameaça todas as políticas sociais pela via de cortes e contingenciamentos e poupa os ricos, motivo pelo qual ele deve ser imediatamente interrompido. 

Os que aprovaram a "Carta de Salvador" preferiram falar em tese contra políticas de ajuste, da mesma forma como muitos falam em tese de democracia e participação. Mas rejeitaram as críticas ao ajuste realmente existente, por motivos que podemos especular: considerar este ajuste necessário e inevitável, considerar que o mal já está feito, achar que uma crítica explícita seria uma atitude oposicionista, temer a reação da presidenta, não acreditar na possibilidade de termos força para fazer o ajuste ser pago pelos ricos etc.
           
As resoluções aprovadas prometem em tese uma nova estratégia, mas na prática -- que é o critério da verdade -- prevaleceu a velha estratégia de conciliação com o grande capital, com parcelas da oposição de direita e com o oligopólio da mídia, acompanhada da subordinação do Partido ao governo.

Como a própria "Carta de Salvador" reconhece, vivemos e seguiremos vivendo tempos de conflitos cada vez mais agudos. Ainda assim, prevalece em nosso Partido aquilo que alguns companheiros denominam de tendência suicida: um grupo que exibe fortes sinais de atrofia política e ideológica, que promete mas na prática se recusa a adotar uma nova linha política global, uma nova estratégia, um novo padrão de funcionamento e um novo comportamento do Partido na luta de classes.

Em maio de 2013, quando o antigo Diretório Nacional convocou o 5º Congresso, havia a expectativa de que ele cumprisse, na história de nosso Partido, um papel análogo ao do 5º Encontro (1987) e do 10º Encontro (1995).

Estes dois encontros entraram para a história do Partido porque neles se fez um "giro estratégico". Já o 5º Congresso corre o risco de entrar para a história como mais uma oportunidade perdida.

Mesmo sabendo que os delegados e delegadas ao Congresso foram eleitos/as no final de 2013, portanto noutro momento político, nada impedia que eles levassem em conta a situação criada após a campanha eleitoral de 2014, adotando uma política, um discurso e uma prática que nos permitissem manter e aprofundar o apoio e a iniciativa das forças políticas e sociais que tornaram possível nossa vitória no segundo turno.

Mas não foi isto o que aconteceu de 11 a 13 de junho de 2015, quando reuniram-se em Salvador (BA) 756 delegados (51%) e delegadas (49%).

Mesmo sabendo que o texto-base aprovado -- a já referida "Carta de Salvador" -- era desconhecido até 8 de junho, dias antes do Congresso, nada impedia que as delegações aprovassem resoluções capazes de superar a "campanha de cerco e aniquilamento" movida contra nós. Mas não foi isto o que aconteceu. 

Ainda não está disponível a versão final das resoluções, nem o caderno com as emendas remetidas ao Diretório Nacional. Entretanto, para quem considerava que a situação exigia uma mudança profunda e rápida por parte do PT, a conclusão das votações realizadas é que o Congresso do PT optou majoritariamente por não mudar.

Merece destaque que, naquela que talvez tenha sido a principal votação do Congresso, cerca de 45% dos delegados e delegadas presentes votou a favor de uma resolução que criticava abertamente o ajuste fiscal

Mas para enfrentar a conjuntura, não basta uma grande minoria
Era necessária uma maioria decidida a mudar.

Ao contrário disto, prevaleceu uma maioria que optou por não criticar o ajuste, uma maioria contrária à mudança na política de "aliança estratégica" com o PMDB, contra a mudança no sistema eleitoral interno, contra realizar um novo congresso do PT no segundo semestre de 2015. 

Não há como dissimular: o resultado do Congresso foi uma derrota das expectativas alimentadas por setores importantes da base partidária. Expectativa que esteve presente nas etapas livres do Congresso; presente em diversas tendências, inclusive em setores que integram a tendência majoritária no Partido e na Central Única dos Trabalhadores.

Está em curso um debate acerca dos motivos pelos quais prevaleceu esta posição conservadora. Do ponto de vista interno, este debate é relevante, mas do ponto de vista da luta de classes mais importante é o que poderá resultar e o que fazer diante disto.

Se os que venceram o  Congresso estiverem certos, o governo Dilma fará uma inflexão à esquerda, o ajuste será superado, voltaremos a ter crescimento, emprego e ampliação do bem estar. Do contrário, as coisas evoluirão no sentido oposto, restando saber se haverá tempo e nova oportunidade para corrigirmos o rumo.

Se a maioria dos delegados presentes ao  Congresso tiver feito a opção correta, a atual direção e as atuais regras de funcionamento interno vão nos ajudar a sobreviver à campanha de "cerco e aniquilamento" e também vão contribuir para a retomada da iniciativa política. Se erraram, as dificuldades vão aumentar e serão acompanhadas do desânimo, da decepção e do afastamento de parte de nossas bases. 

Nunca é demais lembrar, especialmente aos que disto parecem ter se esquecido: num partido democrático de massas, não basta ter maioria nas instâncias decisórias. É preciso ter hegemonia e legitimidade junto às bases sociais. E o fato é que as "regras do jogo" interno não apenas tornam cada vez mais improvável à minoria virar maioria, como também limitam a expressão da maioria da base, submetida a filtros que fazem o aparato e as finanças prevalecerem, ao tempo em que certas instâncias se tornam cada vez mais  surdas ao que se passa nas nossas bases sociais.  E quando o Partido perde conexão com suas bases, ele se converte num partido tradicional, cada vez menos inventivo, criativo, transformador e revolucionário. 

Precisávamos de uma maioria decidida a mudar. E ao contrário disto, prevaleceu uma maioria conservadora.

Frente a isto, o que fazer?

Em primeiro lugar, reafirmamos: não vamos entregar o PT nas mãos desta tendência suicida.

Nos somaremos àqueles e àquelas que estiverem dispostos a continuar travando os debates que a maioria do Congresso preferiu não fazer, pelo menos não agora, com destaque para a necessidade de construir uma nova estratégia para um novo período histórico. 

Por este motivo, afirmamos nossa disposição de participar e organizar, ao longo do segundo semestre de 2015, novas "etapas livres" de discussão, criando espaços internos de manifestação e organização dos petistas que discordam das determinações conservadoras que pesaram sobre o V Congresso.

Nos somaremos àqueles e àquelas que lutarão para impedir que seja aprovada a esdrúxula proposta segundo a qual não seria mais necessário contribuir financeiramente com o PT, para poder ter o direito de eleger nossas direções e definir nossas políticas. E seguiremos defendendo a necessidade de direções, setoriais e núcleos de base que atuem no cotidiano da vida e nas lutas das grandes massas da população, bem como políticas efetivas de formação e comunicação.

Nos somaremos àqueles e àquelas que exigirão da direção nacional que cumpra o prometido na "Carta de Salvador", no que diz respeito a começar um novo ciclo de desenvolvimento. 

Nos somaremos àqueles e àquelas que continuarão nas ruas, carregando as bandeiras petistas ao lado dos movimentos sociais, em favor das reformas estruturais, contra o retrocesso desejado pela oposição de direita e também contra o ajuste fiscal.

Seguiremos lutando, portanto, para mudar a linha do Partido. 

A atual direção está nos conduzindo a uma derrota brutal, aqui e agora, em 2016 e em 2018. Do mesmo jeito que os povos têm o direito e o dever de lutar contra a opressão, a militância partidária tem direito à rebelião contra uma política que está ameaçando liquidar nosso Partido.

Os que assistiram ao  Congresso sabem que nele travamos o bom combate. Entramos e saímos dizendo que a estratégia adotada pelo PT desde 1995 está esgotada; a subalternidade frente ao governo ameaça nossa sobrevivência; precisamos voltar a combinar luta social e institucional, luta cultural e organização partidária, reformas estruturais e luta pelo socialismo.

Os resultados do  Congresso -- não apenas pelo que ele disse, mas principalmente pelo que ele deixou de dizer -- ameaçam o Partido dos Trabalhadores, o que afeta toda a esquerda, piora as condições de vida da classe trabalhadora e pode fazer o Brasil voltar a um papel secundário no cenário internacional.

Em nome de tudo que está em jogo, seguimos lutando. Aos que nos perguntam quais as chances de vitória nesta luta por mudar os rumos do PT, respondemos com franqueza: são reduzidas, como foram igualmente reduzidas as chances de vitória em tantas outras disputas de significado estratégico. O que não nos impediu de lutar, nem impediu que fossemos vitoriosos em várias delas. 

Se vencermos desta vez, será pelo mesmo motivo fundamental que nos possibilitou vencer em outras situações: graças à força e a vontade dos setores mais combativos da classe trabalhadora. A isso dedicaremos o melhor dos nossos esforços.

A direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda
17 de junho de 2015


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Respostas ao jornalista Ernesto Marques, de Salvador (BA)

1.O 5o. Congresso poderia ser considerado o marco do esgotamento do PT? Pelo sentimento de frustração/desencanto comum às tendências da minoria, teria sido taticamente melhor não fazer o congresso agora?

Não concordo. O PT é um fenômeno histórico, cujos destinos são decididos principalmente no âmbito mais geral da luta de classes, não principalmente nos espaços internos. Eu abordaria o tema de outra forma, a saber: uma vez que estamos diante de um processo de esgotamento da estratégia adotada pelo PT até agora e uma vez que o quinto Congresso não conseguiu formular uma estratégia alternativa, pelo contrário decidiu insistir numa maneira de atuar que não está mais funcionando, cabe perguntar se o PT conseguirá corrigir seus rumos a tempo de impedir que ele sofra uma grande derrota? Na minha opinião, está questão está em aberto e dependerá de como vão comportar-se tanto os 45% que perderam a votação do ajuste fiscal, quanto aquelas parcelas dos 55% que sabem que do jeito que estamos indo, não vamos conseguir ir muito longe.
Quanto a segunda questão, não concordo: hoje sabemos que 55% que não querem mudar, ou pelo menos não querem mudar tanto quanto necessário; mas sabemos, também, que estes 55% não correspondem a maioria dos sindicalistas petistas, a maioria das bases que compareceram nas etapas livres do congresso, a maioria da intelectualidade petista. Que os 55% tenham perdido a oportunidade, isto não quer dizer os 45% não devessem ter tentado. 

2.As manobras de contenção que antecederam a abertura, prevenindo manifestações mais críticas ao governo ou hostis ao Levy e aliados, seriam um sinal de que a questão da direção não seria superada pelo Congresso.

O grupo numericamente majoritário na atual direção, eleita em 2013, já demonstrou diversas vezes que é adepto da "direção defensiva". Sinalizaram um pouco para a esquerda no texto-base apresentado ao Congresso, mas do ponto de vista tático preferiram não dizer que a política de ajuste fiscal adotada pelo governo é um desastre, que a aliança com o PMDB acabou, que é preciso construir imediatamente uma frente de esquerda, que o financiamento empresarial destrói o caráter de classe do PT, que o atual sistema eleitoral interno traz para o Partido as distorções que vemos nas eleições tradicionais. Adicionalmente, este grupo majoritário esquece que tem um mundo lá fora. E que este mundo não pode ser manobrado, como se manobra a programação de um congresso partidário.

3.Ao cristalizar as coisas como estão - e como já estavam há muitos anos -, mesmo considerando as evidências de um possível esgotamento, a maioria perde legitimidade?

A legitimidade de um grupo dirigente não vem dele ter maioria. Vem da forma como ele obteve maioria e, principalmente, da capacidade hegemônica, ou seja, da capacidade deste grupo conduzir o conjunto do Partido, em benefício do conjunto do Partido. O que este congresso demonstrou, entre outras coisas, é que o grupo atualmente majoritário no Diretório Nacional não tem esta capacidade. Está mais preocupado em manter sua unidade interna do que em construir um caminho alternativo para o Partido enfrentar seus problemas de fundo. Além disto, este grupo tornou-se majoritário através de métodos que um amplo setor do Partido considera inadequados para um partido de massas militante e democrático. Espero que parte do grupo majoritário tenha se dado conta que, agindo deste jeito, eles vão levar o PT ao desastre.

4.O que você chama de "efeitos colaterais" na condução das atividades do congresso por dirigentes mais jovens do velho grupo majoritário?

Não são exatamente dirigentes mais jovens. Não se trata de idade cronológica. São uma geração dirigente mais jovem no sentido de que chegaram muito recentemente à posição de destaque que ocupam agora. Esta geração tem duas camadas. Um grupo de dirigentes antigos, que ascendeu subitamente depois da degola de 2005 e que agora, com a prisão de Vaccari, "chegou ao poder" interno: Monica Valente, Florisvaldo, Márcio Macedo, Alberto Cantalice etc E há uma segunda camada, composta por jovens propriamente ditos, que passaram a militar depois que chegamos ao governo federal. 
Quanto aos efeitos colaterais, resumo assim: falta visão estratégica. Frente a isto, personagens importantes do grupo majoritário já manifestaram, publica ou privadamente, suas preocupações. 
 
4.Como avalia que essa postura mais conservadora, traduzida nas principais decisões do congresso, vai impactar as bases do Partido?

Depende, Há bases e bases. Uma parte da base apóia estas decisões, pois compreende a política em termos cada vez mais convencionais, em que o Partido existe para chegar ao governo, em que o Partido é uma extensão do governo, em que o Partido é dirigido pelo governo. Outra parte é contrária a isto, preserva a ideia de que o Partido tem como objetivo ajudar a classe trabalhadora a conquistar o poder e a construir o socialismo, que o Partido não existe apenas para disputar eleições, que o Partido não é uma extensão nem pode ser dirigido pelo governo. Para estes setores da base, o Congresso produziu muito desalento. Desalento que não devemos deixar prosperar, pois o PT não é e não pode ser resumido aos que venceram o Congresso.

5.Apesar da previsibilidade dos resultados nas votações, o imprevisível se expressou nos manifestos da bancada federal, com 38 assinaturas de parlamentares de diversas tendências; e no manifesto dos petistas da CUT. Na abertura, manifestações livres de grupos de delegados mantiveram a tradição da militância, tanto na referência à chacina do Cabula, à ovação a Vaccari na fala de Sokol, ainda na apresentação de teses; e a indiferença na referência de Rui Falcão ao ex-tesoureiro preso, no encerramento, sob vaias e diante de um plenário em retirada... seriam sinais de que o petismo está vivo como sempre, mesmo com o PT dando sinais de esgotamento?


O petismo segue vivo, assim como o PT segue vivo. O que está morrendo é a estratégia e a maneira de conduzir o Partido que ainda predominaram neste Congresso. Como disse antes, parte dos 55% sabem disto. Agora precisam transformar este conhecimento em disposição para construir outra direção para o PT.

sábado, 13 de junho de 2015

Quinto congresso do PT: primeiras observações

1.O Quinto Congresso do PT foi convocado em maio de 2013. Seus objetivos eram debater o programa e a estratégia do Partido. Os delegados e delegadas ao Congresso foram eleitos no final de 2013. Desde então reuniram-se duas vezes, sem dar conta da pauta original.

2.Com a situação criada após a campanha eleitoral de 2014, a realização de mais uma etapa do Quinto Congresso foi vista por setores do Partido como uma oportunidade para discutir como superar a "campanha de cerco e aniquilamento" movida contra nós.

3.De 11 a 13 de junho de 2015, reuniram-se em Salvador (BA) 756 delegados (51%) e delegadas (49%). A tarde e a noite do dia 11 foram dedicadas a aprovar o texto-base do Congresso e a ouvir os discursos do ato de abertura. A manhã do dia 12 foi dedicada ao lançamento da campanha de finanças do Partido. No final da manhã e início da tarde do dia 12, reuniram-se os grupos de debate. No meio da tarde do dia 12, ocorreu um seminário internacional sobre a integração latino-americana. Na manhã e início da tarde do dia 13, debatemos emendas ao texto-base. O congresso encerrou no início da tarde de sábado, 13 de junho. Ao todo, do início ao fim, cerca de 48 horas.

4.O texto-base aprovado intitula-se "Carta de Salvador". Além de uma declaração com este nome, havia também 14 resoluções anexas. Estes textos foram tornados públicos poucos dias antes do Congresso (a pesquisar e contar como e por quais motivos foi feita a substituição do projeto de resolução anterior). A maioria dos delegados e delegadas pode estudar o texto só depois dele ser aprovado como texto-base. Maiores detalhes sobre o texto estão em http://valterpomar.blogspot.com.br/2015/06/sobre-carta-de-salvador-analise.html

5.Apesar do pouco tempo, os grupos de debate foram concorridos e neles se travou intensa discussão, surgindo um número expressivo de emendas. As emendas foram sistematizadas e levadas a voto na manhã de sábado 13. As emendas efetivamente debatidas trataram basicamente dos seguintes temas: opinião do PT sobre o ajuste fiscal; política de alianças; frente de esquerda; PED; congresso constituinte do PT. Algumas destas emendas foram aprovadas por contraste; noutros casos foi feita a contagem de votos.

7.Grande número de emendas não foi debatida nem votada no Congresso, sendo remetidas ao Diretório Nacional. Parte importante dos delegados queria votar no Congresso uma emenda que proibia receber recursos de empresas privadas, seja para o Partido, seja para candidaturas do Partido. A mesa não estava de acordo e submeteu o tema ao voto do plenário; sem contar os votos, declarou que havia prevalecido que o Congresso não debateria o tema. Como reação, parte dos delegados encerrou sua participação no Congresso vaiando.

8.Ainda não está disponível a versão final das resoluções, nem o caderno com as emendas remetidas ao Diretório Nacional. Entretanto, tomando como base o resultado das votações, ficou claro que o PT não alterou sua posição em relação aos temas em debate. Ou seja: para quem considerava que a situação exigia uma mudança profunda e rápida por parte do PT, a conclusão é que o Congresso do PT optou majoritariamente por não mudar.

9.É importante dizer: naquela que talvez tenha sido a principal votação do Congresso, cerca de 45% dos delegados e delegadas presentes votou a favor de uma resolução que criticava abertamente o ajuste fiscal (uma "curiosidade" importante: participaram desta votação 572 delegados. A emenda contra o ajuste fiscal foi rejeitada por 350 delegados, ou seja, menos da metade do Congresso. Não houve nenhuma abstenção. Onde estavam, numa votação tão importante, 184 delegados/as???).  Seja como for, tanto nesta quanto nas demais, prevaleceu uma maioria contrária a criticar o ajuste, contrária a mudar a política de alianças, contrária à constituição de uma frente de esquerda, contrária à mudança no sistema eleitoral interno, contrária a realizar um novo congresso no final de 2015. 

10.Este resultado foi comemorado pelos que venceram e (estranhamente) até por alguns que perderam as votações (ver ao final dois textos de balanço que circularam logo após o termino do Congresso). Para outros, o fato de que nada mudou foi cinicamente apresentado como a "prova" de que o Congresso simplesmente não deveria ter ocorrido. E para um grande número de militantes, o que ocorreu foi sentido como uma derrota das expectativas alimentadas por setores importantes da base partidária. Expectativa que esteve presente nas etapas livres do Congresso; presente em diversas tendências, inclusive em setores das tendências que compõem o grupo hoje majoritário no Partido; bem como presente na maioria da direção nacional da Central Única dos Trabalhadores.

11.Como disse um companheiro, prevaleceu no Quinto Congresso uma postura contrária a de Tancredi (personagem de O Leopardo, romance de Lampedusa), segundo o qual "as coisas precisam mudar para que elas continuem como são" (tradução livre). Os que venceram as votações do Quinto Congresso acharam melhor não mudar nada. Será que imaginam que agindo assim as coisas vão continuar como estão? Ou que vão mudar para melhor??

12.É importante entender por quais motivos prevaleceu esta posição conservadora. Uma das principais razões é que o grupo majoritário do Partido está profundamente dividido. E como está profundamente dividido, optou pela paralisia. Além disso há outras variáveis, vinculadas a esta: importantes dirigentes do setor majoritário do Partido não compareceram ao Congresso ou apenas "bateram ponto", sem cumprir nenhum papel protagonista; o próprio presidente nacional do PT teve um papel totalmente apagado durante os debates em plenário; uma "nova geração" de dirigentes do grupo majoritário assumiu a condução do processo, com efeitos colaterais que parecem preocupar inclusive dirigentes do próprio grupo majoritário. Outra razão a ser considerada para explicar os resultados é o fato destes delegados e delegadas terem sido eleitos em 2013, correspondendo portanto a correlação de forças e as expectativas que prevaleciam na base do Partido naquele momento. Hoje, é provável que os resultados fossem diferentes.

13.Seja como for, cabe perguntar e responder qual o impacto que este conservadorismo do Congresso terá sobre o país e sobre a classe trabalhadora? Se os que ganharam o Congresso estiverem certos, o governo fará uma inflexão à esquerda, o ajuste será superado, voltaremos a ter crescimento, emprego e ampliação do bem estar. Mas se não estiverem certos, as coisas evoluirão no sentido oposto. Restando saber se haverá tempo e oportunidade para corrigirmos o rumo.

14.Igualmente cabe responder outra pergunta: qual o impacto deste conservadorismo sobre o Partido dos Trabalhadores e sua base social? Se os que ganharam o Congresso estiverem certos, a atual direção e as atuais regras de funcionamento interno vão nos ajudar a sobreviver à campanha de "cerco e aniquilamento" e também a retomar a iniciativa política. Agora, se não estiverem certos, as dificuldades vão aumentar e serão acompanhadas do desânimo, da decepção e do afastamento de parte de nossas bases. Com um agravante, que a nova geração que assumiu a direção do grupo majoritário não parece perceber (ou percebe e não dá importância): num partido democrático, não basta ser maioria; é preciso ter hegemonia e legitimidade. E um dos fatores da legitimidade é simples: as "regras do jogo" não podem bloquear estruturalmente a possibilidade da minoria virar maioria. Além disso, como destacou uma companheira em debate no grupo de conjuntura da Fundação Perseu Abramo, bem mais grave do que impedir a minoria de tornar-se maioria, é o fato das regras atuais limitarem a expressão da própria maioria da base, submetida a filtros que fazem o aparato e as finanças prevalecerem.

15.Uma vez que sejam publicadas as resoluções, caberá submetê-las à detida análise. Mas os que discordam do que foi aprovado, devem reagir adequadamente. Várias ideais surgiram já ao término do Congresso. Alguns falam em reunir, no segundo semestre de 2015, um "congresso livre" dos petistas que consideram necessário travar os debates que a maioria do congresso prefere não fazer, pelo menos não agora. Outros defendem intervir no seminário que o Partido fará para debater as "mudanças no PED", para impedir entre outras coisas que seja aprovada a esdruxula proposta segundo a qual não seria mais necessário contribuir financeiramente com o PT para poder ter o direito de eleger nossas direções e definir nossas políticas. Também se fala em exigir da direção que cumpra o prometido na "Carta de Salvador", quanto a começar um novo ciclo de desenvolvimento. Foi destacada, ainda, a importância de prosseguir o debate junto aos cutistas petistas (aliás, sem desmerecer a iniciativa dos deputados que apresentaram um manifesto ao Partido, não há dúvida de que maior sentido estratégico tem a declaração dos sindicalistas petistas).

16.Por fim, embora tenhamos combatido o bom combate, é preciso ter claro: entramos no Congresso dizendo que a estratégia do PT estava esgotada. Saímos do congresso como entramos, na melhor das hipóteses. E talvez com agravantes, entre os quais reforçar a subalternidade do Partido frente ao governo. Resultado que aumenta as pressões, tanto da direita quanto da esquerda, no sentido de "esgotar" o nosso Partido. Como disse um outro companheiro: quem venceu o quinto congresso foi a "tendência suicida". A nós caberá continuar combatendo para impedir que esta tendência destrua o Partido dos Trabalhadores, o que teria como resultado afetar toda a esquerda, piorar as condições de vida da classe trabalhadora e fazer o Brasil voltar a um papel secundário no cenário internacional. 

A seguir, dois textos de balanço que circularam logo após o término do Congresso, expressando posições distintas desta que expusemos acima.

UM RIO VERMELHO DE MUDANÇAS
No 5° Congresso o PT mudou sim!
Mudou porque se apresentou mais plural: mais jovem, mais feminista, mais negro, indígena e muito mais colorido.
Mudou ao apresentar um programa econômico para a retomada do crescimento, valorização do trabalho e da renda, com o apontamento de saídas à Esquerda para superar a atual conjuntura.
Mudou com a reafirmação da defesa de seu legado histórico no país, mas apresentando uma nova narrativa política para o próximo ciclo.
Mudou na retomada de seu papel nas lutas ao lado dos trabalhadores e trabalhadoras e ao afirmar o protagonismo na orientação política de seus governos e mandatos.
Mudou ao assegurar o debate político em grupo durante o Congresso, fundamental para produzir uma resolucão apontando para uma política militante de arrecadação financeira, a convicção em ampliar espaços de formação política, inclusive dos quadros dirigentes, e na reorientação da comunicação com a nossa base.
Mudou com a força de uma mobilização anterior, que permitiu a ampla participação dos filiados e filiadas nas etapas livres, municipais, estaduais e temáticas.
Mudou diante de um Brasil que também muda, que se transforma diante das novas demandas do povo brasileiro. E o PT vai continuar mudando porque temos, na força pulsante dos corações e mentes de cada militante, a vocação de protagonizar o novo.

*

Carta do Rio Vermelho
Manifestou-se neste 5° Congresso do PT uma força política petista nova e poderosa que, temos certeza, tem o apoio da imensa maioria dos militantes e filiados que aspiram mudanças profundas no PT. Esta força política de mudança que já traduz a maioria de 35 deputados federais e que conta com a simpatia pública de senadores, tem com o apoio da intelectualidade de esquerda, das principais lideranças dos movimentos sociais - a exemplo dos sindicalistas petistas da CUT - e de militâncias cristãs populares e que não abrem mão da ética na política.
Esta força política nova contou em várias votações com mais de 40% dos delegados e delegadas, chegando a obter 45% dos votos.
Ela conseguiu neste 5° Congresso a aprovação de uma resolução importantíssima em relação à politica econômica do nosso governo Dilma que afirma:
"Conduzir a orientação geral da política econômica para a implementação de estratégias para retomada do crescimento, para a defesa do emprego, do salário e dos demais direitos dos trabalhadores que permita a ampliação das políticas sociais" e também que o equilíbrio das contas públicas seja pago pelos que mais lucram e têm mais renda.
Esta força política poderosa de renovação apenas começou o seu trabalho. Ela deve ir ao encontro das centenas de milhares de petistas que esperam a palavra nova da mudança.
Estão começando a nascer o movimento político "Mudar o PT para Continuar Mudando o Brasil". É este movimento que pode renovar as forças políticas em defesa do governo Dilma e permitirá derrotar mais uma vez os neoliberais e conservadores.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sobre a "Carta de Salvador" (análise preliminar)

Texto não revisado

Amanhã começa o 5º Congresso do Partido dos Trabalhadores.

Nos últimos dias foi publicada uma grande quantidade de textos acerca do tema, desde análises da chamada grande imprensa, passando por entrevistas e artigos de petistas das mais variadas posições, até documentos publicados pelas chapas que disputaram o PED 2013.

Serão os delegados e as delegadas eleitas por estas chapas que decidirão o que será (ou não) aprovado pelo 5º Congresso do Partido. E os números são claros: dos 800 delegados e delegadas com direito a voto, 429 foram eleitos pela chapa “O Partido que muda o Brasil”.

Para quem não conhece os meandros do PT, esta chapa é composta basicamente por três tendências: a “Construindo um Novo Brasil”, o “PT de Luta e Massas” e a “Novos Rumos”.

Em maio de 2015, todas as chapas que disputaram o PED 2013 apresentaram projetos de resolução ao 5º Congresso. E no dia 8 de junho, algumas chapas “atualizaram” seus projetos. A chapa “O Partido que muda o Brasil” apresentou uma “atualização” denominada “Carta de Salvador”, acompanhada de várias resoluções específicas (ver ao final a íntegra do texto).

Também apresentada como “Declaração de Salvador”, a Carta é apresentada como um “documento de compromissos históricos, de revigoramento de nossos princípios fundantes e de atualização de nosso projeto”.

Uma discussão sobre a autoria do texto e sobre os mecanismos pelos quais ele foi adotado pela referida chapa podem ficar para outro momento.

Agora vale analisar seu mérito, uma vez que – salvo alguma reviravolta—existe uma grande chance deste texto converter-se em texto base e também em resolução final do 5º Congresso.

O primeiro parágrafo da “Carta de Salvador” (daqui para frente denominada de Carta) é uma profissão de fé politicamente correta: renova a “confiança no povo brasileiro”, reafirma a convicção de que “uma Pátria socialista” só se fará com o “aprofundamento da democracia e a ampla participação organizada das maiorias sociais”, diz que vai “apresentar propostas de superação das dificuldades do momento”, e também que “nos fiamos na determinação e competência do governo da presidenta Dilma para nos liderar nessa travessia”. Fala ainda que “reconhecemos nossos avanços, apontamos nossos erros, sugerimos novos caminhos a trilhar e, sobretudo, divisamos um futuro de esperança, de progresso social e de paz”.

Em seguida (parágrafos 2 a 15) temos uma síntese da situação internacional, a começar da “crise do capitalismo irrompida em 2008”. Há uma correta crítica ao “repertório neoliberal frente à crise, rebatizado de austeridade fiscal”. Há semelhanças entre parte do que se critica e aquilo que faz o atual mandato Dilma, especialmente através do ministro Joaquim Levy.

A Carta apresenta China, Rússia, Grécia e a América Latina como “uma das principais frentes de resistência” àquele receituário. Mas afirma que a “alteração do cenário internacional estabeleceu limites e impasses para o aprofundamento” das políticas “social-desenvolvimentistas” implementadas em nossa região. O novo quadro “aguça as lutas de classes”: “a continuidade da ascensão dos pobres da cidade e do campo passou a depender de reformas tributárias e nacionalização de ativos”. Há uma “ofensiva imperialista” contra as experiências latino-americanas; os “governos progressistas defrontam-se com dilemas cruciais”: “aprofundar a integração regional ou curvar-se à inserção subordinada ao sistema comandado pelo imperialismo; promover reformas que reduzam a transferência de renda do Estado para grupos privados ou ceder às exigências de mercado para ampliar os ganhos do grande capital”.

Feita esta análise internacional, o texto (a partir do parágrafo 16) aborda a situação do Brasil, “desde 2003, um dos pilares da nova realidade latino-americana”. Repete aqui afirmações convencionais em textos do gênero adotados por nosso Partido: há quase treze anos “o país vive a implantação progressiva de um projeto de desenvolvimento com inclusão social, geração de milhões de novos emprego, distribuição de renda, fortalecimento do mercado de trabalho e abertura de oportunidades para a população”. Os governos “liderados pelo Partido dos Trabalhadores, aproveitando-se com inteligência e firmeza das condições externas e internas, vigentes até a eclosão da crise capitalista, foram paulatinamente reduzindo as taxas de juros, eliminando a dívida pública externa e diminuindo o peso relativo do endividamento interno”. O Estado, “a partir deste redimensionamento dos encargos financeiros, amealhou recursos para um conjunto de programas que mudaram drasticamente a vida dos brasileiros mais pobres”. O “poder público retomou dinamismo como principal investidor em obras de infraestrutura e projetos estratégicos”. O país “tornou-se destino obrigatório dos fluxos internacionais de investimento”.

O texto afirma que com a eclosão da crise internacional, “o Estado começou a perder capacidade de financiar o modelo de desenvolvimento em construção”.

Lemos aqui o mesmo tipo de raciocínio exibido na descrição da situação internacional: as coisas iam bem, até que veio a crise internacional.

Uma análise mais rigorosa mostraria que a crise internacional apenas antecipou um fenômeno que muito provavelmente ocorreria de qualquer maneira, devido às contradições internas da “estratégia progressista”. Contradição que pode ser resumida assim: no médio prazo, é impossível melhorar a vida dos pobres sem afetar os ricos.

É provável que o autor da Carta saiba disto, mas tenha optado por exagerar nos elogios para facilitar as críticas que faria a seguida, a saber: o governo conseguiu “defender o emprego e a renda dos trabalhadores, mas a soma de desonerações dos grupos capitalistas e arremetida dos custos da dívida interna esvaziaram os cofres do Estado, ainda mais depauperados pelo enfraquecimento do PIB e da queda da arrecadação tributária”.

Prossegue a Carta: “o excedente comercial dos primeiros dez anos permitiu o avanço do projeto petista sem mexer nas estruturas rentistas herdadas dos governos neoliberais, mas a retração mundial escancarou o caráter antinacional da financeirização de empresas produtivas e da concentração de renda provocada pela acumulação de bônus da dívida interna”. Diz ainda que o rentismo “inibe os investimentos privados e aprofunda o processo de desindustrialização”.

A Carta insinua, mas não entrega, uma análise da natureza do capitalismo brasileiro e do padrão de acumulação de riquezas de empresariado. Aliás, de forma geral, a Carta deixa nosso Partido na mesma situação em que já estamos há mais de 20 anos: sem uma análise das classes e da luta de classes no Brasil.

Seja como for, “a nova realidade impõe um desmonte progressivo do rentismo, um combate implacável aos saudosistas do neoliberalismo a fim de recuperar a soberania financeira do Estado”.

O que impressiona neste trecho acima transcrito é que em 2001, o companheiro Celso Daniel apresentou ao congresso do PT em Olinda (PE) uma proposta de programa de governo que defendia a ruptura com os fundamentos do neoliberalismo. Seis meses depois, já durante a campanha presidencial de 2002, o senhor Antonio Pallocci propunha e a maioria do diretório nacional do PT aprovava a supressão da palavra “ruptura” de nosso programa. No seu lugar, entrava em cena um programa de transição do neoliberalismo em direção a outro modelo. E agora, passados 13 anos, fala-se em desmonte progressivo do rentismo. O que comprova como criou raízes no petismo esta tradição política brasileira, este método de transformação tão lenta, tão segura e tão gradual, que parece acreditar ser possível mudar sem mudança.

A partir do parágrafo 30, a Carta apresenta e critica a posição da oposição neoliberal: “defendem que a retomada do crescimento depende da atração de capitais externos a qualquer custo, através da redução relativa de salários e direitos, elevadas taxas de juros, privatizações e desregulamentações, diminuição dos gastos públicos e a inserção subordinada do País em acordos de livre-comércio e nas cadeias produtivas globais”.
A Carta afirma que o PT se contrapõe a este ponto de vista, “prejudicial aos interesses nacionais e à maioria da população brasileira”. Mas não diz que aquele programa é no fundamental aquele defendido pelo ministro Levy.

Note-se, aliás, a ausência na Carta de uma análise acerca do ajuste em curso. É como se fosse possível falar do futuro e do passado, omitindo uma análise sobre o presente.

No parágrafo 32 a Carta apresenta uma ideia essencial: “a opção pela qual lutamos é a da transição de políticas públicas para reformas de base”, “um novo programa para um novo ciclo de desenvolvimento, cujo núcleo fundamental é a transformação do sistema tributário”, além da “reversão da política de juros altos”, do “imposto sobre grandes fortunas, heranças e sobre lucros e dividendos”, “mudança das alíquotas do Imposto de Renda”, ”retomada da contribuição sobre movimentação financeira” e  ”manutenção da política de conteúdo nacional e do regime de partilha na exploração do pré-sal”.
Estas medidas são apresentadas como “fundamentais para dotar o governo de recursos que possibilitem a execução das cinco reformas indispensáveis para a edificação do Estado de bem-estar social: agrária, urbana, educacional, sanitária e de transportes”.

Há um ditado que afirma que não se deve pedir “peras al olmo”. Assim, talvez seja demasiado exigir desta Carta, escrita, adotada a e apresentada como foi, que perceba que do ponto de vista estratégico está propondo que o Partido gire em círculos.

Afinal, não há nada mais socialdemocrata do que a ideia de construir um Estado de bem-estar social através de políticas públicas sustentadas por impostos generosos pagos pelos ricos. E o que existe de especificamente socialdemocrata nesta estratégia é a crença de que seja possível, a um capitalismo como o brasileiro, num mundo como o atual, implementar uma política deste tipo até um "final feliz".

Durante muitos anos, o PT acreditou noutro caminho, diferente do socialdemocrata. Este outro caminho era exatamente a defesa de “reformas estruturais”, que não apenas supunha rupturas políticas, mas também rupturas sócio-econômicas com o tipo de capitalismo que temos no Brasil.

A Carta de certa maneira reconhece que o primeiro caminho (socialdemocrata) não funciona mais. Mas a Carta não consegue desenvolver o que seria o outro caminho. E sugere como caminho alternativo ao atual, não uma nova estratégia, mas apenas uma “atualização” do caminho atual, isto apesar da Carta reconhecer seus limites.

A verdade é que a chapa “Partido que muda o Brasil”, neste texto como em outros de encontros e congressos passados, não consegue extrair os ensinamentos devidos do imenso e fantástico material de análise que nos é oferecido pela experiência de 13 anos de governos nacionais liderados pelo PT.

Um exemplo deste equívoco está na relação de três medidas que a Carta considera imediatas, dentre as várias reformas do Estado necessárias: “a reorganização administrativa e institucional, que viabilize a reprogramação de todas as políticas públicas a partir da matricialidade e integração setorial de suas especialidades”; “a ampliação das políticas distributivas para as redistributivas”; e a “reinvenção do mercado, tendo em vista o poder dos grandes grupos econômicos sobre o Estado”.

Independente do que pensemos acerca de cada uma destas medidas (a “reinvenção do mercado”, por exemplo, é quase um clássico da retórica do vácuo), a questão central está na afirmação segundo a qual “somente uma reforma do Estado e uma maior ampliação do fundo público poderão ensejar um novo patamar civilizatório”.

Tomada em si, esta não é uma afirmação incorreta. Mas falta considerar o seguinte: é possível reformar o Estado e ampliar o fundo público em benefício das maiorias, sem “reformar” simultaneamente a estrutura social? Sem quebrar a obscena concentração de propriedade que existe neste país? É possível falar em reforma do Estado, num país em que a burguesia reage tão furiosamente contra políticas redistributivas, que dizer de reformas estruturais??

Se a resposta a estas questões for negativa, se acreditamos (e depois de 13 anos de governo, temos mais motivos ainda para acreditar) que a “reforma” do Estado deve ser simultânea à “reforma” econômico-social, e que ambas exigiram um “reformismo” muito forte, então o Partido precisa fazer um debate estratégico muito mais profundo do que aquele que vem sendo feito nos últimos anos.

A este respeito, a Carta reconhece ser necessário um “movimento potente de renovação estratégica, que influencie a política de alianças, as formas de organização e ação, as relações com os movimentos sociais e a institucionalidade”. E diz que “se fazem necessárias mudanças para que a estratégia partidária se ajuste a esta nova realidade, a fim de vencer os desafios do período que atravessamos”. Infelizmente, a Carta promete mas não entrega a mercadoria.

Por um lado, a Carta exagera nos aspectos positivos da estratégia adotada desde 1995. Por outro lado, não consegue explicar o que seria uma nova estratégia. Vejamos a seguir os dois aspectos.

A Carta firma que a estratégia anterior/atual do PT “identificou uma cisão entre os grupos dominantes em relação ao modelo econômico preconizado pelo Consenso de Washington. Tal divisão semeou o terreno para alianças com setores mais vinculados à indústria nacional e ao mercado interno, cujos interesses eram representados, no plano institucional, por lideranças e grupos políticos navegando no centro do espectro partidário”. “Foi possível, então, estabelecer uma ampla frente contra o neoliberalismo, politicamente representado pela coalizão PSDB-DEM, acumulando forças para bater as forças do rentismo nas eleições presidenciais de 2002, quando as urnas sufragaram a dobradinha Lula-José Alencar”. “Esta aliança de da esquerda para o centro tornou viável, para as administrações comandadas pelo PT, a construção de maiorias parlamentares táticas, que garantiram a governabilidade para aprovação de políticas públicas e manutenção da estabilidade institucional. A fórmula prosperou, em boa medida, graças às condições materiais favoráveis dos primeiros dez anos. O cenário externo e interno possibilitaram a aplicação de programas distributivos sem ferir interesses relevantes do bloco rentista, formado pelo capital financeiro, oligopólios industriais e o agronegócio”. “Na fase ascensional do modelo desenvolvimentista, estes setores, também favorecidos pelo deslanche da economia, foram relativamente neutralizados e evitaram protagonismo na disputa político-ideológica contra os governos petistas, função que acabou exercida pelos grupos de comunicação e os estamentos mais altos das camadas médias”.

Esta descrição feita pela Carta seria correta, se Palocci e Meirelles (entre outras expressões do social-liberalismo) não tivessem existido. Mas existiram. Omitir isto simplifica o raciocínio, mas falsifica a realidade.

Entretanto, desaparecer com o Palocci/Meirelles não diz respeito a história passada. Diz respeito à história presente, pois este método de raciocinar sobre o passado também é útil para a Carta unificar, no presente, em torno de um só texto, os que concordam e os que discordam da atual política de ajuste.

A Carta reconhece que o conjunto da estratégia adotada de 2003 até agora teve um “sucesso” que “foi acompanhado por erros importantes que provocaram efeitos colaterais maléficos para a esquerda e o campo popular”.

Acontece que não foram “erros”, “equívocos” nem “efeitos colaterais maléficos”. A atual estratégia não incluía, nem podia incluir, “como tarefas prioritárias, desde o princípio, a reforma do sistema político e a democratização dos meios de comunicação”. Pois ambas implicariam em abandonar a opção pela mudança apenas através de políticas públicas; ambas implicariam em adotar a opção pela mudança através de reformas estruturais.

Tampouco foi a correlação de forças que nos impediu. A correlação de forças pode nos impedir de fazer algo. Mas não é a correlação de forças que nos impediu de tentar. O que nos impediu de tentar foi uma concepção estratégica baseada na conciliação com o conjunto do grande capital, com o conjunto do oligopólio da mídia e com grande parte da direita.

A Carta faz uma autocrítica pela metade. E, por decorrência, oferece uma alternativa pela metade.

Não queremos, com esta crítica, minimizar o fato da Carta reconhecer que “o partido e o governo acabaram adaptados a um regime marcado pelo predomínio do poder econômico, pela limitação da participação popular e pelo monopólio da informação”. Achamos importante que a Carta reconheça que “esse sistema político-eleitoral contaminou práticas partidárias, deformou relações internas e trouxe de contrabando métodos e hábitos da política tradicional”.

Mas ao não entender que isto foi produto daquilo (da estratégia atual/anterior), a Carta vai propor soluções parciais, que não resolverão os problemas que estão diante de nós.

De que adiante, por exemplo, reconhecer que “o primado aliancista, da forma como muitas vezes foi conduzido, reforçou a tendência de converter o PT em braço parlamentar do governo”, mas não reconhecer que o ajuste que nosso governo implementa hoje tem como consequência enfraquecer profundamente o PT? E que, portanto, o PT precisa agir para que o governo mude de política, o que inclui derrotar a política de que Levy é ao mesmo tempo instrumento e símbolo.

A Carta reclama que a conversão do PT em braço parlamentar do governo bloqueia de saída “a luta por projetos e ideias na sociedade e no Estado”. Mas de que adianta dizer isto, quando ao mesmo tempo o coordenador da principal tendência signatária da Carta, em manifesto público ao 5º congresso do PT, apela para que os delegados e delegadas adotem uma postura chapa branca?

Como “investir na elevação da consciência e da cultura de classe das multidões beneficiadas pela ascensão social”, se próceres de nosso governo e expressões importantes da nossa bancada e do nosso partido adotam posturas públicas que confundem focinho de porco com tomada, confundem flexibilidade tática com genuflexão?

A Carta afirma que “o Partido dos Trabalhadores tem buscado corrigir estes erros nos últimos anos, como é possível confirmar pelas resoluções e documentos aprovados desde o III Congresso. Mas reconhecemos que as alterações na situação internacional e local nos obrigam a uma mudança de maior envergadura”.

A correção de erros, ou se faz na prática, ou é mera enganação. E o fato é que, desde o III Congresso, muitas das mudanças acenadas não foram materializadas. O que ficou claro em 2013, em 2014 e agora em 2015, sendo desnecessário listar exemplos.

Reiteramos: é importante que a Carta reconheça que vivemos uma situação de “radicalização da disputa de projetos”. Assim como é importante dizer que “setores dos partidos de centro se sentiram mais à vontade para recompor um bloco com as forças de direita”. Mas é revelador que a Carta não fale do PMDB, não explicite por exemplo que foi um erro conferir caráter estratégico à aliança com este partido.

A verdade é que, quando a Carta se aproxima de temas nos quais as promessas precisam se converter em atos, ela adota a postura típica dos analistas acacianos.

Por exemplo: não é preciso muita sagacidade para concluir que as coisas vão melhorar quando as coisas melhorarem. E é exatamente isto que a Carta nos oferece quando afirma que “vicissitudes do quadro politico atual não serão superadas, em favor da classe trabalhadora e seus aliados, sem a emergência de um poderoso movimento de massas que - articulado à luta institucional, às ações efetivas e corretas de governo e à batalha cultural – seja capaz de impor uma situação de cerco ao Estado oligárquico”.

O problema de um Partido como o nosso é responder qual deve ser o nosso papel (enquanto partido, enquanto bancadas e governos, enquanto militantes nos movimentos sociais e no debate de ideias) para que ocorra este “poderoso movimento de massas”. 

Acontece que responder concretamente a esta questão nos levaria  a constatar que é muito difícil fazer isto, quando temos um governo cuja política econômica aponta noutro sentido, no sentido de dividir nosso campo e no sentido de estimular um movimento de massas contra nós.

Na mesma linha, é óbvio que somos a favor da “construção de uma frente democrática e popular”, é claro que não vamos economizar esforços “para ajudar a reunificar os movimentos, agrupamentos, coletivos e militantes que tornaram possível a reeleição da presidente Dilma Rousseff em outubro de 2014”. Mas como fazer isto quando – para ficar só neste exemplo-- a presidenta Dilma é eleita desmascarando a submissão de Aécio e Marina ao rentismo, mas nomeia Levy para a Fazenda??

Como dissemos, por não fazer o diagnóstico de conjunto da estratégia atual/anterior, a Carta opta por silenciar sobre o presente e acaba propondo soluções parciais, incompletas.

Por exemplo: “a estratégia de frente é nosso caminho para firmar uma nova aliança social, que incorpore setores novos e tradicionais da classe trabalhadora, das camadas médias, da intelectualidade e do empresariado simpático ao nosso projeto nacional”.

Isto poderia ser dito e efetivamente foi dito ao longo dos anos 1990. Qual a diferença entre o antes e o agora? Qual a novidade no que está sendo proposto agora?

A Carta encerra com palavras também politicamente corretas. Diz que fará tudo “para que este programa possa ter a presidenta da República como sua principal porta-voz e liderança”. E não diz nada a respeito do que fazer frente ao fato da presidenta ter escolhido afastar-se progressivamente do Partido – é isto que está ocorrendo e é isto que deveria ser reconhecido de maneira serena e clara, inclusive para buscar reverter esta situação.

Aliás, nos impressiona a distância entre o que a Carta diz e o que seus signatários realmente pensam acerca deste segundo mandato da presidenta Dilma.

A Carta conclama por uma “renovação em suas estruturas, métodos de organização e direção, formas de financiamento, instrumentos de comunicação e relações com os movimentos sociais”. Belas palavras, mas como sabemos os signatários desta Carta são os mesmos que resistem a democratizar as eleições internas e a romper com o financiamento empresarial privado.

A Carta encerra dizendo que a “emancipação do povo brasileiro” é a nossa tarefa, a nossa missão. É só querer e, amanhã, assim será!”

Infelizmente, não rima nem é solução. Não basta querer. Sem uma alteração profunda da estratégia e do padrão de funcionamento do Partido, nosso amanhã não será melhor do que ontem.
  
Nosso governo escolheu, sem debate com o Partido, uma política que se não for revertida, poderá destruir o que acumulamos ao longo dos últimos 35 anos. Mesmo que o Partido proponha e o governo aceite mudar de política, continuará sendo necessário um enorme trabalho para reverter a correlação de forças que quase nos fez perder as eleições presidenciais de 2014. 

Acreditamos que é possível enfrentar esta situação, retomar a iniciativa, vencer em 2016 e 2018, seguir um caminho que torne possível fazer reformas de sentido democrático, popular e socialista. Mas para isto não basta sinalizar para a esquerda, como busca fazer a Carta. É preciso mudar globalmente a política do Partido, na linha que a CUT já vem fazendo. E é preciso mudar rápido, pois vivemos “tempos de guerra”.

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Como dissemos no início deste texto, os signatários da Carta apresentam também algumas propostas de resolução. Uma sobre reforma política, com a qual estamos no fundamental de acordo. Outra sobre o “projeto nacional de desenvolvimento”, com a qual estamos parcialmente de acordo, cabendo fazer ajustes de redação. Uma terceira sobre “terceirização, fator previdenciário e direitos dos trabalhadores”, emenda com a qual estamos parcialmente de acordo, sendo necessário falar das MPs 664 e 665. Uma quarta proposta diz respeito a formação política, sobre a qual temos uma visão distinta, pois o que a resolução propõe é aquilo que já está sendo feito. Uma quinta proposta diz respeito à comunicação do PT, sobre a qual também temos uma visão distinta e diversas emendas. O mesmo dizemos acerca da proposta sobre “modo petista de governar”, da proposta sobre “tática eleitoral” e da proposta sobre a Comissão Nacional da Verdade.

Sobre a proposta que fala da “luta contra a corrupção”, proporemos outra resolução, baseada no texto “O PT e a luta contra a corrupção”, documento aprovado no congresso da tendência petista Articulação de Esquerda e disponível no www.pagina13.org.br

Estamos de acordo, sem prejuízo de ajustes, com as propostas “contra a redução da maioridade penal”, “por uma nova política sobre as drogas” e “contra o extermínio da juventude negra”.

Discordamos da proposta de resolução sobre finanças, pois em nossa opinião o Partido deve decidir já, em seu Congresso, que não aceitará mais financiamento empresarial privado.

Discordamos da proposta sobre “eleições diretas para direções do PT – PED”, com a qual estamos em desacordo total.

É um absurdo desvincular o direito de voto da obrigação de contribuir para com o Partido, especialmente neste momento em que buscamos o autofinanciamento da ação partidária. Por outro lado, insistir em confundir democracia partidária com eleições diretas conduz a não perceber que este método, ao invés de ampliar o controle da base sobre as direções, resulta no contrário: numa autonomia cada vez maior das direções. Os petistas merecem muito mais democracia do que apenas o direito de votar de quatro em quatro anos!

Finalmente, apresentaremos uma resolução específica sobre o ajuste fiscal e outra sobre a relação Partido governo.

Seguem abaixo as resoluções citadas e o texto completo da Carta.

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CARTA DE SALVADOR - Chapa O PARTIDO QUE MUDA O BRASIL
1. Reunido em seu V Congresso, o Partido dos Trabalhadores, na presença de centenas de militantes de todo o País, renova sua confiança no povo brasileiro, protagonista das grandes transformações que vivenciamos nos anos mais recentes. Reafirmamos, igualmente, nossa convicção de que a edificação de uma nova sociedade, justa fraterna e solidária, uma Pátria socialista, só se fará com o aprofundamento da democracia e a ampla participação organizada das maiorias sociais. Por isso, diante do cenário atual, em que o mundo sofre as consequências do terremoto da crise global do capitalismo, o PT vem a público apresentar propostas de superação das dificuldades do momento, ao tempo em que nos fiamos na determinação e competência do governo da presidenta Dilma para nos liderar nessa travessia.
Reconhecemos nossos avanços, apontamos nossos erros, sugerimos novos caminhos a trilhar e, sobretudo, divisamos um futuro de esperança, de progresso social e de paz.
Ao lado de resoluções que dizem mais respeito ao nosso funcionamento interno, divulgamos a presente “Declaração de Salvador”, um documento de compromissos históricos, de revigoramento de nossos princípios fundantes e de atualização de nosso projeto.
2. O mundo vive sob as condições geradas pela crise do capitalismo irrompida em 2008, a mais grave e prolongada desde o colapso de 1929.
3. Um tsunami devastou o sistema internacional de crédito, reduziu os fluxos comerciais entre as nações, expôs a contradição entre a crescente capacidade produtiva e a diminuição relativa da renda dos povos e desnudou os laços de dominação das grandes potências sobre os países emergentes e em desenvolvimento.
4. A resposta hegemônica dos países capitalistas dominantes vem aguçando o conflito que opõe os interesses dos trabalhadores e dos países dependentes contra os objetivos imperialistas, neoliberais e das grandes corporações internacionais.
5. O repertório neoliberal frente à crise, rebatizado de austeridade fiscal, tem entre seus principais ingredientes redução de salários e direitos, corte dos gastos públicos, salvaguarda estatal dos bancos privados, protecionismo comercial e imposição de novas medidas para a integração subordinada das nações emergentes à ordem econômica mundial.
6. Ao lado da China e da Rússia, e mais recentemente o governo grego, a América Latina tem se constituído em uma das principais frentes de resistência a essa estratégia, pela via autônoma que a região busca construir desde a eleição dos presidentes Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva, na virada do século, seguida de triunfos eleitorais progressistas em outros países importantes.
7. A região latino-americana e caribenha trata de consolidar um modelo de desenvolvimento cujo eixo principal é a criação de amplos mercados nacionais de massa, impulsionados por políticas de distribuição de renda, fortalecimento do mercado de trabalho , soberania sobre as riquezas naturais e fortalecimento do poder público.
8. Apesar das distintas realidades locais e dos diferentes caminhos para a implementação de mudanças, a América Latina tem se empenhado em intensificar a integração regional, construindo instituições políticas, comerciais e financeiras que consolidem um projeto sustentavelmente autônomo, como servem de exemplo o Mercosul, a Unasul, a Celac.
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9. Os resultados sociais e econômicos são fortemente positivos nos últimos quinze anos: taxas superiores de crescimento do PIB, destacada diminuição da miséria e da desigualdade social, ampliação dos direitos e serviços públicos, melhoria sensível dos indicadores de saúde e educação.
10. É inegável, porém, que a alteração do cenário internacional estabeleceu limites e impasses para o aprofundamento desse modelo.
11. A queda abrupta do excedente comercial, provocada pela derrubada dos preços internacionais de commodities e do volume de transações, e ainda a expressiva diminuição na arrecadação causada pela queda importante da atividade da indústria , afetaram drasticamente a principal fonte de financiamento das políticas social-desenvolvimentistas.
12. Também se intensificou a tensão entre expansão da renda popular e cadeias produtivas, fortemente dependentes do capital privado local e mundial. Muitos dos atuais problemas inflacionários, fiscais e cambiais derivam dessa desarmonia.
13. Este novo quadro aguça as lutas de classes em toda a região, sob a forma de conflitos distributivos em tempos de escassez. Enquanto a insaciável acumulação capitalista demanda compressão de salários e direitos para aumentar a rentabilidade dos negócios e sua competitividade internacional, a continuidade da ascensão dos pobres da cidade e do campo passou a depender de reformas tributárias e nacionalização de ativos que favoreçam uma maior distribuição de renda.
14. Os países imperialistas, particularmente os Estados Unidos, valem-se da crise para desencadear uma ofensiva contra as experiências latino-americanas, estimulando movimentos para sua derrocada e pressionando pela substituição do modelo, com o objetivo de, pelo acesso fácil aos mercados e às riquezas naturais da região , acumular e concentrar mais capital.
15. Diante deste quadro, os governos progressistas defrontam-se com dilemas cruciais: aprofundar a integração regional ou curvar-se à inserção subordinada ao sistema comandado pelo imperialismo; promover reformas que reduzam a transferência de renda do Estado para grupos privados ou ceder às exigências de mercado para ampliar os ganhos do grande capital.
16. O Brasil, desde 2003, quando toma posse o presidente Lula, é um dos pilares da nova realidade latino-americana, em suas conquistas e desafios.
17. Há quase treze anos o país vive a implantação progressiva de um projeto de desenvolvimento com inclusão social, geração de milhões de novos emprego, distribuição de renda, fortalecimento do mercado de trabalho e abertura de oportunidades para a população.
18. Os governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores, aproveitando-se com inteligência e firmeza das condições externas e internas, vigentes até a eclosão da crise capitalista, foram paulatinamente reduzindo as taxas de juros, eliminando a dívida pública externa e diminuindo o peso relativo do endividamento interno.
19. O Estado, a partir deste redimensionamento dos encargos financeiros, amealhou recursos para um conjunto de programas que mudaram drasticamente a vida dos brasileiros mais pobres, em um
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fenômeno que se refletiu em formidável ampliação do consumo de bens e serviços, que, com o simultâneo fortalecimento do mercado de trabalho, se constituíram em motores da nova etapa de desenvolvimento nacional. .
20. Além das políticas sociais – que precisam ser consolidadas -- o poder público retomou dinamismo como principal investidor em obras de infraestrutura e projetos estratégicos, tanto através de recursos orçamentários quanto do robustecimento de bancos e empresas estatais.
21. Graças a um longo período de recuperação econômica, o País tornou-se destino obrigatório dos fluxos internacionais de investimento, com rebaixamento acentuado da taxa de desemprego e escalada nos salários pagos nos distintos ramos de atividade.
22. A eclosão da crise internacional no entanto, abalou o financiamento desse modelo de desenvolvimento, que se muito se alimentava do excedente comercial crescente entre 2004 e 2010, com suas boas consequências para as finanças públicas.
23. O Estado começou a perder capacidade de financiar o modelo de desenvolvimento em construção. A persistência da crise mundial, ao reduzir o saldo de exportações, foi respondida pelo governo com subsídios fiscais, para tentar manter o ritmo da economia, e elevação da taxa básica de juros para atrair capitais que permitissem fechar positivamente as contas do país. O “espírito animal” do capital industrial não despertou, apesar da ampla politica de desonerações. Até mesmo porque setores do capital industrial foram seduzidos pelas altas taxas de remuneração do rentismo.
24. O governo da presidenta Dilma Rousseff, com essa medidas, conseguiu defender o emprego e a renda dos trabalhadores, mas a soma de desonerações dos grupos capitalistas e arremetida dos custos da dívida interna esvaziaram os cofres do Estado, ainda mais depauperados pelo enfraquecimento do PIB e da queda da arrecadação tributária.
25. O excedente comercial dos primeiros dez anos permitiu o avanço do projeto petista sem mexer nas estruturas rentistas herdadas dos governos neoliberais, mas a retração mundial escancarou o caráter antinacional da financeirização de empresas produtivas e da concentração de renda provocada pela acumulação de bônus da dívida interna.
26. Além de sangrar o orçamento nacional, pois boa parte das receitas públicas federais se destinam a pagamento e amortização de títulos do Tesouro, o rentismo inibe os investimentos privados e aprofunda o processo de desindustrialização, ao pressionar para cima o câmbio e reduzir a competitividade das exportações brasileiras.
27. A verdade é que a baixa do superávit comercial, em convivência com estas velhas estruturas rentistas, desacelerou o crescimento da economia e a expansão do mercado interno, derrubou a taxa de investimentos e penalizou tanto a renovação da infraestrutura quando a ampliação dos serviços públicos.
28. O Partido dos Trabalhadores reconhece que essa situação exige a abertura de um novo ciclo, no qual reformas estruturais, investimentos em inovação, desenvolvimento científico e tecnológico, maior capacitação e valorização da força de trabalho abram campo para a afirmação do projeto nacional de desenvolvimento implantado a partir de 2003.
29. A nova realidade impõe um desmonte progressivo do rentismo, um combate implacável aos saudosistas do neoliberalismo a fim de recuperar a soberania financeira do Estado.
30. A oposição de direita, a mídia monopolizada e seus aliados mais conservadores defendem que a
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retomada do crescimento depende da atração de capitais externos a qualquer custo, através da redução relativa de salários e direitos, elevadas taxas de juros, privatizações e desregulamentações, diminuição dos gastos públicos e a inserção subordinada do País em acordos de livre-comércio e nas cadeias produtivas globais.
31. O PT se contrapõe a esse ponto de vista, prejudicial aos interesses nacionais e à maioria da população brasileira.
32. A opção pela qual lutamos é a da transição de políticas públicas para reformas de base. O país precisa de um novo programa para um novo ciclo de desenvolvimento, cujo núcleo fundamental é a transformação do sistema tributário, regressivo, injusto, concentrador de renda e riqueza.
33. O PT defende também a reversão da política de juros altos, comprovadamente ineficaz no combate à inflação nesta fase de retração da demanda e gravosa para o Tesouro.
34. O partido acha urgente, ainda, a instituiçào do imposto sobre grandes fortunas, grandes, heranças e sobre lucros e dividendos, para alavancar o modelo de desenvolvimento sustentável com justiça social.
35. Também advoga a mudança das alíquotas do Imposto de Renda, com elevação do atual teto, aliviando a carga tributária sobre a produção e a maioria dos assalariados e onerando os grandes patrimônios e as grande riqueza.
36. É preciso inverter a lógica do sistema atual, que concentra a carga tributária sobre impostos indiretos, regressivos e injustos, pois atingem a todos igualmente (como são o ICMS e o IPI), para incidi-la mais sobre os impostos diretos, a fim de fazer pagar mais quem tem mais.
37. Somos favoráveis à retomada da contribuição sobre movimentação financeira, um imposto limpo, transparente e não cumulativo, como uma nova fonte de financiamento da saúde pública.
38. Estas medidas, que a outras se somam, particularmente a manutenção da política de conteúdo nacional e do regime de partilha na exploração do pré-sal, são fundamentais para dotar o governo de recursos que possibilitem a execução das cinco reformas indispensáveis para a edificação do Estado de bem-estar social: agrária, urbana, educacional, sanitaria e de transportes.
39. Vital, também, para o PT é a transformação do Estado, para democratizá-lo, dar-lhe transparência, abri-lo à participação e ao controle da sociedade, bem como torná-lo mais eficiente.
40. Entre várias reformas do Estado necessárias, o PT aponta três, como medidas imediatas.
41. A primeira consiste na reorganização administrativa e institucional, que viabilize a reprogramação de todas as políticas públicas a partir da matricialidade e integração setorial de suas especialidades. Enquanto o Estado funciona na forma de caixinhas setoriais (educação, saúde, trabalho, entre outros) e regionais, os problemas atuais tornam-se cada vez mais complexos e totalizantes, incapazes de serem superados pela lógica de organização pública em partes que não se comunicam, quando concorrentes entre si. A fonte disso encontra-se centrada na recuperação do sistema de planejamento democrático e transparente de médio e longo prazos.
42. A segunda concentra-se na necessária ampliação das políticas distributivas para as redistributivas. Ou seja, a transição da melhor repartição social do orçamento governamental para a expansão da progressividade do fundo público.
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43. Arrecadando mais e melhor, o Estado passa a alterar ,de maneira mais forte e eficaz, a desigualdade medieval que, apesar dos governos progressistas, ainda persiste nos países latino-americanos.
44. A terceira, por fim, refere-se à reinvenção do mercado, tendo em vista o poder dos grandes grupos econômicos sobre o Estado. Ademais das exigências da transparência e crescente participação social, o Estado precisa reconstituir-se fundamentalmente para o verdadeiro mar que organiza os micro e pequenos negócios no país, com políticas de organização e valorização do setor por meio da criação de bancos públicos de financiamento da produção e comercialização, fundos de produção e difusão tecnológica e de assistência técnica e de compras públicas. Além disso , essa reinvenção passa pela criação e o fortalecimento nas cadeias produtivas regionais, tendo em vista a integração regional energética e de infraestrutura. As cadeias regionais, no contexto político latino-americano atual, têm a capacidade de aglutinar pequenas e médias empresas, além de criar e fortalecer mercados de consumo e de trabalho nos diferentes países.
45. Somente uma reforma do Estado e uma maior ampliação do fundo público poderão ensejar um novo patamar civilizatório, como a postergação do ingresso no mercado de trabalho a partir dos 24 anos, a educação e aprendizagem para a vida toda e, ainda, jornadas de trabalho reduzidas em relação aos tempos extenuantes de agora. Tudo isso, contudo, pressupõe maioria política necessária para tornar realidade o que hoje se apresenta como mera possibilidade.
46. O Partido dos Trabalhadores compreende que estas mudanças não se limitam às fronteiras nacionais, complementando-se com a intensificação dos esforços de integração da América Latina e da aliança com as nações do BRICS.
47. Para libertar o Brasil da ditadura mundial exercida pelo capital financeiro sobre as economias dependentes, é essencial a criação de bancos, fundos de investimentos, tratados de troca e planos produtivos autônomos em relação ao sistema controlado pelos Estados Unidos e Europa. Neste sentido é preciso investir na nova arquitetura financeira mundial que vem surgindo no mundo: o Banco do Sul, da UNASUL, o Banco de Desenvolvimento dos BRICS e o Acordo Contingente de Reservas, bem como o Banco Asiático de Desenvolvimento e Investimento da China.
48. A adoção deste programa como norte para o campo popular deve expressar movimento potente de renovação estratégica, que influencie a política de alianças, as formas de organização e ação, as relações com os movimentos sociais e a institucionalidade.
49. O Partido dos Trabalhadores considera que se fazem necessárias mudanças para que a estratégia partidária se ajuste a esta nova realidade, a fim de vencer os desafios do período que atravessamos.
50. Forjada nos anos posteriores ao colapso da União Soviética, quando se consolidava a hegemonia imperialista sobre o planeta e predominava o pensamento neoliberal, a estratégia do PT identificou uma cisão entre os grupos dominantes em relação ao modelo econômico preconizado pelo Consenso de Washington. Tal divisão semeou o terreno para alianças com setores mais vinculados à indústria nacional e ao mercado interno, cujos interesses eram representados, no plano institucional, por lideranças e grupos políticos navegando no centro do espectro partidário.
51. Foi possível, então, estabelecer uma ampla frente contra o neoliberalismo, politicamente representado pela coalizão PSDB-DEM, acumulando forças para bater as forças do rentismo nas eleições presidenciais de 2002, quando as urnas sufragaram a dobradinha Lula-José Alencar.
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52. Esta aliança de da esquerda para o centro tornou viável, para as administrações comandadas pelo PT, a construção de maiorias parlamentares táticas, que garantiram a governabilidade para aprovação de políticas públicas e manutenção da estabilidade institucional.
53. A fórmula prosperou, em boa medida, graças às condições materiais favoráveis dos primeiros dez anos. O cenário externo e interno possibilitaram a aplicação de programas distributivos sem ferir interesses relevantes do bloco rentista, formado pelo capital financeiro, oligopólios industriais e o agronegócio.
54. Na fase ascensional do modelo desenvolvimentista, estes setores, também favorecidos pelo deslanche da economia, foram relativamente neutralizados e evitaram protagonismo na disputa político-ideológica contra os governos petistas, função que acabou exercida pelos grupos de comunicação e os estamentos mais altos das camadas médias.
55. O Partido dos Trabalhadores reconhece, no entanto, que o sucesso desta estratégia foi acompanhado por erros importantes que provocaram efeitos colaterais maléficos para a esquerda e o campo popular.
56. O principal destes equívocos foi não ter estabelecido como tarefas prioritárias, desde o princípio, a reforma do sistema político e a democratização dos meios de comunicação. A falta de maioria parlamentar progressista e a intenção de reduzir ao máximo conflitos em um cenário no qual os trabalhadores não eram força hegemônica deixaram em suspenso uma campanha nacional por esses temas e a subestimar sua influência sobre todo o processo político.
57. A verdade é que, em contraposição aos processos vividos por outras nações latino-americanas sob governos progressistas, o Partido dos Trabalhadores e as administrações sob sua liderança deixaram, na prática, de alterar instituições e instrumentos de poder das velhas oligarquias, que, mesmo fora do governo central, hoje nos combatem ferozmente.
58. O partido e o governo acabaram, assim, adaptados a um regime marcado pelo predomínio do poder econômico, pela limitação da participação popular e pelo monopólio da informação - abdicando de denunciá-lo com o peso devido e de lutar por sua superação desde a primeira hora.
59. Deixado intacto, esse sistema político-eleitoral contaminou práticas partidárias, deformou relações internas e trouxe de contrabando métodos e hábitos da política tradicional: a supremacia dos mandatos sobre as instâncias partidárias, o esvaziamento da vida interna fora de períodos eleitorais, o relativo distanciamento dos movimentos sociais, sinais de burocratização, a centralização como método de direção.
60. Outro grave problema foi a deficiência em determinar a correta relação de coalizão interclassista e pluripartidária com disputa de hegemonia. O primado aliancista, da forma como muitas vezes foi conduzido, reforçou a tendência de converter o PT em braço parlamentar do governo, preliminarmente bloqueando a luta por projetos e ideias na sociedade e no Estado.
61. Uma das principais consequências desta dinâmica foi negligenciar a necessidade de investir na elevação da consciência e da cultura de classe das multidões beneficiadas pela ascensão social, objetivo que deveria ter mobilizado amplamente os aparatos de comunicação e educação do Estado, além do próprio partido.
62. Mesmo internamente, os efeitos foram danosos, definidos pela pouca relevância oferecida à formação político-ideológica da militância e à construção de um sistema de comunicação que
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pudesse afrontar a influência das corporações midiáticas.
63. O Partido dos Trabalhadores tem buscado corrigir estes erros nos últimos anos, como é possível confirmar pelas resoluções e documentos aprovados desde o III Congresso.
64. Mas reconhecemos que as alterações na situação internacional e local nos obrigam a uma mudança de maior envergadura.
65. A realidade que atualmente vivemos é a da radicalização da disputa de projetos. O próprio deslocamento à direita de grupos centristas, representando a reunificação de setores das classes dominantes ao redor de um pacto conservador, apenas confirma que processos de mudança em favor do povo sem mobilização são cada vez mais remotos.
66. Setores dos partidos de centro, além de expressarem este reposicionamento de classe e o receio da intensificação do protagonismo popular, sinalizado pelo segundo turno da eleição presidencial de 2014, também se sentiram mais à vontade para recompor um bloco com as forças de direita em um momento de dificuldades para o PT e o governo da presidenta Dilma Rousseff.
67. As vicissitudes do quadro politico atual não serão superadas, em favor da classe trabalhadora e seus aliados, sem a emergência de um poderoso movimento de massas que - articulado à luta institucional, às ações efetivas e corretas de governo e à batalha cultural – seja capaz de impor uma situação de cerco ao Estado oligárquico.
68. O programa de reformas estruturais pressupõe a construção de uma frente democrática e popular, de partidos e movimentos sociais, do mundo da cultura e do trabalho, baseada na identidade com as mudanças propostas para o período histórico em curso.
69. Este caminho vai além de acordos eleitorais ou de pactos entre direções: nossa proposta é a constituição de uma nova coalizão, orgânica e plural, que se enraíze nos bairros, locais de estudo e trabalho, centros de cultura e pesquisa, capaz de organizar a mobilização social, o enfrentamento político-ideológico , a disputa de hegemonia e a construção de uma nova maioria nacional.
70. O Partido dos Trabalhadores não economizará esforços para ajudar a reunificar os movimentos, agrupamentos, coletivos e militantes que tornaram possível a reeleição da presidente Dilma Rousseff em outubro de 2014.
71. Apenas com a existência de um bloco desta natureza poderemos disputar as bases do centro político da sociedade e atrair suas lideranças mais dispostas a se separar do conservadorismo, em torno do nosso projeto democrático e popular de desenvolvimento com inclusão social, democracia e respeito aos direitos dos trabalhadores, além de dialogar com enormes contingentes de brasileiros e brasileiras sem-partido.
72. A estratégia de frente é nosso caminho para firmar uma nova aliança social, que incorpore setores novos e tradicionais da classe trabalhadora, das camadas médias, da intelectualidade e do empresariado simpático ao nosso projeto nacional.
73. Esta política deve ser fortemente mobilizadora da juventude e das mulheres, dos coletivos homossexuais e antirracistas, dos grupos ecológicos e das organizações de direitos humanos.
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74. O programa da frente tem a obrigação de somar, à agenda do desenvolvimento, da questão nacional (a Petrobrás como pilar), da democratização do Estado, o fim dos autos de resistência, a desmilitarização das polícias estaduais, a descriminalização das drogas, a criminalização da homofobia, a igualdade de gêneros e o reconhecimento pleno da união homo-afetiva, entre outros direitos civis.
75. Agrega-se à essa plataforma a necessidade de responder imediatamente à possível vitória da contra-reforma política, operação comandada pelos partidos conservadores com a intenção de manter o controle dos grandes grupos empresariais sobre o parlamento.
76. Torna-se indispensável a retomada da luta pela Constituinte exclusiva e soberana, convocada especificamente para realizar uma verdadeira reforma do sistema politico-eleitoral.
77. O Partido dos Trabalhadores está pronto para cumprir estas tarefas, que exigirão muita reflexão, unidade, companheirismo e vontade política de nossos (as) militantes e dirigentes.
78. Como integrante do governo de coalizão comandado pela companheira Dilma Rousseff, o partido tudo fará para que este programa possa ter a presidenta da República como sua principal porta-voz e liderança.
79. Para estarmos aptos a ações de tanta envergadura, o V Congresso conclama todo o partido para um profundo processo de reorientação , caracterizado pela renovação em suas estruturas, métodos de organização e direção, formas de financiamento, instrumentos de comunicação e relações com os movimentos sociais.
80. Essa é a senda de um partido de massas vocacionado para dirigir o Estado, mas cujo projeto histórico é a fundação de uma nova sociedade, socialista e democrática.
81. Cometemos erros, mas é fundamentalmente por nossas virtudes que as forças conservadoras nos atacam e almejam nossa destruição. Não aceitam que a classe trabalhadora e seu principal partido estejam no comando do país, enfrentando o legado de opressão e desigualdade gerado em séculos de dominação, violência, privilégios e preconceitos. Respondamos ao ódio reacionário com a esperança simbolizada pela bandeira vermelha: o Partidos dos Trabalhadores jamais renunciará ao seu compromisso histórico com a emancipação do povo brasileiro.
82. Essa é a nossa tarefa, a nossa missão. É só querer e, amanhã, assim será!
Salvador, Bahia, junho de 2015
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PROPOSTAS DE RESOLUÇÃO ( 13)
1- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO SOBRE REFORMA POLITICA
O 5º Congresso Nacional do PT reafirma a defesa da convocação de uma Constituinte Exclusiva para a realização de uma verdadeira reforma política.
Reafirma também suas propostas de financiamento público, voto em lista, paridade de gênero e o repudio ao financiamento empresarial de partidos e campanhas eleitorais.
No momento em que o Congresso Nacional, através de um golpe regimental e de uma violação à própria constituição, aprova em primeira votação, o financiamento empresarial, que abre espaço para a corrupção na vida política.
O PT reitera sua disposição de continuar lutando para que isso não passe na segunda votação, ou mesmo nas duas votações do Senado Federal.
Assim sendo o 5º Congresso
RESOLVE:
1. Ampliar o debate do seu projeto de Reforma Política, através de Seminários Estaduais, em Parceria com a Escola Nacional de Formação e a Fundação Perseu Abramo, para construir uma síntese que contraste com o que venha a ser aprovado na contrarreforma em pauta no Congresso.
2. Unificar suas ações junto aos movimentos sociais que hoje participam da plataforma pelo Plebiscito, bem como da coalização por eleições democráticas e livres, tendo como centro o fim do financiamento empresarial e a convocação de um plebiscito para que a população possa votar, escolhendo se é a favor ou contra a convocação de uma Constituinte Exclusiva para mudar o sistema eleitoral.
3. Continuará incansável na luta pela Reforma Política, que democratize verdadeiramente o Sistema Eleitoral Brasileiro, seja através da nossa coleta de assinaturas, seja através da ocupação das ruas e de todos os espaços de luta do povo brasileiro.
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2- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO PROJETO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO
Considerando a necessária retomada do Projeto Nacional de Desenvolvimento , com crescimento econômico e inclusão social;
Considerando que a retomada do projeto nacional de desenvolvimento no país não pode ser entendida fora do contexto mundial e regional, onde a disputa de hegemonia com o rentismo, o capital financeiro internacional e as transnacionais é a tônica;
Considerando que o Brasil é o país com a maior biodiversidade do mundo, o maior potencial de água doce do planeta e possui uma matriz energética considerada limpa, temas que vêm a cada dia ganhando importância na economia e assumindo protagonismo no cenário internacional;
Considerando que nos últimos 12 anos a agenda sócio ambiental tem se destacado nas ações de governo brasileiro;
O PT entende que, nos próximos 4 anos, a agenda de desenvolvimento nacional, em um modelo socialmente justo, economicamente viável e ambientalmente sustentável , deverá concentrar-se em:
1- Direcionamento do investimento e do crédito para fortalecer a indústria nacional, a inovação e o emprego concretizando o compromisso com o Brasil Produtivo. Nossas políticas industrial, científica, tecnológica e agrícola devem atuar para dar concretude ao desenvolvimento nacional e a geração de empregos, fortalecendo a pequena e média empresa, estimulando nossa capacidade de inovação, reduzindo os custos logísticos e melhorando o ambiente de negócios do país.
2- Aprofundamento da Reforma Agrária e da Política Agrícola
3- Compromisso com o Desenvolvimento Regional : mostramos ao mundo que é possível combinar crescimento com equidade social, fazendo da desconcentração de renda uma poderosa alavanca de sua expansão econômica. A busca de maior equidade regional é não só compatível com seus objetivos em termos de competitividade, como pode ser um importante instrumento no sentido de alcançá -los. A ativação plena do potencial da rica diversidade regional brasileira, hoje subexplorada, representa uma oportunidade para o Brasil ampliar sua capacidade competitiva e ocupar um novo papel no cenário internacional.
5- Compromisso com a manutenção da política de conteúdo nacional e do regime de partilha na exploração do pré-sal;
6- Compromisso com a valorização do Trabalho, os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, com o fortalecimento do mercado de trabalho e o contínuo combate à precarização.
7- Aprofundamento da Integração Regional da América Latina e Caribe, com investimento na integração energética, de infraestrutura ( exemplo recente é a Ferrovia Transcontinental Bioceânica do acordo Brasil- China) e na criação de cadeias produtivas regionais (um exemplo exitoso é a integração produtiva da indústria de brinquedos no Mercosul, ou dos setores automotivo, de gás e petróleo financiados pelo FOCEM – Fundo do Mercosul)
8- Investir no avanço e consolidação dos novos instrumentos na arquitetura financeira mundial como Banco dos Brics, Banco do Sul, Banco Asiático de Desenvolvimento e Investimento da China.
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3- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO : Terceirização, Fator Previdenciário e Direitos dos Trabalhadores
O Partido dos Trabalhadores considera que um dos principais pilares do projeto de desenvolvimento com inclusão social foi e continuará sendo o fortalecimento do mercado de trabalho , o combate à precarização e a ampliação de direitos dos/as trabalhadores/as. Assim sendo, o V Congresso Nacional do PT:
1- Uma das principais batalhas da conjuntura é a que está sendo travada contra o Projeto de Lei nº 4330, que expande a terceirização do trabalho para todas atividades econômicas, e se constituiu em um dos principais núcleos da política neoliberal. Sua aprovação definitiva representaria o mais rude golpe contra a classe trabalhadora desde a consolidação dos direitos trabalhistas em 1943. O V Congresso Nacional recomenda, assim, que os parlamentares petistas continuem seu trabalho de resistência contra essa medida, buscando unidade com representantes de outros partidos, para impedir a aprovação deste projeto de lei. Conclamamos ainda a presidenta Dilma Rousseff a assumir o papel de liderança na campanha contra a terceirização, como já tem agido, ao mesmo tempo em que recomendamos o veto presidencial caso o projeto de lei 4330 venha a ser acolhido pelo parlamento.
2- Sobre o Fator Previdenciário, o V Congresso Nacional defende que as mudanças ocorridas no âmbito de sua tramitação, aprovadas pela Câmara, não sejam vetadas, instalando-se de maneira imediata a Comissão Quadripartite com as Centrais Sindicais para discussão das regras de acesso à aposentadoria e os outros temas relativos à pauta previdenciária.
3- Finalmente, o V Congresso do PT conclama nosso governo a aprofundar o diálogo social com o movimento sindical brasileiro sobre os direitos dos/as trabalhadores/as e a pauta da classe trabalhadora.
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4- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO SOBRE ELEIÇÕES DIRETAS PARA DIREÇÕES DO PT – PED
O PED COMO MÉTODO DE ESCOLHA DAS DIREÇÕES PARTIDÁRIAS
O 5º Congresso Nacional do PT;
RESOLVE:
1. Tendo em vista o caráter de partido de massas do PT, manter o Processo das Eleições Diretas (PED) e aprimorá-lo, combatendo de forma enérgica os abusos identificados em eleições anteriores, desvinculando do direito ao voto o pagamento das contribuições financeiras do filiado ou filiada que não exerce cargo de dirigente, de confiança ou eletivo.
2. Realizar um Seminário Nacional, em até 90 dias, para encaminhar ao Diretório Nacional, propostas de reorganização partidária e ajustes necessários para melhorar o funcionamento das instâncias partidárias para ampliar a participação da base.
3. A CEN definirá os critérios de participação e a pauta detalhada para o seminário.
4. O rico conjunto de propostas relativas à organização partidária, debatidas e elaboradas nas etapas estaduais e municipais do 5º Congresso, será apresentado como material de subsidio para o Seminário.
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5- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO SOBRE FORMAÇÃO POLÍTICA
O PT, em todos as suas instâncias, precisa atribuir à formação política maior relevância estratégica para a formulação e organização do Partido,
Considerando urgente ampliar e fortalecer a formação política do PT, oferecendo-a, em larga escala, de forma presencial e on-line, para os nossos quadros dirigentes e para centenas de filiados e filiadas, inclusive os novos, através da Escola Nacional de Formação Política.
o 5º Congresso Nacional do PT;
RESOLVE:
1. Convocar a Jornada Nacional para Dirigentes.
2. Realizar cursos temáticos para filiados e filiadas e novos filiados e filiadas não só em torno de grandes temas como capitalismo, socialismo estado e democracia, como também sobre o PT e a construção partidária.
3. Promover a integração e trabalho coletivo e entre a Secretaria Nacional de Formação, Secretaria Nacional de Movimentos Populares, Secretaria de Assuntos Institucionais, Secretaria Nacional de Organização e Secretaria de Comunicação nos processos formativos.
4. Concretizar os investimentos na política de formação previstos desde o 4º Congresso, ou seja, a Fundação Perseu Abramo e o Diretório Nacional investirão 10% das verbas originárias do Fundo Partidário visando tornar a Formação Política uma prioridade, de fato, no PT.
5. Será necessário, ainda, aperfeiçoar e fortalecer os processos de formação dos novos filiados seja em nível municipal ou regional, a partir de trabalho conjunto com a SORG e Secretaria Nacional de Formação.
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6- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO SOBRE COMUNICAÇÃO: AMPLIAR A COMUNICAÇÃO DO PT, UMA NECESSIDADE QUE URGE
Em um País onde poucas famílias controlam os grandes canais de TVs, rádios e jornais e onde a legislação atual em nada ampara o direito do ofendido --- vide o engavetamento do Projeto de Lei que garante o direito de resposta que se encontra com sua tramitação obstaculizada na Câmara dos Deputados --- fazer comunicação de massa não é uma tarefa fácil.
Há um consenso entre todos os setores do Partido e até fora das nossas fronteiras que existe um cerco midiático-conservador sobre a nossa legenda e suas principais lideranças. Esse cerco tornou-se mais frequente nestes últimos tempos.
Há ainda um sentimento cristalizado de que o PT nesses 35 anos pouca atenção deu ao quesito comunicação. Essa desatenção fez com que o tema fosse na maioria dos diretórios estaduais e até no diretório nacional tratado como “coisa menor’, ou quando muito, meramente administrador do tempo semestral nos horários de propaganda no rádio e na televisão.
A negligência com o tema veio à tona nas manifestações de junho de 2013, quando fomos surpreendidos pela convocação massiva via redes sociais de grandes concentrações, somente aí o diretório nacional deu-se conta da importância das novas mídias.
Ao resolver apostar no fortalecimento da presença petista nas redes ganhou o partido importantes instrumentos de conexão e interatividade com o conjunto de militantes e ativistas, bem como abriu uma janela de oportunidades nesse campo de disputa cada vez mais relevante.
Longe de querer exercitar a escolástica própria das forças de esquerda que, na ausência de propostas ou alternativas para o futuro, enveredam pelo teoricismo de ocasião, apresentamos algumas propostas para o fortalecimento dos canais de comunicação existentes no partido e vislumbrando a criação de outros possamos disputar a narrativa do cotidiano da política e também municiar nossa base social, compostas de milhões de brasileiras e brasileiros, com formas e meios capazes de fazer a disputa no dia a dia.
1- É imprescindível que todo diretório estadual e diretórios das capitais e de cidades acima de 100 mil eleitores estejam conectados em rede com o diretório nacional via mala de e-mails, facebooks, twitters , whatsaps e telegrans;
2- Que seja estipulado um prazo de 2 meses a partir do 5° Congresso para que os diretórios estaduais e diretórios das capitais atualizem as suas páginas na internet;
3- Estabelecer mecanismos para que em curto espaço de tempo os diretórios estaduais “criem” ou “entrem” em parceria com outros setores do campo progressista e elaborem um jornal impresso de no mínimo 4 páginas para ser distribuído em locais de grande concentração popular;
4- O diretório nacional na medida de suas possibilidades participaria na confecção desses semanários, disponibilizando os conteúdos de caráter nacional e auxiliando financeiramente os diretórios estaduais na produção. Esses semanários teriam distribuição gratuita;
5- Tornar a linguagem de nossa comunicação acessível aos mais jovens. É preciso disputar a juventude que se encontra a mercê da máquina de propaganda midiática, bem como da pasteurização das influências culturais externas;
6- Conquistar espaços na juventude para as pautas progressistas é fundamental para nossa sobrevivência como força política relevante. Assim, sem querer impor o “novo”, temos que criar conteúdos que estejam em comunhão com os anseios desse segmento;
7- Usar cada vez mais os espaços na propaganda no rádio e na tv para politizar e defender as pautas progressistas e a defesa do legado petista;
8- Colocar no ar, em breve espaço de tempo possível, a tv PT na web, assim como, transmitir online e ao vivo todos os principais eventos partidários;
9- Criar um canal interativo com a militância, no qual a cada semana um dirigente possa responder aos questionamentos, ouvir sugestões e críticas sobre variados assuntos do momento;
10- Compreender que as redes sociais propiciam uma nova forma de interlocução com a sociedade
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petista e com o campo progressista. Essa forma é inédita, portanto, nunca experimentada. Esse é o caminho que devemos trilhar e investir pesadamente.
Investir nessas novas ferramentas de comunicação, buscando uma linguagem que nos conecte com a juventude e principalmente com os setores recém incluídos no mundo digital nos dará elementos para romper com o cerco midiático-conservador, já referido.
Nada do que estamos propondo terá viabilidade concreta se não superarmos a acomodação, o desânimo e a “mesmice” que vem crescendo assustadoramente no interior de nossas fileiras. Precisamos reverter essa dinâmica para junto com o povo brasileiro apontar perspectivas palpáveis para o futuro.
A luta pela afirmação das reivindicações da mulheres por mais inserção na vida política; a emergência dos negros com a reafirmação de nossa defesa contundente da política de cotas nas universidades, no serviço e nas carreiras públicas; o reconhecimento do papel dos povos indígenas e a consequente demarcação de suas terras; a luta contra a homofobia e o reconhecimento dos direitos do LGBTs; o reconhecimento de que a “guerra” as drogas não é o caminho para pôr fim ao morticínio, principalmente nas áreas periféricas; a valorização do emprego e a sua total formalização; o investimento maciço na educação e na saúde pública são as pautas que nos levarão ao encontro daquilo que sempre lutamos: uma sociedade brasileira mais justa e humana para todos.
Reatar nossos vínculos históricos com os artistas e intelectuais passa decisivamente pela afirmação dessas pautas progressistas.
Reconstruir as pontes entre o Partido dos Trabalhadores e o mundo da cultura por nós deveras negligenciadas reveste-se de uma importância jamais vista.
Por uma comunicação com a abrangência que necessitamos é o que temos buscado ao longo do último período. Ousemos coletivamente a acertar!
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7- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO : O modo petista de governar e de atuação parlamentar no século XXI
A experiência dos governos petistas nas cidades e estados foi construída a partir de um rico e vigoroso processo de elaboração que alimentou e se alimentou da experiência em cada cidade e em cada estado, tendo como referência os valores do ideário socialista e a as linhas gerais de nosso programa para o Brasil. O Modo Petista de Governar se definiu em diferentes gerações de prefeituras governadas pelo PT e teve como linhas gerais políticas voltadas à garantia de direitos a partir da inversão de prioridades depois, o desenvolvimento econômico articulado ao desenvolvimento social e urbano ou rural. Tais políticas foram desenvolvidas com ampliação do controle e participação social e processos voltados a transformar a gestão pública visando torná-la mais democrática, eficiente e ética. As reflexões mais recentes resultaram na perspectiva de articulação entre as políticas nacionais que estruturam nosso projeto nacional, levadas a efeito pelos governos Lula e Dilma, e o impulso ao desenvolvimento local e regional.
O V Congresso Nacional do PT resolve:
1- Estimular nossos/as prefeitos/as, governadores/as a assumirem a liderança dos projetos locais como parte de nosso projeto nacional, fortalecendo a condição de lideranças regionais visando integrar políticas e soluções nacionais e locais ampliando, desta maneira, o horizonte de planejamento, se utilizando para isso de instrumentos institucionais como os consórcios.
2- Estimular nossos gestores públicos em todos os níveis a desenvolver um modelo de implementação de políticas públicas em que a participação social seja parte integrante de sua concepção e desenho, monitoramento e avaliação, de modo a que ela seja, de fato, método de governo.
3- Estimular nossos/as gestores/as públicos/as a elaborarem propostas de remoção das travas à ação estatal e à implantação de arranjos que viabilizem a execução e aprimoramento das políticas para a garantia de direitos, a promoção da inclusão social e a redução da desigualdade.
4- 4 - Fortalecer as Secretarias de Assuntos Institucionais dos diretórios estaduais e municipais, sob a liderança da SNAI , para uma ação firme e contínua da direção nacional no sentido da apropriação e socialização dessa reflexão , proporcionando a troca de experiências e a elaboração coletiva.
5- No mesmo sentido o Modo Petista de Atuação Parlamentar deve ser discutido a partir da elaboração partidária. Nossos/as vereadores/as são os porta vozes de nossas políticas em cada lugar do País e devemos integrá-los aos espaços de articulação e formulação partidária.
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8- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO : TÁTICA ELEITORAL E ELEIÇÕES 2016
Tendo em vista a realização das eleições municipais de 2016, nas quais o PT terá como objetivo, manter as prefeituras que governa e ampliar o número de prefeitos e prefeitas, bem como de vereadores e vereadoras;
Tendo em vista também que é necessário debater a política de alianças e a tática eleitoral, para aprofundar as principais linhas do modo petista de governar/legislar;
Considerando ainda as diferentes realidades regionais e municipais, que exigem uma reflexão para a tomada de decisões eleitorais;
O 5º Congresso Nacional do PT
RESOLVE:
1. Orientar os Diretórios Municipais e Zonais a promover diagnósticos sobre a correlação de forças locais, sobre os partidos existentes no município, avaliação local e estadual dos nossos governos e dos governos que compomos.
2. Orientar os diretórios a iniciarem junto com os setores organizados da população levantamento sobre as demandas, necessidades e possibilidades das questões locais.
3. Orientar a criação dos GTEs Estaduais e Municipais, sob orientação do Diretório Nacional;
4. Convocar para o próximo semestre uma reunião ampliada do Diretório Nacional com os Presidentes dos Diretórios Estaduais do PT e os Coordenadores Estaduais do GTE com a finalidade de definir a política de alianças, de formular um novo formato de campanha, bem como consolidar uma proposta de atualização do Modo Petista de Governar e Legislar.
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9- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO : sobre Relatório da Comissão Nacional da Verdade
Por estarem em harmonia com as diretrizes programáticas do Partido dos Trabalhadores, o V Congresso resolve incorporar as Conclusões e Recomendações constantes do capítulo 18 da Comissão Nacional da Verdade, entre as quais se encontram a extinção da Justiça Militar, a desmilitarização das polícias, o reconhecimento, pelas Forças Armadas, de sua responsabilidade institucional pela ocorrência de graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar (l964 a l985), a proibição da realização de atos oficiais em comemoração ao golpe militar de l964, a revogação da Lei de Segurança Nacional.
São ao todo 4 conclusões e 29 recomendações que o PT encampa, com o objetivo de contribuir para que o relatório da Comissão tenha maior impacto, no curto prazo, na formulação de políticas públicas do Estado Brasileiro.
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10 – PROPOSTA DE RESOLUÇÃO : Um partido que luta contra a corrupção
O PT liderou entre 2003 e 2014 as maiores e mais importantes iniciativas no combate à corrupção na história brasileira.
Ações exitosas como as elencadas abaixo:
1- Criação em janeiro de 2003 da Controladoria Geral da União, institucionalizando em nível ministerial a fiscalização sistemática sobre a aplicação de recursos federais.
2- Adoção do pregão eletrônico como regra, reduzindo a possibilidade de fraudes em licitações.
3- Criação do Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspeitas, excluindo dos contratos públicos fornecedores que cometeram ilícitos.
4- Monitoramento pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) de movimentações atípicas envolvendo agentes públicos.
5- Fortalecimento através da legislação de apoio ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), o que intensificou a atuação no combate aos cartéis.
6- Criação do Portal da Transparência, que recebe mais de 1 milhão de consultas por mês e que foi considerado pela ONU uma das cinco melhores práticas de combate à corrupção em todo o mundo.
7- Aprovação da Lei de Acesso à Informação, que colocou o Brasil entre os países que praticam os mais avançados princípios de governança.
8- Edição do Decreto 5.497/2005 que reservou para servidores concursados 50% dos cargos no nível DAS-4 e 75% nos níveis DAS-1, DAS-2 e DAS-3, que antes eram de nomeação totalmente livre.
9- Respeito ao princípio constitucional da autonomia do Ministério Público, nomeando para o cargo de Procurador-Geral da República o mais votado nas eleições da Associação Nacional do Ministério Público ( e não um “engavetador geral”, como nos tempos do PSDB, que arquivou 217 inquéritos criminais envolvendo autoridades e engavetou outros 242, de um total de 626 denúncias recebidas)
10- Criação no âmbito da Policia Federal das delegacias especializadas no combate à corrupção e desvio de recursos públicos, que já são 17 em todo o país.
11 -O Congresso Nacional aprovou, nesse período, a Lei que regulamenta o conflito de interesses no Executivo Federal, coibindo condutas abusivas de servidores;
12- Aprovação da Lei Anticorrupção, que estabelece penas para empresas corruptoras,
13- Aprovação da nova Lei contra organizações criminosas;
Mais recentemente, a presidenta Dilma sintetizou e apresentou ao parlamento cinco novas propostas que buscam cercar a impunidade dos corruptos no Brasil :
14- projeto de Lei que pune enriquecimento ilícito de servidores,
15- projeto que institui a ação de perda de bens obtidos ilegalmente,
16- a extensão do critério da Ficha Limpa às nomeações para cargos de confiança nos três Poderes;
17- projeto que criminaliza a prática de caixa dois nas eleições, todos com pedido de urgência constitucional.
O 5 Congresso do PT RESOLVE:
1. Realizar uma ampla campanha de comunicação, massificada junto a sociedade brasileira sobre nossas realizações no amplo combate à corrupção.
2. Criar um núcleo de juristas progressistas, de composição plural, capaz de liderar uma reflexão sobre os caminhos da Justiça brasileira sobre a criminalização da política, dos partidos, dos movimentos sociais, e a questão da democracia
3. Combater a raiz da corrupção, que é a “privatização” do Estado, não apenas de empresas ou serviços, mas da sobreposição do interesse privado sobre o interesse público. Nesse sentido, além das medidas jurídicas de combate à impunidade e de transparência implementadas pelos governos do PT, é essencial aprofundar a participação e o controle social da gestão do Estado, em todos os níveis. Quanto mais transparência, quanto mais democracia, quanto mais participação da sociedade e controle social na gestão do Estado, menor é a prevalência dos interesses privados sobe a coisa pública, menor é a ação corruptora dos representantes dos interesses privados sobre os gestores e dirigentes públicos.
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11- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO: CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
O 5 Congresso do PT reafirma sua posição contraria à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, aprovada na CCJ - Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Esta questão social é um problema de política e não de polícia, resultado de um Estado marcado por injustiças sociais, de uma juventude sem acesso pleno à educação, saúde, saneamento, transporte, o jovem é na verdade a principal vítima e não produtor da violência.
Somos a quarta maior população carcerária do mundo, com ampla superlotação, e falta de políticas de reintegração dos detentos na sociedade, temos também o vergonhoso 4° lugar no pódio de países com maior mortalidade da juventude por causa externa, índice maior do que os países que estão em conflito armado. É preciso estender a pena dos aliciadores que se utilizam de jovens e crianças para cometerem delitos, bem como debatermos a cerca de penalidades progressivas para os chamados crimes hediondos.
Para combatermos esse retrocesso puxado por setores conservadores da mídia e da sociedade, 5º Congresso Nacional do PT;
RESOLVE:
1. Garantir em nossos programas de governo políticas públicas relacionadas à educação, cultura, saúde, lazer, educação, com trato especifico para jovens da periferia, como ações preventivas capazes de afastar os(as) jovens de opções arriscadas e atos de infração.
2. Realizar campanha contra qualquer projeto que proponha a redução da maioridade penal e sujeite a Juventude Brasileira às mesmas penas e condições de não jovens que adentram o sistema prisional.
3. Promover Seminário Internacional sobre a maioridade penal no mundo, já que 54 países que reduziram a maioridade penal nenhum obteve a diminuição dos índices de violência, países como Espanha e Alemanha que reduziram a maioridade penal, posteriormente voltaram atrás na decisão, atualmente 70% dos países do mundo adotam a maioridade penal de 18 anos.
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12- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO: POR UMA NOVA POLITICA SOBRE AS DROGAS
O Partido dos Trabalhadores apresenta como necessária a formulação uma nova política sobre drogas no Brasil.
A superação da política de guerra às drogas, falida em todo o mundo, e de encarceramento em massa, é de suma importância para reduzirmos a violência, principalmente nas favelas e periferias, e garantirmos a reinserção real dos que cometeram algum tipo de delito.
Aliada a uma política de prevenção ao abuso do uso de álcool, tabaco e outras drogas e ao tratamento a dependentes químicos, formular uma nova política de drogas que descriminalize os usuários.
A regulação ajudaria a esvaziar o mercado e diminuir a violência na sociedade brasileira. É preciso construir alternativas a essa política de drogas proibicionista, com um amplo debate sobre o tema.
Uma em cada quatro pessoas está encarcerada no país por ligação com o tráfico de drogas, o que é um desastre social.
A verdade é que precisamos falar sobre drogas, dialogar com a sociedade e construir uma nova política sobre o tema no país.
RESOLVE:
1. Promover através da Secretaria Nacional de Juventude do PT Seminario para avançar no amplo diálogo com a sociedade e com os especialistas da pauta, pautando a aprovação do marco legal que descriminaliza os usuários de drogas e a garantia o uso medicinal e recreativo e a proibição da publicidade de drogas lícitas;
2. Se posicionar contra ao PL que tramita Câmara dos Deputados, PLC 37/2013 (antigo PL7663/2010), que reformula negativamente o Sistema Nacional de Política de Drogas. A proposta prevê a internação compulsória dos dependentes químicos, não distingue o usuário do traficante e estabelece o aumento da pena mínima para traficantes, que iria de 5 para 8 anos de cadeia e proíbe a descriminalização de qualquer substancia, mesmo que para uso medicinal.
3. Dialogar com o governo federal para a implementação do programa nacional de combate à dependência química, voltado para recuperação de jovens usuários de crack e outras drogas, com destaque a promoção da cidadania nos molde do Programa de Braços Abertos implementado pela Prefeitura de São Paulo e Casa Viva implementado no Rio de Janeiro.
4. Lutar pela promoção da política de prevenção e de implantação de centros públicos de recuperação e tratamento de dependentes químicos, reconhecendo os diversos tipos de drogas, com atendimento multidisciplinar para a redução de danos.
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13- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO: CONTRA O EXETERMINIO DA JUVENTUDE NEGRA
Extermínio da Juventude e o Fim dos Autos de Resistência.
O PT, em todos as suas instâncias, precisa debater os altos índices de extermínio da juventude no país em especial da juventude negra e da periferia.
Apesar de todas os avanços democráticos e dos 12 anos de governos progressistas, o Brasil convive ainda hoje com um instrumento autoritário chamado “auto de resistência” ou “resistência seguida de morte”, que vem legitimando o assassinato de milhares de jovens pobres da periferia, sobretudo negros.
Na prática, o auto de resistência funciona para acobertar execuções cometidas por agentes do Estado, que resultam na morte de suspeitos raramente apuram o que de fato ocorreu.
o 5º Congresso Nacional do PT;
RESOLVE:
1. Convocar uma ampla mobilização Nacional dos setores progressistas pela aprovação do PL4471/12(Fim dos Autos de Resistência)
2. Fortalecer o Plano Juventude Viva - Plano de Prevenção à Violência e Defesa da vida da Juventude Negra que atua na articulação e direcionamento de programas e ações específicas para os jovens de 15 a 29 anos em situação de vulnerabilidade para fomentar trajetórias de inclusão e autonomia, além de criar oportunidades de atuação dos jovens em ações de transformação da cultura de violência e reconhecimento da importância social da juventude.
3. Promover a integração entre a bancada federal e os governos estaduais do PT para um amplo trabalho de mobilização e aprovação do Fim dos Autos de Resistência nos estados.
4. Em conjunto com as Organizações de defesa de direitos humanos e movimentos sociais, o PT vai intensificar o dialogo com o governo federal para que coloque como prioridade urgente a votação e aprovação do Projeto
14- PROPOSTA DE RESOLUÇÃO SOBRE FINANÇAS
O V CONGRESSO do PT conclama toda a militância, em especial as nossas Bancadas na Câmara e no Senado, a continuarem se empenhando para barrar a inclusão, na Constituição Federal, do nefasto financiamento empresarial para os partidos políticos. Aprovado em primeira votação graças a um golpe regimental -- e um atentado à própria Constituição – que tem sido reportado na mídia e contestado no STF, o financiamento empresarial, além de favorecer a influência do poder econômico nas eleições, renova na base os circuitos da corrupção no Brasil.
Ao mesmo tempo que continuaremos a lutar pelo financiamento público exclusivo e pelo fim do financiamento empresarial, decidimos que os diretórios do PT não mais receberão doações de empresas privadas para manter nossas atividades.
A mesma decisão remeteu para o V Congresso referendar, detalhar o alcance e regulamentar o que coubesse. Entretanto, à medida que as votações da contra-reforma eleitoral em curso ainda não se encerrou, os (as) delegados (as) ao V Congresso mandatam o Diretório Nacional para dirimir em definitivo esta questão.

Salvador, 11 a 13 de junho de 2015.