Editorial do Página 13 de novembro de 2026
Quarenta anos em quatro!
Edinho Silva, que faz um balanço positivo de sua performance pessoal enquanto coordenador da recém-encerrada campanha presidencial, repetiu inúmeras vezes em 2025 que precisamos preparar o pós-Lula.
Difícil saber o quanto esta frase infeliz e de mal gosto contribuiu para as dificuldades que tivemos na campanha. O próprio Lula, confrontado no Flow pela afirmação de que esta seria a sua última eleição, respondeu assim: "Fale por você!"
O fato é que, depois de ter vencido o PED 2025, com o auxílio inestimável dos votos amealhados por Quaquá, Edinho acrescentou algo importante na sua fórmula, a saber: o sucessor de Lula seria o Partido dos Trabalhadores. A ideia do sucessor coletivo é muito boa, até porque Lula só tem e só teremos um único. Mas falta acrescentar algo: o quarto mandato de Lula precisa ser muito, mas muito bom.
Não será fácil conseguir isso. Temos contra nós os Estados Unidos e seus aliados, a correlação de forças na América Latina e Caribe, a pressão pró-guerra da classe dominante da Europa e de outras paragens, a tríplice aliança agro-mineradoras-finanças que domina o Brasil, a extrema-direita, a direita tradicional e, como se não bastasse, os social-liberais que infestam o PT.
A palavra-de-ordem desta turma toda é simples: desconhecer o resultado eleitoral. Alguns, no sentido de dizer que houve uma fraude. Outros, no sentido de tentar implementar o tesouraço proposto pelo Cavernícola Filho e derrotado nas urnas. Alguns energúmenos chegam a propor, abertamente, que Lula 4 se inspire no exemplo de Dilma 2, nomeando para a Fazenda e para o BC gente do estilo da dupla Palocci e Meirelles (a proposta foi feita, nestes termos, por Kassab, ex-vice de Caiado).
Acham que somos idiotas, certamente. Mas têm a seu lado a chantagem dos chamados mercados e um grande número de governadores e parlamentares eleitos em 2025, sem falar na mídia empresarial e de alguns na mídia alternativa (que, como sabemos, também merece publicidade paga de banqueiros que, assim esperamos, algum dia terão seu momento Vorcaro).
Frente a tudo isso, o que defendemos?
Propomos a adoção de outra estratégia, incluindo:
i/ Mudança efetiva do modelo econômico, hoje controlado pelo agro, pelas mineradoras e pelo setor financeiro;
ii/ Ampla reforma do Estado (incluindo o sistema judiciário, político e eleitoral);
iii/ Criação de estruturas digitais de comunicação e informação sob controle nacional, estatal e público;
iv/ Uma política de governabilidade de novo tipo, baseada na mobilização e participação popular, para que não continuemos sendo obrigados a fazer incontáveis concessões à direita que controla o Congresso Nacional. Se é possível ganhar a eleição nas ruas, por qual motivo não seria possível governar com base nas ruas?
v/ A implementação de uma forte oposição aos governos estaduais de extrema-direita, que muito provavelmente cumprirão um papel importante na oposição ao governo Lula e na montagem de uma chapa para nos enfrentar em 2030;
vi/ Instituir uma política de Segurança Cidadã, baseada na prevenção das violências, no fortalecimento das políticas sociais, na qualificação das forças de segurança, no respeito aos direitos humanos e na participação comunitária, em contraposição aos modelos de insegurança defendidos pela extrema-direita, autoritários, exclusivamente repressivos e que historicamente demonstraram baixa eficácia na redução sustentável da criminalidade;
vii/ Uma política internacional que terá que continuar altiva, mas precisará voltar a ser muito mais ativa, especialmente na América Latina e Caribe;
viii/ A implementação de uma efetiva política de Defesa e de Inteligência, que permita enfrentar a ingerência, as ameaças e os permanentes planos golpistas da extrema-direita, dos Estados Unidos e de Israel;
ix/ A reafirmação ideológica da esquerda, que deve buscar se aliar com os progressistas, mas não deve se confundir, nem se autolimitar, ao chamado “progressismo”;
x/ Um salto de qualidade na organização da esquerda política e social, o que inclui a substituição do “modelo parlamentarista” de funcionamento partidário, por um esforço de organização militante, com formação e mobilização e, vale destacar, com orientação e direção política provenientes da esquerda, a começar pelo PT. Nesse sentido, é preciso utilizar o atual momento de entusiasmo para filiar e engajar as pessoas no Partido, nos sindicatos, nos movimentos.
É fazendo isto tudo, e muito mais, que conseguiremos transformar nossa esplêndida vitória de 25 de outubro no ponto de partida para outra época histórica, contribuindo para o futuro do Brasil, da América Latina e Caribe e da humanidade.
Mas esta estratégia, para ter êxito, precisa ser traduzida numa orientação capaz de manter as pessoas motivadas, mobilizadas, organizadas e conscientes do que queremos e para onde vamos.
Como exemplo, podemos citar dois slogans que foram utilizados no passado: "reformas de base" e "plano de metas". Mas talvez o mais adequado seja algo como "quarenta anos em quatro". E traduzir isso em metas. Como sugeriu um professor simpatizante de nossas causas: zerar o déficit de saneamento básico, zerar o déficit de habitação, zerar as filas no SUS, zerar o déficit de crianças fora da educação em todos os níveis, dobrar o valor real do salário-mínimo e das aposentadorias, ligar todos os pontos do país com transporte ferroviário, zero importação de insumos estratégicos...
Enfim, buscar o "déficit zero". Não vai agradar a Faria Lima, nem seus ventríloquos. Mas permitirá que o povo viva melhor, contribuirá para uma industrialização de novo tipo, mudará nossa sociedade e nosso lugar no mundo. E, de quebra, permitirá vencer em 2028 e em 2030.
Mas, para isso, é preciso começar lembrando quem venceu as eleições de 2026: o povo trabalhador, as mulheres, os negros e negras, a juventude que foi às ruas, os 70+ que votaram ele não, os moradores das periferias e o povo de alma nordestina, a esquerda brasileira como um todo e a Nação Petista. Fomos "nóis" que vencemos. Nada mais justo, portanto, que queiramos fazer um governo que atenda às demandas do povo, não da Faria Lima e do Centrão.
Os editores
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