domingo, 23 de agosto de 2026

Entrevista ao Tom Hennigan

O que está em jogo nas eleições deste ano? Ainda podemos falar em esquerda versus (extrema)-direita? Ou estamos vendo grande parte do sistema político/institucional estabelecido em 1988 unindo-se em torno de Lula para barrar uma ameaça anti-democrática, anti-sistema que não respeita as regras do jogo?

 

O sistema que foi vitorioso em 1988 ganhou as eleições de 1989, 1994 e 1998. Depois perdeu as quatro eleições seguintes. E decidiu rasgar suas próprias regras, dando o golpe contra Dilma e prendendo Lula. Quem fez isso não foi a extrema direita, foi a direita tradicional, o que incluiu naquela época o próprio Geraldo Alckmin. Esta direita tradicional achava que depois do golpe ganharia as eleições de 2018, mas enganou-se tanto quanto os democratas Ulysses e JK, que votaram em Castelo Branco depois do golpe militar de 1964, acreditando que ganhariam as eleições marcadas para 1965. O que ocorreu em 2018 foi a vitória da extrema-direita. E mesmo assim foi preciso a pandemia e as ameaças diretas do cavernícola contra o STF e contra a Globo, para que uma parte do sistema se desse conta de que eles seriam as próximas vítimas. Foi aí que esta parte do sistema resolveu dar cavalo de pau, libertar Lulareconhecer que ele era elegível e inclusive apoiar sua eleição em 2022. De lá para cá ocorreram três processos que tornam tudo mais complicado. O primeiro é Trump, que faz com que parte do sistema esteja morrendo de medo. O segundo é a ganância do capital financeiro, que segue exigindo um ajuste fiscal totalmente contraditório com o programa defendido pelo presidente Lula. O terceiro processo é a consolidação da extrema-direita, que apesar de ter um candidato de merda, segue em condições técnicas de ganhar. Tudo isso junto cria a seguinte situação: uma parte do sistema está com o filho do cavernícola, outra parte está com Lula e uma terceira parte está rezando por um milagreque permita a Caiado ir ao segundo turno. Na ausência deste milagre, o segundo turno será entre esquerda com aliados versus extrema-direita com aliados. E como entre estes aliados da extrema-direita está Trump, o dia seguinte à vitória de Lula será emocionante. Até porque o capital financeiro continuará pressionando pelo ajuste fiscal, enquanto nós seguiremos pressionando por mudanças profundas.

 

Como você vê a conjuntura internacional dentro do qual a eleição acontecerá? Estou especialmente pensando em Trump e suas ações e ameaças hegemônicas contra o hemisfério ocidental. Como isso vai impactar na campanha e voto? Você espera que grau da interferência e como se acha o Brasil - governo e sociedade - vai reagir?


O impacto já está ocorrendo e pode ser visto nas pesquisas. Para uma parte da população, as ameaças de Trump despertam um bom sentimento em favor da defesa da soberania. Mas, para outra parte, despertam um sentido de subalternidade, que aliás sempre foi uma característica da classe dominante brasileira. O desempate depende de nós. A vitória de Lula tem que valer a pena. Ou seja, tem que ser o passaporte para um futuro realmente melhor e diferente. Só isso fará valer a pena correr o risco. Se, pelo contrário, a nossa postura for patrioteira ou programaticamente medíocre, o medo vai prevalecer. Por isso, está certo o presidente Lula quando fala que devemos querer mais. Muito mais.

 

Quais são as conquistas mais importantes, na sua avaliação, que Lula e o PT estão defendendo nesta eleição, tanto nos últimos quatro anos quanto desde 2003?


Tem dois jeitos de responder esta pergunta. A primeira é fazer um rol de realizaçõesMas para isso é melhor ler o programa de Lula, lá tem a lista. A outra forma de responder esta pergunta é dizendo que conseguimos manter aberta uma porta. Esta porta pode nos levar a construir um Brasil profundamente diferente e, também, a mudar o lugar do Brasil no mundo. Eleger Lula em 2026, assim como eleger a candidatura petista nas outras 5 eleições presidenciais que vencemos, não garantiu que isso virasse realidade.Mas conseguimos manter a porta aberta, na contramão do que está ocorrendo em boa parte do mundo.

 

O que você entende quando Lula diz que ele vai "mudar muita coisa" no país durante um quarto mandato? Tem uma frustração, ou até crítica, implicado no desempenho do PT no poder durante 17 dos quase 24 últimos anos?


Frustração não digo, mas crítica espero que sim. Pois é óbvio que precisamos ser críticos. O Brasil continua sob controle do capital financeiro e do agronegócio. O Brasil continua dependente. A democracia aqui no Brasil continua sendo oligárquica. Não conseguimos impulsionar um ciclo desenvolvimentista, sem o qual a nossa soberania nunca estará garantida. Além disso, somos socialistas. E o Brasil segue não apenas capitalista, mas um capitalismo absolutamente selvagem.  Então temos que ser críticos sim. Agora, frustração é melhor deixar para quem acreditava que, indo devagar e sendo moderados, chegaríamos muito mais longe. Eu nunca acreditei nisso. E por isso mesmo acho ótimo que se fale em mudar muita coisa.

 

Qual é a sua própria avaliação do desempenho do PT no poder desde 2003? Esperou mais ou está contente dado o contexto político e a correlação de forças políticas-institucionais? Quais têm sido os principais freios ao seu projeto mesmo dentro do Planalto? Alguns são internos do partido? Poderia ter sido feito mais para removê-los?


Veja, não dá para avaliar o PT fora do contexto. O contexto é de derrotas em série: colapso do socialismo soviético, desmonte da socialdemocracia, crise do desenvolvimentismoguinada neocolonial, neoliberalismo e agora neofascismo. Nesse contexto, o PT conseguiu sobreviver, resistir e manter a presidência da República num país decisivo no mundo. Não acho pouco. Mas uma parte da direção do Partido confundiu e segue confundindo a necessidade de flexibilidade tática, com desistir de ter um projeto estratégico. E isso impacta tudo, desde o ânimo da militância, passando pelo funcionamento do Partido, até as perspectivas de médio prazo. Sem falar em fenômenos de degeneração política e ideológica. O saldo prático disso é que temos perdido espaços em todos os terrenos, inclusive no eleitoral. Portanto, precisamos de um freio de arrumação e de um cavalo de pau, e isso começa pela reafirmação do nosso projeto estratégico socialista.

 


Finalmente, você vem de uma família de várias gerações da luta e sacrifício. Como você avalia as conquistas da esquerda brasileira mais ampla numa perspectiva de longo prazo, abrangendo a ditadura e a redemocratização até nosso dia? E como se vê a esquerda brasileira evoluindo num futuro pós-Lula?


Eu não concordo com este jeito de colocar o problema. Explico: Vargas se suicidou em 1954, em 1994 Fernando Henrique falava em acabar com a Era Vargas e hoje seguimos debatendo questões que envolvem o legado de Vargas. Portanto, eu não estou de acordo que o futuro visível  as próximas décadas possam ser caracterizadas como pós Lula. Ademais, o fato de Lula não poder ser candidato em 2030 ou em 2034 não impedirá a esquerda e o PT de vencer as eleições presidenciais. Se o governo Lula 4 estiver bem, venceremos. Se estiver mal, não venceremos nem que Jesus Crista seja nosso candidato. Por fim, a esquerda não surgiu com Lula e não depende de Lula. Lula é que foi produto da esquerda e depende da esquerda. Portanto, o futuro da esquerda depende dela mesma, de manter os vínculos com a classe trabalhadora, de manter a luta, de manter os princípios, de mantea organização coletiva. Sem isso, não adianta termos Lula conosco. Coisso, iremos bem mesmo quando a implacável biologia fizer a sua parte.


ps. Não respondi na entrevista, mas acrescento aqui: também não concordo com o pressuposto contido na “família de várias gerações de luta e sacrifício”. A parte da “família” precisa de mediações. E a parte do “sacrifício” também precisa de muitas mediações. As pessoas que escolhem dedicar parte de sua vida à construção de um partido, à revolução, ao socialismo e ao comunismo, seguramente abrem mão de buscar e, quem sabe, abrem mão de ter algumas coisas, mas não acho adequado caracterizar isso como “sacrifício”. Além disso, ao menos para uma parte dos que escolhemos militar na esquerda, a vida segue sendo muito bela. E, ao menos as vezes, segue tão ou mais bela do que a vida vivida pela grande maioria. Por esses e por outros motivos, do pressuposto contido na parte inicial da pergunta, só concordo com uma parte: a luta. Mas o que seria da vida sem a luta? 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Resposta ao Lucas Fadul

Entrevista dada ao Lucas Fadul, do site do PT.

Como você avalia que os EUA devem intervir nas eleições de outubro? Somente por meio das big techs ou podem tentar algo mais? 

Os EUA não “devem intervir”. Os EUA já estão intervindo. Primeiro, com ameaças diárias. Segundo, com medidas judiciais. Terceiro, com tarifaço. Quarto, com ameaça de intervenção militar. Quinto com apoio político à extrema direita. Sexto, com apoio material de diversos tipos. Sétimo, com as redes antissociais e outras interferências cibernéticas. E devemos estar prontos para ver eles “pedirem as atas” de nossa eleição, não reconhecerem o resultado e se comportarem como se a Venezuela fosse aqui. 

Não é melhor para o Brasil e para a esquerda latino-americana que o Trump escancare mesmo o imperialismo dos EUA ao invés dele permanecer velado? 

O melhor para o povo é que os EUA respeitassem a nossa soberania. E, também, que os EUA deixassem de ser a superpotência imperialista e nuclear que são hoje. É bizarro que seja necessário um pedófilo na presidência para algumas pessoas percebam que desde o século 19 até hoje nosso vizinho do Norte é, na verdade, um estado terrorista e nada democrático. 

O que essa deturpação da Doutrina Monroe pela administração Trump sinaliza para o futuro dos EUA? 

Não acho que a Donroe seja uma “deturpação” da Monroe, acho que é um desdobramento. Os EUA temem perder o controle da Eurásia, não importa para quem: pode ser para a China, para a Rússia ou até para os próprios europeus. Assim, controlar o nosso continente é para os EUA especie de seguro de vida. Como eles são uma potência perigosa, mas declinante, farão de tudo para nos manter acorrentados. Se não quisermos ir ao fundo junto com este Titanic, vamos ter que manter distância. 

Entrevista ao Agustín Gulman

Seguem as perguntas e as respostas da entrevista concedida, por escrito, no dia 5 de agosto de 2026, ao Agustín Gulman, periodista argentino (Página 12, TRT Español).

Qué modelos de país está en disputa en estas elecciones presidenciales en Brasil? 

As duas principais candidaturas (Lula de um lado, o filho do cavernícola de outro lado) defendem "modelos" antagônicos: soberania contra colônia, bem estar contra malestar, democracia contra ditadura, potência industrial-científico-tecnológica contra subpotência primário exportadora. 

Cómo llega el gobierno del presidente Lula a esta campaña electoral en busca de la reelección? Qué desafíos tiene por delante y qué deudas pendientes debe saldar? 

O país chega melhor do que estávamos em 2022. Mas o governo não capta esta melhora, por uma parte porque há oposição, por outra parte porque havia expectativas muito altas, também porque nossa comunicação não foi das melhores, mas também porque foram feitas demasiadas concessões ao rentismo, concessões materializadas no chamado Novo Marco Fiscal e na criminosa política de juros do Banco Central. O principal desafio que temos é político: vencer as eleições. Em seguida, nos libertar da ditadura do capital financeiro e dar um salto de qualidade nas políticas de desenvolvimento, bem-estar e defesa nacional.

Los principales indicadores económicos muestran mejoras en los últimos años. Esas mejoras han llegado de forma homogénea a quienes más lo necesitaban? Qué desafíos se requieren en ese sentido?

A situação do país começou a piorar desde 2015. E seguiu piorando até 2022. Foram sete anos ladeira abaixo. Lula foi releeito em 2023, estamos no meio de 2026. Ainda que os indicadores tenham melhorado, essa melhora não foi suficiente para compensar 7 anos de declínio. Especialmente quando levamos em consideração que atuamos sob fogo inimigo. As melhoras chegaram principalmente aos setores pior remunerados da classe trabalhadora, o que nos coloca diante de dois desafios: o primeiro é o de combinar política de governo com politização e organização da classe trabalhadora; o segundo é ter políticas de ampliação do bem estar social coletivo, o que ajuda a conquistar os setores melhor remunerados da classe. Saúde pública e educação pública de qualidade reduz o gasto desses setores da classe, ao mesmo tempo que estimula um sentimento coletivista.

 La seguridad es un elemento distintivo en las encuestas electorales. Qué mirada debería tener, en su opinión, el PT sobre la seguridad pública?

Uma mirada realista. O principal problema de segurança pública no país é o crime organizado, que só será derrotado se for atacado onde ele está: infiltrado nas elites econômicas e políticas do país. A política de insegurança pública defendida pela direita é demagógica e ineficiente, pois tem como alvo o pequeno criminoso, não o grande criminoso. Além de demagógica e ineficiente, a política de insegurança pública da direita tem um claro viés de classe. Nesse sentido, é uma política de insegurança para os pobres, mas é uma política de segurança para a direita, pois é público e notório que cavernícolas importantes têm vínculos com o crime organizado.

Qué representa Flávio Bolsonaro?

Basura cavernícola, submissão a Trump, ameaça permanente às liberdades democráticas, mal estar social. 

El presidente Lula ha denunciado y cuestionado la injerencia externa en esta elección. Cuánto puede influir Donald Trump en este proceso electoral, y, en general, en la estrategia de las derechas latinoamericanas?

Trump já está cometendo ingerência. O objetivo deles é controlar todo o subcontinente e, para isso, precisa de um cavernícola na presidência do Brasil. A ação de Trump visa amedrontar as nossas já medrosas elites, parte das quais não gosta do cavernícola, mas têm medo de desobedecer o grande irmão do Norte. Além disso, entre outras coisas, destaco a ação criminosa das redes antisociais.

Tiene impacto el apoyo de Milei a Flávio Bolsonaro? 

Numa eleição que será decidida por pouco, tudo tem impacto. Mas nesse caso, acho que um impacto mais negativo do que positivo. 

En una región que ha girado hacia la derecha y la extrema derecha, el presidente Lula aparece como un faro para muchos progresismos. Qué mirada tiene sobre el avance de la ultraderecha en los últimos años? 

O avanço da ultradireita tem muitas causas. Uma delas é de responsabilidade do chamado progressismo. Para derrotar a extrema direita, nossos partidos, nossos movimentos, nossos  intelectuais orgânicos precisam ousar mais, querer mais, defender mudanças mais profundas em nossa sociedade. A palavra progressismo, em si mesma, já é uma indicação de como alguns de nós - me tire fora disso - nos contentamos com pouco. Não queremos apenas progresso. Queremos mudanças profundas. E já.




segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Declaração de voto

No país inteiro, a militância da tendência petista Articulação de Esquerda está engajada na campanha de Lula e nas campanhas das candidaturas petistas ao governo e senado, bem como de algumas candidaturas majoritárias de outros partidos de esquerda, naqueles casos em que estão devidamente coligados com o PT.

Além disso, estamos engajados em inúmeras campanhas proporcionais (federais e estaduais) do Partido dos Trabalhadores.

Entre essas campanhas, destacamos abaixo a nominata de militantes da AE que são candidatas e candidatos: 

Espírito Santo: Iriny Lopes 1333, Célia Tavares 13621 e Rogerio Favoretti 13456; 

Mato Grosso do Sul: Elias 1313 e Gleice Jane 13777;

Minas Gerais: Nanci Menezes 1351 e Adriana Souza 13000; 

Pará: Fernando Santiago 1316; 

Paraná: Ualid Rabah 1322; 

Pernambuco: Patrick Campos 1311;  

Piauí: Fabíola Lemos 13900; 

Rio Grande do Norte: Natália Bonavides 1311 e Daniel Valença 13111; 

Rio Grande do Sul: Marcon 1355, Ary Vanazzi 1399, Ana Afonso 13813, Nelson Spolaor 13999, Cleonice Back 13131, Nelson Grasseli 13690; 

São Paulo: Guida Calixto, 1320;

Sergipe: Benizário,1390 e Dudu,13900;

Tocantins: Antonio Marcos do MST 13333 e Professor Fabiano Kenji 13311.

Noutra mensagem, informaremos as candidaturas proporcionais petistas apoiadas pela militância da AE, nos estados não relacionados acima.


domingo, 16 de agosto de 2026

Lula, a democracia e o socialismo

Hoje, 16/8, Lula faz o primeiro ato politico oficial de nossa candidatura presidencial.


O local: Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo.

Ontem 15/8 Lula esteve em Vila Euclides e fez uma gravação.

A gravação está aqui: 

Nesta  gravação, Lula destaca o papel da classe trabalhadora na luta pela democracia.

Corretíssimo.

Mas se nossa classe, como classe, lutou a favor, que classe lutou contra? 

Que classe social, como classe, sempre lutou contra as liberdades democráticas para o conjunto do povo?

Que classe social, como classe, apoiou todas as ditaduras e autoritarismos que existiram no Brasil?

A que classe social pertencem os que financiam o neofascismo e o neoliberalismo?

A que classe pertence a maioria daqueles que criticam as políticas de bem estar social e que ampliam os direitos da maioria do povo brasileiro?

A que classe pertence a maioria dos que lutam contra a soberania e contra o desenvolvimento do Brasil?

Quem, no nosso país, mais defende Trump?

A resposta é conhecida: a classe dos capitalistas.

E uma decorrência é: só haverá democracia plena, profunda e verdadeira no Brasil, quando a classe capitalista for totalmente derrotada.

Por isso quem luta pela democracia, precisa lutar também pelo socialismo.

Esse foi um dos muitos motivos que levaram Lula e a maioria dos trabalhadores que estiveram em Vila Euclides, a criar o Partido dos Trabalhadores (e das Trabalhadoras) e a combinar, numa mesma luta, soberania, democracia, bem estar, desenvolvimento e socialismo.

Quem não puder estar hoje, 16/8, em Vila Euclides, acompanhe por aqui a transmissão ao vivo:

 https://www.youtube.com/live/j-JeOIg293k?si=rkFh8sQWzKg9bgNN





sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A Igreja dos Marxistas Leninistas dos Últimos Dias

Terra Redonda publicou um texto de Zen atacando o PT, eu fiz um texto defendendo o Partido, um cidadão chamado Alexandre Vasilenkas criticou este meu texto em sua rede antisocial.

Segundo Vasilenkas, eu teria escrito um "panfleto redwashing".

Até aí, faz parte. 

Ele também me acusa de "chafurdar" em "documentos internos" com "avidez talmúdica", supostamente esquecendo que há uma realidade "lá fora". 

Acho duplamente engraçada a acusação. 

Como sabe quem, na falta de coisa melhor para fazer, lê o que eu escrevo, não sou muito afeito a fazer citações. Salvo engano, no tal "panfleto redwashing" não há nenhuma.

Além disso, a maior crítica que faço à ultraesquerda é exatamente a de que, na minha opinião, ela desconsidera boa parte da realidade, a começar pelo fato de que estamos sob ataque brutal do imperialismo e da extrema-direita, motivos pelo quais eleger Lula e fazer um quarto mandato superior são desafios existenciais.

Sendo esse o contexto, acho inaceitável - atitude de quinta coluna - a postura de Vasilenkas, que nas suas postagens chama nosso candidato de "escroque" e "cria do Golbery", além de chamar outra importante liderança petista de "ratazana da USP".

Na minha opinião, quem fala tanta merda simplesmente não deve ser considerado de esquerda, comunista, marxista ou qualquer outro título que pareça elogioso.

Curioso é que Vasilenkas de certa forma poupa Zé Dirceu, que ele considera como "um comunista sincero além de nacionalista revolucionário", cujo erro teria sido fazer um "pacto mefistofélico com a cria do Golbery".

Isto posto, tenho dúvidas se Vasilenkas leu mesmo o texto que eu escrevi. 

Por exemplo, ele me atribui a frase "não existe intelectualidade paulista". Acontece que eu não escrevi tal frase. 

O que eu escrevi é que - até ler o texto de Zen - nunca tinha conhecido ninguém que tratasse a "intelectualidade paulista" como "matriz principal" na história do PT. 

Também escrevi que não se deve confundir aqueles intelectuais uspianos que contribuíram para a criação do PT, com a intelectualidade paulista que esteve na origem do PSDB. 

Vasilenkas também afirma que eu teria dito que não existe "história do PT". 

O que eu falei é que não existe uma história do PT, assim como não existe uma história do movimento comunista no Brasil. Ou seja: embora obviamente exista um único processo histórico, há várias interpretações historiográficas a respeito.

Mas é preciso dar um desconto. Afinal, é mesmo difícil discutir história com um cidadão para quem, no primeiro turno de 1989, teria acontecido uma "tragédia", a saber, a ida de Lula ao segundo turno das eleições presidenciais ocorridas naquele ano.

Uma pessoa de esquerda sabe muito bem que a verdadeira tragédia ocorrida naquele ano foi a vitória de Collor. Sabe, também, que a tragédia collorida foi contemporânea de outra, o colapso da URSS e dos governos socialistas do Leste Europeu. 

Muita gente perdeu o rumo naquele momento e até hoje não achou o caminho de volta para casa. Alguns vivem numa espécie de realidade paralela, onde o esporte principal é pontificar, usando um vocabulário teológico disfarçado de marxismo. acerca dos problemas supostos ou reais do PT.

Para estes uma saída está na Igreja dos Marxistas Leninistas dos Últimos Dias, para a qual se convertem os que - como eu - acreditam que, se houver salvação nesta quadra histórica, não será contra o PT, nem apesar do PT, mas junto com o PT. 

Seguramente, a quadra em que estamos não é a última da história. Mas salvo para quem acredita no quanto pior melhor, é melhor insistir na batalha para que o PT supere seus problemas e esteja à altura dos desafios e das possibilidades abertas pela imensa crise que o mundo atravessa. 








terça-feira, 11 de agosto de 2026

Comentários sobre o programa que a coligação que apoia Lula inscreveu no TSE

 (texto sem revisão)

O presidente nacional do PT, o companheiro Edinho, volta e meia enfatiza a importância do Partido, das instâncias, da democracia interna.

Ele está certo. Mas, infelizmente, não foi o que vimos no caso do programa de governo 2027-2030.

O texto que foi protocolado no Tribunal Superior Eleitoral é assinado por 7 partidos: PT, PSB, PV, PCDOB, PDT, PSOL e REDE.

Não sei como foi nos demais partidos. Mas no PT não houve debate nem aprovação deste texto pelas instâncias partidárias, seja no Diretório Nacional, seja na Executiva Nacional.

Não foi assim nas eleições presidenciais que acompanhei, desde 1989 até 2022.

Nunca antes na história do Partido um programa foi registrado sem que houvesse debate nas instâncias.

A bem da verdade, houve situações bizarras – numa das campanhas da presidenta Dilma Rousseff tivemos problemas com o texto que foi protocolado no TSE – mas naquele caso o problema não foi a falta de debate e deliberação no Partido.

No caso presente, 2026, ao menos da nossa parte foi feito um alerta, uma reclamação e um pleito para que o devido debate fosse feito. Mas isso não ocorreu. O terrível fato é que o Diretório e a Executiva abriram mão de incidir no processo

O texto que foi protocolado passou por comissões, consultas abertas, escutas... mas, no limite, a decisão sobre o que entrava e sobre o que não entreva no texto protocolado no TSE não foi tomada por nenhuma instância partidária.

Dizem que a decisão final foi de Lula, dizem que “o governo” tinha que ser ouvido. Mas nada disso impediria que o Partido tivesse dado sua posição.

As vezes tenho a impressão de que algumas pessoas acham que o mundo sairia do eixo, se o Partido decidisse algo e Lula decidisse o contrário. E, para impedir isso, essas mesmas pessoas pulam a parte da decisão partidária e vão direto para a decisão de Lula.

Este método tem uma consequência prática – empodera o embargo auricular de inúmeras pessoas, em detrimento das instâncias democraticamente eleitas. Deixo aos sociólogos dizer se isso é uma “hegemonia burocrática” ou se é um “método de corte aristocrática”, mas em ambos os casos os empoderados não são escolhidos pelo voto da militância petista.

Qual a implicação de mérito deste processo pouco democrático? Depende do que se entenda por mérito, mas na minha opinião o programa ficou aquém do que poderia e do que precisamos.

Claro que ter um programa ótimo não garante nada. Por exemplo: em 2022, o programa relativo ao mandato 2023-2026 foi democraticamente debatido, mas sua incidência sobre a gestão que agora se encerra não foi a que gostaríamos, entre outros motivos porque está se generalizando a conduta segundo a qual o comando político real está nos mandatos, não nas instâncias.

Mas constatar isso não deveria nos levar a ter uma atitude cínica segundo a qual “tanto faria” o programa dizer A ou dizer B. Pelo contrário. Um programa debatido e aprovado nas instâncias democraticamente eleitas, além de sair melhor, tem maior capacidade de engajar, de influenciar, de contribuir no debate público, além de impor maiores custos a quem queira desrespeitar o que foi deliberado coletivamente.

De forma geral, há uma questão político pedagógico muito importante nesses tempos de extrema-direita trumpista e neofascista.

Vivemos numa época em que as chamadas regras do jogo são regularmente desrespeitas, em que as instituições são atropeladas pelas elites.

Nós somos a alternativa a esta gente. E se formos pelo caminho de também passar por cima das nossas próprias regras do jogo, isso criará um ambiente de cinismo, de hipocrisia, de desvalorização dos espaços e dos debates coletivos.

Isso pode, no curtíssimo prazo, aumentar a eficácia. Mas no médio e longo prazo, causará danos irreparáveis, como aliás já foi demonstrado sobejamente pela história do movimento socialista.

Para nós da classe trabalhadora, que dependemos antes de mais nada de nossa organização coletiva, uma prática autoritária pode ser útil momentaneamente, mas estrategicamente é um desserviço.

Seja como for, o programa está inscrito. E o debate sobre ele segue, inclusive porque a direita não desistiu de tentar impor ao futuro mandato Lula que faça um ajuste fiscal. O que isso poderia significar? Basta lembrar da inestimável ajuda que o desastroso ajuste capitaneado, em 2015, por Joaquim Levy deu ao golpe de 2016.

Um exemplo do que a direita pensa a respeito do programa protocolado no TSE é o editorial do Estadão, divulgado neste 11 de agosto. 

Alguns interpretam o ataque do Estadão como prova de que o texto protocolado estaria na linha justa. Mas isto é uma meia verdade. O texto não agrada os porta-vozes do grande Capital, porque propõe políticas públicas que atendem ao povo. E esse é, precisamente, um dos muitos motivos pelos quais defendemos muito do que é dito pelo programa e fazemos campanha para reeleger Lula presidente.

Mas o fato da direita nos atacar, não quer dizer que estamos no caminho certo. Basta lembrar do passado recente de nossos governos, que recordaremos inúmeras situações em que nossas escolhas não foram as melhores, nem foram suficientes para nos levar por  um caminho de vitórias.

Assim sendo, é importante que a Nação Petista leia o texto que está sendo divulgado pela campanha. Leia e debata.

A seguir fazemos uma glosa deste texto. Como o objetivo é debater, não vamos destacar aquilo com que concordamos, até porque concordamos com boa parte do que é dito; nos limitaremos a apontar os problemas e as lacunas, até porque consideramos que o que é prometido no programa será irrealizável, se estas lacunas e problemas não forem resolvidos.

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O nome completo do texto é “DIRETRIZES PARA O PROGRAMA DE TRANSFORMAÇÃO DO BRASIL: UM PAÍS SOBERANO, DEMOCRÁTICO, DESENVOLVIDO SUSTENTÁVEL E CRIATIVO”.

Por razões que ainda não consigo atentar, tivemos neste título a inclusão de um “criativo” e tivemos a exclusão da clássica “justiça social”, termo inexato mas que pelo menos indica um compromisso com os direitos sociais.

Já na Introdução do texto, este problema foi corrigido, quando se afirma que “nosso compromisso histórico é construir um Brasil como potência criativa, sustentável, democrática e soberana, com menos desigualdades”. Mas por qual motivo não consta do título este tema das desigualdades? Mistérios da meia-noite...

O texto contém 13 diretrizes, que são as seguintes:

1. FORTALECER A DEMOCRACIA, A PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MODERNIZAR O ESTADO

2. COMBATER AS DESIGUALDADES

3. PROTEGER A VIDA COM UMA SEGURANÇA PÚBLICA MAIS EFICIENTE E INTEGRADA

4. GARANTIR O DIREITO À EDUCAÇÃO PARA TRANSFORMAR VIDAS E O PAÍS

5. FORTALECER A SAÚDE COM EQUIDADE, INOVAÇÃO E SOBERANIA

6. AMPLIAR O ACESSO À CULTURA E AO ESPORTE COMO VETORES DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

7. FORTALECER O DIREITO À CIDADE

8. PROMOVER UMA ECONOMIA MAIS SUSTENTÁVEL, PRODUTIVA E DIGITAL, PARA TODAS E TODOS

9. SEGURANÇA ALIMENTAR E PRODUÇÃO AGRÍCOLA

10. AMPLIAR A SEGURANÇA ENERGÉTICA E LIDERAR A TRANSIÇÃO PARA UMA ECONOMIA DE BAIXO CARBONO

11. PROMOVER A SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL E CLIMÁTICA

12. VALORIZAR O TRABALHO EM SUAS MÚLTIPLAS FORMAS

13. DEFENDER A SOBERANIA NACIONAL E O PROTAGONISMO INTERNACIONAL DO BRASIL

Antes das diretrizes propriamente ditas, há uma introdução, intitulada COMPROMISSO COM O PROJETO DE NAÇÃO.

Uma versão anterior desta introdução foi analisada com mais detalhe aqui: Valter Pomar: Glosando a minuta de programa 2027-2030

Ao que já foi dito no texto disponível no link supracitado, acrescento o seguinte:

1/ o destaque dado ao “povo” e o sumiço de referência explícita à “classe trabalhadora”, não apenas na Introdução, mas no texto como um todo.

O termo “classe trabalhadora” não aparece nem mesmo quando o texto defende “assegurar o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas, sem redução salarial”.

O curioso é que – ao mesmo tempo que o termo “classe trabalhadora” está ausente - o termo “classe média” comparece, no trecho que fala da Minha Casa, Minha Vida;

2/ o texto afirma que “o Brasil proposto por este programa de governo não é uma utopia distante nem uma promessa vaga. É a continuidade de um projeto concreto” (...)Todos os compromissos aqui assumidos são factíveis, necessários e possíveis, e têm como base as conquistas e entregas do atual mandato”.

Essas afirmações totalmente defensivas, quase vestindo a carapuça, devem ter sido feitas como vacina a um questionamento do tipo: “porque já não fizeram?”

Mas este tipo de vacina não é nada útil para enfrentar outro tipo de questionamento, do tipo “o que vai ter que mudar, para fazer mais?”

Este é o problema de fundo, sobre o qual o texto do programa cala: um salto de qualidade nas políticas sociais e nas políticas de desenvolvimento não é compatível com as atuais políticas fiscal e monetária;

3/ o texto do programa afirma que “políticas públicas sérias, bem planejadas, participativas e voltadas para quem mais precisa são capazes de mudar a vida das pessoas. Somos o verdadeiro novo porque enfrentamos o velho sistema que mantém o Brasil no atraso, na desigualdade e na dependência”.

Esse é outro problema político decisivo no texto. Ele apresenta e defende políticas públicas, a maioria das quais deve mesmo ser defendida.

A questão é que, para enfrentar o velho sistema, não bastam políticas públicas, são necessárias as famosas reformas estruturais.

Reformas estruturais que alterem qualitativamente a distribuição da propriedade, da riqueza e do poder.

Reformas estruturais que enfrentem o controle do capital financeiro, do agro e das mineradoras sobre a economia nacional.

Sem derrotar esta turma, não haverá o almejado “salto qualitativo de desenvolvimento, inclusão, sustentabilidade e soberania”;

4/ Nessa mesma linha, é espantoso que na análise do governo cavernícola, não se destaque o tema das forças armadas. O texto propõe repetir, sobre este tema, o que já fizemos noutros governos: ampliar os recursos. Isso deve ser feito. Mas como já percebemos no tocante a classe trabalhadora, ampliar as políticas públicas sem politizar e organizar pode ter resultados opostos aos pretendidos;

5/ o balanço que o texto faz do atual governo Lula, como não poderia deixar de ser, é positivo. Para além de alguns exageros retóricos desnecessários, o problema de fundo é que o texto falha ao não destacar que 4 anos de governo nunca seriam suficientes – mesmo que não houvesse o Novo Marco Fiscal e que não houvesse a política de juros do Banco Central - para recompor 7 anos de problemas (2015-2022);

6/ o texto de programa apresenta como grande feito o “enorme esforço fiscal, de aproximadamente 2% do PIB, R$ 240 bilhões”. Na verdade, tratou-se de um imenso sacrifício, totalmente desnecessário, pois faz parte dos custos derivados do Novo Marco Fiscal e do Banco Central. Da mesma forma, não há motivo para comemorar os “recordes” em “leilões de concessões de logística e energia”. A turma dos leilões e do esforço fiscal é a outra, não é a nossa;

7/ o texto de programa fala que “herdamos uma taxa Selic elevada”. Verdade, mas também é verdade que a política do BC de Galípolo não contribuiu para mudar qualitativamente esta situação. O silêncio a respeito não vai mudar a realidade;

8/ o texto de programa fala que “o Brasil rompeu definitivamente com o isolamento geopolítico pretérito e reassumiu seu protagonismo na arena global”. Mas também é verdade que os ataques dos EUA e o crescimento da extrema-direita em nosso continente criaram uma situação de cerco geopolítico contra o Brasil. Neste sentido, o texto ficaria melhor e mais sintético se ele fosse desde o princípio organizado em torno de duas ideias forças: soberania e direitos.

Aliás, bastaria dar maior destaque ao que já se diz no próprio texto, a saber: “Queremos fortalecer a soberania brasileira em todas as suas dimensões: democrática, institucional, defesa nacional, geopolítica, científica, tecnológica, digital, energética, mineral, ambiental, cultural, econômica, financeira, trabalho decente, alimentar, educação e saúde”;

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Sobre as “DIRETRIZES PROGRAMÁTICAS”, muito pode e deve ser dito sobre cada área, tendo em vista que em todas e cada uma houve – durante o governo Lula 3 – contradições entre a ação do governo e as posições defendidas pelo Partido ou por setores dele.

Por exemplo, no caso do SUS, ver as propostas contidas aqui: Valter Pomar: Reconstruir e Fortalecer o SUS: um programa democrático e popular

O texto de programa não fala do sistema dual (que se não for enfrentado vai seguir nos levando em direção a um SUS totalmente diferente do previsto na Constituição), não fala da privatização (OS e quetais), não fala do sistema e dos planos privados que na prática fazem o privado deixar de ser suplementar, não fala de carreira única.

Problemas deste tipo existem em todos os itens do programa. Entretanto, aqui nesta crítica nos limitaremos a fazer observações gerais.

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9/O texto fala que a “reforma política e eleitoral é inadiável” e propõe “enfrentar uma grave distorção na elaboração e gestão do orçamento federal – o atual sistema de emendas parlamentares”. Mas não diz o caminho para isso, que em nossa opinião – e na de congressos anteriores do Partido dos Trabalhadores – passa pela mobilização em favor de uma Assembleia Nacional Constituinte;

10/ ao invés de defender uma verdadeira reforma, o texto fala apenas em “estimular o aperfeiçoamento do sistema de Justiça”;

11/ o texto fala que “precisamos seguir transformando nossa economia” e elogia os feitos do governo Lula 3 nesta área. Defende “elevar a taxa de investimento da economia”. Afirma que “a taxa de juros é hoje o que a inflação foi no passado no Brasil: promove concentração de renda e desorganiza a nossa economia”. Defende “criar as condições para uma redução sustentada das taxas de juros, com inflação controlada e assegurando uma política fiscal responsável”. Mas, incrivelmente, defende que “para isso, manteremos o novo arcabouço fiscal, que controlou o crescimento das despesas sem prejudicar as políticas sociais e permitiu uma redução significativa do déficit primário. O resultado fiscal virá, como fizemos até aqui, da retomada do crescimento econômico, do controle do aumento do gasto primário, investindo na melhoria da eficiência e da qualidade do gasto público, da promoção de justiça tributária e do combate aos privilégios e às distorções”.

Neste trecho citado acima residem os maiores e mais graves problemas do programa.

Afinal, o compromisso com a manutenção do “novo arcabouço fiscal” bloqueia o prometido salto de qualidade e limita muito a “neoindustrialização”.

Além disso, a timidez com que se fala em “criar as condições para uma redução sustentada da taxa de juros” contrasta com o tamanho do assalto diário aos cofres públicos e privados, assalto promovido e protegido pela política de juros do Banco Central e aceito, de forma política e intelectualmente medíocre, pelo Novo Marco Fiscal;

12/ o texto fala em desenvolver uma “política específica para minerais críticos e terras raras”, quando o certo seria adotar a mesma embocadura que, no passado, levou à criação da Petrobrás;

13/o texto fala em garantir a “soberania digital”, mas não se compromete explicitamente com a criação de uma ou mais empresas públicas que garantam a competição com as biguitequis estrangeiras;

14/ o texto fala de reforma agrária, o que é um avanço frente a certas posições, mas o faz na linha "hipocrisia é a homenagem que o vício rende à virtude". A posição que prevalece no texto, do ponto de vista formal, é a de compatibilizar agronegócio e produção familiar. O que na prática significa mais agronegócio. O que é ainda mais inaceitável no momento que vivemos, no Brasil e no mundo, momento que torna agudíssima a secular contradição entre “agrarismo e industrialismo”;

15/ o texto não aponta para a reestatização de empresas como Eletrobrás e Petrobrás, assim como não fala da revogação das contrarreformas trabalhista e previdenciária, isso apesar de afirmar que “o golpe contra a Presidenta Dilma e a reforma previdenciária do governo Bolsonaro promoveram uma desorganização que ainda estamos enfrentando”. Ou seja, vasto diagnóstico, medidas imperfeitas;

16/ o texto afirma que “a defesa nacional exige Forças Armadas bem equipadas e uma indústria de defesa sólida”, mas não trata da política de Defesa, nem da política de formação dos militares.

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Para concluir, adapto a seguir observações que foram feitas por duas companheiras, a quem enviei uma versão anterior desta análise do texto de programa.

O que segue em itálico não é exatamente o que elas me disseram, mas a inspiração é totalmente delas. Não as cito, porque cabe a elas vir a público. Mas cito suas ideias, que me parecem adequadas para finalizar esta crítica.

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O fato do texto não ter sido debatido e aprovado pelas instâncias partidárias ajuda a explicar porque palavras simplesmente "aparecem", sem que seu sentido e significado tenham sido minimamente debatidos. É o caso desse bizarro CRIATIVO que foi alçado a palavra de ordem.

Nessa mesma direção, a função de um programa é, justamente, engajar e, para tanto, sua construção ser coletiva não é um "detalhe", é parte essencial do processo de engajamento.

O principal responsável pelo texto de programa registrado no TSE disse, numa reunião, que o resultado do programa foi fruto de uma batalha da direita com a centro esquerda e, portanto, o que saiu está ótimo porque poderia ser muito pior.

Cabe perguntar: cadê a esquerda, cadê o PT, nessa queda de braço? O fato de o PT não ter sido consultado contribui de maneira decisiva para que a direita e a centro-esquerda tenham – do ponto de vista do principal responsável pela elaboração do texto – monopolizado a disputa.

Por fim, cabe destacar que o texto assume como tarefa pendente transformar o Brasil. Isso estava no programa de 2022: “reconstrução e transformação”. Mas, como sabemos, depois da vitória arquivou-se a transformação e o mote do governo passou a ser “união e reconstrução”. Detalhe que precisa ser lembrando, quando falamos do que foi feito e do que não foi feito ao longo deste terceiro mandato de Lula.

Está correto dar total centralidade para o objetivo da transformação. Mas o texto de programa protocolado no TSE não dá consequência para isso. E um dos pontos de maior fragilidade está na frágil articulação entre o projeto nacional e nossa soberania.

Soberania não deveria estar no ponto 13 das diretrizes, deveria ser o eixo – junto com ampliação dos direitos – em torno do qual se articula todo o programa.

Mas a mãe de todas as fragilidades diz respeito ao sujeito social da transformação.

Já dissemos que não se faz menção à classe trabalhadora (aliás, isso faz recordar um certo poema: primeiro tiram a revolução e eu não digo nada, depois as reformas estruturais, depois a transformação, depois tiram a classe trabalhadora...), ao mesmo tempo em que a classe média comparece, ainda que inadvertidamente.

Mas não é só a classe trabalhadora que não comparece ao texto de programa protocolado no TSE. Na verdade, estão ausentes ou têm papel totalmente rebaixado todos os sujeitos políticos de que depende a sustentação popular de um programa de transformação: não tem trabalhadores, mulheres, negros, indígenas, setores populares como sujeitos políticos que demandam e conquistam direitos. Aparecem? Sim, mas em geral como beneficiários.

Esse viés tecnocrático não tem nada que ver com nossa tradição. E tem relação direta com o método adotado para redigir o programa. Mas a decorrência principal é política: do mesmo jeito que o programa proposto é irrealizável, se forem mantidos o Novo Marco Fiscal e a política de juros do Banco Central, ele também é irrealizável se não houver força política que o sustente. E, como descobrimos em 2016, não basta ter força política nas instituições, é preciso força popular organizada nas ruas.

Por isso devemos seguir pressionando para que o programa seja alterado, em favor da esquerda. Inclusive porque o cabo de força contra o capital financeiro não acabou. E se não houver gente puxando do lado de cá, o resultado poderá ser parecido ao que tivemos em 2014-2015.

Portanto, o que fazer? Resposta: eleger Lula e nossa gente, ao mesmo tempo que usamos a campanha como instrumento de mobilização e organização popular.

E para isso ajudará muito se conseguirmos transformar o programa protocolado, num resumo curto, didático e organizado em torno de três palavras chave, por exemplo: soberania, direitos e transformação. Lula, em parte de seu discurso na recente Convenção do PT, deu algumas boas pistas nesse sentido. 

(sem revisão)