quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Proposta de resolução apresentada ao debate na Executiva Nacional do PT

Reproduzimos, abaixo, mensagem enviada por Natália Sena para a executiva nacional do PT, como contribuição à reunião que acontecerá nesta quinta-feira, dia 29 de outubro.


À executiva nacional do PT

Encaminho, abaixo, uma proposta de resolução para debate e aprovação na reunião da CEN.

Natal, 28 de outubro de 2026

Natália Sena, integrante da CEN

 

Balanço dos eleições de 2026 e desafios do PT no próximo período

No dia 25 de outubro de 2026, a maioria do povo brasileiro impôs (mais) uma derrota à extrema-direita, reelegendo o presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores.

Não é a primeira vez que isso ocorre. O PT venceu 6 das 10 eleições presidenciais ocorridas desde 1989, ficando em segundo lugar nas outras 4 (1989,1994, 1998 e 2018).

Mas, diferente das demais eleições vencidas por nós (2002, 2006, 2010, 2014 e 2022), desta vez Lula, candidato do PT, não era considerado favorito pelas pesquisas, nem pela maior parte da mídia e, inclusive, nem mesmo por parte importante das direções da própria esquerda brasileira.

Entretanto, vencemos. Lula foi reeleito e com uma diferença expressiva.

Recapitulamos a seguir os dados.

No primeiro turno, o Miliciano Corrupto e Traidor Fujão saiu na nossa frente, com 47,03% dos votos válidos. Mas terminou o segundo turno com apenas 48,21% dos votos válidos.

Já Lula saltou de 45,16% para 51,79% dos votos válidos, numa virada sem precedentes. 

Em votos absolutos, o Miliciano foi de 56.104.503 para 59.826.041 votos.

Já Lula saltou de 53.879.538 para 64.256.232 de votos. Portanto, alcançamos um resultado melhor do que o de 2022, quando Lula obteve 60.345.999 de votos, o equivalente a 50,9% dos votos válidos.

Já o Miliciano amargou um resultado - em termos de votos válidos - inferior ao obtido, na eleição presidencial anterior, pelo Cavernícola Pai. Em 2022, este chegou a obter 49,1% dos votos válidos, resultado superior aos 48,21% obtidos no segundo turno de 2026 pelo Fujão.

É verdade que, quando se compara o número absoluto de votos, o Cavernícola Filho superou o Cavernícola Pai. Este, em 2022, conseguiu pouco mais de 58 milhões de votos. Agora, o Filho obteve quase 60 milhões de votos. Mas cabe lembrar que, em 2022, o eleitorado era menor do que o atual: entre 2022 e 2026, o número de pessoas aptas a votar aumentou em exatas 2.291.452 pessoas.

Estes resultados numéricos podem ser resumidos, do ponto de vista político, da seguinte forma: a extrema direita manteve, nas eleições presidenciais de 2026, um patamar eleitoral similar ao de 2022. Já a esquerda foi um pouco além do resultado de 2022.

Se tivéssemos repetido o resultado absoluto obtido em 2022, nossa vantagem teria sido de apenas 520 mil votos. Mas superamos nosso próprio teto e estabelecemos uma vantagem de 4 milhões e 430 mil votos.

Evidentemente, a análise das eleições não pode se limitar aos resultados do segundo turno presidencial. É preciso levar em conta, também, o primeiro turno presidencial, a eleição para governos estaduais, Senado, Câmara e Assembleias, destacando aí não apenas os resultados obtidos pelas direitas, mas também as vitórias petistas nas eleições do RN, CE, PI e BA, nosso desempenho nas eleições para o Senado, Câmara e Assembleias e, de maneira geral, a votação do PT e do conjunto da esquerda em cada cidade, estado e região, como é o caso do Nordeste brasileiro.

Mas também é evidente que a análise das eleições tem como centro a disputa presidencial. E, desse ponto de vista, a reeleição de Lula foi uma vitória maiúscula. Como a derrota é órfã, enquanto a vitória tem muitos pais e mães, há todo tipo de análise e opinião circulando. Será necessário um certo tempo e distanciamento, para que seja possível produzir uma análise completa e científica das eleições de 2026.

Entretanto, não é possível esperar para iniciar a avaliação, pelo simples motivo de que, por detrás das avaliações, está em jogo uma espécie de "terceiro turno interpretativo", em que diferentes setores da direita tentam deslegitimar e domesticar a imensa vitória obtida pelo povo brasileiro em 25 de outubro de 2026. 

E este "terceiro turno interpretativo" tem implicações políticas imediatas, no debate sobre a ingerência externa, sobre a posse, sobre a composição do novo governo e sobre o malfadado "ajuste fiscal" que a classe dominante segue querendo impor sobre o povo brasileiro, na contramão dos resultados eleitorais. 

O candidato da extrema-direita não reconheceu nossa vitória, alegando fraude e fake-news. E fugiu do país, numa ação que teve a cooperação, pelo menos, dos governos da Argentina e dos Estados Unidos.

Mas os apoiadores do Miliciano Corrupto e Traidor Fujão sabem que nossa vantagem - superior a 4 milhões de votos - foi obtida legitimamente, na campanha eleitoral, através do debate político e da mobilização. 

A fuga do Cavernícola reacendeu o debate, na extrema direita, sobre o papel da Família Cavernícola. Muitos deles se perguntam se o resultado não poderia ter sido outro, caso a candidatura tivesse sido outra. Pergunta que leva a outra: quem será o candidato da extrema direita nas eleições de 2030, quando a legislação impedirá Lula de disputar nova reeleição.

Evidente que a "candidatura" escolhida teve grande incidência nos resultados, tanto para eles quanto para nós. Mas quem interpreta o resultado eleitoral focado principalmente nas candidaturas corre o risco de secundarizar variáveis decisivas, a saber:

-do lado da extrema direita, é preciso lembrar do engajamento dos Estados Unidos, dos grandes capitalistas e das estruturas organizativas criadas ou em grande medida capturadas pela extrema-direita, principalmente ao longo da última década (a "família militar", as máquinas parlamentares e de governo, as redes antissociais, empresas da fé, a mídia tradicional etc.). São essas variáveis que explicam os mais de 59 milhões de votos obtidos pelo Fujão em 2026, assim como os 58 milhões obtidos pelo Cavernícola Pai em 2022;

-do nosso lado, é preciso lembrar da capacidade de mobilização espontânea dos estratos mais profundos e mais empobrecidos da classe trabalhadora, majoritariamente feminina, negra e jovem; a disposição de combate exibida por milhões de brasileiros com mais de 60 anos; o compromisso político da maioria daqueles que são nordestinos por nascimento, moradia ou alma. E é preciso lembrar, também, que ao longo dos últimos 50 anos a esquerda política e social construiu raízes e organizações. Sem isto e, principalmente, sem o apoio e generosidade das camadas que constituem a maioria do povo brasileiro, a candidatura de Lula não teria dado a volta por cima e triunfado.

Enquanto a extrema-direita busca deslegitimar nossa vitória, a direita tradicional busca domesticar e, no limite, cancelar nosso êxito.

Segundo uma das interpretações difundidas com este objetivo, no primeiro turno a extrema direita teria obtido uma grande vitória e a esquerda teria sido derrotada. Portanto, a vitória no segundo turno só teria sido possível graças aos setores progressistas, aos setores de centro, aos setores democráticos que vieram em socorro da esquerda. Em resumo, ao contrário das aparências, o dia 25 de outubro não teria sido uma vitória da classe trabalhadora, da esquerda, do PT e de Lula; teria sido, isto sim, uma vitória do centro.

Não resta dúvida de que a extrema-direita obteve uma importante vitória no primeiro turno, elegendo grande número de deputados e senadores, bem como os governadores de estados fundamentais como São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul, entre outros. Também não deve restar dúvida de que, no segundo turno, uma parte do eleitorado se mobilizou, acima de tudo, não para eleger a esquerda, mas sim para impedir que o governo federal caísse nas mãos do crime organizado.

Entretanto, se observarmos os fatos - tais como a linha da campanha, a origem dos votos, a motivação captada pelas pesquisas - constatamos que:

i/foi decisiva a adoção, ainda que com atraso, de certas medidas governamentais em favor das camadas populares, bem como uma linha de campanha que vinculou a defesa da democracia com a ampliação das conquistas sociais do povo; 

ii/a esmagadora maioria do eleitorado que votou em Lula, tanto no primeiro quanto no segundo turno, pertence às camadas populares e votou principalmente por identidade de classe. É dos setores pior remunerados da classe trabalhadora que provém a maioria esmagadora das dezenas de milhões de pessoas que votaram em Lula, pessoas que ademais possuem uma profunda identificação de classe com o PT.

Neste sentido, embora a direita tradicional (e setores da esquerda não petista) não gostem de admitir, a verdade é que a Nação Petista foi a espinha dorsal da vitória de Lula, em 2026 (e, também, nas demais eleições presidenciais).

A extrema direita busca deslegitimar nossa vitória, porque isso os ajuda a agrupar sua tropa, a fazer oposição, a sabotar e, no limite, a derrubar nosso governo. Já a direita tradicional busca domesticar nossa vitória, porque isso os ajuda a tentar impor o programa derrotado nas urnas, a saber, o "tesouraço" (ajuste fiscal).

Na esquerda, por sua vez, também há diferentes avaliações sobre o resultado eleitoral, que decorrem em boa medida das distintas estratégias propostas, por cada setor, para enfrentar a época em que vivemos.

Embora haja nuances e intersecções importantes, há na esquerda duas grandes linhas de interpretação. 

A primeira delas debita nossa vitória, em sua maior parte, à pessoa de Lula; e atribui nossos problemas, no essencial, ao Partido dos Trabalhadores.

A segunda delas debita nossa vitória, em grande medida, à mobilização popular; e atribui nossos problemas, no essencial, à estratégia equivocada que orientou nossa ação de governo e o conjunto de nossa tática, em especial no primeiro turno.

Quando destacamos o papel da mobilização popular, evidentemente não subestimamos o papel do indivíduo na história. Acontece que o indivíduo em questão não veio de outra galáxia, trazendo de lá seus superpoderes.

Quatro vezes presidente da República e, por muitas gestões, presidente do PT e do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC, Lula tornou-se o mais importante personagem dos últimos 50 anos da história do Brasil por obra e graça de uma construção coletiva.

Reconhecer isso tem imensa importância, do ponto de vista político pedagógico. Desmerecer a construção coletiva é, no limite, dizer que nosso futuro será determinado pela implacável biologia. É também por isso que existe uma disputa permanente acerca de como contar e interpretar a trajetória de Lula, em particular ao longo das últimas cinco décadas.

Evidente que toda a história é interpretada e reinterpretada o tempo todo, à luz dos conflitos em curso em cada momento. A título de exemplo: Zumbi, Tiradentes, Maria Quitéria, Luiza Mahin, Anita Garibaldi, Antônio Conselheiro, Vargas, Prestes e Dilma Rousseff não são vistos da mesma forma, por diferentes pessoas, pertencentes a distintos setores sociais e épocas.

Lula nunca foi bem-visto e tampouco bem avaliado pela classe dominante e por quem eles dominam e exploram. Já do outro lado da sociedade, nas classes dominadas e exploradas, coexistem diferentes pontos de vista acerca de Lula. Há os que o tratam como “ungido de Deus”, assim como temos quem responsabilize Lula, pessoalmente, por todas as frustrações experimentadas pela classe trabalhadora desde as greves do ABC, nos anos 1970. Assim como existem aqueles que, como nós, buscamos dar a Lula o que é de Lula; e dar à luta o que é da luta coletiva.

Em Vargas, Prestes, Dilma, Lula e em todas e todos que foram protagonistas destacados na luta de classes, convivem o que podemos chamar de “pessoa física” e “pessoa jurídica”. Dramas e tragédias pessoais, amores e desamores, simpatias e antipatias, luzes e sombras, generosidades e mesquinharias, tudo isso junto e misturado com as posições e atitudes frente aos pequenos e grandes temas políticos. E, atravessando e se mesclando, há ainda uma camada adicional, composta pelas lendas que se criam à revelia do personagem, e, também, pelas que cada personagem deixa criar.

Cabe, finalmente, lembrar que, ao contrário do que diz muita gente, a eleição de 2026 não foi nem será o ponto final da trajetória de Lula. Afinal, não importa o que decida a implacável biologia, Lula seguirá tendo, por muito tempo, uma grande influência na história do Brasil. 

Por todos estes motivos e muitos outros, não há como separar os acertos dos erros, os problemas das virtudes. Dito de outra forma, grande parte dos problemas exibidos em nosso governo, em nossa campanha e no próprio PT, têm a influência de Lula. Assim como grande parte dos acertos de nosso governo, de nossa campanha e do próprio PT, também têm a influência de Lula.

Além disso, os setores que buscam atribuir nossos êxitos à pessoa de Lula e nossos defeitos ao PT, revelam uma incompreensão de fundo acerca do papel do Partido dos Trabalhadores na atual quadra da história do Brasil. O PT não é apenas sua direção, nem tampouco sua estrutura formal, com 3 milhões de filiados. O PT também é o maior movimento social existente no Brasil, composto pela imensa maioria daquelas dezenas de milhões de trabalhadores e trabalhadoras que são dotados de consciência de classe. Esta é a Nação Petista. Por isso, nossa vitória, a vitória da classe trabalhadora, só virá se for com o PT. Sem o PT ou contra o PT, só colheremos derrotas.

Contudo, agora que a batalha eleitoral terminou, é preciso reconhecer explicitamente os erros cometidos e as interpretações equivocadas, que incluem desde pensar que nossa vitória seria obtida no primeiro turno, até aqueles que estavam totalmente convencidos de que não haveria como vencer no segundo turno.

O certo teria sido reconhecer que, no primeiro turno das eleições.  não haveria alteração qualitativa, em favor da esquerda, nem nas eleições legislativas, nem nas eleições para governador. Era previsível, também, que haveria segundo turno presidencial. Entretanto, isto não significa que o resultado do primeiro turno era inevitável. Na verdade, ele foi construído, em grande medido, pelo nosso governo, por nossa campanha e por nosso Partido, que cometemos erros gravíssimos, entre os quais destacamos:

i/a ênfase em “comparar legados e entregas”, quando o certo seria e segue sendo disputar o futuro;

ii/a subestimação da força dos inimigos, que chegou ao ponto de se planejar a campanha presidencial acreditando que a disputa terminaria no primeiro turno;

iii/a ausência de candidaturas petistas a governador no RS e RJ;

iv/a demora em definir a candidatura a governador em MG;

v/a falta de vontade de vencer no estado de SP, com uma campanha para governador que parecia satisfeita em “cumprir tabela”;

vi/a ausência de materiais da campanha Lula, ao mesmo tempo que grande parte dos dirigentes concentrava seus esforço nas campanhas proporcionais;

vii/a incompetência, inapetência e falta de tesão de parte da direção nacional do Partido, a começar pela presidência, que formalmente ocupava - no primeiro turno - a coordenação geral da campanha.

Os erros supracitados – e outros tantos – explicam, não o segundo turno em si, mas explicam em grande medida o fato do Miliciano ter iniciado o segundo turno na nossa frente.

No segundo turno, alguns daqueles erros não foram e nem tinham como ser totalmente corrigidos. O mais grave erro é a política fiscal e monetária, consubstanciada nos limites impostos pelo Marco Fiscal e na taxa de juros estabelecida pelo Banco Central. São estas duas variáveis que explicam, em grande medida, o endividamento do povo, a inflação e a insatisfação para conosco de parte da população, fatos que foram demagogicamente explorados por nossos inimigos.

Mesmo sendo impossível corrigir totalmente, no segundo turno, estes e outros problemas, o presidente Lula adotou uma série de medidas - entre as quais destacamos a correção no bolsa família, o anúncio do valor do salário mínimo e o fim das BETs - com as quais buscava reduzir os danos. Vale dizer que a adoção destas medidas, em si mesma, comprovou que havia espaço para fazer melhor do que fizemos ao longo de três anos e meio. 

A verdade - que precisa ser reafirmada em alto e bom som - é que a política monetária e fiscal, denominada como "austericida" pelo Diretório Nacional do PT anterior ao atual, quase nos derrotou. Apesar disso, a direita tradicional, a mídia, o setor financeiro e alguns integrantes do governo querem que insistamos no mesmo caminho.

Outros erros cometidos pelo governo, pelo Partido e pela campanha foram parcialmente corrigidos no segundo turno. É o caso de algumas mudanças feitas na coordenação da campanha, empoderando quem tem sangue nos olhos e disposição real de vencer.

É importante destacar que essas mudanças - entre as quais se destacam o deslocamento do presidente nacional do PT para uma posição coadjuvante e a promoção de Janones para a posição de "general" das redes - revelam limites importantes da atual direção nacional do Partido.

Um dos erros que foi parcialmente corrigido, no segundo turno, foi a atitude frente aos crimes eleitorais em grande escala, cometidos através da compra de votos, das “granjas de bots” e das “fazendas de conteúdo”, crimes que trazem as digitais de empresas e agências de inteligência estrangeiras, formais e informais. No segundo turno, nossa campanha subiu o tom contra o papel nefasto da grande mídia e das big techs, que entretanto seguem empenhadas em uma operação permanente de desgaste contra o PT e contra Lula.

No segundo turno, foi essencial combater o derrotismo, que se manifestou das mais diferentes formas. Por exemplo, os que diziam que nunca houve uma virada no segundo turno, esquecendo que nunca tinha havido um operário presidente, até elegermos Lula; nunca tinha havido uma mulher presidenta, até elegermos Dilma; nunca tinha acontecido de um presidente não conseguir a reeleição, até Lula vencer em 2022. 

Outro exemplo de derrotismo veio daqueles que diziam que “com esse Congresso que foi eleito, Lula não vai conseguir governar”, como se o atual Congresso fosse de esquerda, honesto e republicano. O atual Congresso não é nada disso, mas ainda assim conseguimos governar. E a derrota da escala 6x1 demonstrou, mais uma vez, que é possível derrotar a maioria de direita que controla o Congresso nacional.

Também ficou demonstrado que, no primeiro turno, não houve um “tsunami” de votos a favor da extrema-direita. Os dados comprovam isso. No segundo turno de 2018, o presidiário pai do criminoso teve 57 milhões de votos. No segundo turno de 2022, o mesmo presidiário teve 58 milhões de votos. E, agora, o filho criminoso do presidiário criminoso teve 56 milhões de votos no primeiro e 59 milhões no segundo turno. Nunca houve “tsunami”, termo inventado para nos intimidar e nos paralisar.

É importante destacar que, ao mesmo tempo que nas direções, mandatários e intelectuais, muita gente que se deixou paralisar, na base militante e na classe trabalhadora prevaleceu outra posição: o combate orientado pela certeza da vitória.

Confirmou-se, ademais, que a eleição de segundo turno é diferente e, num certo sentido, melhor para a candidatura presidencial da esquerda, na medida em que se torna mais fácil demonstrar o que estava em jogo, mais fácil polarizar, inclusive mais fácil votar. E, à medida que ficou evidente o risco que corríamos, foi também mais fácil garantir a mobilização do nosso povo. Demonstrou-se, adicionalmente, como é importante garantir que as prefeituras cumpram o que a Lei determina e garantam o transporte público gratuito.

A esse respeito, registramos que a decisão de entrar na justiça pedindo prorrogação do prazo - embora totalmente correta no mérito - foi inócua. Poucas pessoas (entre 5 a 30 mil) votaram durante a prorrogação que, na ampla maioria dos casos, nem mesmo chegou a ocorrer.

Registramos também o imenso erro daqueles que propuseram cancelar as eleições e convocar novas, acreditando que a sabotagem nos transportes e outros fatores teriam dado a vitória aos cavernícolas. Esses e outros erros, motivados pelo derrotismo, não tinham base alguma na realidade: como ficou evidente, às 17h já havíamos vencido.

No segundo turno mostramos que era possível organizar uma campanha militante, 24 horas por dia, 7 dias por semana, até as 17h do dia 25 de outubro, campanha que deu visibilidade para Lula 13 e que nos permitiu dialogar com a maioria do povo brasileiro, nas ruas e nas redes, nas redes e nas ruas.

No segundo turno, organizamos melhor - mesmo que com atrasos e deficiências - a produção de material. Ao mesmo tempo, a militância fez parte de seu próprio material de campanha.

No segundo turno, demonstrou-se a imensa importância das redes sociais. Ao mesmo tempo, confirmou-se que estas redes são estruturalmente antissociais, uma vez que são controladas por grandes empresários vinculados à extrema-direita, havendo provas incontáveis de manipulação, como por exemplo o alcance de nossas postagens ser artificialmente reduzido. 

Por este motivo, foi correto insistir e dar prioridade para a mobilização das ruas e para o contato corpo-a-corpo com as pessoas, ações imprescindíveis para “furar a bolha” dos setores mobilizados e conversar com as mais amplas camadas do povo, com argumentos e linguagens que dialogavam distintamente com diferentes públicos e classes sociais.

Aliás, a mobilização e o corpo a corpo foram imprescindíveis, inclusive, para o sucesso nas redes.

Destacamos, também, o acerto de dar prioridade para o diálogo com os setores sociais que, ao fim e ao cabo, nos deram a vitória: os trabalhadores de menor salário, as mulheres, os negros e negras, a juventude, os idosos e o povo de coração nordestino, inclusive aquele que habita o sudeste do país e que por ventura se absteve, votou branco, nulo ou até no cavernícola, corrupto, fascista e miliciano candidato da extrema direita.

Foi principalmente desse eleitorado, que não votou em nenhuma candidatura presidencial no primeiro turno, que vieram os votos que nos levaram à vitória. E, mais uma vez, destacamos a importância que teve, na conquista de nosso eleitorado, a luta pelo fim da escala 6x1 e de outros temas de interesse da classe trabalhadora.

Recuperamos, no segundo turno, parte do espaço da esquerda nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No país inteiro, com limitações maiores ou menores, reconquistamos votos de quem já votara em nós em 2022 ou que tinha potencial de votar, tarefas que se demonstraram totalmente possíveis, bastando fazer o que já podíamos ter feito, mas em parte não fizemos, no primeiro turno.

Acertamos também, no segundo turno, em ter um discurso focado na defesa e construção do futuro do Brasil, falando das reformas estruturais que mudem nossa sociedade e nosso lugar no mundo, garantindo soberania, democracia, bem-estar, meio ambiente e desenvolvimento. Mas, antes de mais nada, tomando medidas imediatas e urgentes para melhor a vida do povo. Destacamos, a respeito, os seguintes temas: baixar o preço dos alimentos, libertar o povo do endividamento e dos juros altos, melhorar os serviços públicos (com destaque para saúde, educação, transporte, passe livre e segurança).

Insistimos, no segundo turno, em que a superação do projeto racista e antifeminista da extrema-direita deve caminhar lado a lado com a centralidade das mulheres e das negras e negros na transformação do país, assegurando que a autonomia econômica, as políticas de cuidado, a reparação histórica e o enfrentamento rigoroso à violência de gênero e racial estejam no centro do orçamento do Estado e da luta da classe trabalhadora. Nesta mesma perspectiva, apresentamos o fim da escala 6×1 como parte estruturante de uma vida melhor para as maiorias do povo, uma política civilizatória segundo a qual devemos trabalhar para viver e não viver para trabalhar. Lula deu destaque para o tema na campanha e nos debates.

Comprovou-se, no segundo turno, que a “comparação de legados” e o “medo dos criminosos” não deviam ser o aspecto central de nosso diálogo. O central era e segue sendo o futuro. Mas isso não significou baixar o tom. Pelo contrário, fizemos polarização sem trégua, para derrotar o crime, as milícias, a Faria Lima, os vendilhões do templo, os feminicidas, os racistas, os fundamentalistas, os negacionistas e -acima de tudo – os imperialistas, os golpistas e os traidores da pátria.

Nossa campanha denunciou, desmontou e desmoralizou a candidatura da extrema-direita, lembrando que um governo ultraliberal beneficiará somente o agronegócio, as mineradoras, o capital financeiro e os Estados Unidos, prejudicando fortemente o povo trabalhador, as mulheres, os negros e negras, a juventude.

No segundo turno, ficou mais uma vez destacado que devemos nos vacinar contra o impacto das pesquisas negativas, mas também contra o efeito anestésico das pesquisas positivas. A esse respeito, vale citar o aspecto deletério da imensa maioria dos institutos de pesquisa, inclusive do DataFolha, que no sábado 24 de outubro divulgou uma pesquisa apostando na nossa derrota. Muito mais deletéria, entretanto, é a influência que estas pesquisas exercem sobre parte de nossas direções, gerando ondas imotivadas de euforia e desespero.

Foi muito importante, finalmente, no segundo turno, a ocupação visual do país inteiro pelos apoiadores da campanha de Lula. Especialmente a partir dos últimos quinze dias, a Nação Petista avermelhou as ruas e as redes.

Desde a noite de 4 de outubro até a apuração, nosso povo se manteve em estado de alerta total. Mais uma vez, nossa militância petista para tempos de guerra demonstrou ser o melhor que nosso Partido possui. Foi essa militância vietnamita que forjou a reeleição de Lula no segundo turno.

Os ajustes feitos na tática de campanha e na postura do governo contribuíram para nossa vitória no segundo turno. Mas, repetimos, a histórica vitória de 25 de outubro tem o DNA da maioria trabalhadora, feminina, negra, jovem, idosa e nordestina do povo brasileiro; tem o DNA da esquerda como um todo, em particular da Nação Petista; e tem o DNA de Lula.

A vitória de 25 de outubro:

-impediu que o crime organizado reconquistasse o governo federal, ameaçando nossas liberdades e enterrando qualquer possibilidade do Brasil ter desenvolvimento, bem-estar e soberania;

-impediu que Trump, a extrema direita e o imperialismo controlassem toda a região, colocando nossas riquezas a serviço dos projetos neofascistas e da guerra;
-manteve firme e atuante uma das principais vozes do Sul Global em favor de uma nova ordem mundial.
A eleição de Lula presidente foi um ato em defesa da humanidade, do povo brasileiro, da classe trabalhadora, das mulheres, dos negros e negras, das juventudes, dos idosos.
Foi um ato em defesa da soberania, da integração regional, da democracia, das politicas públicas, da ciência, do desenvolvimento e, também, da continuidade da luta pelo socialismo.
Mas esta guerra em defesa da pátria e da humanidade, não encerrou no dia 25 de outubro. A fuga do Cavernícola, com o apoio de Milei e de Trump, confirmam isso e reforçam que o debate sobre o ocorrido no passado recente está diretamente vinculado ao debate sobre o que fazer, no presente e no futuro.

O Miliciano Corrupto não reconheceu a derrota. 

Nos dias que antecederam a eleição e no próprio dia 25, em particular depois que saiu o resultado, setores da extrema-direita descarregaram sua violência fascista contra eleitores e apoiadores de Lula.

Além da violência física, está em curso uma campanha de boicote e demissões contra quem votou em Lula.

Porta-vozes da extrema-direita já anunciaram que usarão suas maiorias legislativas e seus governos estaduais para fazer oposição, sabotar e — se tiver espaço — tentar derrubar Lula.

E os mercados estão especulando fortemente.

Isso tudo exigirá, da parte da esquerda em geral, mas principalmente da parte do PT, uma estratégia adequada, que precisa ser muito diferente daquela adotada no último período.

A nova estratégia terá que incluir: 

i/uma mudança efetiva do modelo econômico, hoje controlado pelo agro, pelas mineradoras e pelo setor financeiro; 

ii/uma ampla reforma do Estado (incluindo o sistema judiciário, político e eleitoral); 

iii/a criação de estruturas digitais sob controle nacional, estatal e público; 

iv/uma política de governabilidade de novo tipo, baseada na mobilização popular; 

v/um salto de qualidade na organização da esquerda política e social;

vi/a reafirmação ideológica da esquerda, que deve buscar se aliar com os progressistas, mas não deve se confundir, nem se autolimitar, ao chamado “progressismo”; 

vii/a substituição do “modelo parlamentarista” de funcionamento partidário, pela boa e velha organização militante;

viii/uma política internacional que terá que continuar altiva, mas precisará voltar a ser muito mais ativa, especialmente na América Latina e Caribe.

É fazendo isto que transformaremos nossa vitória de 25 de outubro, no ponto de partida para outra época histórica, contribuindo para o futuro do Brasil, da América Latina e Caribe e da humanidade.

Plano de trabalho imediato

Orientamos as direções estaduais, municipais e setoriais do PT a:

i/debater e aprovar balanços do processo eleitoral, com análises focadas nas respectivas realidades locais;

ii/vincular o balanço do processo, com o debate sobre os desafios futuros, tanto do governo Lula, quanto de nossos governos estaduais e municipais, nossos mandatos parlamentares, os movimentos sociais e organizações populares que dirigimos ou influenciamos;

iii/convidar, para participar do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, a militância que se aproximou de nós durante o processo eleitoral;

iv/preparar a mobilização do 20 de novembro, da diplomação de Lula e da posse de Lula.

Por fim, convocamos o Diretório Nacional do PT para uma reunião de dois dias, em 13 e 14 de novembro, tendo como pauta o balanço das eleições, as tarefas do sexto mandato petista e a convocação de um congresso partidário, com a eleição de delegados marcada para março de 2027.

 

Orientação Militante 546

1.Reunião da direção nacional da AE

A direção nacional da AE reuniu-se dia 29 de outubro de 2026 e debateu os pontos a seguir.

2.Executiva nacional do PT

A companheira Natália Sena informou o que foi debatido e deliberado na reunião da executiva nacional do PT, realizada no dia 29 de outubro de 2026. Em relação ao documento aprovado, Natália informou que votou a favor do documento que nós apresentamos. Aparentemente, excetuando nosso voto, os demais integrantes da CEN ou votaram a favor do documento aprovado ou escolheram não votar. 

3/Calendário político e organizativo

30 de outubro, começa a circular o texto base do XI Congresso Nacional da AE 

30 de outubro a 26 de novembro, congressos municipais da AE, para eleger delegação ao XI Congresso Nacional 1 de novembro: data limite para envio dos textos para o p13 de Novembro

3 de novembro, reunião para organizar a jornada nacional de formação

13 de novembro, reunião do Diretório Nacional do PT

20 de novembro, mobilização nacional

27 de novembro, das 13h às 17h, reunião do Setorial Nacional da AE, na Apeoesp - Praça da República

27 de novembro, a partir das 14h, na sede da FPA, reunião da Dnae e abertura interna do XI congresso

28 de novembro, 9h, abertura pública do XI congresso nacional e venda da Agenda 2027

28 de novembro a partir das 14h até as 20h e 29 de novembro a partir das 9h até as 14h, XI congresso nacional da AE 

1 de dezembro: data limite para chegada dos textos para a revista Esquerda Petista 

6 de dezembro: data limite para envio dos textos do P13 de dezembro.

12 e 13/12/2026, Jornada de Formação Nordeste da AE (ver programação ao final)

16 de dezembro, data limite para diplomação de Lula

4 de janeiro, jornada de formação para a militância petista em Brasília

5 de janeiro, posse de Lula 

23 a 31 de janeiro de 2027, em Contagem (MG), jornada nacional da formação política da AE (ver programação ao final)

Congresso do PT, data a definir


4.Jornada de Formação Nordeste da AE

Tema: História do PT e das tendências petistas 

Local: Casa Socialista, em Natal (RN) 

Data: 11, 12 e 13/12/2026 

Público: militância petista e simpatizantes 

Taxa de inscrição: 20 reais.

 Programação 

11/12 sexta 

9h00 café da manhã de recepção, orientações práticas, apresentação da jornada, apresentação da Casa Socialista, informe sobre as deliberações do XI congresso nacional do PT (Sophs Matta e Patrick Campos Araújo) 

12h00 almoço 14h00 Visão panorâmica sobre a história do Brasil e das lutas do povo brasileiro, até a década de 1970 (Valter Pomar) 

19h00 Confraternização e noite livre. 

12 de dezembro sábado 

8h00 Da fundação do PT em 1980 até a eleição de 1989 (Valter Pomar) 

12h00 Almoço 

14h00 De 1990 a 2002: o PT na luta contra o neoliberal tucano (Valter Pomar)

18h00 jantar 19h00 De 2002 a 2016: o PT governando o Brasil (Patrick Campos e Natália Sena) 

13 de dezembro domingo 

8h00 De 2017 até os dias atuais: o PT na luta contra o golpismo, o neofascismo, os ultraliberais e o imperialismo (Patrick Campos e Natália Sena) 

12h00 avaliação do curso, almoço e regresso 


5.Programação da Jornada Nacional de Formação da AE 2027

Local: Contagem (MG) 

Data: 23 de janeiro (sábado) a 31 de janeiro (domingo) 

Atividades previstas 

23/1 9h-12h Minicurso sobre a história das lutas do povo brasileiro 

23/1 14h-17h Minicurso sobre a histórias das lutas do povo brasileiro 

23/1 19h-23h Atividade cultural na Casa 

24/1 9h-12h Minicurso sobre história das lutas do povo brasileiro 

24/1 14h-17h Minicurso sobre política e comunicação 

24/1 19h-23h Atividade cultural na Casa 

25/1 9h-12h Oficina sobre comunicação 

25/1 14h-17h Minicurso sobre vida e obra de Karl Marx 

25/1 19h-21h Minicurso sobre a revolução russa e a União Soviética 

26/1 9h-12h Minicurso sobre a revolução chinesa e a Republica Popular da China

26/1 14h-17h Oficina sobre IA e atividade política 

26/1 19h-21h Minicurso sobre a revolução cubana e a República de Cuba 

27/1 9h-12h Minicurso sobre a crise do socialismo soviético (1989-1991) 

27/1 14-17h Minicurso sobre os governos progressistas e de esquerda na América Latina (1999-2026) 

27/1 19h-21h Minicurso sobre juventudes 

28/1 9h-12h Oficina sobre trabalho de base 

28/1 14h-17h Minicurso sobre história da África 

28/1 19h-22h Minicurso sobre história dos EUA 

29/1 9h-12h Minicurso sobre crise climática 

29/1 14h-17h Minicurso sobre raça, gênero e classe 

29/1 19h-23h Atividade cultural 

30/1 9h-12h Mini-curso sobre história e desafios do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras 

30/1 14h-17h Mini-curso sobre história e desafios do PT 

30/1 19h-23h Ato político e comemoração 

31/1 9h-12h Balanço da jornada e enceramento 


6/Debate e aprovação do projeto de resolução para debate no XI Congresso da AE

O projeto de resolução aprovado pela Dnae deve ser lido  e debatido nos congressos de base, que devem ser realizados entre os dias 30 de outubro e 26 de novembro de 2025 (ver regulamento disponível aqui:.Orientação Militante N°542 (15 de agosto 2026) | Página 13).

O XI Congresso acontecerá nos dias 27, 28 e 29/11/2026, na cidade de São Paulo, com três pontos de pauta: 1.Balanço das eleições 2026 e desafios do PT no próximo período. 2.Plano de trabalho da AE. 3.Eleição da direção nacional e da comissão de ética nacional.

Tanto os congressos de base quanto o congresso nacional são abertos à participação, como ouvintes ou como convidados com direito à fala, da militância petista.

Segue abaixo a quarta versão do texto em debate na direção  nacional da AE. Ainda está sendo feita uma revisão final. Portanto, ainda não se trata da versão definitiva. Sujeita a todo tipo de alteração.

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Lula 2026: vencemos uma batalha decisiva, mas a guerra em defesa da vida e do futuro ainda não terminou!

Balanço das eleições 2026 e desafios do PT no próximo período

No dia 25 de outubro de 2026, Lula foi reeleito presidente do Brasil. O fato em si não constitui uma novidade. Afinal, esta foi a sexta vitória do PT e a quarta vitória de Lula nas eleições presidenciais brasileiras. Mas, devido ao contexto internacional e nacional, esta não foi uma vitória como as outras.

A vitória de Lula impediu que Trump, a extrema direita e o imperialismo fechassem o cerco sobre a América do Sul, o que colocaria nossas riquezas a serviço dos projetos neofascistas e da guerra. 

Lula presidente manteve o Brasil como uma das principais vozes do Sul Global, em favor de uma nova ordem mundial, em defesa de Cuba e da Palestina.

Nesse sentido, a eleição brasileira teve significado mundial e foi comemorada por todos os que defendem a paz, a democracia, a soberania e os direitos dos povos.

Nossa vitória foi particularmente comemorada na América Latina e Caribe, inclusive por fornecer um ponto de apoio para a retomada da região pelas forças progressistas e de esquerda.

A eleição de Lula impediu, ainda, que o fascismo, os ultraliberais, os traidores da pátria e o crime organizado reconquistassem o governo federal brasieiro, o que mataria nossas vidas e liberdades e enterraria o futuro do Brasil, nos impedindo de ter desenvolvimento, bem-estar e soberania.

A manutenção do governo brasileiro foi uma espetacular vitória do povo brasileiro.

No segundo turno, entre os dias 5 e 25 de outubro, uma maré vermelha tomou contas das ruas do Brasil. 

Milhões de pessoas se mobilizaram, conversaram com seus familiares, com seus vizinhos, com seus colegas de trabalho, de estudo e de festa. 

Fazendo o L e dizendo "é nóis", grandes camadas do povo - principalmente trabalhadores pobres, mulheres, jovens, idosos, artistas, intelectuais, nordestinos de coração, militantes progressistas e de esquerda, com destaque para os integrantes da grande Nação Petista - foram à luta e fizeram algo que parecia impossível: virar o jogo e vencer as eleições, por uma margem expressiva de votos. 

Os ajustes feitos na tática de campanha e na postura do governo contribuíram e muito para nossa vitória no segundo turno. E, como sempre acontece nas vitórias, há uma disputa pelas glórias.

No caso particular do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, provou-se mais uma vez que a militância petista para tempos de guerra é melhor do que nossas direções. Foi essa militância vietnamita que, com sangue, suor e lágrimas, contribuiu para forjar a reeleição de Lula no segundo turno.

Reafirmamos que a histórica vitória de 25 de outubro tem o DNA da maioria trabalhadora, feminina, negra, jovem, idosa e nordestina do povo brasileiro; tem o DNA da esquerda como um todo, em particular da Nação Petista; e tem o DNA de Lula.

A vitória do 13 Lula presidente foi um ato em defesa da soberania, da integração regional, da democracia, das politicas públicas, da ciência, do desenvolvimento. E, para nós que lutamos pelo socialismo, a vitória de Lula manteve abertas as grandes alamedas por onde caminha a luta da classe trabalhadora.

Mas a guerra em defesa da vida, em defesa da pátria, em defesa da humanidade e em defesa do futuro não encerrou no dia 25 de outubro. 

A fuga do Miliciano, evasão que contou com o apoio de Milei e de Trump, confirmam isso. 

O Miliciano Corrupto não reconheceu a derrota e, junto com seus aliados nos Estados Unidos, vai seguir conspirando contra os interesses nacionais.

Mesmo atordoados pela fuga do seu candidato, os integrantes da extrema-direita seguirão buscando nos derrotar, agora e em 2030. 

Prova disso é o que ocorreu, especialmente nos dias que antecederam a eleição e no próprio dia 25 de outubro, em particular depois que saiu o resultado: uma série de violências físicas contra eleitores e apoiadores de Lula, em muitos casos violência praticada por bandidos de farda.

Além dos casos de violência física, teve início uma campanha de boicote contra empresários e de demissões contra trabalhadores que votaram em Lula. 

Governadores e parlamentares da extrema-direita já anunciaram que usarão suas maiorias legislativas e as administrações estaduais que dirigem para fazer oposição, sabotar e — se tiverem a oportunidade — tentar derrubar Lula.

Isso tudo exigirá, da parte da esquerda em geral, mas principalmente da parte do PT, uma estratégia adequada, que precisa ser muito diferente daquela adotada no último período.

A nova estratégia terá que incluir: 

i/uma mudança efetiva do modelo econômico, hoje controlado pelo agro, pelas mineradoras e pelo setor financeiro; 

ii/uma ampla reforma do Estado (incluindo o sistema judiciário, político e eleitoral); 

iii/a criação de estruturas digitais sob controle nacional, estatal e público; 

iv/uma política de governabilidade de novo tipo, baseada na mobilização e participação popular, sem o que continuaremos fazendo concessões à direita que controla o Congresso Nacional. Se é possível ganhar a eleição nas ruas, por qual motivo não seria possível governar com base nas ruas?

v/a implementação de uma forte oposição aos governos estaduais de extrema-direita, que muito provavelmente cumprirão um papel importante na oposição ao governo Lula e na montagem de uma chapa para nos enfrentar em 2030;

vi/uma política de segurança pública profundamente distinta da adotada pela extrema-direita;

vii/uma política internacional que terá que continuar altiva, mas precisará voltar a ser muito mais ativa, especialmente na América Latina e Caribe;

viii/a implementação de uma efetiva política de Defesa e de Inteligência, que permita enfrentar a ingerência da extrema-direita, dos EUA e de Israel;

ix/a reafirmação ideológica da esquerda, que deve buscar se aliar com os progressistas, mas não deve se confundir, nem se autolimitar, ao chamado “progressismo”; 

x/um salto de qualidade na organização da esquerda política e social, o que inclui a substituição do “modelo parlamentarista” de funcionamento partidário, por um esforço de organização militante, com formação e mobilização. Nesse sentido, é preciso utilizar o atual momento de entusiasmo, para filiar e engajar as pessoas no Partido, nos sindicatos, nos movimentos.

É fazendo isto tudo e muito mais, que transformaremos nossa vitória de 25 de outubro, no ponto de partida para outra época histórica, contribuindo para o futuro do Brasil, da América Latina e Caribe e da humanidade.

É movidos por estes propósitos que faremos, a seguir, o balanço das eleições de 2026: analisar o passado, para orientar nossas ações no presente e no futuro. 

Balanço das eleições

O Partido dos Trabalhadores venceu 6 das 10 eleições presidenciais ocorridas desde 1989, ficando em segundo lugar nas outras 4 (ou seja, nas eleições que ocorreram nos anos de 1989,1994, 1998 e 2018).

Mas, diferente das eleições vencidas por nós (nos anos de 2002, 2006, 2010, 2014 e 2022), desta vez Lula, candidato do PT, começou o segundo turno não sendo considerado favorito pelas pesquisas, nem pela maior parte da mídia e, inclusive, nem mesmo por parte importante das direções da própria esquerda brasileira.

Entretanto, vencemos. Lula foi reeleito e com uma diferença expressiva.

Os números finais surpreenderam, inclusive, os mais otimistas, como é o caso de nós da tendência petista Articulação de Esquerda, que tínhamos absoluta certeza da vitória, mas prevíamos uma diferença mais apertada.

Recapitulamos a seguir os principais dados.

No primeiro turno, o Miliciano saiu na nossa frente, com 47,03% dos votos válidos. Mas terminou o segundo turno com apenas 48,21% dos votos válidos. Em votos absolutos, o Miliciano foi de 56.104.503 para 59.826.041 votos. 

Em 2022, o Cavernícola Pai chegou a obter 49,1% dos votos válidos, resultado superior aos 48,21% obtidos no segundo turno de 2026 pelo Fujão. Entretanto, em número absoluto de votos o Cavernícola Filho superou o Cavernícola Pai. Este, em 2022, conseguiu pouco mais de 58 milhões de votos. Agora, o Filho obteve quase 60 milhões de votos. 

Mas cabe lembrar que, em 2022, o eleitorado era menor do que o atual: entre 2022 e 2026, o número de pessoas aptas a votar aumentou em exatas 2.291.452 pessoas.

Já Lula saltou de 45,16% no primeiro turno, para 51,79% dos votos válidos no segundo turno, crescendo de 53.879.538 para 64.256.232 de votos. Um resultado melhor do que o de 2022, quando Lula obteve 60.345.999 de votos, o equivalente a 50,9% dos votos válidos. 

Estes resultados numéricos podem ser resumidos, do ponto de vista político, da seguinte forma: a extrema direita manteve, nas eleições presidenciais de 2026, um patamar eleitoral similar ao de 2022. Já a esquerda conseguiu ir além do resultado de 2022.

Se tivéssemos repetido o resultado absoluto obtido em 2022, nossa vantagem teria sido de apenas 520 mil votos. Mas superamos nosso próprio teto e estabelecemos uma vantagem de 4 milhões e 430 mil votos.

Evidentemente, a análise das eleições não pode se limitar aos resultados do segundo turno presidencial. É preciso levar em conta, também, o primeiro turno presidencial, a eleição para governos estaduais, Senado, Câmara e Assembleias.  Mas é evidente que a reeleição de Lula foi uma vitória maiúscula.

Há um ditado popular que afirma mais ou menos o seguinte: a derrota é órfã, já a vitória tem muitos pais e mães. Também por isto, há todo tipo de análise e opinião circulando. Será necessário um certo tempo e distanciamento, para que seja possível produzir uma análise científica das eleições 2026.

Entretanto, não é possível esperar para iniciar a avaliação, pelo simples motivo de que, através da batalha de avaliações, está em jogo uma espécie de "terceiro turno interpretativo", em que diferentes setores da direita tentam deslegitimar, domesticar e, até mesmo, fraudar a imensa vitória obtida pelo povo brasileiro no dia 25 de outubro de 2026. 

Este "terceiro turno interpretativo" tem implicações políticas imediatas, no debate sobre como lidar com a ingerência externa, sobre como enfrentar a extrema-direita, sobre como organizar a posse, sobre a composição do novo governo e, principalmente, sobre o malfadado "ajuste fiscal" que a classe dominante segue querendo impor sobre o povo brasileiro, na contramão dos resultados eleitorais. 

O candidato da extrema-direita não reconheceu nossa vitória, alegando fraude e fake-news. E fugiu do país, numa ação que teve a cooperação, pelo menos, dos governos da Argentina e dos Estados Unidos.

Mas os apoiadores do Traidor Fujão sabem que nossa vantagem - superior a 4 milhões de votos - foi obtida legitimamente, na campanha eleitoral, através do debate político e da mobilização. Por isso mesmo, a fuga do Cavernícola reacendeu o debate, na extrema direita, sobre o papel da Família Cavernícola. Muitos deles se perguntam se o resultado não poderia ter sido outro, caso a candidatura presidencial da extrema direita não tivesse sido da família. Pergunta que alimenta outra questão: quem será o candidato da extrema direita nas eleições de 2030?

Evidente que a "candidatura" escolhida por eles teve grande incidência nos resultados. Mas quem interpreta o resultado eleitoral tendo como fio da meada as candidaturas, tende a secundarizar as variáveis decisivas, a saber: 

-do lado da extrema direita, é preciso lembrar do engajamento dos Estados Unidos e seus aliados (com destaque para Israel), dos grandes capitalistas e das estruturas organizativas criadas ou em grande medida capturadas pela extrema-direita, principalmente ao longo da última década (a "família militar", as máquinas parlamentares e de governo, as redes antissociais, empresas da fé, a mídia tradicional, as milícias e o crime organizado etc.). São essas variáveis - e não as candidaturas em si - que explicam os mais de 59 milhões de votos obtidos pelo Fujão em 2026, assim como os 58 milhões obtidos pelo Cavernícola Pai em 2022;

-do nosso lado, é preciso lembrar do acúmulo politico e organizativo construído desde os anos 1970 pela esquerda brasileira, acúmulo condensado especialmente na Nação Petista. É preciso lembrar, também, da capacidade de mobilização espontânea dos estratos mais profundos e mais empobrecidos da classe trabalhadora, majoritariamente feminina, negra e jovem; a disposição de combate exibida por milhões de brasileiros com mais de 70 anos; o compromisso político da maioria daqueles que são nordestinos por nascimento, moradia ou alma. Sem isto, sem o apoio e generosidade das camadas que constituem a maioria do povo brasileiro, a candidatura de Lula não teria dado a volta por cima e não teria triunfado.

Enquanto setores da extrema-direita buscam deslegitimar e desconhecer nossa vitória, a direita tradicional busca domesticar o resultado e “cancelar” o papel da classe trabalhadora, da esquerda em geral e do PT em particular na vitória.

Para sustentar esta “narrativa”, a direita tradicional destaca a vitória parcial da extrema direita no primeiro turno, para em seguida afirmar que a vitória no segundo turno só teria sido possível graças aos "setores de centro" que teriam vindo em socorro da esquerda. Em resumo, segundo essa tese, ao contrário das aparências, o dia 25 de outubro não teria sido uma vitória da classe trabalhadora, da esquerda, do PT e de Lula; teria sido, isto sim, uma vitória do "centro".

Não resta dúvida de que a extrema-direita obteve uma importante vitória no primeiro turno, elegendo grande número de deputados e senadores, bem como os governadores de estados fundamentais como São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul, entre outros. Também não deve restar dúvida de que, no segundo turno, uma parte do eleitorado se mobilizou não para eleger a esquerda, mas sim para impedir que o governo federal caísse nas mãos do crime organizado.

Entretanto, se observarmos os fatos, constatamos que: 

i/o crescimento da extrema-direita no legislativo se deu, no essencial, canibalizando os votos da direita tradicional, Centrão e evangélicos. (O enfraquecimento do Centrão, aliás, nos permite mudar a tática adotada na eleição das Mesas do Senado e da Câmara.) Ademais, os estados nos quais a extrema-direita venceu em 2026, em muitos casos já eram governados pela extrema-direita desde 2022. A votação do Miliciano, tanto no primeiro quanto no segundo turno, não superou qualitativamente os resultados que a extrema-direita já tinha obtido em 2022. Portanto, o que explica o resultado do primeiro turno não foi o crescimento deles, mas o fato de parte de nossos eleitores de 2022 não ter reafirmado o voto no primeiro turno de 2026. E o que explica o resultado do segundo turno foi, em parte, o regresso desses eleitores. Com um detalhe importante: diferente de 2022, quando duas candidaturas presidenciais do chamado "centro" (ou seja, da direita tradicional) apoiaram Lula, desta vez nenhum das outras candidaturas de direita apoiou Lula;

ii/no segundo turno de 2026, foi decisiva a adoção, ainda que com atraso, de medidas governamentais em favor das camadas populares, bem como de uma linha de campanha que vinculou a defesa da democracia com a ampliação das conquistas sociais do povo. Isso contribuiu para ampliar o apoio a Lula nos setores populares, por razões de esquerda, não de "centro"; 

iii/a esmagadora maioria do eleitorado que votou em Lula, tanto no primeiro quanto no segundo turno, pertence às camadas populares e votou principalmente por identidade de classe. Os “setores médios”, movidos por valores “de centro”, tiveram seu papel, mas não foi tão destacado;

iv/é verdade que os parlamentares, os governantes, a intelectualidade tradicional e os artistas que saíram em defesa da candidatura de Lula integram os estratos melhor remunerados da classe trabalhadora ou são, inclusive, pequenos e médios proprietários. É verdade, também, que tivemos setores de centro e até de direita extrema nos apoiando para derrotar o Miliciano. Mas não é essa a composição social predominante no eleitorado que nos deu a vitória. A maioria esmagadora das 64 milhões de pessoas que votaram em Lula, é proveniente de setores mais empobrecidos da classe trabalhadora e, por isso mesmo, possui uma profunda identificação de classe com o PT.

Neste sentido, embora a direita tradicional (e setores da esquerda não petista) possam não admitir, a verdade é que a Nação Petista foi a espinha dorsal da vitória de Lula, em 2026 (e, também, das demais eleições presidenciais).

A extrema direita busca deslegitimar nossa vitória, porque isso os ajuda a agrupar sua tropa, a fazer oposição, a sabotar e, no limite, a derrubar nosso governo. 

Já a direita tradicional busca domesticar nossa vitória, porque isso os ajuda a tentar impor o programa derrotado nas urnas, a saber, o "tesouraço" (ajuste fiscal). Por detrás de um debate aparentemente científico sobre a natureza da nossa vitória, esconde-se uma tentativa de estelionato eleitoral.

Na esquerda, por sua vez, também há diferentes avaliações sobre o resultado eleitoral, refletindo as distintas estratégias e táticas propostas, por cada setor, para enfrentar a época em que vivemos. 

O primeiro a dizer é que há alguns setores que parecem ser de esquerda, se acham de esquerda, mas não passam de seitas objetivamente aliadas da extrema direita. É o caso do PCO e dos autoproclamados “revolucionários” que chamaram o voto nulo. Embora numericamente inexpressivos, causam dano e precisam ser desmascarados e combatidos. O PCO, por exemplo, está nesse momento defendendo explicitamente o Traidor Fujão.

Os fatos deixaram evidente, também, a aposta equivocada da esquerda que escolheu lançar candidaturas presidenciais no primeiro turno, talvez na expectativa de capitalizar a justa insatisfação de setores da classe trabalhadora com nosso governo e com nosso Partido. A vida demonstrou, mais uma vez, que o caminho da vitória do povo passa pelo PT, não contra o PT e não sem o PT. Motivo pelo qual toda a esquerda deveria ter apoiado Lula, desde o primeiro turno.

Entre os várias setores de esquerda que apoiaram Lula desde o primeiro turno, existem diferentes balanços sobre o processo eleitoral.

Um desses balanços debita nossa vitória, em sua maior parte, à pessoa de Lula; e atribui nossos problemas, no essencial, ao Partido dos Trabalhadores.

Evidentemente não devemos subestimar o papel do indivíduo na história. Acontece que o indivíduo em questão não veio de outra galáxia, carregado de superpoderes.

Quatro vezes presidente da República e, por muitas gestões, presidente do PT e do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC, Lula tornou-se o mais importante personagem dos últimos 50 anos da história do Brasil por obra e graça de uma construção coletiva.

Reconhecer isso tem imensa importância, do ponto de vista político pedagógico. Desmerecer a construção coletiva é, no limite, dizer que nosso futuro será determinado pela implacável biologia. 

Evidente que a história em geral e dos indivíduos em particular, é interpretada e reinterpretada o tempo todo, à luz dos conflitos em curso em cada momento. 

A título de exemplo: Zumbi, Tiradentes, Maria Quitéria, Luiza Mahin, Anita Garibaldi, Antônio Conselheiro, Vargas, Prestes e Dilma Rousseff não foram e não são vistos da mesma forma, por diferentes pessoas, pertencentes a distintos setores sociais e épocas. 

Lula nunca foi bem-visto e tampouco bem avaliado pela classe dominante. Já nas classes dominadas e exploradas, coexistem diferentes pontos de vista acerca de Lula. Há milhões que se deixam dominar ideologicamente pelo empresariado capitalista. Há outros milhões que defendem Lula, em alguns casos chegando ao ponto de o tratar como “ungido de Deus”. Há uma pequena minoria que o considera pessoalmente responsável por muitas das frustrações experimentadas pela classe trabalhadora desde os anos 1970. 

Da nossa parte, preferimos dar a Lula o que é de Lula; e dar à luta o que é da luta coletiva.

Em Vargas, Prestes, Dilma, em todas e todos que foram protagonistas destacados na luta de classes, convivem o que podemos chamar de “pessoa física” e “pessoa jurídica”. Dramas e tragédias pessoais, amores e desamores, simpatias e antipatias, luzes e sombras, generosidades e mesquinharias, tudo isso junto e misturado com as posições e atitudes frente aos pequenos e grandes temas políticos. E, atravessando e se mesclando, há ainda uma camada adicional, composta pelas lendas que se criam à revelia do personagem, e, também, pelas que cada personagem deixa criar. 

Por todos estes motivos e muitos outros, não há como separar os acertos dos erros, os problemas das virtudes. Dito de outra forma, grande parte dos problemas exibidos em nosso governo, em nossa campanha e no próprio PT, têm a influência de Lula. Assim como grande parte dos acertos de nosso governo, de nossa campanha e do próprio PT, também têm a influência de Lula.

Feitas todas estas mediações, é imprescindível constatar que milhões de pessoas anônimas - que arrancaram a vitória com suas próprias mãos e que descobriram ter uma energia e um poder que não sabiam ter - fizeram de Lula, mais que um candidato, um símbolo coletivo.

Também por isso, ao contrário do que diz muita gente, a eleição de 2026 não foi nem será o ponto final da trajetória de Lula. Afinal, não importa o que decida a implacável biologia, Lula seguirá tendo, por muito tempo, uma grande influência na história do Brasil. 

A “era Lula” não terminou. Os que dizem isso expressam, na verdade, seu desejo de que se interrompa, não apenas o ciclo de vitórias eleitoras da esquerda brasileira, mas principalmente que não tenha início um ciclo de reformas estruturais na sociedade brasileira. Ciclo de reformas que precisa ter início neste quarto mandato e cuja continuidade depende, não de um "sucessor", mas sim de conseguirmos canalizar e organizar a energia popular revelada neste segundo turno. Canalização e organização que depende, em grande medida, do campo democrático e popular liderado pelo Partido dos Trabalhadores.

Desse ponto de vista, os setores da esquerda que buscam atribuir nossos êxitos à pessoa de Lula e nossos defeitos ao PT, cometem dois erros. O primeiro é desconhecer a realidade: basta dizer que "vai dar PT" foi um dos hits da campanha, em todo o país. O segundo erro é uma incompreensão acerca do papel do Partido dos Trabalhadores na atual quadra da história do Brasil. 

O PT não é apenas sua direção, nem tampouco sua estrutura formal, com 3 milhões de filiados. O PT é isso, mas também é o maior movimento social existente no Brasil, composto pela imensa maioria daquelas dezenas de milhões de trabalhadores e trabalhadoras que são dotados de consciência de classe. Esta é a Nação Petista. Por isso, repetimos: nossa vitória, a vitória da classe trabalhadora, só virá se for com o PT. Sem o PT ou contra o PT, só colheremos derrotas.

Se a Nação Petista nos proporcionou imensas alegrias, o PT Instituição cometeu muitos erros.

Agora que a batalha eleitoral terminou, é preciso apontar as interpretações equivocadas e os erros cometidos pela oficialidade petista, erros que incluem desde aqueles que pensavam que nossa vitória seria obtida já no primeiro turno, até aqueles que estavam totalmente convencidos de que não haveria como vencer no segundo turno. 

Da nossa parte, como pode ser comprovado pela leitura das resoluções que a tendência petista Articulação de Esquerda vem aprovando e divulgando desde novembro de 2024, não fomos surpreendidos pela vitória parcial obtida pela extrema direita no primeiro turno.

Era previsível que não haveria alteração qualitativa, em favor da esquerda, nem nas eleições legislativas, nem nas eleições para governador. Era previsível, também, como já dissemos, que haveria segundo turno presidencial.

Entretanto, o fato de termos previsto – em linhas gerais – o resultado do primeiro turno, não significa que ele era inevitável. Nosso governo, nossa campanha e nosso Partido cometeram erros gravíssimos, entre os quais destacamos:

i/a ênfase em “comparar legados e entregas”, quando o certo seria e segue sendo disputar o futuro;

ii/a subestimação da força dos inimigos, que chegou ao ponto de se planejar a campanha presidencial acreditando que a disputa terminaria no primeiro turno. Esta crença em uma vitória fácil desmobilizou e, na prática, contribuiu para a extrema-direita terminar o primeiro turno na nossa frente;

iii/a ausência de candidaturas petistas a governador no RS e RJ, entre outros estados, como Sergipe;

iv/a demora em definir a candidatura a governador em MG;

v/a falta de vontade de vencer no estado de SP, com uma campanha para governador que parecia satisfeita em “cumprir tabela”;

vi/a ausência de materiais da campanha Lula, ao mesmo tempo que grande parte dos dirigentes concentrava seus esforço nas campanhas proporcionais. A verdade é que, no primeiro turno, boa parte das candidaturas proporcionais usou o nome de Lula, mas não fez a campanha por Lula. O mesmo se repetiu no caso de inúmeras candidaturas majoritárias;

vii/a incompetência de parte da direção nacional do Partido, cuja presidência ocupava - no primeiro turno - a coordenação geral da campanha.

Os erros supracitados – e outros tantos – não explicam o segundo turno em si, mas explicam em grande medida o fato do Miliciano ter iniciado o segundo turno na nossa frente.

No segundo turno, alguns daqueles erros não foram e nem tinham como ser totalmente corrigidos. 

O mais grave desses erros é a política fiscal e monetária, consubstanciada nos limites impostos pelo Marco Fiscal e na taxa de juros estabelecida pelo Banco Central. Foram e seguem sendo estas duas variáveis que explicam, em grande medida, o endividamento do povo, a inflação e a insatisfação para conosco de parte da população, fatos que foram demagogicamente explorados por nossos inimigos.

No segundo turno, Lula adotou uma série de medidas - entre as quais destacamos a correção no bolsa família, o anúncio do valor do salário mínimo e o fim das BETs - com as quais buscamos reduzir os danos. Todas essas medidas seguem na contramão do Marco Fiscal. Vale dizer que a adoção daquelas medidas, em si mesma, comprovou que havia espaço para fazer mais e melhor do que fizemos ao longo de três anos e meio. 

A verdade é que a política monetária e fiscal, denominada como "austericida" pelo Diretório Nacional do PT anterior ao atual, quase nos derrotou. Apesar disso, o atual ministro da Fazenda, senhor Durigan, deu várias declarações, depois do segundo turno, insistindo no ajuste fiscal.

Outros erros cometidos pelo governo, pelo Partido e pela campanha foram parcialmente corrigidos no segundo turno. 

É importante destacar que essas correções - entre as quais se destacam o deslocamento do presidente nacional do PT para uma posição coadjuvante e a promoção de Janones para a posição de "general" das redes - revelam, mais do que a incompetência desta ou daquela pessoa, os limites e a incapacidade do “modo de funcionamento partidário” que foi reafirmado no PED 2025 e predomina nas instâncias partidárias, a começar pelo Diretório Nacional do Partido.

Um grande exemplo disso: a extrema-direita venceu pela terceira vez seguida - em 2018, em 2022 e em 2026 - as eleições presidenciais na cidade de Maricá (RJ), cidade governada com abundantes recursos financeiros e cujo prefeito foi pessoalmente responsável por grande parte dos votos que elegeram o atual presidente nacional do PT e parte expressiva do atual Diretório Nacional do PT. 

Outro exemplo: embora todos os integrantes do Diretório Nacional soubessem da importância da guerrilha digital, embora houvesse iniciativas em curso tentando dar conta disto, foi em boa medida graças ao deputado Janones que se construiu uma ferramenta para travar com êxito parcial a batalha das redes, animando a militância, criando identidade, pertencimento e condições para avançar na mobilização digital dominada pela extrema direita, com o objetivo comum de reeleger Lula presidente.

Nos referimos a êxito parcial porque há limites estruturais no tipo de política que é possível de fazer nas chamadas redes sociais controladas por empresários privados estrangeiros, vinculados à extrema direita. O algoritmo não é neutro, os alcances e os preços das postagens dependem da ideologia do freguês.

Além disso, as redes estimulam um formato de debate que é mais favorável à direita do que à esquerda. O que, aliás, ajuda a compreender o adoecimento mental em grande escala e a exaustão psíquica presente nos que se engajaram no "exército".

Vale dizer, entretanto, que a adesão em massa ao "exército" demonstra que há um grande número de pessoas que compreenderam, ainda que implicitamente, que estamos "em tempos de guerra". Mas como a cúpula de certos partidos de esquerda resiste a compreender isto e, principalmente, resiste a agi de maneira consequente com isto, o resultado é que as pessoas aceitam ser comandados por quem está à disposição.

Seja como for, no segundo turno a campanha mudou de atitude frente aos crimes eleitorais em grande escala, cometidos através da compra de votos, das “granjas de bots” e das “fazendas de conteúdo”, crimes que trazem as digitais de empresas e agências de inteligência estrangeiras, formais e informais. No segundo turno, nossa campanha subiu o tom contra o papel nefasto da grande mídia e das big techs, que entretanto seguem empenhadas em uma operação permanente de desgaste contra o PT e contra Lula. Motivo pelo qual devemos reiterar que conseguimos dobrar a Meta, mas precisamos mais do que isso: precisamos expulsar essas empresas do Brasil e construir uma estrutura digital sob controle nacional, pública e social.

Enquanto isso não ocorre, nosso combate nas redes, mesmo quando é taticamente exitoso, continuará sendo estrategicamente defensivo. Motivo pelo qual foi acertado priorizar a mobilização das ruas e o contato corpo a corpo, sem os quais, aliás, as redes não teriam tido sucesso.

As ruas foram decisivas, também, na superação do derrotismo que tomou conta de parte das pessoas, especialmente quando saiu o resultado do primeiro turno. Muita vezes este derrotismo veio acompanhado de argumentos que hoje todos sabemos ser falsos, mas que na época eram apresentados como se fosse verdades científicas.

Por exemplo, os que diziam que "nunca houve uma virada no segundo turno", esquecendo que nunca tinha havido um operário presidente, até elegermos Lula; que nunca tinha havido uma mulher presidenta, até elegermos Dilma; que nunca tinha acontecido de um presidente não conseguir a reeleição, até Lula vencer o Cavernícola, em 2022. O argumento que começa com "nunca" é essencialmente conservador. Mesmo assim, muita gente de esquerda o aceitou como verdadeiro.

Outro exemplo veio dos que diziam que "quando um governo é mal avaliado, o governante não consegue a reeleição". Para reforçar o caráter supostamente científico desta afirmação, alguns usavam o termo "incumbente", versão aportuguesada de uma palavra em inglês. Este argumento afetou pesadamente aqueles que acreditavam que Lula seria eleito graças ao legado e às entregas. Mas a vida demonstrou que um governo pode ser mal avaliado - devido, principalmente, a seus erros políticos e à uma política econômica equivocada - e mesmo assim ser vitorioso, graças à luta política.

Entre os derrotistas, outro argumento foi o de que “com esse Congresso que foi eleito, Lula não vai conseguir governar”, como se o atual Congresso fosse de esquerda, honesto e republicano. O atual Congresso não é nada disso, mas ainda assim conseguimos governar. E a derrota da escala 6x1 demonstrou, mais uma vez, que é possível derrotar a maioria de direita que controla o Congresso nacional.

Um outro "argumento" foi o de que teria havido um “tsunami” de votos a favor da extrema-direita. Os dados não comprovam isso. Nos segundos turnos de 2018, 2022 e 2026, os cavernícolas conseguiram, respectivamente, 57, 58 e 59 milhões de votos. Nunca houve “tsunami”, termo inventado para nos intimidar e nos paralisar.

Contribuíram para o derrotismo, também, as pesquisas. No balanço do primeiro turno, nós da AE dissemos que "devemos nos vacinar contra o impacto das pesquisas negativas, mas também contra o efeito anestésico das pesquisas positivas". A esse respeito, vale citar o aspecto deletério da imensa maioria dos institutos de pesquisa, inclusive do DataFolha, que no sábado 24 de outubro divulgou uma pesquisa apostando na nossa derrota. Muito mais deletéria, entretanto, é a influência que estas pesquisas exercem sobre parte de nossas direções, gerando ondas imotivadas de euforia e desespero.É importante destacar que, ao mesmo tempo que nas direções, mandatários e intelectuais, muita gente que se deixou paralisar, na base militante e na classe trabalhadora prevaleceu outra posição: o combate orientado pela certeza da vitória.

Foi este espírito derrotista que levou pelo menos um alto dirigente a defender, no final da tarde de 25 de outubro, a suspensão do processo eleitoral e a convocação de novas eleições, na semana seguinte. Pensamos que isto também contribuiu para a decisão de entrar na justiça pedindo prorrogação do prazo de votação. Embora totalmente correta no mérito, tendo em vista o conluio criminoso entre certos prefeitos e empresas de ônibus, a medida foi inócua. Poucas pessoas (entre 5 a 30 mil) votaram durante a prorrogação que, na ampla maioria dos casos, nem mesmo chegou a ocorrer. A realidade, como ficou demonstrado pela apuração, é que às 17h de 25 de outubro já havíamos vencido.

As ruas derrotaram, não apenas o inimigo, mas também o derrotismo. No segundo turno mostramos que era possível organizar uma campanha militante, 24 horas por dia, 7 dias por semana, até as 17h do dia 25 de outubro, campanha que deu visibilidade para Lula 13 e que nos permitiu dialogar com a maioria do povo brasileiro, nas ruas e nas redes, nas redes e nas ruas.

No segundo turno, organizamos melhor - mesmo que com atrasos e deficiências - a produção de material. Ao mesmo tempo, a militância fez parte de seu próprio material de campanha.

A mobilização das ruas e o contato corpo-a-corpo foram imprescindíveis para “furar a bolha”  e conversar com as mais amplas camadas do povo, com argumentos e linguagens que dialogavam distintamente com diferentes públicos e classes sociais, especialmente com os setores sociais que, ao fim e ao cabo, nos deram a vitória: os trabalhadores de menor salário, as mulheres, os negros e negras, a juventude, os idosos e o povo de coração nordestino, inclusive aquele que habita o sudeste do país e que por ventura se absteve, votou branco, nulo ou até no cavernícola, corrupto, fascista e miliciano candidato da extrema direita.

Foi principalmente desse eleitorado, que não votou em nenhuma candidatura presidencial no primeiro turno, que vieram os votos que nos levaram à vitória. Por isso mesmo, destacamos a importância que teve, na conquista de nosso eleitorado, a luta pelo fim da escala 6x1 e de outros temas de interesse da classe trabalhadora. 

A mobilização das ruas - em grande medida, feita por pessoas que se identificam com o Partido dos Trabalhadores - em alguns estados e cidades foi convocado e organizada, ao menos em parte, pelas direções partidárias. Mas em outras cidades e estados, a mobilização da própria base petista atropelou a inatividade e a burocratização das direções. Nesses casos, felizmente, a classe trabalhadora não pediu licença para defender Lula e o próprio PT, contra dirigentes que não merecem este nome, revelando que um dos desafios que teremos pela frente é reconstruir o PT em inúmeras cidades onde, na ausência de contraponto, quem manda é a extrema-direita sustentada pelo agronegócio.

Na resolução aprovada pela direção nacional da AE, ao término do primeiro turno, "para conquistarmos mais 7 milhões de votos, é decisivo recuperar o espaço da esquerda nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais". 

Isso foi feito: com limitações maiores ou menores, reconquistamos votos de quem já votara em nós em 2022 ou que tinha potencial de votar, tarefas que se demonstraram, para citar nosso texto de 8 de outubro, "totalmente possíveis se fizermos agora o que já podíamos ter feito, mas em parte não fizemos, no primeiro turno". Isso vale para a votação da redução da escala 6x1, bem como para outras medidas que foram adotadas no segundo turno: tudo isto deveria ter sido feito no primeiro turno e, em vários casos, nos primeiros anos do terceiro mandato e não nos últimos meses;

Acertamos também, no segundo turno, em fazer o que foi dito com todas as palavras no já citado documento em que a direção nacional da AE avaliou o primeiro turno: "ter um discurso focado na defesa e construção do futuro do Brasil (...) falar das reformas estruturais que mudem nossa sociedade e nosso lugar no mundo, garantindo soberania, democracia, bem-estar, meio ambiente e desenvolvimento. Mas (...) antes de mais nada, tomar medidas imediatas e urgentes para melhor a vida do povo. Destacamos, a respeito, os seguintes temas: baixar o preço dos alimentos, libertar o povo do endividamento e dos juros altos, melhorar os serviços públicos (com destaque para saúde, educação, transporte, passe livre e segurança). A superação do projeto racista e antifeminista da extrema-direita deve caminhar lado a lado com a centralidade das mulheres e das negras e negros na transformação do país, assegurando que a autonomia econômica, as políticas de cuidado, a reparação histórica e o enfrentamento rigoroso à violência de gênero e racial estejam no centro do orçamento do Estado e da luta da classe trabalhadora. Nesta mesma perspectiva, o fim da escala 6×1 é parte estruturante de uma vida melhor para as maiorias do povo, uma política civilizatória segundo a qual devemos trabalhar para viver e não viver para trabalhar. O governo deve tomar uma iniciativa prática nesse sentido e Lula deve dar todo o destaque para o tema na campanha e nos debates. (...) a “comparação de legados” e o “medo dos criminosos” não devem ser o aspecto central de nosso diálogo. O central é o futuro. Mas isso não significa baixar o tom. Pelo contrário, é hora de polarização sem trégua, para derrotar o crime, as milícias, a Faria Lima, os vendilhões do templo, os feminicidas, os racistas, os fundamentalistas, os negacionistas e -acima de tudo – os imperialistas, os golpistas e os traidores da pátria. Nossa campanha deve denunciar, desmontar e desmoralizar a candidatura da extrema-direita, lembrando que um governo ultraliberal beneficiará somente o agronegócio, as mineradoras, o capital financeiro e os Estados Unidos, prejudicando fortemente o povo trabalhador, as mulheres, os negros e negras, a juventude".

Por quais motivos tudo isso não foi feito antes? Em parte por erros políticos, em parte por erros organizativos, em parte porque grande parte de nossas lideranças priorizou, no primeiro turno, as campanhas proporcionais. Este tema precisa, também, ser enfrentando. Se não houver voto em lista, se as eleições continuarem sendo um festival de canibalismo, será cada vez mais difícil enfrentarmos com sucesso as campanhas majoritárias. Neste sentido, é preciso ficar atento para o debate sobre a reforma politica eleitoral que está em curso, neste momento, no Congresso Nacional. Também é necessário reabrir o debate sobre a Federação, pois mais uma vez os resultados indicam que a Federação não é o melhor caminho para institucionalizar as coalizões eleitorais.

Por fim, mas não menos importante do que tudo que foi dito até agora, o segundo turno demonstrou que a esquerda como um todo e o PT em particular possuem imensa força e influência na juventude. Um dos motivos que explica isso é o esforço que nossos governos fizeram, para garantir o acesso de jovens de origem popular, na educação em geral e nas Universidades em particular. Um grande desafio é como organizar e manter mobilizada toda esta energia jovem.

Passada a eleição, devemos trabalhar para que as direções estaduais, municipais e setoriais do PT:

i/debatam e aprovem balanços do processo eleitoral, com análises focadas nas respectivas realidades locais;

ii/vinculem o balanço do processo, com o debate sobre os desafios futuros, tanto do governo Lula, quanto de nossos governos estaduais e municipais, nossos mandatos parlamentares, os movimentos sociais e organizações populares que dirigimos ou influenciamos;

iii/convidem, para participar do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, a militância que se aproximou de nós durante o processo eleitoral.

Além disso, devemos apoiar as mobilizações convocadas para o dia 20 de novembro; e devem organizar mobilizações na data da diplomação de Lula e na data da posse de Lula.

E devemos trabalhar para que o Partido convoque um novo congresso partidário, com a eleição de delegados marcada para março de 2027. Cabe lembrar que o que está previsto é um congresso com os delegados eleitos no PED 2025. Entendemos que o correto é realizar nova eleição de delegados, seja porque os mandatos dos delegados eleitos em 2025 não são eternos, seja para permitir que os novos filiados participem, seja para garantir que as decisões que venham a ser tomadas sejam efetivamente expressão do que pensam hoje as bases do Partido.

Neste Congresso, vamos defender grandes mudanças no estatuto partidário, assim como vamos defender que o Partido reafirme seu histórico programa democrático-popular e socialista.

Plano de trabalho

Nas batalhas que virão, nossas chances de vencer serão maiores se tivermos, além de uma linha política correta, uma direção partidária que funcione.

O tema da direção deveria ser relativamente simples de resolver: quem não deu conta do recado, deveria “pedir para sair”, facilitando as alterações que são inevitáveis, urgentes e que precisam ser feitas através do velho e bom método democrático, que começa pela realização de um congresso partidário, com delegados eleitos agora.

Mas, como sabemos, há vários obstáculos para que isso ocorra. O principal deles é a tendência de "não mexer em time que está perdendo". Na reunião da executiva nacional do PT, ocorrida no dia 29 de outubro de 2026, vários dirigentes exaltaram o papel da atual direção, confundindo o papel imprescindível da Nação Petista, com o papel sofrível desempenhado por parte da atual direção nacional.

O segundo obstáculo para que ocorra um debate saudável é o ambiente de "guerra civil" existente na tendência Construindo um Novo Brasil (CNB), que paralisa um amplo setor do Partido. Embora as várias alas da CNB defendam posições semelhantes, do ponto de vista programático, estratégico e tático, elas se digladiam brutalmente, criando um ambiente em que o debate político em profundidade é atravessado por questões de outra natureza.

O terceiro obstáculo a um processo de debate em profundidade é a atitude muitas vezes passiva e em alguns casos abertamente cúmplice adotada por outros setores do Partido. Ao invés de trabalhar para constituir um pólo alternativo - que liberte o Partido, hoje controlado por um "partido dentro do partido" chamado CNB - estes setores priorizam se aliar com as diferentes alas da CNB.

Da nossa parte, encaramos assim o problema: um dos grandes paradoxos revelados por esta eleição é, de um lado, a imensa força e radicalidade da Nação Petista; de outro lado, a burocratização e acomodação de parte importante da estrutura oficial do Partido. Este paradoxo, se não for resolvido, pode levar o PT a uma crise sem volta. Ganhamos no dia 25 de outubro uma nova chance para tentar resolver este problema. Mas ele não será resolvido pela CNB. Como resolver o problema? Isto é um dos temas que precisa ser tratado, não apenas no XI Congresso, mas no debate aberto junto a toda a Nação Petista.

E os ponto de partida deste debate devem ser os seguintes: não podemos abaixar a guarda frente a extrema-direita, nem aos setores da direita tradicional que nos querem derrotar ou domesticar. Não podemos recuar do saldo mais importante deste segundo turno, que foi a mobilização popular. E não podemos repetir, em 2026, o erro cometido em 2014, quando derrotamos a direita para, logo em seguida, implementar uma política econômica ortodoxa.

É importante destacar que a política adotada em 2015, bem como a defesa que setores da esquerda fazem do ajuste fiscal hoje. decorrem da influência do social-liberalismo em nossas fileiras. Nesta como em outras questões, o Partido precisa retomar o debate ideológico e programático.

Orientamos nossas direções estaduais, municipais e setoriais a:

i/debater e aprovar balanços do processo eleitoral, com análises focadas nas respectivas realidades locais. Chamamos a atenção, desde já, para o fato de que no Nordeste do país, terminamos o primeiro turno elegendo em 2026 o mesmo número de deputados federais que havíamos conseguido eleger em 2022;

ii/vincular o balanço do processo, com o debate sobre os desafios futuros, tanto do governo Lula, quanto de nossos governos estaduais e municipais, nossos mandatos parlamentares, os movimentos sociais e organizações populares que dirigimos ou influenciamos. Destacamos desde já, no caso do governo federal, a necessidade do Partido influenciar na composição do governo, inclusive para garantir que o próximo ministro da Fazenda seja não um social-liberal fissurado pela necessidade do ajuste e equilíbrio fiscal, mas pelo menos um desenvolvimentista comprometido com melhorar a qualidade de vida do povo brasileiro;

iii/convidar, para participar deste processo de balanço e definição de tarefas, aqueles setores do Partido que estejam se demonstrando dispostos a tomar as medidas que precisam ser tomadas, para que possamos dar conta dos desafios futuros;

iv/convidar, para integrar tanto o PT, quanto a AE, a militância que se aproximou de nós durante o processo eleitoral;

v/implementar, com os ajustes necessários, o plano organizativo aprovado no X congresso da AE  (  Resolução do X Congresso Nacional da AE | Página 13 ) bem como as medidas de curto prazo detalhadas no Orientação Militante N°545 (08 de outubro 2026) | Página 13

vi/começar a preparar, desde já, a mobilização em defesa da pauta do povo. Esse é o melhor caminho para sustentar o governo Lula, nossos governos estaduais e municipais, bem como para ampliar nossa votação nas eleições de 2028 e 2030.

Eleição da direção nacional e da comissão de ética nacional

A atual direção nacional da AE é composta pelas seguintes pessoas, com as respectivas funções:

Adriana Souza (MG), foi candidata em 2026 e se elegeu deputada estadual; Ana Affonso (RS) foi candidata em 2026; Ana Flávia (RN), secretária de nucleação da JPT nacional e responsável pela agenda de visitas da Dnae às cidades; Damarci Olivi (MS) tesouraria; Daniela Matos (DF), tesouraria adjunta; Eliane Bandeira (RN), acompanhamento Sergipe; Fátima Lima (RJ) acompanhamento dos setoriais nacionais; Gleice Jane (MS) foi candidata em 2026 e se reelegeu deputada estadual; Hilton Faria da Silva (TO), acompanhamento Maranhão; Humberto Amaducci (MS); Ivonete Alves (SE), direção da CNTE e acompanhamento de Pernambuco; Jandyra Uehara (SP) direção nacional da CUT e coordenação sindical nacional da AE, acompanhamento Sergipe; Júlio Quadros (RS), DN e acompanhamento Paraná; Leirson Azevedo (PA); Luiz Boneti (RS), DN; Marcos Jakoby (RS), edição do site, coedição do OM, coedição do Página 13, acompanhamento Santa Catarina; Múcio Magalhães (PE), acompanhamento Goiás; Natália Sena (RN) DN, CEN, coordenação do GTE eleitoral, coedição do podcast, secretaria nacional de formação; Patrick Campos (PE), edição do podcast, acompanhamento Piauí, secretário nacional de organização e candidato a deputado federal ; Suelen Aires Gonçalves (RS), coedição da Esquerda Petista, acompanhamento de Minas Gerais e do Espírito Santo; Valter Pomar (SP), edição do OM, edição do Página 13, edição da Esquerda Petista, acompanhamento dos estados do AM, AC, RR, RO, AL e CE; Wilma dos Reis (DF), licenciada para tratamento de saúde.

A comissão de ética nacional é composta por Jonatas Moreth (DF) e Sophia Mata (RN), tendo como suplentes Izabel Costa (RJ) e Pere Petit (PA). 

Os atuais integrantes da direção devem apresentar um balanço de sua atuação e informar se pretendem permanecer na próxima direção.

A atual direção nacional constituirá uma comissão encarregada de receber as propostas de mudança na Dnae e comissão de ética, apresentando ao XI congresso uma nominata para debate e votação.