Abaixo texto feito a pedido dos editores de um dossiê que Cadernos Cemarx publicará sobre a transição socialista na China.
1. Como a organização caracteriza a China no período pós-reformas? Como socialista, capitalista, ou por outra conceituação?
Os documentos da tendência petista Articulação de Esquerda tratam a República Popular da China como um país socialista. Entendemos socialismo como uma etapa de transição entre capitalismo e comunismo. Nesta etapa de transição coexistirão, nas condições históricas de cada época, diferentes modos de produção. As diferenças entre o socialismo realmente existente na China (e, antes disso, na URSS) e o que esperavam os fundadores da tradição marxista indicam apenas o óbvio: a história seguiu caminhos diferentes do que se previra. Entretanto, as referidas diferenças não são do tipo que tornaria necessário adotar outra conceituação: entendemos que a categoria “socialismo” dá conta de caracterizar e de explicar a natureza da formação social chinesa pós 1949 e também pós 1978.
2.Como a organização analisa a inserção da China no capitalismo global? Atua como potência imperialista, anti-imperialista, ou subordinada ao imperialismo?
Os documentos da tendência petista Articulação de Esquerda não consideram que a República Popular da China seja imperialista, nem tampouco subordinada ao imperialismo estadunidense, europeu ou japonês. A China se opõe ao que caracteriza como “hegemonismo” dos Estados Unidos e de seus aliados; o faz adotando uma embocadura diferente daquela adotada pela URSS e pela própria China no passado. Neste sentido, a China é “anti-imperialista”, mas é um “anti-imperialismo” com características chinesas de novo tipo. É verdade, por outro lado, que o fato da China estar “exportando capitais” pode criar, em diferentes situações, desdobramentos equiparáveis àqueles que ocorrem quando há exportação de capitais por parte de potências imperialistas. Isso faz com que alguns setores acusem a China de ser “imperialista”, acusação similar a de “social-imperialsmo” que no passado a China lançou contra a União Soviética. Entretanto, o fato é que – pelo menos até o presente momento - a China não lançou mão da agressão militar e de outros expedientes tipicamente imperialistas para impor seus interesses macroeconômicos. No seu entorno geográfico, onde houve conflitos militares - por exemplo, com a Índia e com o Vietnã - tais conflitos podem ser explicados sem a necessidade de recorrer a categoria “imperialismo”.
3.Para a organização, quais são as principais contribuições, lições e contradições da China pós-reformas para o debate sobre a transição socialista?
Os documentos da tendência petista Articulação de Esquerda consideram que esta etapa da história da China, que vai de 1978 até o presente, traz diversas contribuições e lições para o debate sobre a transição socialista. Listamos a seguir algumas delas: i/não há socialismo sem revolução; ii/não há socialismo sem que a classe trabalhadora edifique um novo Estado; iii/não há socialismo sem que a vanguarda da classe trabalhadora esteja organizada em partido político; iv/não há socialismo sem ter como meta a construção de uma sociedade comunista; v/não há socialismo sem desenvolvimento das forças produtivas, condição indispensável seja para ampliar a riqueza da sociedade e elevar o nível de vida do povo, seja para resistir e derrotar o capitalismo e o imperialismo; vii/no desenvolvimento das forças produtivas, é necessário combinar diferentes formas de propriedade pública com diferentes formas de propriedade privada, mas sempre sob hegemonia pública, social; vi/não há modelos, há experiências e tentativas de construção do socialismo.
4.Qual é a principal questão teórica que a experiência chinesa contemporânea apresenta para o marxismo e a teoria da transição?
Os documentos da tendência petista Articulação de Esquerda não permitem responder explicitamente essa questão. Contudo, podemos ressaltar duas questões que estão implícitas.
A primeira questão diz respeito aos constrangimentos impostos – pela hegemonia do capitalismo e pelas pressões do imperialismo – sobre qualquer processo de transição socialista. Enquanto o capitalismo for mundialmente hegemônico e enquanto existir imperialismo, as experiências socialistas serão obrigadas a adotar expedientes que, ao mesmo tempo que permitem ao socialismo sobreviver e avançar, também geram contradições e impõem limites à socialização das liberdades, da democracia e dos direitos. Portanto, a crítica aos limites do socialismo chinês ou aos limites de qualquer outro socialismo realmente existente precisa se converter em luta para acabar com o capitalismo e com o imperialismo.
A segunda questão diz respeito a relação entre a construção de uma experiência socialista nacional e a luta pelo socialismo em todo o mundo. É positivo que a China exista e que vença a batalha hegemônica contra os Estados Unidos. Mas para que o socialismo se torne mundialmente hegemônico, é necessário que em outras regiões e países do mundo o socialismo triunfe por suas próprias forças, não de fora para dentro, mas de dentro para fora. Nesse sentido, o triunfo do socialismo em um país com as características do Brasil será decisivo para que toda a humanidade possa algum dia viver a transição socialista.
5.Qual posição o Estado e o governo brasileiro deve assumir em relação à China?
À classe trabalhadora do Brasil interessa que, na atual disputa geopolítica mundial, os Estados Unidos sejam derrotados. Ao mesmo tempo, à classe trabalhadora do Brasil interessa que a derrota dos EUA seja acompanhada de um reposicionamento do nosso “lugar” no mundo. Não queremos ser dependentes de ninguém.
Portanto, devemos efetivar uma aliança estratégica com a China, cuidando para que esta aliança estratégica contribua para que o Brasil experimente uma industrialização de novo tipo, baseada em outra ordem social, em outra ordem política, em outra relação com a natureza e em outro patamar tecnológico.


