quarta-feira, 4 de novembro de 2026

"Apenas" um comentário sobre uma afirmação de José Dirceu

Uma das coisas mais frustrantes, na imprensa do Partido, é o desperdício.

Refiro-me ao seguinte: poderíamos usar nossas publicações, não apenas para informes chapa branca, mas também para hospedar nossas polêmicas.

Por exemplo: o balanço das eleições 2026, a discussão sobre a política econômica do governo Lula 4, a reforma política e o destino do mister dabliuquẽ.

Se um dirigente do Partido dá uma entrevista sobre isso para o Poder360 ou para o UOL, para a Piauí ou para o Estadão, por qual motivo não pode falar a respeito para a imprensa partidária?

Claro que isto seria um problema para os que gostam de falar em off com a mídia empresarial.

Mas para quem quer, legitimamente, apresentar seus pensamentos, dar entrevista para os órgãos do próprio Partido - além de transformar a imprensa partidária em fonte - nos pouparia das edições enviesadas.

Um exemplo disso é uma entrevista com Zé Dirceu, publicada no dia 3 de novembro em vários lugares (O Globo, UOL, Poder 360 etc.), tendo como título sempre a mesma frase: "A vitória não foi do PT".

Se Dirceu tivesse tido que a vitória não foi apenas do PT, estaria coberto de razão. 

Afinal, a vitória foi do povo, da classe trabalhadora, das mulheres, dos negros e negras, dos moradores das periferias, dos nordestinos de nascimento e alma, da esquerda como um todo, do próprio Lula etc.

Mas, como é óbvio, a vitoria também foi do PT. Alias, como sabe quem fez campanha, a Nação Petista foi a espinha dorsal da vitória.

A direita sabe disso. Os adversários sabem disso. E tudo o que eles mais querem é atribuir a vitória a terceiros: ao centro, aos progressistas, a frente ampla, ao anti-bolsonarismo. Qualquer coisa vale, desde que não se atribua ao PT o que (também) é do PT.

Para eles, a frase parcialmente correta (e, portanto, parcialmente errada) de Dirceu veio a calhar. 

Detalhe: quem lê a entrevista (na verdade, frases picotadas) percebe que, muito provavelmente, o sentido da frase de Dirceu é de que a vitória não foi "apenas" do PT.

Mas, como sabemos, a edição faz toda a diferença.

As chances desse tipo de manipulação acontecer seriam menores, se a imprensa do Partido abrisse suas páginas para entrevistar nossos dirigentes.

Fica a sugestão.


terça-feira, 3 de novembro de 2026

Comentários sobre a entrevista de Edinho ao Poder360

(sem revisão)

Poder 360 publicou "trechos" de uma entrevista de Edinho Silva. O site informa que parte da entrevista foi por telefone, parte por escrito; parte antes e parte depois do 25 de outubro.

A entrevista é deveras curiosa. 

Perguntado sobre "o que o PT acha da proposta do economista André Lara Resende para mudar a política monetária e cortar a taxa de juros de maneira mais rápida?", Edinho responde que "essa proposta nunca foi debatida no PT ou com o presidente Lula, nem há agenda construída para isso".

Considerando o que ocorreu na campanha e, também, o que vem ocorrendo depois da vitória, com o mercado pressionando por um "tesouraço", a resposta de Edinho surpreende pela capacidade de síntese, para não dizer outra coisa.

O mesmo não ocorre quando se pergunta "qual foi o principal acerto e o principal erro do PT na campanha eleitoral de 2026?"

Talvez porque foi e segue sendo muito criticado, por seu desempenho à frente da coordenação da campanha, Edinho deu uma resposta detalhada, que em parte eu sintetizaria assim: no primeiro turno, achamos que fizemos quase tudo certo, mas devido às circunstâncias, quase deu tudo muito errado. 

Brincadeiras à parte, boa parte das explicações de Edinho gira em falso em torno de uma tese acerca do “sentimento de mudança”, um “fenômeno mundial” que teria sido capturado pela extrema-direita. 

A vantagem deste tipo de explicação é que o poupa de investigar a fundo as nossas responsabilidades: o marco fiscal, a taxa de juros, as concessões aos “aliados” de direita, a submissão à mídia empresarial etc.

A desvantagem é que este tipo de argumentação transforma num "mistério de Fátima" a crença, presente em parte da direção do Partido e da coordenação da campanha, de que Lula venceria no primeiro turno.

O mistério se desfaz quando se lê a lista de “importantes acertos políticos e organizativos” que teriam sido cometidos no primeiro turno, entre os quais a “decisão de recuperar o legado do presidente Lula. O 3º governo Lula foi o mais exitoso da história brasileira em volume de entregas à população. Não poderíamos abrir mão desse legado”. 

Edinho faz uma “harmonização facial” da linha política efetivamente defendida, que secundarizava o debate sobre o futuro e priorizava o confronto de legados. Sem falar que superestimava nossos feitos, abstraindo dos efeitos nocivos dos juros exorbitantes e de outros problemas. Além do que subestimava a força dos inimigos. E não atentava para os efeitos colaterais decorrentes de não ter candidaturas do PT em estados estratégicos. Enfim, um combo de erros, que não explicam o segundo turno - inevitável-, mas ajudam a explicar o fato de termos passado atrás de nosso inimigo.

Por não reconhecer este combo de erros, Edinho supervaloriza os efeitos negativos decorrentes das denúncias contra ministros do Supremo, cujo impacto foi maior exatamente porque agiu sobre terreno contaminado por falhas de diversos tipos, entre as quais se destacam a crença na vitória no primeiro turno e a ausência de material para fazer a campanha de Lula.

No segundo turno, não foi apenas o cenário que mudou, também mudou a linha da campanha. E as principais mudanças passaram ao largo (e quase que por cima) de alguns setores da coordenação do primeiro turno. 

Edinho, num ato falho, reconhece isso ao dizer que no segundo turno, “a candidatura de Lula passou a representar a possibilidade real de transformação”, admitindo portanto que tal no primeiro turno não ocorria, em grande medida, devido à linha e aos procedimentos equivocados.

No segundo turno, as ruas e as redes tomaram conta e o próprio Edinho e outros perderam protagonismo. É compreensível que ele não queira reconhecer isso, mas como Partido, se não quisermos correr novamente o risco que corremos, temos a obrigação de constatar os erros, mesmo que isso afete alguns CPFs.

A bem da verdade, Edinho reconhece que “tivemos dificuldades importantes”, entre os quais “problemas para fazer os materiais de campanha chegarem a todos” os estados. Mas Edinho omite que, no primeiro turno, o recurso alocado para fazer materiais era muito pequeno; e era muito pequeno não porque não houvesse dinheiro, mas porque a linha de campanha não valorizava adequadamente o trabalho de rua e privilegiou alocar recursos para outras frentes.

Aliás, sobre o tema financeiro, será necessário "abrir as contas" de todas campanhas, pois há problemas de todo tipo, que só em parte podem ser atribuídos a falta de recursos.

Edinho também reconhece, eufemisticamente, “dificuldades na gestão das contradições políticas locais”, quando o que precisa ser reconhecido foram erros gravíssimos em estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. 

O divertido na análise de Edinho é sua conclusão de que "o balanço final é positivo porque a campanha foi vitoriosa". Verdade, mas ela não foi vitoriosa por causa, mas apesar de muitos erros que foram cometidos, por pessoas e setores que usam a vitória como argumento para se eximir das responsabilidades.

A Nação Petista foi fundamental para a vitória. Mas a direção do Partido e a coordenação da campanha não podem - como um todo - se atribuir os êxitos decorrentes da ação da militância ou de outros elementos.

Novamente e a bem da verdade, Edinho deixa escapar aqui e ali que sabe disso. Por exemplo, quando ele fala que "nosso principal erro, ou nossa maior dificuldade, foi não conseguir disputar desde o 1º turno o sentimento de mudança presente na sociedade, além dos problemas de organização e gestão da campanha nos estados". O problema é que os erros não foram propriamente erros. Erro é quando você quer fazer uma coisa, mas não sabe fazer direito, ou faz outra diferente da que pretendia fazer. Deste ângulo, atitudes como intervir no Rio Grande do Sul, nos obrigando a apoiar a candidatura de Juliana Brizola e, com isso, enfraquecendo a campanha de Lula naquele estado, não foi um "erro", foi a aplicação de uma linha política equivocada.

Frente a avaliação de Edinho, Poder360 pergunta, então, o seguinte: "O presidente Lula, depois do 1º turno, disse que teve a campanha mais desorganizada de todas. A que o presidente se referia?" 

Ao responder, Edinho comete uma incorreção lógica. Ele afirma que "de nada adiantaria termos destinado mais recursos às candidaturas proporcionais, ao Senado ou aos governos estaduais se tivéssemos perdido a eleição presidencial. Evidentemente, essa prioridade causou conflitos, descontentamentos e críticas à coordenação nacional". 

O que Edinho não explica é que a campanha de Lula recebeu o teto legal. Portanto, os problemas que houve de produção de material para a campanha Lula decorram de decisões tomadas acerca do que fazer com os recursos, que não podiam ser maiores do que eram. Ou seja, se houve ou não descontentamento de candidaturas estaduais e proporcionais, isso não explica em absolutamente nada a maneira como se distribuíram (mal) os recursos da campanha presidencial.

Passo o tema da "descentralização da produção dos materiais", embora não consiga compreender nem concordar com o que diz Edinho, e me foco no seguinte trecho da resposta que ele dá ao Poder360: "Não individualizo responsabilidades. Não é da minha prática atribuir os erros a uma ou outra pessoa. Uma coordenação de campanha acerta coletivamente e também erra coletivamente. Da mesma forma, não vou responsabilizar individualmente a comissão que estabeleceu os critérios de distribuição dos recursos. Esses critérios foram aprovados pelo Grupo de Trabalho Eleitoral. Como presidente do PT, considero que tanto os acertos quanto os erros dessas decisões são responsabilidades coletivas, que também assumo". 

Repito, sobre isso, o que disse acima: é preciso "abrir as contas", sem misturar as coisas. Houve erros de todo tipo na campanha, inclusive na alocação de recursos. Mas isto não tem nada que ver com o debate sobre a campanha presidencial. Edinho, espertamente, desvia o foco para algo que é mesmo objeto de todo tipo de crítica; mas nenhum dos erros cometidos pelo GTE influenciou a distribuição dos recursos da campanha presidencial.

Outro exemplo de esperteza é dizer que "uma campanha que enfrenta todas essas adversidades, reconhece seus erros, corrige suas dificuldades e consegue vencer uma eleição tão difícil é, necessariamente, uma campanha vitoriosa". Óbvio que fomos vitoriosos. Mas isso não pode nos desobrigar de debater os erros.  Quando Edinho diz que "não é da minha prática atribuir os erros a uma ou outra pessoa. Uma coordenação de campanha acerta coletivamente e também erra coletivamente", ele parte de uma premissa falsa, a saber: a de que todas as decisões foram efetivamente coletivas. E não foram. 

Poder360 pergunta, em seguida: "Havia no PT um debate sobre o que fazer no caso de derrota de Lula: quem deveria comandar o partido. A sua presidência seria contestada. Hoje, como está a política interna do PT? Foi pacificada e não será necessário um novo PED em 2027?" 

Edinho responde dirigindo suas baterias contra uma ala de sua própria tendência. Ele não nomina, assim como não nominou em sua intervenção oral, feita na executiva nacional do PT. Mas qualquer um que conheça o PT sabe a quem ele está se dirigindo: "Quando disputei o último PED (Processo de Eleições Diretas), enfrentei resistências de um núcleo dirigente que comandava o partido naquele momento". Isso é verdade. Mas não é verdade que "esse núcleo só passou a apoiar minha candidatura na reta final do processo, quando ela já estava consolidada e havia construído maioria dentro do PT". 

Quando a disputa começou, toda a CNB já apoiava Edinho. E a "maioria" só foi construída graças a esses setores, com destaque para as dezenas de milhares de fiilações feitas pelo grupo do senhor Quaquá. Aliás, cabe perguntar: a aparente disposição de ir contra alguns próceres da CNB vai ser acompanhada do desconto dos votos que esse pessoal proporcionou, tanto a Edinho quanto a chapa da CNB?

Edinho, junto com o secretário-geral Henrique Fontana, contribuiu para engavetar inúmeros pedidos de comissão de ética contra Quaquá. Segundo ele, "para que não criássemos um ambiente de divisão interna que pudesse prejudicar a candidatura do presidente Lula". A verdade é oposto: o grupo de Quaquá foi deixado livre e com isso causou danos à campanha do PT, Lula incluisve, no primeiro turno do Rio de Janeiro. Prevaricar nunca é bom.

Ao não dar nome aos bois, ao não colocar o guizo no pescoço do gato, Edinho faz afirmações que afetam negativamente todo o PT. Por exemplo: "em determinadas situações, o partido se transformou em um ajuntamento de mandatos parlamentares, nos quais os mandatos têm mais poder do que as próprias instâncias partidárias. (...) Também não podemos conviver com práticas patrimonialistas, em que a estrutura partidária é utilizada para atender a interesses pessoais e, em algumas situações, até para promover enriquecimento e crescimento patrimonial". 

Concordo com tudo isso, mas jabuti não sobe em árvore. Alguém o colocou lá. Esses erros tem CPF e RG. E, curiosamente, concentram-se num determinado setor do Partido. O mesmo que ajudou a eleger Edinho. Se ele tem efetiva disposição de "recuperar a centralidade do projeto coletivo, fortalecer nossas instâncias democráticas e, principalmente, voltar a priorizar a organização de base", terá que cortar na carne, não do PT em geral, mas no de sua própria tendência. Terá que cortar a si próprio, aliás.

Sem clareza sobre isso, a afirmação de que o PT "precisa representar o sentimento de mudança que cresce na sociedade e apresentar um projeto político capaz de responder aos desafios do século 21" pode ser para inglês ver. 

Uma demonstração desse risco está na questão seguinte, feita pelo Poder360: "O PT vai sustentar a candidatura de Hugo Motta para presidente da Câmara. No caso de Davi Alcolumbre, o presidente Lula já disse que o PT deve apoiá-lo para presidente do Senado. Na sua avaliação, qual a chance de sucesso dessas duas candidaturas para comandar o Congresso em 2027?"

É óbvio que existe "alguma" contradição entre "representar o sentimento de mudança" e apoiar próceres do Centrão. E mesmo que seja essa a decisão, para derrotar a extrema-direita, é um péssimo hábito chamar essa gente de "partidos do campo democrático". O melhor que podemos fazer, inclusive para não gerar ilusões e confusões, é chamar a direita de direita.

Poder 360 pergunta então o seguinte; "O presidente Lula chamou militantes jovens para que ajudassem no 2º turno da campanha de 2026. O grande organizador nas redes sociais foi o deputado André Janones, que é filiado à Rede. Por que o PT não estimulou antes quadros como Janones para conduzir esse tipo de interação com os eleitores na internet?" 

Edinho, corretamente, afirma não ser "verdade que o PT não tenha estimulado a mobilização nas redes sociais. Nós estimulamos muito". Mas por qual motivo nosso estímulo não se destacou? Edinho atribui o problema à "conjuntura política extremamente adversa". Isso pode até ser parte da verdade, mas está longe de ser toda a verdade. Novamente, se faz necessário um debate detalhado sobre o que tem sido nossa atuação nas redes e, também, sobre o que foi - e quais os limites - da experiência comandada por Janones. Edinho tem razão quando diz que "foi a mobilização política na vida real que criou as condições para o crescimento da mobilização virtual". Mas, novamente, tem algo de errado, de falho, de insuficiente, naquilo que fizemos. A quantidade de gente que aderiu à iniciativa de Janones mostra que havia pessoas dispostas. Que não tenha sido o PT a protagonizar isso, deve-se a causas que devemos estudar e debater.

Poder360, em seguida, faz um longa pergunta sobre o tema do Bolsa Família, que termina com uma quase acusação: "Essa concessão do reajuste do Bolsa Família 17 dias antes do 1º turno e a antecipação do pagamento do valor maior para antes do 2º turno é uma prática que o PT aceitaria se fosse tomada dessa mesma forma por um adversário político?" 

Edinho respondeu o que era possível de responder. Mas deixa de lado o maior problema dessa história: por qual motivo o reajuste não foi concedido antes? Que o presidente não soubesse, é compreensível. Mas que as pessoas que sabiam, tenham considerado normal não ter reajuste, isso não é compreensível. Para usar as palavras de Edinho, penalizamos milhões de famílias. Quem é responsável por isso? O que isso tem que ver com as regras do Novo Marco Fiscal?

Depois Poder360 diz que "o presidente falou que vai governar para todos os brasileiros. Não usou a palavra pacificação –e ainda provocou os derrotados. O que garante que desta vez haverá um esforço real para pacificar a relação entre os Três Poderes?" 

Edinho morde a isca e diz que "é necessário um esforço de pacificação do país" e que o quarto mandato de Lula será "um mandato comprometido com a pacificação do Brasil e com o diálogo com setores que votaram no bolsonarismo, mas que não possuem identidade ideológica com esse projeto". Obviamente que a quem está no governo, não interessa guerra. Mas tampouco interessa deixar que o crime prospere. O esforço para separar o joio do trigo, os criminosos dos que se deixaram engrupir, não pode implicar em cruzar certas fronteiras. Portanto, nessa pacificação não existe esquecimento, nem são os derrotados que podem impor condições.

Ciente da questão, Poder360 põe o dedo na ferida e diz o seguinte: "Uma das propostas recorrentes da oposição é promover a aplicação do PL da Dosimetria, que libertaria muitos dos condenados pelo 8 de Janeiro que ainda estão presos. O PL da Dosimetria foi aprovado pelo Congresso e vetado por Lula. O veto foi derrubado pelo Congresso e a lei entrou em vigor em 8 de maio. No dia seguinte, chegaram ações ao STF e a decisão está com Alexandre de Moraes. O que o PT defende a respeito dessa lei? Acha positivo ou negativo aplicar a lei já aprovada pelo Congresso?" 

A resposta que Edinho dá é correta, mas na defensiva: "Qualquer diálogo sobre a dosimetria das penas, se tiver de acontecer, deve ocorrer em um ambiente de pacificação nacional, quando tivermos superado esses ataques às instituições e à legitimidade do processo eleitoral brasileiro. Não podemos permitir que esse debate se sobreponha à necessidade de defender a democracia". 

Falando de outro jeito: a resposta é defensiva porque olvida que a cúpula da extrema-direita é criminosa e precisa ser julgada, condenada e presa. Flexibilizar na dosimetria vai nos levar ao debate da anistia. E essa não conduzirá à pacificação. Note-se que os que defendem a anistia são os mesmos que defendem reduzir a maioridade penal para 14 anos, que praticaram crimes variados contra eleitores petistas durante a campanha eleitoral e, em muitos casos, dizem compreender a evasão do Cavernícola Filho.

Percebendo a disposição de Edinho, Poder360 insiste: "No dia 25 de outubro (o domingo do 2º turno) a PF pediu 7 minutos depois de ser anunciado o resultado da eleição a retenção dos passaportes do senador Flávio Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes aceitou o pedido. O senador não entregou os documentos e fugiu do país. O presidente Lula já disse que Flávio foi covarde. Mas e o ato da Polícia Federal e a decisão do ministro Moraes? O sr. considera que foi uma medida adequada para ser tomada 7 minutos depois de encerrado o 2º turno?" 

A resposta de Edinho é curiosa: ele diz que não conhece "os motivos que levaram a Polícia Federal a fazer esse pedido, nem os fundamentos jurídicos que levaram o Supremo Tribunal Federal a deliberar sobre ele. Evidentemente, acredito que devam existir razões muito fortes para que essas medidas tenham sido adotadas". 

Ora, os motivos eram tão procedentes, que o Cavernícola Filho efetivamente fugiu do país, para escapar do devido processo legal.

Em seguida, Edinho diz que, "analisando exclusivamente do ponto de vista político, e não jurídico, considero que talvez a decisão tenha sido inoportuna naquele momento. Penso que poderia ter sido mais adequado aguardar a consolidação do resultado eleitoral e, posteriormente, caso houvesse necessidade, adotar as medidas cabíveis. Do ponto de vista político, tomar essa decisão alguns dias ou semanas depois talvez não alterasse sua finalidade, mas poderia contribuir para dar maior legitimidade política ao processo e evitar questionamentos sobre o momento em que ela foi adotada. Quero deixar muito clara essa distinção: estou fazendo uma avaliação política, não jurídica".

Não tenho a menor simpatia pelo ministro Xandão. Quando alguns o tratavam quase como um "guerreiro do povo brasileiro", sempre fiz questão de lembrar quem ele era, de onde vinha e do que já se demonstrara capaz. Isto posto, neste caso Xandão apanha por ter cão e por não ter cão. 

Falemos de outro jeito: a fuga já estava planejada. Ela não foi uma reação a retenção do passaporte. O irmão do Cavernícola, antes mesmo do segundo turno, já havia falado da fuga. Portanto, não é certo alimentar esta ficção do jurídico versus o político. O que deve ser dito, isso sim, é que não se tomaram as medidas necessárias para impedir a evasão do meliante.

Numa questão dessa gravidade - um miliciano que quase virou presidente da República - não é boa política ficar preocupado se isso ou aquilo "poderia enfraquecer qualquer tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como vítima e utilizar a decisão para alimentar questionamentos sobre o processo eleitoral." Cá entre nós, ele deveria ter sido preso antes da campanha eleitoral.

Poder360 pergunta, então, se o "PT acredita que já há elementos necessários para abrir um processo de impeachment contra um ou mais magistrados do Supremo?"

Edinho reitera uma de suas ficções preferidas - a de que no 8º Congresso do PT, aprovamos como prioridades tanto a reforma política e eleitoral quanto a reforma do Poder Judiciário. Na verdade, ocorreu o contrário: se abafou o debate a respeito. Seja como for, antes tarde do que nunca: é justa a defesa que ele faz da reforma do judiciário, porque o sistema apodreceu. Mas enquanto a reforma não vem, o que se deve fazer com os ministros do Supremo Tribunal Federal que foram comprados por Vorcaro? Se não cabe o impeachment, como proceder? Ou não devemos fazer nada a respeito?

Sobre a composição do governo, respondendo a outra pergunta de Poder360, Edinho diz que Lula defende "a construção da governabilidade a partir de um novo modelo de relação com os partidos políticos. (...) Isso significa que terão espaço no governo, inclusive com a participação em ministérios, os partidos que estiverem integralmente comprometidos com o quarto mandato do presidente Lula". 

Edinho mistura esta questão com outra: "O mesmo princípio será aplicado ao Partido dos Trabalhadores. Terão espaço no governo aqueles setores do PT que estiverem integralmente comprometidos com a construção do quarto mandato do presidente Lula e alinhados com as profundas transformações que o próprio partido precisará realizar Não vamos fortalecer, por meio da composição do governo, setores que não estejam comprometidos com esse processo de renovação e mudança do PT". 

Veja: se há setores do PT que merecem ser colocados no mesmo patamar de partidos da direita, então o problema não diz respeito à composição do governo, mas sim à composição do PT. 

A isso se agrega outro problema: parte, se não todos os alvos desta crítica de Edinho, apoiaram sua candidatura e sua chapa na disputa do PED em 2025. Logo, uma crítica tão virulenta precisa ser acompanhada de algum tipo de explicação. Não sabia com quem estava se aliando? 

Poder360 cai então no assunto do "forte ajuste para frear os gastos públicos. Qual área na sua opinião deveria ser alvo de cortes de gastos públicos?" 

A resposta de Edinho é totalmente defensiva: "mais do que o discurso, é a prática que demonstra o compromisso do presidente com o equilíbrio fiscal, com a racionalidade administrativa e com a qualificação do gasto público". O que precisaria ser ressaltado é que o lado de lá não quer "cortar gastos públicos"; pelo contrário, os juros altos fazem os gastos públicos crescerem. E, portanto, quem deseja fazer "ajuste" precisa enfrentar o tema dos juros e do serviço da dívida; e ampliar as receitas, cobrando impostos dos ricos.

Infelizmente, Edinho aborda o tema tributário também na defensiva. Perguntado sobre o "chamado imposto sobre grandes fortunas", ele responde que "não existe, dentro do Partido dos Trabalhadores, nenhum debate sobre a criação de novos impostos. Essa discussão nunca esteve presente na nossa campanha eleitoral, tampouco foi pautada pelo PT no último período. (...) O que defendemos é a continuidade de uma reforma da renda que reduza a carga tributária sobre quem trabalha e produz, enfrente as desonerações injustificadas e elimine privilégios. Precisamos construir um sistema tributário que seja instrumento de desenvolvimento econômico, de distribuição de renda e de justiça social. Não há como construir um país efetivamente justo sem enfrentar as desigualdades do nosso sistema tributário. A justiça social começa também pela justiça tributária".

Verdade: mas por qual motivo a "justiça tributária" não inclui, além do que é citado, um aumento dos impostos sobre os ricos? 

Poderr360 insiste: "a equipe econômica atual estuda passar a cobrar IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre aplicações financeiras hoje isentas de Imposto de Renda como LCI (Letra de Crédito Imobiliário), LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários), CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) e debêntures incentivadas. Hoje, esses investimentos têm alíquota zero de IOF. O PT é a favor desse novo imposto?"

Novamente, Edinho diz que "o que existe de consenso neste momento é a necessidade de enfrentarmos os privilégios existentes no sistema tributário brasileiro e avançarmos na construção de uma tributação mais justa. (...) Não há, neste momento, um detalhamento de medidas tributárias específicas. Portanto, qualquer afirmação sobre a adoção de um determinado imposto ou sobre mudanças pontuais na tributação é meramente especulativa". 

Poder360 introduz então o tema das bets: "O PT considera positiva a forma como foram proibidas as bets no Brasil, por meio de uma medida provisória? 

Resposta do Edinho: "O PT nunca formulou uma posição coletiva sobre as bets. O que existe é uma posição do governo do presidente Lula, com a qual penso que todos nós concordamos, diante da forma como as bets se desenvolveram no Brasil, provocando danos à renda das famílias brasileiras. (...) É evidente, porém, que a proibição das bets pode abrir espaço para que os jogos online se desenvolvam de forma clandestina, na ilegalidade. E o jogo ilegal, como demonstra a própria história do Brasil, pode acabar sendo apropriado pelo crime organizado e utilizado como instrumento de lavagem de dinheiro. Portanto, esse é um debate que precisamos aprofundar no próximo período, tendo sempre como perspectiva central a defesa e a preservação da renda das famílias brasileiras, mas também considerando os riscos de que a ilegalidade favoreça a atuação do crime organizado e transforme esse mercado em um ambiente propício à lavagem de dinheiro. Também precisamos considerar a construção de um processo de transição que leve em conta a presença das bets no financiamento do futebol brasileiro. É inegável que essas empresas passaram a ocupar um espaço importante não apenas no patrocínio dos clubes, mas em toda a cadeia econômica e na indústria do futebol. Por isso, penso que devemos buscar um caminho que estabeleça um ambiente de transição, com a preservação de direitos".

"Um caminho que estabeleça um ambiente de transição, com a preservação de direitos"... dos que ganharam dinheiro com as bets.

Edinho toma o cuidado de dizer que "essa é uma posição pessoal, não uma posição do governo ou uma formulação coletiva do PT". Mas notem que curioso: no tema dos impostos sobre os ricos, Edinho enfatiza que não existe a discussão. No tema das bets, ele próprio propõe a discussão, em caráter "pessoal". Entendam como quiserem.

Poder360 pergunta então sobre a "taxa das blusinhas". Novamente Edinho se vê a vontade para dar sua "posição pessoal". E ao responder, se torna mais compreensível ainda sua posição sobre as bets: "por trás da regulamentação e da não tributação das pequenas compras online, principalmente de roupas, outros interesses econômicos acabaram se beneficiando desse modelo, provocando danos significativos ao varejo brasileiro de maneira geral. Penso que é necessário construir uma mediação que considere também a realidade dos comerciantes brasileiros, especialmente dos pequenos comerciantes dos bairros e das periferias, que são diretamente impactados por essa concorrência". 

Já chegando ao final da entrevista, Poder360 pergunta se "o PT acertou ao defender uma transição tão rápida para o fim da 6 X 1?" 

Novamente, Edinho se agarra a bóia do diálogo: "se as regras de transição não contemplam adequadamente todos os setores da economia, penso que o diálogo nunca esteve fechado, nunca foi interditado" (...) "é necessário olhar para as particularidades de cada setor da economia brasileira e dialogar sobre as regras de transição, considerando suas diferentes realidades. Esse diálogo nunca foi interditado e deve continuar aberto". 

Minha opinião, ao terminar de ler a entrevista, é de que Edinho fala muito sobre o fascismo, fala muito sobre a crise do capitalismo, fala muito sobre a necessidade de grandes mudanças na sociedade e no PT, mas sua maneira de ver e operar a política continua totalmente prisioneira de outra época, que não existe mais.

Por isso mesmo, quando fala do Partido, ele não consegue perceber a relação direta que existe entre certos malfeitos que critica e a estratégia que ele próprio (e também os malfeitores) defende. Donde decorre que a chamada luta interna vai passar por momentos de grande confusão e muita demagogia. Mais um motivo para que a chamada esquerda do Partido coloque, no centro do debate, o tema da estratégia. Sem mudar a estratégia, o Partido continuará sendo engolido pela institucionalidade burguesa, com todos os efeitos colaterais conhecidos e reconhecidos.

(sem revisão)

Segue o texto analisado. 

PT deve abandonar projetos pessoais, diz Edinho Silva 

Presidente do PT acha que “amontoado de projetos pessoais” deixam projeto coletivo “em 2º plano” e afirma ser “inaceitável” conviver dentro da sigla “com práticas patrimonialistas” em que a estrutura partidária é utilizada “em algumas situações” até para “promover enriquecimento e crescimento patrimonial”

O presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e deputado federal eleito por São Paulo, Edinho Silva, 61 anos, acha que a legenda de Luiz Inácio Lula da Silva “não pode continuar convivendo com um amontoado de projetos pessoais, em que muitas vezes o projeto coletivo é colocado em 2º plano”. Para o dirigente petista, a sigla “em determinadas situações” acabou virando “um ajuntamento de mandatos”, com “mais poder do que as próprias instâncias partidárias”.

“Isso é inaceitável para um partido com as responsabilidades históricas e políticas do PT. Também não podemos conviver com práticas patrimonialistas, em que a estrutura partidária é utilizada para atender a interesses pessoais e, em algumas situações, até para promover enriquecimento e crescimento patrimonial. O partido não pode ser instrumento de interesses particulares”, diz Edinho numa longa entrevista ao Poder360.

Edinho não cita nomes nas suas críticas a certos hábitos internos do PT. Sua entrevista foi feita por telefone e também por escrito, com várias respostas sendo enviadas após o processo eleitoral de 2026. O presidente da legenda de esquerda mais tradicional do Brasil –que terá 70 deputados federais a partir de 2027– falou sobre vários temas que causam controvérsia na política brasileira.

Eis os temas abordados e o que disse Edinho: 

    • corte dos juros proposto por André Lara Resende – o economista André Lara Resende, 75 anos, um dos formuladores do Plano Real, sustenta que o Banco Central mantém a taxa básica de juros em patamar alto “em nome de uma teoria anacrônica”. Ele acha que deve ser criado um novo sistema que combine política monetária (controle da inflação) e fiscal (controle das despesas) e que assim seria possível cortar a taxa de juros drasticamente e de forma rápida. Confrontado com essa possibilidade, Edinho disse: “Essa proposta nunca foi debatida no PT ou com o presidente Lula, nem há agenda construída para isso”; 

    • presidências da Câmara e do Senado – Edinho Silva afirma que o PT será contra qualquer candidato de “inspiração fascista” e deve possivelmente acabar apoiando as reeleições (as disputas são em 1º de fevereiro de 2027) de Hugo Motta (para presidir a Câmara) e de Davi Alcolumbre (para o Senado). O objetivo, afirma, é que a legenda atue para impedir a chegada de representantes do “radicalismo” no comando das duas Casas;

    • anistia para o 8 de Janeiro – o presidente do PT diz que a prioridade neste momento segue sendo a defesa da democracia e não tratar de temas como a dosimetria de penas para os condenados pelo 8 de Janeiro. Afirma que “qualquer diálogo sobre a dosimetria das penas, se tiver de acontecer, deve ocorrer em um ambiente de pacificação nacional”;

    • apreensão do passaporte de Flávio Bolsonaro – o pedido para que o documento fosse retido foi feito pela Polícia Federal só 7 minutos depois de proclamado o resultado da eleição presidencial de 25 de outubro. “Exclusivamente do ponto de vista político, e não jurídico, considero que talvez a decisão tenha sido inoportuna naquele momento. Penso que poderia ter sido mais adequado aguardar a consolidação do resultado eleitoral e, posteriormente, caso houvesse necessidade, adotar as medidas cabíveis”, diz o petista. “Talvez o tempo permita compreender melhor por que a medida precisou ser tomada exatamente daquela maneira e naquele momento”;

    • impeachment de ministros do STF – o presidente do PT lembra que o partido decidiu em seu 8º Congresso Nacional (realizado em abril de 2026) que é necessária “tanto a reforma política e eleitoral quanto a reforma do Poder Judiciário”. Sobre punir algum ministro do Supremo Tribunal Federal, entretanto, ele é mais cauteloso: “Precisamos distinguir claramente as iniciativas que fortalecem a democracia daquelas que podem enfraquecê-la. Na minha avaliação, o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, nas circunstâncias atuais, enfraqueceria a democracia e as próprias instituições […] Precisamos corrigir rumos, enfrentar problemas e promover reformas urgentes para fortalecer a democracia brasileira. O que o PT não fará é aderir a iniciativas oportunistas que, sob o argumento de corrigir problemas, acabem fragilizando as instituições democráticas”;

    • fim das bets, futebol e transição – as apostas on-line foram proibidas por Lula em 25 de setembro de 2026. Foi uma decisão que calibrou uma preocupação do governo com endividamento dos brasileiros e também um interesse eleitoral. Proibir bets era algo que o marqueteiro de Lula, Sidônio Palmeira, achava que agradaria uma parte relevante do eleitorado e assim veio a MP das bets (nº 1.394). Edinho Silva diz que “o PT nunca formulou uma posição coletiva sobre as bets”. Diz concordar com a decisão de Lula, mas sabe que “a proibição das bets pode abrir espaço para que os jogos on-line se desenvolvam de forma clandestina, na ilegalidade, e o jogo ilegal pode acabar sendo apropriado pelo crime organizado e utilizado como instrumento de lavagem de dinheiro”. O presidente do PT defende “a construção de um processo de transição que leve em conta a presença das bets no financiamento do futebol brasileiro […] com a preservação de direitos”; 

    • fim da taxa das blusinhas – aconselhado por seu marqueteiro, Sidônio Palmeira, o presidente Lula decidiu em maio de 2026 acabar com a chamada taxa das blusinhas –um imposto federal que incidia sobre compras de valor unitário de até US$ 50 (cerca de R$ 270). Edinho diz que o PT não tem uma política unificada a respeito do tema. “Essa é uma posição pessoal. Precisamos preservar o direito dos setores populares de realizar compras online, [mas] penso que é necessário construir uma mediação que considere também a realidade dos comerciantes brasileiros [para] preservar o pequeno e o médio comércio e considerar os impactos dessa política sobre o conjunto do varejo brasileiro”; 

    • transição para o fim da escala 6 X 1 – o Congresso aprovou e já promulgou o fim da escala de 6 dias de trabalho por 1 de descanso a cada semana. Até antes do Natal de 2026, todas as empresas terão de reduzir a escala de 44 horas para 42 horas semanais. E no Natal de 2027, já estarão em vigor só as 40 horas semanais com 2 dias de descanso por semana. O Brasil é um dos países que reduziu a jornada de trabalho dando o tempo mais curto para que as empresas se adaptem. Edinho Silva diz ver espaço para negociar melhorias no processo de transição. “É necessário olhar para as particularidades de cada setor e dialogar sobre as regras de transição, considerando suas diferentes realidades”. 

A seguir, trechos da entrevista de Edinho Silva ao Poder360: 

Poder360 – O que o PT acha da proposta do economista André Lara Resende para mudar a política monetária e cortar a taxa de juros de maneira mais rápida? 

Edinho Silva – Essa proposta nunca foi debatida no PT ou com o presidente Lula, nem há agenda construída para isso. 

Qual foi o principal acerto e o principal erro do PT na campanha eleitoral de 2026? 

[ES] Uma eleição não se ganha nem se perde por um único fator. O resultado é consequência de um conjunto de circunstâncias, decisões e ações políticas construídas ao longo do processo eleitoral. A eleição de 2026 foi extremamente difícil, certamente uma das mais difíceis da história brasileira. Não enfrentamos apenas um candidato. Enfrentamos, sobretudo, um sentimento de mudança que já estava presente na sociedade antes mesmo do início da campanha. 

Esse sentimento não é exclusivo do Brasil. É um fenômeno mundial, resultado de profundas transformações econômicas e sociais. Desde a crise de 2008, a economia mundial enfrenta dificuldades para retomar um crescimento sustentável. Ao mesmo tempo, vivemos uma transformação do sistema produtivo talvez comparável, em sua profundidade, à Revolução Industrial. A incorporação da robótica, da informática e, mais recentemente, da inteligência artificial ao sistema produtivo e ao setor de serviços está transformando profundamente o mundo do trabalho. Essas mudanças, associadas à financeirização da economia, têm provocado concentração de renda, precarização das relações de trabalho e perda de poder aquisitivo de parcelas importantes da classe trabalhadora, especialmente dos setores médios e daqueles que tradicionalmente dependiam do emprego formal. Esse processo produz insatisfação e um sentimento generalizado de mudança. As pessoas vão às urnas, votam, mas não percebem melhorias significativas em suas condições de vida. Isso acaba colocando em xeque a própria democracia. É um sentimento que tem sido apropriado pela direita e pela extrema direita em diversas partes do mundo. Basta observar as últimas eleições na América Latina, nas quais, majoritariamente, os governos que estavam no poder foram derrotados. No Brasil, iniciamos o processo pré-eleitoral com esse sentimento já presente na sociedade. Ele se aprofundou com as denúncias envolvendo o Supremo Tribunal Federal. E, naturalmente, quem paga o maior preço político diante de um sentimento generalizado de mudança é quem está governando, é o incumbente. Além disso, enfrentamos a manifestação aberta do governo Trump contra a candidatura do presidente Lula, a atuação das big techs e um enorme poderio econômico. Basta comparar o volume de recursos arrecadados pela candidatura de Flávio Bolsonaro com as doações recebidas pela campanha do presidente Lula. 

Portanto, enfrentamos uma correlação de forças extremamente adversa. Mesmo nesse cenário, conseguimos construir importantes acertos políticos e organizativos. Organizamos palanques para o presidente Lula nos 27 Estados da Federação, algo inédito, e constituímos coordenações estaduais de campanha com a participação dos partidos aliados e dos movimentos sociais. Também realizamos um movimento político decisivo ao impedir que os partidos de centro aderissem à candidatura de Flávio Bolsonaro no 1º turno. Isso evitou que ele tivesse o dobro do nosso tempo de televisão e rádio. Analisando o resultado do 1º turno, considero que essa foi uma decisão estratégica muito acertada, talvez decisiva para as condições de disputa no segundo turno. Esse movimento certamente evitou uma margem maior na “abertura da dianteira”. Do ponto de vista da linha política, também considero correta a decisão de recuperar o legado do presidente Lula. O 3º governo Lula foi o mais exitoso da história brasileira em volume de entregas à população. Não poderíamos abrir mão desse legado. Era necessário demonstrar o que havia sido realizado e, ao mesmo tempo, sinalizar para o futuro. Quem fez poderia fazer ainda mais. O problema é que as denúncias envolvendo o Supremo fizeram com que o sentimento de mudança fosse capturado pela candidatura de Flávio. Mesmo com o presidente Lula defendendo as investigações e afirmando que ninguém estava acima da lei, sua condição de presidente dificultava que esse sentimento se identificasse com nossa candidatura. Quando conseguimos deslocar o protagonismo das denúncias e das decisões do Supremo do centro do debate eleitoral e estabelecer o confronto entre os projetos de país, já não havia tempo suficiente para reverter o sentimento que havia sido apropriado pela candidatura adversária. Não tenho dúvida de que esse foi um fator decisivo para a vitória de Flávio Bolsonaro no 1º turno. No 2º turno, entretanto, o cenário político mudou. Flávio passou a reivindicar de maneira mais explícita o legado do governo de seu pai e a defender suas políticas. Isso nos permitiu recuperar o verdadeiro confronto entre 2 projetos de país. Demonstramos o que representou o governo Bolsonaro: o congelamento do salário mínimo e das aposentadorias, o desmonte do SUS, a retirada de recursos da educação, as perdas de direitos e a condução do país durante a pandemia. Ao mesmo tempo, o apoio explícito do sistema financeiro à candidatura de Flávio Bolsonaro, as decisões de setores do TSE que consideramos favoráveis à sua campanha e a atuação ainda mais intensa das big techs tornaram evidente o alinhamento de sua candidatura com os interesses do sistema econômico e político dominante. Conseguimos, então, demonstrar que Flávio Bolsonaro representava a manutenção de um sistema de privilégios, inclusive econômicos, da elite brasileira, enquanto Lula representava um projeto democrático e popular, comprometido com os direitos e com a melhoria das condições de vida do povo brasileiro. Foi nesse momento que conseguimos disputar e conquistar o sentimento de mudança presente na sociedade. A candidatura de Lula passou a representar a possibilidade real de transformação, enquanto a de Flávio passou a ser identificada com a preservação dos privilégios. Essa distinção entre os 2 projetos criou as condições políticas para uma extraordinária mobilização popular. Os estudantes, de forma autônoma, começaram a ocupar as ruas em defesa do projeto de país representado pela candidatura do presidente Lula. A 1ª mobilização ocorreu com os estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e desencadeou manifestações em todo o Brasil, incorporando outros setores da sociedade. Construímos, certamente, a maior mobilização social da história brasileira, superior inclusive às mobilizações das Diretas Já e do Fora Collor. Essa mobilização também foi decisiva para reverter a lógica de que a direita era hegemônica nas redes sociais. Conseguimos criar as condições políticas para que a mobilização das ruas se refletisse nas redes, ampliando enormemente o alcance da nossa campanha. É fundamental reconhecer o papel do deputado André Janones nesse processo. Sua atuação foi muito importante. Foi também nesse momento que a estruturação dos palanques e das coordenações estaduais demonstrou toda a sua importância. As coordenações nos 27 Estados permitiram organizar os calendários de mobilização, articular as lideranças políticas, incorporar os movimentos sociais e construir as manifestações do Bora Lula. Conseguimos transformar a mobilização espontânea das ruas em um movimento político orgânico a campanha, de incorporação da linha política, com presença nos Estados, participação das lideranças políticas e enorme repercussão nas redes sociais. Essa combinação foi fundamental para construir a vitória do presidente Lula. Mas é evidente que também tivemos dificuldades importantes. Embora tivéssemos palanques nos 27 Estados, enfrentamos problemas para fazer os materiais de campanha chegarem a todos eles. Também tivemos dificuldades na gestão das contradições políticas locais. Uma parte significativa da energia da coordenação nacional foi consumida na administração de conflitos e na busca de coesão política entre as diferentes forças que integravam a campanha. Tivemos ainda dificuldades estruturais e financeiras. Uma campanha presidencial dessa dimensão, com candidaturas próprias ou de aliados aos governos estaduais, ao Senado e às disputas proporcionais nos 27 Estados, naturalmente gera demandas muito superiores à capacidade de atendimento. Nossa prioridade absoluta era a campanha do presidente Lula. Isso provocou, em muitos momentos, conflitos com candidaturas proporcionais, aos governos estaduais e ao Senado, que também necessitavam de recursos e estrutura. Não tínhamos condições de atender a todas essas demandas. Portanto, tivemos problemas de organização, distribuição de materiais, gestão política e limitações financeiras que precisam ser reconhecidos e avaliados. Mas o balanço final é positivo porque a campanha foi vitoriosa. Enfrentamos um sentimento de mudança que, no 1º turno, havia sido capturado pela direita, especialmente em razão das denúncias envolvendo o Poder Judiciário. Enfrentamos o governo Trump, as big techs, o poder econômico brasileiro e, em momentos importantes, também setores dos meios de comunicação. Mesmo diante dessa correlação de forças, conseguimos reorganizar a disputa política, vincular a candidatura do Lula a mobilização da sociedade, das ruas, ampliar nossa presença nas redes e construir a vitória. 

O principal acerto foi nossa capacidade de construir uma ampla articulação política e transformar o confronto entre dois projetos de país em linha política de uma extraordinária mobilização popular, autônoma, “e fora de controle”; mas com o mesmo discurso. Nosso principal erro, ou nossa maior dificuldade, foi não conseguir disputar desde o 1º turno o sentimento de mudança presente na sociedade, além dos problemas de organização e gestão da campanha nos estados. Uma vitória eleitoral é sempre a síntese de um processo político. E a vitória do presidente Lula foi construída pela capacidade de superar dificuldades, corrigir rumos, apoiar a mobilização do povo brasileiro em defesa de um projeto democrático e popular. 


O presidente Lula, depois do 1º turno, disse que teve a campanha mais desorganizada de todas. A que o presidente se referia? 


Como já manifestei, tivemos muitas dificuldades no 1º turno, principalmente em relação à organização estrutural da campanha e à insuficiência de recursos para executar nossa estratégia eleitoral nos 26 Estados e no Distrito Federal. Desde o início, estabelecemos que a prioridade absoluta dos recursos seria a campanha do presidente Lula. E considero que acertamos nessa decisão. De nada adiantaria termos destinado mais recursos às candidaturas proporcionais, ao Senado ou aos governos estaduais se tivéssemos perdido a eleição presidencial. Evidentemente, essa prioridade causou conflitos, descontentamentos e críticas à coordenação nacional. As candidaturas estaduais tinham demandas legítimas, mas não tínhamos condições financeiras de atender a todas elas. Também enfrentamos dificuldades importantes na área de comunicação, especialmente na produção e distribuição dos materiais de campanha. Inicialmente, tentamos descentralizar a produção, regionalizando a elaboração dos materiais. Essa estratégia não funcionou. Em muitos Estados, os materiais simplesmente não chegavam. Reconhecemos o problema e corrigimos rapidamente, concentrando a produção e a distribuição nos grandes centros. Essa mudança funcionou e permitiu superar as dificuldades iniciais. O presidente Lula, ao percorrer os Estados, recebia muitas reclamações sobre a falta de materiais e sobre as limitações estruturais da campanha. Foi principalmente a essas dificuldades que ele se referiu quando, na passagem do 1º para o 2º turno, tornou públicas suas críticas à organização da campanha. O presidente tinha razão. Os Estados também tinham razão em suas reclamações. De fato, cometemos um erro ao tentar descentralizar a produção dos materiais e enfrentamos dificuldades financeiras muito grandes. Mas é importante compreender que não tínhamos recursos suficientes para estruturar a campanha da maneira como todas as candidaturas estaduais desejavam. Nossa prioridade era garantir a reeleição do presidente Lula. Não individualizo responsabilidades. Não é da minha prática atribuir os erros a uma ou outra pessoa. Uma coordenação de campanha acerta coletivamente e também erra coletivamente. Da mesma forma, não vou responsabilizar individualmente a comissão que estabeleceu os critérios de distribuição dos recursos. Esses critérios foram aprovados pelo Grupo de Trabalho Eleitoral. Como presidente do PT, considero que tanto os acertos quanto os erros dessas decisões são responsabilidades coletivas, que também assumo. O mais importante é que tivemos capacidade de reconhecer os problemas e corrigi-los. Se não tivéssemos feito isso, não teríamos vencido as eleições. É inegável que cometemos erros, mas também é inegável que tivemos muitos acertos. Conseguimos construir a vitória do presidente Lula enfrentando uma correlação de forças extremamente adversa, o poder econômico, a atuação das big techs, a oposição do governo Trump e, em diversos momentos, setores dos meios de comunicação. Portanto, reconheço as dificuldades apontadas pelo presidente Lula. Elas foram reais e precisaram ser superadas. Mas também considero fundamental reconhecer a capacidade política e organizativa que tivemos para corrigir os rumos da campanha e construir a vitória. Uma campanha que enfrenta todas essas adversidades, reconhece seus erros, corrige suas dificuldades e consegue vencer uma eleição tão difícil é, necessariamente, uma campanha vitoriosa. 


Havia no PT um debate sobre o que fazer no caso de derrota de Lula: quem deveria comandar o partido. A sua presidência seria contestada. Hoje, como está a política interna do PT? Foi pacificada e não será necessário um novo PED em 2027? 

Primeiro, é importante dizer que um partido como o PT, que tem uma ampla democracia interna, convive naturalmente com críticas e divergências. Eu não me importo com as críticas, nem me abalo com elas. Até porque reconheço de onde vêm essas críticas. Minha candidatura à presidência do PT nunca foi unânime. Quando disputei o último PED (Processo de Eleições Diretas), enfrentei resistências de um núcleo dirigente que comandava o partido naquele momento. Esse núcleo só passou a apoiar minha candidatura na reta final do processo, quando ela já estava consolidada e havia construído maioria dentro do PT. Também nunca escondi que fui eleito presidente do PT defendendo mudanças profundas no partido. Algumas decisões importantes foram adiadas em função da eleição presidencial, para que não criássemos um ambiente de divisão interna que pudesse prejudicar a candidatura do presidente Lula. Mas essas decisões terão que ser tomadas. Eu fui eleito presidente do PT para fazer mudanças. Não vou abrir mão da plataforma que apresentei ao partido em 2025. Vou trabalhar para que essas transformações aconteçam. O PT não pode continuar convivendo com um amontoado de projetos pessoais, em que muitas vezes o projeto coletivo é colocado em segundo plano. Em determinadas situações, o partido se transformou em um ajuntamento de mandatos parlamentares, nos quais os mandatos têm mais poder do que as próprias instâncias partidárias. Isso é inaceitável para um partido com as responsabilidades históricas e políticas do PT. Também não podemos conviver com práticas patrimonialistas, em que a estrutura partidária é utilizada para atender a interesses pessoais e, em algumas situações, até para promover enriquecimento e crescimento patrimonial. O partido não pode ser instrumento de interesses particulares. Precisamos recuperar a centralidade do projeto coletivo, fortalecer nossas instâncias democráticas e, principalmente, voltar a priorizar a organização de base. As mobilizações que ajudaram a construir a vitória do presidente Lula demonstraram que existe na sociedade um sentimento profundo de mudança, inclusive em relação ao modelo político e à maneira de fazer política. O PT precisa ser o representante e o catalisador desse sentimento. Para isso, precisamos estar presentes de forma orgânica na vida da sociedade, recuperar a organização nos territórios e utilizar a internet e as redes sociais como instrumentos para ampliar e fortalecer essa presença. Também precisamos compreender as profundas transformações do mundo do trabalho. O crescimento do empreendedorismo não pode ser interpretado simplesmente como uma parcela da classe trabalhadora capturada pelo neoliberalismo. Para milhões de brasileiros, empreender é uma forma de sobrevivência, de enfrentar o desemprego, a precarização do trabalho, a perda de renda e a deterioração dos salários. O empreendedorismo também é uma realidade dos setores populares. O PT precisa dialogar com esses trabalhadores, com os microempreendedores e com os micro e pequenos empresários, que muitas vezes também são economicamente oprimidos. Da mesma forma, precisamos enfrentar temas que hoje estão no centro das preocupações da sociedade. A segurança pública, por exemplo, é um direito do trabalhador e da trabalhadora. O PT precisa apresentar respostas concretas a esse desafio. Precisamos também formular um projeto de desenvolvimento para a Amazônia. Não podemos nos limitar a dizer o que não pode ser feito na região. Precisamos dizer o que pode, qual modelo de desenvolvimento econômico defendemos, como gerar riqueza, melhorar a renda e garantir condições dignas de vida para a população amazônica. A possibilidade de exploração de petróleo na Costa Equatorial coloca novos desafios e oportunidades. Precisamos discutir como essa riqueza pode contribuir para o desenvolvimento da região, ao mesmo tempo em que avançamos na transição energética, na produção de energia limpa e na construção de uma sociedade ambientalmente sustentável. 

Essas questões precisam fazer parte do cotidiano político do PT. Também precisamos defender uma profunda reforma política e eleitoral. Não podemos continuar convivendo com um modelo em que o Congresso Nacional, muitas vezes, se transforma em um balcão de negócios, e em que as emendas parlamentares, como demonstram diversas denúncias, podem se tornar instrumentos de corrupção. Precisamos defender também uma reforma do Poder Judiciário, capaz de aproximar a Justiça e o Ministério Público da realidade e das necessidades do povo brasileiro. Não é aceitável que essas instituições permaneçam tão distantes do cotidiano da população. O PT precisa ser um instrumento dessas transformações. Precisa representar o sentimento de mudança que cresce na sociedade e apresentar um projeto político capaz de responder aos desafios do século 21. Evidentemente, para que isso aconteça, teremos que enfrentar e superar contradições internas. Estou inteiramente disposto a fazer esse debate de maneira democrática, mas também com muita firmeza. Não tenho compromisso com a manutenção de estruturas ou práticas que impeçam o PT de se renovar. Meu compromisso é com o fortalecimento do partido, com seu projeto coletivo e com sua capacidade de continuar sendo um instrumento de transformação da sociedade brasileira. O PT não pode deixar de ser o partido da mudança, o partido da transformação e um grande instrumento de luta do povo brasileiro. 

O PT vai sustentar a candidatura de Hugo Motta para presidente da Câmara. No caso de Davi Alcolumbre, o presidente Lula já disse que o PT deve apoiá-lo para presidente do Senado. Na sua avaliação, qual a chance de sucesso dessas duas candidaturas para comandar o Congresso em 2027? 

Penso que a prioridade, neste momento, é impedir que o radicalismo representado pela candidatura de Flávio Bolsonaro, marcado pela intolerância, pelo ódio, pela negação do diálogo e pelo enfrentamento à democracia, conquiste hegemonia no Congresso Nacional. Na minha avaliação, são manifestações políticas de inspiração fascista, que não podem ganhar força nem na Câmara dos Deputados nem no Senado Federal. Nesse sentido, cabe aos partidos do campo democrático construir uma ampla articulação política, independentemente das divergências que existam entre nós, das críticas que possamos fazer uns aos outros e das diferenças entre os projetos que representamos na sociedade. O momento exige que tenhamos clareza sobre o que é prioritário: impedir que representantes desse radicalismo, que considero de inspiração fascista, conquistem o comando das duas Casas do Congresso Nacional. Por isso, a orientação do PT é trabalhar pela construção de um amplo arco de alianças entre as forças democráticas, reconhecendo nossas diferenças e contradições, mas compreendendo a importância de uma unidade política em defesa da democracia. Se essa construção resultar na unidade em torno da candidatura de Hugo Motta à presidência da Câmara e de Davi Alcolumbre à presidência do Senado, o PT apoiará as duas candidaturas. O fundamental é construir uma maioria democrática capaz de impedir que esse campo político de inspiração fascista amplie seu poder e conquiste a direção do Congresso Nacional. 

No caso do Senado, acha que a oposição (sobretudo os partidos de direita) terá condições de formar um bloco para barrar a eleição de Alcolumbre? 

Penso que, se os partidos do campo democrático tiverem capacidade de construir uma unidade política, compreendendo a importância do momento histórico que o Brasil atravessa, teremos condições de derrotar a ultradireita no Congresso Nacional. É evidente que existem divergências e contradições entre os partidos desse campo. Representamos projetos políticos diferentes e temos visões distintas sobre diversos temas. Mas precisamos compreender que, neste momento, mais importante do que nossas diferenças é construir uma vitória política que impeça o avanço de manifestações que, na minha avaliação, são de inspiração fascista. Se tivermos essa compreensão e capacidade de colocar a defesa da democracia acima das divergências conjunturais, acredito que teremos condições de construir uma maioria no Senado e impedir que a ultradireita conquiste o comando da Casa. Portanto, acredito que a unidade das forças democráticas é o caminho para derrotar esse campo político e garantir uma vitória no Senado Federal. 

O presidente Lula chamou militantes jovens para que ajudassem no 2º turno da campanha de 2026. O grande organizador nas redes sociais foi o deputado André Janones, que é filiado à Rede. Por que o PT não estimulou antes quadros como Janones para conduzir esse tipo de interação com os eleitores na internet? 

Como já disse, não é verdade que o PT não tenha estimulado a mobilização nas redes sociais. Nós estimulamos muito. O problema é que enfrentamos uma conjuntura política extremamente adversa, que dificultava qualquer iniciativa de comunicação e mobilização. As denúncias envolvendo o Supremo Tribunal Federal criaram uma verdadeira cortina de fumaça sobre o debate eleitoral. Praticamente qualquer iniciativa ou tema que tentávamos apresentar à sociedade acabava sendo ofuscado por esse ambiente político. 

Durante parte do 1º turno, foi praticamente impossível romper essa cortina de fumaça e estabelecer um diálogo com a sociedade sobre os projetos de país em disputa. Começamos a superar essa dificuldade na reta final do 1º turno e, principalmente, no 2º turno, quando conseguimos estabelecer com clareza a polarização entre 2 projetos de Brasil. A participação do deputado André Janones foi muito importante nesse processo, assim como já havia sido na eleição de 2022. No 1º turno, ele estava concentrado em sua própria candidatura a deputado federal. No 2º turno, passou a contribuir diretamente para a mobilização nacional em apoio ao presidente Lula. Quando Janones se propôs a organizar o canal de WhatsApp chamado Exército do Lula, conseguimos transformar a extraordinária mobilização que acontecia nas ruas em uma força também presente nas redes sociais. Foi a mobilização política na vida real que criou as condições para o crescimento da mobilização virtual. As manifestações populares, especialmente dos estudantes e de outros setores da sociedade, produziram um ambiente político que se refletiu diretamente nas redes. Portanto, não foi falta de estímulo do PT. O que mudou no 2º turno foram as condições políticas para que nossas iniciativas de comunicação e mobilização alcançassem a sociedade. A combinação entre a mobilização nas ruas, a organização nas redes sociais e a contribuição fundamental de André Janones explica, na minha avaliação, o crescimento extraordinário da nossa presença digital no 2º turno. 

O Brasil tem 5.560 cidades. Em 2.647 cidades há mais beneficiários do Bolsa Família do que pessoas com Carteira de Trabalho assinada. A 17 dias do 1º turno, Lula disse que não havia sido informado que o benefício havia ficado 3 anos e meio sem reajuste. Anunciou um aumento de 15% no valor base do Bolsa Família, que subiu de R$ 600 para R$ 691. O pagamento com o reajuste seria no final de outubro, mas foi antecipado para antes do 2º turno. Nas 2.647 cidades com prevalência do Bolsa Família, o presidente Lula elevou sua votação do 1º turno para o 2º turno de 62,97% para 68,15% (foram 2.091.396 votos a mais nessas localidades: metade da diferença geral que deu a vitória a Lula). Vários governos baixam medidas para melhorar a popularidade antes de uma eleição. No caso do presidente Lula, foram medidas em período muito próximo à eleição. Essa concessão do reajuste do Bolsa Família 17 dias antes do 1º turno e a antecipação do pagamento do valor maior para antes do 2º turno é uma prática que o PT aceitaria se fosse tomada dessa mesma forma por um adversário político? 

Penso que cada circunstância merece uma análise específica. Não podemos tratar todas as questões como se fossem iguais. O Bolsa Família, por exemplo, é um programa já instituído, com dotação orçamentária prevista. Portanto, não foi necessária a criação de uma nova despesa, mas apenas a atualização de valores com base no índice inflacionário. Penso que, quando a questão é caracterizada dessa forma, não há problema algum. É importante compreender também que o Bolsa Família é um programa de transferência de renda destinado às famílias em situação de vulnerabilidade social. É um instrumento fundamental de combate à pobreza e à fome, mas também de promoção da inclusão social e econômica. E os resultados demonstram que o Bolsa Família é um programa que tem porta de entrada e porta de saída. 

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, mais de 5,1 milhões de famílias deixaram de necessitar do benefício de março de 2023 a abril de 2026, em razão do aumento da renda ou após cumprirem o período previsto na Regra de Proteção. Isso demonstra que o programa não significa dependência permanente do Estado. Ao contrário, ele oferece proteção social enquanto as famílias buscam melhores condições de vida e maior autonomia econômica. É evidente que o Bolsa Família pode e deve ser aperfeiçoado. Nenhuma política pública é estática, nenhuma política pública tem cláusula pétrea. Os programas precisam acompanhar as transformações da sociedade e ser permanentemente avaliados e aprimorados. Em relação ao reajuste, é preciso compreender a dimensão das responsabilidades de um presidente da República. O presidente Lula precisa acompanhar os grandes temas nacionais, definir as prioridades, estabelecer as diretrizes e orientar as políticas de todos os ministérios. É praticamente impossível exigir que o presidente conheça todos os detalhes administrativos de cada programa do governo. Seria como exigir que ele soubesse, pessoalmente, de cada reajuste do Bolsa Atleta, de cada atualização do Pé-de-Meia, dos subsídios do Minha Casa, Minha Vida ou dos índices de inadimplência do Plano Safra. Essas são responsabilidades administrativas dos ministérios, que precisam acompanhar a execução dos programas e informar ao presidente as questões que exigem decisões políticas. 

Quando o presidente Lula tomou conhecimento de que o Bolsa Família não havia recebido a recomposição inflacionária e verificou que existia dotação orçamentária para realizar o reajuste, tomou a decisão correta. Não faria sentido deixar de corrigir o valor do benefício simplesmente porque estávamos em um período eleitoral. Isso significaria continuar penalizando milhões de famílias que já haviam perdido poder de compra em razão da inflação acumulada. Estamos falando de quase R$ 100 a mais por família. Para quem vive em situação de vulnerabilidade, esse dinheiro faz uma enorme diferença. Significa mais comida na mesa, melhores condições de alimentação e maior capacidade de atender às necessidades básicas da família. Por que essas famílias deveriam continuar sendo penalizadas apenas porque o país estava vivendo uma eleição? O presidente Lula acertou ao determinar a recomposição do benefício. Foi uma decisão necessária e socialmente justa. Reafirmo que o Bolsa Família precisa continuar sendo aprimorado, inclusive para fortalecer os mecanismos de inclusão produtiva, qualificação profissional e acesso ao mercado de trabalho. Mas ninguém pode negar a importância desse programa para milhões de brasileiros. O Bolsa Família é uma política de proteção social que também cria condições para a superação da pobreza. Os dados das famílias que deixaram o programa demonstram que ele tem porta de entrada e porta de saída. E a decisão de recompor o poder de compra dos beneficiários foi correta, independentemente do calendário eleitoral. 

O presidente Lula, ao vencer a disputa no 2º turno, fez duas menções derrogatórias ao grupo derrotado. Primeiro, disse ter vencido o “representante genuíno do milicianismo”. Depois, fez uma citação bem-humorada, mas também em tom negativo: “O Corinthians está parecendo o Bolsonaro: só perde”. O presidente falou que vai governar para todos os brasileiros. Não usou a palavra pacificação –e ainda provocou os derrotados. O que garante que desta vez haverá um esforço real para pacificar a relação entre os Três Poderes? 

Penso que a derrota imposta ao bolsonarismo nessas eleições é uma derrota histórica, com impacto nacional, na América do Sul, na América Latina e também com grande repercussão internacional. Diante de uma vitória tão significativa, é necessário um esforço de pacificação do país. Precisamos disputar uma parcela da sociedade que foi hegemonizada pelo bolsonarismo, pela ultradireita e, inclusive, pelo pensamento fascista. Há setores da sociedade que foram influenciados por esse pensamento, mas que não possuem identidade ideológica com ele. São setores que precisam ser disputados para que possamos construir uma maioria na sociedade. Não basta formarmos uma maioria institucional no país. Precisamos construir uma maioria social. O presidente Lula tem essa compreensão e tem sinalizado nesse sentido. Penso que seu 4º mandato será, sim, um mandato comprometido com a pacificação do Brasil e com o diálogo com setores que votaram no bolsonarismo, mas que não possuem identidade ideológica com esse projeto. Precisamos construir uma maioria na sociedade para restabelecer as relações de convivência democrática, promover a paz e derrotar a intolerância e o ódio. 

O presidente Lula foi muito claro em seu pronunciamento após a proclamação da vitória: afirmou que vai governar para todas as brasileiras e todos os brasileiros, tanto para aqueles que votaram nele quanto para aqueles que não votaram. 

Uma das propostas recorrentes da oposição é promover a aplicação do PL da Dosimetria, que libertaria muitos dos condenados pelo 8 de Janeiro que ainda estão presos. O PL da Dosimetria foi aprovado pelo Congresso e vetado por Lula. O veto foi derrubado pelo Congresso e a lei entrou em vigor em 8 de maio. No dia seguinte, chegaram ações ao STF e a decisão está com Alexandre de Moraes. O que o PT defende a respeito dessa lei? Acha positivo ou negativo aplicar a lei já aprovada pelo Congresso? 

Penso que a prioridade do Brasil, neste momento, não é o debate sobre a dosimetria das penas. A prioridade absoluta deve ser a defesa da democracia, das instituições brasileiras e da legitimidade do nosso processo eleitoral. Não podemos minimizar a gravidade dos ataques que Flávio Bolsonaro vem fazendo ao resultado das eleições, ao Tribunal Superior Eleitoral e às instituições democráticas do país. Esses ataques são extremamente prejudiciais à democracia brasileira e acabam alimentando, inclusive, declarações do governo Trump que não têm nenhum fundamento. O processo eleitoral brasileiro foi legítimo e reconhecido internacionalmente. Não há justificativa para colocar em dúvida a vontade soberana do povo brasileiro expressa nas urnas. Considero extremamente oportunista a postura de Flávio Bolsonaro. Ele não questionou o sistema eleitoral quando seus aliados conquistaram uma parcela expressiva das cadeiras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Também não questionou a legitimidade das eleições quando seus aliados elegeram governadores e governadoras. Por que, então, questionar a legitimidade do mesmo processo eleitoral quando o resultado da eleição presidencial não lhe foi favorável? Essa postura é muito ruim para o país, porque estimula a radicalização política e coloca sob ataque instituições fundamentais para o funcionamento da democracia. Qualquer diálogo sobre a dosimetria das penas, se tiver de acontecer, deve ocorrer em um ambiente de pacificação nacional, quando tivermos superado esses ataques às instituições e à legitimidade do processo eleitoral brasileiro. Não podemos permitir que esse debate se sobreponha à necessidade de defender a democracia. Para mim, a prioridade absoluta, neste momento da história brasileira, é a defesa das nossas instituições, do resultado legítimo das eleições e da democracia brasileira. 

No dia 25 de outubro (o domingo do 2º turno) a PF pediu 7 minutos depois de ser anunciado o resultado da eleição a retenção dos passaportes do senador Flávio Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes aceitou o pedido. O senador não entregou os documentos e fugiu do país. O presidente Lula já disse que Flávio foi covarde. Mas e o ato da Polícia Federal e a decisão do ministro Moraes? O sr. considera que foi uma medida adequada para ser tomada 7 minutos depois de encerrado o 2º turno? 


Eu não conheço os motivos que levaram a Polícia Federal a fazer esse pedido, nem os fundamentos jurídicos que levaram o Supremo Tribunal Federal a deliberar sobre ele. Evidentemente, acredito que devam existir razões muito fortes para que essas medidas tenham sido adotadas. Mas, analisando exclusivamente do ponto de vista político, e não jurídico, considero que talvez a decisão tenha sido inoportuna naquele momento. Penso que poderia ter sido mais adequado aguardar a consolidação do resultado eleitoral e, posteriormente, caso houvesse necessidade, adotar as medidas cabíveis. Do ponto de vista político, tomar essa decisão alguns dias ou semanas depois talvez não alterasse sua finalidade, mas poderia contribuir para dar maior legitimidade política ao processo e evitar questionamentos sobre o momento em que ela foi adotada. Quero deixar muito clara essa distinção: estou fazendo uma avaliação política, não jurídica. Não conheço os elementos que fundamentaram a decisão e, portanto, não tenho condições de questionar sua necessidade do ponto de vista legal. Talvez o tempo permita compreender melhor por que a medida precisou ser tomada exatamente daquela maneira e naquele momento. Mas, politicamente, considero que teria sido mais adequado aguardar um período após a eleição, porque isso poderia enfraquecer qualquer tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como vítima e utilizar a decisão para alimentar questionamentos sobre o processo eleitoral. Reafirmo que essa é uma avaliação exclusivamente política, sem qualquer julgamento sobre os fundamentos jurídicos que motivaram a atuação da Polícia Federal e a decisão do Supremo Tribunal Federal. 

Há questionamentos no Congresso sobre atuação de ministros do STF. O PT acredita que já há elementos necessários para abrir um processo de impeachment contra um ou mais magistrados do Supremo? 

Eu e o Partido dos Trabalhadores defendemos que seja realizada, com urgência, uma profunda reforma do Poder Judiciário brasileiro. É importante lembrar que, no 8º Congresso do PT, aprovamos como prioridades tanto a reforma política e eleitoral quanto a reforma do Poder Judiciário. Portanto, não se trata de uma posição oportunista ou de uma reação às circunstâncias atuais. É uma posição que foi construída ao longo de 2025 e consolidada democraticamente no Congresso do partido. Considero que essas duas reformas são urgentes e fundamentais para o fortalecimento da democracia brasileira. Como o próprio presidente Lula afirmou, o sistema apodreceu. É uma afirmação forte, mas que considero histórica, porque traduz a necessidade de enfrentarmos problemas estruturais que comprometem a confiança da sociedade nas instituições. O sistema precisa ser reformado para o bem da democracia, para recuperar a confiança da população nas instituições e para fortalecer os mecanismos que garantem o funcionamento do Estado democrático de Direito. Por isso, defendo que tenhamos coragem política para realizar as mudanças necessárias, tanto no sistema político e eleitoral quanto no Poder Judiciário. Mas precisamos distinguir claramente as iniciativas que fortalecem a democracia daquelas que podem enfraquecê-la. 

Na minha avaliação, o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, nas circunstâncias atuais, enfraqueceria a democracia e as próprias instituições. Isso não significa negar a necessidade de mudanças. Ao contrário, precisamos corrigir rumos, enfrentar problemas e promover reformas urgentes para fortalecer a democracia brasileira. O que o PT não fará é aderir a iniciativas oportunistas que, sob o argumento de corrigir problemas, acabem fragilizando as instituições democráticas. Nossa posição é clara: defendemos reformas profundas e urgentes no Poder Judiciário e no sistema político-eleitoral, mas não faremos coro a medidas que possam enfraquecer a democracia brasileira. 


Como deve ser montado o governo do presidente Lula no 4º mandato: com o mesmo tipo de divisão de cargos na Esplanada ou uma outra fórmula será seguida? 


Os primeiros diálogos do presidente Lula e a orientação que ele nos transmitiu apontam para a construção da governabilidade a partir de um novo modelo de relação com os partidos políticos. O presidente Lula, e considero que ele está absolutamente correto, entende que a governabilidade precisa ser construída por meio do fortalecimento dos partidos, e não de acordos fragmentados ou individuais. Isso significa que terão espaço no governo, inclusive com a participação em ministérios, os partidos que estiverem integralmente comprometidos com o 4º mandato do presidente Lula. Não vamos trabalhar com a lógica de oferecer um ministério para a bancada de determinado partido na Câmara e outro para sua representação no Senado. A relação será construída com os partidos enquanto instituições políticas. 

Para participar do governo, o partido deverá assumir integralmente o compromisso de sustentação política do presidente Lula, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. Essa orientação valerá para os aliados históricos, que estiveram conosco durante a campanha eleitoral, e também para os partidos que venham a integrar a base de governabilidade após as eleições. O mesmo princípio será aplicado ao Partido dos Trabalhadores. Terão espaço no governo aqueles setores do PT que estiverem integralmente comprometidos com a construção do 4º mandato do presidente Lula e alinhados com as profundas transformações que o próprio partido precisará realizar Não vamos fortalecer, por meio da composição do governo, setores que não estejam comprometidos com esse processo de renovação e mudança do PT. Precisamos construir um governo politicamente coeso, com unidade em torno de um projeto estratégico de futuro para o Brasil. O 4º mandato do presidente Lula será um mandato de legado. Um mandato histórico, no qual teremos a oportunidade de estabelecer os parâmetros para que o Brasil se consolide como uma potência emergente no século 21. Para alcançar esse objetivo, será indispensável construir unidade política entre as forças que darão sustentação ao governo, com compromissos claros, responsabilidade coletiva e alinhamento em torno de um projeto nacional de desenvolvimento. Essa será a lógica da construção da base política e da composição do quarto mandato do presidente Lula: fortalecimento dos partidos, compromisso integral com a governabilidade e unidade em torno de um projeto histórico para o futuro do Brasil. 

Especialistas dizem que a economia precisará de um forte ajuste para frear os gastos públicos. Qual área na sua opinião deveria ser alvo de cortes de gastos públicos? 


Primeiro, é importante recuperar, mais uma vez, que o presidente Lula assumiu o país com um déficit de 2,6% nas contas públicas e está apresentando uma Lei Orçamentária Anual (LOA) com previsão de superavit. Portanto, mais do que o discurso, é a prática que demonstra o compromisso do presidente com o equilíbrio fiscal, com a racionalidade administrativa e com a qualificação do gasto público. O presidente Lula tem destacado a necessidade de realizarmos uma reforma do Estado brasileiro, para evitar despesas desnecessárias, racionalizar os gastos públicos e, com isso, ampliar a capacidade de investimento do governo. O modelo de país que o presidente Lula pretende construir pressupõe um Estado com capacidade de investimento, inclusive para fomentar a iniciativa privada e sinalizar ao setor produtivo qual é o projeto de desenvolvimento que queremos implementar no próximo período. 

Há uma discussão sobre criar o chamado imposto sobre grandes fortunas. O PT é a favor da criação desse novo imposto? Se sim, a partir de qual valor o patrimônio será considerado uma “grande fortuna”? Essa proposta pode ser aprovada ainda em 2026? 

Não existe, dentro do Partido dos Trabalhadores, nenhum debate sobre a criação de novos impostos. Essa discussão nunca esteve presente na nossa campanha eleitoral, tampouco foi pautada pelo PT no último período. O que existe de consenso no PT é que precisamos dar continuidade às políticas de reforma da renda e avançar na construção de um sistema tributário mais justo. É necessário aprofundar a desoneração dos salários, reduzir a carga tributária sobre o empreendedorismo e, principalmente, diminuir o peso dos tributos sobre as micro, pequenas e médias empresas. Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar uma questão fundamental: a revisão das desonerações fiscais existentes no Brasil. É urgente avaliar todas as desonerações que hoje são financiadas pelo conjunto da sociedade brasileira. Precisamos saber quais delas efetivamente atendem ao interesse público, quais são estratégicas para o desenvolvimento econômico e quais representam benefícios que não se justificam. Essa revisão precisa ser feita com responsabilidade, mas também com coragem política. Da mesma forma, precisamos combater os privilégios tributários. O Brasil não pode continuar convivendo com um sistema em que trabalhadores, empreendedores, prestadores de serviços e pequenas e médias empresas pagam tributos, enquanto determinados setores econômicos desfrutam de condições privilegiadas. Não é aceitável que o peso do financiamento do Estado recaia de maneira desigual sobre a sociedade brasileira. O que defendemos é a continuidade de uma reforma da renda que reduza a carga tributária sobre quem trabalha e produz, enfrente as desonerações injustificadas e elimine privilégios. Precisamos construir um sistema tributário que seja instrumento de desenvolvimento econômico, de distribuição de renda e de justiça social. Não há como construir um país efetivamente justo sem enfrentar as desigualdades do nosso sistema tributário. A justiça social começa também pela justiça tributária. 

A equipe econômica atual estuda passar a cobrar IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre aplicações financeiras hoje isentas de Imposto de Renda como LCI (Letra de Crédito Imobiliário), LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários), CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) e debêntures incentivadas. Hoje, esses investimentos têm alíquota zero de IOF. O PT é a favor desse novo imposto? 

Como afirmei anteriormente, o que existe de consenso neste momento é a necessidade de enfrentarmos os privilégios existentes no sistema tributário brasileiro e avançarmos na construção de uma tributação mais justa. Temos coragem política para rever as desonerações fiscais, avaliar quais benefícios efetivamente atendem aos interesses da sociedade e combater aqueles que representam privilégios injustificáveis. Ao mesmo tempo, queremos dar continuidade à desoneração dos salários, à redução da carga tributária sobre os empreendedores e, principalmente, sobre as micro, pequenas e médias empresas. Também precisamos estudar mecanismos de valorização da produção, criando condições para fortalecer o setor produtivo, estimular a atividade econômica e ampliar a capacidade de desenvolvimento do país. Essas são as diretrizes sobre as quais existe consenso. Não há, neste momento, um detalhamento de medidas tributárias específicas. Portanto, qualquer afirmação sobre a adoção de um determinado imposto ou sobre mudanças pontuais na tributação é meramente especulativa. O que está definido é nossa orientação de reduzir a carga tributária sobre o trabalho e a produção, especialmente sobre os pequenos e médios empreendedores, e enfrentar os privilégios que tornam nosso sistema tributário desigual. Nosso compromisso é construir um sistema tributário efetivamente justo, que valorize quem trabalha, quem produz e quem empreende, e que não continue preservando privilégios de determinados setores da sociedade. 


O PT considera positiva a forma como foram proibidas as bets no Brasil, por meio de uma medida provisória? Entidades esportivas, sobretudo times de futebol, argumentam que seria necessário um tempo maior para se adaptarem e conseguirem outros patrocínios. O PT acha válido esse argumento? Outro argumento que vem sendo usado é que as bets legais proscritas abrem espaço para as bets ilegais prosperarem. O PT concorda? 

O PT nunca formulou uma posição coletiva sobre as bets. O que existe é uma posição do governo do presidente Lula, com a qual penso que todos nós concordamos, diante da forma como as bets se desenvolveram no Brasil, provocando danos à renda das famílias brasileiras. Isso é inegável. É evidente, porém, que a proibição das bets pode abrir espaço para que os jogos online se desenvolvam de forma clandestina, na ilegalidade. E o jogo ilegal, como demonstra a própria história do Brasil, pode acabar sendo apropriado pelo crime organizado e utilizado como instrumento de lavagem de dinheiro. Portanto, esse é um debate que precisamos aprofundar no próximo período, tendo sempre como perspectiva central a defesa e a preservação da renda das famílias brasileiras, mas também considerando os riscos de que a ilegalidade favoreça a atuação do crime organizado e transforme esse mercado em um ambiente propício à lavagem de dinheiro. Também precisamos considerar a construção de um processo de transição que leve em conta a presença das bets no financiamento do futebol brasileiro. É inegável que essas empresas passaram a ocupar um espaço importante não apenas no patrocínio dos clubes, mas em toda a cadeia econômica e na indústria do futebol. Por isso, penso que devemos buscar um caminho que estabeleça um ambiente de transição, com a preservação de direitos. 

Temos, neste momento, uma judicialização dessa questão, que terá seu desenlace. A partir dessa definição, penso que poderá ser aberto um espaço mais amplo de diálogo sobre o tema. Quero enfatizar que essa é uma posição pessoal, não uma posição do governo ou uma formulação coletiva do PT. Mas considero fundamental reafirmar que não podemos, em nenhuma hipótese, abrir mão da proteção da renda das famílias brasileiras. Precisamos combater todas as formas de dependência provocadas pelas bets, especialmente nas modalidades de jogos online. A preservação da renda das famílias brasileiras deve estar no centro de qualquer decisão sobre esse tema. O presidente Lula, entretanto, diante da gravidade da situação das famílias brasileiras, especialmente do endividamento provocado pelas apostas e até de casos de suicídio associados a esse problema, entendeu que era necessário agir imediatamente por meio de uma medida provisória. E o presidente Lula tem todo o meu apoio nessa decisão. Ele agiu sensibilizado pelo sofrimento de milhares de famílias e pela necessidade de enfrentar um problema social que não poderia continuar sendo ignorado. 

O governo Lula criou a taxa das blusinhas sob o argumento de que era necessário equilibrar as condições comerciais entre os fabricantes e varejistas brasileiros e os estrangeiros em relação aos da China. Depois, o presidente Lula disse ter pensado melhor e revogou a taxa das blusinhas. O que o PT pensa disso? Como dar paridade de condições para fabricantes e varejistas brasileiros e os estrangeiros, sobretudo os da China? 

Também é importante esclarecer que essa é uma posição pessoal. Não existe uma posição coletiva formulada pelo Partido dos Trabalhadores sobre essa questão. A posição do governo do presidente Lula é clara e tem a minha concordância. Precisamos preservar o direito dos setores populares de realizar compras online. Esse direito deve ser garantido e regulamentado. O que pondero é que, por trás da regulamentação e da não tributação das pequenas compras online, principalmente de roupas, outros interesses econômicos acabaram se beneficiando desse modelo, provocando danos significativos ao varejo brasileiro de maneira geral. Penso que é necessário construir uma mediação que considere também a realidade dos comerciantes brasileiros, especialmente dos pequenos comerciantes dos bairros e das periferias, que são diretamente impactados por essa concorrência. E quero reafirmar que só existe uma maneira de encontrarmos uma posição equilibrada: por meio do diálogo. Precisamos avaliar os impactos da regulamentação vigente, ouvir os diferentes setores envolvidos e, a partir dessa análise, construir uma solução que contemple os diversos interesses. O desafio é garantir o direito do consumidor, especialmente dos setores populares, de realizar suas compras online, mas, ao mesmo tempo, preservar o pequeno e o médio comércio e considerar os impactos dessa política sobre o conjunto do varejo brasileiro. É esse equilíbrio que precisamos buscar, por meio do diálogo e de uma avaliação responsável dos efeitos da regulamentação atual. 

A emenda constitucional do fim da escala 6 X 1 foi aprovada e já está em vigor. Agora, em menos de 2 meses as empresas terão de reduzir a jornada de trabalho de 44 horas para 42 horas. Depois, em mais 12 meses, será necessário reduzir a jornada para 40 horas semanais. Muitos países deram um período de transição mais elástico. A França deu 3,5 anos. O PT acertou ao defender uma transição tão rápida para o fim da 6 X 1? 

O Partido dos Trabalhadores acertou ao defender o fim da jornada de trabalho 6 X 1. Essa é uma posição coerente com a nossa história de defesa dos direitos dos trabalhadores brasileiros. Agora, se as regras de transição não contemplam adequadamente todos os setores da economia, penso que o diálogo nunca esteve fechado, nunca foi interditado. O que não podemos é abrir mão da redução da jornada de trabalho, garantindo aos trabalhadores brasileiros direitos fundamentais, como mais tempo para a convivência familiar, para cuidar da saúde, para a educação, para o lazer e, inclusive, para a própria qualificação profissional. Penso que essa é uma defesa da qual não podemos abrir mão. Ao mesmo tempo, é necessário olhar para as particularidades de cada setor da economia brasileira e dialogar sobre as regras de transição, considerando suas diferentes realidades. Esse diálogo nunca foi interditado e deve continuar aberto. O fundamental é preservar o compromisso com a redução da jornada de trabalho e com a ampliação dos direitos dos trabalhadores. 


Editorial do Página 13 de novembro

Editorial do Página 13 de novembro de 2026

Quarenta anos em quatro!

Edinho Silva, que faz um balanço positivo de sua performance pessoal enquanto coordenador da recém-encerrada campanha presidencial, repetiu inúmeras vezes em 2025 que precisamos preparar o pós-Lula.

Difícil saber o quanto esta frase infeliz e de mal gosto contribuiu para as dificuldades que tivemos na campanha. O próprio Lula, confrontado no Flow pela afirmação de que esta seria a sua última eleição, respondeu assim: "Fale por você!"

O fato é que, depois de ter vencido o PED 2025, com o auxílio inestimável dos votos amealhados por Quaquá, Edinho acrescentou algo importante na sua fórmula, a saber: o sucessor de Lula seria o Partido dos Trabalhadores. A ideia do sucessor coletivo é muito boa, até porque Lula só tem e só teremos um único. Mas falta acrescentar algo: o quarto mandato de Lula precisa ser muito, mas muito bom.

Não será fácil conseguir isso. Temos contra nós os Estados Unidos e seus aliados, a correlação de forças na América Latina e Caribe, a pressão pró-guerra da classe dominante da Europa e de outras paragens, a tríplice aliança agro-mineradoras-finanças que domina o Brasil, a extrema-direita, a direita tradicional e, como se não bastasse, os social-liberais que infestam o PT. 

A palavra-de-ordem desta turma toda é simples: desconhecer o resultado eleitoral. Alguns, no sentido de dizer que houve uma fraude. Outros, no sentido de tentar implementar o tesouraço proposto pelo Cavernícola Filho e derrotado nas urnas. Alguns energúmenos chegam a propor, abertamente, que Lula 4 se inspire no exemplo de Dilma 2, nomeando para a Fazenda e para o BC gente do estilo da dupla Palocci e Meirelles (a proposta foi feita, nestes termos, por Kassab, ex-vice de Caiado).

Acham que somos idiotas, certamente. Mas têm a seu lado a chantagem dos chamados mercados e um grande número de governadores e parlamentares eleitos em 2025, sem falar na mídia empresarial e de alguns na mídia alternativa (que, como sabemos, também merece publicidade paga de banqueiros que, assim esperamos, algum dia terão seu momento Vorcaro).

Frente a tudo isso, o que defendemos? 

Propomos a adoção de outra estratégia, incluindo:

i/ Mudança efetiva do modelo econômico, hoje controlado pelo agro, pelas mineradoras e pelo setor financeiro;

ii/ Ampla reforma do Estado (incluindo o sistema judiciário, político e eleitoral);

iii/ Criação de estruturas digitais de comunicação e informação sob controle nacional, estatal e público;

iv/ Uma política de governabilidade de novo tipo, baseada na mobilização e participação popular, para que não continuemos sendo obrigados a fazer incontáveis concessões à direita que controla o Congresso Nacional. Se é possível ganhar a eleição nas ruas, por qual motivo não seria possível governar com base nas ruas?

v/ A implementação de uma forte oposição aos governos estaduais de extrema-direita, que muito provavelmente cumprirão um papel importante na oposição ao governo Lula e na montagem de uma chapa para nos enfrentar em 2030;

vi/ Instituir uma política de Segurança Cidadã, baseada na prevenção das violências, no fortalecimento das políticas sociais, na qualificação das forças de segurança, no respeito aos direitos humanos e na participação comunitária, em contraposição aos modelos de insegurança defendidos pela extrema-direita, autoritários, exclusivamente repressivos e que historicamente demonstraram baixa eficácia na redução sustentável da criminalidade;

vii/ Uma política internacional que terá que continuar altiva, mas precisará voltar a ser muito mais ativa, especialmente na América Latina e Caribe;

viii/ A implementação de uma efetiva política de Defesa e de Inteligência, que permita enfrentar a ingerência, as ameaças e os permanentes planos golpistas da extrema-direita, dos Estados Unidos e de Israel;

ix/ A reafirmação ideológica da esquerda, que deve buscar se aliar com os progressistas, mas não deve se confundir, nem se autolimitar, ao chamado “progressismo”;

x/ Um salto de qualidade na organização da esquerda política e social, o que inclui a substituição do “modelo parlamentarista” de funcionamento partidário, por um esforço de organização militante, com formação e mobilização e, vale destacar, com orientação e direção política provenientes da esquerda, a começar pelo PT. Nesse sentido, é preciso utilizar o atual momento de entusiasmo para filiar e engajar as pessoas no Partido, nos sindicatos, nos movimentos.

É fazendo isto tudo, e muito mais, que conseguiremos transformar nossa esplêndida vitória de 25 de outubro no ponto de partida para outra época histórica, contribuindo para o futuro do Brasil, da América Latina e Caribe e da humanidade.

Mas esta estratégia, para ter êxito, precisa ser traduzida numa orientação capaz de manter as pessoas motivadas, mobilizadas, organizadas e conscientes do que queremos e para onde vamos.

Como exemplo, podemos citar dois slogans que foram utilizados no passado: "reformas de base" e "plano de metas". Mas talvez o mais adequado seja algo como "quarenta anos em quatro". E traduzir isso em metas. Como sugeriu um professor simpatizante de nossas causas: zerar o déficit de saneamento básico, zerar o déficit de habitação, zerar as filas no SUS, zerar o déficit de crianças fora da educação em todos os níveis, dobrar o valor real do salário-mínimo e das aposentadorias, ligar todos os pontos do país com transporte ferroviário, zero importação de insumos estratégicos...

Enfim, buscar o "déficit zero". Não vai agradar a Faria Lima, nem seus ventríloquos. Mas permitirá que o povo viva melhor, contribuirá para uma industrialização de novo tipo, mudará nossa sociedade e nosso lugar no mundo. E, de quebra, permitirá vencer em 2028 e em 2030.

Mas, para isso, é preciso começar lembrando quem venceu as eleições de 2026: o povo trabalhador, as mulheres, os negros e negras, a juventude que foi às ruas, os 70+ que votaram ele não, os moradores das periferias e o povo de alma nordestina, a esquerda brasileira como um todo e a Nação Petista. Fomos "nóis" que vencemos. Nada mais justo, portanto, que queiramos fazer um governo que atenda às demandas do povo, não da Faria Lima e do Centrão.

Os editores







domingo, 1 de novembro de 2026

Resposta a Attuch: sabotador é quem defende o ponto de vista da Faria Lima

Sem revisão 

O dono do Brasil 247, o jornalista Leonardo Attuch, escreveu um textão cujo título é: “Lula deve se preocupar mais com a sabotagem da “esquerda radical” do que com o apoio do centro responsável”.


Este título deve ter sido psicografado do conhecido opusculo intitulado Pegadinhas do Conselheiro Acácio. Afinal, é óbvio que ninguém ficaria preocupado em receber o “apoio” de alguém “responsável”, enquanto do outro lado estaria alguém que pretenderia, supostamente, criar “novas guerras políticas”.


Acontece que esta contraposição não corresponde à realidade. 

Na vida real, setores da direita (não de “centro”) defendem que Lula faça um ajuste fiscal, o que implicaria em insistir numa politica econômica que quase nos fez perder a eleição, no primeiro turno, e que nos causou muitas dificuldades no segundo turno.

Se o governo viesse a aceitar esta proposta de setores de direita, correríamos o risco de viver algo parecido ao que resultou da política implementada por Joaquim Levy em 2015. O que nos levaria a “guerras políticas” piores do que a atual, pois muito provavelmente seríamos derrotados.

Portanto, é a direita que está sabotando. Não a esquerda.

 Para sustentar sua opinião, Attuch constroi um mundo paralelo, onde Kassab é uma “liderança de centro”, que se dispõe a apoiar o governo Lula “desde de que haja responsabilidade econômica”.

Pergunto: alguma vez o governo Lula foi “irresponsável”? 

Quem acusa Lula de “irresponsabilidade” mente. E quem passa o pano em mentiroso, quem leva a sério uma demanda dessas, está ocultando a verdade: eles não querem “responsabilidade”, eles querem “tesouraço”.

A esquerda não é contra o “equilíbrio fiscal”. A esquerda é contra o desequilíbrio fiscal causado pela taxa de juros, cuja conta é paga cortando e contendo os investimentos públicos e sociais.

A batalha ideológica da esquerda não é contra o “equilíbrio”, mas sim contra o “tesouraço”. 

Attuch diz que “uma parcela da esquerda prefere promover uma gritaria nas redes sociais contra qualquer medida que possa ser interpretada como ajuste”. 

Isso não é verdade. Não conheço ninguém da esquerda que faça “gritaria” contra medidas como redução dos juros, corte de subsídios a grandes empresas, eliminação das emendas parlamentares e dos supersalários e penduricalhos do judiciário.

A “gritaria” da esquerda é contra medidas que afetam o salário mínimo, as aposentadorias, os pisos constitucionais, o BPC etc.

Attuch diz que a “gritaria” citada “não apenas empobrece o debate econômico”, mas também “pode comprometer as condições políticas necessárias para o sucesso do governo Lula 4”.

Sobre o debate econômico, confesso que me dá preguiça ler alguém - num site supostamente progressista - tentando desqualificar teoricamente quem critica as teses da Faria Lima.

Quando à política, o problema é mais sério: o que Attuch propõe é um estelionato. Aliás, é engraçado ver ele falar que a vitória de Lula decorre de uma ampla mobilização democrática, para logo em seguida desconsiderar a decisão democrática da maioria do povo.

O “tesouraço” foi derrotado nas urnas. A direita e Attuch fingem que isso não aconteceu. 

Para sustentar esta tese, Attuch sofisma.

Ele diz o seguinte: “Uma das teses mais equivocadas difundidas por essa esquerda é a de que os brasileiros teriam ido às ruas, durante a campanha eleitoral, para rejeitar o equilíbrio fiscal. Trata-se de uma interpretação sem fundamento, que procura transformar uma mobilização democrática ampla e plural em uma espécie de plebiscito sobre a política econômica.”

Efetivamente, o povo brasileiro não rejeitou o “equilíbrio fiscal”. 

O que o povo brasileiro rejeitou foi a canalhice da Faria Lima, que chama de “equilíbrio fiscal” uma política em que eles desequilibram as contas e o povo paga o déficit, através do “tesouraço”.

O problema de Attuch não se limita ao fato dele adotar o ponto de vista da Faria Lima sobre o que é ou deixa de ser “equilíbrio fiscal”.

Há outro problema: ele não consegue compreender ou aceitar que a “mobilização democrática ampla e plural” tambem é, necessariamente, um “plebiscito sobre a política econômica”.

Para o povo, democracia também é salário, aposentadoria, educação, saúde, transporte, inflação baixa, juros baixos.

Para Attuch, que não tem estes problemas, o medo de cortes em programas sociais é algo que ele “conhece de literatura”. Attuch, como Durigan, não tem que viver de salário mínimo, nem faz ideia do que significa o BPC.

Por isso Attuch enche a boca para dizer o seguinte: “reduzir essa mobilização histórica” contra o bolsonarismo a “uma suposta rejeição popular ao equilíbrio fiscal significa desrespeitar a complexidade das motivações que levaram milhões de brasileiros a defender a democracia e a reeleição de Lula. O povo brasileiro não votou pela irresponsabilidade econômica. Votou pela preservação de direitos, pela estabilidade democrática e pela esperança de um futuro melhor. E esse futuro depende, necessariamente, de uma economia organizada, capaz de crescer, gerar empregos, reduzir os juros e financiar políticas públicas.”

Repito: o povo votou por um tipo de equilibro fiscal, antagônico ao tipo de equilíbrio fiscal defendido pela Faria Lima.

Aliás, se há alguém que pode ser acusado de “irresponsabilidade” é quem defende uma taxa de juros insana, que contribui e muito para impedir que tenhamos um “futuro melhor”.

O problema de Attuch é que ele adotou o “modo Faria Lima” de enxergar os outros. Os banqueiros talvez nunca tenham lido Sartre e Simone, mas eles pensam que o inferno - o desequilíbrio fiscal - é culpa dos outros, nunca deles.

Attuch faz dessa discussão que vimos acima um preâmbulo para defender Fonteles como ministro da Fazenda. 

Segundo Attuch, “Fonteles representa uma geração do PT que compreende que responsabilidade fiscal e justiça social não são objetivos incompatíveis.”

Pergunto: qual “geração” do PT pensa diferente disso?

O que Attuch ecoa, sem ter a coragem de escrever, é uma ideia muito comum na Faria Lima: a de que o velho Lula seria um populista, que precisa de um jovem tecnocrata controlando ele. Um fiscal social liberal…

O que a Faria Lima deseja, do Ministro da Fazenda, não é “capacidade de dialogar com investidores e empresários”; o que eles querem é um Ministro que atue como representante dos interesses destes setores, deles, junto ao governo.

Portanto, Attuch está totalmente errado, quando diz que “a melhor receita para o fracasso do Lula 4 seria justamente a formação de uma oposição interna, empenhada em deslegitimar antecipadamente o próximo ministro da Fazenda e sabotar qualquer tentativa de reorganização das contas públicas”.

O êxito do nosso governo depende de muitas coisas. Uma delas é a capacidade de impulsionar um ciclo de desenvolvimento com melhoria da qualidade da vida. Isso exigirá mais investimentos públicos, o oposto do “tesouraço” pretendido pela direita. Para que as “contas públicas” estejam a serviço deste tipo de desenvolvimento, será necessário baixar os juros e ampliar as receitas, buscando o dinheiro onde ele está.

O que ameaça este plano? No fundamental, a “oposição externa” das duas direitas, os EUA, a Faria Lima. Omitir tudo isso e tocar o alarme contra a “oposição interna” chega a ser ridículo. Até porque, nos governos de Lula e Dilma, os problemas nunca foram obra de uma inexistente “oposição interna”. Sempre foram resultado da confluência entre os inimigos externos e os erros cometidos pelo próprio governo.

Mas Attuch está obcecado pela ideia de que nosso problema estaria na esquerda. Chega a ser bizarro: temos um fugitivo de 60 milhões de votos nos EUA, temos um Congresso colonizado pela extrema direita, temos a Faria Lima fazendo chantagem, mas o que preocupa Attuch é “que a desestabilização de governos progressistas nem sempre começa pela direita”.

Attuch afirma ser natural que, “encerrada a eleição, o governo examine medidas pontuais para recuperar o equilíbrio das contas públicas. Isso não representa qualquer traição ao eleitorado. Representa o exercício responsável do poder.”

Como já disse, nada temos contra “equilíbrio das contas publicas”. O problema é que não somos idiotas. Existe uma pressão para buscar “equilíbrio” desequilibrando contra as maiorias, em favor da banca. Foi essa lógica que levou, por exemplo, o bolsa família a ficar um bom tempo sem reajuste.

Attuch se soma aos que fazem chantagem, quando afirma que a “alternativa pode ser uma crise econômica que termine por atingir justamente os trabalhadores e as famílias de menor renda”.

Attuch analisa gentilmente o comportamento dos especuladores e conclui dando conselhos ao governo: “Brigar infantilmente com investidores, alimentar incertezas sobre a dívida pública ou transformar o equilíbrio fiscal em uma questão ideológica pode pressionar ainda mais o dólar e os juros futuros. Isso encarece o crédito, dificulta os investimentos, aumenta o custo da dívida e compromete a capacidade do governo de financiar suas prioridades”.

As penas de aluguel da Faria Lima não escreveriam melhor. 

Pergunto: alguma vez alguém do governo “brigou infantilmente” com investidores? Ou “alimentou incertezas sobre a dívida?”

O que temos visto é o contrário: em geral o pessoal que vai para o governo esquece o que falou e o que escreveu e se comporta conforme o figurino. Logo, o que a banca está dizendo, através do ventriloquismo de inúmeros jornalistas como Attuch, mas principalmente através da especulação e outros movimentos práticos, é que eles querem mais, muito mais, do que todas as concessões feitas até agora.

Eles querem um “tesouraço”.

E como o povo não votou nisso, eles vão tentar impor ao governo Lula, que implemente o programa derrotado nas urnas.

O que faz Attuch, nesse contexto, é dizer para a esquerda que ela deve aceitar este ajuste, fingir que se trata de algo pontual e não reclamar, sob pena de tudo ficar aínda pior: “uma esquerda que se apresenta como defensora dos trabalhadores pode, por irresponsabilidade política, acabar contribuindo para a manutenção de juros elevados, o enfraquecimento do crescimento e a redução das oportunidades de emprego”.

Como o excesso de velas põe fogo na igreja, Attuch diz também que “nada disso significa que Lula deva aceitar passivamente todas as exigências do mercado financeiro. O presidente precisa preservar sua autonomia, defender a capacidade de investimento do Estado e garantir que o ajuste das contas públicas não recaia desproporcionalmente sobre os mais pobres”.

O “desproporcionalmente” é genial. O que seria recair “proporcionalmente” sobre os mais pobres???

O mais importante vem a seguir. Segundo Attuch, “existe uma diferença fundamental entre negociar com firmeza e transformar o conflito em método de governo. A primeira atitude produz resultados. A segunda pode produzir apenas turbulência”.

O problema é que a direita “transformou o conflito em método” de oposição ao governo. Se o governo abrir mão do “método do conflito”, o que vai ocorrer é que seremos inapelavelmente derrotados.

Além de oferecer conselhos derrotistas, embalados em formato coach, Attuch chega a formular a seguinte barbaridade: “o presidente não precisa escolher entre o mercado e o povo”.

Veja: o presidente não “precisa” escolher entre o mercado e o Estado, como ferramentas. É perfeitamente possível combinar virtuosamente ambas.

Mas o presidente, queira ou não, tem que “escolher” entre o empresariado capitalista e a classe trabalhadora. Pois é impossível agradar a gregos e troianos. Vide a experiência dos governos Lula e Dilma: apesar de tudo que se fez em favor dos empresários, estes majoritariamente escolheram sempre a oposição. 

Por isso, “escolher o povo” não é uma alternativa. É uma necessidade inevitável. A não ser, é claro, que pretendamos ser derrotados em 2030, no primeiro turno…


Segue abaixo o texto criticado 


Lula deve se preocupar mais com a sabotagem da “esquerda radical” do que com o apoio do centro responsável

Enquanto setores de centro oferecem estabilidade, uma esquerda radicalizada ameaça criar novas guerras políticas


Leonardo Attuch

Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato graças a uma ampla mobilização democrática, que ultrapassou as fronteiras tradicionais da esquerda e reuniu brasileiros preocupados com o futuro do país. Agora, diante do desafio de governar até 2030, Lula precisa compreender que seu maior problema político talvez não esteja no centro responsável, que se oferece para contribuir com a estabilidade, mas em setores de uma esquerda radicalizada, que parecem dispostos a transformar qualquer iniciativa de equilíbrio fiscal em uma batalha ideológica.
O contraste é evidente. Enquanto lideranças de centro, como Gilberto Kassab, presidente do PSD, sinalizam disposição para aprofundar a relação com o governo, desde que haja responsabilidade econômica, uma parcela da esquerda prefere promover uma gritaria nas redes sociais contra qualquer medida que possa ser interpretada como ajuste. Para esses setores, basta mencionar equilíbrio das contas públicas para que surjam acusações de neoliberalismo, traição programática ou submissão ao mercado financeiro.
Essa postura não apenas empobrece o debate econômico. Ela pode comprometer as condições políticas necessárias para o sucesso do governo Lula 4.
Uma das teses mais equivocadas difundidas por essa esquerda é a de que os brasileiros teriam ido às ruas, durante a campanha eleitoral, para rejeitar o equilíbrio fiscal. Trata-se de uma interpretação sem fundamento, que procura transformar uma mobilização democrática ampla e plural em uma espécie de plebiscito sobre a política econômica.

Os brasileiros foram às ruas, sobretudo, porque tinham medo da volta do bolsonarismo. Medo de cortes em programas sociais, evidentemente, mas também do avanço do feminicídio, da violência contra a população LGBT, do fortalecimento das milícias, da normalização do autoritarismo e da submissão da soberania nacional a interesses estrangeiros. Havia o receio de que o Brasil voltasse a ser governado por uma família política que fez do confronto permanente com as instituições uma de suas principais marcas.

Reduzir essa mobilização histórica a uma suposta rejeição popular ao equilíbrio fiscal significa desrespeitar a complexidade das motivações que levaram milhões de brasileiros a defender a democracia e a reeleição de Lula.

O povo brasileiro não votou pela irresponsabilidade econômica. Votou pela preservação de direitos, pela estabilidade democrática e pela esperança de um futuro melhor. E esse futuro depende, necessariamente, de uma economia organizada, capaz de crescer, gerar empregos, reduzir os juros e financiar políticas públicas.

É nesse contexto que a discussão sobre o próximo ministro da Fazenda adquire importância decisiva.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, surgiu como um dos nomes mais promissores para comandar a política econômica. Jovem, preparado, com experiência administrativa e boa interlocução com o setor produtivo, Fonteles representa uma geração do PT que compreende que responsabilidade fiscal e justiça social não são objetivos incompatíveis.

Mas já surgem setores dispostos a carimbá-lo como “neoliberal”, simplesmente porque seu nome é bem recebido pelo mercado financeiro. É uma lógica absurda. A capacidade de dialogar com investidores e empresários deveria ser considerada um ativo para um ministro da Fazenda, e não uma desqualificação.

O mesmo vale para qualquer outro nome que Lula venha a escolher. O presidente foi eleito para governar, não para submeter cada decisão econômica à aprovação de grupos que confundem radicalismo retórico com compromisso social.

A melhor receita para o fracasso do Lula 4 seria justamente a formação de uma oposição interna, empenhada em deslegitimar antecipadamente o próximo ministro da Fazenda e sabotar qualquer tentativa de reorganização das contas públicas.

Há ainda um componente histórico preocupante. Alguns desses setores parecem conservar uma visão romantizada das chamadas jornadas de junho de 2013, manifestações que começaram com reivindicações legítimas, mas foram posteriormente apropriadas por forças conservadoras e ajudaram a criar o ambiente político que desembocou no golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016.

A experiência deveria ter ensinado que a desestabilização de governos progressistas nem sempre começa pela direita. Muitas vezes, ela encontra combustível em setores que se apresentam como mais autênticos, mais puros e mais comprometidos com as causas populares, mas que acabam contribuindo para enfraquecer as próprias forças políticas que dizem defender.

Não há razão para repetir esse erro histórico.

Durante a campanha eleitoral, Lula ampliou despesas e abriu mão de receitas para atender demandas sociais e enfrentar uma disputa extremamente difícil. Essas decisões fizeram parte de uma conjuntura excepcional, marcada pela necessidade de preservar conquistas e construir uma maioria eleitoral.

É natural, portanto, que, encerrada a eleição, o governo examine medidas pontuais para recuperar o equilíbrio das contas públicas. Isso não representa qualquer traição ao eleitorado. Representa o exercício responsável do poder.

Ajustar prioridades, rever despesas menos eficientes, recuperar receitas e construir uma trajetória sustentável para a dívida pública são tarefas normais de qualquer administração comprometida com o interesse nacional.

A alternativa não é uma espécie de paraíso social sem restrições orçamentárias. A alternativa pode ser uma crise econômica que termine por atingir justamente os trabalhadores e as famílias de menor renda.

Os sinais de alerta já estão presentes. Na semana posterior à reeleição de Lula, o Ibovespa acumulou uma queda de 18,12%, seu pior desempenho semanal desde março de 2020. O dólar disparou 9,15% e encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,4460, maior valor registrado em 2026.

É evidente que parte desse movimento decorre da desmontagem de apostas financeiras equivocadas sobre o resultado eleitoral. O mercado também erra, especula e frequentemente reage de maneira exagerada aos acontecimentos políticos.

Mas reconhecer os excessos do mercado não significa ignorar que as expectativas econômicas produzem consequências concretas.

Brigar infantilmente com investidores, alimentar incertezas sobre a dívida pública ou transformar o equilíbrio fiscal em uma questão ideológica pode pressionar ainda mais o dólar e os juros futuros. Isso encarece o crédito, dificulta os investimentos, aumenta o custo da dívida e compromete a capacidade do governo de financiar suas prioridades.

O resultado seria especialmente perverso para o Banco Central, que tem a missão urgente de criar condições para a redução da taxa Selic. Com o câmbio pressionado e as expectativas de inflação desancoradas, a autoridade monetária encontra menos espaço para baixar os juros.

Em outras palavras, uma esquerda que se apresenta como defensora dos trabalhadores pode, por irresponsabilidade política, acabar contribuindo para a manutenção de juros elevados, o enfraquecimento do crescimento e a redução das oportunidades de emprego.

Nada disso significa que Lula deva aceitar passivamente todas as exigências do mercado financeiro. O presidente precisa preservar sua autonomia, defender a capacidade de investimento do Estado e garantir que o ajuste das contas públicas não recaia desproporcionalmente sobre os mais pobres.

Mas existe uma diferença fundamental entre negociar com firmeza e transformar o conflito em método de governo. A primeira atitude produz resultados. A segunda pode produzir apenas turbulência.

Lula conhece essa diferença melhor do que ninguém.

Em seus primeiros mandatos, demonstrou que é possível combinar responsabilidade fiscal, crescimento econômico, valorização do salário mínimo, expansão das políticas sociais e redução das desigualdades. Foi essa capacidade de construir sínteses, e não de alimentar antagonismos artificiais, que fez dele o mais importante líder popular da história contemporânea brasileira.

O Lula que o Brasil precisa agora é justamente esse: um presidente responsável, capaz de dialogar com o centro político, construir maiorias parlamentares, transmitir confiança à sociedade e redirecionar as prioridades orçamentárias para garantir conquistas progressivas à classe trabalhadora.

A responsabilidade fiscal não é uma concessão à direita. É um instrumento para preservar a capacidade de ação de um governo progressista. Sem estabilidade econômica, os avanços sociais tornam-se mais difíceis, mais caros e mais vulneráveis às crises.

O presidente não precisa escolher entre o mercado e o povo. Precisa governar para o povo, compreendendo que a estabilidade macroeconômica é uma das condições para ampliar o bem-estar coletivo.

Também não precisa aceitar que setores minoritários da esquerda reivindiquem o monopólio da interpretação do resultado eleitoral. A vitória de Lula pertence a uma coalizão democrática muito mais ampla, que inclui trabalhadores, movimentos sociais, empresários, intelectuais, lideranças de centro e milhões de cidadãos sem identificação partidária.

O quarto mandato oferece ao presidente uma oportunidade histórica de consolidar conquistas, fortalecer as instituições e preparar uma nova geração de lideranças progressistas para o futuro.

Desperdiçar essa oportunidade em disputas ideológicas estéreis seria um erro imperdoável.

Lula deve ser o que sempre foi em seus melhores momentos: um estadista pragmático, comprometido com a justiça social, a soberania nacional e a responsabilidade econômica.

O Brasil não precisa de uma nova temporada de radicalização. Precisa de crescimento, estabilidade, juros menores e conquistas concretas para os trabalhadores.

E, para isso, o presidente fará bem em ouvir mais o centro responsável e menos os que confundem gritaria com transformação social.

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247