O vídeo cujo link está abaixo contém parte da apresentação que fiz, da tese "Em defesa de nossa história".
sábado, 20 de agosto de 2011
Apresentação da tese Em defesa de nossa história, no Congresso da AE
Graças ao trabalho de edição do companheiro Renam Brandão, estão agora disponíveis os vídeos do congresso que a Articulação de Esquerda realizou nos dias 29, 30 e 31 de julho de 2011.
O vídeo cujo link está abaixo contém parte da apresentação que fiz, da tese "Em defesa de nossa história".
O vídeo cujo link está abaixo contém parte da apresentação que fiz, da tese "Em defesa de nossa história".
Um PAC latinoamericano
O foco da nossa discussão é o balanço da atuação do governo Lula na área externa, de 2003 até agora. Para fazer essa discussão é necessário contextualizar: qual país, qual governo. Mas o risco é o contexto virar o principal e o tema da política externa ficar em segundo plano. Por isso vou usar uma expressão diplomática que aprendi nesse convívio: “tomarei nota” do que foi dito a respeito do país e do governo e não vou entrar nas duas discussões específicas, sobre as quais eu tenho uma interpretação um pouco distinta daquela que o Marco Aurélio e o Samuel apresentaram.
Só queria fazer um registro: o Marco Aurélio e eu somos historiadores, e é sempre um risco quando dirigentes partidários abordam a história do seu próprio partido. A verdade é que o pensamento petista sofreu um processo de empobrecimento, que não iniciou em 2003. Quem lê as resoluções do partido, percebe que há um processo de sofisticação, que se interrompe em um determinado momento, a partir do qual os temas mais programáticos, a discussão sobre os grandes caminhos seguidos pelo país, vai perdendo lugar para uma visão cada vez mais tática, na qual a formulação política passa a ser funcional, no mau sentido da palavra.
Esse não é um problema que se resolve fazendo contraposições entre o que o partido fez e aquilo que o governo deixou de fazer. Na verdade, vivemos um fenômeno que está presente em todos os processos latino-americanos: a chegada da esquerda ao governo nacional absorve energias, pensamentos, quadros e empobrece os partidos. Na prática o partido, no sentido histórico da palavra, passa a ser o governo. A Venezuela é um bom exemplo, noutros países há maior resistência a isso. No Brasil há uma vida partidária que resiste, mas o fenômeno existe.
Eu faço um balanço geral muito positivo da política externa do governo Lula. Acho que essa política antecipou a etapa que estamos vivendo, agora, no conjunto do governo. Ou seja, desde o princípio ela foi orientada para o objetivo de defender os interesses nacionais, de buscar um caminho de desenvolvimento, fortalecimento do Estado e transformar o Brasil num dos pólos, ou parte integrante de um dos pólos de poder em âmbito mundial. Portanto, foi uma política externa impulsionada por uma visão muito crítica tanto frente ao neoliberalismo, quanto frente ao papel que os Estados Unidos jogam no cenário internacional. Idéias que até 2005 não eram hegemônicas no conjunto do governo Lula.
Entretanto, acho necessário precisar melhor qual é a natureza da política externa do governo Lula. Nós queremos que seja uma “política de Estado”, uma política amplamente hegemônica na sociedade brasileira, mas ainda não é. E ainda não é uma política de Estado, fundamentalmente porque as classes dominantes no Brasil não compartilham uma parte importante dessa política.
Nossa política externa também não é uma política de partido, inclusive no sentido de ser uma “política de esquerda”. Isto só é possível em momentos muito especiais, quando ocorrem grandes crises e processos revolucionários. Nesses períodos pode-se esperar que um Estado execute uma “política de esquerda”. Porém, nos períodos normais a política externa expressa “interesses de Estado”, interesses nacionais que são distintos dos interesses dos partidos que governam esses Estados, mesmo (ou especialmente) quando eles são de esquerda.
A política externa do governo Lula é a política externa de um Estado periférico com enorme potencial. Se a esquerda hegemonizar este Estado, esta política externa pode ter duas dimensões. Uma dimensão é proteger os interesses nacionais do país. Esses interesses nacionais muitas vezes são os interesses das empresas capitalistas que atuam no exterior ou são interesses do Estado no sentido mais amplo da palavra, um Estado capitalista, que tem um potencial “sub-imperialista” que não devemos subestimar, mascarar e nem disfarçar.
A outra dimensão da política externa do governo Lula é democrático-popular. Um Estado periférico sob hegemonia de esquerda, que busca construir uma nova ordem internacional e busca uma integração continental com viés popular e com viés democrático.
Portanto, nossa política externa é contraditória - e devemos recuperar o valor positivo da palavra contradição - porque ela expressa dois impulsos simultâneos, impulsos que têm níveis de cooperação e contradição entre si.
Desta natureza contraditória da política externa decorre que os partidos de esquerda devem ter uma dupla atitude em relação a ela: têm que defendê-la no seu conjunto contra a direita e, ao mesmo tempo, deve ter uma atitude permanente de “vigilância e pressão” para garantir que predomine o viés democrático-popular.
Em dois textos (“As diferentes estratégias das esquerdas latino-americanas” e “A política externa do governo Lula”), desenvolvo os vários aspectos que deveriam compor esse trabalho de acompanhamento de política externa por parte de um partido como o PT.
Especialmente a defesa dessa política frente aos ataques da oposição de direita e evitar que nela predominem os interesses privados “sub-imperialistas”. Às vezes isso significa defender os interesses populares versus os interesses capitalistas. Porém, às vezes se trata também de defender os interesses do desenvolvimento do capitalismo no Brasil, contra os capitalistas individuais que buscam o lucro imediato e impedem uma atuação de longo prazo do Estado, mesmo naquilo que os interessa no longo prazo. Por exemplo, as concessões que foram feitas ao Paraguai e à Bolívia, no médio e longo prazo serão úteis ao grande capital brasileiro, inclusive para os que reclamaram.
Terceiro, estimular um viés latino americano e caribenho. A nossa política externa, do ponto de vista operacional, será por muito tempo uma política de integração da América do Sul, mas ela deve ter um olhar mais amplo. Neste sentido, nossa atitude no caso de Honduras é muito importante, assim como a postura do Brasil frente a Cuba.
Quarto, reafirmar qual é a natureza da política das metrópoles. Uma coisa é dizer, como fez o Samuel, que temos uma relação histórica com os Estados Unidos e continuará sendo assim pelas próximas décadas. Eles não vão desaparecer, não vão colapsar, vão continuar sendo um país importante e um Estado importante para nossas relações. Uma das decorrências disto é não assumir uma retórica bélica contra os EUA, o que ademais seria uma estupidez, dada a correlação de forças no terreno militar. Por outro lado, não se pode cair no oposto, que é naturalizar essas relações, não perceber e/ou deixar de destacar a dimensão imperialista da política externa norte-americana, bem como da política externa da União Européia.
Quinto, os partidos têm a obrigação de estimular a construção da dimensão cultural e popular de massa do internacionalismo e da integração.
Sexto, articular a política externa com o desenho estratégico de longo prazo. Isto posto, encerro minha contribuição sobre a a natureza da política externa e passo a falar dos cenários em que vamos atuar nos próximos anos e décadas.
Vivemos num período de instabilidade internacional de média duração. O ideário neoliberal colapsou, mas não será substituído no curto prazo por outro pensamento hegemônico, até porque o chamado pensamento crítico, nas suas variadas dimensões, passou 25 anos na defensiva.
A hegemonia dos Estados Unidos sofreu um golpe, mas não acabou. A hegemonia está em declínio, mas isso não significa que tenha deixado de existir e, por outro lado, não há no horizonte nenhuma outra potência hegemônica substituta, o que nos empurra para um mundo de multipolaridade. Não é porque os Estado Unidos queiram, é porque eles não podem evitar isso e não há outro que possa assumir o lugar dos Estados Unidos. Só que isso não vai ser um processo tranqüilo, vai ser um processo extremamente conflituoso. Basta ver a lentidão com que se produzem reformas na arquitetura do sistema econômico e político internacional, porque uma reforma rápida significaria perda de poder por parte das potências, que, por isso, retardam esse processo.
Há uma crise no padrão de acumulação capitalista, sem que haja uma alternativa sistêmica clara no horizonte. E, no caso latino-americano, há uma crise do neoliberalismo e do desenvolvimentismo conservador.
Temos falado muito de crise do neoliberalismo, às vezes deixando de destacar que o Brasil teve, antes do neoliberalismo, 50 anos de desenvolvimentismo, acerca do qual hoje gostamos de destacar os aspectos progressistas. Porém, nós construímos a esquerda brasileira contra o padrão dominante de desenvolvimentismo.
A batalha eleitoral de 1989 decidiu por que lado se daria a superação do desenvolvimentismo conservador e naquela ocasião foi para a direita. Ocorre que o modelo neoliberal não ofereceu uma saída de longo prazo para o Brasil e agora estamos voltando, de certa maneira, aos patamares do conflito dos anos 80: se vamos ter outro ciclo de desenvolvimento e qual é a natureza dele. Se conservadora, progressista ou democrático-popular.
Frente a estes cenários, a política externa brasileira faz três movimentos, dois muito claros e um nem tanto.
Primeiro, ela faz um movimento por democratizar a ordem internacional, porque num contexto de crise & transição, quanto menos concentração de poder, melhor para nós podermos seguir o caminho que acharmos mais adequado.
Segundo, um movimento para participar dos centros de poder da ordem tal como ela é atualmente, seja com o objetivo de impulsionar mudanças, seja com o objetivo de preservar os nossos espaços ou o de buscar os espaços correspondentes à nossa força.
O terceiro movimento, que não considero claro, é a operação em favor de uma mudança na ordem internacional. Este movimento não está tão claro, porque quando começamos a discutir o conteúdo desta mudança, nossa reflexão se torna tática novamente.
Falta refletir mais sobre os cenários. Falamos de um processo de transição da atual para outra ordem, que não sabemos qual é, sem atentar que será um processo hiper conflituoso. Em certa medida, estamos voltando a um padrão de organização do sistema mundial que lembra o pré-1914.
Por exemplo, o tema da moeda. Foi mais “fácil” tratar desta questão, depois da 2ª Guerra Mundial, quando havia uma hegemonia clara. Hoje estamos na seguinte situação: existe uma moeda internacional, que nos causa problemas porque expressa uma hegemonia, mas como substituí-la se esta hegemonia ainda existe mesmo em declínio?
Um exemplo de reflexão tática: como enxergamos os Estados Unidos. Na esquerda, o grau de conhecimento sobre os Estados Unidos, sobre as tendências de médio e longo prazo naquela sociedade, sobre como ela opera, ainda é muito baixo. A hegemonia americana cria uma espécie de opacidade sobre seu funcionamento real. Eles nos vendem uma imagem com a qual dialogamos, entretanto, conhecendo pouco da situação real. Por exemplo, o que é que está na base de situações como Honduras, bases na Colômbia e 4ª Frota? É uma luta de poder dentro do aparato do Estado norte-americano? É a continuidade da política de Estado tradicional, independentemente de quem está na gestão? É uma sinalização de que os Estados Unidos vão buscar no médio prazo reverter o cenário internacional, utilizando a sua força militar? As três coisas?
Para concluir: qual deve ser a novidade da política externa do governo Dilma em relação ao governo Lula? A chave já está anunciada pelo próprio Lula na posse do Ministro Padilha, quando ele falou que um país como o Brasil tem que ajudar os outros – não me lembro da expressão exata. A mesma idéia está expressa pelo Samuel no livro “Desafios do Brasil numa era dos gigantes”, quando ele fala de um Plano Marshall na América Latina. Não gosto da expressão, mas o sentido geral da idéia é correto.
É preciso desenvolver uma integração que não seja assimétrica, para deter a vocação “sub-imperialista” que se manifesta nas grandes empresas brasileiras presentes na região. Para fazer da região um pólo de poder, não apenas do Brasil ou de um pólo de poder que se apóia no seu quintal, precisamos ter uma integração baseada na elevação da capacidade e da sinergia produtiva da região como um todo.
Embora já tenhamos começado a fazê-lo, isso tem que adquirir um caráter sistêmico, tem que ser o eixo organizador da política de integração no mandato Dilma. Um eixo que não seja o comercial, não seja só a integração política, mas seja uma espécie de PAC latino-americano, para usar esta imagem com os defeitos que ela tem.
Versão editada deste texto foi publicada no livro 2003-2010: O Brasil em transformação, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2010.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Algunas ideas sobre la lucha por el socialismo en el siglo XXI
Los organizadores del Foro Internacional “Los nuevos retos de América Latina: Socialismo y Sumak Kawsay” me invitaron a hablar sobre las “diferencias entre el Socialismo del Siglo XX y el Socialismo del Siglo XXI”. Y propusieron enfatizar dos temas: “la democracia participativa” y el “nuevo sujeto revolucionario”.
Los socialistas del siglo XXI no pueden alegar ignorancia acerca de cuan compleja y demorada es la lucha por superar el capitalismo y transitar a una sociedad sin clases, sin Estado, sin explotación ni opresión. La lucha por el poder puede resolverse en el plazo de los años, pero la construcción de otra sociedad es un proyecto de décadas y siglos.
El capitalismo surgió en Europa Occidental y de allá se expandió para el mundo. Talvez influenciados por esta trayectoria, los socialistas del siglo XIX imaginaban que las primeras victorias del socialismo ocurrirían en Europa, donde el capitalismo estuviese más desarrollado, principalmente Alemania. Pero la primera revolución socialista victoriosa ocurrió en la Rusia de 1917, en la frontera entre Europa y Asia, entre Occidente y Oriente.
Lenin ya había indicado que Rusia constituía exactamente el “vínculo más débil de la cadena imperialista”. Admitiendo ser más fácil tomar el poder allí que en Alemania, Lenin reconocía, sin embargo, que en Rusia sería más difícil construir el socialismo, debido al atraso político, social y económico. La solución vendría, supuestamente, de la solidaridad de la posterior y subsiguiente revolución socialista en los países europeos más avanzados, estimulada exactamente por el ejemplo del proletariado ruso. Sin embargo, si bien de allá vino la solidaridad, desde 1917 hasta hoy no hubo ninguna revolución socialista victoriosa en las potencias capitalistas occidentales.
Bloqueada al Oeste, la revolución se expandió en dirección Este. Ya en 1918, Stalin diría que “el gran significado mundial de la Revolución de Octubre consiste principalmente en el hecho de haber lanzado un puente entre el Occidente socialista y el Oriente oprimido, constituyendo un nuevo frente de la revolución que, de los proletarios del Occidente, a través de la revolución de Rusia, llega hasta los pueblos oprimidos de Oriente, contra el imperialismo mundial”.
Al proyectar el socialismo en Oriente, el gobierno soviético y el Partido Comunista Ruso (bolchevique) provocaron mutaciones en el proyecto y la estrategia originarias de Marx. Para este, el socialismo sería una etapa de transición entre el capitalismo y el comunismo. Llevado a Oriente, poco a poco el socialismo pasó a ser presentado como una etapa de transición entre el precapitalismo y el comunismo.
Esta novedad era una herejía a la luz del marxismo occidental del siglo XIX, pero no era una idea extraña a la tradición socialista rusa: los narodniks se caracterizaron exactamente por intentar construir un camino que fuese de feudalismo ruso al socialismo, sin pasar por el capitalismo. Lenin inició su trayectoria política combatiendo esa teoría, pero el curso de los acontecimientos lo llevó a capitanear un experimento que podría muy bien ser considerado una variante del “populismo”, acusación que por cierto le fue dirigida en la época por sus adversarios en el movimiento socialdemócrata.
La guerra de 1939-1945, que empezó antes en Asia, con la ofensiva japonesa de 1937, es el telón de fondo de la segunda gran revolución socialista victoriosa. Esta vez ya no en territorio de frontera, sino totalmente oriental: la revolución china de 1949.
Estrictamente, hay que considerar el periodo entre la Guerra del Opio y 1949 como un largo periodo de transición, que en 1911 obtiene una solución provisional y en 1949 una solución definitiva para el gran dilema de la autodeterminación del pueblo chino. El curso de la milenaria civilización, interrumpido de manera violenta por el imperialismo europeo y japonés, es desobstruido con la victoria del Ejército Popular de Liberación, dirigido por el Partido Comunista de China, victorioso fundamentalmente debido a su apoyo en las masas campesinas y urbanas.
Se el Partido Obrero Social-Demócrata Ruso (apodado de bolchevique y, en 1918, renombrado Partido Comunista) supo ser heterodoxo frente a sus congéneres europeos, los comunistas chinos supieron se heterodoxos delante de muchas de las orientaciones de la III Internacional Comunista. Integraron de manera consistente la teoría del imperialismo, la cuestión colonial, la autodeterminación de los pueblos y la lucha por el socialismo. Construyeron una ingeniosa fórmula que hacía del campesinado fuerza principal de la revolución, pero preservando el “papel dirigente del proletariado”, en la práctica encarnado en el propio Partido. Frustrada la copia de la insurrección urbana de tipo ruso, aplicaron una estrategia de “cerco de la ciudad por el campo”, apoyado en una “guerra popular prolongada”. Y a través de la fórmula de la “Nueva Democracia”, buscaron construir un puente de largo alcance entre el atraso económico chino y el proyecto comunista que animaba la dirección revolucionaria.
Sesenta años después, siguen visibles los dos pilares de este puente: por un lado, la innegociable defensa de la soberanía nacional; por otro lado, la atenta consideración de los intereses del campesinado. Curiosamente, será en gran medida la radicalización de los campesinos pobres (sin los cuales la revolución no habría vencido) que explica los zigzags que marcaron los primeros treinta años del poder instalado en 1949. El “gran salto adelante” y la “revolución cultural proletaria” expresaban, en esencia, la voluntad de rebasar el capitalismo, echando mano del voluntarismo ideológico y apoyándose en fuerzas productivas muy atrasadas. Este socialismo campesino fracasó en gran medida por no haber sido capaz de ofrecer salvo un igualitarismo en la pobreza.
Las reformas chinas principiadas en 1978 (de manera similar a la Nueva Política Económica soviética de los años 1920) representaron, a su vez, la reafirmación de un aspecto central de la tradición marxista: la idea de que un modo de producción solo desaparece cuando desarrolla todas las fuerzas productivas que es capaz de contener. En otras palabras: solo es posible superar el capitalismo, en alguna medida desarrollándolo. Lo que, dicho sea de paso, corresponde a la acepción hegeliana del término “superación”.
Desde un punto de vista teórico, el concepto de socialismo como transición al comunismo es totalmente compatible con la existencia, aunque sea por un largo periodo, de la propiedad privada, el mercado y de las relaciones capitalistas de producción. Pero para los marxistas del siglo XIX, la transición socialista sería temporalmente corta, una vez que tendría inicio en los países capitalistas avanzados; o, por lo menos, contaría con el apoyo de estos (tal era la expectativa de los bolcheviques al tomar el poder en 1917). La idea de una transición corta pierde sentido, sin embargo, cuando el punto de partida es una sociedad esencialmente precapitalista, haciendo que el Estado producto de la revolución sea obligado no solo a controlar, sino marcadamente a estimular la explotación capitalista de la fuerza de trabajo, como medio para aumentar la riqueza social y la productividad media, presupuestos para una sociedad donde haya o máximo posible de abundancia y tiempo libre.
Desde este punto de vista podemos decir que los comunistas chinos respetan la tradición marxista clásica, cuando sostienen que están todavía en la “fase inicial del socialismo”, que esta durará muchas décadas y que su objetivo en esta fase es el de construir una sociedad “modestamente acomodada”. Y son igualmente coherentes cuando consideran esencial la preservación de la paz, pues conocen por experiencia práctica y observación el costo económico-social de las guerras y los límites que tiene (para el proyecto de orientación socialista) el tipo de desarrollo proporcionado por la inversión en el complejo militar. Sin embargo, la proyección exterior del Estado chino genera conflictos que pueden muy bien ser equiparados a los causados por la expansión económica de países capitalistas. Pues lo que está en cuestión, en este terreno, es la disputa de mercados y materias primas, además de hegemonizar y proteger territorios, así como preservar reservas financieras.
Algunas semejanzas con el caso de la URSS pueden ser trazadas. Superadas, alrededor de 1925, las expectativas en una revolución socialista inmediata en los países occidentales, la estrategia política y militar soviética fue tornándose cada vez más defensiva. Esto fue acompañado por la creación de un cinturón de protección, bien como de “cabezas de puente” político ideológicas en el interior de los países capitalistas centrales. Pero el “expansionismo soviético” fue esencialmente una creación de la máquina de propaganda de los Estados Unidos. El pacto con la Alemania nazi y los ataques contra Finlandia y Polonia respondían al mismo objetivo: operaciones defensivas, frente al temor de que Inglaterra y Francia empujasen a los alemanes en el sentido de buscar su “espacio vital” en el Este. Y cuando la Segunda Guerra termina y comienza la división de áreas de influencia, la postura general de la URSS es bastante moderada.
Al tiempo que adoptaba una línea defensiva en el plano político-militar, el PC soviético construyó una orientación estratégica de buscar el socialismo a través de la coexistencia y competición pacífica con el capitalismo. Coherente con esto, se formuló también la tesis de la “transición pacífica” para el socialismo, buscando resolver (en el papel al menos) otra paradoja: las revoluciones socialistas ocurrieron en general en condiciones de guerra, pero las guerras arruinan las condiciones de construcción del socialismo. En los años 1950, el PC chino acusó la formulación soviética de “revisionismo”, dando inicio a un enfrentamiento que resultaría en la ruptura entre China y la URSS, así como entre los respectivos partidos. Irónicamente, la orientación actual del PC chino frente al mundo capitalista es, exactamente, buscar equiparar y superar.
En cierto sentido, la estrategia mundial del Partido Comunista chino es una versión concentrada y actualizada de aquella que fue adoptada por el PC soviético, especialmente a partir de su XX congreso (1956). En el caso de la URSS, esta orientación no siempre parecía moderada, sea por causa de la confrontación entre el campo socialista versus el capitalista (con momentos “fríos” y otros “calientes”, como en las guerras de Corea y Vietnam); sea debido a la actuación del movimiento socialista internacional, en sus variadas ramificaciones; sea debido a la propaganda anti-comunista.
Hoy, la no existencia de una polarización entre los “campos” capitalista y socialista, asociada al debilitamiento de todas las familias ligadas al movimiento socialista, permite constatar con más claridad el bajo perfil de la estrategia china. Esta estrategia resulta, al menos en parte, de una interpretación muy realista acerca del actual periodo histórico. Ya en los años 1970, sectores del Partido Comunista chino apuntaban a la existencia de un reflujo de los procesos revolucionarios (efectivamente, Vietnam fue la última gran revolución socialista victoriosa. La revolución nicaragüense no fue socialista y la revolución de Irán en 1979 responde a otro tipo de proceso histórico).
Al inicio de los años 1990, con la disolución de la URSS e con el unilateralismo estadounidense, podemos decir que el conjunto del movimiento socialista entró en un periodo de “defensiva estratégica”.
La situación empezó a cambiar entre 1998 y el 2008, primero con la ascensión de varios gobiernos de izquierda en América Latina; y, después, con la crisis internacional. Pero estos acontecimientos no llegaran a alterar la naturaleza del periodo, que sigue siendo de “defensiva estratégica”.
Una señal de esto es el contraste entre la profundidad de la crisis internacional y la capacidad que los grandes Estados capitalistas tuvieron para evitar su desbordamiento político-social.
Otra señal es la existencia de una contra ofensiva de la derecha latinoamericana, que recibió el paradójico refuerzo de la crisis internacional, que crea dificultades económicas para la mayoría de los gobiernos progresistas; y de la victoria de Obama, cuya imagen positiva (construida mediáticamente y facilitada por el contraste con Bush) permitió a los EE.UU. recuperar parte de su margen de maniobra.
Frente a esto, la izquierda latinoamericana busca no perder ningún gobierno para la derecha, acelerar el proceso de integración regional e insistir en el camino de los cambios estructurales.
La cuestión práctica está en cómo hacer esto, evitando dos errores: a) ir más allá de nuestra capacidad de sustentar políticamente los procesos; b) no alcanzar lo necesario para que podamos acumular fuerzas en dirección del socialismo.
Es verdad que en varios países, el proceso en curso ya viene siendo llamado “revolución” o incluso “socialismo”. Esto tiene varios motivos, y en el fondo confirma que América Latina necesita una revolución socialista. Pero es necesario recordar que la retórica es incapaz de solucionar problemas que todavía no logramos resolver en la práctica.
A lo largo del siglo pasado, el movimiento socialista hizo de todo un poco; lucha social, ideológica, política y militar; construcción de partidos y de Internacionales; grandes revoluciones victoriosas y otras derrotadas. Y estuvo directamente involucrado en dos grandes experimentos: el Estado del bienestar, en el cual se empeñaron los socialdemócratas; y los intentos de construcción del socialismo, dirigidos por los comunistas.
El movimiento socialista del siglo XX fue derrotado, pero el repertorio de experiencias es inmenso. Por el contrario, las experiencias y los intentos de los socialistas de nuestro siglo aún son muy limitadas. Aunque aceptemos la tesis del “corto siglo XX”, iniciado en 1914-1917 y concluido en 1989-1991; aún así, el siglo XXI empezó hace poco. En este periodo, no vivimos ninguna gran revolución. En América Latina, por ejemplo, por más que nos enorgullecemos de los gobiernos que conquistamos, debemos reconocer que estamos muy lejos del radicalismo político y profundidad social alcanzadas por la revolución cubana de 1959. La lucha por el socialismo en el siglo XXI todavía no protagonizó ninguna revolución de este tipo, capaz de destruir el aparato del Estado y expropiar a la antigua clase dominante. En el plano de la teoría, estamos atrasados en lo que respecta al análisis del capitalismo contemporáneo, al balance de los intentos de construcción del siglo XX, y la elaboración de una estrategia para la lucha por el poder y la construcción del socialismo en las condiciones del siglo XXI.
Por todo esto, considero prematuro hablar de las “diferencias” entre el socialismo del siglo XX y el socialismo de siglos XXI. Creo que es más exacto hablar de socialismos, estrategias y sujetos revolucionarios. Siempre en plural.
Nuestro movimiento siempre fue plural, geográfica, sociológica, teórica, organizativa y políticamente. Esto no implica igualar las diferentes tradiciones, sino que implica considerar que todas dieron contribuciones que, nos guste o no, forman parte del patrimonio colectivo del movimiento socialista.
Uno de los motivos de la pluralidad socialista es el capitalismo. El modo de producción capitalista impulsa una tendencia a la uniformización, pero las formaciones socio-económicas hegemonizadas por el capitalismo, en las distintas regiones del mundo y épocas históricas, presentan diferencias importantes. Mientras sea así, la superación del capitalismo exigirá diferentes estrategias de resistencia, de conquista del poder e de construcción del socialismo. No significa decir que todas las estrategias son válidas, sino que significa que el movimiento socialista debe rechazar la idea de que exista una única estrategia válida para todos los lugares y tiempos.
Otro motivo por el cal debemos usar el plural, es porque las diferentes cales y sectores que luchan contra el capitalismo, no poseen los mismos objetivos de largo plazo y por eso su unidad es siempre conflictiva.
El proletariado (o sea: la clase de los trabajadores desprovistos de medios de producción y q venden su fuerza de trabajo para los capitalistas) continúa siendo la clase social objetivamente interesada en una sociedad donde los medios de producción se vuelvan propiedad colectiva.
Pero el proletariado del siglo XXI no es igual al del siglo XIX o XX; posee en su interior diferentes fracciones de clase, con distintos intereses; sin hablar de las diferencias nacionales. Además de esto, para que el proletariado sea revolucionario en la práctica, necesita forjar una alianza con los demás sectores sociales que están en conflicto con el capitalismo, en cada época y región concreta, alrededor de un programa y de una estrategia. No siempre el proletariado es capaz de esto y otros sectores sociales asumen la vanguardia.
Por esto, si en el terreno del análisis teórico del modo de producción capitalista podemos hablar de “clase revolucionaria”, en el terreno del análisis estratégico tenemos que utilizar siempre el plural y hacer un “análisis concreto de la situación concreta”.
Vale decir que la pluralidad de “sujetos revolucionarios” va más allá de la existencia de distintos partidos, programas y estrategias, incluyendo aquellos cuyo horizonte máximo es mejorar la vida del pueblo, en el marco del capitalismo. Es necesario considerar, también, los que defienden un tipo de socialismo que supone preservar formas de organización social precapitalistas; y otros para los cuales el socialismo se confunde con antiimperialismo. En fin, la ecología del movimiento socialista moderno es tan amplia, que las categorías en plural son más adecuadas.
El debate sobre el socialismo en América Latina de este inicio del siglo XXI nos debe ayudar a responder cómo pasar: a) de la condición de gobierno, a la condición de poder; b) de la situación actual, en que estamos mejorando la vida del pueblo en el marco del capitalismo, para una nueva situación en que podamos mejorar la vida del pueblo en el marco de una transición socialista. Un debate que debe tomar en cuenta la experiencia paradigmática del gobierno de la Unidad Popular en el Chile de 1970-1973.
Si tenemos éxito en la combinación entre las diferentes estrategias nacionales y una estrategia continental de integración, daremos una contribución importante para que el movimiento socialista salga de la actual situación de “defensiva estratégica” y entre en una situación de “equilibrio estratégico”, al menos en nuestro continente.
Esto se volvió posible debido a la existencia de una situación mundial de crisis & transición: a) crisis de la doctrina neoliberal, en un momento en que el pensamiento crítico todavía se recupera de los efectos de más de dos décadas de defensiva político ideológica; b) crisis de la hegemonía estadounidense, sin que haya un hegemon sustituto, el que estimula la formación de bloque regionales y alianzas transversales; c) crisis del modelo de desarrollo conservador & neoliberal en América Latina y en Brasil, estando en curso una transición para un pos neoliberalismo, cuyos trazos serán definidos a lo largo de la propia caminata.
En otras palabras, una situación en que los modelos antes hegemónicos están en crisis , sin que hayan emergido claramente los modelos sustitutos.
Un elemento central de esta situación mundial es la crisis del capitalismo neoliberal, en la cual convergen: a) una crisis clásica de acumulación; b) el agotamiento de la “capacidad de governanza” de las instituciones Bretón Woods; c) los límites del consumo insustentable de la economía estadounidense; d) la dinámica de especulación financiera.
Este conjunto de variables apunta a un periodo más o menos prolongado de inestabilidad internacional. En el corto y mediano plazos, la inestabilidad está vinculada a la crisis del capitalismo neoliberal y al decaimiento de la hegemonía estadounidense. En el largo plazo, corresponde a la creciente contradicción entre la “globalización” de la sociedad humana versus el carácter limitado de las instituciones políticas nacionales e internacionales.
Estas tres dimensiones de la inestabilidad hacen que sea más urgente y, al mismo tiempo más difícil, la construcción de alternativas. El viejo modelo no funciona adecuadamente, pero continua inmensamente fuerte, mientras los nuevos modelos económicos y políticos están surgiendo, pero todavía no consiguen imponerse.
La crisis evidenció el alto costo social y ambiental del capitalismo, especialmente en su versión neoliberal, fortaleciendo ideológicamente los sectores que defienden un “capitalismo no neoliberal”. Fortaleció también, en mucho menos escala, a los que proponen una alternativa socialista al capitalismo.
Pero el fortalecimiento ideológico de los sectores progresistas y de la izquierda se da en el marco de una situación estructural que todavía conspira a favor de un desenlace conservador para la crisis. Aunque fuertemente alcanzados, los países centrales concentran inmenso poder económico, político y militar. El tamaño de esta hegemonía capitalista puede ser medido, paradójicamente, por la profundidad de la crisis del 2008 y, al mismo tiempo, por la capacidad que los grandes Estados capitalistas demostraron para evitar el desbordamiento político social de la crisis, a favor de las izquierdas.
Además de eso, tres décadas de hegemonía neoliberal limitaron el horizonte intelectual y la fuerza político social de los sectores críticos. Esta condiciones y límites son evidentes cuando observamos el desencuentro entre el tamaño de la crisis y la timidez de las propuestas y medidas, especialmente sobre una nueva moneda internacional, así como la ineficacia de las políticas globales de combate a la pobreza y la desigualdad.
Es en ese contexto que gana importancia el proceso de integración latinoamericano y caribeño, especialmente entre los países de América del Sur. El tema central, en este proceso, es el siguiente: cómo consolidar lazos económicos, sociales, políticos, militares e ideológicos que permitan a los países integrantes convivir, sin subordinación o dependencia, con el espacio geopolítico todavía hegemonizado por los Estados Unidos y la Unión Europea.
La cuestión subyacente es la siguiente: ¿será posible, más que convivir, sustituir el arreglo económico internacional que tiene en los Estados Unidos su elemento organizador (y desorganizador) central, por un nuevo arreglo, basado en la combinación entre expansión de los mercados internos e intercambio comercial, que no sea dependiente de las ofertas de crédito, insustentables a mediano plazo, proporcionadas por la emisión sin barrera de dólares?
Cualquiera que sea la respuesta para estas cuestiones, es necesario tener claro que estamos frente a disputas de larga duración, que ocurren en un ambiente de acentuada inestabilidad, en dos planos distintos pero articulados: por un lado, la disputa al interior de cada país; por otro, la competencia entre los diferentes Estados y bloques regionales. De esa disputa pueden emerger desenlaces conservadores o progresistas: pero también pueden emerger soluciones socialistas, comprometidas con la más profunda democratización, el internacionalismo, la planificación democrática y ambientalmente orientada, así como la propiedad pública de los grandes medios de producción. Es por esto que trabajamos.
A política externa do governo Lula
A política externa do governo Lula é um tema sobre o qual existe aguda controvérsia política e acadêmica. Este texto não pretende resenhar esta controvérsia, limitando-se a apresentar um roteiro para o debate da estratégia e dos dilemas da política do governo Lula no terreno internacional.
Contexto
As forças de esquerda venceram as eleições presidenciais de 2002 com um programa de “transição” do neoliberalismo para um capitalismo “produtivo”. Tratava-se de superar as causas e efeitos da “década perdida” dos anos 1980 e da década neoliberal dos anos 1990, que provocaram redução da dimensão produtiva e planejadora do Estado, resultaram numa inserção subordinada na chamada globalização e na ampliação da desigualdade social, aprofundando as características fundamentais da sociedade brasileira (dependência, desigualdade e conservadorismo) e bloqueando o dinamismo econômico desenvolvimentista, que durante décadas serviu de “válvula de escape” para as contradições sociais brasileiras.
De 2003 até 2005, o governo Lula adotou uma estratégia de transição baseada na conciliação com os pressupostos neoliberais. Em seguida, adere progressivamente ao desenvolvimentismo, anunciado no segundo turno das eleições presidenciais de 2006, cristalizado no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) lançado em 2007 e reforçado no anúncio do marco regulatório do Pré-Sal, em 2009.
A política externa antecipou este movimento progressista realizado pelo conjunto do governo Lula, estando desde o início sob hegemonia de concepções fortemente críticas ao neoliberalismo e a hegemonia dos Estados Unidos. Colaborou para isto a existência, no Itamaraty, de uma corrente nacionalista, desenvolvimentista e pró-integração regional, a militância internacional do Partido dos Trabalhadores e do próprio presidente Lula, bem como as próprias características do país e o porte de algumas de suas grandes empresas, incompatíveis com o molde estreito concebido para nós pelo neoliberalismo.
O governo Lula foi, desde o princípio, não apenas parte integrante, mas também forte protagonista da onda regional de governos progressistas e de esquerda. Iniciada em 1998, com Hugo Chavez, esta onda foi produto de diversas circunstâncias, com destaque para: a) a desatenção relativa dos Estados Unidos para com seu pateo trasero; b) os efeitos danosos do neoliberalismo, inclusive sobre os partidos de direita; c) o acúmulo de forças por parte da esquerda, especialmente na combinação entre luta social e luta eleitoral.
Todos os governos progressistas e de esquerda eleitos desde 1998 têm buscado enfrentar três grandes problemas: a) a “herança maldita” recebida do neoliberalismo, das ditaduras, do desenvolvimentismo conservador e até do passado colonial (como na Bolívia); b) a oposição das classes dominantes locais, que questionam inclusive a legitimidade e o caráter democrático de governos que busquem alterar os níveis abjetos de concentração de riqueza e renda; c) a influência dos interesses metropolitanos, europeus e estado-unidenses, sobre a política, os mercados e as riquezas nacionais.
Frente a estes três grandes problemas, os governos de esquerda e progressistas vem tentando implementar, com maior ou menor sucesso, um programa baseado no tripé igualdade social, democratização política e soberania nacional, objetivos que são perseguidos através de diferentes estratégias e velocidades.
A possibilidade maior ou menor de êxito dos governos de esquerda e progressistas é diretamente proporcional à persistência de uma correlação latino-americana favorável, bem como ao sucesso da integração regional.
Coexistem no continente americano quatro “padrões” de integração: a) o de subordinação aos EUA, expresso na defunta Alca e nos tratados bilaterais de “Livre Comércio”; b) os acordos sub-regionais, como o Mercosul; c) a Alba; d) a Unasul.
O governo Lula tem impulsionado a integração regional, através do eixo Argentina-Brasil-Venezuela, transitando do “padrão” Mercosul para o Unasul, que envolve variáveis comerciais, de infra-estrutura, coordenação macro-econômica, sociais, culturais, de segurança e defesa, bem como políticas.
O sucesso da Unasul exige: a) a cooperação entre governos que são adversários políticos e ideológicos, o que por exemplo exige evitar rompimentos com Colômbia e Peru; b) o compromisso efetivo das principais economias da região, um dos motivos pelos quais é fundamental que o Senado brasileiro aprove a entrada da Venezuela no Mercosul; c) fazer prevalecer o interesse de Estado, por sobre a dinâmica das grandes empresas privadas brasileiras, que desenvolvem uma política internacional própria, que pode colocar em risco os objetivos estratégicos do desenvolvimento com integração; d) a institucionalização cada vez maior do processo, inclusive com a constituição de organismos eleitos diretamente pelo voto popular.
A política externa do governo Lula se desenvolve nos marcos de uma situação mundial que poderíamos resumir como sendo de crise & transição. Crise do ideário neoliberal, num momento em que o pensamento crítico ainda se recupera de 30 anos de defensiva; crise da hegemonia estado-unidense, sem que haja um hegemon substituto, o que estimula a formação de blocos regionais e alianças transversais; crise do atual padrão de acumulação capitalista, sem que esteja visível qual será a alternativa sistêmica. Noutras palavras, uma situação em que os modelos antes hegemônicos estão em crise, sem que tenham emergido claramente os modelos substitutos.
Um elemento central desta situação mundial é a crise do capitalismo neoliberal, na qual convergem uma crise clássica de acumulação, o esgotamento da “capacidade de governança” das instituições de Bretton Woods, os limites do consumo insustentável da economia estado-unidense e a dinâmica da especulação financeira.
Mesmo atingidos pela crise, as classes dominantes dos países centrais concentram imenso poder econômico, militar e político, que têm utilizado para retardar ou mesmo evitar reformas que incidam nas causas estruturais da crise. Nestas condições, o governo Lula combina três movimentos:
a) colabora na discussão e implementação de medidas anti-crise, de reforma das instituições internacionais e do padrão econômico, mesmo que sejam medidas reconhecidamente limitadas e parciais, para evitar um colapso generalizado, que teria efeitos catastróficos também na “periferia” do mundo;
b) impulsiona a cooperação entre potências “emergentes”, através da “geometria variável” especialmente com China, Rússia, Índia e África do Sul, na tentativa de criar laços econômicos, sociais, políticos, militares e ideológicos que permitam a convivência, sem subordinação ou dependência, com a (no médio prazo) decadente hegemonia dos Estados Unidos e União Européia.
c) acelera, no âmbito regional, as medidas que visam institucionalizar a integração regional, reduzir a ingerência externa, as desigualdades & assimetrias, seja para atuar internacionalmente como bloco, seja para aproveitar melhor as potencialidades da América do Sul.
Antes mesmo da eclosão da crise, o governo brasileiro já mantinha ativa política multilateral, atuando em espaços como o G-20 (o comercial e o financeiro), o IBAS (Índia, Brasil e África do Sul), a ASPA (América do Sul – países árabes), a ASA (Conferência América do Sul/África), os BRICs etc. Nesta mesma direção, o governo Lula milita por uma cadeira permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU e tem disputado a direção de vários organismos internacionais. O papel de destaque que assumiu no G20 (G8 ampliado) não constitui, portanto, algo inesperado.
Nestes foros internacionais, o governo brasileiro tem defendido posições afinadas com as orientações tradicionais da diplomacia brasileira, tais como o multilateralismo e a paz, mas cada vez mais temperadas pela explícita disposição de preservar a margem de manobra do Brasil.
Objetivamente, a política externa do governo Lula faz o Brasil competir com os Estados Unidos. Comparada com outras potências, trata-se de uma competição de baixa intensidade. Mas, por se dar no entorno imediato, possui imensa importância geopolítica e tem potencial para, no médio prazo, constituir-se em uma ameaça para os Estados Unidos.
Isto é confirmado quando se constata que, mesmo depois do arquivamento da Área de Livre Comércio das Américas e apesar da promessa de uma nova política para América Latina, o governo Obama manteve a política de acordos bilaterais e de exibição de força (IV Frota, bases militares na Colômbia, golpe em Honduras, reafirmação do bloqueio contra Cuba).
A atitude dos Estados Unidos fortaleceu a decisão de renovar o equipamento das forças armadas brasileiras. E faz da OEA, cada vez mais, ponto de encontro institucional entre dois blocos regionais existentes num mesmo continente, um dos quais pode ampliar futuramente seu escopo institucional, transitando de Grupo do Rio para a já proposta Organização dos Estados Latino-americanos.
Mas o sucesso na luta contra a ingerência externa e a constituição de um bloco fortemente ativo no cenário internacional depende, no limite, de uma política sustentável e continuada de redução das desigualdades & assimetrias regionais. O que exige forte investimento brasileiro, país que detém aproximadamente metade do território, da população e do produto interno bruto sulamericanos.
As concessões feitas à Bolívia e ao Paraguai, a disposição permanente de negociar com a Argentina, a insistência na cooperação com a Venezuela, entre outros, são passos importantes, que antecipam uma política mais ampla, que já foi chamada (inadequadamente) de Plano Marshall para a América do Sul.
Para que haja condições internas para a implementação desta política, é preciso uma maioria política que perceba as vantagens que o desenvolvimento da América do Sul traz para o desenvolvimento brasileiro, motivo pelo qual cabe ao Brasil assumir parte importante dos investimentos necessários para tal integração, especialmente no âmbito da infra-estrutura.
Ao mesmo tempo, para que a implementação desta política seja bem recebida pelos países vizinhos, é necessário afastar o temor de que esteja em marcha um sub-imperialismo brasileiro. Considerando que as assimetrias econômicas só serão superadas no médio prazo, afastar aquele temor supõe não apenas investimentos “a fundo perdido”, mas principalmente um nível superior de institucionalidade regional, através da UNASUL, do Conselho de Defesa Sul-Americano, do Banco do Sul etc.
Dilemas
Viveremos um período mais ou menos prolongado de instabilidade internacional. No curto e médio prazos, esta instabilidade está vinculada à crise e ao declínio da hegemonia norte-americana. No longo prazo, corresponde à crescente contradição entre a “globalização” da sociedade humana versus o caráter limitado das instituições políticas nacionais e internacionais.
Estas três dimensões da instabilidade fazem com que seja mais urgente e difícil construir alternativas. O velho modelo não funciona adequadamente, mas continua imensamente forte, enquanto os novos modelos econômicos e políticos estão surgindo, mas ainda não conseguem se impor. Esta situação aponta para impasses prolongados e/ou soluções intermediárias, temporárias e ineficazes.
Para enfrentar este longo período de instabilidade, o Brasil necessitará acelerar os processos de integração regional, constituir um diversificado sistema de alianças internacionais e pressionar por reformas nas instituições internacionais (a começar pela moeda), seja para reduzir a hegemonia dos Estados Unidos e Europa, seja para fortalecer as instituições vinculadas à cooperação para o desenvolvimento.
Frente a estes desafios gigantescos, a política externa do governo Lula deve ser uma política de Estado. Mas parcela das classes dominantes rejeita os fundamentos desta política, preferindo reduzir a importância da integração regional, menor protagonismo multilateral e maior subordinação aos interesses dos Estados Unidos. Isto significa que, no curto prazo, a continuidade da atual política externa dependerá do resultado das eleições presidenciais brasileiras, que vão ocorrer em outubro de 2010.
Caso a oposição de direita eleja o próximo presidente do Brasil, isto terá efeitos diretos e imediatos na correlação de forças regional, resultando no adiamento dos processos de integração e na interrupção do reformismo democrático-popular que desde 1998 ganhou espaço na América Latina. Em graus diferentes, o mesmo dilema se joga nas eleições presidenciais do Uruguai, Bolívia e Chile.
Apesar de ainda não ser uma política de Estado (não por sua concepção, mas pela rejeição de parte das classes dominantes), a política externa do governo Lula tampouco é uma política de partido. A rigor, a atual política externa do Brasil corresponde aos interesses estratégicos de uma “potência emergente”, interesses que no governo Lula comportam uma dupla dimensão: empresarial e capitalista, mas também democrático-popular. É esta dupla dimensão que explica aspectos contraditórios da política externa (e também interna) do governo Lula, como se viu na influência que o agro-negócio teve nas posições adotadas pelo Brasil nas negociações da Rodada Doha.
Esta constatação exige, dos partidos de esquerda integrantes do governo Lula, a elaboração de uma interpretação autônoma da situação internacional e um trabalho constante de acompanhamento da política externa, defendendo-a dos ataques da oposição de direita, evitando que nela predominem os interesses privados e “sub-imperialistas”, estimulando um viés latino-americano e caribenho, reafirmando a caracterização imperialista da política das metrópoles e o objetivo socialista da esquerda.
Há nos partidos de esquerda diferentes interpretações sobre a caracterização da crise internacional (financeira, econômica, de hegemonia, de acumulação), sobre o momento em que estamos da crise (fim do início, início do fim), sobre os impactos do imenso endividamento público dos países centrais, sobre a possibilidade de construir uma nova “arquitetura” internacional, nos marcos da hegemonia declinante dos Estados Unidos, bem como diferentes opiniões sobre a natureza do mundo pós-crise.
Para a finalidade deste texto, a questão mais relevante é como tratar as contradições no processo de integração regional.
O ambiente progressista e de esquerda existente entre 1998 e 2008 criou condições mais propícias para que cada processo nacional seguisse seu próprio curso, oferecendo possibilidades imensas e em certo sentido inéditas para todos os programas e estratégias de esquerda. Neste sentido, a primeira tarefa da esquerda latino-americana é preservar esta correlação de forças continental.
Ocorre que, quando forças de esquerda conseguem chegar ao governo central de um determinado país, o fazem com um programa baseado no tripé igualdade social, democratização política e soberania nacional. E a defesa da soberania nacional não se faz apenas contra as "metrópoles imperialistas", envolve também administrar os conflitos entre países da região.
Estes conflitos não foram "inventados" pelos atuais governos, sendo geralmente herança de períodos anteriores, inclusive do desenvolvimento dependente e desigual ocorrido na região. Na maioria dos casos, não poderão ser superados no curto prazo: por terem causas estruturais, só poderão ter solução no longo prazo, nos marcos de um adequado processo de integração regional. A exacerbação destes conflitos regionais teria, como subproduto, o dissimular das contradições muito mais relevantes com as metrópoles.
Portanto, é estratégico impedir que estes conflitos se convertam em contradição principal pois, se isto acontecer, a correlação de forças latino-americana se alterará em favor da ingerência externa.
É sabido que os governos progressistas e de esquerda da região trilham o caminho do desenvolvimento e da integração, adotando diferentes estratégias e com diferentes velocidades. Logo, é preciso compatibilizar as múltiplas estratégias nacionais, com a construção de uma estratégia continental comum, que preserve a unidade com diversidade.
Politicamente, é preciso manter a harmonia do eixo Argentina-Brasil-Venezuela, apesar das distintas estratégias das forças progressistas e de esquerda em cada um destes países. Estruturalmente, a solução dos conflitos regionais supõe uma redução da desigualdade, não apenas dentro de cada país, mas também entre as economias de nosso subcontinente. A institucionalidade da integração, tanto multilateral quanto as relações bilaterais, tem que estar sintonizada com este propósito.
A redução da desigualdade em cada país supõe enfrentar a "herança maldita" e realizar reformas sociais profundas. Mas isto não é suficiente para eliminar as disparidades existentes entre as economias, objetivo que exige combinar, no longo prazo, medidas de solidariedade, intercâmbio direto e também medidas de mercado.
Como já dissemos antes, coexistem na região quatro “modelos” de convivência: o subordinado aos EUA, os acordos regionais, o modelo Alba e o modelo Unasul.
Independente do que possamos pensar acerca de sua sustentabilidade interna, natureza dos acordos firmados, materialização efetiva, efeitos nos países receptores, o modelo Alba é extremamente meritório. Mas não existe correlação de forças, mecanismos institucionais e situação econômica que permitam ao conjunto dos países da região adotar os princípios solidários da Alba e/ou operar de maneira semelhante ao governo venezuelano. Em essência, porque não é sustentável que países capitalistas mantenham uma política externa de viés socialista, especialmente quando ela é sustentada por recursos provenientes da venda de combustível aos Estados Unidos.
Por isto, embora toda alternativa de esquerda deva envolver um componente de solidariedade, a dimensão principal dos acordos na atual etapa de integração latino-americana tem que ser a dos acordos comerciais, econômicos e institucionais, envolvendo governos, empresas públicas e/ou privadas. Mas para que disto resulte fortalecida a integração, o Brasil é chamado a financiar um plano de desenvolvimento para a América do Sul. Assumir esta perspectiva inclui superar positivamente os impasses na constituição do Banco do Sul, generalizar o comércio com moedas locais e reforçar a perspectiva de criação de uma moeda regional.
O financiamento de um plano regional de desenvolvimento por parte do Brasil é uma necessidade urgente, pois a partir de 2009 novas variáveis vem incidindo na conjuntura regional. A crise criou dificuldades para a maioria dos governos progressistas e de esquerda existentes na América Latina, reduzindo sua margem de manobra, interrompendo processos de crescimento e revertendo a distribuição de renda. A crise ocorreu num contexto de contra-ofensiva de direita, que inclui desde vitórias eleitorais (como no Panamá), manipulação conservadora dos temas de segurança pública e defesa (México e Colômbia), até a retomada do golpismo (Honduras). Neste cenário, embora tenha mantido diretrizes fundamentais do governo anterior, a nova retórica do governo Obama e alguns acenos concretos permitiram ao governo norte-americano recuperar margem de manobra na região.
A crise internacional, portanto, veio acompanhada de dificuldades táticas, entre as quais as debilidades do processo de integração. Mas, ao mesmo tempo e como noutros momentos da história da região, as grandes crises internacionais oferecem oportunidades estratégicas. Hoje a esquerda é parte de importantes governos da região e pode, não apenas denunciar, mobilizar e pressionar, mas também combater os efeitos da crise, aprofundar as mudanças estruturais que nossas sociedades requerem e acelerar o processo de integração.
Neste cenário, o cada vez maior protagonismo global do Brasil não pode resultar numa diminuição de seu compromisso com a integração regional, seja porque este protagonismo é fortemente vinculado aos sucessos latino e sul-americanos, seja porque as características geopolíticas do país e de sua política externa conferem ao Brasil posição insubstituível no processo de integração regional.
Esta análise foi um subsídio ao seminário “Política externa dos governos progressistas do Cone Sul: convergências e desafios”, realizado em 2009 pela Rede de Fundações Progressistas do Cone Sul, em parceria com a Fundação Friedrich Ebert (FES).
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