domingo, 27 de setembro de 2026

Dois comentários sobre Jones Manoel

 Jones Manoel postou a seguinte mensagem em sua conta no X:


Em 1945, Gregório Bezerra foi eleito deputado federal constituinte pelo Partido Comunista do Brasil (PCB).

Em 1990, Renildo Calheiros também se elegeu deputado federal.

Que Jones não considere Renildo comunista, digamos que seja "apenas" sectarismo.

Mas que não considere Gregório Bezerra, trata-se de uma grosseria histórica sem tamanho.

(Aliás, um camarada de longa data lembra que "Alcedo Coutinho e Agostinho de Oliveira também eram de Pernambuco! O PCB elegeu três deputados pelo estado naquela eleição".)

Mas o que esperar de quem posta mensagens como essa abaixo?

Tem gente, amigos inclusive, que pedem para dar um desconto.

Dizem que nesse ambiente de falta de organicidade dos partidos e de enfraquecimento dos movimentos, seria "normal" que muitas "novas lideranças" tragam a marca das redes sociais, com suas vaidades, lacrações e individualismos extremados. 

Sem falar das oligarquias familiares, que usam sobrenomes como trampolim eleitoral, em alguns casos vitaminados por emendas, máquinas e quetais.

Na minha opinião, não devemos dar desconto não. 

Foi dando seguidos descontos que vimos o Partido dos Trabalhadores ser crescentemente contaminado por inúmeros efeitos degenerativos, entre eles aquilo que se convencionou chamar de "cretinismo parlamentar".

Que, pelo visto, ataca algumas pessoas quando ainda são candidatas. 




 

O "fuzil no ombro" do PCO

 


Noutro texto, perguntei por quais motivos alguns partidos que se pretendem "à esquerda" do PT, decidiram lançar candidaturas presidenciais.

A dúvida ficou reforçada ao ver esta faixa, exibida pelo Partido da Causa Operária, num ato realizado neste domingo, 27 de setembro, num dos cantos da Praça Osvaldo Cruz, lá no início da Avenida Paulista.

Suspeito que o Hamas não concorde que "defender a Palestina seja defender o Hamas"; afinal, a Palestina é maior do que qualquer uma das organizações que lá existem.

Suspeito, também, que os "vivas" ao Irã e a várias organizações misturam política internacional com a descoberta - feita no passado pelo MR8 - das vantagens colaterais que decorrem dessas manifestações públicas de extremado afeto. 

Mas "suspeita" mesmo é a frase "democracia é um fuzil no ombro de cada trabalhador!"

A frase em si é discutível. Pode ser válida, ainda que parcialmente, em momentos de guerra civil. 

Mas, nos momentos "pacíficos" da luta de classes, a existência de "democracia" para a maioria da população trabalhadora exige instituições diferentes, exige uma comunicação de massa diferente, exige auto-organização da classe etc.

Sem dúvida é fundamental saber quem controla as armas. Mas falar só da "questão militar" é de um reducionismo atroz. E achar que o controle das armas, em 2026, se resolve dessa forma, é uma mistura entre ingenuidade esquerdista e libertarianismo direitista.

Entretanto, para além do debate acerca da frase em si, cabe perguntar por quais motivos destacar precisamente esta frase, num ato de campanha da candidatura presidencial do PCO, neste ano santo de 2026.

E, ainda, que sentido faz - para quem pensa que "democracia é um fuzil no ombro de cada trabalhador" - participar dessa eleição de 2026.

Deve haver várias explicações. 

Uma delas está na proximidade programática entre certas posições do PCO e certas posições da extrema-direita.

Vejam, por exemplo, a crítica de Pimenta contra a proibição das BETS: 

https://www.poder360.com.br/poder-partidos-politicos/presidente-do-pco-rebate-lula-sobre-bets-errado-proibir-apostas/

Vejam, também, a posição dele a favor do "armamento da população":

https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/noticia/2014/08/rui-pimenta-defende-populacao-armada-para-combater-o-crime.html

Nessas e noutras questões, o PCO assume posições programáticas similares às da extrema-direita.

O que torna o debate sobre a "função" da candidatura presidencial do PCO algo um pouco mais complexo: é um deserviço para a esquerda, mas não para todo mundo.






 



  





Meu querido diário, 27 de setembro

Ontem foi dia de campanha.

Na agenda, uma passada no aniversário de um colega de trabalho.

Chegando lá, o tal colega me informa que tinha acabado de falar a meu respeito, com um ex-deputado federal do PT cuja filha mora perto do local da festa.

O tal ex-deputado teria dito, a meu colega, que eu “estaria bravo com ele”. Ou algo assim.

“Bravo” não é bem a palavra. 

O caso é simples: em Campinas o PT tem duas fortes candidaturas a deputado federal. O ex-deputado é de lá, mas escolheu apoiar outro candidato. Até aí, normal, direito dele, já fiz isso inúmeras vezes. 

O curioso, digamos assim, é quem ele decidiu apoiar.

Explico: em 2004 perdemos por muito pouco a eleição para prefeito em Campinas (SP).

Naquela eleição, o candidato do PSDB recebeu 200.372 votos, 39,84% dos votos válidos.

Em segundo lugar ficou o candidato do PDT, com 113.762 votos, 22,62% dos votos válidos.

O candidato do PT - que foi exatamente o tal ex-deputado que conversou, ontem, com meu colega de trabalho - recebeu 108.510 votos, ou seja, 21,58%.

Portanto, não fomos ao segundo turno por menos de 6 mil votos.

O detalhe “curioso” é que, naquele primeiro turno das eleições de 2004 em Campinas, um setor do Partido apoiou, política e financeiramente, o candidato do PDT. Motivo: o candidato a prefeito - o hoje ex-deputado - era parte ativa da chamada esquerda petista.

Quem chefiava aquele setor do Partido que apoiou, já no primeiro turno, o candidato do PDT? Exatamente o candidato hoje apoiado pelo ex-deputado.

A infidelidade partidária, cometida em 2004 por parte da então direção nacional do Partido, foi um dos muitos pretextos para que, anos depois, o ex-deputado decidisse sair do PT.

Outros anos passaram, ele voltou ao Partido, mas não voltou ao ponto de partida. E, agora, fechou o ciclo, apoiando em 2026 a candidatura a deputado federal de um de seus (nossos) algozes de 2004, que contribuíram, ativa ou passivamente, para que não conseguíssemos os 6 mil votos que teriam levado o PT ao segundo turno e, talvez, à vitória em 2004, o que teria salvado a cidade de Campinas de uma tripla tragédia: as gestões Hélio-Jonas-Dario.

O rancor e o ressentimento são péssimos conselheiros. Mas, sem memória, os erros do passado continuarão nos assombrando.

Que essa opinião seja confundida com braveza ou algo do tipo, só Freud explica.

 



sábado, 26 de setembro de 2026

Ouriques e a contra-revolução brasileira

Temos treze candidaturas disputando a presidência da República.

Oito são de partidos de direita. 

Cinco são de partidos de esquerda: além de Lula, do PT, há candidatos da UP, PCO, PSTU e PCB.

Por qual motivo partidos que, em diferentes graus, questionam o PT por superestimar o papel do eleitoral, acham politicamente correto lançar candidaturas presidenciais, num contexto em que a extrema-direita aparece nas pesquisas com chance de vencer?

Será porque acreditam que não há diferenças entre Lula e o cavernícola?

Será porque acreditam que o risco de uma vitória da extrema-direita não é real (mais ou menos como o PSTU e muitos setores do PSOL interpretavam os riscos de um golpe em 2015 e 2016)?

Será porque acham que sua votação presidencial será tão pequena, que não fará diferença (como pensavam alguns desses partidos no primeiro turno de 2022, no estado do Rio Grande do Sul)?

Será porque pretendem “fazer a diferença” no segundo turno?

Será para fortalecer as candidaturas proporcionais desses mesmos partidos?

Será para manter legalmente ativas as respectivas legendas partidárias?

Será porque, embora critiquem a atitude do PT, no fundo esses partidos também estão sendo capturados pela lógica eleitoral (caminho já percorrido, plenamente, por Boulos e por Jones Manoel)?

Será por um mix dos motivos acima?

Ou por outras razões?

Seja como for que se responda a essas questões, resta um enigma: é possível considerar “de esquerda” quem, numa batalha de vida e morte contra o fascismo, acha razoável “marcar posição”?

Para a esquerda acadêmica, que acredita em citações como prova da verdade, não há dúvida possível: falou em comunismo, em socialismo, em revolução, então seria de esquerda.

Também nisso a esquerda acadêmica está errada. A prática é o critério da verdade. Estamos no meio de uma batalha existencial, onde quem se pretende de esquerda não tem motivo para ter dúvidas.

Claro, muita gente boa pensa diferente. Tenho um amigo de velha data, emotivamente filiado ao que o Casseta e Planeta chamava de PCCC (“partido comunista comunista para caralho”), que adora dar espaço para o povo da mal denominada ultra-esquerda desancar o PT com argumentos cheios de razão, mas que na prática se traduzem em comportamentos inconsequentes como este de, numa hora como essa, manter candidaturas testemunhais.

Deu espaço até para o cidadão que está distribuindo o recorte abaixo: 


Nesse recorte, o referido cidadão me cobre de impropérios e de mentiras (ele parece acreditar mesmo que sou “lulista” e venero estátuas….), tudo isso como trampolim
para defender o voto nulo, apresentado - pasme! - como parte do caminho para a revolução brasileira.

Outra hora vou comentar a parte racional do que ele afirma no recorte acima disponibilizado. Por enquanto, me limito a reiterar o que acho ter dito no mesmo espaço onde o cidadão despeja toda sua fúria: em 2026, defender que a classe trabalhadora vote nulo é ser aliado objetivo da extrema-direita.

Nesse espírito, sugiro ao Nildo Ouriques que mude o nome de sua organização, para “Contra-revolução brasileira”. 

É feio, mas seria intelectualmente mais honesto.












BETS: a aposta certa

A imprensa informou que haveria, no entorno do presidente Lula, diferentes posições sobre o que fazer com as BETS.

Esquematizando, haveria gente defendendo proibição parcial e gente defendendo proibição total.

Se havia mesmo e quem defendia o quê, só quem participa do tal entorno poderá confirmar.

Mas o fato é que Lula decidiu pela proibição total.

O filho do cavernícola não gostou: disse que a proibição seria oportunismo e sinal de desespero.

Até aí, normal. 

O que surpreende é como tem gente boa que, a esta altura do campeonato, segue preocupada com possíveis repercussões eleitoralmente negativas da medida.

Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

Mas tem horas em que o excesso de “direção defensiva” tende a provocar acidentes.

Para quem se preocupa com as críticas e ataques contra a medida - vindas, por exemplo, das empresas de comunicação que ganhavam muito dinheiro com as BETS - lembro que, se todos nós eleitores do presidente Lula decidíssemos pular num abismo, é muito provável que do lado de lá nos criticariam por ter demorado muito para tomar a decisão de pular e, claro, pela nossa falta de elegância ao praticar o salto mortal.

Noutras palavras: é óbvio que, numa disputa e numa sociedade polarizadas, sempre haverá repercussões negativas acerca de absolutamente tudo.

E aquilo que não tem solução, não é um verdadeiro problema.

 O relevante, eleitoralmente falando, são três outras questões.

Primeira: vamos perder algum apoio entre quem, hoje, nos apoia?

Segunda: a proibição nos ajuda a disputar o apoio dos trabalhadores pobres, das mulheres e dos negros que, por enquanto, estão pensando em se abster, votar nulo, branco ou até no cavernícola?

Terceira: a medida anunciada por Lula deixa o lado de lá na defensiva, tendo que responder a uma iniciativa do nosso lado?

A resposta para essas quatro questões é, respectivamente: não, sim e sim.

Entretanto, o mais relevante não é a dimensão eleitoral; o decisivo é responder ao seguinte: a medida é justa? Protege o povo? Prejudica os criminosos?

/ resposta é sim. Motivos pelo quais - talvez o entorno tenha o que dizer a respeito - a proibição poderia e deveria ter sido adotada antes. 

Sem falar que ir para cima das BETS abre as “portas da percepção” para outra questão: a jogatina especulativa praticada pelo setor financeiro privado.

Mas, a cada dia, sua agonia.

No dia de hoje, vamos comemorar e difundir muito a nossa aposta certa. 

E, sempre, manter a pólvora seca, pois Trump - o cavernícola ianque - tem um longo histórico de investimentos em cassinos e jogos de azar.

E vai seguir apostando tudo contra nós, como já fez noutras eleições latino-americanas. Mas, desta vez, vai perder.

Quem tiver dúvidas a respeito, infelizmente estou impedido de propor uma aposta…









sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Meu querido diário….

Tem o livro que “vou escrever depois de morrer”.

Tem as “histórias de um partido imaginário”, que serão lançadas quando estiver funcionando a todo vapor a conexão Olinda-Pequim.

Tem o “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”, que volta e meia aparece neste blog.

E, finalmente, ao menos por enquanto, tem o “meu querido diário”, uma política compensatória contra o fato de certas pessoas não entenderem adequadamente a frase “meu ouvido não é privada”.

Lembrei disso hoje, quando alguém me procurou, preocupado com onde poderia dar o fio do novelo citado em matéria publicada no jornal O Globo. Trecho da tal matéria diz o seguinte:

“ONG que recebeu uma emenda parlamentar de R$ 200 mil do

senador Flávio Bolsonaro e é suspeita de ter ligações com os

irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, condenados pelo

assassinato da vereadora Marielle Franco, também foi

beneficiada com R$ 300 mil da deputada federal bolsonarista

Chris Tonietto (PL-RJ) e R$ 1,5 milhão do próprio Chiquinho”.


Respondi que “só uma corregedoria salva”.

A proposta de criar uma corregedoria foi apresentada durante o debate acerca código de ética do PT, ou seja, depois de 2006.

A corregedoria recebeu oposição frontal de um determinado cidadão, que convenceu seus companheiros da “tendência então majoritária” que “não somos polícia”.

De fato, não somos polícia. Mas todo partido sério mundo afora tem que criar mecanismos para detectar, preventivamente, situações que podem causar dano.

Minha suspeita é que o referido cidadão defendia uma corregedoria informal e privada. Se era ou não isso, nunca saberei, pois ele não está mais entre nós. Mas o fato é que a proposta de criar uma corregedoria foi derrotada.

Resultado prático: só descobrimos que “gente nossa” está fazendo merda, depois que terceiros trazem as suspeitas e/ou os malfeitos à tona. E aí temos que lidar com as consequências e sob fogo inimigo.

E, pior, como não temos corregedoria, está sendo cada vez mais comum nosso pessoal acreditar nas denúncias, mesmo quando são falsas.

E ainda tem o efeito colateral de transformar alguns ouvidos - supostamente confiáveis - em privada. Sem que exista para onde encaminhar as denúncias.

E sem falar, é claro, da preguiça, covardia, autosabotagem e prevaricação que prevalecem em alguns dirigentes partidários, a exemplo do atual secretário-geral nacional.

Mais detalhes, ver livro que será escrito depois que morrer.








quinta-feira, 24 de setembro de 2026

2026: uma surpresa após a outra

Tem gente que odiou, mas do jeito dele é um filme simpático aos que persistem.

Refiro-me a “Uma batalha após a outra”.

Se fosse sobre nós - melhor dizendo, sobre uma parte de nós - o título deveria ser “Uma surpresa após a outra”.

Aparentemente a mais recente “surpresa” está citada no texto disponível no link abaixo:

https://www.brasil247.com/brasil/brasil-e-surpreendido-por-ofensiva-trumpista-de-paises-latinos-contra-pcc-e-cv-e-avalia-reacao/

A lista de “surpresas” é longa.

Para citar quatro casos em destaque nos últimos dias:

-a taxa de juros praticada pelo Golden Boy indicado para o BC;

-a conduta do “terrivelmente evangélico” AGU;

-o corpo mole de inúmeros aliados de direita país afora (na hora do vamos ver, contamos mesmo é com os de sempre);

-o bom desempenho do PT na disputa para o governo de Minas Gerais (“pachecar” vai entrar para o dicionário como “escolha obviamente errada que nos faz perder tempo”).

Mas talvez a maior “surpresa”, para esta parte de nós - nos incluam fora dessa - é a de que a eleição presidencial de 2026 seria duríssima e resolvida por uma pequena diferença.

Boa parte dos problemas que vivemos hoje decorre de um planejamento de campanha baseado na crença de que tudo seria diferente.

Sendo assim as coisas, não custa nada torcer por uma surpresa de verdade: que alguém, em algum lugar, esteja preparando nossos planos para a batalha que vai começar no dia 4 de outubro, assim que as urnas fecharem.