Primeiro, uma reminiscência: a primeira vez que encontrei Alon Feuerwerker foi num Coneb da UNE, em que se não me engano ele falou em nome do CAOC.
Alon diz que o Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”, mas esquece de dizer que a esquerda não agiu hipocritamente em nenhum dos dois casos.
Ou seja: os exemplos de Alon não validam sua tese. Ela pode estar certo - “algum grau” de hipocrisia é algo tão vago que sempre pode ser atestado - mas os exemplos dados confirmam uma tese mais restrita: a direita sempre é hipócrita quando fala de soberania, democracia, direitos e desenvolvimento.
E são hipócritas, também, quando criticam o crime organizado. O andar de cima da sociedade brasileira é uma grande irmandade, sendo muito difícil separar ós supostamente honestos dos certamente criminosos.
Aliás, o avanço “aparentemente imparável do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado por aqui” coincide com o avanço do neoliberalismo e da extrema-direita. Aqui no Brasil é também nos EUA. Não se trata de coincidência, mas de decorrência.
Por isso mesmo, concordo inteiramente com Alon quando ele diz que “defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa”. Mas o que significa “cuidar da casa”? Significa, na minha opinião, derrotar a turma do crime organizado que governa os EUA e que tenta recuperar o governo do Brasil.
Neste sentido, não vejo diferença qualitativa - na questão em tela - entre “a ingerência externa” e “a ingerência do crime”.
Em 2026, votar na esquerda, derrotar os cavernícolas e derrotar Trump é também, simultaneamente, derrotar o crime organizado, seja o das Vivendas da Barra, seja o de Washington DC.
O crime, o espetáculo e a soberania
Evocar o princípio da soberania supõe sempre
algum grau de hipocrisia, à esquerda e à direita. Os
bolcheviques alistavam-se no exército russo para
colocar lenha na fogueira do derrotismo na
Primeira Guerra Mundial e, assim, ajudar na
derrubada do czar. Aparece em Dr Jivago, o
clássico hollywoodiano de 1965. A elite política
francesa preferiu capitular à Alemanha na Segunda
Guerra, pois tinha mais medo dos compatriotas
comunistas que dos nazistas alemães.
A análise política perde-se quando abandona o
foco do central: a luta pelo poder, geralmente
travada sem muita consideração pelos princípios.
Quando Jimmy Carter pressionou o então
presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos
humanos dos perseguidos pelo regime militar, a
ditadura reagiu invocando o princípio da soberania.
O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também
“a tortura, as prisões políticas e os
desaparecimentos são assunto nosso”.
A designação pelos Estados Unidos de
organizações criminosas brasileiras como
terroristas, com todas as consequências políticas e
legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a
enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de
Washington. O governo brasileiro já vinha
mostrando flexibilidade diante da pressão da
administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo
não estava jogado. Está longe de ser um segredo
que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina
Monroe 2.0.
Só que existe um problema anterior. O avanço,
aparentemente imparável, do crime organizado
sobre a economia e, dizem, sobre o Estado por
aqui. Anunciam-se planos, votam-se leis,
convocam-se entrevistas coletivas para anunciar
soluções, mas a doença ignora o espetáculo e
avança. Discutir princípios é importante, mas
defender a soberania para além de um princípio
abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o
risco de alguém de fora querer meter o bedelho.
Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou
capital político no episódio das tarifas ao lançar
mão do discurso da soberania. Vai funcionar
quando o foco da disputa é o combate ao crime
organizado? Vamos aguardar os números. Eles
dirão se o eleitor está mais incomodado com a
ingerência externa ou com a ingerência do crime
sobre a vida dele.




