sábado, 17 de outubro de 2026

A entrevista do Cavernícola Filho

SEM REVISÃO

Para quem não assistiu, faço abaixo um resumo comentado da entrevista que o Cavernícola Filho concedeu, na sexta-feira, dia 16 de outubro de 2026, à Renata Lo Prete, da Globo.

Mas antes do resumo, uma síntese.

Candidato de direita mente, candidato de extrema direita mente muito, mas o Cavernícola é mais um da Famiglia a precisar, urgente, de acompanhamento especializado.

O Miliciano Honorário usou e abusou da entrevista para atacar pesadamente Lula, bem diferente do que fez Lula na sua respectiva entrevista, realizada no dia anterior.

A entrevista com o Cavernícola, se não foi arranjada, pareceu ter sido. Várias perguntas foram formuladas de forma pueril, levantando a bola para o Cavernícola cortar. E outras perguntas não entraram, como por exemplo a relação com os Estados  Unidos. 

Em diversas questões, o Traidor da Pátria respondeu de forma descaradamente oportunista e pragmática. É o caso da escala 6x1. Seu voto foi favor foi puro oportunismo, assim como sua posição sobre os cortes de gastos e suas promessas em direção aos pobres. Motivos pelo quais só a eleição de Lula pode garantir a sobrevivência de muitas de nossas políticas públicas.

Em algumas questões, como aquela sobre raspar a identificação das capsulas de bala, o Cavernícola se revelou de corpo inteiro. Sua vitória seria não apenas uma vitória dos EUA e dos ultraliberais, mas também uma vitória do crime organizado.

Seguem meus comentários. 

O início da entrevista pareceu combinado. 

A entrevistadora fez três perguntas "bem objetivas", o entrevistado respondeu laconicamente e, imediatamente, a entrevistadora perguntou se poderia "ir para a próxima".

As perguntas e as respostas foram, respectivamente:

"O senhor vai manter os reajustes do salário mínimo acima da inflação?"

Resposta: "Sim".

"O senhor vai desvincular o percentual de reajuste do mínimo, daquele usado para corrigir o valor das aposentadorias?"

Resposta "Não."

"O senhor pretende mudar a Constituição, para eliminar os pisos de gastos com saúde e educação?"

Resposta: "Também não."

Em seguida o Cavernícola Filho acusou o "concorrente" de promover "terrorismo". 

E disse que o maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer "é tirar o Lula", que seria "o maior problema para o desencontro de contas".

Para sustentar esta tese exdrúxula, o Cavernícola Filho apelou para a taxa de juros, que teria crescido 7 pontos percentuais, resultando em 1 trilhão de dívida adicional desde o final do governo do Cavernícola Pai.

Renata Lo Prete insistiu que "sem mexer" nas aposentadorias e nos pisos, não haveria como atingir os 200 bilhões de reais de ajuste que a campanha do Cavernícola Filho tem prometido.

O Cavernícola Filho disse que a solução estaria em atacar despesas e em criar receitas novas. 

Prometeu cortar 10 ministérios, atacar a corrupção e a má gestão das estatais, securitizar os imóveis e a dívida ativa da União, bem como utilizar os recursos do petróleo da Margem Equatorial.

E, como cereja no bolo, prometeu utilizar a Inteligência Artificial na gestão.

Excessivamente educada, Renata Lo Prete voltou a dizer que as contas só fecham, ou seja, só daria para cortar 200 bilhões, se o Cavernícola Filho atacar as aposentadoras e os pisos constitucionais.

E passou imediatamente para o tema da escala 6x1.

Renata Lo Prete lembrou que o Cavernícola foi desde o início contrário a proposta do governo Lula, de acabar com a escala 6x1, mas mudou de posição e votou a favor. E pediu ao Cavernícola Filho que explicasse essa mudança de posição.

Antes de responder, o Cavernícola Filho prometeu que não vai fazer economia "às custas das pessoas que mais precisam" e prometeu que não vai atacar os servidores públicos.

Depois, cobrado pela jornalista, o Cavernícola Filho disse que é a favor da "liberdade", sendo esse um dos motivos pelo qual ele defenderia o fim da escala 6x1 e sua substituição por outra.

Que outra seria? O Cavernícola não entrou em detalhes, mas o que ele defende é a proposta do senador Marinho, explicada aqui: Valter Pomar: Para O Globo, lutar contra a escravidão seria "oportunismo"

O Cavernícola Filho estruturou sua resposta em torno de uma mãe hipotética, para quem ele prometeu voucher para conseguir vaga em creches privadas. Tudo demagogia, mas é sintomática a preocupação em demonstrar empatia com a situação das mulheres mães solo.

Cobrando pela jornalista, o Cavernícola disse que votou a favor porque resolveu seguir a vontade da maioria dos trabalhadores brasileiros, favoráveis ao fim da escala 6x1.

A isso o Cavernícola acrescentou uma tripla promessa a seguir: vai não apenas garantir o dia de folga a mais, mas também vai devolver o poder de compra do trabalhador e, também, devolver a segurança para que todos possam andar com segurança no seu dia a mais de folga.

Novamente trata-se de demagogia e hipocrisia, mas que revelam que o Cavernícola Filho está na defensiva, tendo que fazer promessas para os trabalhadores.

Renata Lo Prete perguntou se, caso eleito, o Cavernícola vai se empenhar em reverter o fim da escala 6x1.

Novamente, o Cavernícola respondeu que, "da minha parte", não fará "nenhum questionamento em relação a isso". Mas disse também que cada um pode ter sua opinião pessoal, ou seja, a turma do PL vai continuar defendendo o projeto do senador Marinho.

Em seguida, Renata Lo Prete mudou de assunto e passou a perguntar sobre o tamanho do mandato presidencial.

O Cavernícola Filho disse que, independente do que o Congresso decida sobre o tema da reeleição, ele - caso eleito - abriria mão de disputar um segundo mandato.

O motivo de tanto desprendimento é óbvio: trata-se de tentar conseguir o apoio dos setores da direita que temem que a Famiglia busque perpetuar-se indefinidamente na presidência.

Nesse contexto, como em vários outros da entrevista, o Cavernícola disparou ataques contra o presidente Lula, com o objetivo óbvio de gerar "cortes" lacradores para usar nas redes sociais e no horário eleitoral gratuito.

Vale dizer que Lula, na entrevista concedida a Renata Lo Prete, praticamente não fez isso.

Uma das frases lacradoras do Cavernícola foi dizer que ele não estaria disputando o poder, mas sim o "futuro da Nação". E prometeu que o centro do suposto governo dele seria "defender o trabalhador".

É sintomático que os fascistas digam isso, enquanto alguns setores da campanha Lula se preocupem em buscar os setores médios, os setores de centro e outras quimeras do gênero.

Nesse contexto, o Cavernícola afirmou que o trabalhador estaria perdendo a soberania sobre seu celular, sobre sua bolsa, sobre sua casa, sobre sua família.

Neste ponto, como em outras passagens da entrevista, Renata Lo Prete "levantou a bola" para o Cavernícola "cortar", dando a deixa para ele falar que sua proposta de emenda constitucional acaba com a reeleição para presidente da República, não inclui aumentar seu suposto mandato, além de vetar o direito de parentes de até terceiro grau poderem disputar.

Novamente, o que está em jogo é tentar seduzir os setores da direita que temem que a Famiglia tente se perpetuar na Presidência. O Cavernícola foi explícito: isso tudo seria para, supostamente, demonstrar que ele teria "desapego ao poder". Que ele ser presidente seria "um projeto de Deus". E que na direita haveria vários nomes para dar continuidade a seu "projeto de Nação".

Neste momento, Renata Lo Prete introduziu o tema da reforma do judiciário. O Cavernícola aproveitou para falar que o Judiciário tem que contribuir para o ajuste fiscal. E atacou Alexandre de Moraes e outros ministros do STF.

Renata Lo Prete perguntou como fica a situação do ministro Kássio Nunes Marques, envolvido com Daniel Vorcaro. O Cavernícola disse que todo mundo tem que estar abaixo da lei. E falou da obrigação do Senado Federal iniciar o processo de impeachment contra alguns ministros. E voltou a atacar Alexandre de Moraes.

Renata Lo Prete fez um reparo quase incompreensível e passou a tratar do financiamento do filme Dark Horse. Neste ponto, o Cavernícola interrompeu e corrigiu algumas vezes a jornalista. A jornalista fez uma pergunta quase cândida: "se não há nada a esconder, porque não trabalhar para que essas informações cheguem ao conhecimento do eleitor?"

Obviamente o Cavernícola respondeu que as informações "já vieram a público". E aproveitou a deixa para atacar, diferenciando o que seria um patrocínio privado para um filme privado (uma "obra prima"), o que seria bem diferente da suposta relação de Vorcaro com o concorrente, tomando como base um áudio gravado, na prisão, pelo banqueiro ladrão.

Depois do Cavernícola atacar diretamente Lula, Renata Lo Prete explicou que tem procurado "pautar as entrevistas com base em fatos estabelecidos, respaldados em investigações de órgãos competentes ou investigações jornalísticas". E "sugeriu" que o tal áudio gravado na cadeia, com acusações contra Lula, não seria um "terreno firme para pisar". E voltou a falar do filme Dark Horse, questionando a diferença entre o valor do filme e o valor que o Cavernícola pediu para Vorcaro.

O Cavernícola deu uma explicação que não consegui entender, mas engatou na explicação três comentários: um sobre o dinheiro que o Master passou para o programa do Luciano Huck, outro sobre a exoneração de um diretor da Globo, por motivos também relacionados ao Master e Vorcaro e um terceiro atacando Vacari e o Instituto Lula.

Nesse momento, Renata Lo Prete saiu em defesa da Globo, explicando o ponto de vista da Vênus Platinada, com uma firmeza que faltou em outros momentos da entrevista. E fez mais uma pergunta: por qual motivo o Cavernícola foi pedir um patrocínio justo na empresa de Vorcaro?

Novamente, o Cavernícola respondeu o óbvio: que teria falado com vários investidores, que Vorcaro topou fazer, numa época em que ele não teria "nada de errado". 

Que essa época nunca existiu, todo mundo sabe, inclusive a Globo. Mas como dinheiro não tem cheiro, a entrevistadora preferiu não seguir adiante no questionamento. Já o Cavernícola aproveitou para fazer novo ataque, desta vez contra Vaccari, que é apresentado como sendo "quem toca o Instituto Lula", informação totalmente falsa.

A entrevistadora novamente explicou os critérios da Globo, numa tentativa de não se comprometer com as barbaridades ditas pelo Cavernícola. Mas, cá entre nós, não há compromisso maior do que o almoço entre o Cavernícola e a cúpula das Organizações Globo, ocorrido antes da entrevista.

Em seguida, Renata Lo Prete passou a tratar da Polícia Federal. Perguntou se o Cavernícola Filho se "sente a vontade de cobrar uma atitude republicana nessa matéria", considerando que o Cavernícola Pai demitiu seu ministro da Justiça, para evitar que tivessem prosseguimento as investigações contra sua Famiglia.

Traduzindo, Lo Prete perguntou a um criminoso se ele se sente a vontade, ao ter que mentir para cometer seus crimes. E foi isso que o Cavernícola filho fez: respondeu com novas mentiras descaradas, além de lembrar que hoje Sérgio Moro é um aliado da Famiglia. 

Lo Prete passou, em seguida, a tentativa de anular a condenação do Cavernícola Pai e perguntou se o presidiário, caso solto, terá cargo no suposto governo do Filho. 

Nesse ponto, o Filho atacou, com riqueza de detalhes, a "farsa" que teria condenado seu pai, negando que tenha havido tentativa de golpe.

O Filho disse, também, que se eleito presidente da República, seu pai será "o povo brasileiro". E agregou que o Pai nunca tratou de cargo e nunca disse que gostaria de trabalhar no governo, logo este assunto não está no radar.

A resposta é curiosa, por três motivos. Primeiro, porque o Filho não negou a possibilidade do Pai vir a assumir um cargo no seu hipotético governo. Segundo, porque o Filho deixou claro que uma decisão a respeito caberá ao Pai. Terceiro, porque não foi perguntado - pela jornalista da Globo - se, caso eleito presidente, o Filho usaria os poderes previstos em lei para soltar o Pai.

Na sequência, Lo Prete perguntou se o Cavernícola Filho poderia vir a nomear seu irmão, aquele pobre "sacrificado" que reside numa mansão que fica na Flórida, para o cargo de Chanceler. Neste caso, o Filho disse que o Irmão não será Chanceler, aproveitando para voltar a atacar Alexandre de Moraes.

O assunto seguinte foram as Forças Armadas. Lo Prete perguntou se, eleito, o Cavernícola Filho vai exigir dos comandantes das Armas que endossem a visão cavernícola sobre a transição de 2022 e sobre os eventos de janeiro de 2023.

O Cavernícola foi para cima, dizendo que tudo aquilo foi "armada para tirar o Pai da vida pública", mas que a "farsa" não acabou com o bolsonarismo, uma vez que o Cavernícola Filho, em nome de Jesus, vai ser - supostamente - o próximo presidente da República".

Em seguida, o Cavernícola Filho disse que, no seu suposto governo, o papel das Forças Armadas será tomar conta das fronteiras. Mas, logo depois, disse que, a partir de janeiro de 2027, vai declarar guerra ao narcotráfico, tratando Comando Vermelho, PCC e Mílícias como "organizações narcoterroristas". Acrescentou que a Marinha vai ser chamada a fazer papel de polícia no Porto de Santos. E disse que o Brasil fará parte do Escudo das Américas. Acrescentou mentiras sobre o suposto "sucateamento" das Forças Armadas durante os governos petistas. E reafirmou que as FFAA vão cooperar em questões de segurança pública com as polícias estaduais.

Esse foi o momento mais Gotham City da entrevista: um Miliciano honorário criticando as Mílícias.

Renata Lo Prete não tocou no assunto e voltou ao tema da intentona golpistas, perguntando outra obviedade: "o senhor considera que pessoas que fazem" o que foi feito no dia 8 de janeiro de 2023 "devem ser punidas de que forma".

A resposta, óbvia, foi: "dentro da Lei". E engatou novo ataque contra Lula, acusando o presidente de se vingar "dos motoboys de São Paulo" e do prefeito Ricardo Nunes. Lo Prete pediu que o Cavernícola respondesse à pergunta, mas recebeu de volta outra lacração sem nexo: "quem está depredando o Brasil é o Lula".

A última pergunta do primeiro bloco da entrevista foi: "se o senhor perder, o senhor vai respeitar o resultado das urnas?" 

A resposta foi a óbvia - "sim" - e veio acompanhada de uma série de sandices, entre as quais responsabilizar o governo Lula pela violência contra as mulheres e pelas queimadas na Amazonia, além de dizer que o Brasil estaria sem presidente.

No segundo e último bloco da entrevista, Renata Lo Prete perguntou sobre armas, especificamente sobre um projeto que retiraria a marcação das capsulas de balas compradas pelas forças de segurança. 

Foi um dos momentos mais constrangedores da entrevista. O Cavernícola tergiversou, Renata Lo Prete insistiu: "em que retirar a marcação das capsulas das balas ajudaria a combater o crime organizado e combater os bandidos?" 

Novamente o Cavernícola tergiversou, falou da PEC da Segurança Pública e prometeu dureza penal, dizendo que isto tudo seria muito maior do que qualquer "detalhezinho" como este das cápsulas.

A coisa foi tão constrangedora que Renata Lo Prete disse ter entendido que ficou sem resposta. Mas a resposta existe: com a proposta de retirar a marcação das capsulas de balas, o Miliciano Honorário está fazendo jus a seu título e protegendo seus amigos.

Lo Prete insistiu no tema das armadas, citando pesquisas que mostram que a maioria do povo defende limitar o acesso às armas. O Cavernícola Filho defendeu a política de liberação de armas e mudanças no Estatuto do Desarmamento. E engatou novo ataque contra o presidente Lula, neste caso acerca da demora em reajustar o Bolsa Família.

Quase no final, Lo Prete falou sobre a prisão de Márcio Canela, deputado estadual eleito. Falou, também, de Rodrigo Bacelar e Cláudio Castro. "Essas relevações com políticos com os quais o senhor conviveu de perto, surpreenderam o senhor?"

Novamente, a resposta foi óbvia: "Surpreenderam." E acrescentou que espera que todos provem sua inocência, mas disse que "não tem que passar a mão na cabeça de ninguém, não".

Lo Prete perguntou sobre Saúde, levantando a bola para o Cavernícola Filho prometer que, caso eleito, daria autonomia total para um futuro ministro tomar as medidas necessárias numa situação de emergência. E acrescentou a promessa do SUS ter padrão Einstein.

Nas considerações finais, o Cavernícola Filho disse que "a Era Lula vai chegar ao fim". E assumiu três compromissos: 1/nunca prometer aquilo que não vai conseguir cumprir e entregar; 2/devolver o poder de compra das pessoas; 3/devolver a segurança.

SEM REVISÃO

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O "exército" de Janones

Que nossa campanha no primeiro turno foi cheia de problemas, acho que ninguém discorda.

Que parcela importante desses problemas está relacionado ao péssimo funcionamento das direções e coordenações, quero crer que pouca gente discorda.

Nem todo mundo assumirá de público, mas a maioria provavelmente concordará em silêncio, com o fato de que parte deste péssimo funcionamento das direções e coordenações decorre da substituição do método das decisões coletivas - tomadas por instâncias eleitas que reúnem, debatem e depois deliberam - pelo método das decisões individuais. 

Pois bem: entramos no segundo turno, mas este erro metodológico segue sendo cometido. 

Um exemplo disso é o autodenominado "exército do Janones". 

Uma pessoa física reuniu, sob seu comando individual, sem controle coletivo algum, uma legião de 3 a 5 milhões de seguidores.

Conseguiu isso, em grande medida, exatamente porque havia milhões de pessoas querendo contribuir com a campanha e ele, habilmente, ofereceu um canal para isso.

Num mundo ideal, onde as instâncias coletivas funcionassem adequadamente, essas pessoas estariam engajadas numa iniciativa sob controle democrático delas mesmas. E não sob a direção de alguém que propõe explicitamente não pensar, obedecer, agir como robô. 

Alguém que por sinal cometeu a estupidez de dizer que a campanha nas ruas não tinha a menor importância, para mais recentemente admitir de maneira torta (via a proposta de "panelaço") que é fundamental agir fora das redes.

Para piorar a situação, muita gente acha que o tal "exército" está submetido a algum tipo de controle democrático. Pensam que fulano validou, que sicrano controla, que o autoproclamado "general" é o porta-voz informal de decisões coletivas.

Como a coordenação da campanha e a direção do Partido pelo jeito preferiram lavar as mãos, o jeito é torcer para que dê certo ou, pelo menos, que não cause muito dano. 

Mas a experiência pretérita com este tipo de iniciativa, sem nenhum tipo controle coletivo, é que, se ainda não deu errado, é porque ainda não terminou.

Santo Leminski, orai por nós.







Panelar ou não panelar, eis a questão!

Um dilema percorre milhares de grupos de zap e quetais, nesta sexta-feira, 16 de outubro: bater ou não bater panela?

O bom senso já seria o suficiente para perceber que bater panela seria chamar atenção para a entrevista do inimigo.

Sem falar noutros efeitos colaterais e interpretações dissonantes do ato de bater panelas.

Mesmo assim muita gente se perguntou: panelar ou não?

O incrível é que ninguém sabe ao certo de onde saiu a ideia, mostrando o lado B e os limites de uma linda campanha de massas, mas com uma direção pouco presente e menos reconhecida ainda.

O problema não se limita às redes. No “mundo não-virtual”, numa importante capital do país, um ato de rua está sendo convocado, para um local de alta visibilidade, mas não se sabe exatamente por quem.

Frente a isso, a direção formal fica no dilema de validar ou não algo sobre o quê não tem a menor governabilidade. E que pode ser tanto um sucesso, quanto um fracasso ou até mesmo palco de uma provocação.

Isso para não falar do exemplo mais vistoso de certa iniciativa que correu por fora, engajando milhões de pessoas que estão buscando ajudar de alguma forma, mas cujo modus operandi gera crescentes preocupações - em quem conhece o “general” envolvido - acerca do que será o day after.

Enfim, são as dores e as delícias de uma campanha que cometeu todos os erros possíveis no primeiro turno e agora está caminhando para vencer, em grande medida porque dezenas de milhões de trabalhadores e trabalhadoras decidiram que não podemos e não vamos perder.

E ainda bem que decidiram assim, pois se dependesse do entusiasmo e capacidade dirigente de certos próceres, estaríamos lascados.

Que falta nos faz, numa hora dessas, o genial Paulo Leminski, autor do insuperável “distraídos venceremos!”






Para O Globo, lutar contra a escravidão seria "oportunismo"

No dia 14 de outubro, o jornal O Globo publicou um editorial questionando a votação da PEC que acabava com a chamada escala 6x1.

O referido editorial é uma aula didática acerca de como pensa parte importante da classe dominante brasileira.

Ao final, copio e colo a íntegra do referido editorial.

A seguir, comento frase a frase.

O título e o subtítulo do editorial é: "Votar PEC da Escala 6x1 é oportunismo. Se aprovada, mudança levada ao Senado a 11 dias do 2º turno terá efeitos perniciosos para economia".

Não é a primeira vez que O Globo se contrapõe a medidas legislativas favoráveis à classe trabalhadora.

Em 1962, por exemplo, uma manchete do jornal O Globo dizia o seguinte: “Considerado desastroso para o país um 13º mês de salário”.

A sorte do Globo é que ele ainda não existia em 1888, quando ocorreu a abolição oficial da escravidão.

A Vênus Platinada considera "oportunismo" a "contaminação do tema por interesses eleitorais".

Noutras palavras, não acha de bom tom pressionar o Congresso em favor dos interesses populares, porque isso supostamente impediria "um debate equilibrado sobre o impacto nefasto da proposta na economia".

Na verdade, não há e nunca houve "debate equilibrado" acerca da escala 6x1, acerca da jornada de trabalho e acerca dos demais temas de interesse do povo.

Afinal, para o debate ser "equilibrado", a classe trabalhadora precisaria pelo menos ter uma Rede Povo, para se contrapor a Rede Globo. E não temos.

Logo, é notável que - apesar da falta de equilíbrio - a maioria de direita do Congresso Nacional tenha sido obrigada a votar pelo fim da escala 6x1.

E se houve oportunismo na votação, não foi do governo Lula.

O governo Lula mostrou ter "senso de oportunidade".

"Oportunista" foi o Miliciano-Ultraliberal-Traidor da Pátria, que declarou publicamente ser um defensor da escala 6x1, mas apesar disso votou pelo fim da escala, com o único propósito de tentar salvar sua candidatura presidencial.

O editorial de O Globo considera que o fim da escala 6x1 e a redução da jornada terão "impacto nefasto" na economia. E reclama que, "na propaganda idílica do governo, os benefícios têm sido superestimados". 

Será mesmo?

Segundo o editorial, "não passa de fantasia imaginar que, com a mudança, o brasileiro terá mais tempo para descanso e lazer e que, num passe de mágica, a produtividade aumentará". 

O autor do editorial, malandramente, junta numa mesma oração duas questões diferentes, ainda que vinculadas.

Que fantasia haveria em dizer que, se a escala passar de 6x1 a 5x2, os trabalhadores que tinham 1, passarão a ter 2 dias de descanso?

Só haveria "fantasia", se o empresariado iniciar um processo de informalização e demissão em massa. 

Nas palavras do editorial: "O cenário mais provável seriam o aumento da informalidade e ondas de demissões para adequar a mão de obra às novas escalas". Ou, nas palavras de laureados "cientistas" citados pelo editorial, as "prováveis consequências" seriam a "queda do PIB, redução de renda per capita, fechamento de empresas e cortes de empregos formais", além da redução da "produção de riquezas em 2,9%".

É para tentar justificar esta intenção "nefasta" de setores do empresariado, que o editorialista do Globo mete na discussão o tema do "aumento da produtividade": trata-se de criar uma "narrativa" que sirva para "justificar" o que parte do empresariado pretende fazer.

Os empresários, coitados, terão que demitir. E, por isso, o descanso e o lazer não passarão de fantasia.

Tirante a ameaça, o que a experiência histórica demonstra?

Primeiro, que a redução da jornada de trabalho e o aumento dos salários são variáveis que contribuem para o aumento da produtividade, por diversos motivos, entre os quais um totalmente venal: frente à dificuldades para ampliar a jornada e reduzir os salários, o aumento da produtividade torna-se uma alternativa decisiva para o empresariado manter e aumentar sua taxa de lucro.

Segundo, entre as muitas variáveis que prejudicam o aumento da produtividade no Brasil - entre os quais a absurda taxa de juros, a redução dos investimentos públicos, as decorrentes debilidades na infraestrutura e nos investimentos em C&T e assim por diante - destaca-se a compulsão escravocrata da classe dominante; afinal, quanto menos se gasta em salários, menor o interesse em substituir trabalho vivo por máquinas e ciência aplicada.

O editorial do Globo diz que "numa economia saudável, o normal é primeiro aumentar a produtividade por meio de inovações tecnológicas ou avanços regulatórios, para depois distribuir tal ganho com a redução de jornada". 

Isto talvez seja o "normal" numa economia planificada. de tipo socialista, onde os avanços podem ser regulados. 

Numa economia capitalista, especialmente do tipo existente no Brasil, todo progresso social é obtido através de luta. Pois, se depender dos capitalistas, os ganhos com a redução da jornada (e ampliação dos salários, vale lembrar) nunca virão ou virão sempre de forma muito defasada.

Aliás, é exatamente isto o que ocorreu no Brasil, desde que a Constituição de 1988 reduziu a jornada de trabalho de 48 para 44 horas: a produtividade cresceu e a lucratividade cresceu muito mais, mas os ganhos da classe trabalhadora não vieram no mesmo ritmo, não vieram de forma homogênea e, no último período, o que tivermos foram retrocessos.

Vale ressaltar que o editorial do Globo é de um cinismo atroz. 

Vejam o que segue: "No Brasil, refém de atraso atávico e de um ambiente hostil aos negócios, o crescimento da produtividade tem sido pífio há décadas". 

Há décadas, aliás há mais de século, o Brasil tem uma classe dominante que se torna cada vez mais rica. 

Como isso seria possível, se houvesse um "ambiente hostil aos negócios"? 

A verdade é outra: o tipo de capitalismo que existe no Brasil deposita grande parte de sua lucratividade na superexploração da força de trabalho, mediante longas jornadas e baixos salários.

Se a produtividade cresce devagar, é em grande medida devido a esta opção preferencial pela superexploração. 

Neste sentido, ao contrário do que diz o editorial, reduzir a jornada e mudar a escala contribui mais para "estimular o espírito animal da produtividade", do que a postura escravocrata ainda predominante.

A aprovação da PEC vai elevar o custo das empresas? No curtíssimo prazo, sim. Por isso, aliás, é fundamental reduzir a taxa de juros e ampliar o investimento público em políticas de crescimento e desenvolvimento. Se fizermos isso, a conta fecha sem grandes dificuldades.

Portanto, é "pura fantasia" a ideia de que a "mudança na legislação" - tomada isoladamente - vai resolver os problemas sistêmicos da economia. Mas a mudança é um passo decisivo para que a solução destes problemas seja feita em favor da maioria do povo.

Por analogia: acabar com a escravidão não acabou com a economia agroexportadora. Mas manter a escravidão bloqueava a industrialização.

Aliás, por falar do tema escravização, o editorial do Globo termina reclamando que "a propaganda da PEC tem disseminado um preconceito injustificável contra os empresários. Ao longo da tramitação da proposta, a jornada 6x1 chegou a ser comparada à escravidão, enquanto empreendedores foram chamados de exploradores insensíveis. É uma injustiça, para dizer o mínimo, com quem gera emprego e faz a economia girar".

É difícil levar a sério essa demagogia, vinda de gente que exibe todo santo dia comportamento de senhor de engenho. 

Para ser sintético: quem faz a "economia girar" é a classe trabalhadora. 

E se algum empresário tem dúvida sincera acerca das condições de trabalho análogas a escravidão, recomenda-se que trabalhem um par de meses na escala 6x1, recebendo os salários oferecidos atualmente por quem "gera emprego". Depois conversamos. 

O editorial termina explicando por onde passa a reação dos caras: a defesa da proposta do senador Rogério Marinho (PL-RN) sobre trabalho flexível. 

Como é público, o Cavernícola candidato a presidente avisou o empresariado que - por oportunismo eleitoral - votaria a favor. Mas avisou também que, se fosse eleito, trabalharia para anular os efeitos da decisão do Congresso, exatamente através da proposta do senador do Partido Liberal, cujo sobrenome é o mesmo da família proprietária da Globo. 

A proposta do tal senador foi resumida por O Globo como segue: "Ela permite ao empregado ajustar sua jornada de acordo com a necessidade, optando entre a CLT ou um regime baseado em horas trabalhadas que garanta direitos como férias e décimo terceiro. O texto prevê compensação de horários e redução da jornada mediante acordo. O combinado em contrato individual prevaleceria sobre a negociação coletiva".

É o sonho dos caras: voltar às regras que prevaleciam nos primórdios do capitalismo europeu, quando o trabalhador negociava individualmente com o patrão, uma negociação totalmente desigual. 

Qual seria o efeito desta legislação uberizante proposta pelo chefe da campanha do Cavernícola? Certamente aumentaria a pobreza dos trabalhadores, aumentaria a riqueza dos empresários, mas não contribuiria para aumentar a produtividade.

Aliás, essa é uma dificuldade enfrentada, quando se discute economia política com os porta-vozes do grande empresariado capitalista brasileiro: eles usam e abusam de palavras como "produtividade", "responsabilidade fiscal" e "Estado de direito", mas o que eles querem dizer com isso é algo totalmente diferente. Onde se lê produtividade, leia-se exploração; onde se lê responsabilidade fiscal, leia-se especulação financeira; onde se lê Estado de direito, leia-se aos amigos tudo.

E quando o Miliciano falar de "mudança", leia-se retrocesso sem limites. 


SEGUE A ÍNTEGRA DO EDITORIAL COMENTADO

Votar PEC da Escala 6x1 é oportunismo

Se aprovada, mudança levada ao Senado a 11 dias do 2º turno terá efeitos perniciosos para economia

14/10/2026 00h10  Atualizado há 12 horas

É evidente o oportunismo do governo ao levar hoje, a menos de duas semanas do segundo turno, para votação no Senado a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6x1), reduzindo a jornada de 44 para 40 horas semanais. A contaminação do tema por interesses eleitorais tem impedido um debate equilibrado sobre o impacto nefasto da proposta na economia.

Na propaganda idílica do governo, os benefícios têm sido superestimados. Não passa de fantasia imaginar que, com a mudança, o brasileiro terá mais tempo para descanso e lazer e que, num passe de mágica, a produtividade aumentará. Numa economia saudável, o normal é primeiro aumentar a produtividade por meio de inovações tecnológicas ou avanços regulatórios, para depois distribuir tal ganho com a redução de jornada. No Brasil, refém de atraso atávico e de um ambiente hostil aos negócios, o crescimento da produtividade tem sido pífio há décadas — e nenhuma PEC terá o condão de resolver questão tão complexa apenas na base de slogans demagógicos e boas intenções.

A aprovação da PEC inexoravelmente elevaria o custo das empresas, que teriam de pagar o mesmo salário por menos horas trabalhadas. Ora, não é difícil perceber que a conta não fecha. O cenário mais provável seriam o aumento da informalidade e ondas de demissões para adequar a mão de obra às novas escalas. É pura fantasia a ideia de que a mudança na legislação geraria mais contratações.

A economia sofreria efeitos dramáticos. Estudo dos economistas Fernando de Holanda Barbosa Filho, Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), aponta como prováveis consequências queda do PIB, redução de renda per capita, fechamento de empresas e cortes de empregos formais. Segundo eles, a aprovação da PEC reduziria a produção de riquezas em 2,9%, com efeito idêntico na produtividade do trabalho.

Não bastassem os argumentos equivocados, a propaganda da PEC tem disseminado um preconceito injustificável contra os empresários. Ao longo da tramitação da proposta, a jornada 6x1 chegou a ser comparada à escravidão, enquanto empreendedores foram chamados de exploradores insensíveis. É uma injustiça, para dizer o mínimo, com quem gera emprego e faz a economia girar.

Em vez de votar a PEC de forma açodada, os senadores deveriam analisar a proposta alternativa do senador Rogério Marinho (PL-RN) sobre trabalho flexível. Ela permite ao empregado ajustar sua jornada de acordo com a necessidade, optando entre a CLT ou um regime baseado em horas trabalhadas que garanta direitos como férias e décimo terceiro. O texto prevê compensação de horários e redução da jornada mediante acordo. O combinado em contrato individual prevaleceria sobre a negociação coletiva.

Não se deve discutir uma proposta como a PEC às vésperas de um pleito em que os candidatos expressam divergências sobre o tema. Há alternativa sensata que deveria ser analisada com mais calma. E o debate está fora da realidade, escondendo os efeitos perniciosos da mudança. O Brasil precisa crescer, se desenvolver e gerar riquezas. O caminho para isso é aumentar a produtividade, e não diminuí-la.


A Globo na “hora da verdade”

Dia 15 a TV Globo entrevistou Lula. 

A jornalista Renata Lo Prete adotou, na entrevista, a tradicional postura institucional da emissora, a saber, “juíza acima do bem e do mal”. 

A mesma pose exibida pela dupla que, pouco antes da entrevista com Lula, anunciou no Jornal Nacional a demissão de um alto executivo da própria Globo, flagrado em conversas consideradas improprias com um anunciante chamado Vorcaro. 

O motivo da demissão, óbvio, é que ele foi flagrado. 

Aliás, se com um banqueirinho de merda a conversa rola naquele tom de chiqueiro, imagina como devem ter sido as conversas com um banqueirão, padrão Itaú ou Bradesco. 

Vale dizer, também, como  lembrou uma amiga, que a Globo é expert em autocríticas tardias e hipócritas.

Pano rápido. 

Hoje a Globo vai entrevistar o Traidor da Pátria. 

Veremos, então, quantos pesos e medidas tem o jornalismo da Globo. E, por tabela, confirmaremos qual a aposta que a Vênus Platinada está fazendo nesta reta final do segundo turno. 

Mas como as pessoas são inocentes até prova em contrário, aqui vão algumas sugestões de perguntas para a entrevistadora: 

“Candidato, caso seja eleito, o que o senhor fará para ressuscitar as vantagens que a escala 6x1 oferece para os empresários?” 

“Candidato, caso seja eleito, o senhor continuará protegendo e estimulando as milícias?” 

“Candidato, caso seja eleito, seu paizão e seu brother Vorcaro vão receber o perdão presidencial e sair da cadeia?” 

“Candidato, caso seja eleito, quais tesouradas o senhor dará nas políticas sociais e nas liberdades democráticas?” 

“Candidato, caso seja eleito, quantas matas vão queimar e quantas boiadas vão passar pela porteira?” 

“Candidato, caso seja eleito, os feminicídios vão crescer tanto quanto cresceram no estado governado por seu apoiador Tarcísio?” 

“Candidato, caso seja eleito, o senhor vai adotar o mesmo sistema de pesos e medidas para afrodescendentes usado pelo seu pai, ou seja, arrobas?” 

“Candidato, caso seja eleito, o senhor vai fazer como seu genitor e defender que os pais tenham direito a cometer agressão física contra filhos homossexuais?” 

“Candidato, caso seja eleito, quais são as concessões que o senhor e seu irmão prometeram aos EUA de Trump?” 

“Candidato, caso seja eleito, quantas décadas sua famiglia pretende ficar na presidência?” 

Há outras sugestões. 

Mas a que eu gosto mesmo é bem simples: “Candidato, alguma vez na vida o senhor trabalhou?" 

Afinal, quem sempre viveu às custas dos outros, nunca será capaz de construir um futuro melhor para o povo brasileiro. 

Mas acho que perguntar algo assim não seria aprovado pelo “compliance” da Vênus Platinada…

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A entrevista de Lula ao Jornal Nacional

Na noite de 15 de outubro, Lula foi entrevistado por Renata Lo Prete, jornalista da TV Globo.

A entrevista durou 40 minutos.

Quanto à forma, Lula saiu-se muito bem.

Não teve dificuldade em responder nada, recitou números variados sem se atrapalhar, manteve o bom humor e mostrou uma agilidade física e mental que certamente vai produzir - nas redes da direita - uma overdose de comentários sobre clones.

Quanto ao conteúdo, Lula teve que lidar com a pauta da Globo, que conseguiu a proeza de perguntar sobre tudo, menos sobre o fim da escala 6 por 1 (a respeito, ver o editorial de O Globo acerca do tema, publicado no dia 14 de outubro de 2026).

Sendo este o contexto, Lula também saiu-se bem no mérito.

Sobre a avaliação negativa de seu governo, assumiu a responsabilidade e reconheceu ser necessário fazer mais, ao mesmo tempo que defendeu o conjunto da obra.

Sobre o Supremo, reafirmou que é necessário fazer uma reforma e defendeu investigar todo mundo.

Sobre a presença do atual diretor da Polícia Federal num convescote londrino de Vorcaro, disse que não ficou nada satisfeito com a explicação dada; apesar disso, defendeu o trabalho do cidadão, mas evitou a armadilha de fazer composição do quarto mandato antes de ser eleito.

Sobre a reunião com Vorcaro, disse o óbvio: todo mundo que tem algum “problema”, procura a presidência da República. E o fato é que o Banco Master foi fechado logo depois e o criminoso posto atrás das grades.

Sobre o reajuste tardio no Bolsa Família, Lula escolheu contar a verdade, mesmo que esta possa parecer incrível: ele não sabia que o valor da Bolsa não tinha sido corrigido, apesar de existir “espaço fiscal”. E, quando soube, mandou reajustar.

Lula também saiu-se bem, ao ser questionado sobre as posições do atual presidente do Banco Central: ele explicitou discordar de Galípolo. Não vai "cortar dinheiro dos pobres" e defendeu que a solução para o problema da dívida estaria no crescimento.

Na questão da energia, Lula lembrou das privatizações.

Lula saiu-se bem, inclusive, em duas "cascas de banana": a relação com o Congresso e, também, a relação com os Estados Unidos.

Óbvio que, na vida real, ao contrário do que Lula deu a entender em suas respostas, a coisa não foi e não será tranquila. Mas as respostas dadas evitaram a cilada óbvia: frente as imensas dificuldades envolvidas, argumentarem que seria, portanto, impossível a “governabilidade”.

Lula também falou de outros temas, como por exemplo a saúde. E, ao final, conseguiu falar do transporte gratuito e até da 6x1, que poderia ter sido citada como prova de que é possível - mesmo com um congresso majoritariamente de direita - aprovar posições avançadas. No início da entrevista, Lula escolheu provar esta tese citando como exemplo a reforma tributária, um mau exemplo, pois a reforma tributária aprovada está muito longe da necessária.

Evidente que tanto as pessoas de boa fé, quanto os engenheiros de obras feitas, farão 1001 reparos ao desempenho de Lula na entrevista. O problema é que o entrevistado é ele e suas circunstâncias, no caso a pauta hostil imposta pela Globo, lavajatista e neoliberal.

Evidente, também, que a depender da posição do freguês, outras respostas seriam possíveis e necessárias. 

Por exemplo e cá entre nós, Lula nomeou um presidente do Banco Central cuja política de juros contribuiu, e muito, para os problemas que estamos vivendo. 

E bem que Lula poderia ter usado algumas respostas para descascar o Traidor da Pátria, Miliciano e Ultraliberal. 

Não o fez, talvez, por estar desde o início da entrevista pressionado (e impressionado) pelo fato de que nosso governo não é tão bem avaliado quanto o próprio Lula, no passado recente, imaginava que fosse.

Mas, de conjunto e levando em conta o contexto, o entrevistado saiu-se muito bem. 

Não adianta procurar pêras num carvalho, assim como não é realista querer a exposição do "programa máximo" - ou qualquer outra coisa parecida - numa entrevista para a Globo, totalmente diferente do ambiente dos Flow da vida.

Entretanto, para não dizer que não falamos de espinhos, registro o que parece ter sido o principal senão: o tema da "maioridade penal", nos casos de crimes hediondos cometidos por quem tem 16 anos.

Se a tática do governo era aprovar imediatamente a PEC da Segurança Pública, então o senador Camilo Santana errou feio, duas vezes, ao contrapor sua proposta de 16 anos à proposta de 14 anos feita pela direita.

Afinal, qualquer alteração no texto da PEC - não importando se 14 ou 16 - impediria sua aprovação imediata.

Mas, uma vez tendo sido apresentada a proposta, tornou-se inevitável que Lo Prete perguntasse qual a posição do presidente. E Lula escolheu dizer que pessoalmente, como cidadão, apoia a redução da maioridade - para 16 anos - no caso de crimes hediondos. 

Como em tantas outras questões da segurança pública, o que está em jogo nessa questão da “maioridade”
é menos a efetividade da medida e mais a ânsia punitivista.

Ânsia que Lula, por convicção ou cálculo, resolveu não confrontar, opção em certa medida temerária - inclusive tendo em vista a mobilização da juventude e dos militantes dos direitos humanos em favor de nossa candidatura - e que só demonstra como a extrema direita, mesmo caminhando para ser derrotada dia 25 de outubro, segue ideologicamente hegemônica em vários temas.

Mas o jeito de enfrentar isso, neste outubro de 2026, é elegendo Lula. 


ps1. antes da entrevista, a Globo divulgou um novo DataFolha: empate técnico. O Traidor da Pátria bateu no teto. E Lula segue tendo espaço para crescer. Venceremos.

ps2. em que tempos vivemos! Muita juventude nas ruas defendendo Lula. Enquanto isso, um ex-ministro da educação apresenta uma proposta de redução da maioridade penal. E outro ex-ministro da educação relaciona sua escolha por ser professor, com o desejo de ser dono de escola (https://www.facebook.com/share/v/19ehKeaNYQ/?mibextid=wwXIfr)

ps3. igualmente sinal dos tempos, nesse caso positivo, é o grande número de petistas críticos ao desempenho de Lula na entrevista. Os motivos variam. Mas, de conjunto, a postura crítica expressa algo mais profundo (e genial): a mobilização de massas em favor de Lula tem seus momentos de culto à personalidade, mas também contribui para uma saudável e autônoma radicalização. Assim, vamos ser críticos, mas sem parar a campanha jamais.







Editorial do Página 13 de outubro de 2026

 https://pagina13.org.br/saiu-a-edicao-de-outubro-do-jornal-p13-bora-lula/

Tá virando!

O gerúndio pode ser uma praga. "Estou chegando" pode significar "ainda vai demorar bastante". "Estou fazendo" pode querer dizer que "nem comecei a fazer". "Estou cuidando" pode equivaler a "tinha esquecido, mas lembrei agora". 

 

Mas, neste segundo turno presidencial, o gerúndio é mais-que-perfeito. Afinal, cá entre nós, se tivéssemos passado ao segundo turno em primeiro lugar, corríamos o risco de ver muita gente deitada em berço esplêndido.

 

Entretanto, como passamos atrás, depois do susto que abateu muita gente, a imensa maioria foi pra cima. Assim sendo as coisas, vamos combinar: toda vez que alguém perguntar "virou?", recomenda-se responder com o maravilhoso gerúndio: "está virando".

 

Desta forma, o esforço concentrado continua, ninguém baixa a guarda e continuamos "virando" votos até o último segundo do dia 25 de outubro.

 

Tá virando? Tá! Mas virar mesmo, só quando o TSE proclamar a reeleição de Lula!

 

Também deixaremos, para depois do resultado proclamado, o balanço completo do processo eleitoral. A respeito, já se acumulou um Everest de análises, interpretações e chutes acerca do resultado do primeiro turno. Parte do que foi dito é útil e contribuiu para mudar o rumo da campanha no segundo turno. Outra parte faz parte: afinal, vivemos num país livre. Mas o que disseram algumas pessoas terá que ser respondido, palavra por palavra. Afinal de contas, as dificuldades que estamos enfrentando neste segundo turno não são cria de chocadeira. Os responsáveis pelos erros políticos e organizativos têm CPF e RG e precisam pagar pelo que fizeram ou deixaram de fazer. 

 

Todavia, como já foi dito, este mister será para depois do dia 25 de outubro. Aliás, fica desde já o convite: nos dias 27, 28 e 29 de novembro de 2026 acontecerá, em São Paulo, o XI Congresso da tendência petista Articulação de Esquerda. O ato político, aberto a toda a militância petista, será na manhã de sábado, 28 de novembro, no Auditório da Apeoesp, na Praça da República, centro da cidade de São Paulo (SP).

 

O que não pode ser deixado para depois são dois comentários.

 

O primeiro diz respeito ao que está em jogo. Até mesmo o imortal colunista global Merval Pereira já admitiu, de público, que a turma do traidor da pátria, caso conseguisse vencer, tomaria medidas ditatoriais. Mas, por incrível que possa parecer, há outros setores que não pensam assim. É o caso dos defensores do voto nulo, que, apesar do palavrório supostamente de esquerda, são aliados objetivos do fascismo. É o caso da executiva do Movimento Democrático Brasileiro, partido que alguns tolos consideravam de centro e outros consideravam de direita, mas que mostrou quem verdadeiramente é ao indicar voto num golpista e traidor da pátria. Fazem parte, ainda, da lista de passadores de pano, alguns "cientistas acadêmicos", cuja moda é dizer que o PL não seria tão de direita quanto parece. 

 

Sem falar de supostos dirigentes que, com ares de Conselheiro Acácio, dizem em entrevistas para a grande imprensa que o resultado do segundo turno é "incerto", como se estivéssemos frente a uma trivial disjuntiva, dessas que deliciam a turma que escreve sobre a importância da "alternância". 

 

Papo reto: neste momento, o que mais nos atrapalha é o combo de confusão política, inapetência organizativa e, principalmente, falta de tesão exibidos por uma parcela de nossas direções, coordenações de campanha e, também, por certos intelectuais tradicionais que estão mais preocupados em demonstrar uma suposta "isenção científica" do que em mobilizar a tropa.

 

Quem está numa batalha de vida ou morte, não precisa que lhe digam o óbvio; precisamos, isto sim, da lembrança de que a vitória é de quem acredita e luta por ela.

 

Felizmente, a campanha já saiu do controle dessa gente e virou um movimento de massas, protagonizado por dezenas de milhões de pessoas que se movem pela certeza de que, nesta luta existencial, só há uma alternativa: vencer ou vencer.

 

Os editores