Somos bilhões de terráqueos, a maioria dos quais participamos ativamente da produção e reprodução das condições de vida em sociedade.
Apesar de humana e coletiva, esta dinâmica aparece, para grande parte das pessoas envolvidas, como se fosse algo externo e impessoal.
A aparente impessoalidade é reforçada pelo fato de que a mediação entre as pessoas é feita, muitas vezes, por "coisas".
Por exemplo: ferramentas, máquinas, mercadorias, algoritmos.
A impessoalidade é reforçada, também, pelo fato de que decisões fundamentais são tomadas por um pequeno número de pessoas.
"Manda quem pode, obedece quem tem juízo".
Esta dinâmica social, mas que parece ser "automática", imposta de fora para dentro e de cima para baixo, é chamada às vezes de "sistema".
Na maior parte do tempo, a maior parte das pessoas participa dessa dinâmica sem ter muita consciência e protagonismo, limitando-se a repetir, dia após dia, mês após mês, ano após ano, década após década, geração após geração, determinados comportamentos.
Esse atitude - que podemos chamar de "inercial" - é um dos muitos fatores que contribui para a perpetuação do “sistema”.
Entretanto, o tal “sistema” não é harmônico.
Ele inclui todo tipo de conflitos e contradições, que em determinados momentos se convertem em crises profundas, das quais decorrem as constantes mudanças na produção e reprodução das condições de vida em sociedade.
Muitas vezes estas inevitáveis mudanças se limitam a algum tipo de "modernização conservadora", ou seja, resultam no aprofundamento de determinadas características do próprio “sistema”.
O Brasil, por exemplo, mudou muito ao longo dos últimos cem anos. Mas continuamos sendo uma sociedade dependente, desigual, antidemocrática e subdesenvolvida. As mudanças ocorreram, mas mantiveram o poder e a riqueza concentradas em poucas mãos.
Noutras palavras, neste caso o "sistema" sobreviveu à sua própria mudança.
Para que as inevitáveis mudanças resultem, não apenas numa "modernização conservadora", mas em "transformações estruturais”, para que o "sistema" se converta em um "outro tipo de sistema", é preciso entre outras coisas quebrar o "comportamento inercial".
Noutras palavras: é preciso que um número expressivo de pessoas reduza sua contribuição para a reprodução do "sistema" e passe a agir no sentido de construir outra dinâmica social (outro "sistema").
Que número?
Resposta: o suficiente para superar o movimento cotidiano daqueles que, dia após dia, produzem e reproduzem o “sistema”.
De onde surgem as pessoas dispostas a realizar este movimento antisistêmico?
Elas surgem, em pequenas quantidades, como causa e efeito de cada conflito e de cada contradição cotidiana.
E surgem, em grande quantidade, naqueles momentos de crise profunda.
Entretanto, os conflitos, contradições e crises também geram "anticorpos" que operam para neutralizar toda e qualquer ação antisistêmica.
Exemplos de anticorpos: o conservadorismo "normal", o reacionarismo fascista, a ingerência imperialista. Ou ainda: a corrupção, a cooptação, a burocratização.
Quando é que esses e outros "anticorpos" não funcionam?
Por exemplo, quando a crise é profunda demais.
Nesse contexto, as forças antisistêmicas podem derrotar os anticorpos, uma revolução pode destruir um sistema e construir outro.
Quem gera as crises profundas é o próprio sistema capitalista.
Entretanto, quando tais crises acontecem, mas sem que existam forças antisistêmicas à altura, o resultado pode ser que as coisas mudem, mas ao final continuem sendo como antes.
É por isso que um dos grandes desafios, para quem deseja acabar com o "sistema" e realizar uma transformação estrutural, consiste em converter a insatisfação cotidiana, parcial, local, setorial, momentânea, em uma força permanente, organizada e adequadamente orientada no sentido da superação do "sistema" e da construção de outro tipo de sociedade.
Não há uma fórmula única sobre como fazer isso. Cada época histórica, cada território concreto, exige formas organizativas e linhas políticas específicas, particulares, concretas.
Mas, em todos os casos, trata-se no limite de uma questão de tempo.
Ou seja: é preciso que um número muito grande de pessoas dedique um tempo expressivo de suas vidas, não para a produção e reprodução da sociedade como ela é, mas para a luta organizada em favor da superação do capitalismo e da transição socialista.
Para isso, é necessário convencer muitas pessoas a dedicar parte expressiva de seu tempo de vida à causa. E a fazer isso de forma organizada, pois a organização coletiva multiplica as forças, gera uma potência superior à resultante da mera soma aritmética das pessoas engajadas, faz o tempo de poucos equivaler ao tempo de muitos.
É também por isso que lutamos pela redução da jornada de trabalho e pelo fim das escalas desumanas, assim como lutamos contra a captura do tempo livre pelo consumismo e pelas telas, para que que centenas de milhões de pessoas possam não somente viver, mas principalmente sonhar, criar e lutar por outra sociedade.
Antes que seja tarde demais. Pois o tempo, assim como a biologia, é implacável.