quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Cadáver Supremo

Em 2022 e 2023, o STF, o TSE e o governo dos Estados Unidos contribuíram para neutralizar a intentona golpista dos cavernícolas.

Em 2026, o governo dos EUA e o TSE estão presididos por cavernícolas. 

E o noticiário denunciando o envolvimento de Xandão e Gonet no escândalo Master vai, na melhor das hipóteses, paralisar por algum tempo os setores do STF que se opõem à gangue cavernícola.

Logo saberemos quais os efeitos diretamente eleitorais da atual etapa do escândalo. 

Mas uma coisa é certa: o clima de denuncismo (careca, lobista, Dark Horse etc.) cria uma imensa cortina de fumaça, que contribui para encobrir as profundas divergências programáticas entre as candidaturas presidenciais.

Logo saberemos, também, quais serão os desdobramentos político-institucionais imediatos da queda de braço envolvendo Xandão, Gonet e Mendonça, sendo que este último já se demonstrou ser parte do Club dos Amigos do Vorcaro.

A Folha, o Estadão e cavernícola filho pedem o impeachment do ministro que, segundo as acusações, estaria em conluio com o empresário. 

Há quem ache mais provável um péssimo acordo, já que o Master é um escândalo em fase de metástase, motivo pelo qual medidas radicais podem respingar em muita gente fina.

Mas, como não podia deixar de ser, porta-vozes do PT admitem, ao menos em tese, a possibilidade de um impeachment.

Por exemplo: Gleisi Hoffmann, ex-presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores e candidata ao Senado pelo PT do Paraná, afirmou o seguinte: “Eu não vejo problema nenhum em fazer o impeachment e o julgamento de ministro do Supremo. Até porque isso é função do Senado. Se tiver crime, tem que ter”.

Verdade.

Um problema é que é notória a promiscuidade entre ministros do Supremo, grandes empresários, políticos de direita (inclusive alguns abrigados noutros pontos do espectro partidário) e meios de comunicação.

Portanto, para além do que fazer nos casos específicos de Gonet, Mendonça e Xandão, entre outros acusados, cabe discutir o que fazer com o Judiciário.

Infelizmente, o recente Congresso do PT rejeitou uma proposta de resolução a respeito, apresentada pela tendência petista Articulação de Esquerda e defendida em plenário por Natália Sena. 

A rejeição da referida proposta foi liderada, também em plenário, por José Dirceu, que mesmo reconhecendo a procedência do debate e a justeza de pelo menos alguns pontos da proposta, defendeu nada decidir. No que foi apoiado pela maioria dos congressistas.

O argumento implícito foi deixar este tipo de assunto para depois da eleição. 

Como se vê, foi (mais) um erro cometido pelos que parecem não se dar conta - ou pelo menos não querem tirar as devidas consequências - da crise profunda que afeta quase todas as instituições do “Estado democrático da direita”.

Erro similar vem sendo cometido no tema da reforma política. 

As críticas de muita gente, inclusive candidaturas petistas, sobre a distribuição dos recursos do fundo eleitoral dizem respeito, na verdade, a um dos efeitos colaterais de um sistema político profundamente determinado pelo dinheiro, fato que torna cada vez mais verdadeira a denominação “democracia burguesa”.

Ou o PT toma a iniciativa de defender uma reforma global do Estado brasileiro - através de uma Assembleia Constituinte - ou a extrema-direita abrirá o baú da demagogia e do cinismo e vai deitar e rolar. 

O argumento de que seria perigoso mexer nesse vespeiro, nesse momento, não dá conta de algo simples: uma reforma do Estado já está em curso, sem Constituinte, sem povo e contra o povo.

Um bom momento, portanto, para o presidente Edinho lembrar do que já disse sobre sermos antisistema.

A candidatura Lula, nosso futuro governo e o povo brasileiro só têm a ganhar com isso. 

Em resumo, não temos porque ser ingênuos em relação as reais motivações e propósitos do neolavajatismo; mas tampouco devemos sofrer e chorar por cadáver alheio.



terça-feira, 1 de setembro de 2026

Os viúvos da esquerda imaginária

Volta e meia algum "viúvo" me escreve.

Me refiro a militantes que são "viúvos" da supostamente "verdadeira esquerda", aquela que tinha uma militância abnegada e uma linha política correta, que sempre esteve do lado certo da história.

A conversa desses "viúvos" é quase sempre a mesma: pau no PT.

Antigamente eu tinha mais paciência com essa conduta. 

Hoje, depois do golpe e do crescimento da extrema-direita, sobrou pouca paciência, entre outros motivos porque, na maioria dos casos, esse discurso crítico ao PT é diletante, passivo, acomodado.

E, mesmo quando abandona o modo “chá das cinco”, esse criticismo supostamente de esquerda resulta na prática em tentar enfraquecer a única força capaz - neste momento histórico - de derrotar a extrema-direita. A saber, o PT.

Além disso, a maioria desses "viúvos" tem saudade de um partido em grande medida imaginário. 
Afinal, nenhum dos partidos de esquerda que existiram no Brasil, antes do PT, foi a perfeição imaginada pelos viúvos.

Os viúvos contrapõem o PT realmente existente, com seus imensos problemas, a um partido ideal que nunca existiu. 

Nessas condições, é óbvio que o PT não fica bem na foto.

Foi mais ou menos isso que disse - de maneira espero que pouco gentil - a um conhecido. 

Em resposta, esse conhecido me pediu para responder a um questionamento feito por um economista, num programa de rádio.

O questionamento está aqui: 


Volta e meia me convidam a ir nesse programa. 

No passado eu me esforçava para atender aos convites. 

Deixei de me esforçar quando me dei conta que a linha editorial do programa é também a da viuvez. 

No meu caso, a gota d'água veio quando um card do programa foi diagramado de uma forma que, na minha opinião, me atribuía entre aspas uma opinião que não era a minha.

Não passa pela cabeça dos "viúvos" que se possa militar num Partido e, ao mesmo tempo, ser crítico. No fundo, eles raciocinam muito parecido aos setores majoritários de determinados partidos, que confundem o Partido com eles mesmos. E acham que discordar da linha deles, seria discordar do Partido como instituição histórica.

Quanto ao economista em questão, no passado compartilhei com ele não só o PT, mas creio que até a mesma tendência. Mas há tempos ele foi para outras praias e, no passado mais recente, manifestou excessiva tolerância para com Ciro Gomes, quando esse cidadão posava de crítico supostamente de esquerda daquilo que ele e outros chamavam de "lulopetismo".

Entretanto, como argumento é argumento, não importa quem seja o mensageiro, fui assistir a tal pergunta que o economista teria me feito. 

A pergunta é: "o que o Valter Pomar continua fazendo dentro do PT?"

Antes de fazer a pergunta, o referido economista diz mais ou menos o seguinte: "não haverá um novo ciclo de lutas capaz de abrir alternativas se não houver uma nova vanguarda (...) potencialmente o que poderia ser a vanguarda social de uma nova esquerda está hoje subordinada ao PT".

O economista diz também o seguinte: "sem uma nova vanguarda, que tem que se desgrudar do PT, nós não teremos a oportunidade de construir um processo que possa nos apontar novos caminhos. Nesse sentido, a chamada esquerda do PT tem que abrir os olhos. Vai continuar alimentando esse tipo de impostura que está em curso no nosso país já há mais de 30 anos? Já deu tempo de mostrar ao PT que sua experiência histórica se esgotou". 

O economista diz ainda que "o PT deixou de ser um instrumento de luta dos trabalhadores, ainda que agregue essa vanguarda social (...) não haverá um ciclo de lutas capaz de abrir alternativas, conforme ficou claro em 2013, se não houver uma nova vanguarda à altura dos desafios históricos que estão colocados hoje para o nosso país".  

Para ele, essa nova vanguarda tem que "romper com o PT".  Lembrado que muita gente já rompeu com o PT no passado recente, ele afirma que os que romperam com o PT, na sua grande maioria, são "inconsequentes", não "estão à altura dos nossos desafios".

Sobre os setores da esquerda que até hoje romperam com o PT, o economista disse inclusive que "essa esquerda que rompeu com o PT, majoritariamente (tem) falhas de diagnóstico sobre o momento histórico e econômico que estamos vivendo. É uma esquerda que se abriga muito em torno de slogans  anticapitalistas, de superação do capitalismo, de aposta num socialismo abstrato, isso evidentemente não empolga ninguém hoje em dia (...)."

Supondo que ouvi e transcrevi direito, trata-se de uma bela confusão.

Afinal, segundo o economista, desde há 30 anos o PT seria uma impostura. Ou seja, 2026 menos 30, então desde 1996 o PT seria uma "impostura". 

Por qual motivo 1996? Não faço ideia.

O particularmente curioso nesse raciocínio é que, se ele fosse verdadeiro, então toda a história do Brasil, nos últimos anos, teria girado em torno dessa impostura. 

Recomendo ao economista ler O Alienista.

Ao mesmo tempo, o economista critica os que romperam com o PT nos últimos 30 anos.

Eles seriam, em sua maioria, inconsequentes. Até concordo. Mas não concordo que a inconsequência derivaria de serem, supostamente, críticos do capitalismo e defensores do socialismo. Esta opinião do economista, vale dizer, faria sucesso entre os setores mais moderados do próprio PT.

Na minha opinião, a principal inconsequência dos que romperam com o PT não deriva do fato de serem socialistas, mas sim do fato de não compreenderem o papel indispensável de um partido de massas - ao estilo do PT - na luta contra o capitalismo e pelo socialismo no Brasil desta quadra histórica, com sua combinação tão difícil de luta institucional, social e cultural.

É por isso, aliás, que muitos que romperam pela esquerda com o PT, voltam pela direita. Como saíram pelo motivo errado, voltam do jeito errado.

O economista defende que, para a ruptura do PT resultar em algo à altura do que ele deseja, essa ruptura precisaria ser feita por gente consequente. O engraçado é que, como está implícito na fala do economista, os consequentes seriam exatamente os mesmos setores que o economista critica por ainda estarem no PT. 

De fato, somos consequentes. Nisso concordo. 

Isto posto, respondendo a pergunta, que na verdade foi dirigida primeiro a Breno Altman e a João Pedro Stédile.

Estou no PT por 1001 motivos. Neste blog há vários textos em que desenvolvo esses motivos. Vou aqui expor um deles, poético, inspirado num poema do Bertolt Brecht, escrito em 1953 e intitulado A solução.

O poema termina com a seguinte ironia: "Não seria bem mais fácil / Se o governo dissolvesse o povo e / Elegesse um outro?" 

Por analogia: "não seria bem mais fácil, para os viúvos críticos do PT, se eles dissolvessem a classe trabalhadora realmente existente e criassem outra?"

No mundo no qual vive grande parte dos viúvos, isso deve ser fácil de fazer.

Já no mundo em que vive a grande maioria de nós, a tarefa da hora é derrotar a extrema-direita. E não há como fazer isso sem o PT, nem contra o PT.

Desenhando: se queremos mobilizar a classe trabalhadora realmente existente contra a extrema-direita, será preciso estar com o PT e junto do PT.

O resto é tertúlia chá das cinco.



Desabafo

Escrevo isso depois de saber das opiniões de um renomado especialista em pesquisas. 

Deste informe, deduzo que há coisas (e pessoas) que não mudam.

Antes do início, otimismo desenfreado.

No meio, pessimismo exagerado.

Nos dois casos, o efeito é a paralisia.

Antes, porque supostamente nada precisaria ser feito.

No meio, porque supostamente nada adiantaria ser feito.

E, como se não bastasse, sempre tem algum “especialista” para dar ares de ciência àqueles comportamentos polares.

Tá difícil? 

Tá!

Vai ficar ainda mais difícil, antes de melhorar?

Com certeza!

Podíamos estar melhor, se muitas coisas tivessem sido pensadas e preparadas diferente do que foram? 

Óbvio. 

Aliás, tentamos, mas é difícil convencer quem deseja acreditar que o time já ganhou, antes mesmo da partida ter começado.

Mas qual a novidade?

Nenhuma!

Está acontecendo, agora, algo parecido ao que já ocorreu em outras eleições. 

Claro que algum dia pode terminar mal. 

Mas nosso dever é o de fazer absolutamente tudo para que, ao final, saíamos vencedores.

Nossa grande “sorte” é que contamos com a inestimável contribuição do “instinto de classe” e do “entusiasmo na reta final” de dezenas de milhões de trabalhadoras e trabalhadores.

Isto posto, algumas sugestões para quem não gosta de ficar chorando o leite derramado.

Primeira sugestão: não dar palanque nem cabimento para quem acha que “as chances de vitória são as piores possíveis” etc e tal.

Na boa: se é que algum dia foi, agora certamente passou a hora deste tipo de “conversa”. 

Numa guerra, derrotismo é arma do inimigo.

A hora é de engatilhar, atirar, engatilhar de novo, atirar de novo, engatilhar mais uma vez e seguir assim até vencermos.

Derrotistas devem ser convidados a sabotar noutro lugar.

Pelo mesmo motivo. não devemos dar ouvidos para quem, a essa altura do campeonato, fica pondo defeito em nossas candidaturas.

Temos defeitos? Claro.

Mas a pior de nossas candidaturas é melhor que a súcia dos nossos inimigos.

Segunda sugestão: existem centenas de milhares de pessoas esperando ser convocadas para fazer campanha.

A maioria dessas pessoas não vai se engajar nas campanha proporcionais. 

Mas está disposta a fazer campanha para Lula e, em muitos casos, também para as demais candidaturas majoritárias.

As direções da campanha e do Partido precisam criar os meios para engajar essas pessoas.

Mas para isso precisa ter direção funcionando, se reunindo, ajustando a linha política, organizando cada batalha, dando o exemplo.

Explicando: cabe aos dirigentes organizar a campanha como um todo, não apenas a de suas próprias candidaturas proporcionais.

Terceira sugestão: ajustar a linha política.

O eleitorado que está em disputa não será convencido, principalmente, pelas nossas “entregas”, nem pelo medo da volta dos cavernícolas. 

O principal argumento capaz de conquistar mais eleitores não diz respeito ao passado, nem ao presente. 

O nosso melhor argumento, capaz de conquistar parte importante de quem não escolheu até agora, diz respeito ao futuro: trata-se de disputar os sonhos coletivos da classe trabalhadora, acerca do Brasil em que queremos viver nas próximas décadas.

Por isso mesmo, não podemos dar atenção a quem defende “estadualizar” as campanhas. 

Óbvio que numa campanha a governo e legislativos, devemos falar de temas estaduais.

Um exemplo da aldeia: precisamos defender a reestatização da Sabesp (empresa de saneamento privatizada pelo cavernícola que hoje desgoverna São Paulo).

Outro exemplo: precisamos tomar medidas que tirem São Paulo da atual posição, de estado campeão dos feminicídios.

Mas devemos tratar destes e de outros temas em total conexão com a campanha presidencial e com o futuro do Brasil.

Tampouco devemos dar atenção a quem defende salvar as elites delas mesmas, por exemplo fazendo juras fiscalistas ou arrastando a asa para um suposto “agro do bem”

Novamente um exemplo da aldeia: há um poderoso bloco de classe fazendo de tudo para dar a vitória, no primeiro turno, para o desgovernador cavernícola.

O único jeito de derrotar esta aliança pouco santa é mobilizando o povo, a plebe, os de baixo, os excluídos, os desvalidos, as camadas mais lascadas e “danadas” da classe trabalhadora.

Isto posto: até o momento, tudo indica que teremos segundo turno para a presidência.

Logo, quanto mais deputados, senadores e governadores elegermos no primeiro turno ou levarmos ao segundo turno, melhor.

Isso é particularmente verdadeiro no caso dos estados de São Paulo e Minas Gerais.

Nestes dois e em todos os outros casos, não tem mágica: só muita campanha salva!

Cabe aos nossos dirigentes e candidatos - por exemplo, Patrus e Haddad - dar o exemplo.

E, se as coordenações e direções não comparecerem em tempo hábil, façamos nós a coisa certa: guerra total até a vitória final!

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

“A pior quadra de nossa história”

 “A pior quadra da nossa história”

Volta e meia escuto essa frase. Quando posso, contesto. Era o que ia fazer, hoje, no encerramento do debate sobre conjuntura realizado no XIX Congresso do SINTESE. Mas o tempo disponível me obrigou a escrever aqui o que ia dizer lá.

Se por “nossa história” estamos nos referindo a história de vida dos que começaram a militar no final dos anos 1970 ou início dos anos 1980, bem como aos que vieram depois disso, talvez faça algum sentido dizer que esta é “a pior quadra”, embora nesse caso seja prudente lembrar que o muito pior (mas também o melhor) provavelmente ainda estejam por vir.

Mas, se pensarmos na história vivida por nossos pais, avós e bisavós, não acho que esta seja - ao menos por enquanto - “a pior quadra da nossa história”. Vide as duas guerras mundiais, a ascensão do nazifascismo e o ciclo de ditaduras na América Latina.

A crença de que vivemos na “pior quadra”, mesmo que não seja este o propósito de quem usa a expressão, vira muitas vezes um “argumento” subconsciente ideal para quem atua pouco ou quase nada. Postura muito diferente daquela adotada por dezenas de milhões de homens e mulheres de esquerda que se mobilizaram ativamente, entre 1914 e 1945, tornando possível o que viria logo em seguida: a ampliação do “campo socialista”, a expansão do bem-estar social e das liberdades democráticas, a descolonização e o desenvolvimentismo.

Deixo aos historiadores do futuro a decisão sobre como classificar “nossa” quadra da história. O que tenho certeza é que, a preços de hoje, devemos lutar não apenas para defender os espaços conquistados, mas também para viabilizar mudanças estruturais. 

Nossa resistência só terá êxito, se for também ofensiva. Do contrário, iremos de recuo em recuo, de concessão em concessão, até o contrário da “vitória final”. Daí a importância de bandeiras como a luta pelo fim da escala 6x1 e da redução da jornada de trabalho.

Por isso, também, não podemos aceitar a lógica dos que prometem combinar um salto no desenvolvimento com a manutenção do “arcabouço fiscal”. O que eles estão propondo é pagar a conta dos investimentos produtivos, cortando no orçamento hoje destinado, por exemplo, aos pisos constitucionais e à previdência. Ou seja, mais um ciclo de meia modernização, muito conservadora.

Precisamos resistir, avançando. Precisamos “mudar mais”. Queremos e estamos prontos para mais.

Claro que, pensando em termos de médio prazo, só avançaremos de forma “sustentável” se a classe trabalhadora ampliar significativamente seus níveis de consciência, mobilização e organização. Ganhar uma eleição presidencial com cerca de 60 milhões de votos, mas com menos de 10 milhões de sindicalizados e um partido com menos de 500 mil filiados ativos, é a fórmula certa para a frustração, parcial ou total.

Por estes e por outros motivos, o que a “quadra histórica” exige de nós, além da política correta e da proverbial coragem, é muito suor, muita saliva, muito trabalho cotidiano, muito doação voluntária de nosso tempo de vida em favor da construção do Partido, da revolução e do socialismo.

Se tivermos um pouco de sorte, a dialética fará com que a supostamente “pior quadra” se converta na ante-sala de mais uma primavera dos povos. Se tivermos azar, pelo menos teremos usado bem o tempo que nos foi dado viver. 

Dito isso, voltaremos logo mais, quando já estaremos podendo gozar das prioridades sexagenárias. A que ponto chegamos!

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Texto de 1983

O texto abaixo foi escrito em julho de 1983, ha 43 anos portanto. A versão abaixo não foi revisada e contém os erros do original, mais aqueles oriundos da digitalização e digitação. O estilo do texto e parte de suas conclusões são representativos do tipo de debate estratégico feito no início da década de 1980, quando a ditadura militar estava nos finalmente.

A proposta de um governo democrático operário e popular

 

Já há algum tempo de quando foi lançada, a proposta de um “Governo Democrático Operário e Popular” ainda não se encontra nem o suficiente difundida nem o suficiente compreendida, de forma que se torna quase que impossível realizar a sua propaganda entre os setores de vanguarda da classe operária e das massas populares.


A intenção deste texto é ser uma síntese da proposta do “CDOP”, que possa servir de base a discussões mais amplas, bem como participar do debate que já se trava em torno do significado preciso da proposta. 


Desta forma, não há a preocupação de esgotar o assunto nem em aprofundar uma série de questões aqui tratadas.


1. O que faz necessária uma proposta de governo

A crise que a dominação burguesa atravessa atualmente no Brasil tem dois aspectos: por um lado é uma crise estrutural do capitalismo monopolista dependente, conjugada com a crise por que passa o capitalismo mundialmente. Por outro lado, é uma crise política da forma que assumiu a dominação burguesa no país nestes últimos anos, a forma ditatorial-militar.


Diante desta crise, acentuam-se os conflitos de classe, bem como vão ficando mais claras as propostas de cada setor da sociedade brasileira para sua solução e, principalmente, para a sociedade brasileira como um todo. Está claro, por exemplo, para os setores operários e populares que esta crise só será solucionada em prol de seus interesses se houver uma profunda modificação na estrutura social do país. E que essa modificação envolve uma solução política, em que o poder passe a ser exercido pelas massas populares.


Ademais, os programas de cada classe e setor de classe tendem a se delinear melhor. A classe operária não se furta a possuir um programa. E, dentro desse programa, uma proposta mais geral, estratégica, para a sociedade brasileira, que leve em conta o estágio atual de desenvolvimento desta sociedade, suas relações internas e externas, os conflitos de classe que se fazem presentes, objetivando sua luta por alcançar o socialismo e o comunismo.


Essa proposta estratégica da classe operária é justamente a de transformações radicais na sociedade brasileira, que levem em conta os interesses não só dela como também os da pequena burguesia urbana e do campesinato. Que visem destruir o poder do capital monopolista, da grande burguesia.


Efetuar estas transformações - que a nosso ver se resumem em três grandes eixos: as tarefas anti-monopolistas, anti-imperialistas e anti-latifundiárias - só pode ser tarefa de um governo revolucionário comprometido com tais transformações. Por um governo composta pelas três classes interessadas numa revolução deste tipo. Em outras palavras, por um governo democrático, operário e popular.


 Democráticoporque realizará tarefas democrático-burguesas; operário, porque conterá elementos socialistas; popular, porque terá necessariamente que contar com a participação ativa das amplas massas da população.


Possuir uma proposta deste tipo é necessário à classe operária na medida em que só desta forma ela pode ter um referencial claro na sua luta contra a ditadura militar ou contra qualquer outra forma que assuma a dominação da grande burguesia no Brasil.


2. O desenvolvimento da dominação burguesa e as diversas classes da sociedade brasileira

Em primeiro lugar, a ascensão da burguesia à situação de classe dominante no Brasil não se deu através de um processo revolucionário. Não tivemos algo semelhante à revolução francesa ou à guerra de independência norte-americana. Ao contrário, “a burguesia brasileira nasce(u) do entesouramento praticado pelos latifundiários e grandes comerciantes (...) sob a proteção do Estado” (1), constitui um setor monopolista acentuando seus traços reacionários e conservadores e alcança a situação de classe dominante por um processo não-revolucionário.


Apesar disso, o processo de desenvolvimento do capitalismo, em especial nestes ano de ditadura-militar, se marcou por um acelerado desenvolvimento das forças produtivas, tanto intensivamente (ou seja, através da penetração de novos equipamentos, da instalação de grandes fábricas, da concentração e mudança de composição do capital) como em extensão (penetração das relações capitalistas nas áreas atrasadas do país, absorção de relações não-capitalistas por aquelas, etc…). Esse desenvolvimento, apesar de não ter se esgotado, criou uma base material já capaz de comportar transformações socialistas, bem como criou a classe capaz de levar adiante tais transformações.


Em terceiro lugar, apesar desse desenvolvimento e penetração do capitalismo, “o Brasil ainda é um país pequeno burguês, mesmo dominado pelo setor monopolista da burguesia” (2). E as camadas pequeno-burguesas (a pequena burguesia urbana e o campesinato) que se veem permanentemente exploradas e ameaçadas de proletarização pelo grande capital, sendo forçadas a lutar contra este, continuam a objetivar uma via diferente para o desenvolvimento capitalista no Brasil, uma via capitalista-democrática.


Uma luta, portanto, que não é socialista, apesar dos mitos que se acumularam na teoria marxista acerca do “socialismo” embutido na luta dos camponeses. 


No Brasil, a luta dos camponeses e da pequena burguesia urbana só adquire tons socialistas porque é uma luta capitalista que se volta contra o capitalismo - apenas que é anti-capitalista monopolista e não anticapitalista em geral, já que tem por objetivo garantir o desenvolvimento da pequena e média propriedades capitalistas.


Em quarto lugar, a burguesia brasileira (3) não consegue - como aliás nunca conseguiu em toda sua história - se colocar como classe revolucionária, que luta por uma via democrática de desenvolvimento capitalista para o Brasil, por uma via diversa da reacionária e conservadora hoje predominante. Só há uma classe dominante no país, a burguesia, e todos os seus setores estão igualmente comprometidos com o domínio do capital monopolista, com a via conservadora de desenvolvimento do capitalismo no Brasil (4).


A classe operária, por sua vez, tem no capital monopolista o inimigo de todas as transformações radicais que ela almeja para a sociedade brasileira. E na sua luta pelo socialismo ela tem de ter em vista que será necessário que determinadas tarefas históricas, como a que envolve a questão agrária, tenham sido resolvidas, ou pela via conservadora ou pela via democrática do desenvolvimento do capitalismo. Bem como que será necessária uma base social bastante ampla para a realização da revolução. 


É em função destes dois elementos que ela se alia a luta da pequena burguesia urbana e do campesinato, tendo por inimigo principal o capital monopolista e sua dominação, visando a derrubada deste domínio, a consecução das tarefas anti-monopolistas, anti-latifundiárias e anti-imperialistas e a instauração de um governo democrático operário e popular.


A classe operária deve buscar dirigir as demais classes revolucionárias por entender ser esta a única garantia da consequência da revolução - entendendo que esta direção tem de ser obtida na luta, não estando concedida “de bandeja” ao proletariado.


3. A etapa da revolução no Brasil

A revolução no Brasil, suas atuais tarefas, são determinadas objetivamente pelo desenvolvimento da sociedade brasileira, pela base material criada pelo capitalismo para sua própria destruição, pelas contradições de classe existentes no seu interior e pelas relações dessa sociedade com as demais.


O Brasil já é um país capitalista desenvolvido, já possui uma sólida base material capitalista. Essa base material se desenvolveu de tal forma que deu origem a um capitalismo monopolista, porém estreitamente dependente e vinculado ao imperialismo. Por outro lado, teve surgimento no interior de um conflito entre as duas vias de desenvolvimento de capitalismo no Brasil, a via reacionária e conservadora e a via democrática (5). 


A via reacionária, que hoje predomina e que teve sua expressão mais acabada no golpe de 1964 e em seus atos subsequentes, incorporou  os elementos mais atrasados da economia brasileira, ao invés de destruí-los revolucionariamente o que fez com que se mantivesse até hoje a necessidade de se efetivarem determinadas tarefas democrático-burguesas.


Por outro lado, da mesma forma como ainda se fazem necessárias e imprescindíveis as tarefas democrático-burguesas na atual etapa da revolução brasileira, a base material da sociedade brasileira, o acelerado desenvolvimento das forças produtivas nesses últimos anos, a existência de uma classe operária bastante concentrada - todos estes fatores permitem a classe operária lutar desde já por ir adiante rumo a revolução socialista, buscando estatizar e colocar sob seu controle o grande capital. 


No entanto, estas tarefas “socialistas” estarão, de certa forma e ao menos de início, em função de uma série de tarefas democrático-burguesas de revolução, o que reduzirá sobremaneira o seu alcance.


De uma forma geral, podemos dizer que a revolução no Brasil já penetrou em sua etapa socialista, porém ainda não possuindo este caráter. Que a revolução no Brasil, nesta etapa, ainda tem tarefas democrático-burguesas que serão, muito provavelmente, o encerramento do ciclo de desenvolvimento capitalista no Brasil e a criação, de forma ineludível, das condições necessárias à efetivação da revolução socialista.


4. O “GDOP” e o socialismo

O Governo Democrático Operário e Popular não será ainda um governo socialista. Suas principais tarefas são democrático-burguesas, e mesmo as tarefas ditas “socialistas” da revolução se colocarão muito em função daquelas. Bem como sua composição de classe é essencialmente democriático-revolucionário.


Estão enganados os que pensam que a presença da classe operária ou sua  “hegemonia” sobre as classes revolucionárias transformará o governo em “socialista”. O que poderá transformar este governo em socialista será  o próprio desenvolvimento objetivo da sociedade brasileira: e quando estiver na ordem do dia a luta direta entre capital e trabalho então estará também colocada na ordem do dia a luta entre as próprias classes que formam a frente democrática operária e popular, o que fatalmente levará a dissolução do GDOP.


Da mesma forma, não se trata ainda de “ditadura do proletariado”. O GDOP, ainda que tenha de ser sustentado por orgãos populares de poder (cuja forma não podemos nem devemos adivinhar hoje), e mesmo que estes orgãos cheguem a ser radicalmente distintos dos orgãos burgueses de poder, mesmo que ultrapassem os mais radicais orgãos que a democracia burguesa conseguiu criar, ainda assim não se terá transformado em ditadura do proletariado. Isto porque suas tarefas o tornam um governo que não luta pelo socialismo, que não luta contra todo o capital, mas apenas contra uma parcela dele e por uma ordem que ainda é burguesa. E essa limitação objetiva lhe tira quaisquer veleidades de “democracia operária”.


5. Governo Democrático Operário e Popular e a tática atual

A luta pelo GDOP (6) é o objetivo estratégico da classe operária na atual etapa da revolução e desta forma não deve substituir as palavras de ordem e os objetivos táticos do momento. Bem ao contrário, deve ser o referencial da classe operária ao elaborar sua tática para o momento atual da luta de classes.


De forma sintética, a tática deve buscar centrar no inimigo principal o que é ditadura militar, expressão do domínio do capital monopolista sobre a classe operária e demais trabalhadores, e, sem recusar as alianças necessárias com as forças burguesas de oposição, ter por objetivo forjar a aliança das forças democráticas operárias e populares, ou seja, o proletariado, o campesinato e a pequena burguesia urbana, visando a derrubada daquela ditadura e também do capital monopolista e sua substituição por uma ordem democrática, operária e popular (7).


Sobre isto, é importante ficar claro que a classe operária não deve colocar em seus objetivos nenhum “governo intermediário” entre a derrubada da ditadura militar e a revolução democrática operária e popular. A priori propor um governo desse tipo é rebaixar os objetivos do proletariado, ainda que ele de fato possa vir a se formar (8).


A proposta do GDOP no momento atual tem que ser propagandeada - ou seja, tem de ser discutida junto aos setores mais avançados da classe operária, junto aos ativistas oriundos da pequena burguesia, junto aos elementos mais conscientes enfim, privilegiando (e isto tem de ser feito de fato) a classe operária, seus setores mais avançados. Não é correto fazer agitação desta proposta enquanto ela não for colocada na ordem do dia pela luta de classes. Não cabe hoje (julho de 83) falar desta proposta em comícios, buscar introduzi-la em plataformas de luta - ou seja, realizar sua agitação. Nem muito menos é uma questão de ação tática imediata.


A transformação do GDOP de palavra-de-ordem de propaganda em palavra-de-ordem de agitação ou mesmo em questão de ação tática imediata dependerá, única e exclusivamente, do processo da luta de classes. À vanguarda caberá estar atenta para o momento correto de efetuar tal modificação.

 

V. Ventura

 

Notas

 

(1) “Observações sobre a ‘Revolução Burguesa’”, de W. Pomar, pp.4
(2) idem, pp. 27
(3) ou seja, “aquele setor social que detêm os meios modernos de produção e que realiza a acumulação do capital por meio da apropriação da mais valia produzida pela classe dos trabalhadores assalariados” - idem, pp.2
(4) o que não quer dizer que todos os seus setores estejam “igualmente comprometidos” com a forma ditatorial-militar que assume atualmente a dominação da burguesia no Brasil.
(5) esta tese se encontra desenvolvida no trabalho de W. Pomar aqui citado.
(6) é bom que fique claro que o centro da questão não está no nome do governo, mas nas tarefas que o movimento revolucionário deve cumprir. Para estudar esta questão, é interessante acompanhar o debate entre W. Pomar e O. Duarte nas revistas de nº 4 e 5 de Teoria e Política.
(7) está claro que a constituição desta frente e a obtenção da direção por parte da classe operária dependerá em grande medida de que o proletariado tenha por centro de sua tática a luta por liberdades políticas, contra a ditadura militar. A frente só se constituirá na própria luta.
(8) no caso de vir a se formar um governo deste tipo, a posição das forças revolucionárias frente a ele, do ponto de vista prático, não pode ser delimitada agora.

Observação: não foi realizada nenhuma correção neste texto. Assim, ele está sujeito a incorreções.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

"Por que a esquerda revolucionária é irrelevante na política nacional?"

Tenho um amigo que ameaça me processar.
Motivo: ele reclama que eu o enganei.
O suposto engano: em 1980 e bolinha, eu disse a ele que viesse para o PT, pois o Partido era legal.
Pessoalmente, continuo achando o PT legal. 
E mesmo supondo que não seja mais, ainda assim ele era legal nos anos oitenta.
Portanto, não enganei meu amigo.´
Ele que faltou nas aulas de português, onde se ensinou sobre tempos verbais.
Por falar em português, fiquei impressionado com a chamada de uma live (ver card abaixo) que promete responder "por que a esquerda revolucionária é irrelevante na política nacional?"
Fiquei impressionado por dois motivos.
Primeiro: acho incrível a leveza com que pessoas que nunca dirigiram uma revolução, se autoproclamam "revolucionários".
Mas enfim, se o papel já aceitava tudo, imagina o metaverso.
Segundo: por qual motivo fazer perguntas que têm respostas óbvias?
Afinal, basta olhar a proclamação (ver o outro card mais abaixo) de um dos quatro integrantes da tal live, para entender a razão da irrelevância.
Num momento como este, não apoiar Lula desde o primeiro turno já é muito errado.
Defender o voto nulo, então, é se excluir da esquerda realmente existente.
Definitivamente, tem gente cuja relação com o marxismo é do tipo lattes.

Ps. Algo vale ter faltado em certas aulas de português: isso parece garantir certa solidariedade dos afins. Que, aliás, são parecidos noutras coisas também. Mas não vou falar mais, sob pena de ser acusado de identitário…