Fiz parte da plateia, semana passada, de uma banca onde um colega virou professor titular.
O texto começa constatando que “nossas economias estão profundamente interligadas”. No entanto, “a geopolítica caminha na direção oposta. Em 2025, foram registrados 65 conflitos armados envolvendo Estados, o maior número desde 1946, enquanto os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2,9 trilhões. (…) As relações econômicas são cada vez mais utilizadas como instrumentos de pressão e coerção, enquanto a desigualdade aumenta, tanto dentro dos países quanto entre eles”.
Depois desta descrição, o texto afirma que “a necessidade de cooperação multilateral segue plenamente viva”. Em seguida dá vários exemplos de que a necessidade da cooperação multilateral “é mais evidente do que nunca”. E conclui anunciando a Iniciativa P4M: “Parceiros pelo Multilateralismo”, uma estrutura flexível e aberta a países de diferentes regiões e tradições políticas que estejam dispostos a atuar para além de suas diferenças, formar coalizões em favor de reformas e transformar princípios compartilhados em ações concretas”.
Como tudo vale a pena quando a alma não é pequena, faço apenas duas perguntas: “quantas divisões tem a P4M”? “Combinaram com os gringos”?
Pois qualquer iniciativa de boa fé, no sentido de enfrentar os grandes problemas mundiais de forma cooperativa, tem como grande obstáculo os Estados Unidos e sua disposição de resolver todos os problemas na base do grito, porrada e bomba.
As duas perguntas que fiz acima são, de certa forma, implicitamente respondidas na entrevista de Pedro Abramovay, vice-presidente da Open Society, publicada no jornal O Globo.
O Globo informa que a Open Society Foundation é uma “rede internacional de filantropia criada pelo investidor George Soros”. Já Abramovay foi “secretário nacional de Justiça no segundo governo do presidente Lula”.
Abramovay afirma que “uma derrota do trumpismo em 2028 empurrará os EUA de volta ao jogo global, ainda que para um novo tipo de multilateralismo”, que será “diferente do pautado pelo neoliberalismo”.
Sem Trump, com os Democratas de volta ao governo, os Estados Unidos voltariam a ser razoáveis. Nesse novo contexto, Abramovay recomenda aumentar a aposta do Brasil “em múltiplos fóruns. Eles foram centrais para termos sobrevivido com altivez à crise diplomática e comercial com os EUA do Trump 2.0. Devemos aumentar este movimento no cenário pós-Trump, inclusive para não ficarmos mais dependentes da China”.
Como se pode ver, com Trump ou sem Trump, a Open Society se preocupa muito com a China. Aliás, a cada dia é mais necessário jogar luz sobre a serviço de quem está a enorme influência que a Open Society tem, hoje, em vários setores da esquerda e do governo brasileiro.
O que nos traz de volta ao ponto de partida desse comentário: determinar a natureza da “Guerra Fria 2.0” e qual sua relação com o capitalismo e com as diferentes frações da classe dominante dos Estados Unidos.
A depender da resposta, não cabe esperar tempo fácil no próximo período, aconteça o que acontecer.