domingo, 8 de fevereiro de 2026

Lula e o “amor à primeira vista” por Trump

Tenho um colega de trabalho segundo o qual “o estilo é o mais importante”.

Tenho lá minhas dúvidas. 

Mas obviamente reconheço a importância que o “estilo” tem na política de massas, especialmente em tempos de “redes sociais”.

Lula tem estilo, seja quando planeja, seja quando improvisa.

E o estilo de Lula inclui um jeito todo próprio de tratar com familiaridade as demais lideranças políticas, inclusive outros chefes de governo e Estado.

Assim sendo, não me surpreendo com a generosidade com que ele usa os termos “amigo” e “companheiro” para designar de fulanos a beltranos.

Mas no caso de Trump, Lula me surpreendeu.

Explico.

Lula está protagonizando uma bela e justa campanha em defesa do direito das mulheres e contra o feminicídio.

Trump está sendo acusado de envolvimento numa rede de pedofilia. Os fatos e as fotos são repugnantes.

Falando diretamente, Trump é um pedófilo.

Como se não bastasse, Trump também é um racista. 

Trump postou há poucos dias, em suas redes anti-sociais, um vídeo que associa as caras do casal Obama com o corpo de dois macacos. Depois despostou. Mas quando questionado a respeito, no lugar de um pedido de perdão, deu uma não desculpa totalmente esfarrapada.

Portanto, além de imperialista, fascista, sociopata e tudo de ruim, Trump cometeu dois crimes que nós do PT, a começar por Lula, consideramos como absolutamente intoleráveis.

O julgamento penal destes crimes compete à justiça dos EUA.

E o relacionamento com o presidente dos EUA é uma necessidade, não uma escolha.

Mas “amor à primeira vista” por alguém assim, sinceramente, é demais para mim.

Espero que Lula e quem mais estiver planejando a próxima reunião do presidente do Brasil com Trump, prevista para ocorrer nos Estados Unidos depois do Carnaval, considere adequadamente os riscos envolvidos no encontro com o mais notório criminoso envolvido no caso Epstein.



sábado, 7 de fevereiro de 2026

Breve informe sobre o Oitavo Congresso do PT

No dia 6 de fevereiro, o Diretório Nacional do PT aprovou o calendário de entrega dos textos que serão debatidos no Oitavo Congresso do Partido dos Trabalhadores.

No mesmo dia 6 de fevereiro, os responsáveis pela elaboração dos textos informaram em que pé está a respectiva elaboração.

Os textos são: i/conjuntura e tática, ii/diretrizes de programa de governo 2027-2030, iii/programa do Partido, iv/organização e estatutos, v/Fundação Perseu Abramo.

Abaixo o informe do texto sob minha responsabilidade.

A subcomissão responsável pelos estatutos tem duas tarefas: i/subsidiar o debate e ii/apresentar uma proposta.

Para subsidiar o debate, produzimos 6 textos, a saber: i/um compilado das resoluções partidárias acerca de organização e estatutos, aprovadas desde 1980 até 2025; ii/um diagnóstico organizativo do Partido; iii/entrevistas com ex-presidentes e presidente do PT; iv/pesquisa com a militância; v/desafios presentes e futuros e seu impacto organizativo; vi/experiências internacionais.

Os cinco primeiros textos já estão disponíveis no site da Fundação Perseu Abramo: https://fpabramo.org.br/2026/01/09/8o-congresso-do-pt-acesse-o-compilado-de-resolucoes-de-encontros-e-congressos-1980-a-2025/

Para apresentar uma proposta, constituímos um Grupo de Trabalho, que desde dezembro já fez 3 reuniões e debateu PED, mandatos, finanças e Federação. 

Este Grupo fará novas reuniões até as datas previstas para apresentar a primeira versão (26 de fevereiro) e a versão definitiva (22 de março) da proposta.

A proposta conterá uma lista de temas e, para cada tema, conterá as diferentes propostas que devem ser debatidas e votadas. 

Até agora listamos os seguintes temas: processo de filiação, relação entre filiação/formação/comunicação, funcionamento das instâncias de base, funcionamento e poder dos núcleos, organização versus diversidade regional, organização versus tamanho das cidades, setoriais, dinâmica das direções, secretarias, limite dos mandatos nas executivas, paridade versus mínimo de 50%, idade da juventude, filiação dos jovens, finanças da JPT, relação entre PT e JPT, fidelidade partidária, comissão de ética, tendências, contribuição financeira, critérios de uso do Fundo Público, critérios de uso do Fundo Eleitoral, PED, relação partido/mandatos, número máximo de mandatos, relação partido e governos, partido e eleições, partido e federação, campanhas de filiação, Censo Partidário.

Solicitamos a quem queira incluir outros temas, que entre em contato até o dia 13 de fevereiro.

Solicitamos a quem queira apresentar propostas, que entre em contato até o dia 13 de fevereiro.

Solicitamos a quem não respondeu a pesquisa, que o faça:

https://pt.surveymonkey.com/r/KKZF8W8

Até o dia 26 de fevereiro faremos uma primeira proposta.

Até o dia 22 de março faremos uma segunda proposta.

Depois disso, ainda será possível apresentar emendas (aditivas, supressivas, substitutivas parciais, substitutivas globais).

Cabe lembrar que o debate sobre estatutos é sobre organização, que inclui mas extrapola os estatutos.

O debate sobre organização é um debate sobre a linha política: a depender da estratégia, o instrumento partidário deve assumir formas e funcionamentos distintos.

Já temos um longa história e, portanto, está garantido que teremos "um grande passado pela frente".

O desafio consiste em estarmos à altura da nova situação criada, no mundo e no Brasil:

-construir um partido socialista, nas condições do capitalismo atualmente existente

-construir um partido dos trabalhadores e das trabalhadoras, nas condições vividas atualmente pela classe trabalhadora

-construir um partido enraizado nos locais de trabalho, moradia, estudo e lazer, nas condições criadas pela presença de uma extrema direita militante

-construir um partido comprometido com soberania, bem-estar, liberdades democráticas, desenvolvimento e socialismo, nos condições criadas pelos tempos de guerra em que vivemos

-construir um partido que construa o futuro da humanidade, num ambiente criado por disputas existenciais que colocam em questão a existência da humanidade

-construir um "partido anti-sistêmico", ao mesmo tempo em que atuamos sob condições que levam parcelas do Partido a adotar uma cultura e uma prática política integradas ao sistema e que, se prevalecerem, podem destruir o Partido ou pelo menos inviabilizar seus propósitos.

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Pelos motivos citados, além de solicitar contribuição e envolvimento no debate sobre organização e estatuto, alertamos sobre a necessidade de envolvimento na elaboração dos demais temas: conjuntura e tática, programa de governo, programa do Partido, Fundação.



 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Lula, Maduro e a “preocupação principal”

No dia 5 de fevereiro, Lula deu uma entrevista ao UOL.

Em certo momento, a entrevistadora perguntou sobre a Venezuela.

A resposta de Lula está aqui: https://m.youtube.com/watch?v=g5T4IWLynUg

“Tecnicamente” Lula está certo: a “preocupação principal” é a situação interna da Venezuela, as condições de vida do povo, o funcionamento democrático das instituições etc.

Nesse sentido, trazer Maduro e Cilia de volta não é a “preocupação principal”.

Mas tem um “detalhe”, que Lula omitiu ou pelo menos minimizou demais em sua resposta: os problemas da Venezuela não são apenas internos. A Venezuela - como Cuba - é vítima permanente de uma brutal ingerência externa.

Não se trata de “briga de compadre”. Um “compadre” não entra na casa do outro, bombardeia, mata, sequestra duas pessoas, ameaça voltar e fazer mais barbáries se o outro “compadre” não fizer o que lhe foi ordenado.

Por isso, é impossível resolver os problemas “internos” da Venezuela desconsiderando o que faz ou deixa de fazer o governo Trump. O que por óbvio inclui o sequestro de Maduro e Cilia.

Neste sentido, a declaração de Lula foi “tecnicamente” correta, mas politicamente errada. 

O erro “principal”, na minha opinião, é que a ingerência dos EUA deve ser condenada explicitamente, inclusive porque fomos, somos e seremos vítimas dela. 

Mas há também um erro “secundário”: a declaração à UOL passou para algumas pessoas uma ideia muito ruim, a de que Lula esqueceu tudo que Maduro fez em favor do Brasil, quando Lula foi “sequestrado” pelo sistema judiciário brasileiro 

Naquela época Maduro poderia ter feito o que fizeram, inicialmente, muitos “governos e partidos amigos”:  dizer que a ilegalidade cometida contra Lula era um assunto “interno” do Brasil, que o “principal” era o “funcionamento normal das instituições”. Mas não foi isso o que Maduro fez, como sabemos todos nós que dirigimos a campanha Lula Livre.

Claro que solidariedade é algo desinteressado. A pessoa que é solidária não deve esperar retribuição pelo que fez. Assim, também “tecnicamente” falando, Lula não tem absolutamente nenhuma obrigação de retribuir a imensa generosidade que Maduro demonstrou naquela época.

Mas na diplomacia e no senso comum, a falta de reciprocidade causa muito incômodo. Especialmente para quem percebe a influência objetiva que duas decisões recentes do nosso governo - em relação as eleições de 2024 na Venezuela e em relação aos BRICS - tiveram no ocorrido dia 3 de janeiro. 

Espero que o presidente Lula leve tudo isto em consideração em suas próximas declarações a respeito da Venezuela. O secundário às vezes não é tão secundário assim.

Proposta ao Diretório Nacional

Proposta de resolução de conjuntura
(contribuição ao debate na reunião do DN PT dia 6 de fevereiro de 2026)

O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, reunido no dia 6 de fevereiro de 2026, aprovou a seguinte resolução política.

1.As  eleições presidenciais de outubro de 2026 serão um confronto entre dois projetos antagônicos. Não se trata apenas de impedir a volta dos golpistas, nem se trata somente de dar continuidade às políticas públicas que foram retomadas a partir de janeiro de 2023. O que está em jogo é algo existencial: democracia contra ditadura, soberania contra entreguismo, bem-estar contra sofrimento, desenvolvimento contra retrocesso, guerra contra paz, a esperança contra o medo, a vida contra a morte.

2.Todas as pesquisas realizadas até agora indicam que Lula será reeleito presidente da República. Mas a eleição será daqui há 8 meses. Nesse intervalo de tempo, os inimigos do povo farão de tudo para tentar vencer, inclusive buscar apoio em governos e em empresas estrangeiras. Por isso, cabe a nós, a todas as forças democráticas, progressistas e de esquerda, a começar pelo Partido dos Trabalhadores, manter um clima de mobilização e diálogo permanente com o conjunto da população brasileira, para desfazer mentiras, explicar o que fizemos e debater o que pretendemos fazer no próximo mandato.

3.Queremos não apenas vencer as eleições presidenciais de outubro de 2026, queremos vencer criando as condições políticas e institucionais necessárias a que façamos um novo mandato ainda melhor. Para isso lutaremos para ampliar ao máximo a votação de Lula, eleger mais governadores e governadoras, senadoras e senadores, deputadas e deputados federais e estaduais. Também com o objetivo de criar as condições para um quarto mandato superior ao terceiro, nossas candidaturas às eleições legislativas farão campanha em defesa de questões centrais como o fim da escala 6x1, a redução da jornada de trabalho, uma reforma tributária que faça os ricos pagarem impostos, uma reforma política e o fim das emendas parlamentares impositivas vinculadas ao inconstitucional parlamentarismo de fato que vem sendo implantado desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.
 
4.A reeleição de Lula é decisiva para o futuro da América Latina e Caribe. Sem o Brasil, a integração regional não avançará. Sem integração, não teremos desenvolvimento nem soberania. Sem soberania, voltaremos a ser colônia. Esta é a intenção declarada do atual governo dos Estados Unidos, que trata nossa região como um "quintal", praticando assédio econômico, ingerência eleitoral, instalação de bases militares, bloqueio ilegal contra Cuba, ataque militar contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada e primeira dama CIlia Florez.

5.Para vencer as eleições de 2026, precisamos neutralizar a ingerência dos Estados Unidos. Isso passa por ações de governo, mas passa também por campanhas anti-imperalistas e internacionalistas de solidariedade. O PT reafirma sua exigência pela libertação imediata de Nicolas Maduro e Cilia Flores. O PT também reafirma sua solidariedade ao povo cubano e propõe ao governo brasileiro que, num gesto humanitário, envie imediatamente um carregamento de petróleo para impedir o colapso da produção de energia elétrica em Cuba. O PT apoia a eleição de Iván Cepeda a presidência da Colômbia. E declara seu apoio às forças democráticas que, nos Estados Unidos, se opõem à campanha fascista que o governo Trump desencadeou contra os migrantes. A política externa estará em debate nas eleições de 2026 e neste debate vamos defender as posições justas: a democracia, a soberania, o desenvolvimento, a integração e a paz. 

6.Setores da classe dominante brasileira - os que não aceitam pagar impostos, os que vivem da especulação e da fraude como o banco Master, os que se opõem à reindustrialização do Brasil - vem atuando abertamente para tentar impedir a reeleição de Lula. Com este propósito, lançam mão de métodos que já vimos operando noutras eleições, desde a sabotagem econômica até o crime eleitoral. Nossa resposta a estes setores seguirá sendo o cumprimento da lei e a defesa de um Brasil de igualdade e justiça social, o que exige superar o modelo primário-exportador baseado na mineração e no agronegócio.

7.A oposição trabalha para tentar levar a disputa presidencial ao segundo turno, quando pretendem fazer uma frente anti-Lula. Para atingir este objetivo, vão usar diversos métodos e bandeiras, entre as quais estimular o medo e a insegurança. Seguiremos nos contrapondo aos métodos violentos e ineficazes defendidos pela direita e seguiremos defendendo uma verdadeira política de segurança pública. Como parte deste esforço, reafirmamos a necessidade urgente de criar o Ministério da Segurança Pública. Ganha grande importância, nesse contexto, o combate ao feminicídio, que tem crescido no país, como decorrência direta da influência da extrema-direita e facilitado pelas políticas armamentistas do governo cavernícola. 

8.O PT seguirá buscando alianças com todas as forças dispostas a enfrentar o neoliberalismo e o fascismo, seja na disputa presidencial, seja nas disputas estaduais. Trabalharemos para atrair o voto da base social e do eleitorado influenciado pela direita, ao mesmo tempo que priorizamos manter o voto dos setores populares, das mulheres, dos negros e negras, dos moradores das periferias, da juventude trabalhadora, setores que decidiram a eleição em 2022 e voltarão a decidir em 2026.

9.Hoje Lula lidera as pesquisas. Mas a eleição presidencial não está decidida e será preciso um imenso esforço para vencer. Precisamos vencer com uma vantagem significativa de votos em relação ao segundo colocado; ampliando nossas bancadas parlamentares e o número de governadores de esquerda ou progressistas; com apoio popular mobilizado e organizado; e com um rumo estratégico nítido, que passa por uma campanha politizada e polarizada, apoiada na mobilização popular e na defesa de um programa de reformas estruturais. Fazendo isso, venceremos em condições não apenas de fazer um mandato superior ao atual, mas também chegaremos em 2030 em condições de seguir governando o Brasil.

10.Na atual conjuntura mundial, continental e nacional, a eleição presidencial no Brasil adquire um significado transcendental. Um governo de esquerda no Brasil é um ponto de apoio para a luta por outra ordem mundial e por uma integração regional latino-americano e caribenha. Ao mesmo tempo, a reeleição de Lula constitui uma pré-condição para que possamos implementar reformas que mudem o Brasil e que mudem o lugar do Brasil no mundo. Mas para que tudo isso seja possível, é imprescindível reafirmar nossos compromissos ideológicos socialistas e fortalecer organizativa e ideologicamente a classe trabalhadora e nossas organizações coletivas, com destaque para o Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras.

Viva os 46 anos do PT!
Viva a classe trabalhadora!
 Viva o povo brasileiro!

Salvador, 6 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Esqueceram de combinar com Quaquá

executiva nacional do PT decidiu instalar uma comissão especial para analisar os 4 pedidos de comissão de ética contra Quaquá.

Foi uma decisão inusitada. O normal seria aprovar ou rejeitar a admissibilidade dos 4 pedidos. Foi o que defendeu uma única integrante da CEN. O restante da instância escolheu o inusitado.

Se entendi direito, o motivo seria preservar o Partido do desgaste. Mas esqueceram de combinar com Quaquá.

Logo depois da reunião da CEN, apareceu um quinto pedido, feito por alguém que Quaquá atacou em um vídeo difundido em suas redes.

Mas não parou por aí. A imprensa teve acesso a composição de tal comissão, noticiou e foi atrás de Quaquá, que respondeu como é do seu feitio educado e polido, como pode ser visto aqui: 

Moral da história, na minha opinião: ou o Partido pune Quaquá ou ele seguirá escalando, até que um dia tropece nos seus próprios feitos. Mas se for essa a alternativa, pagaremos um preço alto por não ter feito nada enquanto era tempo.

Recordando Fevereiro

Certas pessoas têm memória curta. Esquecem até o que elas próprias pensam e escreveram recentemente.

Essa característica parece ter sido acentuada pelas redes sociais. É o caso, pelo visto, do José Luís Fevereiro, que se faz desentendido e chega ao ponto de dizer que “não entendi bem no que ele [Valter] discorda do que escrevi”.

No espírito de ajudar Fevereiro, reproduzo abaixo um artigo de 2024. Quem não tiver coisa melhor para fazer, leia. Antes, uma explicação: tem coisas que faço por obrigação. Outras por esporte. É o caso de acompanhar as piruetas, malabarismos e contradições - especialmente na política internacional - de quem já foi petista e saiu à busca de construir algo melhor. Melhor antídoto quase não há.


Venezuela: a preguiça de José Luís Fevereiro

José Luís Fevereiro escreveu e Outras Palavras publicou um artigo intitulado “Venezuela: a geopolítica do século XXI é outra”.

O artigo pode ser lido aqui: 

https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/venezuela-a-geopolitica-do-seculo-xxi-e-outra/

Fevereiro diz que “o anti-imperialismo de botequim” atribui aos EUA “objetivos estratégicos que tiveram razoável atualidade ali pelos anos 50 a 70 do século passado. Conflitos eminentemente regionais são apresentados como fomentados pelos interesses estadunidenses, quando de fato os objetivos da política externa norte-americana passam longe”.

Ainda segundo Fevereiro, o "grande conflito geopolítico contemporâneo contrapõe os EUA à China. E não está centrado no petróleo, nas terras raras, no lítio, ou em qualquer outro aspecto secundário. Está basicamente em dois pontos.Um deles é a disputa por hegemonia em Inteligência Artificial (...) Mas o principal terreno da disputa será o desafio à hegemonia do dólar como moeda de referência e de reserva internacional". 

Mesmo sendo uma tolice tratar terras raras, lítio e petróleo como "aspecto secundário", Fevereiro acerta ao dizer que o "grande conflito" opõe EUA e China, assim como é correto dizer que os "dois pontos" principais do conflito são, neste momento, a Inteligência Artificial e o dólar.

Mas Fevereiro está também errado, pelo seguinte: das afirmações corretas supracitadas não decorre que os outros conflitos sejam “absolutamente locais” ou “regionais”; ademais, os conflitos não precisam ser "fomentados" pelos EUA, para que pesem na balança de sua disputa contra a China.

Dito de outro jeito: a guerra entre Rússia e Ucrânia, o genocídio de Israel contra a Palestina e o resultado das eleições na Venezuela são parte integrante do grande conflito entre China e EUA.

Aliás, China e EUA sabem perfeitamente disso e agem em conformidade. E não me parece que os estrategistas de ambas potências possam ser tratados como de "botequim" ou "preguiçosos".

Ao tentar minimizar, relativizar ou negar a relevância geopolítica global da guerra na Ucrânia, do genocídio em Gaza e da operação contra a Venezuela, Fevereiro produz raciocínios constrangedores, para dizer o mínimo. 

Por exemplo, sobre a Ucrânia: "A guerra na Ucrânia tem raízes fundas em questões absolutamente locais" (...) “Localizar ali interesses estratégicos norte-americanos, para além dos compromissos pré-existentes com a OTAN, é um erro”.

“Erro” é minimizar a importância que a  OTAN e o monopólio do ataque preventivo têm para os EUA. "Erro" é não compreender o problema estratégico posto, para os EUA, pela crescente aproximação entre Rússia e China. Aliás, como  lidar com esta aliança é uma das muitas questões que separam as políticas externas de Trump e Kamala.

Outro exemplo, sobre Gaza: “O conflito em Gaza é um conflito regional” (...) "A direita israelense (...) é visceralmente contrária a existência de um Estado palestino. Esse não é o objetivo dos EUA na região. A localização dos objetivos norte-americanos está nos acordos de Camp David entre Israel e Egito e nos acordos de Oslo na década de 1990, visando a constituição de um Estado palestino”.

(Tomo nota da maneira com que Fevereiro se refere ao "conflito em Gaza".)

Os acordos de Oslo são de 1993. Trinta anos depois, é preciso muita fé nas palavras e pouca atenção aos atos para seguir dizendo que a "localização dos objetivos" (sic") dos EUA visa "a constituição de um Estado palestino". 

Claro, para alguns é mais cômodo seguir acreditando que "o alinhamento quase incondicional dos EUA com Israel tem muito mais a ver com questões da política interna norte-americana que com objetivos estratégicos". Os presidentes gringos, coitadinhos, passaram os últimos trinta anos querendo fazer outra coisa, mas não conseguiram e isso por razões fundamentalmente paroquiais.

Seja como for, alguém duvida que o "conflito regional" de Gaza e o conflito com "raízes fundas em questões absolutamente locais" da Ucrânia têm, ambos, potencial para se converter em algo muito maior, mesmo que não seja esta a intenção original dos envolvidos?

(Fico pensando o que diria Fevereiro, vivo fosse, sobre o assassinato dos "turistas" Francisco e Sofia, no dia 28 de junho de 1914, em Sarajevo.)

Terceiro exemplo, sobre a Venezuela: "o governo Biden foi às negociações em Barbados por conta da crise migratória venezuelana (...) Interessava aos EUA normalizar suas relações com a Venezuela e eliminar as sanções, origem principal da crise econômica e da onda migratória venezuelana. Não, não é o petróleo". 

Barbados à parte, o fato é que - no que diz respeito aos governo Chavez e Maduro - o tema central não é e nunca foi o petróleo, tomado isoladamente. Aliás, qual era mesmo o motivo "econômico" para o engajamento dos Estados Unidos em El Salvador ou Nicarágua? E noutros países do Caribe, América Central e América do Sul? Granada e República Dominicana foram atacadas por alguma motivação econômica relevante?

O tema, na imensa maioria dos casos, foi o "lugar" do pateo trasero no conjunto da estratégia estadounidense. O pretexto imediato pode ter sido esse ou aquele, mas a motivação geral era geralmente mais ampla. Foi assim na época do conflito com a URSS e segue sendo assim na época do conflito com a China. Nem tudo é sobre o dólar, nem tudo é sobre a Inteligência Artificial, mas quase tudo vai sendo enquadrado e vai incidindo na disputa global, que tem como pólos principais a China e os EUA.

O fato de não ter como motivação imediata o petróleo, não converte motivações imperialistas em democráticas, não faz a ingerência se tornar aceitável.

(Tomo nota da afirmação de Fevereiro segundo a qual "em dez anos, o petróleo já estará em acelerada redução na matriz energética global, e em 20 ou 30 anos será apenas um insumo para a indústria petroquímica sem relevância como combustível".)

Fevereiro termina seu texto lembrando que "foram necessárias duas guerras mundiais para que a Inglaterra visse a libra esterlina perder essa hegemonia para o dólar".  E complementa: "A China não tem pressa (perdoem a tautologia). Devagar e persistentemente vai construindo essas condições. Espero que essa transição não pressuponha um nova guerra mundial. O que fazer e como se localizar nesse conflito é o debate a ser feito pela esquerda. Os mais preguiçosos preferem seguir pensando a geopolítica a partir do petróleo".

Realmente, o debate sobre o conflito China e EUA é central, com destaque para o tema da IA e do dólar. 

Também é real que tem muita gente preguiçosa na esquerda. As vezes a preguiça leva a adotar fórmulas velhas para tratar de situações novas.  As vezes a preguiça leva a achar pretextos para minimizar a centralidade de questões que dão certo trabalho, como é o caso da Venezuela, de Gaza e da Ucrânia. E as vezes a preguiça faz colocar uma maquiagem de esquerda em argumentos made in USA.


ps.em 1995, Fevereiro era militante da tendência petista Articulação de Esquerda. No encontro nacional que o PT fez em Guarapari, a AE decidiu voltar em Hamilton Pereira para presidente nacional e construir uma chapa com toda a esquerda petista. José Luís Fevereiro defendia outra tática, que implicaria votar em Zé Dirceu para presidente nacional do PT. Ao final da reunião em que tomamos nossa posição, ele anunciou que a respeitaria - uma vez que ele era delegado nato, por ser da CEN. Mas avisou que em seguida sairia da AE. Portanto, em 1995 Fevereiro saiu da AE "pela direita" (do meu ponto de vista, obviamente). O mundo girou e Fevereiro foi parar no PSOL, em circunstâncias que não acompanhei ou pelo menos não recordo. Agora, o vejo defender posições sobre a Venezuela que o colocam à direita da AE e do PT, Dirceu inclusive. Realmente, não será de tédio (nem de preguiça) que morreremos.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Fevereiro e a "relação de forças"

Hoje o José Luís Fevereiro enviou no meu "zap" um "post" que ele publicou em sua conta no "face".

O tal post diz o seguinte: “POLÍTICA EXTERNA E PROJEÇÃO DE VIRTUDE. Tem muita gente por todos os partidos da esquerda que acha que a política externa se faz apenas com imperativos morais e projeção de virtude. A relação de forças não existe, é apenas a desculpa dos traidores. É um mundo religioso onde a esquerda se divide em bons e maus. Nas relações internacionais essa postura não serviria para nada, mas coloca seus defensores na sua zona de conforto.”

Agradeço a gentileza de Fevereiro, de me enviar seu texto. Busco retribuir com os comentários a seguir.

De fato, a política em geral e a política externa em particular não se fazem "apenas" com "imperativos morais e projeção de virtude".

Aliás, especificamente na política externa o papel da "moral" e da "virtude" chega a ser "marginal", de tão reduzido.

Entretanto, embora concorde com a tese de Fevereiro, registro que ela serve para encobrir todo tipo de oportunismo.

Vou dar um exemplo: um debate que tivemos no Diretório Nacional (DN) do PT, na época do Lula 1.

Naquela época, o Fevereiro não era mais do PT, tinha saído para o PSOL, se lembro bem por considerar que os setores hegemônicos do PT usavam a "relação de forças" como pretexto para fazer concessões que ele então considerava inaceitáveis (mas posso estar lembrando errado).

Voltando ao exemplo: estávamos no DN debatendo a taxa de juros do Banco Central, na época do Meirelles.

Um certo dirigente do PT, economista conhecido e integrante do atual governo, fez uma defesa quase entusiasmada da correção da então elevada taxa de juros, baseado na premissa da correlação de forças, que supostamente não permitiria nada diferente.

Eu respondi que concordava com a premissa - a correlação de forças não era favorável - só não entendia por qual motivo daquela premissa decorria aquela específica taxa de juros. E insisti que mesmo aceita a premissa, havia margem de manobra para uma taxa de juros menor.

O célebre economista não respondeu nada, talvez porque não houvesse o que responder.

Pois bem: a "relação de forças" internacional é hoje muito ruim, mas isso não significa que nossa margem de manobra seja zero. E se temos alguma margem de manobra, ela deve ser usada. Inclusive porque se não fizermos isso, a margem de manobra tende a piorar.

Por exemplo: Cuba. Se não fizermos nada, se assistirmos impassíveis Cuba ser sufocada, a situação política externa e interna vai piorar. Ou alguém acha que um eventual colapso na Ilha não vai ser um ativo eleitoral importante para a extrema-direita brasileira?

Portanto, há razões pragmáticas, inclusive eleitorais, para fazermos algo prático: enviar petróleo para Cuba. Isso, como é óbvio, vai gerar tensões com os Estados Unidos. Além disso, a ajuda pode ser interceptada. Mas mesmo nesse caso, será melhor fazer algo, mesmo que não dê certo, do que não fazer nada.

Portanto, socorrer Cuba não é "apenas" um "imperativo moral e projeção de virtude". É também uma necessidade política e pragmática.

Aliás, chega a ser paradoxal ver a mesma pessoa ironizar os que tratam a política como "mundo religioso onde a esquerda se divide em bons e maus" e, ao mesmo tempo, atacar os "ratos que rugem".

Como já disse noutro texto, o Brasil, o governo Lula e a esquerda brasileira não são "ratos". Até por isso, não entendo por que estaríamos proibidos de vez ou outra darmos pelo menos uns "rugidinhos". Nem entendo porque deveríamos esquecer que, em alguns momentos da história, qualquer que seja a correlação de força, temos obrigações "morais" a cumprir.

Mas, claro, não preciso falar disso a quem já foi do PT e saiu buscando construir algo menos sujeito aos imperativos da “correlação de forças”. Ou será preciso?