1. Gaza será una zona desradicalizada, libre de terrorismo, que no representará ninguna amenaza para sus vecinos.2. Gaza será reurbanizada en interés de la población de Gaza, que ya ha sufrido lo suficiente.3. Si ambas partes aceptan esta propuesta, la guerra terminará inmediatamente. Las fuerzas israelíes se retirarán hasta la línea acordada para preparar la liberación de los rehenes. Mientras tanto, se suspenderán todas las operaciones militares, incluidos los bombardeos aéreos y de artillería, y las líneas del frente permanecerán congeladas hasta que se den las condiciones necesarias para una retirada completa por etapas.4. En las 72 horas siguientes a la aceptación pública de este acuerdo por parte de Israel, todos los rehenes, vivos o muertos, serán devueltos.5. Una vez liberados todos los rehenes, Israel liberará a 250 presos condenados a cadena perpetua, así como a 1.700 gazaíes detenidos desde el 7 de octubre de 2023, incluidas todas las mujeres y todos los niños detenidos en este contexto. Por cada rehén israelí cuyos restos sean devueltos, Israel devolverá los restos de 15 gazaíes fallecidos.6. Una vez liberados todos los rehenes, los miembros de Hamás que se comprometan a coexistir pacíficamente y a entregar sus armas se beneficiarán de una amnistía. A los miembros de Hamás que deseen abandonar Gaza se les ofrecerá un paso seguro a países de acogida.7. Tan pronto como se acepte este acuerdo, se enviará inmediatamente la ayuda completa a la Franja de Gaza. Las cantidades de ayuda serán, como mínimo, las previstas en el acuerdo del 19 de enero de 2025 sobre ayuda humanitaria, incluida la rehabilitación de infraestructuras (agua, electricidad, alcantarillado), la rehabilitación de hospitales y panaderías, y la entrada del equipo necesario para retirar los escombros y abrir las carreteras.8. La distribución y la ayuda en la Franja de Gaza se llevarán a cabo sin interferencia de ninguna de las dos partes, a través de las Naciones Unidas y sus agencias, la Media Luna Roja y otras instituciones internacionales que no estén asociadas de ninguna manera con ninguna de las dos partes. La apertura del paso de Rafah en ambos sentidos se someterá al mismo mecanismo que el aplicado en el marco del acuerdo del 19 de enero de 2025.9. Gaza será gobernada en el marco de una gobernanza transitoria temporal por un comité palestino tecnocrático y apolítico, encargado de garantizar el funcionamiento diario de los servicios públicos y los municipios para la población de Gaza. Este comité estará compuesto por palestinos cualificados y expertos internacionales, bajo la supervisión y el control de un nuevo órgano internacional de transición, el «Consejo de Paz», dirigido y presidido por el presidente Donald J. Trump, con otros miembros y jefes de Estado que se anunciarán más adelante, entre ellos el ex primer ministro Tony Blair. Este organismo establecerá el marco y gestionará la financiación de la reconstrucción de Gaza hasta que la Autoridad Palestina haya completado su programa de reformas —tal y como se describe en diversas propuestas, entre ellas el plan de paz del presidente Trump de 2020 y la propuesta franco-saudí— y pueda retomar el control de Gaza de forma segura y eficaz. Este organismo aplicará las mejores normas internacionales para crear una gobernanza moderna y eficaz, al servicio de la población de Gaza y capaz de atraer inversiones.
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
O plano de Trump
terça-feira, 30 de setembro de 2025
Sobre o fascismo
O texto abaixo foi encomendado pelo companheiro Leandro Eliel, para fazer parte de uma coletânea intitulada História do Fascismo, que deve ser publicada em parceria pelo CCEV, pela Elahp e pela editora Página 13. Autorizado pelo Leandro, divulgo abaixo.
O que é o neofascismo e como a esquerda deve agir frente a
ele
A palavra “fascismo” voltou à moda. Mas não há uma definição unânime acerca do que foi o fascismo da década de 1920 na Itália, nem tampouco o que foram as “variantes” portuguesa (o salazarismo), espanhola (o franquismo) e alemã (o nazismo). Sem falar da “variante” japonesa, assim como dos “galinhas verdes” e integralistas brasileiros.
A palavra “fascismo” voltou à moda para designar a
extrema-direita que possui grande força, hoje, especialmente nas Américas e na
Europa. Mas como há diferenças entre o fascismo original e a extrema-direita
atual, muitos preferem falar de “neofascismo”, enquanto outros preferem falar
de extrema-direita.
E o que seria a extrema-direita? Quais as diferenças entre a
direita e a extrema-direita? Todas as variantes da extrema-direita podem ser
colocadas no saco do “neofascismo”?
Para responder a estas e outras perguntas, um bom ponto de
partida é responder como domina a classe dominante, ou seja, os
capitalistas.
O capitalismo é um modo de produção relativamente jovem, ao
menos em comparação com o feudalismo e com o escravismo. Ao longo dos seus
cerca de 300 anos de vida, o capitalismo passou por diferentes momentos e
assumiu diferentes formas. Mas qualquer que fosse a situação, há algo que não
muda: o capitalismo depende da exploração da força de trabalho. E essa
exploração só tem êxito quando se combinam, em determinadas proporções, cooperação
e opressão.
Sem algum nível de opressão, os trabalhadores podem, a
qualquer momento, se insurgir com êxito. Sem algum nível de cooperação, a
produção não flui. Portanto, a classe dominante precisa o tempo todo combinar
estes dois elementos: cooperação e opressão. Sem algum pão e circo, não
funciona. Mas sem um pouco de tiro, porrada e bomba, também não tem dominação.
Como esses dois componentes da dominação são necessários o
tempo todo, coexistem dentro da classe dominante (e de seus “funcionários”,
como é o caso de grande parte dos governantes, parlamentares, operadores do
direito, burocratas muito bem remunerados, penas e línguas de aluguel etc.) pessoas
e setores especializados em defender e praticar cada uma dessas posturas e suas
inúmeras variantes.
Noutras palavras, sempre haverá, em cada país e em cada
época, setores da classe dominante defendendo e praticando o método do porrete
e outros defendendo e praticando o método da cenoura, em suas inúmeras
variantes, “tudo junto e misturado”.
Falando em tese, o melhor método para a classe dominante é o
do pão e circo. Ou seja, aquele método em que uma parte importante da classe
trabalhadora não se percebe dominada, acreditando ser colaboradora do processo:
“Se eu trabalhar bastante e fizer minha parte, chegarei lá”. Ou, para falar in
english, o american way of life hegemônico quando os EUA pareciam bem
das pernas.
Evidentemente, o método do pão e circo só funciona
perfeitamente em alguns momentos da história, quando o capitalismo está em
expansão em determinado país ou região. Mas quando o capitalismo está ou parece
estar num beco sem saída, cresce o descontentamento e com ele crescem os
setores da classe trabalhadora que contestam o capitalismo e propõem alternativas.
Nesse contexto, os métodos doces de dominação cedem lugar aos métodos amargos.
É “la hora de los Hornos”! Então a extrema-direita, em todos os seus
variados matizes, assume importante papel na manutenção da dominação de classe.
Acontece que a extrema-direita não nasce nesse momento, ela
apenas adquire intenso protagonismo. Noutras palavras, a extrema-direita já
estava lá, com seus hábitos, com seus valores, com suas manias e taras. E
quando assume o primeiro plano, traz junto essa herança maldita. Por exemplo,
no caso do Brasil, mas também de inúmeros outros países, o racismo, a
misoginia, o fundamentalismo, o ódio atávico aos povos originários, tudo junto
com o “homem cordial” e com o culto do privado frente ao público.
Daí se explica por qual motivo a extrema-direita não é apenas
conservadora, ela é principalmente reacionária, está sempre
cultuando e propondo voltar “aos bons tempos” do Brasil Colônia, da escravidão
e do patriarcado sem limites.
Isto posto, como enfrentar o
fascismo/neofascismo/extrema-direita? As formas concretas dependem do momento
histórico. Na época da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o principal
meio de enfrentar o fascismo era o combate militar. Noutros momentos,
predominaram as medidas políticas e ideológicas. Mas como o “fascismo” (ou algo
que é visto como “fascismo” por muita gente) voltou à moda, é preciso concluir
algo óbvio: enquanto houver capitalismo, o espectro da extrema-direita
seguirá rondando, qual um Freddy Krueger. A
respeito, recomendamos ler um texto de 1935, escrito por Bertold Brecht,
chamado “O fascismo é a verdadeira face do capitalismo”.[1]
Assim, se a esquerda quer mesmo derrotar o fascismo,
deve começar enfrentando o capitalismo. O que exige um movimento duplo
e simultâneo: por um lado, defender a superação do capitalismo; por outro lado,
defender medidas imediatas em defesa da classe trabalhadora (mais empregos,
mais salários, mais e melhores aposentadorias, redução da jornada, fim da
escala 6x1, pagar menos impostos, mais políticas públicas) e também medidas
contra a classe capitalista (redução dos juros, impostos progressivos,
estatização de certas atividades econômicas, proteção da soberania nacional
contra o imperialismo).
Este duplo movimento é importante, entre outros motivos,
porque o “fascismo” também faz um movimento duplo. Por um lado, ele serve aos
interesses da classe dominante. Mas, ao mesmo tempo, o “fascismo” precisa
neutralizar a influência que a esquerda consegue alcançar na classe
trabalhadora em momentos de crise do capitalismo. E, para conseguir êxito nessa
neutralização, o “fascismo” precisa dialogar não apenas com os sentimentos
profundos inculcados há séculos no povo (“família”, “Deus”
e “pátria”), mas também precisa dialogar com a insatisfação material de
grandes parcelas da população. Por isso, o fascismo original (na Itália e na
Alemanha, na década de 1920) precisou aparecer como crítico das elites, dos
oligarcas, do sistema. O mesmo movimento é feito, hoje, por parcelas do
bolsonarismo brasileiro e dos seguidores de Milei na Argentina.
Por isso, o êxito da esquerda na luta contra o “fascismo” supõe
fortalecer a dimensão antissistêmica da esquerda, não apenas no plano
estratégico (a defesa do socialismo), mas também no plano imediato (a defesa de
reivindicações imediatas em favor da classe trabalhadora).
As formas concretas da luta contra a extrema-direita
dependem, como foi dito antes, de circunstâncias concretas: em que país, em
que época, contra qual extrema-direita, a partir de qual esquerda. Mas há uma
variável geral que merece ser destacada, a saber: o “fascismo” é chamado à cena
quando não estão dando conta do recado aquelas instituições e procedimentos
tradicionalmente utilizados pelos capitalistas para exercer sua dominação. Nesse
contexto, para atingir o objetivo de derrotar a esquerda e aumentar a
exploração das classes trabalhadoras, o fascismo tende a entrar em conflito,
mais ou menos profundo, com o modus operandi várias daquelas
instituições e procedimentos. Isso gera conflitos, maiores ou menores, com
outros setores da classe dominante que se identificam com aquelas instituições
e procedimentos.
Quando tudo isso acontece, parte da esquerda acredita ser
possível fazer uma aliança com parte da classe dominante em defesa das
“instituições” e da “democracia mesmo que burguesa”. Isso aconteceu inúmeras
vezes na história e sobre tal linha política há balanços muito diferentes
dentro da própria esquerda.
O que pode ser dito a respeito, em termos genéricos, é o
seguinte: nos momentos históricos em que a extrema-direita está ascendendo, a
maior parte da classe dominante tem simpatia pelas posições “fascistas”. Um
exemplo disso é o apoio que Bolsonaro teve (e ainda tem) entre os ricos.
Portanto, naqueles momentos históricos, são minoritários os setores da classe
dominante dispostos a fazer uma aliança com a esquerda. E, além de
minoritários, são inseguros, confusos, com muita gente preferindo o caminho da
“pacificação”.
Sendo assim as coisas, é preciso saber que, fazendo ou não alianças
- lembrando que alianças são uma questão tática, não de princípio -, o sucesso
na luta contra a extrema-direita depende fundamentalmente das classes
trabalhadoras e da esquerda. O maior exemplo disso foi a própria Segunda Guerra
Mundial: houve uma aliança. Mas de cada cinco soldados alemães que tombaram
durante o conflito, quatro foram mortos pelos soviéticos, que, por sua vez, respondem
por quase 90% das baixas militares sofridas por URSS, EUA e Inglaterra.[2]
Do que foi dito anteriormente decorre outro ensinamento: como
em certos momentos precisa entrar em choque com a institucionalidade vigente, a
extrema-direita causa, em alguns desavisados, a impressão de ser
“revolucionária” (em algum
lugar, andaram comparando a intentona de 8 de janeiro com a tomada do Palácio
de Inverno). Essa
impressão é falsa, por vários motivos.
Em primeiro lugar, a ação da extrema-direita contra uma parte
da institucionalidade conta sempre com o apoio de outra parte. Aqui no Brasil,
o ataque à Praça dos Três Poderes partiu de acampamentos em frente aos
quartéis, teve inicialmente escolta policial e contou com participação direta e
indireta de gente das Forças Armadas, assim como do Judiciário, do Executivo e
do Legislativo. Golpes de Estado, vamos lembrar, são golpes praticados por uma
parte do Estado contra outra parte do Estado.
Em segundo lugar e principalmente, o programa da
extrema-direita não é revolucionário. A extrema-direita não se propõe a fazer
uma revolução social, não se propõe a acabar com o capitalismo. Nem se propõe a
fazer uma revolução política, não se propõe a colocar a classe trabalhadora no
poder. O que a extrema-direita quer é fazer uma “contrarrevolução”, mesmo que esta
contrarrevolução seja fake. Os governos Lula e Dilma não foram
revolucionários, mas se dependesse do que acreditavam os cavernícolas, os
presidentes petistas estariam implantando o socialismo no Brasil. Aliás, foi
isso que Bolsonaro disse em seu discurso na ONU em setembro de 2019.
Mas embora tenha este componente fake, a
extrema-direita causa danos reais, imediatos e de médio prazo. Morreram
centenas de milhares de pessoas, durante a pandemia, por conta do que o governo
cavernícola fez e deixou de fazer. A vida do povo piorou brutalmente. E as
mortes violentas cresceram no país por um conjunto de razões que têm relação
direta com a presença da extrema-direita no governo. Por isso e pelo conjunto
da obra, mesmo que sejam caricatos, os movimentos de extrema-direita não devem
ser tratados com doçura. Contra eles, é preciso aplicar a lei, mas
principalmente e acima de tudo a mais implacável luta política e ideológica.
Zero acordo, zero concessão, zera tolerância. Combater, derrotar e destruir:
este deve ser o comportamento da esquerda no enfrentamento ao neofascismo.
[1]
Disponível em O
Fascismo é a Verdadeira Face do Capitalismo, consultado em 29/9/2025.
[2] Estas e
outras informações estão na insuspeita biografia de Churchill escrita por
Andrew Roberts.
domingo, 28 de setembro de 2025
Sobre a entrevista de Marilena Chauí
O jornal Folha de S. Paulo deste domingo 28 de setembro publicou uma entrevista com a professora Marilena Chauí.
A entrevista tem ótimos momentos, por exemplo quando ela afirma que a bem-vinda condenação de Bolsonaro não significa que a sociedade brasileira tenha se tornado menos autoritária; e quando lembra que Trump é um sintoma da crise profunda dos Estados Unidos.
Há questões que com mais espaço talvez fossem melhor desenvolvidas. É o caso da relação entre neoliberalismo e extrema-direita; e é, também, o caso da afinidade que ela mesma estabelece, em tom de gracejo, entre ser "muito conservadora" e ser "marxista". Embocadura que, na minha opinião, domina sua visão unilateral sobre o mundo digital.
Mas há, ainda, afirmações que na minha opinião são simplesmente erradas. Por exemplo, quando Marilena diz ter uma visão "muito pessimista da sociedade brasileira", tema que ela engata com a crítica ao identitarismo.
Aliás, o identitarismo é uma espécie de fantasma que percorre toda a entrevista, concluída com uma defesa de Boaventura de Souza Santos, defesa cuja solidez pode ser resumida na confissão de que ela não faz ideia de quando um comportamento inapropriado vira assédio.
Mas o politicamente preocupante na entrevista é sua afirmação sobre a classe média, que me recorda o ódio que alguns antigos militantes do movimento comunista tinham dos "desvios pequeno-burgueses", ódio que era tanto maior, quanto mais pequeno-burguesa fosse a origem do respectivo militante.
Assim como a sociedade brasileira não é homogênea, a chamada "classe" média tampouco é. E como Marilena mesmo aponta, a tal "classe" média está em permanente disputa. Pode ser atraída pela classe trabalhadora, pode ser atraída pela classe capitalista. Ganhar o apoio dos setores médios não é algo desimportante. E é simplesmente impossível atrair essa gente, se formos movidos por um ódio existencial.
Aliás, cá entre nós, nada mais funcional para a dominação burguesa que uma "classe média" ocupada em odiar os trabalhadores e uma classe trabalhadora ocupada em odiar os setores médios.
Um último comentário: Marilena diz que não sabe explicar porque "parcela das pessoas que tiveram seus direitos ampliados durante um governo de esquerda tenham se voltado contra ele". Para Marilena, isso seria um "mistério".
Na minha opinião, a explicação não tem nada de misteriosa e exige apenas a famosa análise concreta da situação concreta, especialmente da luta política e ideológica.
Aliás, é a luta política e ideológica que explica por quais motivos a maioria dos trabalhadores, na maioria das vezes, vota nos candidatos apoiados pelos capitalistas. E são também motivos de ordem política e ideológica que recomendam que dediquemos nosso ódio contra a burguesia, contra os capitalistas, contra os imperialistas.
ps. na entrevista, no trecho sobre a "classe" média, Marilena fala da presidenta Dilma. A respeito, sugiro ler a entrevista que Dilma deu à revista Esquerda Petista, em 2017. A versão integral da entrevista ainda não foi publicada. Mas a versão publicada está na edição 7 da revista, disponível nos endereços abaixo:
Revista Esquerda Petista #7 Maio 2017 final completa baixa2.pdfterça-feira, 23 de setembro de 2025
Sobre a nota da executiva nacional do PT
A Comissão Executiva Nacional (CEN) do Partido dos Trabalhadores acaba de aprovar uma nota sobre a situação política.
Há vários aspectos nesta nota que merecem comentário, mas há dois pontos que merecem destaque:
1/o primeiro deles é que a nota adota a denominação "PEC das prerrogativas", ao invés de chamar pelo nome correto: PEC da blindagem, ou melhor, PEC da bandidagem. Desconhecemos os motivos dessa opção, mas aparentemente é uma tentativa de “passar o pano”, não apenas nos 14 parlamentares petistas que contribuíram com seu voto para aprovação da tal PEC. Além disso, chamar de PEC das prerrogativas parece ser mais uma tentativa, fadada ao fracasso, de conciliar com a maioria conservadora de direita da Câmara dos Deputados;
2/o segundo ponto que chama a atenção na nota da CEN é que ela não toma posição contrária à proposta articulada por Aécio Neves e Michel Temer com “Paulinho da Força” e Hugo Mota. A saber, a manobra de chamar de dosimetria o que na prática é uma forma anistia para os golpistas.
Sobre essas duas questões a companheira Natália Sena fez emendas que foram rejeitadas pela maioria da executiva. Além de se posicional, a companheira Natália Sena fez a seguinte declaração de voto por escrito:
“Mantida a redação original, voto contra. Declaração de voto: É um erro chamar a Pec da blindagem de "Pec que reestabelece as prerrogativas parlamentares". Isso é como a direita chama. Não podemos ficar na defensiva em dizer as coisas como elas são por causa de votos errados de um setor da bancada. Além disso, é preciso dizer que também somos contra a dosimetria de penas pros golpistas/assassinos”.
É importante dizer ainda o seguinte: na semana passada, quando havia tempo de fechar questão e impedir que 14 parlamentares petistas contribuíssem com seu voto para aprovar a PEC da bandidagem, a Comissão Executiva Nacional do PT, apesar de estar reunida presencialmente e apesar de haver proposta neste sentido de fechar questão, decidiu nada decidir. Comandada pelo presidente Edinho, a maioria da executiva não aprovou nota alguma.
Depois do desastre consumado, nova reunião (ampliada) da CEN com presidentes estaduais do Partido constatou o óbvio: o desastre causado pelo voto dos 14 se tornou uma fonte de desgaste imensa para o PT, inclusive porque foi o voto de oito petistas que consagrou a vitória de um dos piores trechos da PEC da bandidagem: o voto secreto.
Mesmo assim, mais uma vez a Comissão Executiva Nacional do PT não aprovou nota alguma, apesar de existir proposta de nota redigida e em debate.
Agora, contrariando as promessas de evitar votações no grupo de zap, a Comissão Executiva Nacional do PT aprova uma resolução contendo os dois gravíssimos problemas apontados anteriormente.
É importante que o partido cobre da sua direção nacional uma posição firme e explícita contra a PEC da bandidagem, que deve ser chamada pelo que realmente é, e também feche questão contra qualquer tentativa de reduzir a pena dos golpistas.
Essa foi a posição defendida pela companheira Natália Sena, representante da tendência petista Articulação de Esquerda na Comissão Executiva Nacional do PT e também a posição defendida por outros integrantes da CEN, a quem cabe dar publicidade ao seu ponto de vista.
Segue a nota citada
RESOLUÇÃO APROVADA PELA COMISSÃO EXECUTIVA NACIONAL DO PARTIDO DOS TRABALHADORES.
Projetos de grande impacto para o Brasil estão em tramitação no Congresso Nacional nesta semana.
De um lado, tentam avançar na agenda de anistiar e reduzir a pena dos golpistas de 8 de janeiro, e assassinos - já condenados pelo Supremo Tribunal Federal; e, ao mesmo tempo, tramita no Senado Federal a PEC 03/2021, aprovada pela Câmara dos Deputados, rechaçada pelo povo brasileiro, que restabelece prerrogativas parlamentares, interpretada nas ruas, nas mobilizações do último domingo, como instrumento de blindagem de parlamentares investigados.
De outro, o Governo do Presidente Lula tenta avançar com uma agenda em defesa de mais direitos e justiça social, pautando a Reforma do Imposto de Renda, que irá isentar quem ganha até R$ 5 mil reais e desonerar quem ganha até R$ 7 mil por mês, beneficiando 90% da população, e cobrando mais impostos do 0,1% da população mais rica do país. Também é urgente a tramitação da PEC da segurança pública, a regulamentação de direitos das novas profissões, como os motoristas de aplicativos, importante que o Congresso Nacional priorize o debate sobre novos recursos para o SUS, para a universalização da educação integral, dos direitos da primeira infância, do fim da jornada 6x1, da tarifa zero para o transporte público. O povo brasileiro precisa ser priorizado na agenda do Congresso Nacional.
Considerando a importância para o país, para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, destes temas, a Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores, por meio desta resolução, posiciona-se:
1. Pela NÃO aprovação à anistia para os golpistas e assassinos do 8 de janeiro.
2. Pela NÃO aprovação de qualquer redução de pena para quem planejou golpe de Estado e tentativa de assassinato do presidente da República, vice-presidente e presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Esse debate torna-se totalmente fora de lugar nesse momento, e não está entre as prioridades do povo brasileiro.
3. Pela REJEIÇÃO no Senado Federal da PEC 03/2021, aprovada pela Câmara dos Deputados, que restabelece as prerrogativas parlamentares.
4. Pela APROVAÇÃO da Reforma do Imposto de Renda, com a tributação dos super ricos.
5. Pela APROVAÇÃO da MP 1303/25, da Taxação BBB - bancos, bets e bilionários.
6. Pela construção urgente de uma agenda para a tramitação de matérias, e debates dos temas, acima elencados, que significam melhoria da vida do povo brasileiro. Essa é a urgência demonstrada pela força das mobilizações de rua.
Assim deliberou a Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores.
Brasília, 23 de setembro de 2025.
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
"Golpista bom é golpista preso!"
O texto abaixo foi referendado pela direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda, como editorial da próxima edição do jornal Página 13. A foto abaixo foi divulgada no blog O Cafezinho.
EDITORIAL
“Golpista bom é golpista preso!”
As manifestações realizadas em todo o Brasil contra a “PEC da bandidagem” e contra a “anistia para golpistas” confirmaram que o povo brasileiro está disposto a ir às ruas lutar pelas liberdades democráticas. Demonstrando, portanto, que não precisamos ficar eternamente reféns da correlação de forças existente no Congresso Nacional. Pelo contrário: se queremos mudar o resultado das votações e se queremos mudar a composição do Congresso, é essencial travar a disputa na sociedade.
As manifestações mostraram,
também, que a militância de esquerda acredita no ditado popular: “Quem com
porcos se mistura, farelo come”. Os petistas que compareceram às manifestações
criticaram duramente a postura dos petistas que votaram a favor da PEC da
bandidagem. Lembrando que foram ao todo 14 parlamentares do PT (13 homens e uma
mulher) que colocaram suas digitais em algum trecho da PEC da bandidagem.
As manifestações foram poderosas
em todo o país, entre outros motivos porque a militância petista e as direções
locais se engajaram na mobilização. Mas é preciso dizer explicitamente: nem
todo mundo cumpriu seu dever. Destacamos o bom exemplo da governadora Fátima
Bezerra, do Rio Grande do Norte, que esteve pessoalmente nas manifestações. E
destacamos, em sentido oposto, a postura da Comissão Executiva Nacional do PT,
que conseguiu o prodígio de fazer duas reuniões (uma delas presencial) sem
conseguir aprovar e divulgar uma resolução a respeito do tema.
A postura da Executiva Nacional
tem uma óbvia explicação: setores da direção apoiaram ou pelo menos foram cúmplices passivos da
atitude dos parlamentares que votaram favoravelmente à PEC da bandidagem. Não
são maioria na Executiva Nacional do PT, mas ocupam cargos estratégicos e têm
força suficiente para bloquear a aprovação de uma resolução. Isto preocupa não
pelo ocorreu no passado, mas pelo que precisa ser feito para vencermos no
presente e no futuro.
A batalha contra a anistia para
os golpistas, a luta pela pauta do povo, a vitória nas eleições de 2026 exigem
uma tática de polarização. A tática do mal menor e dos acordos com a direita
vai nos levar à derrota. Portanto, é imprescindível debater abertamente o
ocorrido na votação da PEC da bandidagem para tentar evitar que o mesmo erro se
repita.
A luta pelas liberdades
democráticas — que inclui punição para os golpistas, mas também inclui impedir
que o parlamento se transforme em refúgio de criminosos — não esgota a pauta do
povo. Para a imensa maioria da população, a democracia só ganha sentido se
estiver a serviço da defesa do fim da escala 6x1, da redução da jornada, de que
os ricos paguem impostos, da redução dos juros, da ampliação dos recursos para
as políticas públicas. Por isso, ao mesmo tempo que devemos comemorar o êxito
das manifestações de 21 de setembro, devemos pressionar o governo para que mude
o rumo da política econômica.
A Polícia Federal demonstrou os
vínculos entre o PCC e a Faria Lima. Mas a verdade é bem pior: o conjunto do
capital financeiro assalta cotidianamente o povo brasileiro. O Banco Central
comandado por Galípolo, ao manter uma taxa de juros de 15%, está a serviço de
estrangular a economia, prejudicar o povo e nos derrotar nas eleições de 2026.
A tática da polarização está
contribuindo para que Lula melhore nas pesquisas. Mas não devemos nos iludir. A
eleição do próximo ano não será um passeio. Estão e estarão contra nós o
governo Trump, a aliança entre o agro e o capital financeiro, as duas direitas,
tudo junto e misturado. Venceremos se, entre inúmeras outras coisas, lembrarmos
que colheremos nas urnas o que tivermos plantado nas ruas. Até porque não é com
flores e negociatas que se combate o fascismo!
Os editores
O porco do dia (de ontem)
Ontem a esquerda foi às ruas, manifestar-se contra a PEC da bandidagem e contra a anistia para os golpistas.
As redes sociais da militância estão cheias de imagens a respeito.
Tem um caso genial, de um deputado petista que votou a favor da PEC da bandidagem. Na segunda-feira, dia 22 de setembro, o referido postou uma foto sua, de punho erguido, saudando as manifestações. Onde foi tirada a foto? Não sei, mas suspeito que não tenha sido nas manifestações...
Mas nada se compara a postagem feita, no dia de ontem, domingo 21 de setembro, por um dos vice-presidentes nacionais do Partido, o senhor Quaquá.
Vale dizer que Quaquá era contra as manifestações.
No dia 19 de setembro, sexta-feira, Quaquá escreveu que “essa mobilização de domingo é um erro. Sobretudo porque não temos capacidade suficiente de mobilização”.
Cerca de 48 horas depois, no domingo 21 de setembro de noite, Quaquá escreveu que “os atos foram fracos” e “fora da realidade do povo” e citando os “shows gratuitos”.
Uma avaliação que não deixa nada a dever, seja aos delírios de certa ultraesquerda, seja aos delírios de certa ultradireita.
E onde estava Quaquá no domingo 21 de setembro?
Segundo entendi - mas espero estar errado - ele estava degustando, conforme se pode ver abaixo.
https://www.instagram.com/reel/DO3hSFcDVIR/?igsh=MXE1MDkwMmhnMnIzbg==
A cena toda me fez lembrar o poema que Bocage dedicou à variante bípede (a quadrúpede é bem mais legal) do sus scrofa domesticus (ver aqui: Poema: O Leão e o Porco - Manuel Bocage - Poesia / Poemas no Citador):
Não há poder algum que mude a natureza
Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos,
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.
domingo, 21 de setembro de 2025
Respondendo ao companheiro Josias: não dá para defender os 14
Acabo de receber um texto assinado pelo companheiro Josias Gomes, intitulado "A defesa dos 12: a PEC, a correlação de forças e a fragilidade do Congresso".
Para começo de conversa, lembro que não são 12, são 14. Afinal, o Valmir Assunção e o João Daniel ajudaram a garantir o voto secreto.
Isto posto, quero começar concordando totalmente com Josias, no seguinte: "a esquerda deve continuar firme na luta contra a PEC da Anistia, contra a PEC da Blindagem e contra todas as iniciativas que representam retrocessos democráticos. Mas não pode desperdiçar energia em autofagia. O alvo precisa ser a extrema-direita — e não os próprios companheiros de luta".
Mas para que seja possível seguir adiante, há uma pergunta singela que deve ser respondida: os catorze (e quem mais pensa como eles) aprenderam a lição? Ou o ocorrido pode voltar a ocorrer, a qualquer momento?
Lendo o texto do companheiro Josias e a declaração por ele citada, atribuída à companheira Gleide, minha conclusão é que o ocorrido pode voltar a ocorrer. Motivo pelo qual se faz necessário, infelizmente, gastar tempo debatendo o que aconteceu.
Para dar um exemplo de que o ocorrido pode voltar a ocorrer, cito uma passagem do texto do Josias.
Segundo Josias, o voto dos 12 (14) deputados estaria em "aparente contradição com a linha majoritária do partido e com a orientação clara da esquerda, liderada por Lula". Ou seja: o voto dos 12 parece contraditório, mas isso seria apenas uma aparência.
Josias nos convida a "olhar para além da superfície".
Ou seja, quem critica a contradição entre a linha do Partido e o voto dos 12 (14) estaria incorrendo em superficialidade.
Segundo Josias, "o voto não foi motivado por conveniência pessoal ou por adesão às teses conservadoras. Ele nasceu de um ambiente de negociações tensas, em um cenário político no qual a correlação de forças no Congresso é profundamente desfavorável ao campo popular".
Sinceramente, por tudo que sei, não tenho a mesma certeza de que não exista absolutamente nenhuma conveniência pessoal ou adesão às teses conservadoras.
Acho que alguns dos nossos se adaptaram demais ao modus vivendi do parlamento.
Mas concordo com Josias que - havendo ou não outros motivos - a discussão de fundo é sobre qual deve ser nossa tática num ambiente hostil.
Sobre isto, Josias explica quem controla o Congresso e afirma que, nesse tabuleiro, "cada votação envolve táticas de sobrevivência".
Exatamente neste ponto reside a divergência: nossa tática não pode ter como único parâmetro o que ocorre no Congresso, pois se fizermos isso, a batalha estará perdida de antemão.
Nossa tática deve ter um olho no gato e outro no peixe, ou seja, deve levar em conta a necessidade de ter o melhor resultado positivo possível dentro do Congresso e, ao mesmo tempo, deve levar em conta a necessidade de contribuir para alterar a correlação de forças na sociedade e, assim, futuramente, alterar a correlação de forças no próprio Congresso.
Ademais, nossa tática deve levar em conta que a direita não é confiável e que, portanto, certos acordos são inócuos, prejudiciais, inúteis, desacumulam, pois em troca dos 12 (14) votos não ganhamos absolutamente nada em troca. E, como sabemos, o pior tipo de pragmatismo é aquele que não tem resultados.
Em boa medida foi isso o que ocorreu no caso das prerrogativas/anistia.
Os 12 (14) parecem ter acreditado que votando na PEC das Prerrogativas, conteríamos ainda que parcialmente a tramitação da PEC da Anistia para golpistas.
O resultado foi outro, diferente do supostamente pretendido: i/o Centrão não cumpriu sua parte do acordo e ii/comprometemos a imagem do Partido.
Resumindo: frente ao fato (a correlação de forças é ruim) não existe uma única tática (a que Josias chama de "sobrevivência").
E a tática que os 12 (14) adotaram foi, como a vida demonstrou, errada. Errada, entre outros motivos por ser diferente da tática que vínhamos adotando desde o episódio do IOF, tática que leva em crescente conta a necessidade de mobilizar a população.
Não se trata, portanto, de uma "aparente" contradição. Se trata de uma contradição. A maioria (da bancada e do Partido) escolheu um caminho e os 12 (14) escolheram outro. Os 12 (14) poderiam estar certos? Em tese, poderiam. Mas a vida demonstrou muito rapidamente que estavam errados.
Josias dedica parte de seu texto a falar da fragilidade de Hugo Motta. Chega a dizer que ele é "um deputado sem densidade política, fraco como suco de raspa de gelo, tutelado pelos interesses mais atrasados do Parlamento", que falta “adulto na sala”, falta "liderança capaz de arbitrar, construir consensos e dar equilíbrio institucional".
Depois de ler tudo isso, me pergunto qual foi mesmo o motivo que levou a bancada do PT a votar neste cidadão para presidente da Câmara. Mas aí eu lembro não ser propriamente verdade que "falte liderança capaz de arbitrar". Essa liderança existe: Arthur Lira. E tem arbitrado contra nós, detalhe que os 12 (14) esqueceram ao acreditar num péssimo acordo.
Com base na tese de que existe um "vazio de comando", Josias afirma que "cada voto se transforma em um dilema: ou ceder parcialmente para impedir retrocessos ainda piores, ou assumir o risco de ser atropelado por uma maioria hostil".
Pois bem: neste caso concreto, a vida demonstrou que teria sido melhor ser "atropelado" e travar a disputa na sociedade, do que "ceder parcialmente" em troca de absolutamente nada, atrapalhando nossa disputa na sociedade.
Mas esta escolha pressupõe acreditar mais na tática da mobilização social. Nem sempre é possível adotar esta tática; nem sempre ela tem êxito imediato, capaz de alterar a votação; mas existem situações (como esta das prerrogativas e da anistia) onde existe condição de mobilizar e onde a pressão popular pode ter êxito.
Ademais, há questões onde é preferível perder a ceder. Este é o caso, precisamente, da PEC da bandidagem. Josias afirma que este nome é um apelido dado pela mídia. Não sei se o apelido veio daí. Mas considero que ele é adequado ao conteúdo, especialmente no item do voto secreto, que foi aprovado graças aos 8 votos de petistas.
Não acho que caiba usar meias palavras nesse caso: nossos oito deputados foram decisivos para aprovar uma medida que, na atual situação, ajuda a proteger bandidos.
Por tudo isso, acho inadequado apresentar o voto dos 12 (14) como "gesto amargo". Claro, deve ser "amargo" ver as redes sociais inundadas de críticas, como aconteceu com todos os que votaram. E tenho certeza de que também é "amargo" ter que responder por qual motivo os deputados do nosso partido fizeram o que fizeram.
Mas chamar de "gesto amargo" passa a impressão de que os 12 (14) se sacrificaram pelo bem comum. E não foi isso o que aconteceu.
O governo liberou. O Partido não recomendou o voto. A bancada mandou votar contra. Os 12 (14) fizeram o que fizeram porque quiseram. E de boas intenções o inferno está cheio.
O importante mesmo é o seguinte: se a situação no Congresso é mesmo a descrita por Josias, se a intenção dos 12 (14) era mesmo "salvar pautas sociais prioritárias" e "manter canais de negociação abertos", se estes parlamentares acham que cabe a eles decidir seu próprio voto numa questão tão central, então qual a garantia de que não vão fazer de novo?
Na minha opinião, a preços de hoje, ao menos no caso dos que não reconheceram de público o erro, a garantia é nenhuma.
Josias reconhece que a "indignação da militância é legítima e necessária", mas a forma como ele defende o gesto dos 12 (14) contribui para que o problema não seja resolvido e que possa voltar a ocorrer.
Na minha opinião, passar o pano no gesto dos 12 (14) contribuiu para que, ao menos até agora, não tenha saído nenhuma nota da executiva nacional do PT convocando os atos de 21 de setembro e fechando questão no Senado.
Por fim, registro positivamente que Josias em nenhum momento atribui a postura dos 12 (14) a algum tipo de "orientação" que eles teriam recebido sabe-se lá de onde. Cá entre nós, todos estamos sujeitos a cometer erros. Mas nenhum de nós pode agir como o Homer Simpson, segundo o qual "a culpa é minha e eu coloco ela em quem eu quiser".
No caso, a culpa é todinha dos 12 (14). Não do Partido, nem da bancada.
Segue abaixo o texto comentado
A defesa dos 12: a PEC, a correlação de forças e a fragilidade do Congresso
O episódio recente da votação da chamada PEC das Prerrogativas — apelidada pela mídia de PEC da Impunidade — gerou forte indignação popular, inclusive entre setores progressistas. Doze deputados do PT votaram favoravelmente, em aparente contradição com a linha majoritária do partido e com a orientação clara da esquerda, liderada por Lula.
Mas para compreender esse gesto, é preciso olhar para além da superfície. O voto não foi motivado por conveniência pessoal ou por adesão às teses conservadoras. Ele nasceu de um ambiente de negociações tensas, em um cenário político no qual a correlação de forças no Congresso é profundamente desfavorável ao campo popular.
O peso da correlação de forças
O Congresso atual é controlado por uma maioria sólida formada por PL, PP, União Brasil e Republicanos, partidos da extrema direita e da direita fisiológica. Essa maioria tem imposto sua pauta e, sobretudo, bloqueado avanços sociais. Projetos fundamentais como a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, a redução na conta de luz, a taxação das apostas e dos super-ricos e o novo Plano Nacional de Educação estão sendo sistematicamente travados.
Nesse tabuleiro, cada votação envolve táticas de sobrevivência. A aprovação da PEC das Prerrogativas foi apresentada como um mal menor diante da possibilidade ainda mais grave da tramitação da PEC da Anistia, que significaria blindar golpistas e legalizar retrocessos democráticos profundos.
A fragilidade da presidência da Câmara
O problema se agrava pela fragilidade da presidência da Câmara. Hoje, a cadeira é ocupada por Hugo Motta, um deputado sem densidade política, fraco como suco de raspa de gelo, tutelado pelos interesses mais atrasados do Parlamento. Falta “adulto na sala”. Falta liderança capaz de arbitrar, construir consensos e dar equilíbrio institucional.
Essa fraqueza permite que a agenda seja sequestrada pela extrema-direita, que pauta o que deseja e sufoca os projetos de interesse do povo. Nesse vazio de comando, cada voto se transforma em um dilema: ou ceder parcialmente para impedir retrocessos ainda piores, ou assumir o risco de ser atropelado por uma maioria hostil.
O gesto amargo dos 12
Foi nesse contexto que se deu o voto dos 12 deputados do PT. Um gesto amargo, como definiu Gleide Andrade, tesoureira nacional do partido. Deputados como Odair Cunha e Jilmar Tatto reconheceram que a escolha foi dolorosa, mas orientada pela tentativa de salvar pautas sociais prioritárias. Merlong Solano, do Piauí, foi além: pediu desculpas públicas e admitiu o erro, mas explicou que sua intenção era manter canais de negociação abertos — ainda que em terreno minado pela extrema-direita.
Não se trata de romper com os princípios históricos do PT, mas de enfrentar o dilema entre dois retrocessos possíveis. Foi uma tática que não deu certo, mas que deve ser analisada dentro do quadro de forças desproporcional que caracteriza o Congresso de hoje.
Quem é o verdadeiro inimigo?
A indignação da militância é legítima e necessária. Mas é preciso cuidado: transformar essa indignação em ataques internos apenas fragiliza o campo progressista. A direita e a extrema-direita já se aproveitam desse episódio para posar de guardiãs da moralidade — justo elas, com históricos marcados por corrupção, conluio com o crime organizado e vínculos escusos com a Faria Lima e esquemas criminosos.
Os verdadeiros inimigos não são os 12 deputados do PT. São os que querem anistiar golpistas, blindar corruptos e desmontar a democracia brasileira.
Conclusão: unidade e maturidade política
O episódio mostra o tamanho do desafio: governar com uma maioria hostil, uma presidência da Câmara frágil e uma oposição radicalizada. Isso exige maturidade política e clareza estratégica.
A esquerda deve continuar firme na luta contra a PEC da Anistia, contra a PEC da Blindagem e contra todas as iniciativas que representam retrocessos democráticos. Mas não pode desperdiçar energia em autofagia. O alvo precisa ser a extrema-direita — e não os próprios companheiros de luta.
O gesto dos 12 deve ser visto pelo que foi: uma tática, amarga e frustrada, mas que nasceu do esforço de evitar um mal maior. O momento exige unidade, porque a disputa real não é entre nós. É contra uma direita que quer transformar o Congresso em bunker de impunidade e bloquear qualquer avanço popular.
Josias Gomes, militante do PT e Deputado Federal.