sábado, 6 de dezembro de 2014

Roteiro de curso

Socialismo: história, teoria e estratégias no mundo e no Brasil

Dia 12 de dezembro de 2014, manhã

Apresentação da proposta do curso como um todo.
Apresentação do professor e dos participantes.
Informações organizativas.

Breve intervalo

Cada um dos participantes terá 10 minutos para responder por escrito e individualmente apenas uma das seguintes questões:

-por quais motivos eu sou socialista?
-por quais motivos eu não sou socialista?
-por quais motivos eu não sei se sou ou não socialista?

Em seguida montaremos três grupos por tipo de resposta (os que responderão que são, os que responderam que não são, os que disseram que não sabem).

Os participantes vão ler, nestes grupos, o que escreveram. E uma pessoa vai ficar encarregada de resumir as respostas do grupo.

Em seguida vamos reunir toda a turma e será apresentada a síntese dos grupos.

Com base nas respostas, o professor fará uma exposição sobre os vários temas que devem ser estudados e debatidos, para compreender o que é socialismo.

Esta exposição abordará panoramicamente, mas já tratando de conteúdo, os itens que serão tratados neste curso de 6 a 8 de junho:

*a ficção científica como espelho distorcido (distopia)
*o socialismo utópico (ler trechos de Morus, Fourier)
*a evolução do capitalismo
*as teorias vinculando socialismo com a luta (e as diferentes visões a respeito)
*as teorias de Marx e Engels (ler trechos do Manifesto Comunista)
*as lutas da classe trabalhadora
*as lutas dos demais setores oprimidos pelo capitalismo
*as organizações socialistas
*um panorama das revoluções socialistas (vitoriosas e derrotadas)
*a luta pelo socialismo no Brasil
*a situação atual, na América Latina e no mundo
*indicações para estudo (livros, filmes, músicas, imagens)

Dia 12 de dezembro de 2014, tarde

Em pequenos grupos e durante uma hora, será feita a leitura de trechos dos seguintes textos:
-A Utopia, de Thomas Morus
-Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels
-manifesto da Associação Internacional dos Trabalhadores
Cada grupo lerá o que for possível durante 30 minutos e terá em seguida mais 30 minutos para debater quais as ideias fundamentais do texto e quais as dúvidas ou temas para debate que o texto suscitou.
Em seguida, o relator de cada grupo terá até 10 minutos para fazer uma apresentação para todo o grupo.
O professor discutirá ponto a ponto aquilo que foi apresentado por cada grupo, situando o texto no conjunto do debate que estamos fazendo e dando elementos para uma leitura individual posterior.

Dia 12 de dezembro de 2014, noite, será livre.

Dia 13 de junho de 2014, manhã

Os mesmos pequenos grupos voltarão a reunir-se, para leitura de trechos dos seguintes textos:
-Reforma ou revolução, de Rosa Luxemburgo
- Duas táticas da social democracia na revolução democrática, de Lenin
-artigo de Gramsci sobre a revolução de 1917
Cada grupo lerá o que for possível durante 30 minutos e terá em seguida mais 30 minutos para debater quais as ideias fundamentais do texto e quais as dúvidas ou temas para debate que o texto suscitou.
Em seguida, o relator de cada grupo terá até 10 minutos para fazer uma apresentação para todo o grupo.
O professor discutirá ponto a ponto aquilo que foi apresentado por cada grupo, situando o texto no conjunto do debate que estamos fazendo e dando elementos para uma leitura individual posterior.
O resto da manhã e a tarde do dia 13 de dezembro serão dedicadas a aula expositiva acerca da luta pelo socialismo pós 1917.

Dia 13 de dezembro de 2014, noite

Serão montados pequenos grupos, para leitura dos seguintes textos:
-Manifesto de Agosto
-Declaração de Março
Cada grupo lerá o que for possível durante 30 minutos e terá em seguida mais 30 minutos para debater quais as ideias fundamentais do texto e quais as dúvidas ou temas para debate que o texto suscitou.
Em seguida, o relator de cada grupo terá até 10 minutos para fazer uma apresentação para todo o grupo.
O professor discutirá ponto a ponto aquilo que foi apresentado por cada grupo, situando o texto no conjunto do debate que estamos fazendo, dando elementos para uma leitura individual posterior e situando o texto na história do Brasil e na história da luta pelo socialismo no Brasil.

Dia 14 de dezembro de 2014, manhã

Em seguida, faremos uma discussão sobre os desafios da luta pelo socialismo durante a ditadura e após a ditadura, com o surgimento do PT.
Os mesmos pequenos grupos voltarão a reunir-se, para leitura do seguinte texto:
-Carta sobre o PT, o governo Dilma e assuntos conexos (http://www.valterpomar.blogspot.com.br/2014/11/carta-sobre-o-pt-o-governo-e-assuntos.html)
Em seguida, o relator de cada grupo terá até 10 minutos para fazer uma apresentação para todo o grupo.
O professor discutirá ponto a ponto aquilo que foi apresentado por cada grupo, situando o texto no conjunto do debate que estamos fazendo e dando elementos para uma leitura individual posterior.
Finalmente, os alunos farão um novo texto, respondendo as mesmas questões colocadas no início.
Cada um dos participantes terá 10 minutos para responder individualmente e por escrito uma das seguintes questões:

-por quais motivos eu sou socialista?
-por quais motivos eu não sou socialista?
-por quais motivos eu não sei se sou ou não socialista?

O texto será entregue ao professor e será respondido, posteriormente e individualmente.
Esta etapa do curso conclui com uma avaliação.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Memorial

Publico a seguir trechos de um Memorial apresentado em setembro de 2014 como parte dos requisitos necessários a um concurso público para o cargo de professor adjunto na carreira do magistério superior.

# 

Nasci na cidade de São Paulo, em agosto de 1966. Durante meus primeiros dez anos, morei também nas cidades de Santos (SP), Fortaleza (SP), Crato (CE), Juazeiro (CE) e Belém (PA). Sempre com meus pais e, às vezes, com meus irmãos. Uma vida tranquila do ponto de vista material e tendo acesso, em casa, a muitos livros, especialmente adaptações “para jovens” de clássicos da literatura universal.

A única excentricidade deste período foi, aos sete anos, uma troca de nome, de Valter para Carlos. Os motivos ficaram mais claros no dia 16 de dezembro de 1976, quando forças policiais e militares atacaram uma reunião do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil. Entre os assassinados, meu avô Pedro Pomar. Entre os presos, meu pai Wladimir Pomar.

No início de 1977, acompanhei minha mãe até Brasília, para um rápido encontro com o general de exército José Ferraz da Rocha, único irmão de meu avô materno, então já falecido. Neste encontro, o general informou nada poder fazer pela sobrinha e seu marido, uma vez que “se recebesse ordem para matar, mataria”. Afora isto, a visita à casa do general serviu para descobrir que manga também se comia no prato, com garfo e faca.

De Brasília, minha mãe veio para São Paulo, encontrar-se clandestinamente com sogra e cunhados, um dos quais me abrigou em sua casa. Meses depois voltei a morar com minha mãe Rachel, depois que ela recuperou seus documentos legais e constituiu advogado para meu pai, condenado naquele mesmo ano a alguns anos de cadeia. Luís Eduardo Greenhalgh, advogado de meu pai, consta como testemunha na certidão de nascimento de Valter Ventura da Rocha Pomar, nome que só passei a utilizar quando já tinha onze anos.

Entre 1978 e 1981, fui bolsista no Ginásio do Grupo Educacional Equipe, escola criada por pedagogos e militantes de esquerda. Igualmente tranquilo do ponto de vista material, foi um período cultural e politicamente agitado. Visitei regularmente meu pai na cadeia, onde convivi com muitos presos políticos e suas famílias. Engajei-me no movimento estudantil secundarista, acompanhando também atividades universitárias. Ingressei na chamada “esquerda” do Partido Comunista do Brasil e dela fui expulso pouco tempo depois, por defender posições distintas daqueles que dariam origem ao Partido Revolucionário Comunista (entre os quais José Genoíno, Tarso Genro e Marina Silva).

Foi a partir desta trajetória pessoal e influenciado por este ambiente que comecei a ler e estudar sistematicamente, especialmente filosofia, economia, história, sociologia e política, tanto em português quanto em espanhol.

Em 1982, ingressei mediante concurso na Escola Técnica SENAI Theobaldo de Nigris e Felício Lanzara. Foram três anos de escola e um de estágio, convivendo com uma realidade diferente da existente no Grupo Educacional Equipe: colegas filhos de operários, escola tão “democrática” quanto uma empresa, estágio numa grande gráfica situada na periferia de São Paulo.

A partir de 1985, já diplomado como técnico industrial especializado em produção visual gráfica, trabalhei como diagramador, editor de arte, secretário de redação e depois gerente de produção. E, na mesma época, começo a reunir a documentação necessária para pleitear uma especialização em produção industrial de embalagens, na República Popular da China.

A intenção de ter uma carreira profissional como desenhista gráfico foi arquivada em 1986, ano em que fui convidado para integrar a equipe do Instituto Cajamar (Inca), instituição que estava sendo criada naquele mesmo ano para oferecer formação político-ideológica aos militantes do PT, da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e de diversas entidades do movimento popular. Aceito o convite para trabalhar no Inca, decidi concorrer e fui aprovado no vestibular para o curso de Economia da Universidade de Campinas.  

As instalações do Inca ficavam num antigo motel situado no km 46,5 da Via Anhanguera, nas cercanias das cidades de Jundiaí, Jordanésia e Cajamar, a menos de uma hora de São Paulo capital.

Até 1988, o Inca foi não apenas meu local de trabalho, mas também minha residência. Comecei atuando no Departamento de Recursos Pedagógicos e depois no Departamento de Pesquisas, este último dirigido então por Aloizio Mercadante. Mas em pouco tempo passei a me dedicar prioritariamente ao Departamento de Formação, primeiro como professor e depois como coordenador da equipe de formadores. Entre 1987 e 1990, tenho registro de ter planejado cursos, preparado materiais didáticos, orientado outros professores e também lecionado para mais de 2 mil alunos vinculados ao PT, a CUT, a sindicatos e movimentos sociais diversos.

Os alunos ficavam hospedados e tinham aulas nas próprias dependências do Inca. Cada turma tinha de 20 a 40 alunos. Os cursos oferecidos duravam uma ou duas semanas. Havia cursos de “formação de formadores”, “formação de monitores” e de “formação política geral”. Cada curso possuía uma grade específica de matérias, entre as quais: “história das lutas do povo brasileiro”, “história das lutas pelo socialismo no Brasil e no mundo”, “o modo de produção capitalista”, “classes sociais no Brasil”, “estratégia e tática”, “instrumental de análise de conjuntura” e “metodologia de formação”. Dei aula acerca de todos estes temas e fui docente em grande parte dos cursos oferecidos pelo Instituto.

Além dos cursos, o Inca realizava regularmente seminários sobre variados assuntos, entre os quais destaco “A relação partido sindicato”, “Poder local e participação popular” e “70 anos de experiências de construção do socialismo”. Este último foi realizado em 1987 e contou com a participação de Luís Carlos Prestes, Jacob Gorender e David Capistrano Jr.

Ademais de participar na organização, contribuí com a edição das publicações resultantes de várias destas atividades, uma vez que acumulava minhas atividades docentes com a coordenação de um pequeno setor de publicações do Inca, onde colaboravam os jornalistas Rui Falcão, Alípio Freire e o economista Carlos Eduardo Carvalho.

Lecionar foi fundamental para minha formação pessoal. Para isto contribuiu, também, o convívio que havia no próprio Instituto Cajamar, no PT e na CUT, com dirigentes políticos e intelectuais como Lula, Paulo Freire, Francisco Weffort, José Álvaro Moisés, Marco Aurélio Garcia e muitos outros, incluindo aí uma pitada de Eric Hobsbawm, que certa vez visitou e fez uma palestra para alunos do Inca. Mas o que mais contribuiu para minha formação foi o convívio com milhares de alunos e alunas que eram também educadores, no sentido mais amplo deste termo. E que me obrigavam a estudar de forma permanente.

No meu caso, tomei como “orientadores” Perry Anderson e Eric Hobsbawm. Utilizei suas obras como “roteiro” para estudar de forma sistemática a história do capitalismo, a história das correntes socialistas europeias, a história da Rússia e da China, bem como a história das organizações de esquerda no Brasil e na América Latina.

Infelizmente, não consegui conciliar esta atividade com a graduação em Economia na Unicamp. Minha jornada de trabalho no Inca era muito intensa, as aulas do curso de Economia eram diurnas e os professores rigorosos quanto à frequência, o que me levou primeiro a cursar poucas disciplinas e depois a optar por trancar a matrícula. Pelas aulas, palestras e conversas com Fernando Novaes, Liana Cardoso de Mello, Francisco Graziano e João Manoel Cardoso de Mello, tenho noção do que perdi do ponto de vista cultural e acadêmico.

A partir de 1990, os acontecimentos internacionais e nacionais provocaram um intenso debate político e ideológico em toda a esquerda brasileira, do qual participei ativamente. Não por acaso, foi também uma época de mudanças pessoais.
Interrompi meu vínculo profissional com o Instituto Cajamar, trabalhei em várias iniciativas editoriais (Editora Scritta, jornal Brasil Agora, revista Atenção, revista Teoria e Debate), de pesquisa (Programa Educativo sobre a Dívida Externa), como funcionário público (assessor do prefeito David Capistrano na Prefeitura de Santos), continuei atuando como professor em cursos de educação política para militantes sindicais, populares e partidários e, a partir de agosto de 1997, tornei-me integrante do Diretório Nacional do PT, partido ao qual sou filiado desde 1985.

Simultaneamente, concorri e fui aprovado no vestibular para o curso de História da Universidade de São Paulo, oferecido também no período noturno. No dia 3 de março de 1997, a Faculdade de História da Universidade de São Paulo me conferiu o grau de bacharel. No dia 4 de julho de 2000, defendi a dissertação de mestrado intitulada Comunistas do Brasil. Interpretações sobre a cisão de 1962. Integraram a comissão examinadora as professoras Maria Aparecida de Aquino e Odette Carvalho de Lima Seabra, além do professor Osvaldo Coggiola.  Em 1 de fevereiro em 2006, defendi a tese intitulada A metamorfose. Programa e estratégia do Partido dos Trabalhadores. Participaram da comissão julgadora os professores Emir Sader, Jorge Grespan, Reinaldo Gonçalves, Ricardo Carneiro e novamente Osvaldo Coggiola, meu orientador tanto no mestrado quanto no doutorado. Considerando ser ele dirigente do Partido Obrero argentino e apaixonado por futebol, é quase um milagre que tenhamos chegado até o final sem nenhum destes atritos entre orientador e orientando que compõem certo folclore da pós-graduação.

Estudar o PCdoB e o PT exigiu enfrentar várias questões de natureza metodológica, entre as quais a relação entre o historiador e seu objeto. No meu caso, há implicações políticas e familiares. Meu bisavô, Felipe Cossio del Pomar, integrou a Aliança Popular Revolucionária Americana, o APRA peruano, sendo amigo e biógrafo de Haya de La Torre.  Pedro Pomar, primogênito de Felipe e Rosa Araújo, ligou-se ao Partido Comunista do Brasil no início dos anos 1930. Foi membro do Comitê Central desta organização por quase duas décadas, participando da cisão que, em 1962, deu origem ao atual PCdoB, do qual foi dirigente até ser assassinado pela ditadura militar, em dezembro de 1976, no episódio conhecido como Chacina da Lapa. Wladimir Pomar, o filho mais velho de Pedro e Catharina Torres, ingressou no Partido Comunista nos anos 1950. Também participou da "reorganização do PCdoB", integrando o Comitê Central daquela organização de 1966 até 1976, quando foi preso pela ditadura militar, no mesmo episódio em que seu pai foi assassinado.

Wladimir defendeu, então, a realização de um congresso do PCdoB, com o objetivo principal de realizar um balanço crítico da experiência da Guerrilha do Araguaia. O grupo majoritário na direção do PCdoB foi contrário à realização do congresso, expulsando os dissidentes. Estes seguem diversos caminhos: boa parte decide criar o Partido Revolucionário Comunista (PRC); alguns vão para outras organizações (como o PCB); muitos optam por integrar individualmente o Partido dos Trabalhadores (PT). É o caso de Wladimir, que em 1986 será eleito para a executiva nacional do PT, coordenando a campanha de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República, em 1989, sobre a qual escreveu o livro Quase lá (Editora Scritta, 1990). Minha mãe Rachel, meus irmãos Pedro Estevam e Vladimir Milton, assim como minha esposa Nayara Oliveira, também são desde então e até hoje ligados ao Partido dos Trabalhadores.

Depois de 1997, como dirigente nacional do PT, integrei a coordenação do Plebiscito Popular sobre a Dívida Externa, realizado em 2000. Os debates travados a respeito, dentro e fora do Brasil, permitiram a publicação de dois pequenos livros, em coautoria com o professor Reinaldo Gonçalves: O Brasil endividado e a Armadilha da dívida, ambos publicados pela Editora da Fundação Perseu Abramo.

Em dezembro de 2001, fui convidado pela então prefeita Izalene Tiene para ser secretário municipal de Cultura, Esportes e Turismo na prefeitura de Campinas. Coordenei uma equipe de 500 servidores, distribuídos em mais de 100 equipamentos públicos, entre os quais museus, teatros, praças de esporte, casas de cultura. Uma das realizações da gestão é considerada hoje um dos “destaques” da cidade de Campinas: a Estação Cultura. Quando concluímos a gestão, em dezembro de 2004, dispúnhamos de quase 3% do orçamento municipal.

Em 2005, fui eleito para dirigir a secretaria de Relações Internacionais do PT. Até então, minha atividade internacional estrito senso havia sido limitada: uma visita a Angola, em 1990, com Paulo Vanucchi, para dar aulas na Escola Superior Dr. Agostinho Neto; assistir e proferir palestras em eventos partidários, em Cuba, Itália e Grécia; e atividades da campanha contra a dívida externa, na Espanha, África do Sul e Alemanha. Além, é claro, da fortuna de representar o Instituto Cajamar na criação, em 1990, do Foro de São Paulo, de que fui secretário executivo entre 2005 e 2013, coordenando uma instituição que chegou a reunir 141 organizações de 28 países.

Neste período, desenvolvi uma intensa atividade na área internacional, da qual prestei contas em diversos artigos e livros, tais como: Foro de São Paulo: construindo a integração latino-americana e caribenha (2013) e Uma estrela na janela (2014). Para além das atividades digamos diplomáticas, fui obrigado a acompanhar sistematicamente a situação internacional, com destaque para a evolução da situação econômica, bem como para as políticas adotadas pelos principais governos da região e do mundo. Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de ver, a quente e em cores, parte daquele movimento socialista internacional que havia sido objeto de meus estudos, desde 1978. Reflito a respeito em três livros publicados em 2014: A foice, o martelo e a estrela; A esperança é vermelha; e Miscelânea internacional.

Em novembro de 2013, escolhi deixar de ser dirigente titular do PT. Embora continue militando ativamente, agora o faço na condição de “civil”, cuja preocupação principal é contribuir na análise do capitalismo contemporâneo, pelos motivos que expliquei no projeto de pesquisa apresentado como parte dos requisitos previstos no concurso (...) 

Concluo com uma lembrança de criança. Certa feita meu avô teve que cancelar uma visita que faria à nossa casa, por conta de minha avó ter sido hospitalizada. No lugar da visita, mandou uma cartinha datilografada, que tenho até hoje, onde dizia: “Nada temas, procura conhecer a verdade, por mais dura e desagradável que ela seja. É a verdade a coisa mais importante e bela da vida”.

Minha avó viveu mais dez anos depois desta carta. Meu avô, meses depois, foi assassinado. Mas ele tinha total razão.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Entrevista sobre o Foro

No dia 6 de novembro fui contatado por um jornalista, interessado em informações sobre o Foro de São Paulo.
Concedi a entrevista por escrito, via correio eletrônico.
A matéria a respeito acabou não sendo publicada. 
Entretanto, como o Foro continua sendo objeto de todo tipo de informação desencontrada, considero útil divulgar as perguntas que me foram feitas e as respostas que dei, revisadas e complementadas.
Omito as referências ao jornalista, pois como já disse a matéria não foi publicada.

1 – Quem representa o PT hoje no Foro de SP? Em qual cargo?

O Foro é uma reunião anual: os encontros.
Como não se vota nada, nessas reuniões cada partido escolhe quantas pessoas vai mandar como delegação e quais.
No caso do PT, é a executiva que decide e, quando o encontro foi no Brasil, todo petista filiado que quis participar, foi credenciado como delegado.
Entre um encontro anual e outro, reúne-se o Grupo de Trabalho(GT), composto por X países.
Não sei o número atual, mas acho que podem ser 18 países.
Quando um país faz parte do GT, a princípio todos os partidos deste país passam a ser automaticamente membros. Mas no GT, cada país tem um voto.
Ou seja, pode ter um partido (caso de Cuba e Nicarágua) ou 12 (caso de Argentina), mas tem um só voto.
Como tudo é decidido por consenso (salvo questões de encaminhamento), na prática isto é mera formalidade.
A regra acima (todos os partidos de um país fazem parte) vale, como é óbvio, para os que são integrantes do Foro. E para ser integrante, ou se é fundador ou se é aceito pelos atuais integrantes, também por consenso.
Outra coisa: em alguns casos, nem todos os partidos de um país fazem parte oficialmente do GT. No caso do Brasil, por exemplo, o PPS, o PSB, o PDT, o PPL, o PCB, o PCdoB e o PT fazem parte do Foro. Mas só PT e PCdoB são do GT.
Quem representa o PT nas reuniões do GT é quem ocupa a SRI do PT. [No caso, Monica Valente] O que não impede que numa ou noutra reunião, o PT vá com mais de uma pessoa, a titular da SRI e mais alguém. Como tb não impede que outra pessoa vá no lugar da titular da SRI.
Eu, por exemplo, representei o PT no GT do Foro entre 2005 e 2013, mas só fui titular da SRI até 2010.

2- Como os dirigentes são escolhidos? Quem são eles?

Não há dirigentes pessoas física.
São os partidos que fazem parte e indicam quem querem.
O que acontece é que o PT foi escolhido para cuidar da secretaria executiva do Foro.
o PT escolheu para cuidar disto o/a titular da SRI.
Como este cargo de SRI foi ocupado no Brasil, durante muitos anos, pelo Marco Aurélio Garcia e depois por mim, e como por isso durante muitos anos assumimos a secretaria executiva do Foro, ficou a impressão de que há eleição de pessoas.

3 – Qual o processo de tomada de decisões?

Consenso.

4 – Qual a periodicidade dos encontros?

Anual.

5 – Qual a forma de financiamento? Qual o orçamento?

Cada partido paga seus custos.
E quando o encontro acontece num determinado país, o(s) partido(s) anfitrião (ões) paga o que pode e cobra dos outros o que precisa.
Ou seja: não tem orçamento, não tem conta bancária, não tem personalidade jurídica a parte, própria.

6 – De que forma o Foro se relaciona com os governos de partidos associados?

Politicamente. 

7 – Desde 1990 muita coisa mudou e o Foro acompanhou estas mudanças. Quais foram as “fases” do Foro?

Isto está no prefácio e no último capítulo [de um livro sobre o Foro, publicado pela editora da Fundação Perseu Abramo, escrito por Roberto Regalado e por mim.]
Basicamente as "fases" foram: resistência ao neoliberalismo (1990-1998), chegada aos governos (1998-2006), contra-ataque da direita (2006-2014) e decorrente equilíbrio relativo.

8 – De que forma a chegada ao poder de partidos que integram a entidade afetou o Foro?

Passamos a ter partidos capazes de levar a prática seu programa, com as decorrências que isto tem.
[Lembrando que na minha opinião, na maioria dos países os partidos do Foro não detém o "poder"]

9 – No sentido contrário, de que forma o Foro influenciou os governos?

Os debates travados no Foro ajudaram a esquerda de cada país a refletir sobre qual deveria ser sua estratégia nacional. Mas cada um refletiu à sua maneira.

10 – É possível perceber na prática resultados das ideias defendidas pelo Foro? Quais?

A integração latino-americana e caribenha é o aspecto fundamental.

11 – O PPS diz que se afastou do Foro por causa da “hegemonia bolivarianista”. Seja lá o que isso signifique, é verdade?

Pergunte ao PCB e ele dirá que o PT e os social-liberais é que hegemonizam o Foro.
Cada um vê o que quer.
Na minha opinião, a única hegemonia inconteste no Foro é a da integração.

12 – Qual a influência de Lula e Chávez no Foro?

Imensa.

13 – Como e porquê o Foro proibiu a participação de grupos que defendiam a luta armada? Quais são estes grupos? Eles ainda tem algum vínculo com o Foro?

A pergunta está construída baseada em um pressuposto equivocado.
O Foro não proíbe nem permite genericamente o ingresso de ninguém.
Cada caso é um caso.
Por exemplo, quando o Foro fez sua primeira reunião, em 1990, a FMLN de El Salvador participou. E na época havia luta armada em El Salvador.
Assim, você é que precisa me dizer de que grupos você está falando.
Agora, quanto a situação atual, não participa do Foro nenhum partido que esteja envolvido em luta armada.

14 – É possível notar a influência do Foro na América Latina? Como?

Em vários países, partidos vinculados ao Foro fazem parte dos governos nacionais e/ou são os principais partidos da oposição.

15 – O Foro virou uma espécie de fetiche da extrema direita, a exemplo de Cuba. Aquele setor aponta o Foro de SP como ameaça à democracia da região. Existe algum motivo para isso que não seja de ordem patológica ou psicanalítica?

Quem ameaça a democracia na região é quem defende a volta das ditaduras.

16 -  Ficaram duas dúvidas. A primeira é sobre o grupos armados. Baseei a pergunta numa matéria que dizia que as Farc foram proibidas de participar em 2005. É verdade? Algum outro grupo passou pelo mesmo processo?  

Por partes: desde sempre o Foro foi e é a favor da paz na Colômbia.
Existe um processo de negociação em curso entre as Farc e o governo colombiano.
Assim, eu prefiro não falar nada a respeito da Colômbia.
Agora, o que vc está me perguntando já me foi perguntando "n" vezes, especialmente em 2010.
Pesquise na internet e vc verá lá minhas respostas, que continuam valendo.
Sobre a matéria que vc cita, me envie, mas se entendi o que é dito, o suposto fato citado não ocorreu.

17 - A segunda dúvida é sobre Lula e Chavez. Gostaria de saber se existe algum antagonismo, divisão ou matiz baseado na influência de um e de outro e de que forma e quando cada um deles teve seus momentos de maior ou menor influência.   

Sobre Lula e Chavez, veja: o Foro sempre combateu a ideia de que existam duas esquerdas na América Latina. 
Achamos que existem várias esquerdas, mais que duas. 
Logo, não aceitamos a ideia de que existiria uma esquerda de tipo lulista e outra esquerda de tipo chavista.
Claro que dentro e fora do Foro, tanto na esquerda quanto na direita, existe gente que tem uma visão  dicotômica e por isso construiu uma (na verdade, mais que uma) "teoria" que contrapõe Lula e Chavez, os convertendo em pólos de duas correntes antagônicas.
Isto é o que posso te dizer em termos gerais. 
Agora, sobre temas concretos haveria o que dizer acerca de pontos de convergência ou diferenças, mas ai vc tem que fazer perguntas concretas.

17 - Quais as diferenças entre o que se poderia chamar de "chavismo" e "lulismo? Quais partidos e países estão mais alinhados a Lula e a Chavez? Houve períodos em que Lula ou Chavez exerceram mais ou menos influência sobre o Foro? Qual foi o periodo de maior influência de cada um deles? 

Não existe uma definição inequívoca acerca do que seria o lulismo e do que seria o chavismo. 
Para complicar, ambos (Lula e Chavez) são intelectuais orgânicos do mesmo tipo de Fidel, ou sejanão tem uma obra estruturada, mas sim vão construindo uma interpretação ao longo do caminho. O que reforça a possibilidade de múltiplas leituras, que vão se multiplicando por ação de amigos e inimigos.
No que me diz respeito, eu penso o seguinte:

A) embora tenham nascido e vivido em países diferentes, com trajetórias pessoais também distintasambos chegaram à presidência no mesmo momento histórico, enfrentaram dilemas estratégicos similares e conquistaram uma lealdade popular de perfil semelhante.

B) suas diferenças fundamentais, na minha opinião, são três: 
*Chavez tinha uma política para as forças armadas e sobre o papel das forças armadas. Nem Lulanem o PT, nem a esquerda brasileira conseguiram elaborar uma política para as forças armadas, seja qual fosse; 
*Chavez organizava seu pensamento em torno de uma idéia central: o bolivarianismo. Nem Lulanem o PT, nem a esquerda brasileira adotam uma ideia-força semelhante; 
*Chavez construiu uma política internacional em torno do objetivo de enfrentar os EUA. A política externa do governo Lula foi baseada na ideia de independência frente aos EUA.

C) há uma quarta diferença importante, acerca de como lidar com o capitalismo. Mas sobre esta quarta diferença há que se tomar três cuidados:
*há diferenças profundas, não apenas de escala, mas de formação, entre o capitalismo venezuelano e o brasileiro;
 *a política de Chavez a respeito mudou muito e várias vezes, entre 1998 e seu falecimento; 
*neste tema, diferente dos três citados no ponto Bhá uma grande distância entre o nome que se dá às coisas e as coisas como efetivamente são, o que gera muita confusão na hora de compreender a realidade.

Respondendo a sua outra pergunta, não há nenhum país alinhado com ninguém.
Claro que há alguns partidos que se consideram mais alinhados com o que acham que um ou outro representa. 
Mas entre os grandes partidos, ou seja, aqueles que possuem base de massa, nenhum comete a tolice de se considerar "alinhado" com fulano ou com beltrano. Como disse Lula acerca da candidatura Chavez: tua vitória é a nossa vitória. E para Chavez a recíproca sempre foi verdadeira.
Finalmente: até 1998 Chavez não tinha influência relevante. Ele se tornou influente no Foro depois de sua eleição. Portanto, até 1998 a influência de Lula era maior. Mas ambos se tornam presidentes no mesmo período, sendo que Lula foi fundamental para ajudar Chavez em 2002. E desde então, até o falecimento de Chavez, atuaram junto com outros líderes importantes da região. Liderança compartilhada. 

18 - Vc considera "bolivarianismo" um termo adequado? O que é bolivarianismo?

Nem como dirigente político, nem como historiador, me cabe considerar "adequado" um termo como bolivarianismo. [Até porque isto suporia o contrário: poder julgar inadequado um fenômeno histórico, político e social.]
Há uma história na América Latina que explica porque Bolívar e outros são considerados pais da pátria em algumas regiões e ao mesmo tempo são praticamente desconhecidos noutras. Eu entendo as razões pelas quais Chavez se apoia em Bolívar (e Fidel em Marti; e muitos gringos em George Washington). 
Quanto ao que é o bolivarianismo, entendo como uma corrente política e intelectual que busca encontrar num determinado recorte do passado de luta contra a colônia espanhola, as raízes da luta atual contra o imperialismo e seus efeitos na região. Quem ler Garcia Márquez vai entender, aliásquão profundo isto pode ser.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Devaneios direitistas?

"Devaneios esquerdistas" é o título da coluna assinada por Merval Pereira, no jornal O Globo de 28 de novembro de 2014.
O texto de Merval é reproduzido ao final deste comentário.
O simpático título faz referência a um abaixo-assinado divulgado há poucos dias, intitulado "Em defesa do programa vitorioso nas urnas".
O texto do abaixo-assinado pode ser lido aqui: 
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Em-defesa-do-programa-vitorioso-nas-urnas/4/32296
Segundo Merval, "as diversas facções em que se divide a esquerda brasileira aliada ao governo petista estão atônitas com a chegada ao ministério do segundo mandato de Dilma de Joaquim 'mãos de tesoura' Levy, que pretende, como anunciou ontem em linguagem diplomática, colocar ordem na bagunça em que se encontra a economia nacional".
Procurando bem, sempre se pode achar alguém atônito. Mas a questão é muito simples: como os dois mandatos do presidente Lula e como foi seu primeiro mandato, o segundo mandato da presidenta Dilma será o de um governo em disputa.
Nas eleições, impedimos o retrocesso que seria resultante de uma vitória de Aécio Neves. Mas para conseguirmos um segundo mandato Dilma que seja superior ao primeiro -- entendo por superior principalmente contribuir para a implementação de reformas estruturais -- será preciso muito mais esforço.
Dada a correlação de forças no Congresso, bem como dadas as debilidades da esquerda política e social, para não falar dos constrangimentos objetivos derivados da economia nacional e internacional, está claro que não existem condições para fazermos o governo "ideal".
Agora, reconhecer a correlação de forças não é igual a capitular frente ao inimigo.
Quem capitula, faz concessões que nos impedem de alterar para melhor a correlação de forças. 
Para evitar este tipo de situação, esperamos que governo faça a parte que lhe cabe na democratização da comunicação, na reforma política, na manutenção e progresso da vida material e cultural da classe trabalhadora etc.
E para isto, não basta termos a presidenta Dilma; é necessário que ela nomeie uma equipe que sinalize e contribua no sentido indicado.
O abaixo-assinado significa que, do ponto de vista de uma parte dos/das que apoiaram e elegeram a presidenta Dilma Rousseff, nomes como o de Joaquim Levy e Kátia Abreu não correspondem ao que esperamos de seu segundo mandato.
Na nossa opinião, Kátia Abreu é defensora de uma política favorável ao agronegócio, política esta que vem desde 2003 e que precisa ser alterada.
Também na nossa opinião, Joaquim Levy é partidário das políticas gerenciadas por Palocci entre 2003 e 2005, políticas danosas então e agora.
Portanto, quem assinou o abaixo-assinado, seja pelas razões acima indicadas ou por outras, não está "atônito"; está apenas fazendo um movimento contrário ao que é feito por Merval. Com a legitimidade de quem lutou em favor de Dilma e contra o oligopólio a que Merval presta obediência.
Segundo Merval, o que "esse pessoal [do abaixo-assinado] "não quer enxergar, e que Dilma foi obrigada a entender, é que a vitória eleitoral do PT em outubro não correspondeu a uma vitória política, pois forjada à base do abuso da máquina pública e mentiras, sejam as divulgadas pela propaganda eleitoral, ou as espalhadas em diversas formas pelo país para amedrontar os menos informados".
Para quem não entendeu o raciocínio, Merval desenha assim: "Da mesma forma que Collor espalhava em 1989 que Lula confiscaria a poupança dos brasileiros para depois fazer ele mesmo o que criticava no adversário, também hoje estamos vendo o governo Dilma anunciar 'medidas impopulares' que seriam a base do governo de seu adversário 'neoliberal'."
Ou seja: Merval apóia-se na nomeação de Levy para acusar Dilma e o PT de estelionato eleitoral. 
Contra esta interpretação, vários porta-vozes de setores do PT ou do governo já disseram o óbvio: que é a presidenta quem decide e que a decisão da presidenta é manter o desenvolvimento com bem-estar social.
É bom que isto seja dito, mas se é assim, por qual motivo era necessário nomear especificamente Levy? Afinal, dentre os eleitores e apoiadores de Dilma há vários empresários e economistas, inclusive gente conservadora e comprometida com o rigor fiscal. 
A escolha de Levy, entre seus muitos defeitos, tem este: abre espaço para que digam que "a presidente Dilma viu-se obrigada a dar um salto triplo carpado para tentar recuperar a credibilidade". 
Se ficasse só nisto, não seria um grande problema (especialmente se o PT tivesse um jornal para afirmar outro ponto de vista).
Ocorre que a oposição de direita irá muito além das piadinhas: fará de tudo para tentar converter Levy num "super-ministro", autônomo em relação à presidenta da República.
A mesma operação foi feita entre 2003 e 2005, contra Lula e em favor da dupla Meirelles/Palocci. E não existe memória seletiva capaz de esconder os danos causados.
Então como agora, era dito que tais ministros teriam como tarefa garantir "uma política econômica que os petistas chamam de 'neoliberal' mas que na verdade é apenas sensata e equilibrada, que usa o mercado privado para ajudar o governo a atingir metas que, sozinho, ele não conseguiu nos últimos quatro anos e nem conseguiria nos próximos quatro, mantidas as mesmas premissas que vigoravam e foram formalmente rejeitadas pela nova equipe econômica."
A oposição de direita, que em geral comemorou a escolha de Levy, incorporou ao seu "plano" o seguinte: 1) impedir o governo Dilma de aplicar o programa vitorioso nas urnas, 2) obrigar nosso governo a aplicar ao menos parcialmente o programa derrotado e 3) tirar vantagens eleitorais disto (a exemplo do que busca fazer uma recente manchete de capa do Correio Braziliense: "Trio do arrocho vai subir juros e cortar despesas".)
Parte da esquerda subestima as consequências da escolha de Levy & Cia. E acha que o plano resumido acima não passa de um devaneio direitista. 
Pode ser. Mas basta observar os resultados eleitorais entre 2002 e 2014 para perceber que não estamos em condições de errar; e que um dos graves erros que não podemos repetir é o de afastar aquela parte do eleitorado e da militância de esquerda que não estiveram conosco no primeiro turno, mas que foram decisivos no segundo turno.
Para os setores do PT que percebem isto, será preciso ter muita paciência e perseverança. 
Afinal, lutamos contra a pressão da mídia, que é na sua maioria favorável ao neoliberalismo e ao desenvolvimentismo conservador. 
Lutamos contra tucanos infiltrados em nossas fileiras (sempre é bom lembrar que Marina não se "converteu" depois que saiu do PT). 
Lutamos contra os que acham que conciliação é não apenas uma tática eventual, mas uma estratégia. 
E, por fim, temos que lembrar que acabamos de sair de uma dura campanha, momento em que as pessoas defendem primeiro e perguntam depois. 
Nada disto é novo: vivemos situação similar, por exemplo, em 2003-2005. E mesmo em agosto de 2014, parte da esquerda acreditava em vitória fácil no primeiro turno, o que dá uma boa medida da dificuldade que alguns setores têm para analisar a realidade é perceber nossas falhas. 
Considerando tudo isto, talvez o mais importante seja não repetir, agora, os erros cometidos naquele momento pela parte mais crítica da esquerda, por exemplo: a impaciência, achar que cada batalha é a última, perder de vista o cenário mais amplo da luta de classes no Brasil e da luta entre estados no mundo.
Assim, paciência, perseverança, didatismo e método. A disputa será longa. E o papel decisivo será jogado pela classe trabalhadora, por sua disposição de lutar por mais mudanças.

Segue o texto:
MERVAL PEREIRA28.11.2014 08h00m
As diversas facções em que se divide a esquerda brasileira aliada ao governo petista estão atônitas com a chegada ao ministério do segundo mandato de Dilma de Joaquim "mãos de tesoura" Levy, que pretende, como anunciou ontem em linguagem diplomática, colocar ordem na bagunça em que se encontra a economia nacional.
Num primeiro momento, correntes diversas uniram-se para tentar barrar a nomeação, sob o argumento fantasioso de que ela ia de encontro ao modelo econômico que fora vitorioso nas urnas. Como se a presidente Dilma, reeleita por estreita margem, tivesse perdido a noção de que era a grande vencedora das eleições de outubro e, do nada, tivesse escolhido um ministro da Fazenda para fazer tudo ao contrário do que defendia no seu primeiro mandato.
Como se o próprio Lula, que batalhou para nomear Luiz Trabuco, o presidente do Bradesco, para o ministério da Fazenda, tivesse perdido a sanidade da noite para o dia. O que esse pessoal não quer enxergar, e que Dilma foi obrigada a entender, é que a vitória eleitoral do PT em outubro não correspondeu a uma vitória política, pois forjada à base do abuso da máquina pública e mentiras, sejam as divulgadas pela propaganda eleitoral, ou as espalhadas em diversas formas pelo país para amedrontar os menos informados.
Da mesma forma que Collor espalhava em 1989 que Lula confiscaria a poupança dos brasileiros para depois fazer ele mesmo o que criticava no adversário, também hoje estamos vendo o governo Dilma anunciar "medidas impopulares" que seriam a base do governo de seu adversário "neoliberal".
Os que assinaram o tal manifesto contra a nomeação do economista Joaquim Levy para o ministério da Fazenda acreditam piamente que banqueiros roubam comida dos pratos dos pobres, e se chocaram com a decisão de colocar o Bradesco no lugar do Itaú na Fazenda, e de ter um colaborador de Arminio Fraga em seu lugar no ministério.
Quem, ao que tudo indica, já desconfiava do que seu marqueteiro dizia era a própria Dilma, insegura de suas próprias convicções que na prática deram errado, e talvez por isso se enrolasse toda quando tentava explicar alguma coisa. Provavelmente nem mesmo o próprio João Santana acreditasse no que seus filmetes mostravam, já que ele confessadamente diz que não lida com conceitos como verdade, mas com a percepção do cidadão.
O fato é que, acreditando ou não no que defendia, a presidente Dilma viu-se obrigada a dar um salto triplo carpado para tentar recuperar a credibilidade de um governo que termina seu primeiro mandato com os piores indicadores econômicos de todos os tempos de nossa República, salvo dois outros governos, um dos quais o do próprio Collor.
E a nova equipe econômica pontuou durante sua apresentação o que talvez seja a chave para o entendimento do que está acontecendo: ter uma economia saudável é bom para as famílias brasileiras, e garante a manutenção dos avanços sociais conquistados.
O que estava sendo ameaçado com a performance dos últimos anos era justamente a jóia da coroa petista, os programas sociais, que agora serão garantidos por uma política econômica que os petistas chamam de "neoliberal" mas que na verdade é apenas sensata e equilibrada, que usa o mercado privado para ajudar o governo a atingir metas que, sózinho, ele não conseguiu nos últimos quatro anos e nem conseguiria nos próximos quatro, mantidas as mesmas premissas que vigoravam e foram formalmente rejeitadas pela nova equipe econômica.
Talvez constatando que espernear não levará a nada, o futuro ex-ministro Gilberto Carvalho, que já tem até substituto dentro do próprio PT no Palácio do Planalto, tentou ele sim dar um salto triplo carpado para encontrar uma explicação que não deixasse mal os petistas revoltados.
Disse Carvalho que, ao contrário do que parece, é Joaquim Levy quem está aderindo ao projeto econômico petista. Por este estranho raciocínio, o mesmo economista que já trabalhou no primeiro governo Lula e era execrado pelos petistas assim como outros do mesmo grupo, como Murilo Portugal e Marcos Lisboa, teria sido chamado de volta ao governo petista não por suas virtudes necessárias à mudança de rumos, mas por que aderiu ao projeto que está para ser mudado.
Por essa lógica, Mantega pode perfeitamente substituir Levy no Bradesco, afinal pensam de maneira semelhante. O que estraga a tentativa de Carvalho de fingir que não houve mudanças de orientação econômica é o estranho caso de um ministro nomeado para um governo de continuidade fazer parte da equipe de transição desse mesmo governo, formalizando assim a mudança de postura.

domingo, 23 de novembro de 2014

Carta sobre o PT, o governo e assuntos conexos

No dia 19 de novembro de 2014, um companheiro escreveu uma mensagem pedindo minha opinião sobre o PT. Mais precisamente, ele expunha suas dúvidas sobre filiar-se ou não ao Partido dos Trabalhadores. No mesmo dia, respondi. 

Algumas pessoas que leram a troca de mensagens consideraram que seria útil divulgar mais amplamente minha resposta. Aceitei a sugestão, especialmente tendo em vista a polêmica em torno do ministério do segundo mandato de Dilma. 

O que segue abaixo, portando, é minha resposta inicial, retirando os trechos que identificam o interlocutor e desenvolvendo melhor diversos aspectos.

"Prezado

Você escreveu, meio à sério, meio brincando, que às vezes acorda petista, mas às vezes fica encantado com o discurso de alguns partidos da ultra-esquerda.

Entendo o que você quis dizer, mas te proponho a seguinte questão: qual teoria, qual programa, qual estratégia é defendida pelos partidos da chamada ultra-esquerda? 

São muito diferentes, certo? A tal ponto que tiveram posições muito diferentes no segundo turno de 2014, têm posições muito diferentes sobre a estratégia, bem como sobre o socialismo etc. Alguns, inclusive, de "ultra-esquerda" tem muito pouco.

Minha pergunta é: levando em conta estas diferenças, o que exatamente te "encanta" no conjunto destes partidos? 

Não deve ser a tática, a teoria, o programa e a estratégia, até porque por estes motivos seria praticamente impossível encantar-se com todos ou com vários deles ao mesmo tempo.

Arrisco então uma hipótese: o que te "encanta" em alguns partidos da "ultra" é que parece ser mais fácil, mais simples, menos contraditório, às vezes menos complicado e constrangedor estar num destes partidos, do que militar no PT.

Se estiver certo e for este o motivo do "encantamento", então proponho que antes de decidir em qual partido você vai militar, você escolha se vai "casar ou comprar uma bicicleta".

Dizendo de outro jeito: escolha entre "lutar por" ou "falar do" comunismo, do socialismo, da revolução, das reformas estruturais etc.

Se tua escolha for "lutar por", então prepare-se, principalmente o estômago, pois não haverá escolhas fáceis, simples, perfeitas e que não sejam contraditórias. Nunca houve, desde 1848. E não haverá, pelo tempo das nossas vidas.

Dito de outro jeito: escolher militar no PT ou noutro partido é uma decisão que não pode estar baseada no que é "mais fácil de levar".

Aliás, as vezes ouço ou leio o que é dito por lideranças destes partidos e morro de inveja... até me lembrar que a história dos últimos 34 anos, inclusive a dos últimos doze anos, deu razão a nós, que continuamos no PT. Uma prova disto, aliás, é que a esquerda não-petista oscila o tempo todo entre aliar-se com o PT ou aliar-se de fato com a direita contra o PT.
Você diz que apesar do "encanto", não milita em alguns partidos da "ultra-esquerda" porque avalia que estes partidos não "passam de uma vanguarda anos luz da base."

Veja: ser vanguarda implica neste risco, no risco de ficar longe da base.

Uma vanguarda só é vanguarda porque em alguma medida pensa, se organiza e age de maneira diferente da base. E uma vanguarda pode passar um longo tempo "pastando" na condição de minoria.

Na maior parte do Brasil, o PT foi durante vários anos uma minoria pouco relevante eleitoralmente, tanto do ponto de vista eleitoral quanto do ponto de vista social. Depois virou o que somos hoje. Mas nada impede que amanhã sejamos superados por outro Partido.

Assim, acho que a questão central não é quem hoje "está longe da base". 

A questão central é: qual a linha política? Qual a estratégia? Qual o programa? Qual a teoria? Pois é isso que determina a relevância, a importância, a justeza, de estar numa organização e não noutra, independente do tamanho e da base que esta organização tem no dia de hoje. 

Acrescento: com uma "pequena ajuda" da luta de classes, são as questões apontadas no parágrafo acima que ajudarão a determinar se uma organização será vanguarda de massas ou se continuará para sempre "vanguarda de si mesmo".

Da mesma forma, quem hoje é vanguarda pode -- devido à suas opções teóricas, programáticas e estratégicas -- estar conduzindo as massas e a si mesmo por um rumo equivocado.

Veja o caso da Unidade na Luta/Construindo um novo Brasil/Articulação sindical. Tomada isoladamente, esta tendência petista é o maior "partido" da esquerda brasileira. É uma vanguarda com base de massas. Mas fazer parte desta tendência, desde 1993 até agora, significou e significa apostar numa linha política, numa estratégia, num programa e numa teoria incorretas, cujos "efeitos colaterais" todo militante é hoje capaz de enxergar.

A polêmica em torno da composição do ministério do segundo mandato de Dilma Rousseff contém vários exemplos destes efeitos colaterais.

Por tudo isto, o ponto de partida para decidir em que partido militar não pode ser o "encanto", nem o "apoio de massas" hoje. 

Cada qual tem seus motivos e razões, mas quem deseja decidir de "maneira científica" em qual partido militar, deve buscar fazer uma análise concreta da situação concreta, ou seja, analisar a luta de classes, especialmente no Brasil; e a luta entre Estados, em âmbito mundial.

Suponho que você já deve ter lido alguns textos acerca da posição da tendência petista Articulação de Esquerda sobre estas questões.

Partimos do fato de que o Brasil é uma sociedade capitalista, como a maior parte do planeta. O que diferencia a formação social brasileira de outras é o processo específico, histórico, pelo qual o capitalismo se desenvolveu aqui: dependência, desigualdade e democracia restrita.

O desenvolvimento do capitalismo no Brasil, nos momentos de crescimento intenso e de recessão, em épocas de bonança internacional e de crise, foi possível graças à manutenção de imensas taxas de desigualdade social, de fortes restrições às liberdades democráticas (sem as quais a desigualdade seria posta em questão) e de grande dependência externa (ideológica, militar, política, tecnológica, de capitais, de mercados etc.).

Em outros termos: os grandes capitalistas transformaram-se, ao longo do século XX, em classe dominante, mantendo e aprofundando padrões de subordinação externa, exploração econômica e opressão política herdadas de períodos pré-capitalistas. Houvesse mais democracia e bem-estar social, os capitalistas brasileiros não teriam enriquecido como enriqueceram. 

Quem olha o Brasil de hoje e compara com o Brasil de 1914, vê um país maior e mais desenvolvido. Mas este crescimento/desenvolvimento foi obtido como? Longos períodos de ditadura aberta ou de restrições fortes às liberdades democráticas mais básicas. Uma constante dependência em relação às metrópoles capitalistas. E uma intensificação, pelos mais variados meios, da exploração das classes trabalhadoras (a de pequenos proprietários e a de assalariados).

Este crescimento/desenvolvimento ocorreu através de intensa luta. No Brasil, a história da transição capitalista (a partir de 1850) e do capitalismo industrial (a partir de 1930) foi marcada por duro enfrentamento entre duas vias de desenvolvimento capitalista.  

Claro que havia setores reacionários, agraristas, contrários ao desenvolvimento, que foram perdendo influência à exata medida que o capitalismo central passou à fase imperialista, de exportação de capitais, portanto em alguma medida estimulando o desenvolvimento de parte da periferia.

Claro que também havia setores socialistas e comunistas, que defendiam como "objetivo final" uma sociedade não-capitalista. Mas até 1980, estas forças se viram diante de duas situações: ou não tinham influência relevante na luta política e social; ou se convertiam em linha auxiliar das forças que defendiam um desenvolvimento capitalista democrático, contra aqueles que defendiam um desenvolvimento capitalista conservador.

No embate entre capitalismo democrático (que defendia desenvolver o Brasil ampliando a democracia, a soberania e o bem estar) e o capitalismo conservador (que implicava em desenvolver o Brasil conservando os níveis de desigualdade, dependência e democracia), quem geralmente levou a melhor até 2002 foram os conservadores. 

Há várias causas para isto, mas duas delas têm muito interesse para o debate da situação atual. 

A primeira causa é, exatamente, o atraso relativo do desenvolvimento capitalista no Brasil. O capitalismo chegou ao Brasil bem depois de já estar instalado solidamente nas regiões centrais.  Durante muito tempo conviveu com uma formação social que não era hegemonicamente capitalista. E durante todo o século XX, permaneceu existindo uma defasagem entre o nível de desenvolvimento capitalista existente no Brasil e aquele existente nos países centrais. 

Qual a conclusão que a maior parte das forças políticas tirou deste fato? A de que existia um grande espaço para o desenvolvimento capitalista no Brasil. Motivo pelo qual o desenvolvimento foi e segue sendo palavra-chave na boca das mais variadas correntes ideológicas e forças políticas. Mas qual desenvolvimento?

Aí entra em cena a segunda causa das vitórias conservadoras: certo paradoxo enfrentado pelos setores que defendem um desenvolvimento capitalista democrático. 

A saber: o capitalismo tal como existe no Brasil depende de altas taxas de desigualdade, conservadorismo político e dependência externa. Construir uma via de desenvolvimento capitalista democrática implica, portanto, em choque com os próprios capitalistas. Choque que só pode resultar em vitória dos setores democráticos, caso estes mobilizem as camadas populares. Cujo movimento traz para o palco questões que entram em choque com os limites do próprio capitalismo.

Por isto os defensores do desenvolvimento capitalista democrático se viram frequentemente diante de uma encruzilhada: ou avançar por uma estrada que daria numa transição socialista; ou conciliar com os defensores do desenvolvimento capitalista conservador. 

Sendo que os conservadores nunca "pagaram para ver", motivo pelo qual é muito comum que os setores conservadores promovam golpes preventivos contra “ameaças comunistas”, que na verdade não são comunistas, mas sim democrático-capitalistas.

Em resumo: o desenvolvimentismo conservador não conta apenas com as vantagens da inércia e da força de quem é dominante, mas conta também com uma “fragilidade estrutural” daqueles que defendem um desenvolvimento capitalista democrático.  Fragilidade que pode ser resumida assim: o capitalismo não se dá bem com a democracia.

De 1980 até hoje, o que mudou?

Em primeiro lugar, o desenvolvimento capitalista brasileiro atingiu grande maturidade. Com isto, a classe trabalhadora assalariada passou a ter um peso social e político maior que antes e isto se traduziu numa mudança na liderança e na orientação dos setores defensores de uma via capitalista democrática.

No segundo turno das eleições de 1989, por exemplo, o conflito foi entre extremos: um neoliberal encabeçando os que defendiam um desenvolvimento conservador, um socialista encabeçando os que defendiam um desenvolvimento democrático.

Este fato poderia ter resultado, nos anos 1990, numa mudança total dos termos da equação fundamental da história brasileira.  Ao invés do conflito entre duas vias de desenvolvimento capitalista (uma conservadora e outra democrática), poderíamos ter passado a um conflito entre via capitalista e via socialista de desenvolvimento.

Mas não foi isto o que ocorreu. O PT e Lula continuaram liderando o enfrentamento com o conservadorismo. Mas o fizeram a partir de um programa de desenvolvimento capitalista democrático, não a partir de um programa socialista. A mudança ocorrida na equação fundamental da história brasileira foi, portanto, parcial: mudou a liderança, mas não mudaram os termos do problema.

Por qual motivo isto ocorreu? 

Há explicações para todos os gostos. Mas para quem acredita que os fatos fundamentais da história não podem ser explicados por escolhas subjetivas; e sim que as escolhas subjetivas é que podem ser explicadas pelos fatos fundamentais, é preciso entender o que ocorreu buscando a explicação na luta de classes.

E o que ocorreu na luta de classes, no Brasil e no mundo, nos anos 1990, é fartamente conhecido: um retrocesso do socialismo, uma ofensiva capitalista, uma regressão neoliberal.

Um dos efeitos do neoliberalismo foi enfraquecer a classe trabalhadora brasileira e, com isto, enfraquecer as bases objetivas de uma via de desenvolvimento socialista.

Claro que diante deste fato objetivo, havia diversas alternativas. 

Uma delas seria dobrar a aposta na defesa de uma via de desenvolvimento socialista, sem mediações. Foi isto o que em tese propuseram fazer alguns dos setores que romperam com o PT, a partir de 1989. 

Outra alternativa seria passar a ter como objetivo estratégico não mais o socialismo, mas sim uma via de desenvolvimento capitalista democrática. Mesmo sem assumir explícita e conscientemente isto, foi o que fez por exemplo a Unidade na Luta/Construindo um novo Brasil/Articulação sindical.

Uma terceira alternativa seria fazer um recuo tático, que permitisse reconstituir as bases estratégicas de uma via de desenvolvimento socialista. Foi o que propôs fazer, por exemplo, a Articulação de Esquerda.

A partir de 1995, a posição majoritária no PT foi a de aderir ao desenvolvimento capitalista democrático. Não foi uma mudança de direito, pois o socialismo segue nas resoluções como objetivo estratégico do Partido. Mas foi uma mudança de fato e que adquire cada vez mais cidadania no discurso petista, como se pode constatar pela defesa veemente que vem sendo feita de um “país de classe média".
O PT venceu as eleições presidenciais de 2002, 2006, 2010 e 2014 e governa o país orientado por uma perspectiva estratégica que é "capitalista democrática". Neste sentido, chegou mais longe do que os seus antecessores (o trabalhismo e o comunismo). E exatamente por isto levou mais longe "que nunca antes na história do Brasil" a contradição fundamental de todo os que defendem uma via de desenvolvimento capitalista democrática, a saber: o capitalismo não se dá bem com a democracia.

Repetimos o que já dissemos antes: o capitalismo tal como existe no Brasil depende de altas taxas de desigualdade, conservadorismo político e dependência externa. 

Construir uma via de desenvolvimento capitalista democrática implica, portanto, em choque com os próprios capitalistas. Choque que só pode resultar em vitória dos democráticos, caso estes mobilizem as camadas populares. Cujo movimento traz para o palco questões que entram em choque com os limites do próprio capitalismo.

Por isto o PT está já há vários anos diante de uma encruzilhada: ou avançamos por uma estrada de reformas estruturais, democráticas, populares e socialistas; ou conciliamos com os defensores do desenvolvimento capitalista conservador. Que novamente estão demonstrando que não pagam para ver, motivo pelo qual já se fala de golpe contra a “ameaça comunista”.

Não apenas o PT, mas o Brasil vive, já há alguns anos, este dilema: ou construímos um caminho de desenvolvimento democrático que se articule com uma via de desenvolvimento socialista; ou no final das contas, por um caminho ou outro, acabará prevalecendo o desenvolvimento conservador. 

O desfecho deste dilema depende de opções que estão sendo tomadas aqui e agora, mas é certo que veremos choques de proporções cada vez maiores. 

Qual a posição de Dilma, de Lula e do PT frente a este dilema?

O que foi feito ao longo destes doze anos pode ser resumido assim: objetivamente, as políticas adotadas pelos governos federais encabeçados pelo PT estão tornando possível recompor, mesmo que lentamente, a força objetiva e subjetiva da classe trabalhadora; mas não fomos capazes de desmontar as bases objetivas e subjetivas do poder do grande capital e seus aliados. 

Exemplos desta incapacidade: o capital financeiro, as transnacionais e o agronegócio continuam hegemonizando a economia e a política brasileiras; o oligopólio da comunicação segue intacto; a legislação eleitoral permite ao financiamento privado reintroduzir a compra de votos e o voto censitário; as forças armadas e policiais seguem as mesmas de sempre.

Por isto, o tempo corre contra quem defende realizar reformas estruturais no Brasil. A depender do que fizermos, a direita pode vencer as presidenciais de 2018. A depender do que fizermos, a direita pode tentar provocar uma crise institucional antes de 2018. A depender do que fizermos, a direita pode impor (total ou parcialmente) ao novo governo o programa que foi derrotado nas urnas.

Mais precisamente: em parte a depender da capacidade e esperteza dos nossos opositores, em parte a depender de como se posicionem os setores em disputa. em parte a depender de como nosso lado, nosso bloco, nosso campo se posicionar.

Entendendo que nosso lado inclui partidos de esquerda, movimentos sociais, parlamentares e executivos progressistas, assim como gente atuante no campo da arte, da cultura, do educar e do comunicar.

Evidente que ao PT e ao governo Dilma cabe um lugar especial neste campo. Evidente, igualmente, que do ponto de vista imediato o governo Dilma cumpre um papel deveras destacado. Entretanto, como demonstraram os acontecimentos desde 2003, embora o governo seja importante, no frigir dos ovos o Partido cumpre papel decisivo.

Neste sentido, foi muito importante que a executiva nacional do PT tenha aprovado o seguinte documento:  http://www.pagina13.org.br/pt/resolucao-politica-da-executiva-nacional-do-pt/#.VGNwvPmsVZ8

Um dos nossos desafios consiste em transformar as diretrizes deste documento aprovado pela CEN em linha geral do Partido. Cabe trabalhar para o que DN e o V Congresso do PT referendem esta linha. E que ela seja efetivamente implementada pelo Partido e por seus dirigentes mais destacados, inclusive os que ocupam postos executivos e parlamentares.

Uma vez que consigamos consolidar no conjunto do Partido a linha aprovada pela Executiva nacional, isto deve ter reflexo nas diretrizes organizativas, nos dirigentes, no funcionamento da tesouraria, no trabalho de formar, informar e mobilizar.

Nada disto vai transcorrer tranquilamente. Temos inimigos poderosos fora do Partido, temos passivos importantes e temos diferentes posturas no interior do campo popular, a respeito do que fazer.

Um exemplo: os que subiram no muro no segundo turno, agora dizem que a composição do ministério dará razão para sua postura. Quando na verdade o segundo turno de 2014 consistia em duas batalhas, combinadas mas diferentes: uma era impedir o retrocesso, outra criar as condições para um segundo mandato superior. Vencemos com dificuldade a primeira batalha, a segunda está em curso e será muito mais difícil. Quem não apoiou Dilma no segundo turno de 2014 adotou uma posição vergonhosa, que só ajudou o grande Capital, tanto na primeira quanto na segunda batalha. De "revolucionários" deste tipo, está cheinho um dos círculos nomeados por Dante.

Outro exemplo das diferentes posturas que temos no campo popular: os que acham que o governo pode girar para a esquerda tanto quanto a campanha girou para a esquerda, confundindo o papel e as possibilidades do Partido e do campo popular, com o papel e as possibilidades do governo.

Um terceiro exemplo: os que defendem que o governo gire para a direita, aplicando parcialmente o programa dos derrotados. Dentre estes, existem os que adotam os mesmos pressupostos dos tucanos. Mas existem, igualmente, os que acreditam que girar para a direita neste início de segundo mandato permitiria evitar um confronto maior com a direita, num momento em que os setores populares mostraram capacidade de mobilizar, mas perderam votos frente ao que obtivemos em recentes processos eleitorais e ainda carecem de organicidade e instrumentos adequados para comunicar-se com o povo. Os que pensam isto apontam problemas reais, mas suas soluções partem de um pressuposto equivocado, pois a luta de classes em 2014 não obedece ao mesmo design da luta de classes em 2002, logo é um duplo erro tentar repetir em 2015 o que foi feito em 2003.

Finalmente, e em grande quantidade, existem aqueles que percebem que precisamos mudar e precisamos mudar urgente, mas que nem sempre percebem que isto constitui um processo bastante complexo, em que precisamos mudar de estratégia (não apenas de tática) e que precisamos mudar profundamente nosso funcionamento, nosso comportamento interno e externo.

Dentre as muitas mudanças "organizativas" que devem ocorrer, é fundamental citar: a) o financiamento do Partido, que não pode depender do empresariado; b) a comunicação do Partido, que não pode esperar mais para ter sua própria mídia; c) a formação da militância, que precisa cada vez mais preparo para enfrentar a luta de classes; d) e nossa composição social: o PT é e deve continuar sendo o partido dos trabalhadores e das trabalhadoras que vivem de salário.
Mas a mudança fundamental deve ser política: o PT precisa adotar outra estratégia. 

Nisto estamos empenhados, seja propondo ao Partido que faça esta opção em seu V Congresso, seja defendendo que no atual momento devemos aprofundar as liberdades democráticas, fortalecer a classe trabalhadora, ampliar o papel do Estado na economia e dividir a burguesia, especialmente isolando e derrotando os setores ligados ao capital financeiro e ao grande capital monopolista transnacional.
A luta política dos últimos 34 anos mostrou a importância do petismo. Mas também demonstrou que estamos chegando no limite: ou damos um salto de qualidade (assumindo posições pelo menos parecidas com as que hoje são posições da tendência petista AE), ou viveremos um longo período de retrocesso.

Se tivermos êxito, estaremos mais próximos dos nossos objetivos históricos.

Já se o PT for derrotado (por cooptação, derrota eleitoral ou golpe), viveremos um longo período de desacumulo de forças. 

Este é outro motivo pelo qual justifica-se participar ativamente da luta que se trava no interior do PT.

Estar no PT implica em tomar posição na luta interna do Partido dos Trabalhadores. Ou seja, tomar partido dentro do Partido, tomar posição no debate sobre qual linha, qual programa, qual estratégia, qual teoria? 

O grupo hoje majoritário na direção do PT conduz o Partido e o conjunto da esquerda por um caminho cada vez mais perigoso, exatamente devido a suas opções estratégicas, tais como a conciliação de classes.

Assim, nossa posição é a seguinte: somos petistas que lutam para que o Partido adote uma linha diferente daquela que é atualmente majoritária.

Isto vai "dar certo?" Não há como responder.

Quais as chances de dar certo? Pequenas. Como sempre foram pequenas, em todas as partes do mundo, as chances de vitória da esquerda socialista e revolucionária.

Optamos, porque em nossa opinião nenhuma outra alternativa responde melhor aos grandes problemas postos diante da classe trabalhadora, no atual momento histórico."