Valter Pomar
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
A Igreja dos Marxistas Leninistas dos Últimos Dias
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Comentários sobre o programa que a coligação que apoia Lula inscreveu no TSE
(texto sem revisão)
O presidente
nacional do PT, o companheiro Edinho, volta e meia enfatiza a importância do
Partido, das instâncias, da democracia interna.
Ele está
certo. Mas, infelizmente, não foi o que vimos no caso do programa de governo
2027-2030.
O texto que
foi protocolado no Tribunal Superior Eleitoral é assinado por 7 partidos: PT, PSB,
PV, PCDOB, PDT, PSOL e REDE.
Não sei como
foi nos demais partidos. Mas no PT não houve debate nem aprovação deste texto pelas
instâncias partidárias, seja no Diretório Nacional, seja na Executiva Nacional.
Não foi
assim nas eleições presidenciais que acompanhei, desde 1989 até 2022.
Nunca
antes na história do Partido um programa foi registrado sem que houvesse debate nas
instâncias.
A bem da
verdade, houve situações bizarras – numa das campanhas da presidenta Dilma
Rousseff tivemos problemas com o texto que foi protocolado no TSE – mas naquele
caso o problema não foi a falta de debate e deliberação no Partido.
No caso
presente, 2026, ao menos da nossa parte foi feito um alerta, uma reclamação e
um pleito para que o devido debate fosse feito. Mas isso não ocorreu. O terrível
fato é que o Diretório e a Executiva abriram mão de incidir no processo
O texto que
foi protocolado passou por comissões, consultas abertas, escutas... mas, no
limite, a decisão sobre o que entrava e sobre o que não entreva no texto protocolado
no TSE não foi tomada por nenhuma instância partidária.
Dizem que a
decisão final foi de Lula, dizem que “o governo” tinha que ser ouvido. Mas nada
disso impediria que o Partido tivesse dado sua posição.
As vezes
tenho a impressão de que algumas pessoas acham que o mundo sairia do eixo, se o
Partido decidisse algo e Lula decidisse o contrário. E, para impedir isso,
essas mesmas pessoas pulam a parte da decisão partidária e vão direto para a
decisão de Lula.
Este método
tem uma consequência prática – empodera o embargo auricular de inúmeras pessoas,
em detrimento das instâncias democraticamente eleitas. Deixo aos sociólogos dizer
se isso é uma “hegemonia burocrática” ou se é um “método de corte aristocrática”,
mas em ambos os casos os empoderados não são escolhidos pelo voto da militância
petista.
Qual a implicação
de mérito deste processo pouco democrático? Depende do que se entenda
por mérito, mas na minha opinião o programa ficou aquém do que poderia e do que
precisamos.
Claro que ter
um programa ótimo não garante nada. Por exemplo: em 2022, o programa relativo
ao mandato 2023-2026 foi democraticamente debatido, mas sua incidência sobre a
gestão que agora se encerra não foi a que gostaríamos, entre outros motivos porque
está se generalizando a conduta segundo a qual o comando político real está nos
mandatos, não nas instâncias.
Mas
constatar isso não deveria nos levar a ter uma atitude cínica segundo a qual “tanto
faria” o programa dizer A ou dizer B. Pelo contrário. Um programa debatido e
aprovado nas instâncias democraticamente eleitas, além de sair melhor, tem
maior capacidade de engajar, de influenciar, de contribuir no debate público, além
de impor maiores custos a quem queira desrespeitar o que foi deliberado coletivamente.
De forma
geral, há uma questão político pedagógico muito importante nesses tempos de extrema-direita
trumpista e neofascista.
Vivemos numa
época em que as chamadas regras do jogo são regularmente desrespeitas, em que
as instituições são atropeladas pelas elites.
Nós somos a
alternativa a esta gente. E se formos pelo caminho de também passar por cima
das nossas próprias regras do jogo, isso criará um ambiente de cinismo, de
hipocrisia, de desvalorização dos espaços e dos debates coletivos.
Isso pode,
no curtíssimo prazo, aumentar a eficácia. Mas no médio e longo prazo, causará
danos irreparáveis, como aliás já foi demonstrado sobejamente pela história do
movimento socialista.
Para nós da
classe trabalhadora, que dependemos antes de mais nada de nossa organização
coletiva, uma prática autoritária pode ser útil momentaneamente, mas
estrategicamente é um desserviço.
Seja como
for, o programa está inscrito. E o debate sobre ele segue, inclusive porque a
direita não desistiu de tentar impor ao futuro mandato Lula que faça um ajuste
fiscal. O que isso poderia significar? Basta lembrar da inestimável ajuda que o
desastroso ajuste capitaneado, em 2015, por Joaquim Levy deu ao golpe de 2016.
Um exemplo do que a direita pensa a respeito do programa protocolado no TSE é o editorial do Estadão, divulgado neste 11 de agosto.
Alguns interpretam o ataque do Estadão como prova de que o texto protocolado estaria na linha justa. Mas isto é uma meia verdade. O texto não agrada os porta-vozes do grande Capital, porque propõe políticas públicas que atendem ao povo. E esse é, precisamente, um dos muitos motivos pelos quais defendemos muito do que é dito pelo programa e fazemos campanha para reeleger Lula presidente.
Mas o fato da direita nos atacar, não quer dizer que estamos no caminho certo. Basta lembrar do passado recente de nossos governos, que recordaremos inúmeras situações em que nossas escolhas não foram as melhores, nem foram suficientes para nos levar por um caminho de vitórias.
Assim sendo,
é importante que a Nação Petista leia o texto que está sendo divulgado pela
campanha. Leia e debata.
A seguir fazemos uma glosa deste texto. Como o objetivo é debater, não vamos destacar aquilo com que concordamos, até porque concordamos com boa parte do que é dito; nos limitaremos a apontar os problemas e as lacunas, até porque consideramos que o que é prometido no programa será irrealizável, se estas lacunas e problemas não forem resolvidos.
#
O nome
completo do texto é “DIRETRIZES PARA O PROGRAMA DE TRANSFORMAÇÃO DO BRASIL: UM
PAÍS SOBERANO, DEMOCRÁTICO, DESENVOLVIDO SUSTENTÁVEL E CRIATIVO”.
Por razões
que ainda não consigo atentar, tivemos neste título a inclusão de um “criativo”
e tivemos a exclusão da clássica “justiça social”, termo inexato mas que pelo
menos indica um compromisso com os direitos sociais.
Já na
Introdução do texto, este problema foi corrigido, quando se afirma que “nosso
compromisso histórico é construir um Brasil como potência criativa,
sustentável, democrática e soberana, com menos desigualdades”. Mas por qual
motivo não consta do título este tema das desigualdades? Mistérios da
meia-noite...
O texto contém
13 diretrizes, que são as seguintes:
1.
FORTALECER A DEMOCRACIA, A PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MODERNIZAR O ESTADO
2. COMBATER
AS DESIGUALDADES
3. PROTEGER
A VIDA COM UMA SEGURANÇA PÚBLICA MAIS EFICIENTE E INTEGRADA
4. GARANTIR
O DIREITO À EDUCAÇÃO PARA TRANSFORMAR VIDAS E O PAÍS
5.
FORTALECER A SAÚDE COM EQUIDADE, INOVAÇÃO E SOBERANIA
6. AMPLIAR O
ACESSO À CULTURA E AO ESPORTE COMO VETORES DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
7.
FORTALECER O DIREITO À CIDADE
8. PROMOVER
UMA ECONOMIA MAIS SUSTENTÁVEL, PRODUTIVA E DIGITAL, PARA TODAS E TODOS
9. SEGURANÇA
ALIMENTAR E PRODUÇÃO AGRÍCOLA
10. AMPLIAR
A SEGURANÇA ENERGÉTICA E LIDERAR A TRANSIÇÃO PARA UMA ECONOMIA DE BAIXO CARBONO
11. PROMOVER
A SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL E CLIMÁTICA
12.
VALORIZAR O TRABALHO EM SUAS MÚLTIPLAS FORMAS
13. DEFENDER
A SOBERANIA NACIONAL E O PROTAGONISMO INTERNACIONAL DO BRASIL
Antes das
diretrizes propriamente ditas, há uma introdução, intitulada COMPROMISSO COM O
PROJETO DE NAÇÃO.
Uma versão
anterior desta introdução foi analisada com mais detalhe aqui: Valter
Pomar: Glosando a minuta de programa 2027-2030
Ao que já
foi dito no texto disponível no link supracitado, acrescento o seguinte:
1/ o
destaque dado ao “povo” e o sumiço de referência explícita à “classe
trabalhadora”, não apenas na Introdução, mas no texto como um todo.
O termo “classe
trabalhadora” não aparece nem mesmo quando o texto defende “assegurar o fim da
escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas, sem redução
salarial”.
O curioso é
que – ao mesmo tempo que o termo “classe trabalhadora” está ausente - o termo “classe
média” comparece, no trecho que fala da Minha Casa, Minha Vida;
2/ o texto
afirma que “o Brasil proposto por este programa de governo não é uma utopia
distante nem uma promessa vaga. É a continuidade de um projeto concreto” (...)Todos
os compromissos aqui assumidos são factíveis, necessários e possíveis, e têm
como base as conquistas e entregas do atual mandato”.
Essas
afirmações totalmente defensivas, quase vestindo a carapuça, devem ter sido
feitas como vacina a um questionamento do tipo: “porque já não fizeram?”
Mas este
tipo de vacina não é nada útil para enfrentar outro tipo de questionamento, do
tipo “o que vai ter que mudar, para fazer mais?”
Este é o
problema de fundo, sobre o qual o texto do programa cala: um salto de
qualidade nas políticas sociais e nas políticas de desenvolvimento não
é compatível com as atuais políticas fiscal e monetária;
3/ o texto
do programa afirma que “políticas públicas sérias, bem planejadas,
participativas e voltadas para quem mais precisa são capazes de mudar a vida
das pessoas. Somos o verdadeiro novo porque enfrentamos o velho sistema que
mantém o Brasil no atraso, na desigualdade e na dependência”.
Esse é outro
problema político decisivo no texto. Ele apresenta e defende políticas públicas,
a maioria das quais deve mesmo ser defendida.
A questão é
que, para enfrentar o velho sistema, não bastam políticas
públicas, são necessárias as famosas reformas estruturais.
Reformas
estruturais que alterem qualitativamente a distribuição da
propriedade, da riqueza e do poder.
Reformas
estruturais que enfrentem o controle do capital financeiro, do agro e das
mineradoras sobre a economia nacional.
Sem derrotar
esta turma, não haverá o almejado “salto qualitativo de desenvolvimento,
inclusão, sustentabilidade e soberania”;
4/ Nessa
mesma linha, é espantoso que na análise do governo cavernícola, não se destaque
o tema das forças armadas. O texto propõe repetir, sobre este tema, o que já
fizemos noutros governos: ampliar os recursos. Isso deve ser feito. Mas como já
percebemos no tocante a classe trabalhadora, ampliar as políticas públicas sem
politizar e organizar pode ter resultados opostos aos pretendidos;
5/ o balanço
que o texto faz do atual governo Lula, como não poderia deixar de ser, é
positivo. Para além de alguns exageros retóricos desnecessários, o problema de fundo
é que o texto falha ao não destacar que 4 anos de governo nunca seriam
suficientes – mesmo que não houvesse o Novo Marco Fiscal e que não houvesse a
política de juros do Banco Central - para recompor 7 anos de problemas
(2015-2022);
6/ o texto
de programa apresenta como grande feito o “enorme esforço fiscal, de aproximadamente
2% do PIB, R$ 240 bilhões”. Na verdade, tratou-se de um imenso sacrifício,
totalmente desnecessário, pois faz parte dos custos derivados do Novo Marco
Fiscal e do Banco Central. Da mesma forma, não há motivo para comemorar os “recordes”
em “leilões de concessões de logística e energia”. A turma dos leilões e do
esforço fiscal é a outra, não é a nossa;
7/ o texto de
programa fala que “herdamos uma taxa Selic elevada”. Verdade, mas também é
verdade que a política do BC de Galípolo não contribuiu para mudar
qualitativamente esta situação. O silêncio a respeito não vai mudar a
realidade;
8/ o texto de
programa fala que “o Brasil rompeu definitivamente com o isolamento geopolítico
pretérito e reassumiu seu protagonismo na arena global”. Mas também é verdade
que os ataques dos EUA e o crescimento da extrema-direita em nosso continente
criaram uma situação de cerco geopolítico contra o Brasil. Neste sentido, o
texto ficaria melhor e mais sintético se ele fosse desde o princípio organizado
em torno de duas ideias forças: soberania e direitos.
Aliás,
bastaria dar maior destaque ao que já se diz no próprio texto, a saber: “Queremos
fortalecer a soberania brasileira em todas as suas dimensões: democrática,
institucional, defesa nacional, geopolítica, científica, tecnológica, digital,
energética, mineral, ambiental, cultural, econômica, financeira, trabalho
decente, alimentar, educação e saúde”;
#
Sobre as “DIRETRIZES
PROGRAMÁTICAS”, muito pode e deve ser dito sobre cada área, tendo em vista que
em todas e cada uma houve – durante o governo Lula 3 – contradições entre a
ação do governo e as posições defendidas pelo Partido ou por setores dele.
Por exemplo,
no caso do SUS, ver as propostas contidas aqui: Valter
Pomar: Reconstruir e Fortalecer o SUS: um programa democrático e popular
O texto de
programa não fala do sistema dual (que se não for enfrentado vai seguir nos
levando em direção a um SUS totalmente diferente do previsto na Constituição),
não fala da privatização (OS e quetais), não fala do sistema e dos planos privados
que na prática fazem o privado deixar de ser suplementar, não fala de carreira
única.
Problemas
deste tipo existem em todos os itens do programa. Entretanto, aqui nesta
crítica nos limitaremos a fazer observações gerais.
#
9/O texto
fala que a “reforma política e eleitoral é inadiável” e propõe “enfrentar uma
grave distorção na elaboração e gestão do orçamento federal – o atual sistema
de emendas parlamentares”. Mas não diz o caminho para isso, que em nossa
opinião – e na de congressos anteriores do Partido dos Trabalhadores – passa
pela mobilização em favor de uma Assembleia Nacional Constituinte;
10/ ao invés
de defender uma verdadeira reforma, o texto fala apenas em “estimular o
aperfeiçoamento do sistema de Justiça”;
11/ o texto
fala que “precisamos seguir transformando nossa economia” e elogia os feitos do
governo Lula 3 nesta área. Defende “elevar a taxa de investimento da economia”.
Afirma que “a taxa de juros é hoje o que a inflação foi no passado no Brasil:
promove concentração de renda e desorganiza a nossa economia”. Defende “criar as
condições para uma redução sustentada das taxas de juros, com inflação
controlada e assegurando uma política fiscal responsável”. Mas, incrivelmente,
defende que “para isso, manteremos o novo arcabouço fiscal, que controlou o
crescimento das despesas sem prejudicar as políticas sociais e permitiu uma
redução significativa do déficit primário. O resultado fiscal virá, como
fizemos até aqui, da retomada do crescimento econômico, do controle do aumento
do gasto primário, investindo na melhoria da eficiência e da qualidade do gasto
público, da promoção de justiça tributária e do combate aos privilégios e às
distorções”.
Neste trecho
citado acima residem os maiores e mais graves problemas do programa.
Afinal, o
compromisso com a manutenção do “novo arcabouço fiscal” bloqueia
o prometido salto de qualidade e limita muito a “neoindustrialização”.
Além disso,
a timidez com que se fala em “criar as condições para uma redução sustentada da
taxa de juros” contrasta com o tamanho do assalto diário aos cofres públicos e
privados, assalto promovido e protegido pela política de juros do Banco Central
e aceito, de forma política e intelectualmente medíocre, pelo Novo
Marco Fiscal;
12/ o texto
fala em desenvolver uma “política específica para minerais críticos e terras
raras”, quando o certo seria adotar a mesma embocadura que, no passado, levou à
criação da Petrobrás;
13/o texto
fala em garantir a “soberania digital”, mas não se compromete explicitamente
com a criação de uma ou mais empresas públicas que garantam a competição com as
biguitequis estrangeiras;
14/ o texto fala de reforma agrária, o que é um avanço frente a certas posições, mas o faz na linha "hipocrisia é a homenagem que o vício rende à virtude". A posição que prevalece no texto, do ponto de vista formal, é a de compatibilizar agronegócio e produção familiar. O que na prática significa mais agronegócio. O que é ainda mais inaceitável no momento que
vivemos, no Brasil e no mundo, momento que torna agudíssima a secular contradição
entre “agrarismo e industrialismo”;
15/ o texto
não aponta para a reestatização de empresas como Eletrobrás e Petrobrás, assim
como não fala da revogação das contrarreformas trabalhista e previdenciária,
isso apesar de afirmar que “o golpe contra a Presidenta Dilma e a reforma
previdenciária do governo Bolsonaro promoveram uma desorganização que ainda
estamos enfrentando”. Ou seja, vasto diagnóstico, medidas imperfeitas;
16/ o texto
afirma que “a defesa nacional exige Forças Armadas bem equipadas e uma
indústria de defesa sólida”, mas não trata da política de Defesa, nem da
política de formação dos militares.
#
Para
concluir, adapto a seguir observações que foram feitas por duas companheiras, a
quem enviei uma versão anterior desta análise do texto de programa.
O que segue em
itálico não é exatamente o que elas me disseram, mas a inspiração é totalmente
delas. Não as cito, porque cabe a elas vir a público. Mas cito suas ideias, que
me parecem adequadas para finalizar esta crítica.
#
O fato do
texto não ter sido debatido e aprovado pelas instâncias partidárias ajuda a explicar
porque palavras simplesmente "aparecem", sem que seu sentido e
significado tenham sido minimamente debatidos. É o caso desse bizarro CRIATIVO
que foi alçado a palavra de ordem.
Nessa
mesma direção, a função de um programa é, justamente, engajar e, para tanto,
sua construção ser coletiva não é um "detalhe", é parte essencial do
processo de engajamento.
O principal
responsável pelo texto de programa registrado no TSE disse, numa reunião, que o
resultado do programa foi fruto de uma batalha da direita com a centro esquerda
e, portanto, o que saiu está ótimo porque poderia ser muito pior.
Cabe
perguntar: cadê a esquerda, cadê o PT, nessa queda de braço? O fato de o PT não
ter sido consultado contribui de maneira decisiva para que a direita e a
centro-esquerda tenham – do ponto de vista do principal responsável pela elaboração
do texto – monopolizado a disputa.
Por fim, cabe
destacar que o texto assume como tarefa pendente transformar o Brasil. Isso
estava no programa de 2022: “reconstrução e transformação”. Mas, como sabemos,
depois da vitória arquivou-se a transformação e o mote do governo passou a ser “união
e reconstrução”. Detalhe que precisa ser lembrando, quando falamos do que foi feito
e do que não foi feito ao longo deste terceiro mandato de Lula.
Está
correto dar total centralidade para o objetivo da transformação. Mas o texto de
programa protocolado no TSE não dá consequência para isso. E um dos pontos de
maior fragilidade está na frágil articulação entre o projeto nacional e nossa
soberania.
Soberania
não deveria estar no ponto 13 das diretrizes, deveria ser o eixo – junto com ampliação
dos direitos – em torno do qual se articula todo o programa.
Mas a mãe
de todas as fragilidades diz respeito ao sujeito social da transformação.
Já
dissemos que não se faz menção à classe trabalhadora (aliás, isso faz recordar
um certo poema: primeiro tiram a revolução e eu não digo nada, depois as
reformas estruturais, depois a transformação, depois tiram a classe trabalhadora...),
ao mesmo tempo em que a classe média comparece, ainda que inadvertidamente.
Mas não é
só a classe trabalhadora que não comparece ao texto de programa protocolado no
TSE. Na verdade, estão ausentes ou têm papel totalmente rebaixado todos os
sujeitos políticos de que depende a sustentação popular de um programa de
transformação: não tem trabalhadores, mulheres, negros, indígenas, setores
populares como sujeitos políticos que demandam e conquistam direitos. Aparecem?
Sim, mas em geral como beneficiários.
Esse viés
tecnocrático não tem nada que ver com nossa tradição. E tem relação direta com
o método adotado para redigir o programa. Mas a decorrência principal é
política: do mesmo jeito que o programa proposto é irrealizável, se forem
mantidos o Novo Marco Fiscal e a política de juros do Banco Central, ele também
é irrealizável se não houver força política que o sustente. E, como descobrimos
em 2016, não basta ter força política nas instituições, é preciso força popular
organizada nas ruas.
Por isso
devemos seguir pressionando para que o programa seja alterado, em favor da
esquerda. Inclusive porque o cabo de força contra o capital financeiro não
acabou. E se não houver gente puxando do lado de cá, o resultado poderá ser parecido
ao que tivemos em 2014-2015.
Portanto, o
que fazer? Resposta: eleger Lula e nossa gente, ao mesmo tempo que usamos a
campanha como instrumento de mobilização e organização popular.
E para isso ajudará muito se conseguirmos transformar o programa protocolado, num resumo curto, didático e organizado em torno de três palavras chave, por exemplo: soberania, direitos e transformação. Lula, em parte de seu discurso na recente Convenção do PT, deu algumas boas pistas nesse sentido.
(sem
revisão)
Reconstruir e Fortalecer o SUS: um programa democrático e popular
O texto abaixo é de autoria do Setorial de Saúde do PT Campinas. Foi apresentado como contribuição ao programa de governo 2027-2030. Aparentemente, parte do que foi proposta abaixo não foi incorporado no texto registrado no TSE.
Reconstruir e Fortalecer o SUS: um programa
democrático e popular
Setorial de Saúde do PT
Campinas, junho/2026
O Sistema Único de Saúde foi concebido nas lutas
pela redemocratização do país e pela construção de políticas públicas
universais voltadas à ampliação da igualdade e dos direitos, em que a
militância petista teve papel destacado. Na 8ª Conferência Nacional de Saúde,
em 1986, consolidou-se a compreensão de que saúde não é mercadoria, favor ou
benefício para quem pode pagar, mas direito de todas as pessoas e dever do
Estado.
Embora tenha se consolidado como uma das maiores
experiências de sistema universal de saúde do mundo, o SUS foi se distanciando,
ao longo do tempo, do projeto sonhado pelo movimento sanitário e pelos
constituintes. Suas dificuldades decorrem de problemas interligados que exigem
resposta coordenada: gestão fragilizada por interesses partidários e locais,
regionalização incompleta, estrutura de serviços insuficiente, ausência de
carreira pública atrativa e enfraquecimento do controle social. Na raiz desses
problemas estão o subfinanciamento crônico e a crescente dependência do setor
privado por meio de terceirizações e privatizações.
1.
O SUS como projeto de democracia, igualdade e
soberania
A Constituição de 1988 transformou em norma uma
concepção ampliada de saúde, ligada às condições concretas de vida, ao
território, ao trabalho, à renda, à cultura e às relações sociais, para além do
corpo doente. Saúde foi compreendida como um direito humano fundamental e, como
todo direito humano, só se sustenta plenamente em um ambiente democrático. Por
isso, defender o SUS é defender não apenas um sistema de serviços, mas um
projeto de sociedade comprometido com a redução das desigualdades e a garantia
de direitos universais. Essa concepção exige democracia participativa real, não
apenas como momento do voto, com fortalecimento dos conselhos e conferências de
saúde e ampliação da capacidade da população de acompanhar, fiscalizar e
disputar os rumos das políticas públicas.
Contudo, cabe também aos cidadãos, aos
movimentos populares e às organizações representativas dos diversos grupos
sociais acompanhar, fiscalizar, propor e disputar os rumos das políticas
públicas. Quando os conselhos são desconsiderados, esvaziados ou burocratizados,
a participação social precisa se expressar também pela mobilização direta, pela
organização popular e pela luta pública por direitos.
Essa concepção exige também soberania nacional.
Não é possível uma democracia plena se o país depende excessivamente da
importação de vacinas, medicamentos, equipamentos, insumos, tecnologias,
plataformas digitais e sistemas de informação. Essa dependência fragiliza o
SUS, encarece o cuidado e torna o país vulnerável em momentos de crise
sanitária, como ficou evidente durante a pandemia.
Um SUS forte exige capacidade pública de
produzir, pesquisar, inovar, regular e planejar. Isso implica fortalecer o
Complexo Econômico-Industrial da Saúde, os laboratórios públicos, as
universidades, os institutos de pesquisa, a produção nacional de medicamentos,
vacinas, equipamentos e tecnologias estratégicas. A soberania sanitária não é
um tema apenas industrial ou econômico; é parte da garantia concreta do direito
à saúde.
A soberania também envolve a proteção dos dados
em saúde. A saúde digital deve estar a serviço do interesse público, da
integração do cuidado e do planejamento do SUS, e não da apropriação privada
das informações da população. Prontuário eletrônico, telessaúde, inteligência
artificial e sistemas de informação podem fortalecer o SUS, desde que estejam
subordinados à ética pública, à proteção de dados, à transparência, ao controle
social e ao fortalecimento do vínculo entre equipes e usuários.
2.
Financiamento, relação público-privada e defesa
do caráter público do SUS
Discutir o financiamento do SUS e a relação
público-privada não é um debate meramente técnico, orçamentário ou de
planilhas. É uma escolha sobre o tipo de sociedade que queremos: uma sociedade
em que a saúde se organiza como direito universal ou uma sociedade em que a
vida e o cuidado ficam subordinados ao poder de compra. A saúde não pode ser
tratada como mercadoria, porque é um direito humano fundamental. E direitos não
podem depender da renda, do emprego formal ou da capacidade de pagar.
O SUS é uma das maiores conquistas sociais do
povo brasileiro. Antes dele, o acesso era profundamente desigual: quem tinha
carteira assinada era atendido pela previdência; quem tinha dinheiro pagava o
setor privado; quem não tinha emprego formal nem dinheiro dependia da caridade,
do favor, da filantropia ou da sorte. Com o SUS, o Brasil fez uma escolha
ousada: construir um sistema público, universal, integral e gratuito. Um
sistema para toda a população, e não apenas para os pobres.
Nessas décadas, o SUS consolidou políticas e
programas de enorme importância, como o Programa Nacional de Imunizações, o
SAMU, o sistema público de transplantes, o tratamento do sofrimento mental em
liberdade, a vigilância em saúde, a assistência farmacêutica, a atenção
territorializada e inúmeras ações de promoção, prevenção, cuidado e
reabilitação. É preciso lembrar essas conquistas porque a disputa ideológica
contra o SUS costuma destacar apenas suas falhas, produzindo a falsa impressão
de que o sistema público fracassou e de que o setor privado seria naturalmente
mais eficiente.
O SUS convive com uma contradição de origem: foi
criado como sistema universal, porém nunca recebeu financiamento compatível com
esse projeto. A Constituição de 1988 pensou a saúde dentro da Seguridade
Social, junto com a Previdência e a Assistência Social. A ideia original era
que a saúde recebesse 30% do orçamento da Seguridade. Essa regra nunca foi
plenamente implementada. Desde os anos 1990, com a hegemonia de políticas
neoliberais e de austeridade fiscal, houve sucessivas formas de limitar o
crescimento do financiamento público da saúde.
O subfinanciamento do SUS não é acidente, nem
problema passageiro. É uma escolha política repetida ao longo de décadas. O
Brasil gasta, proporcionalmente, menos recursos públicos em saúde do que países
com sistemas universais consolidados. Enquanto nesses países a maior parte do
gasto em saúde é pública, no Brasil o gasto privado tem peso excessivo. O
resultado é profundamente injusto: o SUS é responsável por cuidar de toda a
população e é a única alternativa regular para cerca de três quartos dos brasileiros,
mas dispõe de menos recursos que o setor privado, que atende uma parcela menor
(¼ da população) e ainda se apoia no SUS em vacinação, vigilância, urgências
complexas, transplantes e procedimentos de alto custo.
Essa insuficiência de financiamento abre caminho
para outra distorção: a ampliação da dependência em relação ao setor privado. A
legislação admite a participação privada apenas de forma complementar, quando a
rede pública é insuficiente. No entanto, essa lógica foi muitas vezes
invertida. O que deveria ser complementar torna-se substitutivo e permanente.
Em vez de fortalecer a rede própria, contrata-se o privado; depois, a própria
dependência criada é usada como justificativa para novas contratações.
Esse processo se expressa de várias formas:
renúncia fiscal para planos de saúde, subsídios diretos e indiretos ao setor
privado, compra de serviços, terceirizações, organizações sociais, dupla porta
em serviços contratados, precarização do trabalho e transferência progressiva
de capacidade pública para entes privados. Assim, recursos que deveriam
fortalecer o SUS acabam alimentando um mercado de saúde cada vez mais forte,
agressivo e influente.
O resultado é a consolidação de um sistema dual.
De um lado, o SUS constitucional, universal, público e integral. De outro, um
mercado privado subsidiado, voltado principalmente a quem pode pagar ou tem
acesso a planos de saúde. A saúde se fratura entre direito social e serviço
regulado pelo poder de compra. Mais grave ainda: o setor público e o setor
privado não caminham separados. Parte das águas do SUS é desviada para
fortalecer o mercado, enquanto o sistema público permanece subfinanciado e
cobrado por não entregar tudo aquilo que poderia entregar se fosse
adequadamente financiado.
As consequências são profundas. A primeira é a
fragmentação do cuidado. O SUS precisa funcionar como rede, porque as pessoas
precisam de vínculo, acompanhamento, continuidade, referência e
contrarreferência. Quando partes importantes do cuidado são entregues a
diferentes prestadores, com contratos, lógicas e interesses próprios, a rede se
fragmenta, o usuário fica perdido entre serviços que não se comunicam e adoece
mais ainda.
A segunda consequência é a precarização do
trabalho. Muitas terceirizações são feitas com base em menor custo, o que tende
a gerar salários mais baixos, maior rotatividade, menor investimento em
formação e piores condições de trabalho. Não existe cuidado de qualidade sem
trabalhadores valorizados, estáveis, qualificados e comprometidos com o serviço
público.
A terceira consequência é a perda de capacidade
estatal. Quando o Estado deixa de fazer diretamente, deixa também de acumular
conhecimento, experiência, inteligência institucional e capacidade de
planejamento. Torna-se cada vez mais dependente de contratos e menos capaz de
organizar uma rede pública integrada.
A quarta consequência é política e simbólica. O
SUS passa a ser visto como incapaz, enquanto o privado é apresentado como
solução. Essa narrativa empurra os setores médios para fora do sistema público,
reduz a pressão política por financiamento adequado e consolida o imaginário de
um “SUS para pobres”. Contra essa visão, é preciso reafirmar que o SUS não deve
ser mínimo, focalizado ou compensatório. O SUS é parte de um projeto de
cidadania, igualdade e Estado social.
O SUS não está em crise porque a ideia de saúde
pública fracassou. Ele enfrenta dificuldades porque seu projeto original foi
sistematicamente subfinanciado, disputado e parcialmente capturado por
interesses mercantis. A questão central é política: queremos um SUS público,
soberano, integrado e universal, ou um sistema dependente de empresas,
contratos e mecanismos de mercado? Defender o SUS é lutar por mais recursos,
mas também por um modelo de gestão pública que recuse a mercantilização,
valorize trabalhadores e coloque o cuidado acima do lucro.
3.
O SUS do futuro: mudanças demográficas,
climáticas e tecnológicas
Estamos nos aproximando dos 40 anos da 8ª
Conferência Nacional de Saúde e da instituição do SUS na Constituição Federal.
Naquele momento, o desafio central era afirmar a saúde como direito de todos e
dever do Estado, superando um modelo excludente. Hoje, esse desafio permanece,
mas se combina com transformações que afetarão profundamente o futuro da saúde
pública.
Se o SUS não for fortalecido agora, mudanças que
já estão em curso poderão aprofundar as desigualdades estruturais existentes e
afastá-lo ainda mais das necessidades reais do povo. O futuro do SUS será
marcado, principalmente, por três grandes processos: o envelhecimento
populacional, as emergências climáticas e as transformações tecnológicas.
O país passa por uma transição demográfica
acelerada. A taxa de natalidade caiu de forma intensa e a população idosa
cresce em ritmo muito mais rápido do que o observado historicamente nos países
europeus. Esse cenário exige uma reinvenção estrutural do SUS, que foi
desenhado na década de 1980 para um país majoritariamente jovem, ainda muito
marcado por doenças agudas e infecciosas.
Hoje, cresce o peso das doenças crônicas, das
multimorbidades, das demências, das condições de dependência, dos problemas de
saúde mental e de outras situações que exigem acompanhamento contínuo e cuidado
prolongado. Ao mesmo tempo, permanece a necessidade de cuidado em todas as
fases da vida, inclusive para garantir um envelhecimento saudável. Envelhecer
com dignidade será um dos grandes testes civilizatórios do SUS.
Para responder a esse cenário, será
indispensável fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS), ampliar equipes
multiprofissionais, qualificar o cuidado domiciliar, estruturar redes de
reabilitação, cuidados paliativos, centros de convivência, hospitais-dia e
serviços de apoio aos cuidadores. A rede precisará estar mais próxima das
residências, mais territorializada, mais acessível e mais integrada à
assistência social, à habitação, aos direitos humanos, à cultura, ao esporte e
às políticas de combate ao isolamento social.
O envelhecimento também exigirá financiamento
mais robusto e sustentável. Com uma população mais velha, a demanda por cuidado
tende a ser mais intensa, prolongada e complexa. Isso exigirá mais investimento
público, maior redistribuição de renda, combate ao desperdício, gestão
eficiente e novas formas de financiar políticas sociais, inclusive com
tributação progressiva sobre grandes fortunas, lucros, dividendos, heranças e
setores altamente lucrativos da economia digital.
A segunda grande transformação diz respeito às
emergências climáticas. A crise climática é também uma crise sanitária. Ondas
de calor extremo, enchentes, secas, queimadas, poluição, insegurança alimentar,
deslocamentos populacionais e eventos extremos provocam adoecimento, sofrimento
mental e mortes evitáveis.
A resposta pública precisa ser guiada pela
justiça ambiental. Os efeitos da crise climática não atingem todos igualmente.
Sofrem mais as populações pobres, negras, periféricas, idosas, em situação de
rua, moradores de áreas de risco, trabalhadores expostos, pessoas sem
saneamento adequado e comunidades historicamente vulnerabilizadas. Por isso, o
SUS não pode tratar a crise climática como resposta pontual a desastres ou como
tarefa exclusiva da Defesa Civil. Ela deve ser incorporada ao planejamento permanente
da saúde.
Isso exige fortalecer as vigilâncias ambiental,
epidemiológica, sanitária e da saúde do trabalhador; mapear territórios
vulneráveis; monitorar pessoas com doenças crônicas em períodos críticos;
preparar unidades de saúde para eventos extremos; integrar saúde, saneamento,
habitação, assistência social, segurança alimentar e defesa civil; e reconhecer
o território como espaço de proteção da vida.
A terceira transformação é tecnológica. A
informática, a inteligência artificial, o monitoramento remoto, o prontuário
eletrônico integrado, a telessaúde e os algoritmos preditivos podem ajudar a
organizar filas, qualificar diagnósticos, integrar redes, antecipar riscos e
melhorar o planejamento do SUS. O grande desafio, porém, não é apenas
incorporar tecnologia, mas garantir que ela sirva ao interesse público, ao
cuidado humano e à redução das desigualdades.
Os dados de saúde são extremamente sensíveis. A
centralização de informações públicas em plataformas privadas, especialmente
estrangeiras, pode ameaçar a privacidade individual, a soberania nacional e a
segurança sanitária. O SUS não pode se tornar refém de big techs, modelos
opacos, monopólios tecnológicos ou soluções que transformem dados da população
em mercadoria.
Também é preciso enfrentar a exclusão digital.
Aplicativos, plataformas e labirintos eletrônicos não podem criar novas
barreiras para pessoas idosas, pobres, com deficiência, com baixa escolaridade
ou sem acesso regular à internet. A tecnologia deve aproximar o cuidado, e não
afastar. Deve apoiar o vínculo, e não substituir o encontro presencial quando
ele é necessário. Deve fortalecer o julgamento clínico e o trabalho em equipe,
e não desumanizar a relação entre profissionais e usuários.
4.
Modelo de atenção: território, cuidado integral
e redes públicas integradas
O modelo de atenção define a forma como os
serviços se organizam para cuidar das pessoas. Um bom modelo de atenção,
público e democrático, não pode reproduzir a lógica de mercado, funcionando
como um conjunto de consultórios isolados. O SUS precisa estar perto das
pessoas, conhecer os territórios, identificar riscos, buscar quem mais precisa,
atender os mais vulneráveis no domicílio e nas ruas, acompanhar famílias ao
longo do tempo e articular os diferentes pontos da rede.
Para o SUS, saúde não é apenas ausência de
doença. Saúde é a incidência da vida concreta nos sujeitos integrais: envolve
corpo biológico, território, trabalho, cultura, educação, meio ambiente,
relações sociais, renda, moradia, alimentação, afeto e comunidade. Por isso, o
modelo de atenção do SUS deve ser territorial, integral, equânime,
participativo e orientado pela defesa da vida.
A Atenção Primária à Saúde deve ser a base do
SUS. É nela que a maioria dos problemas de saúde pode e deve ser acompanhada e
resolvida. Sua força está no vínculo entre equipe, pessoa, família e
território. Desde os anos 1990, a Estratégia de Saúde da Família é reconhecida
como o principal caminho para organizar esse cuidado. Hoje, ela precisa ser
pensada de forma ampliada, integrando equipes de saúde da família, saúde bucal
e equipes multiprofissionais.
Uma Atenção Primária forte acompanha as pessoas
em todas as fases da vida. Cuida das pessoas quando estão doentes, acompanha
doenças crônicas, responde a problemas agudos, promove saúde, previne agravos,
realiza vacinação, visitas domiciliares, busca ativa, educação em saúde e
articulação com escolas, assistência social, cultura, esporte, meio ambiente e
outras políticas públicas.
A APS só consegue cumprir esse papel se tiver
equipes completas, profissionais valorizados, território definido, estrutura
adequada, capacidade de acolher durante todo o horário de funcionamento e tempo
para cuidar das pessoas ao longo da vida. Uma APS subfinanciada, com equipes
incompletas e sobrecarregadas, não consegue ordenar a rede nem garantir cuidado
contínuo.
Como a APS é ordenadora do sistema, se está
forte, todo o restante tende a funcionar melhor, se fraca, as pessoas procuram
mais as urgências e prontos-socorros, doenças crônicas descompensam, hospitais
ficam sobrecarregados, filas aumentam e o cuidado se torna mais caro,
fragmentado e menos humano.
O SUS precisa superar a lógica de encaminhar e
se desresponsabilizar. O cuidado integral exige corresponsabilização. A APS
deve continuar acompanhando a pessoa mesmo depois do encaminhamento, a atenção
especializada deve dialogar com a equipe de referência e o especialista não
pode ser apenas alguém que recebe o paciente isoladamente e depois o devolve ao
sistema sem comunicação.
Isso vale para consultas especializadas, exames,
cirurgias, saúde mental, reabilitação, assistência farmacêutica, urgência,
internação hospitalar e cuidado domiciliar. O SUS precisa funcionar como rede,
e não como serviços separados. Para isso, são necessários dispositivos como
reuniões entre equipes, matriciamento presencial e remoto, teleconsultoria,
protocolos compartilhados, linhas de cuidado, gestão de casos complexos e
comunicação permanente entre os pontos da rede.
O cuidado integral também exige capacidade
pública instalada. Não basta regular a escassez. É preciso ampliar a oferta
pública de serviços especializados, exames, cirurgias, reabilitação, saúde
mental, assistência farmacêutica, urgência e cuidado hospitalar. A fila não
pode ser tratada apenas como problema administrativo. Muitas vezes ela expressa
insuficiência estrutural da rede, fragmentação do cuidado, falta de
transparência e baixa capacidade de acompanhamento das pessoas enquanto
esperam. Capacidade pública instalada exige financiamento adequado: há que se
considerar a população e a vulnerabilidade dos territórios e não apenas as
pessoas cadastradas.
A regulação deve servir ao cuidado, não à
invisibilidade. Quem está numa fila precisa saber qual sua prioridade, quais os
critérios utilizados e como seu caso será acompanhado enquanto aguarda. As
filas devem ser transparentes, públicas, auditáveis e organizadas por critérios
clínicos, sociais e territoriais. O cuidado não pode desaparecer dentro de
sistemas burocráticos.
O SUS deve cuidar de todos, mas isso não
significa tratar todos da mesma forma. A equidade exige priorizar quem tem mais
dificuldade de acessar direitos. Territórios diferentes têm necessidades
diferentes. Populações em maior vulnerabilidade precisam de mais proteção, mais
acesso e mais presença do Estado. Por isso, o modelo de atenção deve considerar
pobreza, racismo, violência, condições de moradia, saneamento, trabalho,
mobilidade urbana, envelhecimento, deficiência, sofrimento mental, insegurança
alimentar e exposição a riscos ambientais. O enfrentamento do racismo
institucional, das desigualdades de gênero, da violência contra mulheres,
crianças e adolescentes, da exclusão de pessoas com deficiência, da população
negra, indígena, LGBTQIA+, em situação de rua e de outros grupos
vulnerabilizados deve fazer parte do cotidiano do SUS, e não aparecer apenas em
campanhas pontuais.
A saúde bucal precisa ser parte estruturante da
APS, e não um serviço secundário ou acessório. A saúde mental também exige
cuidado em rede, territorializado, em liberdade, com equipes completas,
continuidade do cuidado, apoio às famílias, oficinas terapêuticas, centros de
convivência, atenção à crise e articulação intersetorial. O Estado não pode
financiar Comunidades Terapêuticas, sabidamente contrárias ao cuidado em
liberdade e laico. O envelhecimento populacional exigirá ainda mais
acompanhamento longitudinal, cuidado domiciliar, reabilitação, assistência
farmacêutica, prevenção de quedas, manejo de doenças crônicas, saúde mental e
apoio a cuidadores.
A saúde digital pode ajudar a organizar esse
modelo, desde que esteja subordinada ao interesse público. Prontuário
eletrônico integrado, teleconsultoria, teleconsulta quando adequada, regulação
informatizada, transparência das filas e sistemas de informação podem melhorar
o cuidado e reduzir vazios assistenciais. Mas a tecnologia não pode substituir
o cuidado presencial quando ele é necessário, nem transformar o atendimento em
algo frio, distante e burocrático. Também é fundamental proteger os dados pessoais
da população e impedir que informações produzidas pelo SUS sejam apropriadas
por interesses privados.
Não há cuidado integral sem trabalhadores
valorizados. O SUS depende de uma enorme diversidade de profissionais de saúde,
que precisam ser valorizados e cuidados para poder cuidar. Vínculos precários,
baixos salários, alta rotatividade, terceirização excessiva e falta de educação
permanente prejudicam diretamente o cuidado. Quando faltam profissionais e as
equipes estão sobrecarregadas, a qualidade do cuidado cai.
Defender um novo modelo de atenção é defender
concurso público, carreira, formação permanente, condições dignas de trabalho e
participação dos trabalhadores na organização dos serviços. A força de trabalho
do SUS precisa ser entendida como patrimônio público e como condição para a
qualidade do cuidado.
O modelo de atenção não deve ser definido apenas
por técnicos e gestores em gabinetes. A população conhece as barreiras
concretas do acesso, da humanização, da comunicação e do acolhimento; os
trabalhadores sabem onde estão as deficiências, as dificuldades e as
potencialidades do trabalho em equipe; os conselhos de saúde são fundamentais
para discutir acesso, acolhimento, organização dos serviços, condições de
trabalho, indicadores, metas e prioridades.
A participação popular é parte do cuidado. Um
SUS sem participação tende a ficar mais burocrático, mais distante e mais
vulnerável à privatização e à fragmentação. Um SUS com participação social
ativa tem mais capacidade de reconhecer problemas reais, corrigir rumos,
disputar recursos e defender seu caráter público.
13 diretrizes programáticas para a Saúde
brasileira
1. Reafirmar
o SUS como sistema público, universal, integral, equânime, democrático e
estatal, recusando propostas de redução do direito à saúde a cestas básicas de
serviços, coberturas limitadas ou políticas compensatórias para os mais pobres.
2. Financiar
o SUS com suficiência e estabilidade
2.1. Ampliar de forma estrutural o financiamento
federal garantindo patamar compatível com um sistema universal (alcance mínimo
de 6% do PIB), com recomposição das perdas históricas, superação das amarras
fiscais e construção de um piso capaz de responder ao envelhecimento
populacional, à incorporação tecnológica, às necessidades territoriais e à
redução das desigualdades.
2.2. Financiar o SUS por meio de reforma tributária
progressiva, com maior taxação sobre grandes fortunas, lucros, dividendos,
heranças, altas rendas e setores altamente lucrativos da economia, vinculando
parte dessas receitas ao fortalecimento da saúde pública.
3. Desprivatizar
e desprecarizar o SUS
3.1.
Rever progressivamente os subsídios públicos ao setor privado de saúde,
incluindo renúncias fiscais e mecanismos indiretos de financiamento,
redirecionando recursos para a expansão da rede pública.
3.2.
Garantir que a participação privada no SUS seja estritamente
complementar, transitória, transparente, regulada e submetida ao controle
social, priorizando sempre a expansão da rede pública própria.
3.3.
Estabelecer uma política nacional de redução da dependência de
organizações sociais, terceirizações e formas precárias de gestão, com
transição planejada para gestão pública direta, concurso público e
fortalecimento da capacidade estatal.
3.4. Criar carreira pública nacional
multiprofissional e interfederativa do SUS, pactuada entre união, estados e
municípios, com concursos públicos, vínculos estáveis, salários dignos,
progressão funcional, educação permanente e incentivos para a fixação de profissionais
em territórios vulneráveis.
4. Gerir o
SUS estatal, regionalizado, profissionalizado e em redes de cuidado integrado
4.1. Criar uma instituição pública de gestão regional
profissionalizada do SUS, de caráter interfederativo e composição tripartite,
com participação da união, estados e municípios, dotada de estrutura
técnico-administrativa própria, equipe estável, capacidade de planejamento
regional integrado, regulação assistencial, programação da oferta,
monitoramento de fluxos, avaliação de resultados e coordenação das redes de
atenção à saúde, subordinada ao controle social que supere o caráter meramente
pactuador das instâncias regionais atuais.
4.2. Garantir que os programas federais de saúde
estejam articulados aos planos nacional, estaduais, regionais e municipais de
saúde, evitando ações fragmentadas, paralelas ou orientadas por interesses
eleitorais, corporativos ou privados.
4.3. Organizar redes regionalizadas e integradas de
cuidado, articulando atenção primária, atenção especializada, saúde mental,
saúde bucal, assistência farmacêutica, reabilitação, urgência, atenção
hospitalar, cuidado domiciliar e cuidados paliativos.
4.4. Implantar uma política nacional de redução de
filas com transparência pública, critérios clínicos, sociais e territoriais de
prioridade, gestão compartilhada do cuidado, linhas de cuidado integradas e
ampliação preferencial da oferta pública.
4.5.
Fortalecer a atenção primária à saúde como coordenadora do cuidado, com
financiamento que considere população real, vulnerabilidade territorial,
necessidades de saúde e composição completa das equipes de saúde da família,
saúde bucal e equipes multiprofissionais para que toda família brasileira tenha
uma equipe de saúde de referência para o seu cuidado longitudinal e eventual
sempre que necessário.
5.
Cuidar em
liberdade: Fortalecer a reforma psiquiátrica e a Rede de Atenção Psicossocial,
garantindo cuidado em liberdade, CAPS estruturados, atenção à crise,
residências terapêuticas, centros de convivência, oficinas de geração de renda,
consultórios na rua, apoio às famílias e combate a retrocessos manicomiais, sem
financiamento público para “comunidades terapêuticas”.
6.
Cuidar das
pessoas idosas: Criar uma política nacional de cuidado ao
envelhecimento, com expansão da assistência domiciliar, reabilitação, cuidados
paliativos, centros-dia, apoio a cuidadores, prevenção de quedas,
acompanhamento de condições crônicas e integração com assistência social e
habitação.
7.
Cuidar da
saúde bucal das pessoas: Como integrante da atenção primária e
financiamento específico para equipes de Saúde Bucal, deverá atuar na
prevenção, no cuidado clínico, em ações coletivas e ter acesso regulado aos
serviços especializados.
8.
Fortalecer
a assistência farmacêutica:
8.1.
Garantir uma assistência pública com financiamento adequado, produção nacional,
abastecimento regular, integração com a atenção primária e transparência sobre
estoques, compras e distribuição.
8.2.
Garantir acesso a medicamentos à base de cannabis para usuários do SUS nos 3
níveis de governo.
9.
Promover
justiça climática na saúde
9.1.
Instituir uma política permanente de saúde e justiça climática, com
financiamento específico para vigilância ambiental, preparação da rede
assistencial para eventos extremos, monitoramento de territórios vulneráveis e
integração com saneamento, habitação, segurança alimentar e defesa civil.
9.2. Criar diretrizes nacionais para que estados e
municípios incorporem o mapeamento de riscos climáticos e sanitários ao
planejamento do SUS, com planos locais e regionais de resposta a ondas de
calor, enchentes, secas, queimadas, poluição e outros eventos extremos.
9.3. Fortalecer as vigilâncias em saúde —
epidemiológica, sanitária, ambiental e da saúde do trabalhador — como funções
estratégicas do SUS, articuladas ao território, à atenção primária, à justiça
ambiental e à soberania sanitária nacional.
10.
Fomentar tecnologia soberana na saúde
10.1. Desenvolver
infraestrutura pública, interoperável e soberana de saúde digital, com
prontuário eletrônico integrado, telessaúde pública, transparência algorítmica,
proteção de dados, respeito à LGPD (lei geral de proteção de dados), controle
social e redução da exclusão digital.
10.2. Fortalecer
o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, os laboratórios públicos, as
universidades, os institutos de pesquisa e a produção nacional de medicamentos,
vacinas, insumos, equipamentos, tecnologias estratégicas e plataformas digitais
públicas.
11.
Fortalecer a democracia, a participação e o controle social do SUS: Ampliar o
poder deliberativo e fiscalizador dos conselhos e conferências de saúde, com
fortalecimento dos conselhos locais de serviços, garantindo que decisões sobre
financiamento, planejamento, contratos, emendas parlamentares, privatizações,
programas estratégicos e avaliação de políticas sejam submetidas ao controle
social.
12.
Fomentar práticas de comunicação e educação na saúde que valorizam
territórios, saberes e práticas de cuidado como parte legítima da produção de
saúde: Favorecer ações e políticas no cuidado em saúde que superem a
transmissão vertical de informações, em diálogo humanizado, que reconheça os
saberes populares, as identidades culturais e as vivências da comunidade como
partes legítimas da produção de saúde, sendo o protagonismo das pessoas parte
da própria produção do cuidado.
13.
Fortalecer práticas de cuidado despatologizantes, integrativas e
complementares na saúde:
13.1.
Fortalecer ações e políticas de desconstrução do olhar exclusivamente centrado
na doença, que estimulam autoconhecimento, autonomia, vínculo e a escuta ativa
para promover o bem-estar físico e mental, cuidado continuado e humanizado.
13.2.
Estimular financeiramente que os municípios tenham práticas integrativas
descritas na PNPICS (política nacional de práticas integrativas e
complementares em saúde) em suas redes de cuidado.
domingo, 9 de agosto de 2026
O "braço esquerdo" do antipetismo
No dia 31 de julho, Terra Redonda divulgou um texto de Eduardo Luiz Zen intitulado "as raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro".
Zen está aqui: https://aterraeredonda.com.br/as-raizes-vermelhas-do-neoliberalismo-brasileiro/
No dia 3 de agosto, Luis Nassif afirmou que texto seria "o melhor estudo feito sobre a natureza do governo Lula e, consequentemente, do Partido dos Trabalhadores".
Nassif está aqui: https://jornalggn.com.br/coluna-economica/as-raizes-liberais-de-lula-por-luis-nassif/
Se esse é o "melhor estudo", temo pelo pior.
Primeiro: a "natureza do governo Lula" não define, "consequentemente", a "natureza do PT". Nem vice-versa.
Segundo: não é possível discutir a influência do neoliberalismo no governo Lula e no PT, sem levar em consideração a influência do neoliberalismo no Brasil e no mundo, entre outras variáveis que compõem a luta de classes e a luta entre os Estados no atual período histórico.
Terceiro e mais importante: a análise de Zen é repleta de erros, inconsistências e lacunas que afetam suas premissas e conclusões.
Para começo de conversa, a história do PT não “costuma ser contada a partir de uma ruptura com suas origens", entre outros motivos porque não existe uma história do PT. Existe uma disputa de interpretações. E parte dessa disputa versa, exatamente, sobre continuidades e rupturas. Se só houvesse rupturas, o PT não seria mais o PT, em nenhum sentido. E se só houvessem continuidades, o PT não teria vencido 5 das 9 eleições presidenciais ocorridas desde 1989.
Zen critica a tese da ruptura com as origens, tese que efetivamente - pela esquerda ou pela direita - não consegue explicar como “aquilo deu nisso”. Mas no lugar desta tese da ruptura com as origens, Zen propõe uma visão que me parece igualmente esquemática, segundo a qual o presente estaria quase que totalmente previsto no passado. Por consequência, não haveria história, não haveria política, não houve nem haverá escolhas; tudo o que aconteceu já estaria escrito nas origens. Só faltando concluir que razão teriam, supostamente, os que disseram ser um erro criar o PT.
Ademais, Zen dá como incontestavelmente verdadeira uma afirmação que precisaria ser provada: a de que o PT seria o "braço esquerdo do neoliberalismo". Aceita esta tese, a história do Brasil desde 1989 até hoje teria sido um jogo de faz-de-conta, no qual a suposta verdadeira esquerda estaria mascarada de ferro e jogada nas masmorras, enquanto seu lugar de direito estaria ocupado por um partido-farsante.
Que os governos petistas conviveram e seguem convivendo com o neoliberalismo, Henrique Meirelles e Gabriel Galipolo não nos deixam mentir. Que poderia e deveria ter havido mais conflito, tampouco tenho dúvida. Que setores do PT se converteram ao social-liberalismo, tenho provas todo santo dia (a mais recente é a êxito da OSS dirigida por Ludhmila Hajiar). Mas daí a tratar o conjunto do PT como “braço esquerdo do neoliberalismo”, há uma grande diferença. Cabendo perguntar ainda qual seria o efeito prático dessa tese sobre nosso engajamento nas eleições 2026.
Minha impressão é de que Zen adota como método uma espécie de "conta de chegar reversa". Ele tem uma tese sobre o PT atual e busca "comprovar" esta tese “adaptando” a história do Partido ao figurino da tal tese.
Um exemplo disso é sua descrição das "três matrizes principais na formação do partido: o novo sindicalismo do ABC, a esquerda católica ligada à Teologia da Libertação e a intelectualidade paulista".
Zen diz que a "literatura" costuma apontar estas três matrizes, as quais ele acrescenta "estudantes radicalizados, egressos da luta armada, organizações trotskistas, novos movimentos sociais e a corrente pragmática reunida em torno de Lula". E complementa: "a partir dos aportes dessas matrizes e dos demais componentes da formação petista, é possível identificar seis raízes que ajudam a explicar sua práxis posterior. O neoliberalismo não foi posteriormente enxertado nessa árvore. Seus germes já estavam nessa combinação".
Adianto que é a primeira vez que leio acerca da "intelectualidade paulista" como uma matriz principal na formação do PT. Acrescento também que a taxonomia de Zen é - aos meus olhos - uma mixórdia. Mas isso são detalhes. O grave mesmo é seu determinismo sociológico, que atribui parte do suposto neoliberalismo petismo à influência do "operário da multinacional".
Quem quer que tenha vivido ou estudado as lutas travadas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quem quer que tenha refletido sobre a ação do sindicalismo cutista e do PT nos anos 1980 e início dos anos 1990, sabe que havia de tudo um pouco: posições conflitantes, tendências em confronto, correlações de força diversas. Zen faz terraplenagem disso tudo e constrói uma interpretação segundo a qual tudo já estaria mais ou menos pré-determinado pelo pecado original: os caras trabalhavam em empresas estrangeiras (fato que vale apenas para parte da respectiva categoria).
Algo particularmente curioso nesta "narrativa" de Zen é a expectativa implícita de que o sindicalismo fosse capaz de produzir uma "crítica à inserção dependente do país" e a defesa do "controle nacional da produção". A mim parece que essas e outras conclusões extrapolam os limites da consciência sindical. Aliás, em parte foi a percepção desse tipo de limites que levou Lula e muitos outros dirigentes sindicais a capitanearem a criação de um partido, o PT.
O raciocínio adotado por Zen conduz a tratar aquela decisão - decorrência de um salto na consciência de centenas de milhares de militantes e, naquele contexto entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, a maior manifestação prática de emancipação da classe trabalhadora - como se tivesse sido um retrocesso histórico.
Claro que para sustentar essa interpretação somos obrigados a dar como verdadeiras teses que não encontram sustento, nem nas resoluções, nem na prática do PT nos anos 1980.
Por exemplo, Zen diz que "a dimensão internacional ocupava o lugar da questão nacional" e que "o capital podia ser combatido como relação entre patrão e empregado sem ser enfrentado como poder internacional organizado sobre uma economia dependente".
Isto pode ser a opinião dele, assim como pode ser a opinião de militantes que atuavam, na época, em organizações de esquerda que lutavam contra o PT. Mas não confere com a dinâmica dos anos 1980, que entrosaram num só caudal a questão social, a questão democrática e a questão nacional, o desenvolvimento e o socialismo.
Noutros momentos, nos anos 1990 e 2000, predominaram no movimento sindical cutista posições diferentes daquela que predominara nos anos 1980. E isso teve, como é obvio, uma influência sobre o PT. Mas essa influência não estava pré-determinada. Não se tratou apenas ou principalmente de uma continuidade, nem tampouco de uma ruptura. Foi uma metamorfose, fortemente influenciada pelo contexto dos anos 1990, onde teve grande destaque o colapso do socialismo soviético. Aliás, chega a ser incrível que este "detalhe" não compareça na análise feita por Zen.
Dito de outra maneira: não dá para discutir as mudanças nas concepções de parte do PT, desconsiderando as mudanças na correlação de forças mundial. Ou alguém acha que seria possível manter as mesmas concepções e a mesma prática do período anterior? Mas uma coisa é discordar das escolhas predominantes num ambiente de derrota, outra coisa é dizer que tudo já estava pré-determinado pelo suposto vilão ideal: o "operário de multinacional".
Concordo com Zen que "a identidade atribuída ao operariado do ABC foi (...) mais radical do que sua práxis". Mas esse raciocínio se aplica, também, ao movimento comunista brasileiro e ao nacionalismo trabalhista. Entretanto, o fato histórico e político é que foi Lula, não Prestes ou Brizola, que se consolidou nos anos 1980 como grande expressão do conjunto da esquerda e da classe trabalhadora brasileira. E, na contramão do que ocorria em boa parte do mundo, manteve essa condição nas décadas seguintes. E isso aconteceu em parte porque, ao contrário do que Zen diz, o "operário" não “desapareceu como força pública organizada". Ficou mais fraco? Certamente. Desapareceu? Não.
Depois de espancar o operário da multi, Zen se dedica a espancar o que ele chama de “pobrismo”. Neste caso o alvo da crítica não é o novo sindicalismo, mas sim as comunidades eclesiais de base.
Por suposta culpa delas, diz Zen, "a pobreza deixou de ser apenas uma condição a superar e passou a conferir autenticidade, autoridade e pureza. O trabalhador remete à produção, ao conflito entre capital e trabalho, à organização coletiva e aos direitos universais. O pobre remete à carência, ao cadastro, ao benefício e à proteção focalizada. A passagem de um sujeito ao outro antecipou a política social do lulismo: financismo no comando da economia e pobrismo na administração de suas consequências".
Como fez no caso do novo sindicalismo, Zen faz terraplanagem da história e vincula, sem mediações, o que ele diz ser a posição teórica e prática das CEBs nos anos 1970 e 1980 ao que ele diz serem as políticas públicas dos governos petistas a partir dos anos 2000. Na minha opinião, nos dois casos ele apela para a caricatura. Mas, para além disso, o fato é que não se pode compreender como "aquilo supostamente teria dado nisso", desconsiderando o contexto histórico. Nem se pode desconsiderar a importância que teve e segue tendo a atuação dos setores mais pobres da classe trabalhadora, na luta política e social das últimas décadas.
Zen busca amparo para sua "tese" na opinião, como sabemos, sempre mucho coerente de Mangabeira Unger, segundo o qual o "pobrismo" seria o "complemento social do financismo brasileiro". Se isso fosse verdade, por qual motivo o grande capital promove uma guerra permanente contra as políticas sociais do governo Lula?
Que certas políticas de combate à pobreza são estruturalmente limitadas, não tenho dúvidas. Que setores da esquerda abandonaram as reformas estruturais e não conseguem enxergar além das políticas públicas, tampouco há como negar. Mas igualmente há como negar que tanto a extrema-direita quanto a direita tradicional, ambas neoliberais, desancam as políticas sociais dos governos petistas, usando argumentos parecidos aos de Zen.
Zen não parece se dar conta deste parentesco entre algumas de suas opiniões e as de parte da tal intelectualidade paulista. Pelo contrário, ele afirma que uma "terceira raiz" do PT teria sido, exatamente, "a intelectualidade ligada à USP", que ele acusa de fornecer ao PT "boa parte de seu vocabulário sobre autoritarismo, populismo, patrimonialismo, corporativismo e sociedade civil". Que alguma desta influência existe, não tenho dúvida. Mas basta olhar a trajetória e as ideias de, entre outras e outros, Marilena Chauí, Antonio Candido e de Florestan Fernandes para perceber que a "intelectualidade ligada à USP" que contribuiu para a criação do PT não pode ser confundida com a intelectualidade paulista que esteve na origem do PSDB nem pode ser reduzida àqueles que vieram para o PT na expectativa de fazer um partido social-democrata. A esse respeito, vale atentar para a trajetória de Francisco Weffort, que em 1994 foi de mala e cuia para o ninho tucano.
Alguém poderia sugerir que Fernando Haddad seria a prova cabal da influência, no PT, da "intelectualidade ligada à USP". Acontece que a presente influência de Haddad é fato historicamente recente, tendo relação direta e indireta com a emergência do neofascismo e com a debacle do PSDB. Duas outras variáveis que - como o já citado colapso do socialismo soviético - não comparecem na análise de Zen.
O curioso é que, neste mesmo período em que cresceu a influência de Haddad no PT, cresceu também a influência dos que defendem o nacional-desenvolvimentismo e uma interpretação positiva acerca do papel do varguismo, do trabalhismo e da industrialização. Assim como cresceu o que podemos chamar de "questão regional petista", contrapondo a seção paulista do Partido a de outras regiões do país.
Nesse sentido, a maneira como Zen descreve os fenômenos mais confunde do que esclarece o que está em jogo. Por exemplo: segundo ele, na "tradução petista, o sujeito portador da modernidade deixou de ser o barão do café ou o industrial tradicional e passou a ser o operário do ABC, acompanhado pelo intelectual da USP. São Paulo continuava a ser o centro dinâmico do país e o palco decisivo da luta de classes: concentrava o grande capital, a vanguarda operária e a interpretação autorizada do conflito".
Literariamente pode soar meio poético dizer que "Lula completa essa narrativa: o retirante nordestino torna-se sujeito político quando ingressa no mundo industrial paulista. O Nordeste fornece o pobre; São Paulo o transforma em trabalhador moderno. A velha locomotiva ganhou uma tripulação vermelha". Mas, sem falar dos problemas de mérito, qual seria a decorrência política desta interpretação que Zen faz?
Paradoxamente, Zen afirma que esta "intelectualidade paulista" teria nos legado "uma relação profundamente negativa com a história brasileira. O passado nacional foi reduzido a uma sucessão de escravidão, oligarquia, racismo, autoritarismo, patrimonialismo e barbárie. Quem não encontra na história nenhuma herança utilizável dificilmente imagina algo grandioso para construir em nome do país. A crítica necessária ao passado converteu-se em desprezo pela história comum e incapacidade de projetar o futuro".
Até mesmo quem frequentou o curso de História na USP tem dificuldade de compartilhar dessa visão segundo a qual predominaria, exatamente naquele estado cuja elite cultua os bandeirantes e se apresenta como quatrocentona, uma intelectualidade hiper-niilista acerca da história pátria. Mas mesmo que isso fosse verdade, ainda restaria explicar o que seria, para Zen, a "herança utilizável" que permitiria imaginar "algo grandioso" para construir "em nome do país".
(Por outro lado, não deixa de ser curioso que Zen faça esta crítica e, ao mesmo tempo, tenha uma "relação profundamente negativa" com a história recente da classe trabalhadora e da esquerda brasileira. Frases como "não encontra na história nenhuma herança utilizável" e "desprezo pela história comum" cabem muito bem na sua - dele - visão sobre a trajetória da maior parte dos trabalhadores com consciência de classe, que desde o final os anos 1970 fundaram e até hoje sustentam o PT.)
Para completar seu giro de metralhadora, Zen critica "a cultura da ruptura e a rejeição do reformismo. As reivindicações imediatas podiam ser apoiadas, mas as transformações estruturais verdadeiras eram remetidas à superação do capitalismo. O PT não foi uma social-democracia que posteriormente abandonou as reformas. Nasceu denunciando o reformismo e colocando-se à esquerda dele. O problema apareceu quando a revolução deixou de existir como estratégia concreta. As reformas haviam sido concebidas sobretudo como acúmulo para a ruptura, não como um projeto histórico autônomo capaz de ocupar seu lugar. Quem considera as reformas impossíveis sem a revolução acaba, enquanto a revolução não chega, administrando aquilo que existe. O socialismo permaneceu no horizonte e nos símbolos. No presente, restaram a administração das vulnerabilidades e a aceitação da estrutura econômica: radicalismo no discurso, melhorismo na política social e neoliberalismo na organização da economia".
Ou seja: segundo a "narrativa" de Zen, aquele mesmo PT que - influenciado pelo "operário da multinacional" - supostamente teria abandonado a crítica à dependência, também teria - influenciado pelos radicais - supostamente adotado uma visão super-revolucionária. Aqui, novamente, considero que Zen pratica a arte da caricatura, desconsiderando por exemplo que sempre existiu, no PT, um conflito entre diversos tipos de reformismo e diversos tipos de revolucionarismo.
Seja como for, o mais importante, na minha opinião, é que Zen considera que "a revolução deixou de existir como estratégia concreta". Verdade que não sei bem o que ele quer dizer com essa afirmação. Entre outras coisas, cabe perguntar quando foi a que revolução teria existido como "estratégia concreta"? Até onde consigo perceber, desde pelo menos 1935 até 2026, em nenhum momento o Brasil viveu uma situação revolucionária; se isso for verdade, a revolução não foi nesse período uma alternativa concreta, inscrita como um dos desdobramentos possível de uma dada conjuntura. Mas nesse mesmo período (1935-2026) mudou a adesão da esquerda à ideia de que uma revolução é necessária e de que nossas políticas devem buscar acumular nesse sentido. Hoje, no PT, esta adesão à necessidade histórica de uma revolução é muito pequena. Ao dizer que a "revolução deixou de existir como estratégia concreta", Zen estaria se referindo a esta baixa adesão? Ou ele usou aquela expressão por acreditar que, no passado recente, a "revolução" esteve na ordem do dia mas agora deixou de estar?
Não sei. Mas sei que a afirmação segundo a qual "o socialismo inalcançável permite ao partido ser absolutamente realista no presente" é totalmente equivocada. Ser realista, hoje, implica em defender o socialismo como uma alternativa concreta para os problemas decorrentes do capitalismo tal como existe no Brasil, neste ano santo de 2026. Querer enfrentar a crise atual, sem oferecer respostas de tipo socialista, é prova do mais absoluto irrealismo.
A quinta suposta raiz comentada e criticada por Zen é “a autonomia contra o Estado”. Segundo Zen, o PT "nasceu desconfiando do Estado como centro de direção e celebrando a autonomia das partes. O neoliberalismo fez dessa desconfiança uma arquitetura de governo".
Este tipo de raciocínio tem a mesma natureza daquele que vincula o internacionalismo socialista com a rejeição à defesa da soberania nacional. Afinal, a desconfiança da classe trabalhadora frente ao Estado burguês não tem a mesma natureza da "desconfiança" dos neoliberais frente ao seu próprio Estado. Ademais, a postura do PT frente ao Estado, hoje, não é a mesma postura do PT nos anos 1980.
Aqui é preciso separar duas questões diferentes. Uma é a tentativa que Zen faz, de relacionar posições que o PT real ou supostamente defende nos dias atuais, com posições que o PT real ou supostamente defenderia desde a sua fundação. Outra é a descrição que Zen faz acerca das posições que o PT teria, supostamente, sobre o Estado nos dias que correm. A respeito desta segunda questão, Zen atribui ao conjunto do PT a seguinte concepção: "o Estado forte está reservado ao socialismo futuro", já no presente o PT seria adepto do "antiestatismo". Ambas afirmações são, do meu ponto de vista, falsas. Hoje, o PT não é adepto nem de uma futura ditadura popular, nem de um presente Estado mínimo.
A esse respeito, Zen confunde as concessões que os governos Lula e Dilma (bem como o PT) fizeram e fazem, com a existência de uma concepção teórica e estratégica coerente. Lamento dizer, mas tal coisa não existe. Deveria existir, mas não existe. E tampouco a prática é coerente, nem para o bem, nem para o mal. Seguramente, isto facilita as concessões ao neoliberalismo e abre espaço generoso para os social-liberais. Apesar disso, o PT não é o Labour.
A sexta raiz criticada por Zen é “o partido das bases e o poder do chefe”. Neste caso fica evidente a contradição entre a tese da "raiz" e os fatos históricos. Isto porque Zen mesmo escreve que o PT "nasceu" exaltando a democracia interna, a pluralidade de tendências e a organização popular e "tornou-se" concentrado numa liderança pessoal. Ou seja: o que supostamente existe hoje não é o que existia na origem do Partido. Aquilo deu nisso através de uma metamorfose, com rupturas e continuidades.
Não sou lulista, seja lá o que isso for; sou petista. Estou convencido de que o culto a personalidade mais atrapalha do que ajuda. Mas é preciso compreender as condições históricas de seu surgimento, bem como levar em conta o papel - negativo mas também positivo - que este culto joga no enfrentamento contra a extrema-direita. Motivo pelo qual - no meio da disputa entre Lula e um cavernícola - é extemporâneo dar centralidade a este tipo de crítica.
A última das raízes apontadas por Zen seria o identitarismo, apresentado como "a política simbólica das reformas estruturais que nunca viriam. O partido incorporou os sujeitos das reformas mais profundamente do que incorporou as próprias reformas: os sem-terra sem reforma agrária, os moradores das periferias sem reforma urbana, os sindicatos sem universalização do trabalho protegido e os grupos discriminados sem democratização do poder econômico. A classe operária, esvaziada como força material pela desindustrialização, retorna como memória e vanguarda imaginária".
Não sei com base no que se pode acusar o PT das origens de ser "identitarista", salvo se essa categoria incluir o obreirismo. Tampouco sei com base no que se poderia considerar que o PT atual seria "identitarista", seja lá o que isso for. Sem falar que a maneira como Zen descreve o que seria "identitarismo" - a política simbólica das reformas estruturais que nunca viriam - abarca de tudo um pouco. Aliás, o estilo de Zen me faz lembrar Ciro Gomes, que parece pensar que enfileirar palavras seria igual a encadear um raciocínio coerente.
Em síntese, Zen acusa o PT de combinar "financismo no comando, pobrismo na política social, editalismo na execução e identitarismo na legitimação. O financismo protege o topo, o pobrismo administra a base, o editalismo pulveriza a ação estatal e o identitarismo rebatiza a fragmentação e a precariedade como diversidade".
Esta síntese descreve as políticas do governo Lula? Não.
Descreve as políticas e concepções do PT? Também não.
Claro, se a politica brasileira fosse composta apenas pelo PT e por partidos à esquerda do PT, talvez as afirmações de Zen fizessem todo sentido. Ele bem que se esforça em construir este Brasil paralelo: no seu texto, em nenhum momento ele trata dos Estados Unidos, dos neofascistas e dos neoliberais tradicionais. E quando se tira do cenário essas forças, o PT passa a estar na ponta-direita da política nacional, podendo ser apresentado como uma "esquerda anti-reformista que, sem revolução, encontrou no neoliberalismo a forma de governar o presente e no identitarismo a forma de conservar sua radicalidade simbólica".
Mas quando olhamos Brasil real, onde os inimigos existem, quando nos lembramos do golpe de 2016 e dos governos Temer e Cavernícola, resulta óbvio que nem o PT, nem os governo petistas, podem ser de conjunto catalogados como "neoliberais".
Apesar disso, Zen chega a dizer que a "bandeira permaneceu vermelha porque o vermelho (...) era (...) parte do mecanismo que permitia ao neoliberalismo governar pela esquerda sem ser reconhecido como neoliberal". Este raciocínio me lembra o de quem acusa o PC da China de se dizer comunista para melhor enganar as pessoas.
O PT pode, no futuro, vir a sofrer uma conversão no sentido apontado por Zen? Claro que sim!!
Basta pensar em Aldo Rebelo, Ciro Gomes, Carlos Lacerda e Roberto Freire, no PTB e no PPS, sem falar no PSTU-que-se-vão-todos e em vários ex-partidos comunistas mundo afora, para concluir que ninguém, nenhuma pessoa e nenhum partido está imune aos riscos da capitulação, da cooptação, da degeneração e da traição. Risco que não se exorciza fazendo juras de amor, pois um Partido não pode nem deve ser julgado pelo que ele próprio diz a seu respeito.
Mas é possível e necessário avaliar o papel do PT a partir do que pensam e fazem seus/nossos inimigos. E o fato é que tanto Trump quanto os cavernícolas & assemelhados tratam o PT como inimigo número 1. Portanto, independente do que o futuro nos reserve, neste ano de 2026 nós do PT seguimos na trincheira correta.
Eleger Lula nos garantirá o paraíso? De maneira alguma, até porque setores do governo, aliados de direita e outros personagens discutem abertamente a realização de um ajuste fiscal em 2027. E o programa de governo apresentado por Lula está muitíssimo longe do necessário.
Mas se Lula não for eleito, o que virá pela frente será muito difícil para a classe trabalhadora e para para o povo brasileiro. Quem acredita no quanto pior melhor, deve achar que esse cenário seria até positivo. Mas para a grande maioria do povo já vimos no que dá transformar o PT em inimigo principal.
Além disso, se existe alguma chance - nessa quadra da história - de mudar a sociedade brasileira e mudar o lugar do Brasil no mundo, esta chance passa pelo PT. Não sem o PT, nem contra o PT, mas com o PT.
Por isso mesmo, neste momento da história, acusar o PT, o governo e o lulismo de serem braço esquerdo do neoliberalismo é pior que um crime, é um erro. Afinal, quem acredita mesmo naquela acusação provavelmente não vai se mobilizar como poderia e deveria.
Zen termina seu texto com uma frase de efeito: "O lulismo não traiu simplesmente suas raízes. Foi a síntese delas".
Como dissemos noutra passagem deste texto, a "natureza do governo Lula" não define a "natureza do PT". O mesmo vale para o que quer que definamos como "lulismo". Aliás, para os que acreditam na utilidade desta categoria, recomenda-se levar em consideração o que ocorreu com o varguismo, várias vezes morto e desmoralizado, outras tantas ressuscitado e aclamado, muitas vezes ressignificado.
O lugar de Lula e do PT na história do Brasil ainda estão por definir.
Mas o lugar do "antipetismo de esquerda" já está definido. Como o "anticomunismo de esquerda", trata-se de uma criação da "esquerda" de que a direita gosta.