quarta-feira, 9 de abril de 2014

Um texto de 4 de junho de 2006

Estaremos mortos, mas chegaremos lá

Gostaria de dar algumas opiniões sobre o tema “estratégia versus eleições”, que foi tratado em diversas mensagens, do Milton Pomar, da Marlene Rocha e da Renata Rossi, entre outros/as. Como o tema é longo, vou tratá-lo em várias mensagens mais ou menos curtas. Começo sobre o tema do nosso objetivo final.

Meu ponto de partida nesta discussão é o seguinte: temos como objetivo final construir uma sociedade mundial comunista, onde não haja exploração nem opressão, classes sociais ou Estado.

Isso pode soar meio lunático, nesses tempos céticos e cínicos em que vivemos. Mas eu considero indispensável começar o debate deste ponto, porque parte das incompreensões que surgem em nossos debates têm relação com a existência, entre nós, de coincidências nos objetivos “intermediários” e divergências no que toca ao objetivo final.

Sendo que nosso objetivo final é a construção de uma sociedade comunista mundial, estou certo que não estarei por aqui se e quando este objetivo for alcançado.

Frente a este “detalhe”, é natural que muitas pessoas abandonem o objetivo final (inalcançável no tempo de nossas vidas) e estabeleçam “objetivos finais” mais palpáveis para nossa expectativa de vida.

É natural, também, que outras pessoas tentem “apressar” os processos históricos, seja através de ações voluntaristas, seja através de raciocínios simplificadores, segundo os quais a transição do capitalismo ao comunismo poderia ser um processo rápido.

É natural que as pessoas ajam assim, mas trata-se de um erro que deve ser combatido, sob pena do futuro almejado por nós nunca virar presente, seja por não o perseguirmos desde agora, seja por o perseguirmos da maneira errada.

A construção de uma sociedade sem classes e sem Estado, sem opressão nem exploração, é tarefa que exigirá séculos.

Digo que é uma “tarefa” porque o comunismo, se e quando o construirmos, não será produto de um acaso, nem tampouco resultará de processos exclusivamente objetivos.

Como indicou o velho Frederico Engels, a construção de uma sociedade comunista terá que ser uma obra consciente da humanidade, mais precisamente de uma parcela da humanidade, as classes trabalhadoras.

Claro que esta obra consciente é possível (e necessária) graças a processos objetivos, construídos de maneira mais ou menos inconsciente pela humanidade. Mas o fator consciência, vontade, subjetivo, é fundamental na construção de uma sociedade sem classes, sem Estado, sem opressão nem exploração de novo tipo.

Neste sentido, é preciso que os comunistas tenham o máximo de consciência possível sobre o passado, o presente e o futuro de nossa ação.  Que saibamos de onde viemos, onde estamos e para onde queremos ir. O que inclui decidir sobre os “veículos”, as “estradas” e as “paradas” que faremos, nesta jornada para chegar ao nosso objetivo final.

De maneira resumida: nós estaremos mortos, mas chegaremos lá. Compreender isto e participar desta jornada, sabendo que estamos contribuindo para um futuro que não será vivido por nós, individualmente, talvez seja a maior demonstração que podemos dar de que fazemos parte de uma obra coletiva, social. 

Quem não passa, é passado

Se nosso objetivo final é o comunismo (compreendido como uma sociedade sem classes e sem Estado, sem opressão nem exploração), é óbvio que entre este objetivo e a situação atual medeia um enorme intervalo social, temporal e espacial.

Social, porque se trata de transformar uma sociedade de classes & capitalista numa sociedade sem classes. Uma mudança mais profunda do que a transição do feudalismo para o capitalismo, que ao fim e ao cabo, foi a transformação de um tipo de sociedade de classes, em outro tipo de sociedade de classes.

Trata-se de organizar a produção e a reprodução da sociedade, superando mecanismos de exploração e de opressão que caracterizaram a história humana nos últimos milênios.

Alcançar este objetivo supõe um conjunto de ações, articuladas entre si: 1)conscientizar amplos setores da sociedade deste objetivo; 2)fazer com que estes setores obtenham o poder necessário para implementar ações visando aquele objetivo; 3)portanto, reduzir ao máximo o poder dos setores sociais comprometidos com o capitalismo em particular e com a sociedade de classes em geral; 4)implementar as ações (econômicas, sociais, políticas, culturais) necessárias para alcançar o comunismo.

As ações acima envolverão tempos e espaços muito diferentes.

O trabalho de conscientização (luta ideológica, propaganda de idéias, construção de uma visão de mundo comunista em amplas camadas de nossa sociedade) é permanente; continuará sendo necessário no próprio comunismo.

Já a luta política (poder para os trabalhadores, tirar o poder dos capitalistas) e a construção das bases materiais de uma nova sociedade é de longa duração, mas não é permanente. A política, tal como a conhecemos, desaparecerá numa sociedade comunista. E o comunismo supõe que a desigualdade (não a diferença) tenha sido eliminada.

Como tempo e espaço mantém conexões, podemos especular sobre os diversos “momentos” da nossa jornada em direção ao comunismo. Esta especulação, baseada na observação da transição do feudalismo ao capitalismo, mas também na observação da primeira tentativa de transição do capitalismo ao comunismo (as revoluções socialistas ocorridas no século XX), aponta para a existência de quatro “momentos” básicos:

a)o momento em que as relações capitalistas de produção são hegemônicas em todos os países do mundo;

b)o momento em que as relações capitalistas são hegemônicas, mas em que os trabalhadores conquistam o poder político em algumas regiões (países, conjunto de países) e começam a tentar construir relações sociais de novo tipo;

c)quando os trabalhadores, a partir das posições conquistadas no momento anterior, cercam a partir de fora e atacam a partir de dentro as regiões (países, conjunto de países) e forças sociais onde o capitalismo segue hegemônico. E/ou onde as regiões/forças sociais capitalistas conseguem cercar a partir de fora e atacar a partir de dentro as forças sociais/regiões onde se está tentando construir um novo tipo de sociedade;

d)o momento em que as relações sociais de tipo capitalista se tornam residuais, até desaparecer.

Nós estamos num momento de tipo “a” (situação semelhante ao movimento socialista, no início do século XX).

Durante o século XX, vivemos durante mais ou menos setenta anos um momento de tipo “b”. Como sabemos, as forças pró-capitalistas conseguiram evitar o cerco, derrotar os ataques a partir de dentro (feitos pelos trabalhadores dos países capitalistas) e nos impuseram uma grande derrota.

Há vários motivos para esta derrota, entre os quais os descaminhos seguidos nas tentativas de construir relações sociais de novo tipo; e os limites estabelecidos e erros cometidos, na maioria dos países capitalistas, pelos que estavam atacando “a partir de dentro” (comunistas e social-democratas).

Com esta derrota, voltamos a viver um momento de tipo “a”. Do que se trata, portanto, quando discutimos nossa estratégia, é como passar do momento “a” para o momento “b”.

Claro que a discussão sobre a estratégia (como tomar o poder em determinadas regiões e dar início a construção de relações sociais de novo tipo) deve levar em conta o “momento” seguinte: como cercar/atacar o capitalismo.

Até porque, tão logo cheguemos ao poder em um determinado país, tem início o cerco dos capitalistas. Aliás, o "cerco" começa antes mesmo disto, pois como sabemos a "Internacional Capitalista" opera pesadamente, para evitar que tomemos o poder.

Nossa estratégia tem como objetivo passar do momento “a” para o momento “b”. Trata-se, neste sentido, de uma estratégia principalmente nacional (como “tomar o poder” em um determinado país). Mas precisamos construir uma estratégia nacional que leve em conta ser fundamental evitar a concentração de forças (em escala internacional) do inimigo contra nós. Ou seja, precisamos de uma estratégia para passar do momento “a” para o “b”, mas com olhos postos na necessidade de passarmos urgentemente para o momento “c”. Pois quem não passa, é passado.

O estado da arte sobre o Estado

Discutir estratégia é discutir poder político. Alguns companheiros confundem poder político com ocupação do aparelho de Estado (eleger parlamentares, prefeitos, governadores, presidente). A confusão é compreensível, mas é danosa.

Em primeiro lugar, se é verdade que o Estado cristaliza uma determinada correlação de forças entre as classes sociais, também é verdade que as relações sociais capitalistas são muito mais amplas e poderosas do que o Estado.

Em segundo lugar, porque se é verdade que os cargos eletivos fazem parte do Estado e, portanto, concentram algum poder, também é verdade que o poder de Estado é muito mais amplo do que os cargos eletivos.

Em terceiro lugar, se a ocupação do aparelho de Estado pode fazer parte da estratégia, a estratégia sempre será muito mais ampla do que a ocupação do aparelho de Estado. Aliás, dependendo de como façamos esta “ocupação”, podemos colocar a perder toda a estratégia.

Qual deve ser, então, o objetivo da nossa estratégia? Fazer com que as classes trabalhadoras detenham o poder necessário à mudança das relações sociais, num duplo sentido: dissolver as relações capitalistas de produção e construir relações sociais de novo tipo.

Esta é, aliás, uma diferença fundamental entre a transição do feudalismo para o capitalismo, versus a pretendida transição do capitalismo para o comunismo.

No primeiro caso, as relações sociais de tipo capitalista se desenvolveram largamente, antes mesmo dos capitalistas deterem poder político equivalente; no segundo caso, as relações sociais de novo tipo só poderão se desenvolver, depois que os trabalhadores tenham acumulado o poder político necessário para tal.

Sempre é bom lembrar que o poder é uma relação entre classes. O fortalecimento dos trabalhadores é o enfraquecimento dos capitalistas. Mas também é bom lembrar que, como qualquer relação social, o “poder” se “cristaliza” sob determinadas formas.

A forma mais geral de “cristalização” do poder é o que se conhecemos como “poder de Estado”. É por isso que a discussão da estratégia de poder muitas vezes se reduz ao tema da “conquista do poder de Estado”. Esse reducionismo é um equívoco; mas equívoco muito maior é achar que seja possível acumular poder, sem enfrentar o tema do Estado.

O Estado é a cristalização (datada, historicamente determinada) das relações existentes entre as classes sociais. Na origem (e aqui apelamos de novo para Engels), quando a sociedade se divide em classes, o Estado é uma necessidade. Sem ele, a vida social seria uma guerra civil aberta e permanente entre as classes. Neste sentido, o Estado é uma “instituição” criada a partir da luta de classes (como ostras e pérolas), com o objetivo de impedir que esta luta de classes resulte na destruição mútua das classes em luta e, com isso, na destruição de toda a sociedade.

Ocorre que esta instituição (o Estado) se dedica a manter as condições gerais de produção e reprodução de uma sociedade determinada, uma sociedade de classes; e, neste sentido, a ação do Estado resulta na reprodução de uma sociedade de exploração e opressão, atendendo aos interesses de uma determinada classe social.

O Estado tem, portanto, desde o surgimento, duas dimensões: uma “pública” e outra “privada”. A importância de uma ou de outra dimensão varia, de acordo com a força das classes em luta. Mas em última análise, a dimensão dominante é “privada”, ou seja: o Estado está a serviço dos interesses de uma determinada classe social e não a serviço de toda a sociedade.

No século XX, especialmente depois da Segunda guerra mundial, a dimensão “pública” do Estado ampliou-se muito. Por um lado, através da atividade econômica direta (em que o Estado tornava-se uma espécie de “capitalista coletivo”). Por outro lado, através das políticas sociais (que, em última análise, constituem uma espécie de “salário indireto” pago às classes trabalhadoras). E, finalmente, através do acesso (através dos processos eleitorais) de classes não-capitalistas a espaços importantes do aparelho de Estado.

Esta ampliação, embora cheia de percalços, gerou enormes expectativas em uma parcela dos comunistas e no conjunto dos social-democratas, que acreditavam ser possível uma ampliação contínua da dimensão pública da ação do Estado.

Esta ampliação poderia se dar de duas formas: o crescimento das atribuições do Estado, em detrimento das áreas de atuação das empresas privadas capitalistas; ou a redução das atribuições do Estado, em benefício do (suposto ou real) autogoverno direto da sociedade.

Sob uma ou outra forma, entretanto, o fundamental seria a ampliação da dimensão pública do Estado, tendo em perspectiva fazer com que o Estado deixasse de ser, em última análise, um defensor dos interesses capitalistas.

Qual o balanço que podemos fazer desta estratégia de “ocupação” do Estado?

Historicamente, ela fracassou, pelo menos até o momento. Não há um único caso em que a ocupação do Estado por forças anticapitalistas tenha conseguido transformar este Estado num instrumento a serviço da construção de novas relações sociais.

Mas o fracasso histórico não pode ser o único critério. É preciso ver se este fracasso deveu-se a causas conjunturais, a erros táticos ou se há algum problema estratégico envolvido.

Em minha opinião há um problema estratégico, a saber: a ampliação da dimensão pública do Estado só pode ser feita afetando os interesses dos capitalistas, seja limitando sua ação, seja cobrando impostos.

Isso gera uma reação econômica e política dos capitalistas. Economicamente, temos fuga de capitais, fuga da tributação, quebra de empresas e desemprego. Politicamente, temos do confronto eleitoral até os golpes.

Nesse último caso (embora isso também ocorra em situações de conflito menos extremadas), uma parcela do aparato de Estado é convocada a agir contra os setores sociais e políticos que buscam ampliar a dimensão pública do Estado.

Mesmo supondo que as forças anticapitalistas tenham sucesso neste momento de enfrentamento, a conclusão é: mais cedo ou mais tarde, o núcleo duro do Estado (as forças armadas, a alta burocracia estatal) se “revoltará” contra os setores que pretendem mudar a natureza do Estado.

Derrotar o núcleo duro do Estado dependerá, principalmente, do contrapoder não estatal de que disponham as forças anticapitalistas (na Venezuela, por exemplo, foi a mobilização popular que fez muitos comandantes militares se pronunciarem contra o golpe).

Ou seja: mais cedo ou mais tarde, fica claro que não é possível ampliar a dimensão do caráter público do Estado, até o ponto dele deixar de ser um Estado a serviço de uma determinada classe social. Mais cedo ou mais tarde, a questão fundamental (sobre a natureza ou caráter de classe do Estado) terminará se impondo. E, nesse momento, a vitória das forças anticapitalistas dependerá da força que tenham construído, dentro do Estado, mas principalmente fora dele.

Por isso, a discussão da estratégia de poder deve ser mais ampla do que a discussão sobre a ocupação de espaços no Estado. E, mesmo ao discutir esta ocupação, ela deve estar focada em como colocar os espaços conquistados no aparelho de Estado, a serviço da estratégia geral.

Revolucionários na banheira

Quando falamos em estratégia revolucionária, estamos falando exatamente disto: de uma estratégia de poder que considera indispensável, à construção de novas relações sociais, a substituição do Estado burguês por um Estado que represente os interesses das classes trabalhadoras.

Substituição esta que não pode ser feita através da metamorfose do Estado atual, mas sim através de uma ruptura provocada e sustentada, principalmente, por uma ação de fora para dentro.

Esta ação “de fora para dentro” pode ser uma guerra contra a ocupação estrangeira, uma guerra civil (seja sob a forma de guerra popular prolongada, seja sob a forma de uma guerra de guerrilhas de curta duração) ou uma insurreição popular (contra ou a favor de um governo, mas sempre contra o núcleo duro do Estado).

Qualquer que seja a “forma” desta ação “de fora para dentro”, sem ela não se destrói o Estado capitalista e não se constrói um Estado de novo tipo, que possa impulsionar a criação de relações sociais nãocapitalistas, pós-capitalistas e anticapitalistas.

O grande problema é que uma estratégia revolucionária depende, para seu sucesso, de condições políticas e sociais muito especiais e muito raras. Entre estas condições, é preciso que o nível de mobilização política das classes trabalhadoras, por seus interesses, tenha atingido níveis que transbordem a capacidade de contenção do Estado capitalista. Quando isto ocorre, a vitória ou a derrota da revolução passam a depender da luta política no sentido mais forte deste termo, em particular da existência (ou não) de uma força política (um partido) capaz de dirigir o enfrentamento com o Estado burguês.

O problema é que esta ação consciente é decisiva nos momentos finais do processo; mas não é decisiva nos momentos iniciais. Noutras palavras: nas suas fases iniciais e por muito tempo, a mobilização política das classes trabalhadoras depende mais de processos objetivos e espontâneos (ou, falando de outro modo, dos ataques do capitalismo contra o nível de vida das massas e das reações destas mesmas massas), do que de processos subjetivos e organizados.

Um partido pode dirigir a fase final de um processo revolucionário, mas não pode dar origem a um processo revolucionário. Ao mesmo tempo, não adianta ficar na boca do gol, construindo uma organização partidária de “verdadeiros revolucionários”, esperando que se criem as condições para a tomada do poder.

As organizações revolucionárias não se forjam fora da luta política, mas na luta política. Isto cria um grande problema, menos perceptível quando a luta política assume “formas” revolucionárias (a clandestinidade, a guerra contra a ocupação, a auto-defesa armada que evolui para um exército popular); e muito perceptível quando a luta política assume “formas” não-revolucionárias (o trabalho sindical e partidário legal, a propaganda política e as disputas eleitorais, o exercício de governos e mandatos parlamentares).

Neste segundo caso, há uma grande contradição: a ação prática dos revolucionários não apenas tem como objetivo reformas, mas também assume formas “reformistas”, ou seja, formas de luta que são no limite absorvíveis pelo Estado burguês e pela ordem capitalista.

Como resultado, ao invés de derrubar ou metamorfosear o Estado, a esquerda que se pretendia revolucionária acaba sendo metamorfoseada. Deixa de ser revolucionária, deixa de ser socialista e às vezes deixa de ser de esquerda.

O desafio, pois, é o seguinte: construir uma estratégia que permita que as classes trabalhadoras se organizem e se fortaleçam politicamente, nos tempos de luta de classes mais ou menos pacífica, sem perder a capacidade de atuar revolucionariamente, em tempos revolucionários. Será possível fazer isto?

Comecemos reconhecendo que, se é possível, trata-se com certeza de algo muito difícil e raro. Para começo de conversa, quanto maior a duração dos “tempos de paz”, maiores as chances de cooptação da esquerda revolucionária (e/ou de sua redução à uma minoria radical, porém inexpressiva).

Por outro lado, na medida em que os tempos de paz forem sendo substituídos por uma luta de classes mais conflitiva, há grandes riscos da política de acúmulo de forças “reformista” ter corrompido tanto a esquerda, que ela perde as condições de implementar uma estratégia revolucionária.

De toda forma, fica claro que a questão é: que tipo de “política em tempos de paz” nos prepara para a guerra? Ou ainda: que tipo de política reformista cria melhores condições para que possamos desempenhar um papel revolucionário, no momento em que isso for possível?

Comentários acacianos

Uma estratégia revolucionária para tempos reformistas precisa ser capaz de, partindo das condições concretas em que vivemos, construir um caminho para o poder.

Comecemos pelo mais geral: a caracterização do período histórico. Vivemos sob a mais ampla hegemonia capitalista.

4 de junho de 2006.






















terça-feira, 8 de abril de 2014

Saiu o Página 13 de abril

http://www.pagina13.org.br/publicacoes/saiu-o-pagina-13-de-abril-de-2014/

Ajude a divulgar e a vender


http://www.pagina13.org.br/loja/a-dialetica-da-historia/

http://www.pagina13.org.br/loja/miscelanea-internacional-1998-2013/

http://www.pagina13.org.br/loja/palavra-de-mano-2/

http://www.pagina13.org.br/jornal-pagina-13/assinaturas/

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Proposta de Diretrizes de Programa de Governo




Nos dias 2 a 4 de maio de 2014, acontecerá o Encontro nacional de tática eleitoral do Partido dos Trabalhadores. Em debate, as propostas que o PT fará para o governo Dilma 2015-2018. A seguir, a proposta de diretrizes de programa que a Articulação de Esquerda apresenta para debate e votação no Encontro.

1.A eleição presidencial de 2014 constitui o centro da tática do PT na atual conjuntura. Isto significa que a batalha em torno de quem ocupará a presidência da República no período 2015-2018 está no centro das preocupações e movimentações de todas as classes sociais e frações de classe, de todos os movimentos sociais e populares, de todos os meios de comunicação, governantes, parlamentares e partidos políticos. Como vem ocorrendo desde 1989, a eleição presidencial cristaliza o estado da arte da luta de classes no Brasil.

2.O Partido dos Trabalhadores tem como objetivo vencer a eleição presidencial de 2014. Ou seja: eleger a presidenta Dilma Rousseff para um segundo mandato presidencial. E queremos vencer criando as condições para um segundo mandato superior ao atual, ampliando a base de apoio do governo no Congresso, nos governos de estado e nos movimentos sociais.

3.Um segundo mandato Dilma superior ao atual é o desejo não apenas do PT, mas da maioria do povo brasileiro. Pesquisas recentes confirmam que a Presidenta Dilma é a preferida da maioria do eleitorado, parte importante do qual deseja mudanças no segundo mandato. Ou seja: parte importante do eleitorado e do povo brasileiro deseja que o segundo mandato Dilma “continue mudando” o Brasil.

4.O que significa, programaticamente, um segundo mandato superior ao primeiro? O que significa “continuar mudando” o Brasil?

5.Responder a estas perguntas exige perceber que no Brasil e na América Latina, continua posta a tarefa de superar a herança maldita proveniente da crise da ditadura, do desenvolvimentismo conservador e da devastação neoliberal.

6.Esta herança possui três dimensões principais: o domínio imperial norte-americano, a ditadura do capital financeiro e monopolista sobre a economia, e a lógica do Estado mínimo. Combatê-las e superá-las constitui nossa primeira diretriz.

7.Superar estas três dimensões da herança maldita é uma tarefa simultaneamente nacional e regional, motivo pelo qual a segunda diretriz de nosso programa é a defesa e o aprofundamento da soberania nacional, a aceleração e radicalização da integração latino-americana e caribenha, com uma política externa que confronte os interesses dos Estados Unidos e seus aliados.

8.As quase três décadas perdidas (metade dos anos 1970, anos 1980 e 1990) produziram uma tragédia que começou a ser debelada, nas duas gestões do presidente Lula e na primeira gestão da presidenta Dilma. Mas para continuar democratizando o país, ampliando o bem-estar social e trilhando um caminho democrático-popular de desenvolvimento, será necessário combinar ampliação da democratização política, políticas públicas universlizantes de bem estar-social, com desenvolvimento ancorado em reformas estruturais. Estas constituem, respectivamente, a terceira, a quarta e a quinta diretrizes de nosso programa.

9.No terreno da democratização política do país, destacamos:

*convocação de uma Assembleia Constituinte exclusiva e específica, que faça uma reforma política, com as seguintes prioridades: a) fim do financiamento privado empresarial das campanhas, para acabar com a influência do poder econômico nos processos eleitorais; b) afirmar o princípio da proporcionalidade direta (um cidadão, um voto) na composição da Câmara dos Deputados, para acabar com as distorções herdadas do Pacote de Abril de 1977; c) unicameralismo, com o fim do Senado; d) voto em lista, para fortalecer os partidos programáticos; e) paridade de gênero, para garantir que metade das casas legislativas seja composta por mulheres; f) simplificação dos mecanismos de convocação de consultas, referendos e plebiscitos populares; g) ampliação dos mecanismos de controle social, desde o orçamento participativo, passando pelas conferências setoriais, até institutos como a revogação de mandatos e eleição de juízes;

*fortalecimento dos mecanismos de combate a corrupção e penalização dos corruptores, sob o viés da luta contra os monopólios, cartéis e outras formas de domínio sobre o mercado, combinado com mecanismos de apoio à democratização econômica, a exemplo da economia solidária e cooperativas e/ou associações de micros, pequenos e médios produtores.

*aprovação da Lei da Mídia Democrática, para que se elimine o monopólio dos meios de comunicação e se cumpra o que já fora previsto na atual Constituição brasileira. Mudança nas regras comerciais do setor de Comunicação, desconcentrando as verbas publicitárias, estimulando a mídia democrática e independente e construindo uma forte rede pública de rádio e televisão;

*ampliação do orçamento das áreas de cultura e educação, compreendendo que é tarefa do governo contribuir para a formação de uma cultura democrático-popular de massas em nosso país e que isso exige a ampliação do investimento e da ação do setor público, em todos os níveis;
*regulamentação da Convenção 151 que estabelece a negociação coletiva no serviço público. Contra quaisquer restrições ao direito de greve. Contra a criminalização e judicialização dos movimentos sociais;

*efetivação e apoio às demarcações de terras, proteção à vida, e atendimento a outras demandas e aspirações dos povos indígenas e dos quilombolas. Compromisso com a efetivação da Convenção 169 da OIT;

*reforma profunda do sistema de segurança pública, que promova a desmilitarização das polícias e supere os paradigmas da guerra às drogas e da doutrina de segurança nacional;

*ampliação do controle civil sobre as Forças Armadas, por meio do fortalecimento do Ministério da Defesa e extinção da Justiça Militar. Reforma curricular dos centros de formação militares;

*vinculação das conclusões da Comissão Nacional da Verdade à imediata revisão da Lei da Anistia, para que cesse a impunidade dos agentes da Ditadura Militar.

*fortalecimento das políticas de direitos humanos em defesa das mulheres, da juventude, das crianças, do idoso, das pessoas com deficiência e no combate ao racismo e a homofobia;

10.No terreno do bem-estar social, destacamos:

*redução da jornada de trabalho, para 40 horas semanais, sem redução de salários. Ratificação da Convenção 158 da OIT que impede a demissão imotivada;

*Manutenção da politica de valorização do salário mínimo, que garante inclusão, distribuição de renda e aumento da massa salarial em geral;

*eliminação do fator previdenciário e política de valorização dos aposentados;

*ampliação dos investimentos na saúde pública, adotando os 10% do Orçamento da União defendidos pelos movimentos sociais e especialistas, com especial atenção à melhoria da infraestrutura hospitalar e ambulatorial, ao fornecimento de material de atendimento clínico e à formação e atendimento de Mais Médicos às populações das periferias urbanas e zonas rurais. Enfrentamento dos problemas de gestão, na linha da proposta de “autarquia pública”;

*ampliação dos investimentos em educação pública, atingindo os 10% do PIB reivindicados pelos movimentos sociais e pelos especialistas na área, combinando isto com uma ampla mudança pedagógica e curricular, objetivando o ensino integral. Especial atenção à formação e melhoria salarial dos professores. Reforma universitária, continuidade à ampliação das matrículas no ensino público, aumento substancial dos recursos para a assistência estudantil, democratização da gestão das instituições de ensino superior com paridade entre professores, estudantes e técnicos nas instâncias de tomada de decisões;

*ampliação dos investimentos na reforma urbana, com base no Estatuto das Cidades, enfatizando o tema do saneamento, habitação e transporte público de grandes massas e mais econômicos, a exemplo dos transportes de tração elétrica sobre trilhos, de superfície e/ou subterrâneos; no saneamento, incluindo esgotamento sanitário, coleta seletiva de lixo, reciclagem de materiais sólidos, tratamento de líquidos, tratamento dos cursos d’água; na reformulação dos projetos Minha Casa Minha Vida, de modo que as moradias facilitem a locomoção dos idosos e deficientes, e estejam integradas a ambientes arborizados e que permitam atividades esportivas e de lazer; e em programas de arborização urbana, que minorem a elevação da temperatura ambiente;
*política de valorização dos servidores públicos, bem como regulamentação da convenção 151 da OIT, que estabelece a existência de negociação coletiva no serviço público. O apoio dos servidores públicos é parte importante do sucesso do projeto democrático-popular.

11.No terreno do desenvolvimento ancorado em reformas estruturais, destacamos:

* um desenvolvimento centrado na ampliação do público e do social, de vultosos investimentos estatais em infraestrutura, políticas sociais e reformas estruturais (com destaque para as reformas agrária e urbana), da produção visando a ampliação com sustentabilidade do mercado interno de massas;

* ampliar o orçamento público destinado ao desenvolvimento, em detrimento dos encargos da dívida financeira;

* atenção prioritária à reindustrialização do país, adensando as cadeias produtivas já existentes e aumentando sua capacidade técnica e produtiva, de modo a ampliar a oferta e evitar tensões inflacionárias pelo lado da demanda;

* combinar a expansão das indústrias da presente revolução científica e tecnológica, com as indústrias da segunda e primeira revoluções industriais, de modo a manter altas taxas de emprego pelo maior tempo possível, condição essencial para continuar ampliando o mercado interno de massas;

* utilizar investimentos e formas estatais naqueles setores industriais de retorno lento de rendimentos, especialmente estratégicos que evitem grandes lacunas nas cadeias produtivas e garantam um desenvolvimento nacional autônomo;

* superar os gargalos hoje existentes na infraestrutura urbana e na infraestrutura industrial, um dos principais fatores do chamado Custo Brasil, e utilizar os projetos e programas relacionados com essa superação para o próprio processo de industrialização;

* estabelecer condicionalidades para a atração de investimentos estrangeiros, incluindo a transferência de novas e altas tecnologias, a proibição de constituição de monopólios e oligopólios, bem como normas de associação com empresas nacionais, privadas e estatais;

* permitir às empresas estatais de todos os ramos se associarem a empresas estrangeiras e nacionais em projetos industriais para o adensamento da cadeia produtiva da qual fazem parte;

* estabelecer um sistema apropriado de zoneamento agrícola, associado a programas de apoio técnico, financeiro e comercial à micro, pequena e média economia agrícola familiar, de modo a garantir safras regulares de alimentos para o mercado doméstico, com o duplo objetivo de garantir a segurança alimentar e evitar picos inflacionários por quedas na oferta;  


* fazer com que o Banco Central persiga metas combinadas de inflação, crescimento e emprego, tendo como meta a redução das taxas de juros determinadas pelo Copom a patamares compatíveis com as metas de crescimento e emprego. A redução da relação dívida/PIB será buscada, não através de altas taxas de superávit primário, mas sim por intermédio do crescimento do Produto Interno Bruto;

* estabelecer subsídios e isenções exclusivamente vinculados a contrapartidas de produção, emprego, e benefícios sociais e ambientais;

* implementar uma reforma agrária que permita ao país não mais ter qualquer lavrador ou criador sem terra e qualquer latifúndio improdutivo, associando distribuição de terras, formação de vilas agro-industriais e o fomento do cooperativismo;

* agir rigorosamente para impedir novos desmatamentos, em especial de matas ciliares e de florestas na Amazônia e exigir o reflorestamento das matas ciliares;

* defender compromissos ambientais internacionais de redução das emissões de carbono, matriz energética limpa e preservação da biodiversidade;

* política de desenvolvimento regional integrado, cabendo ao Estado estimular investimentos e inserção em cadeias produtivas, para proporcionar a redução das disparidades interregionais;

* para apoiar o financiamento deste padrão de desenvolvimento, defesa de uma reforma tributária progressiva, pautada pela tributação da renda e do patrimônio, a começar pela taxação de grandes fortunas no país e diminuindo a carga de impostos diretos e indiretos pagos pelas populações mais pobres.

12.A partir destas cinco diretrizes gerais (superação da herança, internacionalismo ativo, democratização política, bem-estar social e desenvolvimento com reformas estruturais), o Diretório Nacional do PT debaterá e aprovará um documento sobre Diretrizes de Programa de Governo (2015-2018), que será apresentado ao país e à coligação que apoia a reeleição da presidenta Dilma Rousseff.

13.A Plataforma da Reeleição será fruto de uma negociação entre os diversos partidos e setores sociais que apoiam a candidatura Dilma Rousseff. Por isso mesmo, não podemos nos furtar a explicitar quais as posições programáticas do PT. Agindo desta forma, contribuímos para a elevação da Plataforma comum.

14.Nossas diretrizes incluem medidas de natureza congressual, porque como todos sabem a aprovação ou não de determinados temas no Congresso depende do empenho maior ou menor do governo. E o governo deve legitimar sua posição no processo eleitoral.

15.Nossas diretrizes incluem medidas que supõem uma grande capacidade de mobilização e organização social, e isto se constrói desde já, a começar pela campanha eleitoral. A Plataforma da Reeleição deve aprender com o caso do Mais Médicos: quando uma ação tem apoio popular, quando o governo e o partido estão articulados em sua defesa, quando existe uma real decisão de vencer, é possível dividir o inimigo e obter uma vitória.

16.Para que o segundo mandato Dilma seja superior ao primeiro, necessitamos de uma grande vitória em 2014, que se reflita na composição do futuro Congresso Nacional e em quem será eleito para governar os estados brasileiros. Para tal, necessitamos não apenas de uma campanha eleitoral, mas de um grande movimento político, que articule e mobilize intensamente partidos, movimentos, bancadas e governos.

17.O povo brasileiro tem consciência política, sabe que há problemas reais no país, sabe que nosso governo não é perfeito e ainda assim repetirá seu voto em nós, se estiver convencido não apenas de que a oposição é o retrocesso, mas principalmente se estiver confiante no que faremos, em direção a um país realmente democrático e popular.

18.A contradição entre o desenvolvimentismo conservador do grande capital e a defesa das reformas estruturais por parte da classe trabalhadora vai se intensificar nos próximos anos. Aos 50 anos do golpe militar de 1964, o Partido dos Trabalhadores deixa claro: ao segundo mandato da companheira presidenta Dilma Rousseff compete retomar o espírito das reformas de base.

Bruno Elias, secretário nacional de movimentos populares do PT

Rosana Ramos, membro do Diretório Nacional do PT

Adriano de Oliveira, membro do Diretório Nacional do PT


Jandyra Uehara, membro da executiva nacional da CUT e do Diretório Nacional do PT

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Proposta de Diretrizes de Programa de Governo Dilma 2015-2018

Nos dias 2 a 4 de maio de 2014, acontecerá o Encontro nacional de tática eleitoral do Partido dos Trabalhadores. Em debate, as propostas que o PT fará para o governo Dilma 2015-2018. A seguir, a primeira versão das diretrizes de programa que a Articulação de Esquerda apresentara ao Encontro petista.


1.A eleição presidencial de 2014 constitui o centro da tática do PT na atual conjuntura. Isto significa que a batalha em torno de quem ocupará a presidência da República no período 2015-2018 está no centro das preocupações e movimentações de todas as classes sociais e frações de classe, de todos os movimentos sociais e populares, de todos os meios de comunicação, governantes, parlamentares e partidos políticos. Como vem ocorrendo desde 1989, a eleição presidencial cristaliza o estado da arte da luta de classes no Brasil.

2.O Partido dos Trabalhadores tem como objetivo vencer a eleição presidencial de 2014. Ou seja: eleger a presidenta Dilma Rousseff para um segundo mandato presidencial. E queremos vencer criando as condições para um segundo mandato superior ao atual, ampliando a base de apoio do governo no Congresso, nos governos de estado e nos movimentos sociais.

3.Um segundo mandato Dilma superior ao atual é o desejo não apenas do PT, mas da maioria do povo brasileiro. Pesquisas recentes confirmam que a Presidenta Dilma é a preferida da maioria do eleitorado, parte importante do qual deseja mudanças no segundo mandato. Ou seja: parte importante do eleitorado e do povo brasileiro deseja que o segundo mandato Dilma “continue mudando” o Brasil.

4.O que significa, programaticamente, um segundo mandato superior ao primeiro? O que significa “continuar mudando” o Brasil?

5.Responder a estas perguntas exige perceber que no Brasil e na América Latina, continua posta a tarefa de superar a herança maldita proveniente da crise da ditadura, do desenvolvimentismo conservador e da devastação neoliberal.

6.Esta herança possui três dimensões principais: o domínio imperial norte-americano, a ditadura do capital financeiro e monopolista sobre a economia, e a lógica do Estado mínimo. Combatê-las e superá-las constitui nossa primeira diretriz.

7.Superar estas três dimensões da herança maldita é uma tarefa simultaneamente nacional e regional, motivo pelo qual a segunda diretriz de nosso programa é a defesa e o aprofundamento da soberania nacional, a aceleração e radicalização da integração latino-americana e caribenha, com uma política externa que confronte os interesses dos Estados Unidos e seus aliados.

8.As quase três décadas perdidas (metade dos anos 1970, anos 1980 e 1990) produziram uma tragédia que começou a ser debelada, nas duas gestões do presidente Lula e na primeira gestão da presidenta Dilma. Mas para continuar democratizando o país, ampliando o bem-estar social e trilhando um caminho democrático-popular de desenvolvimento, será necessário combinar ampliação da democratização política, políticas públicas universlizantes de bem estar-social, com desenvolvimento ancorado em reformas estruturais. Estas constituem, respectivamente, a terceira, a quarta e a quinta diretrizes de nosso programa.

9.No terreno da democratização política do país, destacamos:

*convocação de uma Assembleia Constituinte exclusiva e específica, que faça uma reforma política, com as seguintes prioridades: a) fim do financiamento privado empresarial das campanhas, para acabar com a influência do poder econômico nos processos eleitorais; b) afirmar o princípio da proporcionalidade direta (um cidadão, um voto) na composição da Câmara dos Deputados, para acabar com as distorções herdadas do Pacote de Abril de 1977; c) unicameralismo, com o fim do Senado; d) voto em lista, para fortalecer os partidos programáticos; e) paridade de gênero, para garantir que metade das casas legislativas seja composta por mulheres; f) simplificação dos mecanismos de convocação de consultas, referendos e plebiscitos populares; g) ampliação dos mecanismos de controle social, desde o orçamento participativo, passando pelas conferências setoriais, até institutos como a revogação de mandatos e eleição de juízes;

*fortalecimento dos mecanismos de combate a corrupção e penalização dos corruptores, sob o viés da luta contra os monopólios, cartéis e outras formas de domínio sobre o mercado, combinado com mecanismos de apoio à democratização econômica, a exemplo da economia solidária e cooperativas e/ou associações de micros, pequenos e médios produtores.

*aprovação da Lei da Mídia Democrática, para que se elimine o monopólio dos meios de comunicação e se cumpra o que já fora previsto na atual Constituição brasileira. Mudança nas regras comerciais do setor de Comunicação, desconcentrando as verbas publicitárias, estimulando a mídia democrática e independente e construindo uma forte rede pública de rádio e televisão;

*ampliação do orçamento das áreas de cultura e educação, compreendendo que é tarefa do governo contribuir para a formação de uma cultura democrático-popular de massas em nosso país e que isso exige a ampliação do investimento e da ação do setor público, em todos os níveis;
*regulamentação da Convenção 151 que estabelece a negociação coletiva no serviço público. Contra quaisquer restrições ao direito de greve. Contra a criminalização e judicialização dos movimentos sociais;

*efetivação e apoio às demarcações de terras, proteção à vida, e atendimento a outras demandas e aspirações dos povos indígenas e dos quilombolas. Compromisso com a efetivação da Convenção 169 da OIT;

*reforma profunda do sistema de segurança pública, que promova a desmilitarização das polícias e supere os paradigmas da guerra às drogas e da doutrina de segurança nacional;

*ampliação do controle civil sobre as Forças Armadas, por meio do fortalecimento do Ministério da Defesa e extinção da Justiça Militar. Reforma curricular dos centros de formação militares;

*vinculação das conclusões da Comissão Nacional da Verdade à imediata revisão da Lei da Anistia, para que cesse a impunidade dos agentes da Ditadura Militar.

*fortalecimento das políticas de direitos humanos em defesa das mulheres, da juventude, das crianças, do idoso, das pessoas com deficiência e no combate ao racismo e a homofobia;

10.No terreno do bem-estar social, destacamos:

*redução da jornada de trabalho, para 40 horas semanais, sem redução de salários. Ratificação da Convenção 158 da OIT que impede a demissão imotivada;

*Manutenção da politica de valorização do salário mínimo, que garante inclusão, distribuição de renda e aumento da massa salarial em geral;

*eliminação do fator previdenciário e política de valorização dos aposentados;

*ampliação dos investimentos na saúde pública, adotando os 10% do Orçamento da União defendidos pelos movimentos sociais e especialistas, com especial atenção à melhoria da infraestrutura hospitalar e ambulatorial, ao fornecimento de material de atendimento clínico e à formação e atendimento de Mais Médicos às populações das periferias urbanas e zonas rurais. Enfrentamento dos problemas de gestão, na linha da proposta de “autarquia pública”;

*ampliação dos investimentos em educação, atingindo os 10% do PIB reivindicados pelos movimentos sociais e pelos especialistas na área, combinando isto com uma ampla mudança pedagógica e curricular, objetivando o ensino integral. Especial atenção à formação e melhoria salarial dos professores. Reforma universitária, continuidade à ampliação das matrículas no ensino público, aumento substancial dos recursos para a assistência estudantil, democratização da gestão das instituições de ensino superior com paridade entre professores, estudantes e técnicos nas instâncias de tomada de decisões;

*ampliação dos investimentos na reforma urbana, com base no Estatuto das Cidades, enfatizando o tema do saneamento, habitação e transporte público de grandes massas e mais econômicos, a exemplo dos transportes de tração elétrica sobre trilhos, de superfície e/ou subterrâneos; no saneamento, incluindo esgotamento sanitário, coleta seletiva de lixo, reciclagem de materiais sólidos, tratamento de líquidos, tratamento dos cursos d’água; na reformulação dos projetos Minha Casa Minha Vida, de modo que as moradias facilitem a locomoção dos idosos e deficientes, e estejam integradas a ambientes arborizados e que permitam atividades esportivas e de lazer; e em programas de arborização urbana, que minorem a elevação da temperatura ambiente;
*política de valorização dos servidores públicos, bem como regulamentação da convenção 151 da OIT, que estabelece a existência de negociação coletiva no serviço público. O apoio dos servidores públicos é parte importante do sucesso do projeto democrático-popular.

11.No terreno do desenvolvimento ancorado em reformas estruturais, destacamos:

* um desenvolvimento centrado na ampliação do público e do social, de vultosos investimentos estatais em infraestrutura, políticas sociais e reformas estruturais (com destaque para as reformas agrária e urbana), da produção visando a ampliação com sustentabilidade do mercado interno de massas;

* ampliar o orçamento público destinado ao desenvolvimento, em detrimento dos encargos da dívida financeira;

* atenção prioritária à reindustrialização do país, adensando as cadeias produtivas já existentes e aumentando sua capacidade técnica e produtiva, de modo a ampliar a oferta e evitar tensões inflacionárias pelo lado da demanda;

* combinar a expansão das indústrias da presente revolução científica e tecnológica, com as indústrias da segunda e primeira revoluções industriais, de modo a manter altas taxas de emprego pelo maior tempo possível, condição essencial para continuar ampliando o mercado interno de massas;

* utilizar investimentos e formas estatais naqueles setores industriais de retorno lento de rendimentos, especialmente estratégicos que evitem grandes lacunas nas cadeias produtivas e garantam um desenvolvimento nacional autônomo;

* superar os gargalos hoje existentes na infraestrutura urbana e na infraestrutura industrial, um dos principais fatores do chamado Custo Brasil, e utilizar os projetos e programas relacionados com essa superação para o próprio processo de industrialização;

* estabelecer condicionalidades para a atração de investimentos estrangeiros, incluindo a transferência de novas e altas tecnologias, a proibição de constituição de monopólios e oligopólios, bem como normas de associação com empresas nacionais, privadas e estatais;

* permitir às empresas estatais de todos os ramos se associarem a empresas estrangeiras e nacionais em projetos industriais para o adensamento da cadeia produtiva da qual fazem parte;

* estabelecer um sistema apropriado de zoneamento agrícola, associado a programas de apoio técnico, financeiro e comercial à micro, pequena e média economia agrícola familiar, de modo a garantir safras regulares de alimentos para o mercado doméstico, com o duplo objetivo de garantir a segurança alimentar e evitar picos inflacionários por quedas na oferta;  


* fazer com que o Banco Central persiga metas combinadas de inflação, crescimento e emprego, tendo como meta a redução das taxas de juros determinadas pelo Copom a patamares compatíveis com as metas de crescimento e emprego. A redução da relação dívida/PIB será buscada, não através de altas taxas de superávit primário, mas sim por intermédio do crescimento do Produto Interno Bruto;

* estabelecer subsídios e isenções exclusivamente vinculados a contrapartidas de produção, emprego, e benefícios sociais e ambientais;

* implementar uma reforma agrária que permita ao país não mais ter qualquer lavrador ou criador sem terra e qualquer latifúndio improdutivo, associando distribuição de terras, formação de vilas agro-industriais e o fomento do cooperativismo;

* agir rigorosamente para impedir novos desmatamentos, em especial de matas ciliares e de florestas na Amazônia e exigir o reflorestamento das matas ciliares;

* defender compromissos ambientais internacionais de redução das emissões de carbono, matriz energética limpa e preservação da biodiversidade;

* política de desenvolvimento regional integrado, cabendo ao Estado estimular investimentos e inserção em cadeias produtivas, para proporcionar a redução das disparidades interregionais;

* para apoiar o financiamento deste padrão de desenvolvimento, defesa de uma reforma tributária progressiva, pautada pela tributação da renda e do patrimônio, a começar pela taxação de grandes fortunas no país e diminuindo a carga de impostos diretos e indiretos pagos pelas populações mais pobres.

12.A partir destas cinco diretrizes gerais (superação da herança, internacionalismo ativo, democratização política, bem-estar social e desenvolvimento com reformas estruturais), o Diretório Nacional do PT debaterá e aprovará um documento sobre Diretrizes de Programa de Governo (2015-2018), que será apresentado ao país e à coligação que apoia a reeleição da presidenta Dilma Rousseff.

13.A Plataforma da Reeleição será fruto de uma negociação entre os diversos partidos e setores sociais que apoiam a candidatura Dilma Rousseff. Por isso mesmo, não podemos nos furtar a explicitar quais as posições programáticas do PT. Agindo desta forma, contribuímos para a elevação da Plataforma comum.

14.Nossas diretrizes incluem medidas de natureza congressual, porque como todos sabem a aprovação ou não de determinados temas no Congresso depende do empenho maior ou menor do governo. E o governo deve legitimar sua posição no processo eleitoral.

15.Nossas diretrizes incluem medidas que supõem uma grande capacidade de mobilização e organização social, e isto se constrói desde já, a começar pela campanha eleitoral. A Plataforma da Reeleição deve aprender com o caso do Mais Médicos: quando uma ação tem apoio popular, quando o governo e o partido estão articulados em sua defesa, quando existe uma real decisão de vencer, é possível dividir o inimigo e obter uma vitória.

16.Para que o segundo mandato Dilma seja superior ao primeiro, necessitamos de uma grande vitória em 2014, que se reflita na composição do futuro Congresso Nacional e em quem será eleito para governar os estados brasileiros. Para tal, necessitamos não apenas de uma campanha eleitoral, mas de um grande movimento político, que articule e mobilize intensamente partidos, movimentos, bancadas e governos.

17.O povo brasileiro tem consciência política, sabe que há problemas reais no país, sabe que nosso governo não é perfeito e ainda assim repetirá seu voto em nós, se estiver convencido não apenas de que a oposição é o retrocesso, mas principalmente se estiver confiante no que faremos, em direção a um país realmente democrático e popular.

18.A contradição entre o desenvolvimentismo conservador do grande capital e a defesa das reformas estruturais por parte da classe trabalhadora vai se intensificar nos próximos anos. Aos 50 anos do golpe militar de 1964, o Partido dos Trabalhadores deixa claro: ao segundo mandato da companheira presidenta Dilma Rousseff compete retomar o espírito das reformas de base.

A direção nacional da Articulação de Esquerda
31 de março de 2014