A entrevista durou 40 minutos.
Quanto à forma, Lula saiu-se muito bem.
Não teve dificuldade em responder nada, recitou números variados sem se atrapalhar, manteve o bom humor e mostrou uma agilidade física e mental que certamente vai produzir - nas redes da direita - uma overdose de comentários sobre clones.
Quanto ao conteúdo, Lula teve que lidar com a pauta da Globo, que conseguiu a proeza de perguntar sobre tudo, menos sobre o fim da escala 6 por 1 (a respeito, ver o editorial de O Globo acerca do tema, publicado no dia 14 de outubro de 2026).
Sendo este o contexto, Lula também saiu-se bem no mérito.
Sobre a avaliação negativa de seu governo, assumiu a responsabilidade e reconheceu ser necessário fazer mais, ao mesmo tempo que defendeu o conjunto da obra.
Sobre o Supremo, reafirmou que é necessário fazer uma reforma e defendeu investigar todo mundo.
Sobre a presença do atual diretor da Polícia Federal num convescote londrino de Vorcaro, disse que não ficou nada satisfeito com a explicação dada; apesar disso, defendeu o trabalho do cidadão, mas evitou a armadilha de fazer composição do quarto mandato antes de ser eleito.
Sobre a reunião com Vorcaro, disse o óbvio: todo mundo que tem algum “problema”, procura a presidência da República. E o fato é que o Banco Master foi fechado logo depois e o criminoso posto atrás das grades.
Sobre o reajuste tardio no Bolsa Família, Lula escolheu contar a verdade, mesmo que esta possa parecer incrível: ele não sabia que o valor da Bolsa não tinha sido corrigido, apesar de existir “espaço fiscal”. E, quando soube, mandou reajustar.
Lula também saiu-se bem, ao ser questionado sobre as posições do atual presidente do Banco Central: ele explicitou discordar de Galípolo. Não vai "cortar dinheiro dos pobres" e defendeu que a solução para o problema da dívida estaria no crescimento.
Na questão da energia, Lula lembrou das privatizações.
Lula saiu-se bem, inclusive, em duas "cascas de banana": a relação com o Congresso e, também, a relação com os Estados Unidos.
Óbvio que, na vida real, ao contrário do que Lula deu a entender em suas respostas, a coisa não foi e não será tranquila. Mas as respostas dadas evitaram a cilada óbvia: frente as imensas dificuldades envolvidas, argumentarem que seria, portanto, impossível a “governabilidade”.
Lula também falou de outros temas, como por exemplo a saúde. E, ao final, conseguiu falar do transporte gratuito e até da 6x1, que poderia ter sido citada como prova de que é possível - mesmo com um congresso majoritariamente de direita - aprovar posições avançadas. No início da entrevista, Lula escolheu provar esta tese citando como exemplo a reforma tributária, um mau exemplo, pois a reforma tributária aprovada está muito longe da necessária.
Evidente que tanto as pessoas de boa fé, quanto os engenheiros de obras feitas, farão 1001 reparos ao desempenho de Lula na entrevista. O problema é que o entrevistado é ele e suas circunstâncias, no caso a pauta hostil imposta pela Globo, lavajatista e neoliberal.
Evidente, também, que a depender da posição do freguês, outras respostas seriam possíveis e necessárias.
Por exemplo e cá entre nós, Lula nomeou um presidente do Banco Central cuja política de juros contribuiu, e muito, para os problemas que estamos vivendo.
E bem que Lula poderia ter usado algumas respostas para descascar o Traidor da Pátria, Miliciano e Ultraliberal.
Não o fez, talvez, por estar desde o início da entrevista pressionado (e impressionado) pelo fato de que nosso governo não é tão bem avaliado quanto o próprio Lula, no passado recente, imaginava que fosse.
Mas, de conjunto e levando em conta o contexto, o entrevistado saiu-se muito bem.
Não adianta procurar pêras num carvalho, assim como não é realista querer a exposição do "programa máximo" - ou qualquer outra coisa parecida - numa entrevista para a Globo, totalmente diferente do ambiente dos Flow da vida.
Entretanto, para não dizer que não falamos de espinhos, registro o que parece ter sido o principal senão: o tema da "maioridade penal", nos casos de crimes hediondos cometidos por quem tem 16 anos.
Se a tática do governo era aprovar imediatamente a PEC da Segurança Pública, então o senador Camilo Santana errou feio, duas vezes, ao contrapor sua proposta de 16 anos à proposta de 14 anos feita pela direita.
Afinal, qualquer alteração no texto da PEC - não importando se 14 ou 16 - impediria sua aprovação imediata.
Mas, uma vez tendo sido apresentada a proposta, tornou-se inevitável que Lo Prete perguntasse qual a posição do presidente. E Lula escolheu dizer que pessoalmente, como cidadão, apoia a redução da maioridade - para 16 anos - no caso de crimes hediondos.
Como em tantas outras questões da segurança pública, o que está em jogo nessa questão da “maioridade”
é menos a efetividade da medida e mais a ânsia punitivista.
Ânsia que Lula, por convicção ou cálculo, resolveu não confrontar, opção em certa medida temerária - inclusive tendo em vista a mobilização da juventude e dos militantes dos direitos humanos em favor de nossa candidatura - e que só demonstra como a extrema direita, mesmo caminhando para ser derrotada dia 25 de outubro, segue ideologicamente hegemônica em vários temas.
Mas o jeito de enfrentar isso, neste outubro de 2026, é elegendo Lula.
ps1. antes da entrevista, a Globo divulgou um novo DataFolha: empate técnico. O Traidor da Pátria bateu no teto. E Lula segue tendo espaço para crescer. Venceremos.
ps2. em que tempos vivemos! Muita juventude nas ruas defendendo Lula. Enquanto isso, um ex-ministro da educação apresenta uma proposta de redução da maioridade penal. E outro ex-ministro da educação relaciona sua escolha por ser professor, com o desejo de ser dono de escola (https://www.facebook.com/share/v/19ehKeaNYQ/?mibextid=wwXIfr)
ps3. igualmente sinal dos tempos, nesse caso positivo, é o grande número de petistas críticos ao desempenho de Lula na entrevista. Os motivos variam. Mas, de conjunto, a postura crítica expressa algo mais profundo (e genial): a mobilização de massas em favor de Lula tem seus momentos de culto à personalidade, mas também contribui para uma saudável e autônoma radicalização. Assim, vamos ser críticos, mas sem parar a campanha jamais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário