terça-feira, 3 de novembro de 2026

Editorial do Página 13 de novembro

Editorial do Página 13 de novembro de 2026

Quarenta anos em quatro!

Edinho Silva, que faz um balanço positivo de sua performance pessoal enquanto coordenador da recém-encerrada campanha presidencial, repetiu inúmeras vezes em 2025 que precisamos preparar o pós-Lula.

Difícil saber o quanto esta frase infeliz e de mal gosto contribuiu para as dificuldades que tivemos na campanha. O próprio Lula, confrontado no Flow pela afirmação de que esta seria a sua última eleição, respondeu assim: "Fale por você!"

O fato é que, depois de ter vencido o PED 2025, com o auxílio inestimável dos votos amealhados por Quaquá, Edinho acrescentou algo importante na sua fórmula, a saber: o sucessor de Lula seria o Partido dos Trabalhadores. A ideia do sucessor coletivo é muito boa, até porque Lula só tem e só teremos um único. Mas falta acrescentar algo: o quarto mandato de Lula precisa ser muito, mas muito bom.

Não será fácil conseguir isso. Temos contra nós os Estados Unidos e seus aliados, a correlação de forças na América Latina e Caribe, a pressão pró-guerra da classe dominante da Europa e de outras paragens, a tríplice aliança agro-mineradoras-finanças que domina o Brasil, a extrema-direita, a direita tradicional e, como se não bastasse, os social-liberais que infestam o PT. 

A palavra-de-ordem desta turma toda é simples: desconhecer o resultado eleitoral. Alguns, no sentido de dizer que houve uma fraude. Outros, no sentido de tentar implementar o tesouraço proposto pelo Cavernícola Filho e derrotado nas urnas. Alguns energúmenos chegam a propor, abertamente, que Lula 4 se inspire no exemplo de Dilma 2, nomeando para a Fazenda e para o BC gente do estilo da dupla Palocci e Meirelles (a proposta foi feita, nestes termos, por Kassab, ex-vice de Caiado).

Acham que somos idiotas, certamente. Mas têm a seu lado a chantagem dos chamados mercados e um grande número de governadores e parlamentares eleitos em 2025, sem falar na mídia empresarial e de alguns na mídia alternativa (que, como sabemos, também merece publicidade paga de banqueiros que, assim esperamos, algum dia terão seu momento Vorcaro).

Frente a tudo isso, o que defendemos? 

Propomos a adoção de outra estratégia, incluindo:

i/ Mudança efetiva do modelo econômico, hoje controlado pelo agro, pelas mineradoras e pelo setor financeiro;

ii/ Ampla reforma do Estado (incluindo o sistema judiciário, político e eleitoral);

iii/ Criação de estruturas digitais de comunicação e informação sob controle nacional, estatal e público;

iv/ Uma política de governabilidade de novo tipo, baseada na mobilização e participação popular, para que não continuemos sendo obrigados a fazer incontáveis concessões à direita que controla o Congresso Nacional. Se é possível ganhar a eleição nas ruas, por qual motivo não seria possível governar com base nas ruas?

v/ A implementação de uma forte oposição aos governos estaduais de extrema-direita, que muito provavelmente cumprirão um papel importante na oposição ao governo Lula e na montagem de uma chapa para nos enfrentar em 2030;

vi/ Instituir uma política de Segurança Cidadã, baseada na prevenção das violências, no fortalecimento das políticas sociais, na qualificação das forças de segurança, no respeito aos direitos humanos e na participação comunitária, em contraposição aos modelos de insegurança defendidos pela extrema-direita, autoritários, exclusivamente repressivos e que historicamente demonstraram baixa eficácia na redução sustentável da criminalidade;

vii/ Uma política internacional que terá que continuar altiva, mas precisará voltar a ser muito mais ativa, especialmente na América Latina e Caribe;

viii/ A implementação de uma efetiva política de Defesa e de Inteligência, que permita enfrentar a ingerência, as ameaças e os permanentes planos golpistas da extrema-direita, dos Estados Unidos e de Israel;

ix/ A reafirmação ideológica da esquerda, que deve buscar se aliar com os progressistas, mas não deve se confundir, nem se autolimitar, ao chamado “progressismo”;

x/ Um salto de qualidade na organização da esquerda política e social, o que inclui a substituição do “modelo parlamentarista” de funcionamento partidário, por um esforço de organização militante, com formação e mobilização e, vale destacar, com orientação e direção política provenientes da esquerda, a começar pelo PT. Nesse sentido, é preciso utilizar o atual momento de entusiasmo para filiar e engajar as pessoas no Partido, nos sindicatos, nos movimentos.

É fazendo isto tudo, e muito mais, que conseguiremos transformar nossa esplêndida vitória de 25 de outubro no ponto de partida para outra época histórica, contribuindo para o futuro do Brasil, da América Latina e Caribe e da humanidade.

Mas esta estratégia, para ter êxito, precisa ser traduzida numa orientação capaz de manter as pessoas motivadas, mobilizadas, organizadas e conscientes do que queremos e para onde vamos.

Como exemplo, podemos citar dois slogans que foram utilizados no passado: "reformas de base" e "plano de metas". Mas talvez o mais adequado seja algo como "quarenta anos em quatro". E traduzir isso em metas. Como sugeriu um professor simpatizante de nossas causas: zerar o déficit de saneamento básico, zerar o déficit de habitação, zerar as filas no SUS, zerar o déficit de crianças fora da educação em todos os níveis, dobrar o valor real do salário-mínimo e das aposentadorias, ligar todos os pontos do país com transporte ferroviário, zero importação de insumos estratégicos...

Enfim, buscar o "déficit zero". Não vai agradar a Faria Lima, nem seus ventríloquos. Mas permitirá que o povo viva melhor, contribuirá para uma industrialização de novo tipo, mudará nossa sociedade e nosso lugar no mundo. E, de quebra, permitirá vencer em 2028 e em 2030.

Mas, para isso, é preciso começar lembrando quem venceu as eleições de 2026: o povo trabalhador, as mulheres, os negros e negras, a juventude que foi às ruas, os 70+ que votaram ele não, os moradores das periferias e o povo de alma nordestina, a esquerda brasileira como um todo e a Nação Petista. Fomos "nóis" que vencemos. Nada mais justo, portanto, que queiramos fazer um governo que atenda às demandas do povo, não da Faria Lima e do Centrão.

Os editores







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