A entrevista durou 40 minutos.
Quanto à forma, Lula saiu-se muito bem.
Não teve dificuldade em responder nada, recitou números variados sem se atrapalhar, manteve o bom humor e mostrou uma agilidade física e mental que certamente vai produzir - nas redes da direita - uma overdose de comentários sobre clones.
Quanto ao conteúdo, Lula teve que lidar com a pauta da Globo, que conseguiu a proeza de perguntar sobre tudo, menos sobre o fim da escala 6 por 1.
Sendo este o contexto, Lula também saiu-se bem no mérito.
Sobre a avaliação negativa de seu governo, assumiu a responsabilidade e reconheceu ser necessário fazer mais, ao mesmo tempo que defendeu o conjunto da obra.
Sobre o Supremo, reafirmou que é necessário fazer uma reforma e defendeu investigar todo mundo.
Sobre a presença do diretor da Polícia Federal num convescote londrino de Vorcaro, disse que não ficou nada satisfeito com a explicação dada, apesar disso defendeu o trabalho do cidadão, mas evitou a armadilha de fazer composição de novo governo antes de ser eleito.
Sobre a reunião com Vorcaro, disse o óbvio: todo mundo que tem problema procura a presidência. E o fato é que o banco foi fechado logo depois e o criminoso posto atrás das grades.
Sobre o reajuste tardio no Bolsa Família, escolheu contar a verdade, mesmo que esta possa parecer incrível: ele não sabia. E, quando soube, mandou reajustar.
Lula também saiu-se bem ao ser questionado sobre as posições do presidente do Banco Central: ele discorda de Galípolo. Não vai "cortar dinheiro dos pobres" e defende que a solução para o problema da dívida está no crescimento.
Na questão da energia, Lula lembrou das privatizações.
Lula saiu-se bem, inclusive, em duas "cascas de banana": a relação com o Congresso e a relação com os Estados Unidos.
Óbvio que na vida real, ao contrário do que Lula deu a entender em suas respostas, a coisa não foi e não será tranquila. Mas as respostas dadas evitaram a cilada óbvia: frente as dificuldades, dizer que será impossível a governabilidade.
Lula também falou de outros temas, como a saúde. E, ao final, conseguiu falar do transporte gratuito e até da 6x1, que poderia ter sido citada como prova de que é possível - mesmo com um congresso de direita - aprovar posições avançadas. No início da entrevista, Lula escolheu citar como exemplo a reforma tributária, um mau exemplo, pois a reforma aprovada está muito longe do necessário.
Evidente que os engenheiros de obras feitas farão 1001 reparos ao desempenho de Lula. O problema é que o entrevistado é ele e suas circunstâncias, no caso a pauta imposta pela Globo.
Evidente, também, que a depender da posição do freguês, outras respostas seriam possíveis e necessárias.
Por exemplo e cá entre nós, Lula nomeou um presidente do Banco Central que contribuiu e muito para os problemas que estamos vivendo.
E bem que Lula poderia ter usado algumas respostas para descascar o Traidor da Pátria, o Miliciano e o Ultraliberal.
Não o fez, talvez, por estar pressionado (e impressionado) pelo fato de que nosso governo não é tão bem avaliado quanto ele, no passado recente, imaginava que fosse.
Mas, de conjunto e levando em conta o contexto, o entrevistado saiu-se muito bem.
Não adianta procurar pêras num carvalho, não é realista querer a exposição do "programa máximo" - ou qualquer outra coisa parecida - numa entrevista para a Globo, totalmente diferente do ambiente dos Flow da vida.
Entretanto, para não dizer que não falamos de espinhos, registro o principal senão: o tema da "maioridade penal" nos casos de crimes hediondos cometidos por quem tem 16 anos.
Se a tática do governo era aprovar imediatamente a PEC da Segurança Pública, então Camilo Santana errou em contrapor sua proposta de 16 anos à proposta de 14 anos feita pela direita.
Afinal, qualquer alteração no texto - não importando se 14 ou 16 - impediria a aprovação imediata.
Mas uma vez tendo sido apresentada a proposta, tornou-se legítimo fazer o que Lo Prete fez: perguntar qual a posição do presidente. E Lula escolheu dizer que, como cidadão, apoia a redução da maioridade - para 16 anos - no caso de crimes hediondos.
Como em tantas outras questões da segurança pública, o que está em jogo nessa questão é menos a efetividade da medida e mais a ânsia punitivista, a qual Lula, por convicção ou cálculo, resolveu não confrontar, opção em certa medida temerária - inclusive tendo em vista a mobilização da juventude e dos militantes dos direitos humanos em favor de nossa candidatura - e que só demonstra como a extrema direita, mesmo caminhando para ser derrotada dia 25, segue ideologicamente hegemônica em vários temas.
Mas o jeito de enfrentar isso, neste outubro de 2026, é elegendo Lula.
ps1. antes da entrevista, a Globo divulgou o DataFolha: empate técnico. O Traidor da Pátria bateu no teto. E Lula segue tendo espaço para crescer. Venceremos.
ps2. em que tempos vivemos. Muita juventude nas ruas defendendo Lula. Enquanto isso, um ex-ministro da educação apresenta a proposta de redução da maioridade penal. E outro ex-ministro da educação relaciona sua escolha por ser professor com o desejo de ser dono de escola (https://www.facebook.com/share/v/19ehKeaNYQ/?mibextid=wwXIfr)
ps3. igualmente sinal dos tempos, nesse caso positivo, é o grande número de petistas críticos ao desempenho de Lula na entrevista. Os motivos variam. Mas, de conjunto, a crítica expressa algo mais profundo e genial: a mobilização de massas em favor de Lula tem seus momentos de culto à personalidade, mas também contribui para uma saudável e autônoma radicalização.
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