quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Delcy, traição ou tibieza

Semana passada, um colega de trabalho me perguntou se, diante de tudo o que ocorreu desde 3 de janeiro, eu continuava opinando que na Venezuela não havia ocorrido uma traição.

Eu respondi que minha opinião não havia mudado: o sequestro de Maduro, embora tenha sido favorecido por traições pontuais, não decorreu de uma conspiração de parte do governo venezuelano.

Porém, o que ocorreu desde então me faz lembrar a crítica feita por ninguém mais, ninguém menos, que a então vice-presidenta Delcy, contra alguns governos que ela, então, acusou serem “tíbios”.

Claro que houve uma derrota. Claro que é preciso recuar. Claro que certas concessões são inevitáveis. Mas é preciso manter a compostura.

A Venezuela foi atacada. O presidente Maduro e Cilia foram sequestrados e estão presos. Trump acabou de discursar na ONU fazendo acusações falsas. Frente a isto tudo, o que pensar do texto abaixo, divulgado na conta pessoal da atual presidenta da Venezuela?

“Tivemos uma reunião histórica com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com quem discutimos a fortalecimento da relação bilateral entre os nossos países e a avançada de uma agenda de cooperação em áreas estratégicas como energia, mineração, segurança e outros assuntos de interesse comum”.

“Expressamos nossa gratidão ao Presidente Trump e ao seu governo pelo apoio decisivo fornecido durante a emergência causada pelos terremotos em 24 de junho, bem como pelo apoio deles à reintegração do nosso país em espaços multilaterais”.

“Venezuela e os Estados Unidos compartilham uma relação histórica, e nesta nova etapa, somos chamados a navegar nela através do diálogo. Continuaremos a promover uma diplomacia no serviço do interesse nacional, com o objetivo de alcançar resultados concretos e benefícios coletivos para o povo venezuelano.”

A postagem está aqui:

 https://www.facebook.com/share/1EeMJf82a2/?mibextid=wwXIfr



 

Primeiro ou segundo turno?

Um colega acaba de divulgar um texto publicado no jornal O Globo.

Junto do link, este colega afirmou seu respaldo - indireto, como é habitual nesse tipo de situação - a tese exposta no tal artigo, que copiei e colei ao final.

Segue abaixo o que respondi ao tal colega, cujo nome não cito porque sua mensagem não foi pública. 

Oi fulano, olá todo mundo. Uma das teses do artigo que vc enviou - tese que, segundo entendi, vc informa ser respaldada pelo NOPPE - é que a eleição pode ser vencida, no primeiro turno, pelo cavernícola.

Pode acontecer isso? Bom, eu sou a favor do princípio de que “quase tudo pode acontecer”. Portanto, poder, pode. 

O catastrófico é que, se de fato vier a ocorrer, as chances maiores são, como diz o próprio texto, a favor da “oposição”, qualificativo  que o autor do artigo distribuído por vc atribui à candidatura dos milicianos de extrema-direita.

Isto posto, um comentário: diferente da vó do autor do artigo, que podia prever a chuva chegando, mas era incapaz de fazer chover, nós somos capazes não apenas de prever resultados possíveis, mas também somos (nós e nossos inimigos) capazes de ampliar ou de reduzir a possibilidade desses cenários ocorrerem.

A “oposição”, por exemplo, está trabalhando com 3 planos: ganhar no segundo turno, ir ao segundo turno em primeiro lugar, ganhar no primeiro turno.

Já nós, como é público, convivemos desde o início com diferentes posições, desde os que ontem achavam que íamos faturar no primeiro turno, até os que agora estão tomados por um pessimismo derrotista daqueles que deveriam ser tratados em casa.

Isto posto, a questão é: não temos dois candidatos disputando a presidência. São 13. E tudo indica que a diferença entre as duas candidaturas principais será muito pequena, da ordem de 2% dos votos válidos ou menor. 

A pergunta que faço é: os demais 11 candidatos terão menos que 2%? Obterão, somados, um total de votos inferior à diferença? 

Como disse antes, quase tudo pode ocorrer. Inclusive uma pressão direta da Embaixada gringa sobre este pessoal. Mas este (a soma dos votos válidos dos 11 ser menor que a diferença entre os 2) segue sendo o cenário menos provável. Assim sendo, o melhor é focar em fazer muita campanha e começar a preparar a batalha do segundo turno.

Pois o pior que pode acontecer é um repeteco do que já aconteceu: nosso pessoal planejar a campanha prevendo um cenário totalmente diferente do real.

Segue o texto comentado 

Mauricio Moura

Não fiquem surpresos se a eleição acabar dia 4 de outubro

As disputas para governos estaduais devem terminar a sua maioria em primeiro turno


A minha avó, Dona Maria José, morava no interior de Minas Gerais e nunca teve pluviômetro. Tinha um banco de madeira no terreiro e o hábito de sentar nele, todo fim de setembro, com os olhos no chão. Via o joão-de-barro que virara a porta da casinha para o lado contrário do vento, as formigas carregando ovos em fila para o alto do barranco, a cigarra que se calara cedo demais. O céu, enquanto isso, era de um azul quase ofensivo, sem um fiapo de nuvem, e o rádio prometia sol até o fim da semana. “Vai chover feio”, dizia ela, sob o riso dos vizinhos, e ia avisar todo mundo para tirar a roupa do varal. Dois dias depois, a água descia da serra em cortinas.
Em 2026, as eleições são assim. O céu está limpo: sem comício lotado, sem febre nas redes (quando o tema não é STF) e sem o barulho da decisão. O (a) eleitor(a) diz que ainda não pensou, que tanto faz (todo mundo envolvido no Master mesmo) e o país parece de braços cruzados, esperando o tempo passar. Nem parece campanha. Mas o céu é sempre a última coisa a mudar. Antes dele, mudam o bicho, o vento, o barro, o silêncio. Basta sentar no terreiro e olhar para o chão que temos vários sinais do que será o primeiro turno no dia 4 de outubro. Listemos alguns.

As disputas para governos estaduais devem terminar a sua maioria em primeiro turno. O motivo é o menor número de candidaturas. Menos candidaturas, maior chance de termos um(a) vencedor(a) antecipado(a). São Paulo e Pernambuco (com segundo turno em 2022) são exemplos. Em 2026, só há duas candidaturas competitivas em ambos. O motivo é que os partidos preferem investir o fundo eleitoral em candidaturas para a legislativas federais (que impactam o acesso ao fundo partidário, eleitoral e emendas parlamentares) do que em chapas majoritárias sem chances reais. Também esse será um ciclo de inúmeras reeleições de governadores(as) porque temos uma onda de governos bem avaliados. Em tudo constante, governos estaduais majoritariamente aprovados vencerão. 

Na Câmara, a taxa de renovação deve ser baixa. Nunca uma turma de deputados(as) teve tanto recurso financeiro para buscar um novo mandato. E, também, se a distribuição de prefeituras eleitas em 2024 seguir como preditor do perfil da nova legislatura, teremos PL, PSD, PT, União-Progressista e MDB como as principais agremiações (talvez até nessa ordem). No Senado, esqueçam as pesquisas de opinião (que medem no máximo o recall). A decisão de voto é na última hora e a maioria ainda não sabe que são dois votos. Todavia, é natural imaginar que os(as) eleitos(as) terão enorme correlação de votos com governadores e candidatos a presidente bem votados de cada estado. Nesse contexto, o novo Senado provavelmente terá mais “bolsonaristas”.

Na presidencial, quando o assunto for pesquisas na última semana, recomendo aos(as) leitores(as) se desgarrarem das análises da imprensa em cima de um cálculo de voto válido de pesquisas estimuladas de intenção de voto. Essa matemática ignora o perfil recorrente de abstenção (20% do eleitorado, com perfil de menor renda e escolaridade) e também minimiza o papel dos (as) indecisos(as). Aliás, muito importante, as pesquisas trazem uma amostra de 100% do eleitorado e são aproximadamente 80% que costumam votar. A única pesquisa comparável, que elimina indecisos e só entrevista quem apareceu para votar, é a boca de urna. Porém, essa pesquisa já não existe no Brasil (os resultados são divulgados a partir das 17 horas). Sobre a parcela indecisa, as pesquisas espontâneas (quando não são mostradas as alternativas) trazem uma leitura muito mais apurada do estado mental na reta final. 

Sendo assim, acreditamos que a oposição vai se beneficiar novamente do antipetismo de chegada, quando há uma mudança de voto de última hora em favor do candidato mais bem posicionado para ganhar do PT. Como aconteceu em 2014, 2018 e 2022. 

Portanto, há uma enorme probabilidade de um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Porém, a depender do perfil de não voto (brancos, nulos e abstenção) e da força do antipetismo de chegada, não fiquem surpresos se a eleição acabar dia 4 de outubro, inclusive com vitória da oposição. Dona Maria José, que viu de tudo em 88 anos de vida, certamente não ficaria.

O discurso do Imperador Trump

(sem revisão)

É importante ler o discurso do presidente Lula, feito no dia 22 de setembro de 2026, na sessão de abertura da 81a Assembleia Geral da ONU.


Mas também é importante ler o discurso do Imperador Trump, feito logo em seguida ao de Lula.

O discurso integral do Imperador pode ser lido aqui:  Estados Unidos de América, Debate General, 81° período de sesiones | UN Web TV

Para facilitar a vida, copio e colo ao final o tal discurso de Trump, em espanhol.

É impressionante o contraste entre o discurso de Lula e o discurso do Imperador.

Primeiro, pela cabotinice. 

Se alguém tinha dúvidas que o Imperador tem problemas graves, sugiro ler o tal discurso.

Mas antes recomendo tomar uma tríplice vacina contra cabotinice, narcisismo e déficit de atenção.

Uma segunda diferença entre os discursos de Lula e do Imperador está na forma de tratar o mundo.

O discurso do Imperador trata os Estados Unidos como o centro do mundo. O resto é o resto.

Exemplifico com alguns trechos:

-"nosso país é mais forte agora do que nunca";

-"basicamente estamos liderando em tudo";

-"Estados Unidos se encontra no auge";

-"a era de ouro, o século de ouro dos Estados Unidos";

Terceira diferença: grande parte do discurso de Trump teve finalidades direta e exclusivamente eleitorais, com direito a mentiras e exageros de todo tipo e ordem.

Quarta diferença: a abordagem das questões mundiais. 

Enquanto Lula tratou dos grandes dilemas da humanidade, Trump distribuiu ameaças e comemorou êxitos que só ele enxerga.

Por exemplo, Trump afirmou que "enquanto os demais falavam de paz, eu fiz a paz". 

Segundo Trump, ele teria conseguido acabar com oito guerras: Camboja, Tailândia, Kosovo e Servia, República Democrática do Congo e Ruanda, Paquistão e India, Armênia e Azerbaijão, além de Gaza (que seria a nona). E prometeu, mais uma vez, que vai acabar com a guerra entre Rússia e Ucrânia.

A respeito de algumas dessas guerras, Trump cita mensagens de agradecimento dirigidas a ele próprio. 

Não há como não constatar: quando alguém fala tantas vezes de si mesmo na terceira pessoa, deixa de ser "majestática figura" e passa a ser "complexo de Imperador".

Parte expressiva do discurso de Trump foi dedicada a atacar a República Islâmica do Irã, apresentada como "patrocinador número um do terrorismo", um país que estaria "violando todas as leis".

Evidentemente, Trump acusa o Irã de fazer aquilo que os Estados Unidos fazem.

Prova adicional disso, aliás, é que Trump falou no seu discurso em "aniquilar" o Irã, levar o país inteiro "ao inferno, sem possibilidade de sobrevivência, sem esperança de futuro durante várias gerações".

Que alguém discurse na ONU usando descaradamente estes termos genocidas já seria criminoso e doentio, que este alguém seja o presidente dos Estados Unidos é um sinal de que vivemos tempos para lá de perigosos.

Trump também falou da "Guerra em Gaza" e nominou uma série de países que ele pretende ajudar ou com os quais ele diz estar contando: “Marrocos, Baréin, Qatar, Kuwait, Arabia Saudita, Turquía, Uzbekistán, Indonésia, Albania, Kosovo, Kazajstán, Egipto, Jordania e muitos mais”.

Pequena parte do discurso de Trump foi dedicado a Venezuela, apresentando a invasão de um país soberano e o sequestro de seu presidente como uma "operação militar" para deter um "criminoso".

E como o Imperador é um bandido sem complexos, na sequência ele apresentou o resultado do crime: "o maior acordo petrolífero da história".

A respeito deste acordo, Trump diz abertamente o seguinte: "To the victor belong the spoils". Algo como "ao vencedor cabem os despojos".

Trump apresentou o case da Venezuela como um paradigma de como os Estados Unidos agirão. 

E reafirmou um de seus pretextos preferidos: os carteis de drogas, que ele chama de "exército islâmico do hemisfério ocidental", "inimigos da civilização", que devem ser "assassinados, exilados ou detidos como combatentes estrangeiros".

Detalhe importante: Trump se julga no direito de adotar estes critérios e agir em consonância, fora dos Estados Unidos, portanto invadindo território soberano de outros países. 

É neste ponto do discurso que Trump cita o México e Cuba, "um estado falido, um estado fracassado, que vai cair".

Detalhe importante: Trump  diz que o regime de Cuba cultiva laços com grupos radicais e subversivos como o "Communist Party USA, Antifa and the Democrat Socialists of America", este último conhecido pela sigla DSA.

O DSA, para quem não sabe, é o grupo ao qual pertence o prefeito de Nova Iorque.

Em seguida, Trump fala sobre o "acordo" acerca da Groenlândia, onde serão construídas duas bases militares.

Diz que a OTAN hoje é "mais forte do que nunca".

Reafirma sua opção pela guerra tarifária.

Elogia a primeira-dama Melanie, que ele destaca como sendo a primeira primeira-dama a presidir uma reunião do Conselho de Segurança da ONU.

Literalmente: "She also became the only first lady in history to preside over a meeting of the U.N. Security Council."

O episódio lembra Calígula.

Trump engata várias críticas contra a ONU e contra o Tribunal Penal Internacional, composto por "gente malvada" (para ser preciso: an evil group of people) favorável a "mutilação transexual" e que não fala nada acerca da "perseguição contra os cristãos" que estaria ocorrendo em todo o mundo.

Epstein talvez fosse capaz de explicar essa fixação.

Em seguida vem, talvez, a parte mais curiosa do discurso de Trump, quando ele informa que deixará de usar o termo "Inteligência Artificial" e passará a usar o termo "Superinteligência".

Segundo Trump, os temores frente a IA e a catástrofe climática são igualmente indevidos, sendo que o tema da superinteligência provocará um impacto maior do que o impacto causado pela Revolução Industrial. E, segundo ele, os EUA não vão aceitar nenhum tipo de gestão mundial "globalista" do tema.

Nesse contexto Trump fala, pela primeira e última vez em seu discurso, da China. 

Segundo ele, quem ganhar a competição pela superinteligência, vai ganhar tudo. E, ainda segundo Trump, os Estados Unidos estariam superando a China nesse terreno.

Neste ponto, já no final desse discurso cheio de elogios, vem o paradoxal. 

Segundo Trump, em 1776, enquanto escutavam pela primeira vez a Declaração de Independência, os patriotas enfrentaram uma imensa invasão britânica, feita com 100 navios ou mais.

Frente a tal demonstração de poderio militar, diz Trump, os patriotas "não tínhamos uma única chance, entretanto, ganhamos". E a chave para o êxito esteve e segue estando, sempre segundo ele, em ter "vontade e determinação".

Pois é. 

Hoje, 250 anos depois, os Estados Unidos não são a vítima da pérfida Albion, mas sim uma nação imperialista que ameaça grande parte da humanidade.

Contra isso, vale lembrar as palavras do presidente Lula, ditas imediatamente antes do discurso de Trump: "o Brasil não cabe no quintal de ninguém". Continuaremos "sendo um país soberano. Ninguém...!!! Ninguém nos afastará desse caminho".

A chave para o êxito já temos: vontade e determinação. 

Agora é manter a pólvora seca. E ganhar a eleição.

(sem revisão)


Segue abaixo a transcrição do discurso de Trump, disponível no site da ONU

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Eleições 2026: sprint de chegada e pólvora seca

Todas as pesquisas seguem indicando que haverá segundo turno na eleição presidencial, exceto….

…se o eleitorado das demais candidaturas antecipasse agora todo o movimento que, em tese, farão no segundo turno.

Supondo os dados da mais recente pesquisa DataFolha, no primeiro turno Lula tem 39%, o cavernícola filho tem 36%, os demais candidatos tem 17%, o restante vota branco ou nulo.

Outras pesquisas menos citadas, divulgadas depois deste DataFolha, apontam resultados mais ou menos parecidos.

Segundo aquela mesma DataFolha, no segundo turno, portanto no dia 25 de outubro, Lula teria 46%, contra 44% do cavernícola filho.

Para que este resultado, ou algum parecido, apareça antecipadamente já no dia 4 de outubro, seria necessário que todas as demais candidaturas derretessem. 

Isto não é impossível de acontecer, mas é pouco provável, por diversos motivos, entre os quais o pouco tempo e, principalmente, devido a uma série de fatores que contribuem para sustentar um nível mínimo de votos para as demais candidaturas presidenciais.

Mesmo assim, tem gente de esquerda que segue acreditando que a eleição presidencial pode acabar dia 4 de outubro. Curiosamente, no início deste ano, algumas destas pessoas diziam ter absoluta certeza de que a eleição terminaria com a nossa vitória. Agora, já dizem que pode terminar, mas com a vitória “de um ou de outro”.

Pode acontecer? Em tese, pode, pois nesta vida quase tudo pode. Mas de nossa parte seguimos afirmando o mesmo desde o início: venceremos, no segundo turno, por pequena diferença.

Entretanto, já que é para especular, convém dizer o seguinte: gente de esquerda que, a essa altura dos acontecimentos aceita como provável, ou pelo menos possível, a hipótese da eleição ser resolvida no primeiro turno, deveria por mera lógica considerar também uma outra hipótese: a de que o derretimento das demais candidaturas, mesmo que não seja suficiente para liquidar a eleição no primeiro turno, seja entretanto o bastante para fazer a candidatura cavernícola terminar o primeiro turno à frente.

Esta é, por sinal, uma das apostas da campanha presidencial cavernícola: chegar no segundo turno em primeiro lugar ou atrás, mas com uma diferença mínima.

Não é difícil prever o impacto psicológico negativo que um resultado desses teria sobre o eleitorado de Lula, especialmente naqueles estados onde, hoje, temos folgada liderança e, por isso, parte do eleitorado acredita que no Brasil inteiro estaríamos do mesmo jeito. 

Sem falar do fato de que, por bastante tempo, muitos dirigentes de alta patente divulgaram a ideia de que - diferente de todas as outras eleições presidenciais em que ganhamos - em 2026 ganharíamos já no primeiro turno.

Cabe lembrar ainda que, desde 2018, as campanhas da direita têm demonstrado uma grande capacidade de crescer na reta final, obtendo muitas vezes resultados maiores do que os indicados nas pesquisas.

Isso se deve, em boa medida, a mecanismos “republicanos”, tais como o abuso das máquinas, a explicita compra de votos, a manipulação das redes antissociais e a crimes variados.

Notem que nos últimos dias cresceu bastante a violência política, praticada contra nossas candidaturas e militância, em todo país.

Notem, também, que cresceu em cerca de 32% o número de brasileiros com direito a votar no exterior, especialmente em países onde os governos são de direita e estão operando abertamente contra nós.

Tudo isso leva à seguinte conclusão: cabe a nós - nem que seja por precaução - fazer, nas duas próximas semanas, um imenso arranque de campanha, para garantir que cheguemos ao segundo turno em primeiro lugar e, além disso, com uma vantagem que seja a mais confortável possível.

Para usar uma expressão a que fui apresentado ontem: “sprint de chegada”.

Nesse mesmo espírito, cabe planejar desde já a campanha do segundo turno. 

Nos estados onde nossas candidaturas a governador estiverem no segundo turno, será sob alguns aspectos mais fácil fazer a campanha Lula. 

Mas a situação será bem mais complicada onde nossas candidaturas a governador tiverem perdido ou tiverem vencido já no primeiro turno. 

Nesses casos, será preciso deflagrar na noite de 4 de outubro uma “operação especial” para organizar as respectivas campanhas.

Imagino que a direção nacional do PT já tenha designado quadros com esta tarefa: pensar desde já o plano de batalha a partir de 5 de outubro.

Plano que deve considerar como líquida e certa uma forte ingerência do “imperador” Trump.

Afinal, já que virou moda fazer citação religiosa, lembremos do que disse Oliver Crowell: “Confie em Deus, mas mantenha a sua pólvora seca".

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

“Guerra 2.0”: fria ou quente?

Fiz parte da plateia, semana passada, de uma banca onde um colega virou professor titular.

Um dos pontos debatidos foi sobre o uso do termo “Guerra Fria 2.0”, para descrever o mundo atual.

Neste debate, simpatizo com quem destaca as inúmeras e profundas diferenças entre a atual polarização EUA x China vis a vis a polarização EUA x URSS.

Destas diferenças - dentre as quais destaco o pano de fundo: a dinâmica do capitalismo - decorre, entre outras coisas, que os riscos de uma “super guerra quente” são maiores agora do que foram até 1991.

Aceita (ou não) a tese acima, vale a pena ler dois textos publicados hoje pela grande imprensa.

O primeiro desses textos intitula-se “O multilateralismo não é idealismo, é uma necessidade” e saiu no Financial Times. Assinam este texto, além do presidente Lula, o presidente do Conselho Europeu, o presidente do Quênia e o primeiro-ministro do Canadá.

O texto começa constatando que “nossas economias estão profundamente interligadas”. No entanto, “a geopolítica caminha na direção oposta. Em 2025, foram registrados 65 conflitos armados envolvendo Estados, o maior número desde 1946, enquanto os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2,9 trilhões. (…) As relações econômicas são cada vez mais utilizadas como instrumentos de pressão e coerção, enquanto a desigualdade aumenta, tanto dentro dos países quanto entre eles”.

Depois desta descrição, o texto afirma que “a necessidade de cooperação multilateral segue plenamente viva”. Em seguida dá vários exemplos de que a necessidade da cooperação multilateral “é mais evidente do que nunca”. E conclui anunciando a Iniciativa P4M: “Parceiros pelo Multilateralismo”, uma estrutura flexível e aberta a países de diferentes regiões e tradições políticas que estejam dispostos a atuar para além de suas diferenças, formar coalizões em favor de reformas e transformar princípios compartilhados em ações concretas”.

Como tudo vale a pena quando a alma não é pequena, faço apenas duas perguntas: “quantas divisões tem a P4M”? “Combinaram com os gringos”?

Pois qualquer iniciativa de boa fé, no sentido de enfrentar os grandes problemas mundiais de forma cooperativa, tem como grande obstáculo os Estados Unidos e sua disposição de resolver todos os problemas na base do grito, porrada e bomba.

As duas perguntas que fiz acima são, de certa forma, implicitamente respondidas na entrevista de Pedro Abramovay, vice-presidente da Open Society, publicada no jornal O Globo.

O Globo informa que a Open Society Foundation é uma “rede internacional de filantropia criada pelo investidor George Soros”. Já Abramovay foi “secretário nacional de Justiça no segundo governo do presidente Lula”.

Abramovay afirma que “uma derrota do trumpismo em 2028 empurrará os EUA de volta ao jogo global, ainda que para um novo tipo de multilateralismo”, que será “diferente do pautado pelo neoliberalismo”.

Sem Trump, com os Democratas de volta ao governo, os Estados Unidos voltariam a ser razoáveis. Nesse novo contexto, Abramovay recomenda aumentar a aposta do Brasil “em múltiplos fóruns. Eles foram centrais para termos sobrevivido com altivez à crise diplomática e comercial com os EUA do Trump 2.0. Devemos aumentar este movimento no cenário pós-Trump, inclusive para não ficarmos mais dependentes da China”.

Como se pode ver, com Trump ou sem Trump, a Open Society se preocupa muito com a China. Aliás, a cada dia é mais necessário jogar luz sobre a serviço de quem está a enorme influência que a Open Society tem, hoje, em vários setores da esquerda e do governo brasileiro.

O que nos traz de volta ao ponto de partida desse comentário: determinar a natureza da “Guerra Fria 2.0” e qual sua relação com o capitalismo e com as diferentes frações da classe dominante dos Estados Unidos.

A depender da resposta, não cabe esperar tempo fácil no próximo período, aconteça o que acontecer. 


Yes, também temos um cavernícola

Vejam o vídeo abaixo e respondam: quando é que o presidente Edinho e o secretário-geral Fontana - mais os integrantes da “comissão especial” - vão tomar alguma atitude?


Ou só farão algo quando for tarde demais?

domingo, 20 de setembro de 2026

Lula e os ricos

Duvido que as estatísticas e a “ciência” política respaldem esse aspecto do que ele diz, mas apesar ou por causa disso Lula é reincidente em se apresentar como alguém que teria sido generoso com os ricos.

Sua frase clássica a respeito parece ter sido publicada pela revista Veja, em setembro de 2006: “A única frustração que eu tenho é que os ricos não estejam votando em mim. Porque eles ganharam dinheiro como ninguém no meu governo".

Outra frase, sobre os banqueiros, foi publicada pela Folha de S. Paulo, em agosto de 2007: "Posso garantir que foram os que ganharam muito dinheiro neste país, no meu governo. Aliás, a parte mais pobre é que deveria estar mais zangada, porque ela teve menos do que eles tiveram". 

Quase vinte anos depois, em setembro de 2026, num comício em Florianópolis, Lula perguntou: “Por que o agro é contra nós? Só pode ser uma questão de eu ser nordestino, porque se fosse por dinheiro, deveriam se ajoelhar para mim, já que nunca houve tanto dinheiro para o agro como agora”.

É provável que estas perguntas de Lula sejam exclusivamente retóricas, assim como é possível que alguém já tenha alertado o presidente sobre a impossibilidade estatística dele - em três mandatos presidenciais, aos quais se deve somar os de Dilma - ter feito mais pelos de cima, do que fizeram os demais presidentes do Brasil, absolutamente todos vinculados, direta ou indiretamente, à classe dominante.

Mesmo assim, as frases citadas de Lula são uma excelente demonstração da contradição mortal existente, tanto na estratégia da tendência atualmente majoritária no nosso Partido dos Trabalhadores, quanto na estratégia que prevaleceu no movimento comunista brasileiro, pelo menos entre 1922 e 1990.

A saber: a ideia de que caberia à classe trabalhadora ajudar a desenvolver o “capitalismo brasileiro”, contribuindo para eliminar seus excessos, defeitos e obstáculos.

Os partidos comunistas nunca tiveram força suficiente para tentar levar à prática esta tese. 

Já nós petistas conseguimos conquistar, por cinco e logo mais por seis vezes, a presidência da República. E colocamos o governo federal à serviço, ao menos parcialmente, daquela tese.

Qual foi o resultado disso? 

Entre muitas outras coisas, descobrimos - embora a ficha ainda não tenha caído para boa parte da “cúpula” - que o maior obstáculo para reformar o capitalismo brasileiro é… o grande empresariado capitalista.

Podemos entupir essa gente de dinheiro. Eles não mudam. E não mudam porque - ao menos na época em que vivemos - o capitalismo realmente existente é isso aí que conhecemos. Portanto, inconciliável com a ampliação do bem estar, das liberdades, do desenvolvimento e da soberania de um país como o Brasil.

Podemos fazer ou falar o que quisermos. Os grandes capitalistas sempre darão um jeito de fazer com que nossa sociedade continue dependente, uma das mais desiguais do mundo, com pouca soberania e muita plutocracia política.

E os grandes capitalistas não se contentam com receber - palavras de Lula - muito dinheiro de nossos governos. Eles querem sempre mais, eles querem tudo.

Por isso o golpe e o governo golpista de 2016-2018, por isso o governo do cavernícola pai, por isso o ilegal parlamentarismo-de-emendas e o BC independente, por isso a candidatura do cavernícola filho tem o apoio que tem.

Sendo assim as coisas, precisamos escolher: ou o masoquismo que insiste nessa relação tóxica ou um divórcio litigioso que nos emancipe dessa lógica que leva o ministro Durigan a se sentir no direito e na obrigação de “justificar” que o recente aumento do bolsa família não foi “real”, foi apenas um reajuste para compensar a inflação.

Ouvindo tamanha merda, um velho anarquista espanhol provavelmente diria que “o Brasil só será realmente livre quando o último banqueiro privado tiver sido enforcado nas tripas do último latifundiário”.

A preços de hoje, me contentaria com um pacote de reformas estruturais que faça os capitalistas perderem bastante e faça o povo ganhar muito. E poderia começar, já, pelas BETS. Afinal de contas, gentileza com gentileza se paga.