Apesar do título, este texto não é sobre Jones Manoel, nem sobre Janones.
Mas sim sobre a "classe média".
Classe média, cada época e cada autor tem a sua,
E não será no meio de uma eleição que vamos chegar a acordo sobre como denominar os diferentes setores da sociedade brasileira.
Assim, vou me limitar a um comentário político: as palavras têm poder.
Por exemplo: dizer que nosso objetivo é que "a classe trabalhadora possa viver muito bem" não tem o mesmo efeito político de dizer "desejamos que o Brasil seja um país de classe média".
Também por isso, não estou de acordo com a tese (expressa no título do artigo) de Frei Betto, segundo a qual "a classe média decidirá a eleição".
Segundo entendi, Betto extrai essa tese de Pedro Dória, personagem que mereceria muitos comentários, mas que não farei aqui.
Segundo Dória, resumido por Betto, a principal novidade eleitoral não estaria nas elites nem nos grandes centros urbanos, mas no chamado “brasileiro médio” — os trabalhadores da periferia, das cidades pequenas, das classes C e D, que desejam melhorar de vida e não se sentem representados pelo discurso tradicional da esquerda.
Por qual motivo chamar o "brasileiro médio" de "classe média"?
O brasileiro médio vive do seu trabalho. Por qual motivo não chamar de "classe trabalhadora"?
Os motivos são óbvios, né?
Segundo Dória, sempre resumido por Betto, o cavernícola filho teria tido um desempenho melhor do que o do cavernícola pai. E aponta de onde vieram estes votos.
Não se diz, mas é bom lembrar, que isso é assim a depender da eleição que compararmos. Se for com primeiro turno de 2018, seguramente. Se for com o segundo turno de 2022, trata-se em boa medida de uma ilusão estatística, causada pelo crescimento do eleitorado nos últimos quatro anos.
Mas o que isso tem que ver com a tal classe média?
Segundo Dória, conforme Betto, os dados demonstrariam que "a esquerda imaginava ter seu principal adversário na elite econômica. Mas, conforme os dados apresentados pelo Meio, justamente nas áreas de maior renda Lula cresceu. O deslocamento ocorreu sobretudo entre setores populares e de renda intermediária".
Jesus pai do céu.
De repente, não mais do que repente, trabalhadores de melhor "renda" se transformam em "elite econômica".
E se trata o "deslocamento" que teria ocorrido entre "setores populares e de renda intermediária" como um deslocamento da “classe média".
Como método, isso me lembra a origem do famoso ditado "não confundir focinho de porco com tomada".
Cá entre nós, as pesquisas já diziam, há tempos, que Lula só tinha maioria em um setor da classe trabalhadora: os que recebem menores salários.
Portanto, o que ocorreu não é surpresa: foi nos setores que não recebem os menores salários, que houve maior deslocamento em direção a outras candidaturas.
Mas foram em direção ao cavernícola? Uma parte, provavelmente sim. Mas uma parte, seguramente não. Basta ver os números: Lula teve 60 milhões de votos em 2022 e 53 milhões agora. Cavernícola pai teve 58 milhões de votos em 2022 e cavernícola filho teve 56 milhões agora.
Portanto, a rigor, se depender dos números, podemos especular sobre diferentes deslocamentos, de quem votava em X e deixou de votar, passando a votar ou em Y, ou em outros candidatos, ou em branco, nulo ou abstenção.
A hipótese de Dória, segundo Betto, é a seguinte:
"A classe C aparece como especialmente significativa: famílias com renda de 4 a 10 salários mínimos mensais. Abrange 130 milhões de pessoas (61% da população). Na análise de Doria, é nela que Flávio Bolsonaro teria obtido sua maior vantagem: 53% contra 37%. Nas classes D (renda familiar de R$ 1.580 a R$ 2.525 mensais) e E (renda familiar de no máximo R$ 1.580 mensais), o candidato de direita também cresceu, embora Lula tenha mantido a dianteira entre os mais pobres."
Eu confesso. que não sabia que 61% da população brasileira vive com uma renda entre 4 a 10 salários mínimos.
Nem sabia que seria possível tratar esta faixa da população com um agrupamento social mais ou menos homogêneo.
Veja: não nego, muito antes pelo contrário, que o cavernícola tenha melhor resultado entre os trabalhadores com salários maiores.
Mas os dados estatísticos que conhecia, até ler este texto de Betto, me apontavam que os trabalhadores de menor faixa salarial (formal ou informal, salário não deveria ser chamado de renda) são ampla maioria do povo e do eleitorado.
Entretanto, o mais importante, do ponto de vista político, é a seguinte conclusão de Betto: "A esquerda talvez tenha deixado de compreender uma transformação social produzida pelo próprio Brasil das últimas décadas: a ascensão de milhões de pessoas que continuam pobres ou vulneráveis, mas passaram a ter expectativas de consumo, autonomia, empreendedorismo e mobilidade social".
Até onde eu sei, as expectativas de consumo, autonomia e mobilidade não surgiram agora. O que surgiu agora foi a tendência a enquadrar estas expectativas - justíssimas - na camisa forçada do "empreendedorismo".
Que, vamos combinar, conduz o trabalhador a se movimentar num universo imaginário que o leva, não a mudar de classe, mas a mudar de ponto de vista.
Adianto que concordo com Betto que é uma estupidez - palavra minha - tratar essas pessoas de forma depreciativa.
E, também, concordo que as políticas públicas devem ajudar essas pessoas a "prosperar".
Mas, do mesmo jeito que ter uma política para o agro não implica em aceitar que ele seja pop, ter uma política para estes setores da classe trabalhadora não deve, nem pode, implicar em incorporar a ideologia do empreendedorismo.
Vejam o exemplo dado por Betto: "O trabalhador que recebe um benefício social pode, simultaneamente, desejar abrir uma empresa. A pessoa que necessita do SUS pode querer pagar uma escola particular para os filhos. Quem depende de políticas públicas pode sonhar em deixar de depender delas".
Para resumir meu argumento: ninguém que vive em sociedade, nem mesmo os ricos, aliás principalmente os ricos, pode "deixar de depender de políticas públicas". Aceitar esta tese é aceitar, na prática, a premissa neoliberal de que não existiriam sociedade, existiriam apenas indivíduos.
Voltando à política: para Lula "recuperar parte dos eleitores que votaram nele em 2022 e agora migraram diretamente para seu adversário", devemos dirigir nosso discurso para a "classe média" ou para a "classe trabalhadora"?
Betto diz que é nesse ponto que "a expressão ‘brasileiro médio’ ganha importância. Não se trata de uma categoria sociológica rigorosa, mas de uma imagem política útil para designar um segmento que pode decidir eleições justamente porque não se encaixa mais nas velhas caricaturas da esquerda e da direita. Esse eleitor não desapareceu. Apenas deixou de ser ouvido com atenção".
Buenas, que há caricaturas, não duvido. Mas duvido que "brasileiro médio"seja uma uma "imagem útil", especialmente num momento de polarização extrema.
O tema da escala 6x1, por exemplo, exige contrapor trabalhar para viver e viver para trabalhar.
A ampliação das políticas públicas exige cobrar imposto dos ricos. A redução do preço dos alimentos exige cortar impostos dos trabalhadores.
Para "melhorar a vida", temos que escolher entre pílula vermelha ou pílula azul, entre a porta da direita ou da esquerda.
A direita entendeu isso e assume abertamente quem é. A esquerda precisa, se quiser ganhar, fazer o mesmo.
Nesse mesmo espirito, as pessoas da esquerda que vivem em padrões popularmente conhecidos como "classe média", precisam entender que não são elas, mas sim os trabalhadores de menores salários, os mais lascados, que vão decidir a eleição.
Chamar estas pessoas de "classe média" pode soar bonito e agradar o narciso, mas não ajuda, penso eu.
(sem revisão)
Segue abaixo o texto comentado, de autoria do companheiro Frei Betto.A CLASSE MÉDIA DECIDIRÁ A ELEIÇÃO
Frei Betto
Há eleições que mudam governos. Outras, o mapa político. E há aquelas que revelam que o país estava mudando sem que muitos percebessem. A análise de Pedro Doria, editor do Meio, sobre o primeiro turno de 2026 aponta nessa direção: a principal novidade eleitoral não estaria nas elites nem nos grandes centros urbanos, mas no chamado “brasileiro médio” — os trabalhadores da periferia, das cidades pequenas, das classes C e D, que desejam melhorar de vida e não se sentem representados pelo discurso tradicional da esquerda.
O dado mais eloquente é geográfico. Segundo levantamento realizado pelo Meio com base em cerca de 86 mil locais de votação, correspondentes a 96% dos votos do país, Flávio Bolsonaro (PL) teve desempenho superior ao de seu pai em 9 de cada 10 locais de votação. Mais expressivo ainda: 714 municípios que haviam dado maioria a Lula em 2022 passaram a dar vitória a Flávio Bolsonaro. O movimento inverso, segundo o levantamento, não ocorreu em nenhum município.
Não foi, portanto, simplesmente uma transferência eleitoral nas grandes metrópoles. Nas cidades com mais de 1 milhão de eleitores, a alteração foi pequena. Já nos municípios com menos de 10 mil eleitores, a diferença teria chegado a 12 pontos. Mais da metade dos votos adicionais obtidos pelo candidato da direita em relação ao desempenho de Jair Bolsonaro teria vindo de cidades pequenas e médias.
O fenômeno também aparece nas grandes cidades. Enquanto bairros de maior renda, como Leblon, Ipanema e Copacabana, no Rio; e Higienópolis, Pinheiros, Perdizes e Vila Madalena, em São Paulo, ampliaram a votação de Lula. Regiões periféricas mudaram de direção: Osasco e Cotia (SP), Betim (MG) e Ananindeua (PA) são alguns exemplos citados por Doria.
É uma inversão curiosa de uma interpretação que predominou durante os últimos anos. A esquerda imaginava ter seu principal adversário na elite econômica. Mas, conforme os dados apresentados pelo Meio, justamente nas áreas de maior renda Lula cresceu. O deslocamento ocorreu sobretudo entre setores populares e de renda intermediária.
A classe C aparece como especialmente significativa: famílias com renda de 4 a 10 salários mínimos mensais. Abrange 130 milhões de pessoas (61% da população). Na análise de Doria, é nela que Flávio Bolsonaro teria obtido sua maior vantagem: 53% contra 37%. Nas classes D (renda familiar de R$ 1.580 a R$ 2.525 mensais) e E (renda familiar de no máximo
R$ 1.580 mensais), o candidato de direita também cresceu, embora Lula tenha mantido a dianteira entre os mais pobres.
Há outro dado que contraria uma explicação recorrente: não foram principalmente os evangélicos que mudaram de posição. Esse eleitorado já havia se deslocado majoritariamente para a direita em 2022. A novidade estaria entre os católicos. Segundo o levantamento apresentado por Doria, dos quase 5 milhões de votos a mais obtidos por Flávio Bolsonaro em relação a Jair Bolsonaro, mais de 4 milhões teriam vindo de eleitores católicos. Entre eles, Lula teria caído de 54% para 49%.
Tampouco a explicação estaria na juventude ou na abstenção. Quando idade, renda e local de votação são considerados conjuntamente, a diferença entre faixas etárias diminui. E a abstenção, de 20,8%, teria permanecido praticamente igual à de 2022. O que mudou, portanto, não foi essencialmente quem não compareceu às urnas, mas em quem os eleitores decidiram votar.
Quem é esse eleitor do candidato do PL? Doria o define como pobre, mas não o mais pobre; católico; morador do interior ou da periferia; pertencente sobretudo às classes C e D. É o pequeno empreendedor, o trabalhador que deseja ser patrão de si mesmo, o motorista de aplicativo, o comerciante de bairro, o trabalhador informal ou aquele que sonha em abrir um pequeno negócio.
É aí que surge uma questão que ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. A esquerda talvez tenha deixado de compreender uma transformação social produzida pelo próprio Brasil das últimas décadas: a ascensão de milhões de pessoas que continuam pobres ou vulneráveis, mas passaram a ter expectativas de consumo, autonomia, empreendedorismo e mobilidade social.
Quando esse eleitor ouve falar em “pobre de direita”, “evangélico manipulado” ou “CEO de MEI”, pode interpretar tais expressões não como crítica política, mas como desprezo por sua própria experiência de vida.
Doria também aponta questões concretas. A tributação das compras internacionais, os impostos sobre as apostas eletrônicas e a proposta de regulamentação do trabalho dos motoristas de aplicativos foram recebidos por parte desse eleitorado como interferência de um Estado que, muitas vezes, já é visto como excessivamente burocrático. O problema, nessa perspectiva, não seria apenas a política social, mas a dificuldade de fazer o pequeno negócio prosperar.
Há nisso uma advertência para a esquerda: não basta defender os pobres; é preciso compreender aquilo que eles desejam ser. O trabalhador que recebe um benefício social pode, simultaneamente, desejar abrir uma empresa. A pessoa que necessita do SUS pode querer pagar uma escola particular para os filhos. Quem depende de políticas públicas pode sonhar em deixar de depender delas.
O segundo turno torna essa mudança ainda mais importante. Flávio Bolsonaro terminou a primeira rodada com cerca de 56 milhões de votos, contra aproximadamente 53,7 milhões de Lula, segundo a análise do Meio. Os candidatos eliminados deixaram milhões de votos disponíveis para redistribuição.
Para Flávio Bolsonaro, a tarefa é agregar votos situados à direita do lulismo. Para Lula, a questão é diferente: recuperar parte dos eleitores que votaram nele em 2022 e agora migraram diretamente para seu adversário. Doria estima que esses eleitores representem cerca de 7% daqueles que haviam escolhido Lula anteriormente. Como cada voto recuperado significa simultaneamente um voto a menos para o candidato do PL, uma parcela dessa migração pode alterar significativamente a distância entre os dois.
Mas há um paradoxo. A direita bolsonarista precisa ampliar sua votação sem afastar o eleitor católico que começa a migrar para ela. A esquerda, por sua vez, precisa reencontrar a periferia sem tratá-la de modo paternalista. Precisa falar menos do pobre idealizado e mais do cidadão real, que quer segurança, saúde pública, escola, crédito, juros suportáveis e liberdade para trabalhar e empreender.
É nesse ponto que a expressão “brasileiro médio” ganha importância. Não se trata de uma categoria sociológica rigorosa, mas de uma imagem política útil para designar um segmento que pode decidir eleições justamente porque não se encaixa mais nas velhas caricaturas da esquerda e da direita. Esse eleitor não desapareceu. Apenas deixou de ser ouvido com atenção.
A grande pergunta do segundo turno, portanto, não é somente quem conseguirá transferir mais votos de outros candidatos. É quem conseguirá compreender melhor esse Brasil que emergiu das periferias urbanas, das cidades pequenas e da classe média popular. O brasileiro médio não está necessariamente à esquerda ou à direita. Procura uma porta de saída para melhorar de vida.
Talvez essa seja a principal lição das urnas de 2026: antes de conquistar os votos desse eleitorado, é preciso reconhecer sua existência e demandas.