Valter Pomar
terça-feira, 25 de agosto de 2026
"Por que a esquerda revolucionária é irrelevante na política nacional?"
Edinho e o Agro
Se o Brasil tivesse voto em lista, nada mais normal que o presidente nacional do Partido ser candidato a deputado federal.
Mas como o Brasil não tem voto em lista, a coisa não é tão simples assim.
Afinal, na prática, o presidente nacional do Partido tem que dividir suas atenções entre a direção do Partido, a coordenação da campanha Lula e a sua candidatura a deputado federal.
Não se trata de uma tarefa fácil, nem no plano prático, nem no plano político.
Por exemplo: num dia Edinho afirma que "ser antisistema é mudar o que não funciona para o povo".
Noutro dia, Edinho afirma que "fortalecer o agro é fortalecer o interior".
Se ambas afirmações fossem verdadeiras, a conclusão seria que "o agro é antisistema".
Será que Edinho acredita mesmo nisso?
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Um "projeto de pesquisa" de 1981
No meio das caixas do arquivo morto, há inúmeros textos datilografados, entre os quais este, de dezembro de 1981. Salvo por um ou outro detalhe - por exemplo, o nome completo de "S" - a versão abaixo contém os erros do original, escrito por um fedelho de 15 anos.
PROJETO DE PESQUISA
“Elaboração de uma Política para o MS”
I. Objetivos
II. Metodologia
III. Divulgação
IV. Texto-base
Objetivos
O trabalho que desenvolvemos dentro do movimento secundarista sofre de uma deficiência de duplo aspecto: por um lado, não conseguimos, até agora, elaborar uma política clara para o movimento; por outro, e em decorrência disto, não temos conseguido avançar na construção de nossa corrente.
A falha maior, portanto, é uma falha de perspectiva política: preocupados apenas em responder as questões imediatas do movimento, sem tentar dar a esta resposta uma fundamentação mínima que fosse, nos enveredamos num praticismo que só era ocultado por esta ou aquela discussão “teórica” - que, em geral, ficava limitada a “profunda” discussão de saber com qual proposta se “alcança” as massas, sem “ferir os princípios”. É claro que desta forma não se avançará muito.
Nem mesmo o debate preparatório para o 2. Seminário vem conseguindo romper com isto.
Hoje já é possível dizer que o esforço fundamental que temos por fazer é o de romper com a visão praticista que possuímos do movimento e de nossas relações com ele.
Isso levará, sem dúvida, ao rompimento profundo, não só com as concepções atualmente predominantes, mas também com muitos companheiros.
No entanto, é um rompimento necessário, e que levaremos adiante cônscios de sua necessidade. Ele inicia com o documento sobre as eleições da UMES, e terminará com a reformulação de todo o corpo de ideias que atualmente dirigem nosso trabalho.
Os companheiros que concordam com essa introdução estão de antemão convidados a fazer parte do grupo de trabalho que realizará a pesquisa.
Os restantes, nós convidamos à luta de ideias.
Metodologia
No atual momento, somos obrigados a reconhecer nossa total ignorância em relação as questões mais profundas relativas a organização do ensino secundário no Brasil.
E, justamente, a compreensão relativamente profunda destas questões é peça essencial para o nosso enraizamento no movimento.
O discurso vazio das forças que atuam no ms a respeito das “aberrações” do ensino secundário brasileiro se torna cada vez mais distante das aspirações e necessidades das camadas populares da população; e isto por dois motivos: em primeiro lugar, porque os problemas existentes são problemas reais, que não são passíveis de solução por discursos; em segundo lugar, porque ele se liga a uma prática de trabalho que distancia essas correntes do movimento real.
Apesar de nossa reconhecida ignorância, alguns elementos já conseguimos sistematizar, e nos permitem ao menos elaborar um eixo de discussão e pesquisa.
Julgamos, portanto, que devemos seguir da seguinte forma com o trabalho:
a) elaboração de um texto-base, para ser discutido entre os elementos que participarem do projeto; a discussão tem o sentido de apontar as questões principais a serem pesquisas e aprofundadas;
b) organização da pesquisa em torno das questões levantadas; a pesquisa pode ser de dois tipos: bibliográfica ou pesquisa de campo; feitura da pesquisa propriamente dita;
c) elaboração de textos parciais a respeito das questões investigadas; discussão dos textos entre os participantes do projeto;
d) elaboração de um texto-síntese de todo o trabalho; discussão do texto; se for o caso, se repete todo o processo.
Divulgação
A divulgação da síntese-final deve ser feita, a princípio, de pelo menos duas formas:
a) publicação de texto em apostila;
b) realização de seminários, em vários níveis, a respeito das conclusões.
**
Roteiro de Texto-Base
I. Introdução
II. Processo de desenvolvimento do ensino secundário no Brasil
II.1. Análise do Processo
II.1.a. período pré-30
II.1.b. período 30-64
II.1.c. período da lei 5692
II.1.d. o atual processo de desestabilização do ensino téc/profis.
III. Indicações no sentido de se estabelecer uma política de ensino secundário que atenda as necessidades da massa da população
III.1. Considerações gerais
III.2. Ensino Público x Ensino Privado
III.2.a descentralização do controle do ensino público
III.2.b. a problemática do ensino privado
III.3. A problemática do controle político/ideológico
III.4. Últimas considerações
IV. Avaliação do movimento secundarista
IV.1. Considerações gerais
IV.2. Período pré-64
IV.3. Período 64-77
IV.4. Período 77-81
IV.5. Avaliação inicial do movimento/a problemática que está colocada
V. Nossa atuação no movimento
V.1. Histórico
V.2. Análise
V.3. Considerações finais
VI. Pontos para discussão, pesquisa e aprofundamento
TEXTO-BASE
As contradições do ensino secundário brasileiro, suas deficiências e problemas, não são uma invenção maligna dum ou doutro ministro da educação: são um reflexo das necessidades do desenvolvimento capitalista brasileiro, e como tal tem de ser entendidas e combatidas.
Provas disso são: o fato da escola técnico-profissionalizante ter sido criada quando se fazia necessária uma mão de obra especializada em diversos níveis, portanto uma exigência do desenvolvimento capitalista brasileiro; o fato de hoje, quando ocorre um processo de desaceleramento do desenvolvimento capitalista, esse ensino técnico-profissionalizante estar ameaçado de desestabilização.
O combate a essas contradições, deficiências e problemas está posto na ordem do dia. E não pelas “vanguardas”, mas sim pelo próprio movimento de massas, que tem se articulado espontaneamente e de forma desorganizada para este fim.
Esse espontaneísmo e essa desorganização tem sido até hoje um dos maiores entraves a serem superados pelas correntes políticas que atuam no movimento. O fato de sua maior parte ter tentado superar esta situação não através do estudo das soluções e caminhos já apontados, em suas linhas gerais, pelo próprio movimento de massas, mas através de fórmulas e passes mágicos, extraídos de crânios de alguns poucos “iluminados”, piorou ainda mais a situação.
O desafio, pois, permanece de pé.
Cabe a nós, caso queiramos enfrentá-lo, um esforço desmedido no sentido de ligar ao movimento de massas real que ocorre dentro das escolas, buscando dirigi-lo e extrair dele as lições que a prática diária nos fornece.
Para isto, não bastará boa-vontade. Será necessária uma compreensão geral de toda a sociedade, e, como não, do desenvolvimento do setor secundário do ensino no Brasil.
Sabemos ser totalmente impossível, no nosso atual grau de elaboração, fornecer este quadro do ensino secundário.
Assim, nos limitarmos neste texto-base a dar indicações mais gerais acerca das linhas-mestras do desenvolvimento deste setor do ensino.
Uma primeira colocação que se faz necessária é o que consideramos como pertencente ao ensino secundário.
Utilizaremos no nosso trabalho a denominação de ensino secundário para nos referirmos ao ensino de 2º grau, que compreende 3 ou 4 anos, normalmente denominado colegial.
No entanto, o nosso trabalho abrangerá todo o ensino básico, incluindo-se aí as escolas pré-primárias, o “primário” e o “ginásio”.
O ensino sempre foi, no Brasil, algo exclusivo para as classes dominantes. Essas se reservaram, nas diversas fases históricas de desenvolvimento, a posse dos meios de obter o conhecimento, dando as classes exploradas, em especial ao proletariado, o naco que lhes convinha, e como lhes convinha.
Isso só faz reforçar a tese de que o ensino - a educação - é um dos meios pelos quais a burguesia (classe dominante) mantém o seu domínio sobre a classe explorada (o proletariado). E, portanto, de que o ensino, a educação, é determinada “em suas linhas gerais, pela base econômica da sociedade”.
Assim, qualquer trabalho que for feito sobre a educação e o ensino no Brasil, tem de levar em conta as exigências do desenvolvimento econômico, partindo delas para o restante, e não o inverso.
No caso brasileiro, o ensino, que até então fora direito exclusivo da classe dominante (de uma forma geral, dos setores mais avançados da população), passa, por exigência do desenvolvimento capitalista, a partir de 1930, a ser aberto aos setores explorados da população.
Um operário tem de saber ao menos ler. A massa da população precisa ter um certo conhecimento para adquirir os produtos que a burguesia lhe oferece. Da mesma forma, a produção capitalista exige do proletariado uma especialização mínima que seja, assim como também necessita de técnicos que assumam o papel de intermediários na produção.
Essa exigência imperiosa faria, como fez, em determinado momento, com que a burguesia nacional e estrangeira e os latifundiários, que detinham então o podem, abrissem as portas do ensino secundário as camadas exploradas - nunca, pois, com a cultura como “bem universal”, mas como meio de aumentar suas riquezas.
Esse deslocamento do eixo do ensino secundário, de um ensino acadêmico, nos moldes europeus, à um ensino técnico-profissionalizante, nos moldes americanos, estará marcado, desde cedo, pelas contradições impostas a ele pela sociedade.
Assim, as modificações ocorridas não contaram com um respaldo técnico-material que evitasse o seu aborto total. Em sua grande maioria, as escolas criadas não conseguiam absorver as contingentes que a procuravam, fornecendo por fim um ensino fraco e castrador.
[cortado pela digitalização]
A formação profissional sendo exaltada, decai a carga horária das matérias de formação geral. Acentua-se a formação profissional (mal feita) do estudante, em detrimento de sua formação humanística.
Do ponto de vista político-ideológico, o fato de se estar abrindo o ensino secundário a uma camada explorada, potencialmente revolucionária, passa a exigir da classe dominante todo o esforço de contenção e doutrinamento ideológico.
Surgem então as matérias de OSPB, Moral e Cívica, Estudos Sociais etc, assim como se acentua a cassação dos direitos dos estudantes dentro das escolas.
E isto dentro de um quadro geral de preservação do que havia de pior dentro do ensino acadêmico, ou seja, uma formação geral desligada da realidade, e, óbvio, sob controle ideológico da burguesia.
Por outro lado, o ensino não poderia fugir da lógica capitalista. Viu-se transformado em mais uma mercadoria, sob controle de grandes capitalistas - como é o caso do Bradesco, da Volks, do Objetivo - ou de pequenos, como é o caso dos proprietários da imensidão de pequenos cursinhos hoje existentes.
Ao mesmo tempo que abria o ensino para as camadas mais pobres da população, o capitalismo o encerrava em uma contradição mortal, com sua transformação em mercadoria, cada vez mais inacessível a maioria do povo brasileiro.
Some-se a isso o fato de a grande maioria da juventude ser obrigada a trabalhar desde cedo, ou estar de tal forma marginalizada que lhe é impossível até mesmo cursar uma escola. São oito milhões nessa situação, entre os 7 e 14 anos.
E, sabendo-se que, quanto mais se desenvolve, o capitalismo joga em uma miséria profunda milhões e milhões de pessoas, temos claro que a escola está enredada nas contradições sociais, o que acaba por desvendar o verdadeiro caráter do ensino, tirando-lhe o véu de ascensão social que as classes dominantes tentam imprimir-lhe, e que a pequena-burguesia endossa.
Se não bastasse isto, temos ainda que o Estado joga-se numa corrida louca em que tem de, ao mesmo tempo, resistir as pressões populares pelo direito ao ensino e, por outro, impedir paulatinamente o acessos destes setores às escolas - com medidas que variam do corte de verbas ao fechamento de escolas!! O desaceleramento da economia "injustifica" a sua existência, que soma gastos e recursos onerosos para o Estado.
No campo do ensino particular, a tônica é a concentração cada vez maior das escolas sob grandes monopólios, levando à ruína os pequenos proprietários.
E quanto mais se desenvolvem as lutas contra esta situação - sendo elas lutas “radicais” ou não - a repressão só faz aumentar. Nesse momento, o doutrinamento ideológico já não é suficiente - o Estado orienta a criação de aparelhos repressivos dentro das escolas, que vão desde os estatutos escolares às normas auto-instituídas pelos agentes inconscientes que são os diretores das escolas etc.
O processo de deslocamento do eixo do ensino secundário não ocorre de uma só vez, nem ocorre só com o ensino secundário.
O ensino primário também é atingido por um crescimento enorme, destruindo a educação limitada aos filhos da burguesia e dos latifundiários, e substituindo-a por um ensino socializado.
A abertura do processo produtivo à mulher força a criação de creches e escolas pré-primárias, de uma forma geral.
No entanto, todos estes acréscimos e possíveis melhoras sempre se limitavam pelo domínio de ferro imposto pelas classes dominantes.
Do ponto de vista de fases do processo, podemos destacar três grandes fases: uma primeira, que se inicia em 1930, com o surgimento dos SEI-SENAI-SENAC, e com a criação de escolas públicas nos mais diversos níveis; a iniciativa cabe então ao Estado.
Uma segunda, quando já se tratava de acelerar o processo e dar-lhe contornos mais definidos, com a criação da lei 5692, com a obrigatoriedade do ensino técnico-profissionalizante nas escolas de 2º grau.
Uma terceira, quando trata-se de diminuir a quantidade de escolas técnico-profissionalizantes. É o momento de “reestudar e verificar o verdadeiro papel” da lei 5962.
Apresentar uma solução para esta situação não é algo fácil. Se unirmos a essa dificuldade “natural” o fato de sermos ignorantes em matéria de educação, estaremos então diante de algo quase insolúvel.
No entanto, talvez seja possível apontar algumas questões.
Em primeiro lugar, sobre a importância de se apresentar uma solução, de fato. Como já dissemos algumas vezes, as correntes que interferem no movimento não se preocupam em apresentar soluções concretas para os problemas reais que estão colocados para o movimento de massas. Sem se aprofundar nas causas destas falhas, podemos dizer que, do ponto de vista de seus efeitos, ela é altamente prejudicial ao próprio movimento de massas, que se vê assim inexperiente diante de seus problemas, e altamente prejudicial para as correntes políticas e para a luta mais geral pelo socialismo, na medida que, ao tirar das massas uma direção para a resolução de seus problemas concretos, acaba tirando das tais correntes seu papel de direção, que inevitavelmente acaba por ser substituído por outros; não é difícil de imaginar o fiasco que seria uma direção socialista para o país com o “S." na direção do MEC.
A prática “discurseira” da maioria das correntes que atuam no movimento não mais satisfaz as massas, simplesmente porque essas são mais inteligentes do que pensam os nossos populistas. Assim, apresentar soluções concretas tem um duplo papel: primeiro, consolida seu papel de direção frente ao movimento de massas; segundo, prepara as massas para a sua tarefa histórica, que é a de dirigir a sociedade!
Em segundo lugar, uma questão importante a se destacar em todos os momentos é que as soluções mais adequadas e duradouras só podem ser conquistadas sob um governo que represente os setores oprimidos da população. Principalmente no Brasil, é tolice falar em modificar um aspecto da superestrutura sem modificar o conjunto da sociedade, roubando a base econômica do controle burguês. Se nos países mais avançados já se consegue ao menos um ensino verdadeiramente público e gratuito e acessível a todos, no Brasil, com sua estrutura e sua formação, pela necessidade que se tem de mão-de-obra barata e submissa, isto definitivamente não aparece enquanto perspectiva.
Em terceiro lugar, e um pouco decorrência deste segundo ponto, a conquista de espaços políticos é fundamental na busca dessas soluções. O ensino por qual lutamos tem de ser ensino de massas, que atenda aos desejos e necessidades da maioria da população. Quanto maior for o espaço político e conquistado, maior vai ser a possibilidade das próprias massas expressarem suas opiniões e soluções.
Em quarto lugar, um objetivo fundamental, expresso inclusive no próprio “Manifesto Comunista”, quando se fala em educação, é tirar esta do domínio burguês, do domínio político-ideológico da burguesia. A luta contra a ideologia dominante numa sociedade burguesa tem de passar, também, pelo desmascaramento do papel da escola. E a escola que pretendemos construir tem de ser avessa ao controle político-ideológico da burguesia.
Em quinto lugar, reflexo de todos os pontos anteriores, o controle de currículos, aplicação de verbas, etc., deve ficar a cargo de cada comunidade, sob sua responsabilidade. Não é segredo que o atual esquema de ensino acaba por aumentar os desníveis regionais. A descentralização do controle do ensino viria assim atender as necessidades específicas de cada região.
Em sexto lugar, a escola tem de recuperar a formação geral da escola acadêmica, só que mantendo-a ligada ao processo social, a realidade, assim como se mantendo ligada ao processo produtivo - perfazendo assim o ciclo de desenvolvimento do ensino secundário no Brasil!
Em sétimo lugar, tem-se que verificar o verdadeiro papel da Universidade. O discurso aparentemente “esquerdista” das correntes trotskistas acaba por supervalorizar o papel da Universidade. No entanto, é totalmente impossível, e principalmente num país com 120 milhões de habitantes, fazer com que todos tenham acesso à Universidade. Embora seja ainda cedo para se afirmar tal coisa, a Universidade vai assumir um papel de especialização, fundamentalmente, a partir do momento em que o ensino básico e secundário deêm uma formação integral para o estudante, tanto técnica quanto humanística.
No mais, e mesmo em relação a esses sete pontos, cabe um estudo mais aprofundado e uma análise mais bem feita, afim de que se chegue a conclusões mais bem fundamentadas.
Por último, é importante dedicar algumas linhas a análise da problemática do ensino pago.
A princípio a existência do ensino pago deve ser combatida, já que se constitui em mais um anel de domínio da burguesia sobre aqueles que explora.
No entanto, devemos fugir de qualquer consideração “principista” ao tratarmos de assuntos práticos.
A discussão que realmente existe, e que pretendemos cada vez mais colocar, é se, de fato, a rede pública de ensino atende (ou atenderia) a demanda existente. Não queremos repetir o gesto do Marquês de Pombal, nem queremos ver os proprietários de escolas na situação de jesuítas.
Como dissemos, existe um problema prático, que deve ser a nossa primeira discussão: hoje, e no caso de uma eventual revolução que leve o proletariado ao poder, ao lado dos setores oprimidos da população, a rede pública do ensino arcaria com a demanda existente?
No mais, trata-se de discussões estéreis acerca de quem nasceu primeiro: o ensino privado ou a burguesia.
***
Um segundo objetivo que nos propomos com a feitura deste texto é realizar uma análise inicial do movimento secundarista.
Do ponto de vista da problemática que está colocada, existe uma questão-chave: a das relações do movimento que ocorre nas escolas com o movimento geral, das entidades gerais.
As outras questões são em geral decorrentes desta. Se verificarmos que todas as grandes polêmicas que estouraram em nossa corrente se referiam, direta ou indiretamente a esta questão (como o problema dos CCEs x Grêmios Livres), veremos então sua importância.
Julgamos que responder a esta questão chave não se limitará a analisar o atual movimento secundarista - será preciso também que se analise o período 45-64, para que se tenha clareza acerca de toda uma gama de aspectos.
De início, faremos apenas algumas considerações.
Quem se dedicar a uma análise, mesmo que apressada, do movimento secundarista, notará um conjunto de aspectos dignos de nota.
Enquanto que nas escolas se verifica um movimento surdo, de resistência, que enfrenta uma repressão diária e nem sempre explicitada, fora delas existe um sem-número de entidades gerais, também enfrentando repressão, mas totalmente desligadas do movimento que existe dentro das escolas.
Ou seja, ao mesmo tempo que, nas escolas, o movimento começa a engatinhar, do lado de fora já existe toda uma estrutura montada e aparentemente forte de entidades.
Da mesma forma, enquanto que, nas escolas, se verifica um início de apreensão dos problemas existentes, um início de conscientização, do lado de fora se fala em 12% de verbas, em “contra os aumentos”, ou em “índices” absurdos, que só não fazer rir por serem trágicos, como se o movimento conseguisse impor seus índices ao MEC!!
Em palavras mais simples, verificamos um descompasso total, um profundo fosso, entre o movimento “geral” e o movimento “nas escolas”.
Esse descompasso, ainda, quando não é bem tratado, coisa que tem sido a regra, produz aberrações em trabalhos que mal se iniciam. Assim, pessoas que mal surgiram no movimento são levadas a participar de eleições e de congressos que a jogam em um movimento irreal, ficticio, e que a distancia do movimento real, de massas, que de fato ocorre em suas escolas.
Equacionar esta problemática, no entanto, não é fácil. Não podemos negar que a maior parte das pessoas que surgem no movimento o fazem atraídas que são pelo movimento aparente, pela movimentação em torno das entidades gerais.
Nem podemos negar o peso que esse movimento joga em determinados momentos, enquanto canal de protesto e mobilização - embora que nunca como movimento de massas.
E, no entanto, não podemos deixar de dizer que graças a esse movimento, um sem-número de trabalhos que se iniciavam foram perdidos ou isolados dentro das escolas.
A coisa se torna mais difícil quando pesamos os problemas práticos que advém duma ou doutra análise. Levada as últimas consequências, considerar o movimento em torno das entidades gerais como aparente, e secundário, pode nos levar a não preocupação em trabalhar com ele, ou ao menos a um certo abstencionismo.
Enfim, existe aí um vasto campo de estudo, debate e análise. O pouco que podemos adiantar é que a perspectiva de conceder importância total ao movimento “geral” nos levará, como já nos levou, a abandonar e, mesmo, destruir, o trabalho em uma série de escolas.
Um outro problema que está colocado é o de definir que tipo de movimento é o secundarista, qual sua composição de classe. Sem isto, fica difícil para nós responder a muitos problemas que surgem em nossa prática diária. Para isso, só uma pesquisa mais apurada que a que temos hoje.
Algumas indicações mais se fazem necessárias.
Nosso atual grau de elaboração já nos permite afirmar que a grande luta dentro das escolas é a de obtenção de espaço político, a luta por “liberdades políticas”.
Falamos isso a partir de uma análise do trabalho de várias escolas, e mesmo a partir de nossa análise anterior a respeito do desenvolvimento do ensino secundário.
As lutas econômicas dentro do capitalismo nunca obtém vitória completa. Nesse sentido, a grande vitória é a obtenção e a consolidação do espaço político. Essa tese é mais do que válida para o movimento secundarista e tem sido comprovada pela prática.
O grande desafio é saber, sem se perder nos discursos vazios, ligar a luta que ocorre dentro de cada escola a luta política mais geral. Aí, o mais válido é trabalhar na sistematização das experiências que estamos vivendo em diversas escolas da capital.
De mais, só é importante lembrar, e isso para o próprio movimento, de que “a liberdade dentro de uma escola é uma ilha isolada, caso a luta não se alastre”.
No movimento “aparente” frequentemente se reacende a polêmica Grêmio Livre x CCE. Na busca de respostas a essa polêmica, já viajamos pelos extremos do movimento, sempre sem clareza dos norteadores que deveríamos ter nesta discussão.
Hoje, em que buscamos reafirmar as necessidades do movimento de massas como norte, já é possível dar uma resposta mais afirmativa.
Nem Grêmio nem CCE!!!
Trata-se hoje de lutar pelo alargamento do espaço político que existe dentro da escola, e não lutar por uma ou outra entidade, que podem não passar de fantasmas para a maioria dos estudantes.
A busca de espaço político não passa, em todos os momentos, pelo espaço de uma entidade. Em escolas onde não existam nem Grêmios nem CCEs, por exemplo, não se faz necessário lutar por uma entidade como bandeira imediata, nem se predestinar qual forma assumirá a organização dos estudantes nesta escola.
O que não quer dizer, óbvio, que não se deva difundir no movimento a ideia de que se faz necessário uma forma organizativa livre, que represente (na realidade, seja) o conjunto de alunos organizados.
Nem que não se deva participar dessas entidades. Ao contrário, em muitos momentos, a participação nessas entidades é mesmo decisiva.
O que se tem de retornar é que não existem questões de “princípios” no trabalho político com as entidades. Não existe o princípio de que só o Grêmio é uma entidade, ou de que só o CCE está ao nível das massas. Esse tipo de questão é prática, não de princípios!!
Nossa atuação no movimento é a terceira das grandes questões que temos pendentes.
De início, vale uma autocrítica geral pela postura que assumimos diante dos problemas que enfrentamos nesses 2 anos de atuação no movimento. Durante esses dois anos, diante de todas as crises por que passamos, nunca nos apercebemos que o problema central era um problema político, de fundo, e que não se esclareceria em seminários ou coisas do gênero.
Hoje já conseguimos detectar isto: a razão de nossa não-consolidação no movimento é política, é a falta de uma política construída antes de se pensar em atuar de maneira organizada e decidida.
Não faltarão, é certo, argumentos do tipo “política não se possui desde o início, vai se formando”. A esses argumentos nós respondemos: o fundamento de nossa atividade é uma política que queremos imprimir ao movimento; essa política tem de estar, impreterivelmente, determinada, ao menos em suas linhas gerais, antes de se pensar em atuar de forma organizada. Caso contrário, a estrutura orgânica se prestará a crises, tão somente.
Este documento constitui, como por vezes já dissemos, ao lado do “TOMAR A UMES PARA OS ESTUDANTES”, o primeiro passo no sentido de romper com esse estado amorfo. À unidade de ação antepomos a unidade programática.
Nossa corrente surgiu com algum trabalho organizado em uma escola de 2º grau da zona sul (que chamaremos de “A”). Esse trabalho se desenvolveu num sentido razoável até que se passou a intervir (ou tentar intervir?) no movimento mais geral.
O número reduzido de pessoas com as posições mais claras (duas) e o fato de não se possuir uma política para o movimento, minimamente estabelecida, e ainda com o fato da escola “A” ser a única com trabalho organizado, levaram nossa posição à falência. Perdemos paulatinamente o trabalho na escola, e nos reduzimos a um grupelho falador na Umes, demasiadamente reduzido.
Aproximando-se o Congresso de fundação da Umes-SP, foram feitas reuniões contando com 8 pessoas, de 7 escolas diferentes. Esse grupo inicial participou do Congresso com um programa ambíguo (fruto da pouca discussão e experiência dos 7), e manteve-se em silêncio durante as plenárias, não havendo intervido; dispersou-se e fragmentou-se nas votações. Constitui-se em uma seita, unida por laços fraternais contra a politicagem…
No processo de eleição para a Umes acabamos por nos constituir em apêndice da “Refazendo”, constituindo com ela e com independentes uma chapa que concorreu as eleições. As tarefas políticas foram todas arrancadas de bom grado de nossas mãos.
A ideia alentada então pela maioria dos componentes da posição de se constituir enquanto tendência no movimento provocou a primeira crise de sérias proporções, com a saída de um dos dois companheiros que havia iniciado o trabalho.
O grupo restante não se preocupou em articular de forma mais decidida suas posições, o que acabou por levar a uma segunda crise - a polêmica em torno de uma fusão (ou não) com a “Refazendo”.
Apenas em maio, com a realização do 1º seminário de Caminhando - que contou com a participação de 11 pessoas - se rearticula a posição no movimento. Novamente a fragilidade política perpetrou uma nova crise, que dura até o segundo semestre, quando se começa a articular a intervenção no 2º Congresso da Umes.
A intervenção ocorre num nível razoável, embora em uma série de questões tenham havido sérias discordâncias entre os componentes da posição.
Já então estava convocado o 2º seminário de Caminhando. No entanto, no Congresso da Ubes ocorre uma outra crise, com o desligamento de mais um companheiro, daquele grupo de 8 pessoas. Feita de forma apolítica, esse desligamento não chegou a provocar uma outra crise de sérias proporções, mas, ao contrário, produziu este esforço que estamos assistindo de reconstruir a posição sobre novos fundamentos.
Essa história sucinta permite calcular o quão fundamental é a base política para a sustentação e estruturação de nossa posição.
Além disso, é importante destacar mais dois pontos para discussão entre nossa posição. Em primeiro lugar, o tão falado “trabalho de base”; em segundo lugar, o problema da localização de nossas bases políticas.
Julgamos que somente com a diretriz de se formar bases políticas nas escolas, com um trabalho a longo prazo, que inclusive leve a não participação em eventos gerais etc., poderemos nos articular de forma organizada e durável no movimento.
A criação dessas bases políticas é de fundamental importância, pois. Nesse processo, devemos nos preocupar em solidificar nossa estrutura orgânica dentro da escola, preparando política e teoricamente nossos companheiros, e em nos ligar ao movimento real que ocorre dentro das escolas.
A localização de nossas bases políticas é outra questão importante. Devemos concentrar nossos esforços naquelas escolas que contém os elementos mais revolucionários da população. O trabalho nas escolas técnicas, pelo papel que o técnico vai ter na produção; o trabalho nas escolas noturnas, principalmente no centro, pela concentração de alunos-trabalhadores; aqueles a que devemos dedicar mais atenção.
***
Por fim, julgamos importante salientar que todo este trabalho contém lacunas, erros e imprecisões de monta, que devem ser literalmente vasculhados e destruídos!
Só o debate aberto e franco sobre o conjunto do trabalho poderá fazer com que, por fim, avance a construção de nossa corrente no movimento.
É importante que se discuta, por exemplo, o papel da Universidade; o trabalho com a juventude; as experiências de trabalho nas escolas; a concepção basista; o problema do partido da classe operária; etc.
É importante que cada um de nós se imbua de que somente através dessa discussão conseguiremos dar o salto que todos queremos.
Pela nossa organização no movimento, de forma revolucionária!
São Paulo, Dezembro de 81
O implacável tempo
Somos bilhões de terráqueos, a maioria dos quais participamos ativamente da produção e reprodução das condições de vida em sociedade.
Apesar de humana e coletiva, esta dinâmica aparece, para grande parte das pessoas envolvidas, como se fosse algo externo e impessoal.
A aparente impessoalidade é reforçada pelo fato de que a mediação entre as pessoas é feita, muitas vezes, por "coisas".
Por exemplo: ferramentas, máquinas, mercadorias, algoritmos.
A impessoalidade é reforçada, também, pelo fato de que decisões fundamentais são tomadas por um pequeno número de pessoas.
"Manda quem pode, obedece quem tem juízo".
Esta dinâmica social, mas que parece ser "automática", imposta de fora para dentro e de cima para baixo, é chamada às vezes de "sistema".
Na maior parte do tempo, a maior parte das pessoas participa dessa dinâmica sem ter muita consciência e protagonismo, limitando-se a repetir, dia após dia, mês após mês, ano após ano, década após década, geração após geração, determinados comportamentos.
Esse atitude - que podemos chamar de "inercial" - é um dos muitos fatores que contribui para a perpetuação do “sistema”.
Entretanto, o tal “sistema” não é harmônico.
Ele inclui todo tipo de conflitos e contradições, que em determinados momentos se convertem em crises profundas, das quais decorrem as constantes mudanças na produção e reprodução das condições de vida em sociedade.
Muitas vezes estas inevitáveis mudanças se limitam a algum tipo de "modernização conservadora", ou seja, resultam no aprofundamento de determinadas características do próprio “sistema”.
O Brasil, por exemplo, mudou muito ao longo dos últimos cem anos. Mas continuamos sendo uma sociedade dependente, desigual, antidemocrática e subdesenvolvida. As mudanças ocorreram, mas mantiveram o poder e a riqueza concentradas em poucas mãos.
Noutras palavras, neste caso o "sistema" sobreviveu à sua própria mudança.
Para que as inevitáveis mudanças resultem, não apenas numa "modernização conservadora", mas em "transformações estruturais”, para que o "sistema" se converta em um "outro tipo de sistema", é preciso entre outras coisas quebrar o "comportamento inercial".
Noutras palavras: é preciso que um número expressivo de pessoas reduza sua contribuição para a reprodução do "sistema" e passe a agir no sentido de construir outra dinâmica social (outro "sistema").
Que número?
Resposta: o suficiente para superar o movimento cotidiano daqueles que, dia após dia, produzem e reproduzem o “sistema”.
De onde surgem as pessoas dispostas a realizar este movimento antisistêmico?
Elas surgem, em pequenas quantidades, como causa e efeito de cada conflito e de cada contradição cotidiana.
E surgem, em grande quantidade, naqueles momentos de crise profunda.
Entretanto, os conflitos, contradições e crises também geram "anticorpos" que operam para neutralizar toda e qualquer ação antisistêmica.
Exemplos de anticorpos: o conservadorismo "normal", o reacionarismo fascista, a ingerência imperialista. Ou ainda: a corrupção, a cooptação, a burocratização.
Quando é que esses e outros "anticorpos" não funcionam?
Por exemplo, quando a crise é profunda demais.
Nesse contexto, as forças antisistêmicas podem derrotar os anticorpos, uma revolução pode destruir um sistema e construir outro.
Quem gera as crises profundas é o próprio sistema capitalista.
Entretanto, quando tais crises acontecem, mas sem que existam forças antisistêmicas à altura, o resultado pode ser que as coisas mudem, mas ao final continuem sendo como antes.
É por isso que um dos grandes desafios, para quem deseja acabar com o "sistema" e realizar uma transformação estrutural, consiste em converter a insatisfação cotidiana, parcial, local, setorial, momentânea, em uma força permanente, organizada e adequadamente orientada no sentido da superação do "sistema" e da construção de outro tipo de sociedade.
Não há uma fórmula única sobre como fazer isso. Cada época histórica, cada território concreto, exige formas organizativas e linhas políticas específicas, particulares, concretas.
Mas, em todos os casos, trata-se no limite de uma questão de tempo.
Ou seja: é preciso que um número muito grande de pessoas dedique um tempo expressivo de suas vidas, não para a produção e reprodução da sociedade como ela é, mas para a luta organizada em favor da superação do capitalismo e da transição socialista.
Para isso, é necessário convencer muitas pessoas a dedicar parte expressiva de seu tempo de vida à causa. E a fazer isso de forma organizada, pois a organização coletiva multiplica as forças, gera uma potência superior à resultante da mera soma aritmética das pessoas engajadas, faz o tempo de poucos equivaler ao tempo de muitos.
É também por isso que lutamos pela redução da jornada de trabalho e pelo fim das escalas desumanas, assim como lutamos contra a captura do tempo livre pelo consumismo e pelas telas, para que que centenas de milhões de pessoas possam não somente viver, mas principalmente sonhar, criar e lutar por outra sociedade.
Antes que seja tarde demais. Pois o tempo, assim como a biologia, é implacável.
domingo, 23 de agosto de 2026
Entrevista ao Tom Hennigan
O que está em jogo nas eleições deste ano? Ainda podemos falar em esquerda versus (extrema)-direita? Ou estamos vendo grande parte do sistema político/institucional estabelecido em 1988 unindo-se em torno de Lula para barrar uma ameaça anti-democrática, anti-sistema que não respeita as regras do jogo?
O “sistema” que foi vitorioso em 1988 ganhou as eleições de 1989, 1994 e 1998. Depois perdeu as quatro eleições seguintes. E decidiu rasgar suas próprias regras, dando o golpe contra Dilma e prendendo Lula. Quem fez isso não foi a extrema direita, foi a direita tradicional, o que incluiu naquela época o próprio Geraldo Alckmin. Esta direita tradicional achava que depois do golpe ganharia as eleições de 2018, mas enganou-se tanto quanto os “democratas” Ulysses e JK, que votaram em Castelo Branco depois do golpe militar de 1964, acreditando que ganhariam as eleições marcadas para 1965. O que ocorreu em 2018 foi a vitória da extrema-direita. E mesmo assim foi preciso a pandemia e as ameaças diretas do cavernícola contra o STF e contra a Globo, para que uma parte do “sistema” se desse conta de que eles seriam as próximas vítimas. Foi aí que esta parte do “sistema” resolveu dar cavalo de pau, libertar Lula, reconhecer que ele era elegível e inclusive apoiar sua eleição em 2022. De lá para cá ocorreram três processos que tornam tudo mais complicado. O primeiro é Trump, que faz com que parte do “sistema” esteja morrendo de medo. O segundo é a ganância do capital financeiro, que segue exigindo um ajuste fiscal totalmente contraditório com o programa defendido pelo presidente Lula. O terceiro processo é a consolidação da extrema-direita, que apesar de ter um candidato de merda, segue em condições técnicas de ganhar. Tudo isso junto cria a seguinte situação: uma parte do “sistema” está com o filho do cavernícola, outra parte está com Lula e uma terceira parte está rezando por um milagre, que permita a Caiado ir ao segundo turno. Na ausência deste milagre, o segundo turno será entre esquerda com aliados versus extrema-direita com aliados. E como entre estes aliados da extrema-direita está Trump, o dia seguinte à vitória de Lula será emocionante. Até porque o capital financeiro continuará pressionando pelo ajuste fiscal, enquanto nós seguiremos pressionando por mudanças profundas.
Como você vê a conjuntura internacional dentro do qual a eleição acontecerá? Estou especialmente pensando em Trump e suas ações e ameaças hegemônicas contra o hemisfério ocidental. Como isso vai impactar na campanha e voto? Você espera que grau da interferência e como se acha o Brasil - governo e sociedade - vai reagir?
O impacto já está ocorrendo e pode ser visto nas pesquisas. Para uma parte da população, as ameaças de Trump despertam um bom sentimento em favor da defesa da soberania. Mas, para outra parte, despertam um sentido de subalternidade, que aliás sempre foi uma característica da classe dominante brasileira. O desempate depende de nós. A vitória de Lula tem que valer a pena. Ou seja, tem que ser o passaporte para um futuro realmente melhor e diferente. Só isso fará valer a pena correr o risco. Se, pelo contrário, a nossa postura for patrioteira ou programaticamente medíocre, o medo vai prevalecer. Por isso, está certo o presidente Lula quando fala que devemos querer mais. Muito mais.
Quais são as conquistas mais importantes, na sua avaliação, que Lula e o PT estão defendendo nesta eleição, tanto nos últimos quatro anos quanto desde 2003?
Tem dois jeitos de responder esta pergunta. A primeira é fazer um rol de realizações. Mas para isso é melhor ler o programa de Lula, lá tem a lista. A outra forma de responder esta pergunta é dizendo que conseguimos manter aberta uma porta. Esta porta pode nos levar a construir um Brasil profundamente diferente e, também, a mudar o lugar do Brasil no mundo. Eleger Lula em 2026, assim como eleger a candidatura petista nas outras 5 eleições presidenciais que vencemos, não garantiu que isso virasse realidade.Mas conseguimos manter a porta aberta, na contramão do que está ocorrendo em boa parte do mundo.
O que você entende quando Lula diz que ele vai "mudar muita coisa" no país durante um quarto mandato? Tem uma frustração, ou até crítica, implicado no desempenho do PT no poder durante 17 dos quase 24 últimos anos?
Frustração não digo, mas crítica espero que sim. Pois é óbvio que precisamos ser críticos. O Brasil continua sob controle do capital financeiro e do agronegócio. O Brasil continua dependente. A democracia aqui no Brasil continua sendo oligárquica. Não conseguimos impulsionar um ciclo desenvolvimentista, sem o qual a nossa soberania nunca estará garantida. Além disso, somos socialistas. E o Brasil segue não apenas capitalista, mas um capitalismo absolutamente selvagem. Então temos que ser críticos sim. Agora, frustração é melhor deixar para quem acreditava que, indo devagar e sendo moderados, chegaríamos muito mais longe. Eu nunca acreditei nisso. E por isso mesmo acho ótimo que se fale em “mudar muita coisa”.
Qual é a sua própria avaliação do desempenho do PT no poder desde 2003? Esperou mais ou está contente dado o contexto político e a correlação de forças políticas-institucionais? Quais têm sido os principais freios ao seu projeto mesmo dentro do Planalto? Alguns são internos do partido? Poderia ter sido feito mais para removê-los?
Veja, não dá para avaliar o PT fora do contexto. O contexto é de derrotas em série: colapso do socialismo soviético, desmonte da socialdemocracia, crise do desenvolvimentismo, guinada neocolonial, neoliberalismo e agora neofascismo. Nesse contexto, o PT conseguiu sobreviver, resistir e manter a presidência da República num país decisivo no mundo. Não acho pouco. Mas uma parte da direção do Partido confundiu e segue confundindo a necessidade de flexibilidade tática, com desistir de ter um projeto estratégico. E isso impacta tudo, desde o ânimo da militância, passando pelo funcionamento do Partido, até as perspectivas de médio prazo. Sem falar em fenômenos de degeneração política e ideológica. O saldo prático disso é que temos perdido espaços em todos os terrenos, inclusive no eleitoral. Portanto, precisamos de um freio de arrumação e de um cavalo de pau, e isso começa pela reafirmação do nosso projeto estratégico socialista.
Finalmente, você vem de uma família de várias gerações da luta e sacrifício. Como você avalia as conquistas da esquerda brasileira mais ampla numa perspectiva de longo prazo, abrangendo a ditadura e a redemocratização até nosso dia? E como se vê a esquerda brasileira evoluindo num futuro pós-Lula?
Eu não concordo com este jeito de colocar o problema. Explico: Vargas se suicidou em 1954, em 1994 Fernando Henrique falava em acabar com a Era Vargas e hoje seguimos debatendo questões que envolvem o legado de Vargas. Portanto, eu não estou de acordo que o futuro visível – as próximas décadas –possam ser caracterizadas como “pós Lula”. Ademais, o fato de Lula não poder ser candidato em 2030 ou em 2034 não impedirá a esquerda e o PT de vencer as eleições presidenciais. Se o governo Lula 4 estiver bem, venceremos. Se estiver mal, não venceremos nem que Jesus Crista seja nosso candidato. Por fim, a esquerda não surgiu com Lula e não depende de Lula. Lula é que foi produto da esquerda e depende da esquerda. Portanto, o futuro da esquerda depende dela mesma, de manter os vínculos com a classe trabalhadora, de manter a luta, de manter os princípios, de manter a organização coletiva. Sem isso, não adianta termos Lula conosco. Com isso, iremos bem mesmo quando a implacável biologia fizer a sua parte.
ps. Não respondi na entrevista, mas acrescento aqui: também não concordo com o pressuposto contido na “família de várias gerações de luta e sacrifício”. A parte da “família” precisa de mediações. E a parte do “sacrifício” também precisa de muitas mediações. As pessoas que escolhem dedicar parte de sua vida à construção de um partido, à revolução, ao socialismo e ao comunismo, seguramente abrem mão de buscar e, quem sabe, abrem mão de ter algumas coisas, mas não acho adequado caracterizar isso como “sacrifício”. Além disso, ao menos para uma parte dos que escolhemos militar na esquerda, a vida segue sendo muito bela. E, ao menos as vezes, segue tão ou mais bela do que a vida vivida pela grande maioria. Por esses e por outros motivos, do pressuposto contido na parte inicial da pergunta, só concordo com uma parte: a luta. Mas o que seria da vida sem a luta?



