domingo, 29 de dezembro de 2013

Que o Congresso seja melhor que sua abertura

O V Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores deveria ter sido realizado entre os dias 12 e 14 de dezembro de 2013. Mas o que houve nestes dias foi apenas uma “abertura”.
Para compreender o ocorrido, é importante recapitular alguns fatos e analisar algumas posições.
O V Congresso foi convocado solenemente em dezembro de 2012. Mas desde o debate sobre a Convocatória do Quinto Congresso, ficou clara a existência, no Partido, de pelo menos duas posições distintas a respeito.
Todos reconheciam existir uma contradição entre as necessidades da luta política imediata, por um lado, e as diretrizes mais estratégicas e programáticas que deveriam emergir do Congresso, por outro lado.
Alguns propunham resolver esta contradição rebaixando o Congresso, transformando-o numa convenção eleitoral. Outros propunham resolver esta contradição, elevando nossa tática às necessidades de nossa estratégia.
A polêmica se traduziu, do ponto de vista prático, na elaboração de um documento de subsídio ao Congresso, que deveria ter sido debatido pela CEN, pelo DN e em encontros especiais, simultaneamente ao PED. E que, após o PED, seria refeito, incorporando as contribuições das teses apresentadas ao debate.
Tais debates “congressuais” nunca ocorreram. E os debates do PED foram tudo, menos “congressuais”. E, por fim, o documento apresentado como contribuição ao V Congresso, assinado por apenas dois (Marco Aurélio Garcia e Ricardo Berzoini) dos vários integrantes da comissão, é basicamente o mesmo produzido antes do PED. Sendo que chapa “Partido que muda o Brasil”, que disputou o PED com uma tese, abriu mão desta tese em favor do documento assinado por Marco Aurélio e Ricardo Berzoini.
Assim, um ano depois de convocado solenemente, o V Congresso foi convertido em três partes: uma primeira parte, a “abertura”, realizou-se entre os dias 12 e 14 de dezembro de 2013; a segunda parte, que vai debater a tática eleitoral, reunir-se-á provavelmente no Rio de Janeiro em abril de 2014; e a terceira etapa do Congresso, supostamente conclusiva, vai se reunir em 2015, mês a definir. Sempre com os mesmos delegados eleitos no PED 2013.
A abertura
Portanto, o V Congresso começou, mas não terminou. Vejamos como foi cada momento da fase de “abertura”, dedicada a Luis Gushiken e Marcelo Deda.
A sessão inaugural foi na noite de 12 de dezembro, resumindo-se a composição de uma mesa com a nova comissão executiva nacional, com os presidentes estaduais eleitos (com exceção do presidente do estado do Maranhão, que está sub judice), com Rui Falcão, Lula e Dilma Rousseff, que fizeram uso da palavra nesta ordem.
Recomendamos a leitura dos discursos feitos esta noite, que ilustram as contradições do grupo majoritário do Partido e as debilidades da linha política vencedora no PED. Símbolo destas, aliás, foi algo que a muitos pode ter parecido “normal”, mas que é de um simbolismo profundo, especialmente num partido que tanto se propôs a renovar a visão dominante no movimento socialista acerca da relação entre partido/governo/Estado : quem deu posse ao novo presidente nacional, aos presidentes estaduais e a nova direção nacional foram Lula e Dilma.
Na sexta-feira 13 de dezembro, tivemos três momentos distintos. No final da manhã, uma solenidade dedicada aos presos José Genoíno, José Dirceu e Delúbio Soares. No início da tarde, uma mesa onde Marco Aurélio Garcia e Ricardo Berzoini apresentaram seu texto de Contribuição ao V Congresso. E, depois do almoço, uma terceira mesa que alguns bem humorados denominaram “momento fórum social”, em que falaram intelectuais, movimentos sociais e representantes das chapas que disputaram o PED. Nesta terceira mesa, destacou-se Sonia Fleury, representante do Cebes, que fez uma dura crítica às contradições da política adotada pelos governos Lula e Dilma.
Finalmente, no sábado 14 de dezembro, votaram-se emendas e moções. O grupo majoritário adotou como política absorver todas as emendas, exceto algumas apresentadas por O Trabalho, convenientemente promovido a “oposição oficial”, pois foi o único setor (exceto a maioria) que teve o direito de usar da palavra.
Dois temas foram remetidos para outro momento: os questionamentos à política de alianças foram remetidos para o Encontro de tática eleitoral, em abril de 2014, quando a tática eleitoral já estará deliberada na prática; e os questionamentos quando ao PED foram remetidos para uma comissão, que discutirá alternativas, que caso aprovadas serão adotadas na eleição da nova direção, no ano de 2017 (o que nos garantirá uma dupla diversão num mesmo ano: um PED e o aniversário dos 100 anos da revolução russa).
A voto mesmo, foram dois temas: o superávit primário e a AP 470. Nos dois casos, coube a Ricardo Berzoini defender a posição do grupo majoritário, logo ele que sabidamente está em conflito com seu próprio grupo em tantos pontos importantes.
É muito importante que a organização do Congresso divulgue os discursos feitos na defesa e na crítica as emendas. A fala de Berzoini é particularmente importante, porque revelou a falta de argumentos de mérito para defender as respectivas posições.
No caso do superávit, por exemplo, Berzoini nos lembrou que o país precisa crescer e que para isto precisa de investimentos privados e públicos. Mas não conseguiu explicar por qual motivo o investimento, seja público, seja privado, é beneficiado pela política de geração de superávits primários. Seu único argumento, ao fim e ao cabo, foi dizer que o congresso do PT deve apoiar a política econômica do governo. O problema é que as pedras sabem que grande parte do PT não concorda com esta política econômica, mas escolheu tratar isto como assunto de bastidor, não como debate público. Deixando a oposição e setores da base fazerem o debate público contra nós, aproveitando-se de problemas que todos sabemos que são reais e que deveriam ser corrigidos com rapidez, como a taxa de juros que voltou a crescer e como superávit que continua nos oprimindo.
Já no caso da AP470, a fala de Berzoini deixou no ar uma dúvida imensa: por qual motivo de mérito ele, signatário de uma emenda que falava em revisão penal e anulação do julgamento, passou a subscrever outra emenda, que não falava mais nisto. Berzoini, é verdade, explicou que sua nova posição (ver box na página 21) “unificava” mais o Partido. Mas não explicou ao plenário do Congresso quais os argumentos dos setores do Partido contrários à revisão penal e contrários a anulação da AP470.
Finalmente, ia a voto mas foi retirada por O Trabalho uma emenda referente ao Haiti. Depreende-se que os signatários confiam que a presidenta Dilma Rousseff vai suspender a participação brasileira na Minustah.
Votadas estas emendas e as moções, o Congresso foi encerrado. Ou melhor, a abertura foi encerrada. Para a maioria dos que lá estiveram, uma coisa é certa: é melhor que o Congresso seja melhor do que esta abertura, um gasto de tempo e de dinheiro desproporcional a importância dos debates e resoluções ali aprovadas.
Continuísmo
O essencial da abertura do V Congresso é que se confirmou que a maioria do Partido decidiu “não mexer em time que está ganhando”.
Como diz a contribuição assinada por Marco Aurélio e Ricardo Berzoini: “No ano de 2014 a ação do PT estará concentrada na reeleição da companheira Dilma Rousseff à presidência da República, na expansão de suas bancadas no Senado Federal, na Câmara de Deputados e nas Assembléias Legislativas. Da mesma forma, terá papel central o aumento do número de seus governadores. Claro está que todos estes embates eleitorais exigirão a consolidação, ampliação e qualificação de nossas alianças políticas, essencial não só para vencer as eleições como para o exercício futuro dos governos em nível nacional e estadual. Ainda que as questões programáticas em jogo nas eleições de 2014 não possam ser separadas totalmente de uma política de longo prazo do partido, é necessário evitar que esses temas, de natureza estratégica, se sobreponham e confundam o debate eleitoral do próximo ano”.
Traduzindo: não estamos seguros de que a tática para 2014 ajude a política de longo prazo do Partido, mas estamos convictos de que colocar agora certos temas de longo prazo pode dificultar nosso desempenho eleitoral, assim é melhor não misturar as duas coisas.
Esta opção pode ter vários desdobramentos, inclusive dar certo. Mas há três variantes que nos preocupam.
Na primeira delas, perdemos as eleições por que não percebemos a necessidade de mudar a tática e a estratégia adotadas até aqui. Na segunda delas, ganhamos as eleições e fazemos um segundo governo a altura da tática, mas aquém das necessidades estratégicas, o que terá consequências até 2018 e em 2018. Na terceira delas, ganhamos as eleições e buscamos, após as eleições, fazer um giro na atuação do governo, sem ter construído, durante o processo eleitoral, as bases políticas necessárias para tal.
Não subestimamos a primeira variante. A direita está fazendo um grande esforço para produzir uma tempestade perfeita. E nosso governo tem reagido a isto de maneira recuada, fazendo um grande esforço para conciliar com os interesses do grande capital e do rentismo. As duas variantes projetam um cenário perigoso, econômica, política e eleitoralmente falando. Mas, ainda assim, ainda que no segundo turno, ainda que com dificuldades, o mais provável é nossa vitória com a reeleição da presidenta Dilma.
Mas, em caso da provável reeleição, a opção tática e estratégica da maioria do Partido não terá criado as condições para fazer um segundo mandato superior ao atual. É claro que esta nossa opinião deve ser matizada: uma vitória petista nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e/ou Minas Gerais muda a correlação de forças políticas. Porém, já sabemos de longa data que a depender da política implementada pelos novos governos estaduais, uma vitória eleitoral pode se converter num problema político, como algumas prefeituras conquistadas em 2012 estão demonstrando.
O futuro
Como já foi dito no editorial deste Página 13, não esperamos da maioria da nova direção partidária uma mudança na tática ou na estratégia. Continuarão insistindo numa postura geral defensiva e aquém das necessidades e possibilidades da conjuntura e do período histórico.
Da nossa parte, vamos continuar insistindo na necessidade de um giro estratégico e tático, assim como no funcionamento do PT. Achamos que a conjuntura de 2014 tende a ser turbulenta, que a campanha eleitoral será muito difícil, que o PT precisa de outra postura e de outra política, seja para vencer, seja para governar, seja para transformar o Brasil.
E, seja qual for o resultado final de 2014, estamos convencidos de que não teremos um segundo mandato superior ao primeiro, salvo se o Partido dos Trabalhadores mudar sua orientação.
Por isto, tão logo sejam publicadas, submeteremos o texto base aprovado neste V Congresso a um minucioso exame crítico. E faremos um esforço para que o V Congresso aprove resoluções mais avançadas.
Este esforço significa dar continuidade ao que defendemos ao longo de todo o processo de eleição direta das direções petistas: que o PT precisa mudar de estratégia, mudar a tática para 2014 e mudar o funcionamento partidário.
A atual estratégia do PT é baseada na ideia de mudança através de políticas públicas. Defendemos que o PT adote uma estratégia de mudança através de reformas estruturais.
Salvo engano, nenhum petista se opõe às reformas estruturais. Todos parecem defender a reforma tributária, reforma política, lei da mídia democrática, reforma agrária, reforma urbana, 40 horas, universalização das políticas públicas etc.
Assim parece, mas não é exatamente verdade. Alguns setores do PT se opõem a tais reformas, como vimos por exemplo toda vez que houve chance real de aprovar a reforma política. Outros setores defendem tais reformas, mas são contra adotar uma estratégia de mudança baseada nelas.
Os que pensam assim parecem acreditar que será possível continuar melhorando a vida do povo, continuar ampliando a democracia, continuar afirmando a soberania nacional, continuar avançando na integração regional, sem fazer reformas estruturais.
Nós, pelo contrário, achamos que a estratégia de melhorar a vida do povo apenas ou principalmente através de políticas públicas entrou numa fase de “rendimentos decrescentes”. A comparação entre o segundo governo Lula e o primeiro governo Dilma é uma das provas disto.
Os problemas da saúde pública, por exemplo, exigem um salto na capacidade de financiamento. O mesmo pode ser dito de outras questões, como o transporte público. Visto de conjunto, a “sustentabilidade” das políticas públicas universais exige reforma tributária e uma mudança radical no serviço da dívida pública.
Mas como viabilizar isto, se o Congresso seguir majoritariamente composto por representantes do grande empresariado? E como ter sucesso na batalha da reforma política, sem derrotar o oligopólio da mídia?
E como viabilizar estas e outras reformas estruturais, se nossas bancadas, governos, aliados políticos e sociais não organizarmos nossa atuação em função disto? Se não formos para as eleições de 2014 com o propósito de reeleger Dilma em condições dela realizar um segundo mandato superior, marcado pelas reformas estruturais? Se nosso Partido não for capaz de uma atuação militante em favor destes objetivos?
Seja para ganhar as eleições de 2014, seja para continuar mudando o país, seja para construir um caminho para o socialismo, o PT precisa adotar uma estratégia democrática e popular, por reformas estruturais. Esta é a principal tese que defenderemos nas próximas etapas do V Congresso do Partido dos Trabalhadores.


Segunda tiragem


http://www.pagina13.org.br/2013/12/2a-edicao-do-pagina-13-de-dezembro-2013-janeiro-2014/

Editorial
De tédio, não morreremos
Entre assinantes e militantes presentes ao V Congresso do Partido dos Trabalhadores, foram distribuídos todos os exemplares da edição 127 do Página 13.
Por conta disto, tomamos a decisão de fazer uma segunda tiragem, combinando as matérias da edição 127 com algumas matérias novas, especialmente uma que fala do Congresso da CNTE, uma entrevista com a deputada Iriny Lopes sobre a Câmara dos Deputados em 2014, bem como um balanço do V Congresso do Partido dos Trabalhadores.
Além disso, fizemos uma revisão e atualização do que foi publicado na edição 127 original. De forma que os leitores encontrarão, nas próximas páginas, um jornal sob vários aspectos novo.
Por exemplo, trazemos a versão definitiva do balanço do processo de eleição das direções partidárias, ocorrido em novembro de 2013. Aproveitamos, também, para falar da bancada que representará a Articulação de Esquerda no Diretório Nacional do PT, empossado dia 12 de dezembro de 2013.
Trazemos, também, diversos textos analisando os desafios de 2014: Igor Fuser aborda o cenário internacional, sob o prisma do Irã e da Venezuela; Breno Altman fala de pesquisas e eleições presidenciais; João de Deus atualiza o quadro da momentosa eleição maranhense; Rubens Alves (assim como Iriny Lopes) fala da pauta legislativa do próximo ano; Max Altman e Rodrigo César abordam, em textos distintos, o tema da reforma política; Jandyra Uehara trata dos desafios da CUT; e publicamos extratos da tese da Articulação de Esquerda para o Congresso da CNTE.
Página 13 republica, também, um texto de Valter Pomar, sobre o significado estratégico das prisões de Genoíno, Dirceu e Delúbio. Junto, publicamos um Box comentando a resolução aprovada no V Congresso do PT acerca da AP 470.
Publicamos, também, um artigo de Iole Iliada, sobre o debate de ideias no Partido dos Trabalhadores, a luz de importante evento realizado pela Fundação Perseu Abramo.
Ricardo Menezes aborda os desafios da saúde pública, Jonatas Moreth atualiza o quadro da juventude petista, Patrick Campos e Adriele Manjabosco falam do recente congresso da União Brasileira de Estudantes Secundaristas. E Marcos Lazaretti, coordenador geral da UEE Livre do Rio Grande do Sul, fala da eleição do Diretório Central dos Estudantes de Santa Maria (RS).
Além disso, esta segunda tiragem de Página 13 reitera a homenagem feita a Marcelo Deda, militante petista, governador de Sergipe, que recentemente nos deixou.
*
Coerentemente com as posições que defendemos no PED, Página 13 não espera da maioria da nova direção petista eleita no PED e empossada no V Congresso uma mudança de tática ou na estratégia. Continuarão insistindo numa postura geral defensiva e aquém das necessidades e possibilidades da conjuntura e do período histórico.
Da nossa parte, vamos continuar insistindo na necessidade de um giro estratégico e tático, assim como no funcionamento do PT. Achamos que a conjuntura de 2014 tende a ser turbulenta, que a campanha eleitoral será muito difícil, que o PT precisa de outra postura e de outra política, seja para vencer, seja para governar, seja para transformar o Brasil.
Por isto, estamos seguros, nós que somos petistas, que de tédio não morreremos.
E também por isto lutaremos para que 2014 seja um ano marcado por grandes mobilizações e vitórias da classe trabalhadora brasileira.

Os editores

sábado, 21 de dezembro de 2013

Miscelânea internacional 1998-2013

http://www.pagina13.org.br/2013/12/miscelanea-internacional-e-a-nova-publicacao-da-editora-pagina-13/

Esta *_Miscelânea internacional_* reúne artigos, entrevistas e
roteiros sobre esta temática, escritos entre 1998 e 2013. Não foram
incluídos textos que, embora de minha autoria, são de assinatura
coletiva. É o caso do livro escrito em coautoria com Roberto
Regalado: *_Foro de São Paulo: construindo a integração
latino-americana e caribenha_*, publicado pela Editora Fundação
Perseu Abramo.

É o caso, também, de várias notas e resoluções da secretaria de
relações internacionais do PT, bem como de documentos-base e
declarações finais do Grupo de Trabalho e dos encontros do Foro de
São Paulo (reunidos em livretos editados pelo PT em agosto de 2013).

A publicação desta *_Miscelânea_* faz parte de uma “prestação
de contas” sobre meu período como dirigente nacional do Partido dos
Trabalhadores. Fui eleito para a direção nacional do PT em 1997.
Até 2005, fui terceiro vice-presidente nacional. Entre 2005 e 2010,
fui secretário de relações internacionais. E até 2013, fui
indicado pelo PT para ser o secretário-executivo do Foro de São
Paulo.

Antes de ser dirigente nacional, fui militante de núcleo de base,
membro de diretório municipal e também secretário de comunicação
na direção paulista do PT, quando respondi pelo *_Linha Direta_* e
pela *_Teoria e Debate_*.

Além disso, como professor no Instituto Cajamar; colaborador no
jornal *_Brasil Agora_*; assessor do prefeito David Capistrano em
Santos (SP); e secretário de Cultura, Esportes e Turismo de Campinas
(SP).

Em dezembro de 2013, tomou posse a nova direção nacional do PT, na
qual escolhi ser suplente. Evidentemente, seguirei contribuindo com a
luta pelo socialismo; com a classe trabalhadora; com o PT; com a
tendência petista de que faço parte, a Articulação de Esquerda;
assim como com a reeleição de Dilma Rousseff.

Espero, em especial, contribuir com a reflexão acerca das classes e
da luta de classes no Brasil e na América Latina; com a análise do
capitalismo no Brasil e no mundo; com o balanço das tentativas de
construção do socialismo, no século XX e XXI; e com a formulação
de uma nova estratégia para a esquerda brasileira e para o PT. Tal
reflexão é uma das condições necessárias, seja para reverter o
processo de degeneração que afeta o Partido, seja para colocarnos à
altura das necessidades e possibilidades históricas, tanto no terreno
nacional quanto internacional.

Esta *_Miscelânea_* faz parte deste esforço: organizar e revisar o
que foi feito e dito, para seguir adiante.

Campinas, dezembro de 2013

http://www.pagina13.org.br/2013/12/miscelanea-internacional-e-a-nova-publicacao-da-editora-pagina-13/

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sobre um texto da LBI acerca da Chacina da Lapa

O centenário de nascimento de Pedro Pomar e os 37 anos da chacina da Lapa motivaram diversas iniciativas, entre as quais duas no mínimo curiosas.

A primeira delas foi iniciativa do jornal A Nova Democracia, que na primeira quinzena de novembro de 2013 publicou um texto intitulado Pelo caminho de Pedro Pomar, relatando um atividade realizada pela Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo (FRDDP) e defendendo a “reconstituição” do Partido Comunista do Brasil. De orientação maoista, este grupo foi o responsável por pichações e colagens de cartazes comemorativos do centenário, em algumas cidades brasileiras.

A segunda delas foi iniciativa da Liga Bolchevique Internacionalista, que em seu blog publicou um texto intitulado: “Chacina da Lapa”: Há trinta e sete anos os chacais da ditadura eliminaram o setor da direção do PCdoB crítico à guerrilha Maoista do Araguaia.

O referido texto está disponível no endereço http://lbi-qi.blogspot.com.br/2013/12/chacina-da-lapa-hatrinta-e-sete-anos-os.html#more e contém grande quantidade de erros, sobre os quais passo a comentar, na ordem em que eles aparecem no referido texto.

A guerrilha do Araguaia não foi realizada “sob orientação ideológica do Partido Comunista Chinês”. Esta talvez fosse a intenção, mas o estudo detalhado dos fatos e dos documentos revela que a guerrilha foi marcada pelo chamado blanquismo, não pelo maoismo.

O texto afirma que João Amazonas e Renato Rabelo estariam refugiados em Pequim, por fazerem parte de uma “fração dirigente que defendia o “grande acerto” da tática Maoista”. Amazonas e Rabelo estavam fora do país quando houve a Chacina, por coincidência. Pedro Pomar, que deveria ter feito a viagem, ficou por conta da saúde de sua esposa. E Amazonas, acompanhado por Rabelo, o substituiu na viagem. 

O texto afirma que Pedro Pomar e Angelo Arroyo defendiam fazer uma autocrítica em relação ao Araguaia. Isto é correto apenas no que diz respeito a Pomar. A posição de Arroyo não era esta. Tanto é que, em suas intervenções na reunião da Lapa, Arroyo reiterou a defesa do método e das decisões da Comissão Militar do PCdoB, responsável pela condução da guerrilha. 

Não é fato que Pomar tivesse “manifestado para a militância partidária suas diferenças de avaliação política com Amazonas”. Nas condições da época, o debate sobre a guerrilha estava compartimentado na direção. Só anos mais tarde, quando o jornal Movimento publicou o documento de avaliação escrito por Pedro Pomar, as suas posições tornaram-se públicas para a militância.

Naquela época (1976), João Amazonas não era “secretário geral” do Partido Comunista do Brasil. O cargo não existia, por conta da avaliação que se fazia do papel de Prestes no antigo PCB, antes de 1962.

Não é verdade que “Pomar teria sido chamado para uma viagem de 'advertência' a Albânia, não efetivada em função do grave estado de saúde em que se encontrava sua companheira”. A viagem era para a China, para informar a derrota da guerrilha. Pomar era o encarregado, porque havia sido ele que informara aos chineses sobre a decisão de iniciar a guerrilha. A viagem não ocorreu porque, como é dito, sua esposa estava com graves problemas de saúde.

Quem primeiro identificou Jover Telles como provável responsável por prestar ao Exército informações que permitiram localizar o aparelho do PCdoB em São Paulo, e capturar ou matar metade de seus dirigentes, não foi a direção do PCdoB, mas sim Wladimir Pomar, filho de Pedro Pomar, membro do Comitê Central e um dos presos em dezembro de 1976. Na prisão, em conversas com os companheiros, Wladimir aos poucos montou as peças do que denominou “quebra-cabeças”, organizando informações e indícios que incriminavam Jover.


A responsabilidade de Jover Telles não se trata de uma “versão”, mas de fatos documentados. 

O texto da LBI afirma ser “estranho” que “somente em 1983, no sexto congresso do PCdoB, se “oficializaria” a expulsão definitiva do “traidor”, ou seja, quase sete anos após os gravíssimos acontecimentos da Lapa”. Não há nada de estranho nisto. Em primeiro lugar, houve um inquérito interno. Em segundo lugar, João Amazonas demorou a se convencer da responsabilidade de Jover Telles. Em terceiro lugar, estou convencido de que esta demora deve-se também ao fato de que Jover foi convocado para a reunião por insistência de João Amazonas.

A decisão de organizar uma dissidência no PCdoB não foi de José Novaes. Esta dissidência foi iniciativa coletiva, encabeçada especialmente pelos membros do Comitê Central que divergiam em primeiro lugar do balanço que Amazonas fazia do Araguaia e, em segundo lugar, divergiam de um conjunto de concepções defendidas por Amazonas e seus aliados.Participaram dessa dissidência Wladimir Pomar, José Novaes, Tarso Genro, Adelmo Genro Filho, Marcos Rolim, Sérgio Weiggert, José Genoíno, Ozeas Duarte, Ronald Rocha, Maria Luiza Fontenelle, Jorge Paiva, Luiz Macklouf Carvalho, Humberto Cunha etc.

O texto insiste em defender Jover Telles, chegando a dizer que “diante das circunstâncias criadas (e nunca totalmente esclarecidas) em torno da militância de Telles, este decide abandonar a política”. Como foi dito acima, as circunstâncias foram no fundamental esclarecidas: Jover Telles foi preso, negociou com a repressão e foi através dele que os militares localizaram a reunião. Mais detalhes podem ser lidos no livro Massacre na Lapa, de Pedro Estevam da Rocha Pomar, cuja edição mais recente, a terceira, foi publicada pela Editora Fundação Perseu Abramo.

Segundo o texto “Wladimir toma o rumo da socialdemocracia ingressando no PT em 1980”. Na verdade, aproximadamente metade da dissidência do PCdoB entra no PT no início dos anos 80: é o caso de Wladimir, Genoíno e outros. E outra metade permanece abrigada por mais algum tempo no PMDB (é o caso de Tarso Genro). Quanto à acusação de “socialdemocracia”, ela não resiste a análise das posições defendidas por Wladimir, nem à época, nem hoje.

A dissidência, também conhecida como “esquerda do PCdoB”, sofreu um processo de cisão interna. Parte dos integrantes construiu o Partido Revolucionário Comunista (PRC). Outra parte se dispersou, indo para o PCB (Alon Feuerwerker), Convergência Socialista e na maioria ingressando individualmente no PT (Carlos Eduardo Carvalho, Celeste Dantas, Wladimir Pomar).

José Novaes nunca foi o principal líder do PRC.

O texto da LBI pergunta-se “quem teria de fato 'vazado' para os genocidas a informação da reunião que poderia ter mudado a linha Maoista do PCdoB?” A primeira parte desta pergunta já foi respondida , de forma documentada: foi Jover Telles. A segunda parte da frase está totalmente equivocada: a crítica de Pedro Pomar à guerrilha do Araguaia não foi uma crítica ao maoismo. Ao contrário, foi uma crítica baseada no maoismo contra uma iniciativa guerriheira que, na sua opinião, não era baseada nos ensinamentos da guerra popular prolongada.

O texto da LBI pergunta “porque somente ao final da reunião do CC (que durou vários dias) a polícia da ditadura decidiu agir, pondo em risco o próprio sucesso da operação criminosa”. Em primeiro lugar, em nenhum momento esteve em risco o sucesso da operação policial-militar. A casa estava totalmente cercada. Ao que tudo indica, a decisão de atacar ao final fazia parte do acordo feito com Jover Telles (de permitir que ele ficasse livre) e, também, buscava garantir que todos os integrantes da reunião pudessem ser presos ou assassinados (pois está claro que havia  a intenção de atacar a casa ao final e matar os que lá permaneciam: Pedro Pomar e Angelo Arroyo)..

Não é verdade que os militares só “intervieram após o CC do PCdoB se inclinar, por uma pequena margem de maioria, na autocrítica da guerrilha do Araguaia”. Os militares atacaram ao término da reunião, mas eles não tinham a menor ideia do que estava sendo debatido ali. Em segundo lugar, os registros da reunião mostram que de um lado estavam Arroyo e Elza Moneratt; de outro lado estavam Pedro, Haroldo, Aldo, Wladimir, Novaes, Drummond e o próprio Jover Telles. 

É incorreto afirmar-se, sem contextualizar, que Drummond “morreu posteriormente em uma tentativa de fuga na sede do próprio DOPS”. Ele estava sendo torturado no DOI-CODI (e não DOPS) quando se desvencilhou dos algozes e, ao tentar a fuga, caiu no poço da antena de rádio desse centro de torturas. Drummond é um herói e já havia deixado claro que, se preso, faria o que fosse necessário para resistir às torturas. 

Não é exato dizer que existia uma direção do PCdoB “instalada” no exílio. Tanto é assim que foi necessário convocar uma conferência nacional (ver a este respeito o registro em filme desta conferência, disponível na página da Fundação Maurício Grabois), para recompor a direção.

Diógenes Arruda não foi “ex-tesoureiro do Partidão”. Ele foi de fato o secretário-geral do Partido Comunista do Brasil, entre 1947 e 1956.

O texto afirma que se consolidou uma “maioria alinhada com o PTA da Albânia” e reorganizada sobre as “bases políticas da recém ruptura do partido com o Maoismo, agora considerado como uma das vertentes do revisionismo, pondo fim à defesa da guerrilha camponesa”. Os fatos são os seguintes: a disputa no interior do PCdoB coincide com a disputa no interior do PC chinês, que levou a queda da Gangue dos Quatro e a ascensão definitiva de Deng Xiao Ping. Naquele momento, o PTA e o PCdoB criticam o “revisionismo chinês” por ter rompido com o maoismo e não por ser maoista.

O texto afirma o seguinte: “o ex-militante do partido que teria toda a autoridade moral para elucidar o verdadeiro festival de calúnias stalinistas, seria Wladimir Pomar. Filho do grande quadro teórico Pedro Pomar, assassinado na Chacina da Lapa, Wladimir esteve presente naquela reunião do CC, também na condição de dirigente do partido. Mas o filho não tinha a mesma estatura ideológica do pai Pedro, e optou por calar-se diante da intensa polêmica aberta no marco da esquerda comunista”.

Os fatos são os seguintes: Wladimir Pomar esteve preso de 1976 até setembro de 1978. Em decorrência de sua posição crítica à guerrilha, foi punido pela direção do PCdoB e desligado do Comitê Central (o que, inicialmente, ocorreu também com Aldo Arantes e Haroldo Lima, depois reintegrados à direção). Logo que saiu da cadeia, distribuiu o texto “Em Defesa da Verdade”, rebatendo as calúnias que vinha sofrendo, e integrou ativamente a luta interna do PCdoB, tendo escrito vários textos a respeito, entre os quais um livro inteiro intitulado Araguaia, o Partido e a Guerrilha. Este livro, publicado pela editora Brasil Debates, tem 312 páginas. Se isto é “calar-se”, não sei dizer o que é falar.

Wladimir divergiu da posição de Ozeas Duarte e José Genoíno, de transformar a comissão organizadora do Congresso Extraordinário convocado pela dissidência em Comitê Central e afastou-se da dissidência, ingressando individualmente no Partido dos Trabalhadores. Isto tudo está fartamente documentado, em muitos textos, alguns clandestinos, outros publicados por exemplo na revista Teoria e Política.

No Partido dos Trabalhadores, Wladimir Pomar foi secretário nacional de formação política e coordenador geral da campanha Lula em 1989. Posteriormente, desligou-se da direção mas segue filiado ao PT até hoje, colaborando ativamente no debate teórico.

O texto afirma ainda que  “Wladimir seguiu o “tranquilo” o curso de assessor “intelectual” da burocracia sindical Lulista, o que lhe rende até hoje muitas vantagens financeiras (atualmente é responsável pelo comércio exterior com a China)”.

Em relação a primeira parte da afirmação, ficou claro que entre 1976 e 1990, Wladimir prosseguiu como dirigente político, seja da dissidência, seja do PT. Em relação à segunda parte da afirmação, é pura calúnia. 

Quem conhece o padrão de vida de Wladimir, que aliás segue trabalhando até hoje, sabe que simplesmente não procede a afirmação acerca de “muitas vantagens financeiras”. Quem conhece o seu trabalho, sabe que sua atividade como consultor nas relações Brasil-China é real, ou seja, não se trata de lobby nem advocacia administrativa, mas sim produção de estudos, análises, palestras, organização de visitas, feiras etc. E, por fim, ele nunca foi “responsável pelo comércio exterior com a China”, seja lá o que isto quer dizer.

Por fim, concordamos com o texto da LBI no seguinte: cabe honrar a memória e a luta de todos os militantes da esquerda comunista que caíram sob o tacão assassino da ditadura do capital. Uma bom começo é escrever textos mais sérios. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Décima-segunda jornada de formação política


A décima-segunda jornada de formação política promovida pela Articulação de Esquerda será realizada de 25 de janeiro a 2 de fevereiro de 2014, na cidade de Serra (ES).

A jornada é composta por quatro cursos, que serão oferecidos simultaneamente:

-curso 1: estudo das resoluções da AE
-curso 2: luta de massas e estratégia socialista
-curso 3: eleições 2014: planejamento e comunicação
-curso 4: Leitura dirigida de O Capital e estudo do desenvolvimento capitalista no Brasil

A jornada é aberta a toda militância petista interessada.

As inscrições podem ser feitas através da página www.pagina13.org.br, onde também estão as informações sobre o local do curso e a taxa de inscrição.

A coordenação geral da jornada é dos companheiros Lício Lobo (liciolobo@uol.com.br) e Rodrigo César (rodrigocesar.jpt@gmail.com).

O curso 1 (estudo das resoluções da AE) será coordenado pelo Rodrigo César.

O curso 2 (luta de massas e estratégia socialista) será coordenado pelo Bruno Elias (brunoelias.jpt@gmail.com).

O curso 3 (eleições 2014: planejamento e comunicação) será coordenado pelo Adriano Oliveira (adriano.ptrs@terra.com.br).

O curso 4 (Leitura dirigida de O Capital e estudo do desenvolvimento capitalista no Brasil) será coordenado pelo Valter Pomar (pomar.valter@gmail.com).

Durante o curso serão realizadas, também:
-uma reunião para discutir o projeto gráfico e o projeto editorial do jornal Página 13
-uma reunião para discutir o projeto gráfico e o projeto editorial da páginawww.pagina13.org.br
-uma reunião para discutir nossa atuação nas redes sociais
Além disso, será realizada (nos dias 1 e 2 de fevereiro de 2013) uma reunião ampliada da direção nacional da Articulação de Esquerda.

A seguir, o detalhamento da grade dos quatro cursos:

Dias 25 e 26 de janeiro
(nesses dois dias, todos os participantes dos quatro cursos estarão juntos)
-apresentação dos participantes
-apresentação do curso e detalhes organizativos
-aula-debate sobre a linha política da Articulação de Esquerda

Dia 27 de janeiro
-participantes do curso 1 e do curso 4 estarão estudando a história da luta pelo socialismo no mundo
-participantes do curso 2 estarão debatendo a teoria e a prática da atuação do PT nos movimentos populares
-participantes do curso 3 estarão debatendo a conjuntura nacional e as eleições 2014

Dia 28 de janeiro
-curso 1: história do Brasil (até 1980)
-curso 2: políticas setoriais
-curso 3: oficina de planejamento de campanha eleitoral
-curso 4: leitura dirigida de O Capital

Dia 29 de janeiro
-curso 1: história do PT (até 2002)
-curso 2: políticas setoriais
-curso 3: oficina de comunicação nas campanhas eleitorais
-curso 4: leitura dirigida de O Capital

Dia 30 de janeiro
-curso 1: história dos governos Lula e Dilma
-curso 2: políticas setoriais
-curso 3: exercícios de planejamento das campanhas de deputados/as militantes da AE
-curso 4: o método dialético

Dia 31 de janeiro
-curso 1: história e desafios da AE
-curso 2: debate sobre os desafios de nossa gestão a frente da SNMP
-curso 3: exercícios de planejamento das campanhas de deputados/as militantes da AE
-curso 4: o debate sobre o desenvolvimento capitalista no Brasil

Dias 1 e 2 de fevereiro
(nesses dois dias, os participantes dos quatro cursos estarão juntos)
-avaliação da décima-segunda jornada
-debate e resolução sobre a SNMP
-debate e resolução sobre nossa tática eleitoral em 2014
-calendário e resoluções organizativas da AE em 2014

sábado, 14 de dezembro de 2013

Avaliação do PED 2013

O texto a seguir foi debatido e aprovado pela direção nacional da AE, reunida nos dias 11 e 12 de dezembro de 2013. Esta versão final está sendo submetida à revisão final e será divulgada oficialmente nos próximos dias.

A Articulação de Esquerda concluiu o segundo turno do PED com uma grande vitória, no estado do Rio Grande do Sul, onde ajudamos a eleger o presidente Ary Vanazzi. Noutros estados e cidades, alcançamos vitórias políticas, sofremos derrotas eleitorais e assistimos, em geral sem concordar, acordos que contornaram algumas disputas de segundo turno, como no caso de Pernambuco.

Quanto ao conjunto da eleição das direções partidárias, o dado fundamental a ser levado em conta na avaliação nacional do processo, é que a maioria dos votantes não optou pelas chapas e candidaturas que defendiam mudanças na estratégia, na tática e no padrão de funcionamento do PT.

Não apenas os filiados-eleitores, mas inclusive parcela majoritária dos militantes do PT seguiu apoiando, conscientemente ou por simples inércia, a política de centro-esquerda.

Apesar de parcelas crescentes reconhecerem os limites desta política e o acúmulo de problemas decorrente, a maioria dos votantes não quis tirar as consequências disto na hora de votar nas chapas e candidaturas.

Portanto, é preciso dizer que a maioria dos que votaram no PED não transformou em voto o recado que as ruas nos deram em junho de 2013, em mobilizações que podem voltar a ocorrer, dado que certas condições objetivas e subjetivas seguem presentes.

Não transformou em voto a constatação de que mudou a postura do grande Capital frente ao nosso governo, mudança de que decorre o atual cenário de dificuldades econômicas, seja no que ele tem de real, seja no que tem de especulação artificial.

Não transformou em voto a percepção de que o cenário de 2014 aponta para uma campanha e provavelmente para um segundo turno acirradíssimo.

Não transformou em voto a percepção de que há um grande desgaste do PT junto à juventude em geral e junto à juventude trabalhadora em particular.

A opção conservadora e continuísta que predominou no PED poderá ter implicações graves sobre o futuro próximo e mediato do PT e da luta política no Brasil. Isto porque a situação política exige não apenas ousadia e renovação, mas principalmente outra orientação política e outra conduta organizativa. O desfecho da AP470 é mais uma prova disto.

Além de criticar a opção política da maioria dos votantes, bem como criticar o gosto do grupo vencedor no PED pelo aparato em detrimento da política, assim como pela “tragédia anunciada” que foi a organização do PED, consideramos imprescindível reconhecer, de maneira autocrítica, as debilidades do conjunto de tendências, chapas e candidaturas que propunham mudanças na política e no comportamento do Partido.

Desde 2005, a chamada esquerda do PT vem sofrendo um processo de divisão e redução de sua influência, que somadas ao processo de burocratização e degeneração da vida interna partidária, torna cada vez mais remota a possibilidade da minoria de esquerda virar maioria. Apesar deste contexto tão difícil, no PED 2013 a chamada esquerda petista saiu dividida em várias candidaturas e chapas. 

Uma de nossas tarefas é recompor a esquerda petista, inclusive para que volte a existir a possibilidade da minoria virar maioria. Deste ponto de vista, nossa principal conquista no PED 2013, em âmbito nacional, foi termos conseguido resistir e impedir o “aniquilamento” que se anunciava, quando houve a cotização artificial de dezenas, talvez centenas de milhares de filiados. Saudamos, portanto, a continuidade, no novo Diretório Nacional, de representantes de variados setores da esquerda petista.

Mas embora “sobreviver” seja condição necessária, é absolutamente insuficiente para quem deseja conduzir o PT a adotar outra orientação política. Temos a nossa frente o desafio de ampliar e muito a presença de nossa política junto a classe trabalhadora, na luta social, política, eleitoral e de ideias.

O PED 2013 foi marcado pela adesão –ao grupo majoritário—de grupos e indivíduos que antigamente integravam a esquerda petista. Também a tendência denominada “Movimento PT” optou por aderir ao grupo majoritário.

É importante dialogar com os dirigentes, militantes e bases dos setores que aderiram ao grupo majoritário, mostrando os efeitos negativos disto para o Partido e, em alguns casos, até mesmo para os que aderiram. Os resultados políticos e eleitorais do PED fornecem material abundante para mostrar que não se inaugura um novo período, abrindo mão da história e do debate franco das divergências.

Entre as chapas e candidaturas que defenderam mudanças, destaca-se a denominada Mensagem ao Partido. A principal diferença que temos em relação a Mensagem é que não consideramos que sua visão estratégica seja efetivamente alternativa à defendida pelo grupo majoritário.

É a ausência de uma visão estratégia realmente alternativa que explica, em nossa opinião, as profundas contradições existentes na ação da Mensagem antes, durante e depois do PED. 

Exemplos destas contradições podem ser vistos, por exemplo, nos estados de Pernambuco, Espírito Santo e Paraíba, onde setores integrantes da Mensagem defendem a subordinação do Partido a forças políticas de direita, externas ao PT. 

Outro exemplo destas contradições: no estado de São Paulo, a Mensagem apoiou a candidatura presidencial apresentada pelo grupo majoritário. Diferentemente do Rio Grande do Sul, onde os vários setores da Mensagem foram, todos eles, parte fundamental da vitória de esquerda com Ary Vanazzi.
  
Finalmente, mesmo naquele terreno onde a Mensagem se movimenta com mais desenvoltura, a saber, a crítica aos procedimentos organizativos da maioria, percebemos uma postura ambivalente, crítica para fora, mas conciliadora para dentro, como ficou evidente no rumoroso episódio da denúncia de “compra de votos” durante o PED.

Do ponto de vista organizativo, o PED 2013 foi pior do que todos os anteriores. Podemos dizer que há um amplo consenso sobre isto dentro do Partido. O problema é que este consenso esconde posições muito distintas. 

Por um lado estamos nós e outros setores, que defendemos que o processo de eleição das direções partidárias seja feito através de encontros partidários. 

Por outro lado, estão os que defendem “qualificar” o PED, por meio de adoção de regras que reduzam o peso dos filiados-eleitores e ampliem o peso dos militantes, na linha do que foi aprovado no IV Congresso do Partido e posteriormente revogado pelo Diretório Nacional. 

Finalmente, há os que defendem ampliar e facilitar a participação, reforçando a influência dos filiados-eleitores em detrimento dos militantes.

Em termos objetivos, o número de filiados que participou do PED 2013 foi inferior ao PED 2009. Em 2009 votaram 518.192 filiados e filiadas. Em 2013, votaram 425.604 petistas.

Exatos 387.837 filiados cotizaram (ou foram cotizados), mas não compareceram para votar, deixando clara a artificialidade (e a influência do poder econômico) no processo de filiação e cotização. A artificialidade foi tamanha que só restou, a um dos responsáveis pela organização do PED, falsificar a realidade para tentar explicar a quebra: "O voto hoje é mais criterioso, as pessoas precisam passar por atividade partidária, tem que efetuar contribuição financeira. É um processo muito mais complexo. No PT, não é só voto. As pessoas têm que participar efetivamente do processo", disse a pessoa citada.

Somando os que votaram nulo (10.343) ou branco (36.317), com os que estavam cotizados mas não compareceram (387.837), temos 434.497 filiados, número maior do que os dos 421.507 que votaram em alguma chapa.

É preciso analisar detidamente os motivos pelos quais tantos filiados optaram por votar em branco ou nulo para presidente e chapas nacionais. Assim como é necessário compreender por quais motivos a “abstenção de cotizados” variou, de cidade para cidade, de estado para estado.

A quebra na votação pode ser ilustrada pelo resultado presidencial: em 2009 José Eduardo Dutra ganhou no primeiro turno com 58% e 274 mil votos. Rui Falcão foi eleito agora com 69,5% mas com 268 mil votos.

A maioria dos que votaram não participou de nenhum debate, nem tampouco teve acesso ao jornal com as posições das chapas e candidaturas nacionais. Jornal que o grupo majoritário não queria enviar, motivo pelo qual foi postado muito tarde, chegando na casa de parte dos filiados depois da eleição.

Setores do PT trabalharam para esvaziar e esterilizar a discussão. Em alguns estados, como São Paulo, não ocorreu nenhum debate nacional. Mesmo onde o debate ocorreu, sua profundidade foi inferior ao necessário. Também devido à falta de debate, o PED não ajudou a elevar a qualidade das novas direções.

Apesar do enorme esforço político e material, o resultado final do PED nacional não provocou alterações significativas na composição do Diretório e da Comissão Executiva Nacional do PT. Exemplo disto: em 2013 as chapas que apoiaram Rui Falcão receberam 69% dos votos; em 2009, os mesmos setores obtiveram cerca de 70%.
  
Claro que para os setores minoritários, um pequeno deslocamento pode ser a diferença entre estar ou não na direção do PT. A Articulação de Esquerda passou por esta prova. Conseguimos sair do PED 2013 com a mesma presença na direção nacional do PT que tínhamos quando começou o processo: 4 integrantes no Diretório Nacional, um dos quais na Comissão Executiva Nacional.

Ademais, tivemos resultados nas eleições estaduais e municipais que expressam nosso enraizamento na classe trabalhadora, nos movimentos sociais, na institucionalidade, no debate de idéias e no Partido. 

Nosso resultado global, obtido contra todo tipo de pressão externa e debilidades internas, foi produto em parte da quebra na votação geral, mas também de nossa ação, inclusive de uma correta decisão política de priorizar, durante o PED, o debate político-programático. Assim, sem prejuízo da necessária autocrítica de nossos erros e debilidades, saímos deste PED com moral alta e sentimento de dever cumprido.

Para nos representar no próximo Diretório Nacional, apresentamos como titulares os seguintes companheiros e companheiras: Bruno Elias, secretário executivo do Conselho Nacional de Juventude do Governo Federal; Jandyra Uehara, da executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores; Adriano Oliveira, secretário de formação política do PT-RS; Rosana Ramos, da atual Comissão de Ética Nacional do PT.

Nossa chapa indicou como seus primeiros suplentes: Valter Pomar, dirigente nacional do PT; Iriny Lopes, deputada federal PT-ES; Jonatas Moreth, da executiva nacional da juventude do PT; Ana Affonso, deputada estadual PT-RS; Rubens Alves, dirigente nacional do PT; Ana Lucia, deputada estadual PT-SE; Mucio Magalhaes, dirigente nacional do PT; Adriele Manjabosco, diretora da UNE; Marcel Frison, secretário de habitação do governo do Rio Grande do Sul; Inês Pandeló, deputada estadual do PT-RJ..

Para nos representar na Comissão Executiva Nacional, a chapa “A Esperança é Vermelha” indicou o companheiro Bruno Elias, um jovem com experiência nos movimentos sociais, no governo e no Partido. Alguém à altura da tarefa política e afinado com a necessidade de renovação, que vem sendo vocalizada (mas nem sempre praticada) por diversos líderes partidários.

Propusemos e o Diretório Nacional, em sua reunião dia 11 de dezembro aprovou, que o companheiro Bruno Elias assumisse a Secretaria Nacional de Movimentos Populares. Estamos seguros de que ele terá, a frente desta secretaria, o mesmo compromisso partidário demonstrado em outras tarefas, compromisso também demonstrado por representantes de nossa tendência, no período recente, a frente das tarefas de formação politica e relações internacionais.
A direção nacional da AE concluiu sua avaliação preliminar do PED, fazendo um reconhecimento e um agradecimento aos filiados e filiadas petistas que confiaram em nós, à militância que fez nossas campanhas, aos que foram candidatos e candidatas à direção e presidência.

Seja onde o resultado foi expressivo, seja onde foi modesto, fizemos uma campanha politicamente clara, defendendo mudanças profundas na estratégia, na tática e no funcionamento do PT. 

Nas redes sociais, nos destacamos por uma campanha ágil, criativa e bonita, que ajudou a quebrar o silêncio da mídia (inclusive de parte da mídia dita alternativa) acerca do PED. 

Disputamos o PED da forma como sempre deveria ser, oferecendo nossas ideias e nossa disposição militante. E seguimos na luta por um PT democrático-popular e socialista, com muita esperança vermelha e sem medo de ser feliz.