Um irmão (de verdade) disse para eu não dar palanque para o cidadão. Expliquei que dois jornalistas sérios e com bastante audiência acharam por bem dar palanque. E, como me ensinou o velho Perseu Abramo, melhor registrar sempre a devida correção.
Assim, cumpro aqui o prometido noutro lugar e contesto aqui a parte, digamos, “racional” do vomitório cometido pelo capo da “Contra-revolução brasileira”.
Mais detalhes estão aqui:
A íntegra do vomitório está ao final.
A seguir os comentários devidos.
Começo enumerando os adjetivos e similares que ele dedica a minha pessoa: delírio, oportunismo político, loucura, abraçar uma estátua, órfãos do 5º Encontro, cínico, delirante, identitário, liberal, impotência.
Tudo isso foi provocado, aparentemente, pelo fato de eu ter dito que o PT é um partido socialista. Ou, talvez, por eu ter dito que a campanha pelo voto nulo transforma a “organização” de Ouriques em aliada objetiva da extrema-direita.
Sobre este segundo ponto, o capo da “Contra-revolução brasileira” diz o seguinte: “(…) aqueles que julgam que nós que estamos defendendo a campanha pelo voto nulo para disputar dentro das eleições um terreno crítico, estamos crescendo. Eu vejo cada vez mais, cada vez mais. Essa é o segundo voto nulo que nós vamos praticar da Revolução Brasileira, mas agora na forma de uma campanha, muita gente conosco (…)”.
Não vou comentar a “tese” segundo a qual “estamos crescendo”, pois obviamente não há nenhuma base científica que permita atribuir os votos nulos ao tal “movimento”.
O que pode ser dito é: cada pessoa que, pretendendo estar cometendo um ato de esquerda, escolher votar nulo nas eleições de 2026, estará na prática ampliando as chances de vitória da extrema-direita.
Antes de passar ao tema do socialismo, quatro correções pontuais:
1/não sou fundador do PT. Comecei a militar em 1982 e me filiei em 1985;
2/fui da Articulação dos 113, enquanto ela existiu e defendia as posições fundacionais do Partido;
3/sou do mesmo partido que Lula, fui da mesma tendência que Lula entre 1985 e 1993, votei em Lula todas as vezes em que ele foi candidato desde 1986, votarei nele em 2026, mas não sou “lulista”, seja lá o que o Capo da Contra entenda por esta palavra;
(Aliás, quão ignorante acerca do PT alguém precisa ser, para afirmar que Lula seria meu “santo de devoção”?)
4/eu não “criei uma Articulação de Esquerda”, participei da fundação da tendência, que na época (1993) chegou a representar 30% do Partido;
5/é perfeitamente possível contribuir na prática para o socialismo, falando muito pouco ou quase nada a respeito. Vide o caso do M26J cubano. Não foi falando em “socialismo” que se criaram as condições que levaram ao triunfo da revolução em 1959. E sem esse triunfo, o restante não teria sido possível.
6/não sou “orfão” do V Encontro. Como poderá constatar quem ler as resoluções de 1987, atualizadas no Congresso do PT realizado em 2017, a estratégia democrática e popular articulada ao socialismo continua muito atual.
Agora vamos ao ponto: “socialismo”.
Como definir se um partido é socialista? Basta que ele se proclame socialista? Entendo que isso não basta. É preciso, também, verificar se a ação prática deste partido contribui para o socialismo.
Mas para verificar isso, é preciso definir o que é “socialismo”. O que nos leva de volta ao ponto de partida, pois não existe uma definição consensual acerca do que seria “socialismo”.
Basta ver o que se diz, a torto e a direita, sobre a República Popular da China. Mesmo que concordem sobre os “fatos”, muitas pessoas divergem sobre como “caracterizar”, “qualificar”, “denominar” o conjunto da obra, o sentido geral da coisa toda.
(O autor dessas linhas considera que a China é socialista.)
Há pessoas que escolhem usar como parâmetro as definições deste ou daquele teórico, em alguns casos definições feitas antes que houvesse qualquer tentativa de construção de uma sociedade socialista.
Por mais simpatia que tenha por essas definições e por mais que ache brilhantes determinados teóricos, sigo acreditando que o marxismo é um “guia para a ação” e que sua essência está na “análise concreta da situação concreta”.
Motivo pelo qual o “socialismo” é, em cada período histórico, a alternativa real que a classe trabalhadora forja contra o capitalismo, ou seja, a alternativa capaz de impor derrotas práticas à exploração que o capital impõe contra o trabalho assalariado.
Claro que na história tal como ela é - e não como gostaríamos que fosse - a classe trabalhadora não age como um monolito. Há desde setores totalmente submetidos à classe dominante, até setores decididos a “assaltar os céus” e “virar o mundo de ponta-cabeça”.
O que significa dizer que a própria definição acerca do que é “socialismo” em cada período histórico está totalmente vinculada a correlação de forças entre os diferentes setores da classe trabalhadora, em sua luta contra a classe capitalista e aliados.
Noutras palavras: o Capo da Contra tem todo o direito de questionar o “tipo” de socialismo defendido pelo PT ou por cada tendência petista, mas incorre em erro - político e teórico - ao impugnar a natureza socialista do Partido.
Pois ao fazer isso, o que ele está realmente dizendo é que a maior parte da classe trabalhadora com consciência de classe - a maioria dos quais se identifica com o PT - não tem nenhum compromisso com o socialismo.
Que esta relação possa ser débil, não discordo. Mas que não exista, discordo. E a maior prova prática disso é a fúria da extrema-direita contra o “socialismo petista”.
No PT e, portanto, na parcela da classe trabalhadora brasileira que tem consciência de classes, convivem, a grosso modo, três visões diferentes acerca do socialismo.
Há os que consideram o socialismo como um “valor espiritual, uma espécie de “bússola moral”, que deve contaminar as nossas políticas tanto quanto o amor pelos pobres contamina os milionários cristãos. Ou seja, o que chamamos de social-liberalismo.
Há os que consideram que o socialismo é um conjunto de ações que ampliam a democracia e o bem-estar social, nos marcos de uma economia predominantemente capitalista. Ou seja, aquilo que ficou conhecido na Europa dos anos 1920 a 1960 como social-democracia (aqui no Brasil o PSDB nunca foi social-democrata nesse sentido, já nasceu neoliberal).
E há os que - caso da tendência de que faço parte - lutam por fazer da propriedade social dos principais meios de produção o eixo organizador da vida em sociedade. Ou seja, o que pode ser chamado de socialismo revolucionário, no sentido de que implica em revolucionar as estruturas fundamentais da sociedade.
Curiosamente, esta terceira visão segue sendo a mais parecida com a oficial - vide resoluções dos congressos petistas - mas, seguramente, não é a que predomina na base do Partido.
Um dos motivos desse aparente paradoxo é que o PT não se organiza em torno de uma doutrina, mas sim em torno de uma linha política. Portanto, é no debate sobre a estratégia, sobre a tática, sobre o funcionamento do Partido, sobre suas relações com a classe trabalhadora e, também, sobre suas políticas de governo, é em torno dessas questões que se materializa o compromisso real do Partido com o “socialismo petista”.
SUS, educação pública, 6x1, valor do salário mínimo, empresas estatais, políticas de reparação, defesa das mulheres e dos negros, proteção do meio ambiente vis a vis tudo que beneficia o capitalismo, os capitalistas e seus aliados: é aí que se mede o tipo de socialismo efetivamente praticado pelo PT.
Nesse terreno, desde 2002, a disputa tem sido travada principalmente entre social-liberais e social-democratas. Os setores que defendem o “socialismo revolucionário” - e, por isso, defendem reformas estruturais - são muito minoritários.
Por este motivo, aliás, volta e meia tem gente que se desespera e busca amparo em alguma “igreja” onde poderão praticar rituais esteticamente socialistas, mas que na prática não incidem na luta real entre a classe trabalhadora e a classe capitalista.
Por isso, também, muitos destes que saem do PT e embarcam em seitas supostamente revolucionárias, acabam voltando ao PT. E como saíram do jeito errado, terminam voltando do jeito também errado, ou seja, se submetendo àd tendencias comandadas por social-liberais ou aos social-democratas.
Qual é a alternativa? A alternativa real passa por organizar, conscientizar e mobilizar a classe trabalhadora. O que, a preços de hoje, no período histórico em que estamos, se confunde na prática com disputar os rumos do PT.
Aliás, quem desiste de disputar os rumos do PT, na prática desistiu de disputar os rumos da classe trabalhadora. E como lutar pelo socialismo, sem a classe trabalhadora??
Por fim, para não dizer que não falamos de flores, falemos da eleição presidencial.
O Capo da Contra acusa Lula de ser “o epicentro de todos os males do Partido dos Trabalhadores”.
A rigor, Lula é - como pessoa jurídica - o epicentro do PT, portanto de nossos defeitos e também das qualidades, que são muitas.
Mas, acima de tudo, Lula é nesse momento a alternativa dos que desejam derrotar a extrema-direita, o imperialismo, as milícias, o racismo, o feminicídio, o fundamentalismo religioso e toda a merda.
Quem a essa altura do campeonato escolhe votar nulo é aliado da direita e inimigo do povo.
O que vamos fazer da eleição?
Na grande politica, o que está indicado nas resoluções da AE, entre as quais essa:
E nas horas vagas, tentando desmascarar os Capos dessas seitas que tanto dano causam ao marxismo, à revolução e ao socialismo.
Segue abaixo a transcrição do vomitório do capo da “Contra-revolução brasileira”, em entrevista concedida ao Leandro Fortes.
[LF] Teve uma fala do Valter que me chamou muita atenção. Ele falou assim que que o PT é um partido socialista. A minha pergunta para ele, não sei se você chegou a ver, disse: "Vem cá, o PT se afastou do socialismo, né, na origem, tirou a narrativa dos seus documentos, das suas falas, não toca mais em socialismo e tal". E ele falou: "Não, o PT é socialista” e, segundo ele, o socialismo só virá no Brasil se for por meio, através do PT. E aí eu queria uma avaliação sua sobre isso, sobre essa essa fé inabalável, digamos assim, do Valter Pomar. E eu tenho impressão que outras pessoas dentro do PT, da ala mais à esquerda, de que o PT ainda é socialista e de que o socialismo será a decorrência da ação do PT na política brasileira.
[NO] Pô, eu poderia dizer que isso é um delírio do Valter, mas eu quero dizer que é um oportunismo político. Tal como Valter, eu sou fundador do PT aqui no estado de Santa Catarina e no começo nós falávamos numa sociedade sem explorados e exploradores. Evitava-se o jargão socialista. E nós fizemos uma disputa dentro do partido. O Valter tava na concepção dominante do partido. Depois ele criou uma Articulação de Esquerda, porque ele era da Articulação, a tendência majoritária, ele era lulista, sempre foi, continua lulista. E e suponho que tenha vida longa, um dia vai morrer lulista, que é uma loucura, né? Para alguém que se diz marxista, de esquerda e leitor de Lenin, isso é abraçar uma estátua, não é? Então, o partido, nós perdemos essa batalha, ele é um dos viúvos, dos órfãos no 5º Encontro, que criou um programa, o programa democrático e popular, baseado numa interpretação derivada das teses do Partido Comunista, sem dúvida nenhuma, no mercado interno, na reforma agrária, na ideia, no suposto que esse programa democrático popular poderia ser a transição para um socialismo ou para um capitalismo autônomo, que no fundo era isso que preconizava. Hoje eu tenho clareza sobre isso. E meu próximo livro sobre o capitalismo independente rentístico, eu expresso isso com riqueza de detalhes. Então o Valter supõe que ah, ele diz: "Não, não, não se fala em socialismo". Não, ninguém lá é socialista. O que o que que o Edinho tem de socialista levando 73% com apoio explícito do Lula? Eu gostei de você inquirindo ele, colocando a contradição e claro que não aprovo o caráter cínico da resposta dele, o delirante, não é? Que é o objetivamente dizendo que se pode praticar a luta pelo caminho da revolução brasileira, do socialismo, sem falar nisso. Ora, isso é só um argumento retórico, vazio, não no sentido clássico da retórica, né, que precisaria expressar a verdade. Então, aquilo ali foi verdadeiramente um um momento da entrevista que você deu uma estocada séria e ele saiu pela tangente, mas dentro do partido, a julgar pela última decisão que ele participou, então ele não pode dizer que ele ignora, que ele não viu, em que ele teve 4,3% dos votos dos filiados, não é? E só o Edinho teve quase 240.000 votos, não é? Ele teve nada. O Edinho teve 73, ele teve 4,3. Quem fala em socialismo lá? O Edinho, o Lula, o Zé Dirceu, a Gleici Hoffman, os ministros? Isso é um delírio, né? Isso é uma mentira. Isso é uma prática cínica da política. Eu não tô aqui falando do ponto de vista moralizante, não é identificando tendências obras que você colocou para ele e ele não… Saiu pela tangente. Não tem a menor discussão sobre o socialismo no Partido dos Trabalhadores. A representação parlamentar nos estados, nos municípios, etc. É um carreirismo político completo. Ele diz: "Bom, o partido desprestigiou a luta ideológica, a luta política, a formação, etc." Sim, mas tem que explicar por que isso aconteceu. Ocorreu por uma decisão consciente da cúpula partidária da maioria formada por Lula, da qual se desvinculou tardiamente, fazendo a Articulação de Esquerda e que é o santo de devoção dele. O Lula é o epicentro de todos os males do Partido dos Trabalhadores. É a expressão cabal dessa consciência que não é nem sequer ingênua. É uma é uma atuação e uma práxis cúmplice da podridão do sistema político com a classe dominante e é também a última reserva, digamos assim, entre aspas, moral da impotência política daqueles que dentro do partido apenas tem uma uma presença testemunhal. Nesse aspecto, aqueles que julgam que nós que estamos defendendo a campanha pelo voto nulo para disputar dentro das eleições um terreno crítico, estamos crescendo. Eu vejo cada vez mais, cada vez mais. Essa é o segundo voto nulo que nós vamos praticar da Revolução Brasileira, mas agora na forma de uma campanha, muita gente conosco e eles estão naturalmente que nos dizer que somos aliados objetivos do fascismo, porque ele mesmo concebe que, duas coisas: que o Lula com absoluta certeza vai vencer; e, segundo, que vai ser por muito pouco. Eu não tenho nenhuma das convicções, mas como ele mesmo diz, ele diz bom, importa que se o Lula ganhar, que que nós vamos fazer depois? Ele não vai fazer nada. Ele vai continuar cativo do Lula, vai continuar tendo que defender o governo, porque a direita continuará aí. E o bordão do Valter Pomar, como de todos esses identitários, todos esses liberais e vai do Valter Pomar ao Glauber Braga, vai ser defender o governo, porque no outro dia, vamos supor, o Lula vence cada vez mais à direita, com um programa mais à direita. Hoje eu assisti, Leandro, uma entrevista do ministro da economia na CNN… uns 30 minutos. É um desastre. Eles estão anunciando já o que vem por aí. E o Lula aprovou aqui o Redata e sancionou o projeto que ele mandou das terras raras. E o ministro tava falando lá, o Durigon hoje tava falando lá sobre isso. É a garantia de total. O Flávio Bolsonaro não tem o que criticar, porque o Lula roubou o ultraliberalismo. Aliás, o Flávio Bolsonaro critica porque o aumento do Bolsa Família foi só de 15%. Por que que não foi mais? Mas até isso ele já defende. O que que acontece aqui? Acontece uma coisa muito evidente. Se o Lula vencer como quer e pretende o Valter Pomar, no outro dia ele estará na mesma posição de impotência defendendo, porque a direita continuará vociferando e ele continuará nesse diapazão. Então ele não tem alternativa para o pós-eleitoral.