domingo, 1 de novembro de 2026

Resposta a Attuch: sabotador é quem defende o ponto de vista da Faria Lima

Sem revisão 

O dono do Brasil 247, o jornalista Leonardo Attuch, escreveu um textão cujo título é: “Lula deve se preocupar mais com a sabotagem da “esquerda radical” do que com o apoio do centro responsável”.


Este título deve ter sido psicografado do conhecido opusculo intitulado Pegadinhas do Conselheiro Acácio. Afinal, é óbvio que ninguém ficaria preocupado em receber o “apoio” de alguém “responsável”, enquanto do outro lado estaria alguém que pretenderia, supostamente, criar “novas guerras políticas”.


Acontece que esta contraposição não corresponde à realidade. 

Na vida real, setores da direita (não de “centro”) defendem que Lula faça um ajuste fiscal, o que implicaria em insistir numa politica econômica que quase nos fez perder a eleição, no primeiro turno, e que nos causou muitas dificuldades no segundo turno.

Se o governo viesse a aceitar esta proposta de setores de direita, correríamos o risco de viver algo parecido ao que resultou da política implementada por Joaquim Levy em 2015. O que nos levaria a “guerras políticas” piores do que a atual, pois muito provavelmente seríamos derrotados.

Portanto, é a direita que está sabotando. Não a esquerda.

 Para sustentar sua opinião, Attuch constroi um mundo paralelo, onde Kassab é uma “liderança de centro”, que se dispõe a apoiar o governo Lula “desde de que haja responsabilidade econômica”.

Pergunto: alguma vez o governo Lula foi “irresponsável”? 

Quem acusa Lula de “irresponsabilidade” mente. E quem passa o pano em mentiroso, quem leva a sério uma demanda dessas, está ocultando a verdade: eles não querem “responsabilidade”, eles querem “tesouraço”.

A esquerda não é contra o “equilíbrio fiscal”. A esquerda é contra o desequilíbrio fiscal causado pela taxa de juros, cuja conta é paga cortando e contendo os investimentos públicos e sociais.

A batalha ideológica da esquerda não é contra o “equilíbrio”, mas sim contra o “tesouraço”. 

Attuch diz que “uma parcela da esquerda prefere promover uma gritaria nas redes sociais contra qualquer medida que possa ser interpretada como ajuste”. 

Isso não é verdade. Não conheço ninguém da esquerda que faça “gritaria” contra medidas como redução dos juros, corte de subsídios a grandes empresas, eliminação das emendas parlamentares e dos supersalários e penduricalhos do judiciário.

A “gritaria” da esquerda é contra medidas que afetam o salário mínimo, as aposentadorias, os pisos constitucionais, o BPC etc.

Attuch diz que a “gritaria” citada “não apenas empobrece o debate econômico”, mas também “pode comprometer as condições políticas necessárias para o sucesso do governo Lula 4”.

Sobre o debate econômico, confesso que me dá preguiça ler alguém - num site supostamente progressista - tentando desqualificar teoricamente quem critica as teses da Faria Lima.

Quando à política, o problema é mais sério: o que Attuch propõe é um estelionato. Aliás, é engraçado ver ele falar que a vitória de Lula decorre de uma ampla mobilização democrática, para logo em seguida desconsiderar a decisão democrática da maioria do povo.

O “tesouraço” foi derrotado nas urnas. A direita e Attuch fingem que isso não aconteceu. 

Para sustentar esta tese, Attuch sofisma.

Ele diz o seguinte: “Uma das teses mais equivocadas difundidas por essa esquerda é a de que os brasileiros teriam ido às ruas, durante a campanha eleitoral, para rejeitar o equilíbrio fiscal. Trata-se de uma interpretação sem fundamento, que procura transformar uma mobilização democrática ampla e plural em uma espécie de plebiscito sobre a política econômica.”

Efetivamente, o povo brasileiro não rejeitou o “equilíbrio fiscal”. 

O que o povo brasileiro rejeitou foi a canalhice da Faria Lima, que chama de “equilíbrio fiscal” uma política em que eles desequilibram as contas e o povo paga o déficit, através do “tesouraço”.

O problema de Attuch não se limita ao fato dele adotar o ponto de vista da Faria Lima sobre o que é ou deixa de ser “equilíbrio fiscal”.

Há outro problema: ele não consegue compreender ou aceitar que a “mobilização democrática ampla e plural” tambem é, necessariamente, um “plebiscito sobre a política econômica”.

Para o povo, democracia também é salário, aposentadoria, educação, saúde, transporte, inflação baixa, juros baixos.

Para Attuch, que não tem estes problemas, o medo de cortes em programas sociais é algo que ele “conhece de literatura”. Attuch, como Durigan, não tem que viver de salário mínimo, nem faz ideia do que significa o BPC.

Por isso Attuch enche a boca para dizer o seguinte: “reduzir essa mobilização histórica” contra o bolsonarismo a “uma suposta rejeição popular ao equilíbrio fiscal significa desrespeitar a complexidade das motivações que levaram milhões de brasileiros a defender a democracia e a reeleição de Lula. O povo brasileiro não votou pela irresponsabilidade econômica. Votou pela preservação de direitos, pela estabilidade democrática e pela esperança de um futuro melhor. E esse futuro depende, necessariamente, de uma economia organizada, capaz de crescer, gerar empregos, reduzir os juros e financiar políticas públicas.”

Repito: o povo votou por um tipo de equilibro fiscal, antagônico ao tipo de equilíbrio fiscal defendido pela Faria Lima.

Aliás, se há alguém que pode ser acusado de “irresponsabilidade” é quem defende uma taxa de juros insana, que contribui e muito para impedir que tenhamos um “futuro melhor”.

O problema de Attuch é que ele adotou o “modo Faria Lima” de enxergar os outros. Os banqueiros talvez nunca tenham lido Sartre e Simone, mas eles pensam que o inferno - o desequilíbrio fiscal - é culpa dos outros, nunca deles.

Attuch faz dessa discussão que vimos acima um preâmbulo para defender Fonteles como ministro da Fazenda. 

Segundo Attuch, “Fonteles representa uma geração do PT que compreende que responsabilidade fiscal e justiça social não são objetivos incompatíveis.”

Pergunto: qual “geração” do PT pensa diferente disso?

O que Attuch ecoa, sem ter a coragem de escrever, é uma ideia muito comum na Faria Lima: a de que o velho Lula seria um populista, que precisa de um jovem tecnocrata controlando ele. Um fiscal social liberal…

O que a Faria Lima deseja, do Ministro da Fazenda, não é “capacidade de dialogar com investidores e empresários”; o que eles querem é um Ministro que atue como representante dos interesses destes setores, deles, junto ao governo.

Portanto, Attuch está totalmente errado, quando diz que “a melhor receita para o fracasso do Lula 4 seria justamente a formação de uma oposição interna, empenhada em deslegitimar antecipadamente o próximo ministro da Fazenda e sabotar qualquer tentativa de reorganização das contas públicas”.

O êxito do nosso governo depende de muitas coisas. Uma delas é a capacidade de impulsionar um ciclo de desenvolvimento com melhoria da qualidade da vida. Isso exigirá mais investimentos públicos, o oposto do “tesouraço” pretendido pela direita. Para que as “contas públicas” estejam a serviço deste tipo de desenvolvimento, será necessário baixar os juros e ampliar as receitas, buscando o dinheiro onde ele está.

O que ameaça este plano? No fundamental, a “oposição externa” das duas direitas, os EUA, a Faria Lima. Omitir tudo isso e tocar o alarme contra a “oposição interna” chega a ser ridículo. Até porque, nos governos de Lula e Dilma, os problemas nunca foram obra de uma inexistente “oposição interna”. Sempre foram resultado da confluência entre os inimigos externos e os erros cometidos pelo próprio governo.

Mas Attuch está obcecado pela ideia de que nosso problema estaria na esquerda. Chega a ser bizarro: temos um fugitivo de 60 milhões de votos nos EUA, temos um Congresso colonizado pela extrema direita, temos a Faria Lima fazendo chantagem, mas o que preocupa Attuch é “que a desestabilização de governos progressistas nem sempre começa pela direita”.

Attuch afirma ser natural que, “encerrada a eleição, o governo examine medidas pontuais para recuperar o equilíbrio das contas públicas. Isso não representa qualquer traição ao eleitorado. Representa o exercício responsável do poder.”

Como já disse, nada temos contra “equilíbrio das contas publicas”. O problema é que não somos idiotas. Existe uma pressão para buscar “equilíbrio” desequilibrando contra as maiorias, em favor da banca. Foi essa lógica que levou, por exemplo, o bolsa família a ficar um bom tempo sem reajuste.

Attuch se soma aos que fazem chantagem, quando afirma que a “alternativa pode ser uma crise econômica que termine por atingir justamente os trabalhadores e as famílias de menor renda”.

Attuch analisa gentilmente o comportamento dos especuladores e conclui dando conselhos ao governo: “Brigar infantilmente com investidores, alimentar incertezas sobre a dívida pública ou transformar o equilíbrio fiscal em uma questão ideológica pode pressionar ainda mais o dólar e os juros futuros. Isso encarece o crédito, dificulta os investimentos, aumenta o custo da dívida e compromete a capacidade do governo de financiar suas prioridades”.

As penas de aluguel da Faria Lima não escreveriam melhor. 

Pergunto: alguma vez alguém do governo “brigou infantilmente” com investidores? Ou “alimentou incertezas sobre a dívida?”

O que temos visto é o contrário: em geral o pessoal que vai para o governo esquece o que falou e o que escreveu e se comporta conforme o figurino. Logo, o que a banca está dizendo, através do ventriloquismo de inúmeros jornalistas como Attuch, mas principalmente através da especulação e outros movimentos práticos, é que eles querem mais, muito mais, do que todas as concessões feitas até agora.

Eles querem um “tesouraço”.

E como o povo não votou nisso, eles vão tentar impor ao governo Lula, que implemente o programa derrotado nas urnas.

O que faz Attuch, nesse contexto, é dizer para a esquerda que ela deve aceitar este ajuste, fingir que se trata de algo pontual e não reclamar, sob pena de tudo ficar aínda pior: “uma esquerda que se apresenta como defensora dos trabalhadores pode, por irresponsabilidade política, acabar contribuindo para a manutenção de juros elevados, o enfraquecimento do crescimento e a redução das oportunidades de emprego”.

Como o excesso de velas põe fogo na igreja, Attuch diz também que “nada disso significa que Lula deva aceitar passivamente todas as exigências do mercado financeiro. O presidente precisa preservar sua autonomia, defender a capacidade de investimento do Estado e garantir que o ajuste das contas públicas não recaia desproporcionalmente sobre os mais pobres”.

O “desproporcionalmente” é genial. O que seria recair “proporcionalmente” sobre os mais pobres???

O mais importante vem a seguir. Segundo Attuch, “existe uma diferença fundamental entre negociar com firmeza e transformar o conflito em método de governo. A primeira atitude produz resultados. A segunda pode produzir apenas turbulência”.

O problema é que a direita “transformou o conflito em método” de oposição ao governo. Se o governo abrir mão do “método do conflito”, o que vai ocorrer é que seremos inapelavelmente derrotados.

Além de oferecer conselhos derrotistas, embalados em formato coach, Attuch chega a formular a seguinte barbaridade: “o presidente não precisa escolher entre o mercado e o povo”.

Veja: o presidente não “precisa” escolher entre o mercado e o Estado, como ferramentas. É perfeitamente possível combinar virtuosamente ambas.

Mas o presidente, queira ou não, tem que “escolher” entre o empresariado capitalista e a classe trabalhadora. Pois é impossível agradar a gregos e troianos. Vide a experiência dos governos Lula e Dilma: apesar de tudo que se fez em favor dos empresários, estes majoritariamente escolheram sempre a oposição. 

Por isso, “escolher o povo” não é uma alternativa. É uma necessidade inevitável. A não ser, é claro, que pretendamos ser derrotados em 2030, no primeiro turno…


Segue abaixo o texto criticado 


Lula deve se preocupar mais com a sabotagem da “esquerda radical” do que com o apoio do centro responsável

Enquanto setores de centro oferecem estabilidade, uma esquerda radicalizada ameaça criar novas guerras políticas


Leonardo Attuch

Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato graças a uma ampla mobilização democrática, que ultrapassou as fronteiras tradicionais da esquerda e reuniu brasileiros preocupados com o futuro do país. Agora, diante do desafio de governar até 2030, Lula precisa compreender que seu maior problema político talvez não esteja no centro responsável, que se oferece para contribuir com a estabilidade, mas em setores de uma esquerda radicalizada, que parecem dispostos a transformar qualquer iniciativa de equilíbrio fiscal em uma batalha ideológica.
O contraste é evidente. Enquanto lideranças de centro, como Gilberto Kassab, presidente do PSD, sinalizam disposição para aprofundar a relação com o governo, desde que haja responsabilidade econômica, uma parcela da esquerda prefere promover uma gritaria nas redes sociais contra qualquer medida que possa ser interpretada como ajuste. Para esses setores, basta mencionar equilíbrio das contas públicas para que surjam acusações de neoliberalismo, traição programática ou submissão ao mercado financeiro.
Essa postura não apenas empobrece o debate econômico. Ela pode comprometer as condições políticas necessárias para o sucesso do governo Lula 4.
Uma das teses mais equivocadas difundidas por essa esquerda é a de que os brasileiros teriam ido às ruas, durante a campanha eleitoral, para rejeitar o equilíbrio fiscal. Trata-se de uma interpretação sem fundamento, que procura transformar uma mobilização democrática ampla e plural em uma espécie de plebiscito sobre a política econômica.

Os brasileiros foram às ruas, sobretudo, porque tinham medo da volta do bolsonarismo. Medo de cortes em programas sociais, evidentemente, mas também do avanço do feminicídio, da violência contra a população LGBT, do fortalecimento das milícias, da normalização do autoritarismo e da submissão da soberania nacional a interesses estrangeiros. Havia o receio de que o Brasil voltasse a ser governado por uma família política que fez do confronto permanente com as instituições uma de suas principais marcas.

Reduzir essa mobilização histórica a uma suposta rejeição popular ao equilíbrio fiscal significa desrespeitar a complexidade das motivações que levaram milhões de brasileiros a defender a democracia e a reeleição de Lula.

O povo brasileiro não votou pela irresponsabilidade econômica. Votou pela preservação de direitos, pela estabilidade democrática e pela esperança de um futuro melhor. E esse futuro depende, necessariamente, de uma economia organizada, capaz de crescer, gerar empregos, reduzir os juros e financiar políticas públicas.

É nesse contexto que a discussão sobre o próximo ministro da Fazenda adquire importância decisiva.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, surgiu como um dos nomes mais promissores para comandar a política econômica. Jovem, preparado, com experiência administrativa e boa interlocução com o setor produtivo, Fonteles representa uma geração do PT que compreende que responsabilidade fiscal e justiça social não são objetivos incompatíveis.

Mas já surgem setores dispostos a carimbá-lo como “neoliberal”, simplesmente porque seu nome é bem recebido pelo mercado financeiro. É uma lógica absurda. A capacidade de dialogar com investidores e empresários deveria ser considerada um ativo para um ministro da Fazenda, e não uma desqualificação.

O mesmo vale para qualquer outro nome que Lula venha a escolher. O presidente foi eleito para governar, não para submeter cada decisão econômica à aprovação de grupos que confundem radicalismo retórico com compromisso social.

A melhor receita para o fracasso do Lula 4 seria justamente a formação de uma oposição interna, empenhada em deslegitimar antecipadamente o próximo ministro da Fazenda e sabotar qualquer tentativa de reorganização das contas públicas.

Há ainda um componente histórico preocupante. Alguns desses setores parecem conservar uma visão romantizada das chamadas jornadas de junho de 2013, manifestações que começaram com reivindicações legítimas, mas foram posteriormente apropriadas por forças conservadoras e ajudaram a criar o ambiente político que desembocou no golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016.

A experiência deveria ter ensinado que a desestabilização de governos progressistas nem sempre começa pela direita. Muitas vezes, ela encontra combustível em setores que se apresentam como mais autênticos, mais puros e mais comprometidos com as causas populares, mas que acabam contribuindo para enfraquecer as próprias forças políticas que dizem defender.

Não há razão para repetir esse erro histórico.

Durante a campanha eleitoral, Lula ampliou despesas e abriu mão de receitas para atender demandas sociais e enfrentar uma disputa extremamente difícil. Essas decisões fizeram parte de uma conjuntura excepcional, marcada pela necessidade de preservar conquistas e construir uma maioria eleitoral.

É natural, portanto, que, encerrada a eleição, o governo examine medidas pontuais para recuperar o equilíbrio das contas públicas. Isso não representa qualquer traição ao eleitorado. Representa o exercício responsável do poder.

Ajustar prioridades, rever despesas menos eficientes, recuperar receitas e construir uma trajetória sustentável para a dívida pública são tarefas normais de qualquer administração comprometida com o interesse nacional.

A alternativa não é uma espécie de paraíso social sem restrições orçamentárias. A alternativa pode ser uma crise econômica que termine por atingir justamente os trabalhadores e as famílias de menor renda.

Os sinais de alerta já estão presentes. Na semana posterior à reeleição de Lula, o Ibovespa acumulou uma queda de 18,12%, seu pior desempenho semanal desde março de 2020. O dólar disparou 9,15% e encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,4460, maior valor registrado em 2026.

É evidente que parte desse movimento decorre da desmontagem de apostas financeiras equivocadas sobre o resultado eleitoral. O mercado também erra, especula e frequentemente reage de maneira exagerada aos acontecimentos políticos.

Mas reconhecer os excessos do mercado não significa ignorar que as expectativas econômicas produzem consequências concretas.

Brigar infantilmente com investidores, alimentar incertezas sobre a dívida pública ou transformar o equilíbrio fiscal em uma questão ideológica pode pressionar ainda mais o dólar e os juros futuros. Isso encarece o crédito, dificulta os investimentos, aumenta o custo da dívida e compromete a capacidade do governo de financiar suas prioridades.

O resultado seria especialmente perverso para o Banco Central, que tem a missão urgente de criar condições para a redução da taxa Selic. Com o câmbio pressionado e as expectativas de inflação desancoradas, a autoridade monetária encontra menos espaço para baixar os juros.

Em outras palavras, uma esquerda que se apresenta como defensora dos trabalhadores pode, por irresponsabilidade política, acabar contribuindo para a manutenção de juros elevados, o enfraquecimento do crescimento e a redução das oportunidades de emprego.

Nada disso significa que Lula deva aceitar passivamente todas as exigências do mercado financeiro. O presidente precisa preservar sua autonomia, defender a capacidade de investimento do Estado e garantir que o ajuste das contas públicas não recaia desproporcionalmente sobre os mais pobres.

Mas existe uma diferença fundamental entre negociar com firmeza e transformar o conflito em método de governo. A primeira atitude produz resultados. A segunda pode produzir apenas turbulência.

Lula conhece essa diferença melhor do que ninguém.

Em seus primeiros mandatos, demonstrou que é possível combinar responsabilidade fiscal, crescimento econômico, valorização do salário mínimo, expansão das políticas sociais e redução das desigualdades. Foi essa capacidade de construir sínteses, e não de alimentar antagonismos artificiais, que fez dele o mais importante líder popular da história contemporânea brasileira.

O Lula que o Brasil precisa agora é justamente esse: um presidente responsável, capaz de dialogar com o centro político, construir maiorias parlamentares, transmitir confiança à sociedade e redirecionar as prioridades orçamentárias para garantir conquistas progressivas à classe trabalhadora.

A responsabilidade fiscal não é uma concessão à direita. É um instrumento para preservar a capacidade de ação de um governo progressista. Sem estabilidade econômica, os avanços sociais tornam-se mais difíceis, mais caros e mais vulneráveis às crises.

O presidente não precisa escolher entre o mercado e o povo. Precisa governar para o povo, compreendendo que a estabilidade macroeconômica é uma das condições para ampliar o bem-estar coletivo.

Também não precisa aceitar que setores minoritários da esquerda reivindiquem o monopólio da interpretação do resultado eleitoral. A vitória de Lula pertence a uma coalizão democrática muito mais ampla, que inclui trabalhadores, movimentos sociais, empresários, intelectuais, lideranças de centro e milhões de cidadãos sem identificação partidária.

O quarto mandato oferece ao presidente uma oportunidade histórica de consolidar conquistas, fortalecer as instituições e preparar uma nova geração de lideranças progressistas para o futuro.

Desperdiçar essa oportunidade em disputas ideológicas estéreis seria um erro imperdoável.

Lula deve ser o que sempre foi em seus melhores momentos: um estadista pragmático, comprometido com a justiça social, a soberania nacional e a responsabilidade econômica.

O Brasil não precisa de uma nova temporada de radicalização. Precisa de crescimento, estabilidade, juros menores e conquistas concretas para os trabalhadores.

E, para isso, o presidente fará bem em ouvir mais o centro responsável e menos os que confundem gritaria com transformação social.

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247

sábado, 31 de outubro de 2026

O troféu “alta-estima” vai para…

 … o autor de uma carta aberta ao presidente Lula, publicada na Folha de S.Paulo, defendendo “ajuste fiscal e articulação anti-Bolsonaro”.

Se o autor da carta tivesse votado em Lula no segundo turno, seria errado, mas pelo menos legítimo.

Mas o subscritor da tal “carta aberta” não votou em Lula. Aliás, ele informou publicamente que não votaria em ninguém, para supostamente preservar sua isenção científica.

Mentira pura: ele passou a eleição inteira garantindo publicamente, em nome de uma suposta certeza científica, que Lula perderia as eleições. Ou seja, na prática fez campanha para o Cavernícola.

A sua recomendação para Lula é baseada na mesma “ciência”: afinal, quem defende fazer um ajuste fiscal agora faz parte, mesmo que não se dê conta disso, de uma articulação em favor dos cavernícolas.

Quem tem dúvida, leia a tal carta, onde se diz explicitamente que Lula deveria fazer algo “semelhante ao que fez Dilma em 2015”.

Sabemos no que deu aquilo.

Que alguém capaz de cometer este tipo de sincericídio, consiga espaço na Folha de S.Paulo, diz muito sobre o compromisso dessa gente com a democracia.

O “tesouraço” foi derrotado nas urnas. Mas eles não estão nem aí. O que importa é servir aos credores da dívida.

Ah: o nome do vencedor do troféu de “alta-estima” é Alberto Carlos Almeida.

Segue abaixo o texto criticado acima: 


Se eu pudesse mandar uma carta a Lula, pediria ajuste fiscal e articulação contra bolsonarismo

26.out.2026 às 9h00 

Alberto Carlos Almeida

Doutor em ciência política (Iuperj), é diretor do Instituto Brasilis, empresa de pesquisa e consultoria, e autor de livros que abordam de maneira científica a sociedade e a política no Brasil

 

Se pudesse enviar uma carta endereçada para Lula, no Palácio do Planalto, escreveria mais ou menos assim:

"Prezado presidente, parabéns pela vitória com letras maiúsculas e por dois grandes feitos: o de ter sido eleito quatro vezes presidente do Brasil, algo inteiramente inédito, e por ter vencido uma eleição improvável, porque o governo do senhor foi bastante mais ou menos, para não dizer bem ruinzinho. Por isso, não imaginei que o senhor seria vencedor, errei. Agora é pensar para frente: o dia seguinte, como fazemos todos nós e, em particular, os políticos.

As dificuldades eleitorais de 2026, creio, tiveram a ver com o senhor ter escolhido um caminho oposto ao de 2003, quando os primeiros anos foram de ajuste pela despesa em vez de pela receita. Isso não aconteceu em 2023.

O resultado, humildemente afirmo, foram juros muito elevados por todos esses anos. Uma sociedade que vive assim, com juros altos por quatro anos, joga no lixo o seu futuro. O senhor sabe que o Banco Central reage à magnanimidade, ou não, do Tesouro Nacional, que, por sua vez, segue as decisões da Presidência da República. Ou seja, juros altos não dependem apenas do presidente do BC.

É provável que o senhor tenha de fazer um giro de 180 graus no início desse novo mandato no que diz respeito aos gastos e, portanto, às expectativas geradas na campanha eleitoral, algo semelhante ao que fez Dilma em 2015. A propósito, parabenizo o senhor por ter retornado à presidência em 2022 para tentar desfazer algumas das heranças deixadas por ela.

Nunca na história do Brasil tivemos uma presidente tão de fora da política. O primeiro mandato eleitoral dela foi o cargo de mandatária máxima da nação. Algo inédito no país. Não por acaso há dois Brasis, antes e depois dela. Antes, com a aliança PT-MDB atuando para redistribuir renda e tendo como principal opositor o PSDB, além do país crescendo de forma vigorosa e sem a caça às bruxas que caracterizou a Lava Jato.

Depois dela, com crise econômica, a prisão do senhor, a derrocada do PSDB e o surgimento de Bolsonaro. Experiência política é importante e permite evitar muitos erros, por isso saúdo a presença de Rafael Fonteles e Camilo Santana próximos ao senhor no discurso de vitória.

Gostaria que o senhor trabalhasse firme, neste quarto e merecido mandato, para continuar desfazendo essa herança maldita deixada por ela, eliminando da política nacional os Bolsonaro. O senhor sabe que meio caminho foi percorrido com a vitória de ontem.

Talvez seja o caso de se aproximar, além daqueles que têm verdadeira experiência eleitoral, dos que foram considerados pelo senhor, em algum momento, parte de uma frente ampla. Quanto a isso, fiquei feliz ao ver o senhor dando a palavra a Geraldo Alckmin no discurso de vitória. Senti falta de Simone Tebet.

Digo mais: a recomposição política do país, rumo ao que muitos denominam de direita civilizada, talvez exija do senhor conversar de peito aberto, ainda que em caráter reservado, com Tarcísio de Freitas, Valdemar Costa Neto, Gilberto Kassab e outros com o mesmo perfil.

Perdão se estiver pedindo muito para o senhor, ter de reconstruir a direita além de ter feito um pujante partido de esquerda. Lamento, essa foi a herança deixada por sua sucessora, que, não fosse o impeachment, poderia até mesmo ter destruído o PT.

Há um caminho pela frente sem os loucos dos Bolsonaros, com, eventualmente, Tarcísio candidato a presidente em 2030. Aliás, hoje ele deve estar comemorando muito a vitória do senhor. Quem sabe teremos em 2030 a candidatura de Geraldo Alckmin ao governo de São Paulo em uma costura que venha a incorporar parte da direita.

Enfim, quem sou eu para imaginar hipóteses e possibilidades diante de um político tão competente e experiente como o senhor? Mais do que isso, um político de um sucesso incomparável na história recente do Brasil. Faço esse exercício apenas como um cidadão preocupado com a lamentável existência da família Bolsonaro como líder da direita. Se alguém hoje tem a faca e o queijo nas mãos para colocar fim a esse nefasto clã, esse alguém é o senhor em seu derradeiro mandato como presidente. Um forte abraço e sorte nos próximos quatro anos".

 



sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Lula 2026: vencemos uma batalha decisiva, mas a guerra em defesa da vida e do futuro ainda não terminou!

Lula 2026: vencemos uma batalha decisiva, mas a guerra em defesa da vida e do futuro ainda não terminou!


 

Projeto de resolução do XI Congresso Nacional da tendência petista Articulação de Esquerda: Balanço das eleições 2026 e desafios do PT no próximo período

 

No dia 25 de outubro de 2026, Lula foi reeleito presidente do Brasil. O fato em si não constitui uma novidade. Afinal, esta foi a sexta vitória do PT e a quarta vitória de Lula nas eleições presidenciais brasileiras. Mas, devido ao contexto internacional e nacional, esta não foi uma vitória como as outras.

 

A vitória de Lula impediu que Trump, a extrema-direita e o imperialismo fechassem o cerco sobre a América Latina e o Caribe, o que colocaria nossas riquezas a serviço dos projetos neofascistas e da guerra. 

 

Lula presidente manteve o Brasil como país soberano e uma das principais vozes do Sul Global em favor de uma nova ordem mundial, em defesa de Cuba e da Palestina. Nesse sentido, a eleição brasileira teve repercussão mundial e foi comemorada por todos os que defendem a paz, a democracia, a soberania e os direitos dos povos.

 

Nossa vitória foi particularmente comemorada na América Latina e Caribe, inclusive por fornecer um ponto de apoio para a retomada da região pelas forças progressistas e de esquerda. “Foi uma lufada de ar fresco”, como bem resumiu Claudia Sheinbaum, presidenta do México.

 

A reeleição de Lula impediu, igualmente, que o fascismo, os ultraliberais, os traidores da pátria e o crime organizado reconquistassem o governo federal brasileiro, o que mataria nossas vidas e liberdades e enterraria o futuro do Brasil, nos impedindo de ter desenvolvimento, bem-estar e soberania.

 

Manter o governo brasileiro nas mãos de Lula, do PT e da esquerda foi uma espetacular vitória do povo brasileiro. No segundo turno, entre os dias 5 e 25 de outubro, uma gigantesca maré vermelha tomou conta das ruas do Brasil. 

 

Milhões e milhões de pessoas se mobilizaram, saíram às ruas para ampliar a votação obtida por Lula no primeiro turno e conquistar a maioria dos votos no segundo turno. Pessoalmente ou por meio das chamadas redes sociais, milhões de pessoas conversaram com seus familiares, com seus vizinhos, com seus colegas de trabalho, de estudo e de festa. 

 

“Fazendo o L” e dizendo “é nóis!”, vastas e numerosas camadas do povo — principalmente trabalhadores pobres, mulheres, jovens, idosos, artistas, intelectuais, “nordestinos de coração”, militantes progressistas e de esquerda, com destaque para os integrantes da grande Nação Petista — foram à luta e fizeram algo que parecia impossível: virar o jogo e vencer as eleições, por uma margem expressiva de votos. 

 

Os ajustes feitos na tática de campanha e na postura do governo contribuíram e muito para nossa memorável vitória no segundo turno. E, como sempre acontece nas vitórias, há uma disputa pelas glórias.

 

Por isso é bom que se diga que, no caso particular do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, provou-se mais uma vez que a militância petista para tempos de guerra é melhor do que nossas direções. Foi essa militância “vietnamita” que, com sangue, suor e lágrimas, contribuiu decisivamente para conquistar a reeleição de Lula no segundo turno.

 

Reafirmamos que a histórica vitória de 25 de outubro tem o DNA da maioria trabalhadora, feminina, negra, jovem, idosa e nordestina do povo brasileiro; tem o DNA da esquerda como um todo, em particular da Nação Petista; e tem o DNA de Lula.

 

A vitória do 13 Lula Presidente foi um acontecimento histórico que favorece a soberania, a integração regional, as liberdades democráticas, os direitos sociais, as políticas públicas, a ciência, o desenvolvimento social e econômico do nosso país. E, para nós que lutamos pelo socialismo, a vitória de Lula manteve abertas as grandes alamedas por onde caminha a luta da classe trabalhadora.

 

Mas a guerra em defesa da vida, em defesa da pátria, em defesa da humanidade e em defesa do futuro não encerrou no dia 25 de outubro. 

 

A fuga do Miliciano Flávio, que contou com o indispensável e criminoso apoio de Milei e de Trump, confirma isso.

 

O Miliciano não reconheceu a derrota e, junto com seus aliados nos Estados Unidos, vai seguir conspirando contra os interesses nacionais.

 

Mesmo atordoados pela fuga do seu candidato, os integrantes da extrema-direita e as hostes bolsonaristas seguirão buscando nos derrotar, agora e em 2030. 

 

Prova disso é o que ocorreu, especialmente nos dias que antecederam a eleição e no próprio dia 25 de outubro, em particular depois que saiu o resultado: uma série de violências físicas contra eleitores e apoiadores de Lula. Em alguns casos, essa violência foi praticada por bandidos fardados, integrantes de Polícias Militares, como ocorreu, por exemplo, nos estados do Paraná e em Santa Catarina.

 

Além dos casos de violência física, tiveram início campanhas de boicote contra empresas e empresários “acusados” de progressistas e de demissão de trabalhadores que votaram em Lula.

 

Governadores e parlamentares da extrema-direita já anunciaram que usarão suas maiorias legislativas e as administrações estaduais que dirigem para fazer oposição, sabotar e — se tiverem a oportunidade — tentar derrubar Lula.

 

Isso tudo exigirá, por parte da esquerda em geral, mas principalmente por parte do PT, uma estratégia adequada, que precisa ser muito diferente daquela adotada no último período.

 

A nova estratégia terá que incluir: 

 

i/ Mudança efetiva do modelo econômico, hoje controlado pelo agro, pelas mineradoras e pelo setor financeiro; 

 

ii/ Ampla reforma do Estado (incluindo o sistema judiciário, político e eleitoral); 

 

iii/ Criação de estruturas digitais de comunicação e informação sob controle nacional, estatal e público; 

 

iv/ Uma política de governabilidade de novo tipo, baseada na mobilização e participação popular, para que não continuemos sendo obrigados a fazer incontáveis concessões à direita que controla o Congresso Nacional. Se é possível ganhar a eleição nas ruas, por qual motivo não seria possível governar com base nas ruas?

 

v/ A implementação de uma forte oposição aos governos estaduais de extrema-direita, que muito provavelmente cumprirão um papel importante na oposição ao governo Lula e na montagem de uma chapa para nos enfrentar em 2030;

 

vi/ Uma política de segurança pública profundamente distinta da adotada pela extrema-direita;

 

vii/ Uma política internacional que terá que continuar altiva, mas precisará voltar a ser muito mais ativa, especialmente na América Latina e Caribe;

 

viii/ A implementação de uma efetiva política de Defesa e de Inteligência, que permita enfrentar a ingerência, as ameaças e os permanentes planos golpistas da extrema-direita, dos Estados Unidos e de Israel;

 

ix/ A reafirmação ideológica da esquerda, que deve buscar se aliar com os progressistas, mas não deve se confundir, nem se autolimitar, ao chamado “progressismo”; 

 

x/ Um salto de qualidade na organização da esquerda política e social, o que inclui a substituição do “modelo parlamentarista” de funcionamento partidário, por um esforço de organização militante, com formação e mobilização e, vale destacar, com orientação e direção política provenientes da esquerda, a começar pelo PT. Nesse sentido, é preciso utilizar o atual momento de entusiasmo para filiar e engajar as pessoas no Partido, nos sindicatos, nos movimentos.

 

É fazendo isto tudo, e muito mais, que conseguiremos transformar nossa esplêndida vitória de 25 de outubro no ponto de partida para outra época histórica, contribuindo para o futuro do Brasil, da América Latina e Caribe e da humanidade.

 

Movidos por esses propósitos, faremos, a seguir, o balanço das eleições de 2026: analisar o passado para orientar nossas ações no presente e no futuro.

 

Balanço das eleições

 

O Partido dos Trabalhadores venceu seis das dez eleições presidenciais ocorridas desde 1989, ficando em segundo lugar nas outras quatro (ou seja: nas eleições que ocorreram nos anos de 1989, 1994, 1998 e 2018).

 

Mas, diferentemente das eleições vencidas por nós (nos anos de 2002, 2006, 2010, 2014 e 2022), desta vez, Lula, candidato à reeleição pelo PT, tendo chegado apenas em segundo lugar no primeiro turno, começou o segundo turno sem ser considerado favorito pelas pesquisas, nem pela maior parte da mídia e, inclusive, nem mesmo por parte importante das direções da própria esquerda brasileira.

 

Entretanto, vencemos! Lula foi reeleito e com uma diferença expressiva, mais de 4 milhões de votos.

 

Os números finais surpreenderam, inclusive, os mais otimistas, como é o nosso caso: nós, da tendência petista Articulação de Esquerda, que tínhamos absoluta certeza da vitória, mas prevíamos uma diferença mais apertada.

 

Recapitulamos a seguir os principais dados.

 

No primeiro turno, o Miliciano chegou na frente ao obter 47,03% dos votos válidos. Mas terminou o segundo turno com apenas 48,21% dos votos válidos. Em votos absolutos, o Miliciano foi de 56.104.503 votos para 59.826.041.

 

Em 2022, o Cavernícola Pai — hoje cumprindo pena em prisão domiciliar — chegou a obter 49,1% dos votos válidos, resultado superior aos 48,21% obtidos no segundo turno de 2026 pelo Fujão. Entretanto, em número absoluto de votos, o Miliciano superou o Cavernícola Pai. Este, em 2022, conseguiu pouco mais de 58 milhões de votos. Agora, o Filho obteve quase 60 milhões de votos. 

 

Mas cabe lembrar que, em 2022, o eleitorado era menor do que o atual: entre 2022 e 2026, o número de pessoas aptas a votar aumentou em exatas 2.291.452 pessoas. Além disso, no segundo turno de 2026 houve expressiva redução da abstenção e do número de votos nulos e em branco.

 

Lula, por sua vez, saltou de 45,16% no primeiro turno para 51,79% dos votos válidos no segundo turno, crescendo de 53.879.538 para 64.256.232 votos. Um resultado muito superior ao de 2022, quando Lula obteve 60.345.999 votos, o equivalente a 50,9% dos votos válidos. 

 

Estes resultados numéricos podem ser resumidos, do ponto de vista político, da seguinte forma: a extrema-direita manteve, nas eleições presidenciais de 2026, um patamar eleitoral similar ao de 2022. Já a esquerda, no primeiro turno, ficou aquém e, no segundo turno, conseguiu ir além do resultado de 2022.

 

Se tivéssemos repetido o resultado absoluto obtido em 2022, nossa vantagem teria sido de apenas 520 mil votos. Mas superamos nosso próprio teto e estabelecemos uma vantagem de 4 milhões e 430 mil votos.

 

Evidentemente, a análise das eleições não pode se limitar aos resultados do segundo turno presidencial. É preciso levar em conta, também, o primeiro turno presidencial, a eleição para governos estaduais, Senado, Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas. Mas é evidente que a reeleição de Lula foi uma vitória maiúscula.

 

Há um ditado popular que afirma mais ou menos o seguinte: a derrota é órfã, já a vitória tem muitos pais e mães. Também por isto, há todo tipo de análise e opinião circulando. Será necessário um certo tempo e distanciamento para que seja possível produzir uma análise efetivamente científica das eleições de 2026.

 

Entretanto, não é possível esperar para iniciar a avaliação, pelo simples motivo de que, através da batalha de avaliações, está em jogo uma espécie de “terceiro turno interpretativo”, em que diferentes setores da direita tentam, com auxílio da mídia empresarial, deslegitimar, domesticar e, até mesmo, fraudar a imensa vitória obtida pelo povo brasileiro no dia 25 de outubro de 2026. 

 

Esse “terceiro turno interpretativo” tem implicações políticas imediatas no debate sobre como lidar com a ingerência externa, sobre como enfrentar a extrema-direita, sobre como organizar a posse, sobre a composição do novo governo e, principalmente, sobre o malfadado “ajuste fiscal” que a classe dominante segue querendo impor sobre o povo brasileiro, na absoluta contramão dos resultados eleitorais. 

 

O Miliciano não reconheceu nossa vitória, alegando fraude e fake news. E, por estar sob risco de prisão iminente, — já que investigações policiais revelaram seu envolvimento em lavagem de dinheiro e outros crimes — fugiu do país, numa ação que teve a cooperação, como já apontamos acima, dos governos da Argentina e dos Estados Unidos.

 

Mas os apoiadores do Traidor Fujão sabem que nossa vantagem — superior, repetimos, a 4 milhões de votos — foi obtida legitimamente, na campanha eleitoral, por meio de intenso debate político e de uma enorme mobilização da sociedade brasileira. Por isso mesmo, a fuga do Miliciano reacendeu o debate, nas lideranças da extrema-direita, sobre o papel da Família Cavernícola. Muitos deles se perguntam se o resultado não poderia ter sido outro, caso a candidatura presidencial da extrema-direita não tivesse sido da “família”. Pergunta que alimenta outra questão: quem será o candidato da extrema-direita nas eleições de 2030?

 

Evidente que a “candidatura” escolhida por eles teve grande incidência nos resultados. Mas quem interpreta o resultado eleitoral tendo como fio da meada as candidaturas tende a secundarizar as outras variáveis decisivas, a saber: 

 

— Do lado da extrema-direita, é preciso lembrar do engajamento dos Estados Unidos e seus aliados (com destaque para Israel), dos grandes capitalistas e das estruturas organizativas criadas ou em grande medida capturadas pela extrema-direita, principalmente ao longo da última década: a “família militar”, as máquinas parlamentares e de governo, as “redes antissociais”, as empresas da fé, a mídia tradicional, o crime organizado (milícias, facções e outros grupos) etc. São essas variáveis — e não as candidaturas em si — que explicam os mais de 59 milhões de votos obtidos pelo Fujão em 2026, assim como os 58 milhões obtidos pelo Cavernícola Pai em 2022;

 

— Do nosso lado, é preciso lembrar do acúmulo político e organizativo construído desde os anos 1970 pela esquerda brasileira, acúmulo condensado especialmente na Nação Petista. É preciso lembrar, também, da capacidade de mobilização espontânea dos estratos mais profundos e mais empobrecidos da classe trabalhadora, majoritariamente feminina, negra e jovem; a disposição de combate exibida por milhões de brasileiras e brasileiros de todas as faixas etárias, mas especialmente as e os 70+; o compromisso político da maioria daqueles que são nordestinos por nascimento, moradia ou alma. Sem isto, sem o apoio e generosidade das camadas que constituem a maioria do povo brasileiro, a candidatura de Lula não teria dado a volta por cima e não teria triunfado.

 

Enquanto setores da extrema-direita buscam deslegitimar e desconhecer nossa vitória, a direita tradicional busca domesticar o resultado e “cancelar” o papel da classe trabalhadora, da esquerda em geral e do PT em particular na vitória.

 

Para sustentar esta “narrativa”, a direita tradicional destaca a vitória parcial da extrema-direita no primeiro turno, para em seguida afirmar que a vitória no segundo turno só teria sido possível graças aos “setores de centro” que vieram em socorro da esquerda. Em resumo, segundo essa tese, ao contrário das aparências, o dia 25 de outubro não teria sido uma vitória da classe trabalhadora, da esquerda, do PT e de Lula; teria sido, isto sim, uma vitória do “centro”.

 

Não resta dúvida de que a extrema-direita obteve uma importante vitória no primeiro turno, elegendo grande número de deputados e senadores, bem como os governadores de estados fundamentais como São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul, entre outros. Também não deve restar dúvida de que, no segundo turno, uma parte do eleitorado se mobilizou não para eleger a esquerda, mas, sim, para impedir que o governo federal caísse nas mãos do crime organizado.

 

Entretanto, se observarmos os fatos, constatamos que: 

 

i/ O crescimento da extrema-direita no legislativo se deu, no essencial, canibalizando os votos da direita tradicional, Centrão e evangélicos. (O enfraquecimento do Centrão, aliás, nos permite mudar a tática adotada na eleição das Mesas do Senado e da Câmara.) Ademais, os estados nos quais a extrema-direita venceu em 2026, em muitos casos, já eram governados pela extrema-direita desde 2022. A votação do Miliciano, tanto no primeiro quanto no segundo turno, não superou qualitativamente os resultados que a extrema-direita já tinha obtido em 2022. Portanto, o que explica o resultado do primeiro turno não foi o crescimento “deles”, mas o fato de parte de nossos eleitores de 2022 não ter reafirmado o voto no primeiro turno de 2026. E o que explica o resultado do segundo turno foi, em parte, o regresso desses eleitores. Com um detalhe importante: diferente de 2022, quando duas candidaturas presidenciais do chamado “centro” (ou seja, da direita tradicional) apoiaram Lula, desta vez, nenhuma das outras candidaturas de direita apoiou Lula;

 

ii/ No segundo turno de 2026, foi decisiva a adoção, ainda que com atraso, de medidas governamentais em favor das camadas populares, bem como de uma linha de campanha que vinculou a defesa da democracia com a ampliação das conquistas sociais do povo. Isso contribuiu para ampliar o apoio a Lula nos setores populares, por razões de esquerda, não de “centro”; 

 

iii/ A esmagadora maioria do eleitorado que votou em Lula, tanto no primeiro quanto no segundo turno, pertence às camadas populares e votou principalmente por identidade de classe. Certos “setores médios” movidos por valores “de centro” tiveram seu papel, mas não foi tão destacado como se pretende;

 

iv/ Evidentemente, há “setores médios” alinhados politicamente à esquerda. É verdade que parlamentares, governantes, a intelectualidade tradicional e os artistas que saíram em defesa da candidatura de Lula integram os estratos mais bem remunerados da classe trabalhadora ou são, inclusive, pequenos e médios proprietários. É verdade, também, que tivemos setores de centro e até de extrema-direita nos apoiando para derrotar o Miliciano. Mas não é essa a composição social predominante no eleitorado que nos deu a vitória. A maioria esmagadora das 64 milhões de pessoas que votaram em Lula é proveniente de setores mais empobrecidos da classe trabalhadora e, por isso mesmo, possui uma profunda identificação de classe com o PT.

 

Nesse sentido, embora a direita tradicional (e setores da esquerda não petista) possam não admitir, a verdade é que a Nação Petista foi a espinha dorsal da vitória de Lula em 2026 (e, também, das demais eleições presidenciais).

 

Enquanto a extrema-direita busca deslegitimar nossa vitória, porque isso os ajuda a agrupar sua tropa, a fazer oposição, a sabotar e, no limite, a derrubar nosso governo, a direita tradicional busca domesticar nossa vitória, porque isso os ajuda a tentar impor o programa derrotado nas urnas, a saber, o “tesouraço” (ajuste fiscal). Por detrás de um debate aparentemente científico sobre a natureza da nossa vitória, esconde-se uma tentativa de estelionato eleitoral.

 

Na esquerda, por sua vez, também há diferentes avaliações sobre o resultado eleitoral, refletindo as distintas estratégias e táticas propostas, por cada setor, para enfrentar a época em que vivemos. 

 

A esse respeito, preliminarmente é preciso dizer que há alguns setores que parecem ser de esquerda, se acham de esquerda, mas não passam de seitas objetivamente aliadas da extrema-direita. É o caso do PCO e dos autoproclamados “revolucionários” que chamaram o voto nulo no segundo turno. Embora numericamente inexpressivos, causam danos e precisam ser desmascarados e combatidos. O PCO, por exemplo, está nesse momento defendendo explicitamente o Traidor Fujão.

 

Os fatos deixaram evidente, também, a aposta equivocada dos grupos de esquerda que escolheram lançar candidaturas presidenciais no primeiro turno, talvez na expectativa de capitalizar a justa insatisfação de setores da classe trabalhadora com nosso governo e com nosso Partido. Porém, a vida demonstrou, mais uma vez, que o caminho da vitória do povo passa pelo PT, não contra o PT e não sem o PT. Motivo pelo qual toda a esquerda deveria ter apoiado Lula desde o primeiro turno.

 

Entre os vários setores de esquerda que apoiaram Lula desde o primeiro turno, existem diferentes balanços sobre o processo eleitoral.

 

Um desses balanços credita nossa vitória, em sua maior parte, à pessoa de Lula; e atribui nossos problemas, no essencial, ao Partido dos Trabalhadores.

 

Evidentemente não devemos subestimar o papel do indivíduo na história. Acontece que o indivíduo em questão não veio de outra galáxia, carregado de superpoderes. Quatro vezes presidente da República e, antes disso, tendo sido deputado constituinte, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e presidente do PT, Lula tornou-se o mais importante personagem dos últimos 50 anos da história do Brasil por obra e graça de uma construção coletiva.

 

Reconhecer isso tem imensa importância do ponto de vista político-pedagógico. Desmerecer a construção coletiva é, no limite, dizer que nosso futuro será determinado exclusivamente pela implacável biologia. 

 

Evidente que a história em geral e dos indivíduos em particular é interpretada e reinterpretada o tempo todo, à luz dos conflitos em curso em cada momento.

 

Lula nunca foi bem-visto e tampouco bem avaliado pela classe dominante. Já nas classes dominadas e exploradas coexistem diferentes pontos de vista acerca de Lula. Há dezenas de milhões que se deixam dominar ideologicamente pelo empresariado capitalista, renegam Lula e até mesmo o odeiam. Há outras dezenas de milhões que se identificam com Lula e o defendem, em alguns casos, chegando ao ponto de o tratar como “ungido de Deus”. E há uma pequena minoria que o considera pessoalmente responsável por muitas das frustrações experimentadas pela classe trabalhadora desde os anos 1970. 

 

Da nossa parte, preferimos dar a Lula o que é de Lula; e dar à luta o que é da luta coletiva.

 

Em Vargas, Prestes, Dilma, e em todas e todos que foram protagonistas destacados na luta de classes, de um lado e de outro, convivem o que podemos chamar de “pessoa física” e “pessoa jurídica”. Dramas e tragédias pessoais, amores e desamores, simpatias e antipatias, luzes e sombras, generosidades e mesquinharias, tudo isso junto e misturado com as posições e atitudes frente aos pequenos e grandes temas políticos. E, atravessando e se mesclando, há ainda uma camada adicional, composta pelas lendas que se criam à revelia do personagem, e, também, pelas que cada personagem deixa criar (ou até mesmo incentiva).

 

Por todos estes motivos e muitos outros, não há como separar os acertos dos erros, os problemas das virtudes. Dito de outra forma, grande parte dos problemas existentes em nosso governo, em nossa campanha e no próprio PT decorrem, em maior ou menor medida, da influência de Lula. Assim como grande parte dos acertos de nosso governo, de nossa campanha e do próprio PT também se devem a Lula ou refletem sua influência.

 

Feitas todas estas mediações, é imprescindível constatar que milhões de pessoas anônimas — que arrancaram a vitória com suas próprias mãos e que descobriram ter uma energia e um poder que não sabiam ter — fizeram de Lula, mais que um candidato, um símbolo coletivo.

 

Também por isso, ao contrário do que diz muita gente, a eleição de 2026 não foi nem será o ponto final da trajetória de Lula. Afinal, não importa o que decida a implacável biologia, Lula seguirá tendo, por muito tempo, uma grande influência na história do Brasil. 

 

A “era Lula” não terminou. Os que previam que terminou ou que terminará em breve, expressam, na verdade, seu desejo de que se interrompa não apenas o ciclo de vitórias eleitorais da esquerda brasileira, mas principalmente que não tenha início um indispensável ciclo de reformas estruturais na sociedade brasileira. Ciclo de reformas que precisa ter início neste quarto mandato e cuja continuidade não depende de um “sucessor”, mas, sim, de conseguirmos canalizar e organizar a energia popular revelada neste segundo turno. Canalização e organização que depende, em grande medida, do campo democrático e popular liderado pelo Partido dos Trabalhadores.

 

Desse ponto de vista, os setores da esquerda que buscam atribuir nossos êxitos exclusivamente à pessoa de Lula e nossos defeitos exclusivamente ao PT cometem dois erros. O primeiro é desconhecer a realidade: basta dizer que “vai dar PT” foi um dos hits da campanha em todo o país. O segundo erro é uma incompreensão acerca do papel do Partido dos Trabalhadores na atual quadra da história do Brasil. 

 

O PT não é apenas sua direção, nem tampouco sua estrutura formal, com 3 milhões de filiados. O PT é isso, mas também é o maior movimento social existente no Brasil, composto pela imensa maioria daquelas dezenas de milhões de trabalhadores e trabalhadoras que são dotados de consciência de classe. Esta é a Nação Petista. Por isso, repetimos: nossa vitória, a vitória da classe trabalhadora, só virá se for com o PT. Sem o PT ou contra o PT, só colheremos derrotas.

 

Se a Nação Petista nos proporcionou imensas alegrias, o “PT enquanto instituição” cometeu muitos erros.

 

Agora que a batalha eleitoral terminou, é preciso apontar as interpretações equivocadas e os erros cometidos pela oficialidade petista, erros que incluem desde aqueles que pensavam que nossa vitória seria obtida já no primeiro turno, até aqueles que estavam totalmente convencidos de que não haveria como vencer no segundo turno. 

 

Da nossa parte, como pode ser comprovado pela leitura das resoluções que a tendência petista Articulação de Esquerda vem aprovando e divulgando desde novembro de 2024, não fomos surpreendidos pela vitória parcial obtida pela extrema-direita no primeiro turno.

 

Era previsível que não haveria alteração qualitativa em favor da esquerda, nem nas eleições legislativas, nem nas eleições para governador. Era previsível, também, como já dissemos, que haveria segundo turno presidencial.

 

Entretanto, o fato de termos previsto — em linhas gerais — o resultado do primeiro turno não significa que ele era inevitável. Nosso governo, nossa campanha e nosso Partido cometeram erros gravíssimos, entre os quais destacamos:

 

i/ A ênfase em “comparar legados e entregas”, quando o certo seria e segue sendo disputar o futuro;

 

ii/ A subestimação da força dos inimigos, que chegou ao ponto de se planejar a campanha presidencial acreditando que a disputa terminaria no primeiro turno. Esta crença em uma vitória fácil desmobilizou e, na prática, contribuiu para a extrema-direita terminar o primeiro turno na nossa frente;

 

iii/ A ausência de candidaturas petistas a governador(a) no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro e em Sergipe, para ficar em alguns exemplos;

 

iv/ A demora em definir a candidatura a governador(a) em Minas Gerais;

 

v/ A falta de vontade de vencer em São Paulo, com uma campanha para governador que parecia satisfeita em “cumprir tabela”, num estado que possui o maior eleitorado do país;

 

vi/ A ausência de materiais da campanha Lula, ao mesmo tempo em que grande parte dos dirigentes concentrava seus esforços nas campanhas proporcionais (em alguns casos, as deles próprios). A verdade é que, no primeiro turno, boa parte das candidaturas proporcionais usou o nome de Lula, mas não fez a campanha por Lula. O mesmo se repetiu no caso de inúmeras candidaturas majoritárias;

 

vii/ A patética e assustadora incompetência de parcela da Direção Nacional do Partido, cujo presidente exerceu formalmente — no primeiro turno — a coordenação geral da campanha.

 

Os erros supracitados — e outros tantos — explicam em grande medida o fato de o Miliciano ter iniciado o segundo turno na nossa frente.

 

No segundo turno, alguns daqueles erros não foram e nem tinham como ser totalmente corrigidos. 

 

O mais grave desses erros é a política fiscal e monetária, consubstanciada nos limites impostos pelo Marco Fiscal e na taxa de juros estabelecida pelo Banco Central. Foram e seguem sendo estas duas variáveis que explicam, em grande medida, o endividamento do povo, a inflação e a insatisfação para conosco de parte da população, fatos que foram demagogicamente explorados por nossos inimigos.

 

No segundo turno, Lula adotou uma série de medidas — entre as quais destacamos a correção no Bolsa Família, o anúncio do valor do salário-mínimo e o fim das BETs — com as quais buscamos reduzir os danos. Todas essas medidas seguem na contramão do Marco Fiscal. Vale dizer que a adoção daquelas medidas, em si mesma, comprovou que havia espaço para fazer mais e melhor do que fizemos ao longo de três anos e meio.

 

A verdade é que a política monetária e fiscal, denominada como “austericida” pelo Diretório Nacional do PT anterior ao atual, quase nos derrotou. Apesar disso, o atual ministro da Fazenda, senhor Durigan (ex-executivo da big tech Meta, que torpedeou a campanha de Lula), concedeu várias declarações, depois do segundo turno, insistindo no ajuste fiscal!

 

Outros erros cometidos pelo governo, pelo Partido e pela campanha foram parcialmente corrigidos no segundo turno. 

 

É importante destacar que essas correções — entre as quais se destacam o deslocamento do presidente nacional do PT para uma posição coadjuvante e a promoção do deputado federal André Janones (Rede-MG) ao posto de “general” das redes —, mais do que a competência ou incompetência desta ou daquela pessoa, revelam os limites e a incapacidade do “modo de funcionamento partidário” que foi reafirmado no PED 2025 e predomina nas instâncias partidárias, a começar pelo Diretório Nacional do Partido.

 

Um grande exemplo disso: a extrema-direita venceu pela terceira vez seguida — em 2018, em 2022 e em 2026 — as eleições presidenciais na cidade de Maricá (RJ), cidade governada com abundantes recursos financeiros e cujo prefeito foi pessoalmente responsável por grande parte dos votos que elegeram o atual presidente nacional do PT e parte expressiva do atual Diretório Nacional do PT.

 

Outro exemplo: embora todos os integrantes do Diretório Nacional soubessem da importância da guerrilha digital, embora houvesse iniciativas em curso tentando dar conta disto, foi em boa medida graças a Janones que se construiu uma ferramenta para travar com êxito a batalha das redes, animando a militância, criando identidade, pertencimento e condições para avançar na mobilização digital, com o objetivo comum de reeleger Lula presidente. Assim, a extrema-direita, que sempre dominou as interações no mundo digital, desta vez sofreu um pesado revés.

 

Foi um êxito, ao menos por enquanto, pontual e momentâneo, uma vez que há limites estruturais no tipo de política que é possível fazer nas chamadas redes sociais, controladas por big techs pertencentes a bilionários norte-americanos, vinculados à extrema-direita e a Donald Trump. Os algoritmos não são neutros, o alcance e os preços das postagens dependem da ideologia do freguês.

 

Além disso, as redes estimulam um formato de debate que é mais favorável à direita do que à esquerda. O que, aliás, ajuda a compreender o adoecimento mental em grande escala e a exaustão psíquica presente nos que se engajaram no “Exército de Lula” (e de Janones).

 

Vale dizer, entretanto, que a adesão em massa ao “exército” demonstra que há um grande número de pessoas que compreenderam, ainda que implicitamente, que estamos “em tempos de guerra”. Mas como a cúpula de certos partidos de esquerda resiste a compreender isto e, principalmente, resiste a agir de maneira consequente com isto, o resultado é que as pessoas aceitam ser comandadas por quem está à disposição.

 

Seja como for, no segundo turno, a campanha mudou de atitude frente aos crimes eleitorais em grande escala, cometidos através da compra de votos, das “granjas de bots” e das “fazendas de conteúdo”, crimes que trazem as digitais de empresas e agências de inteligência estrangeiras, formais e informais. No segundo turno, nossa campanha subiu o tom contra o papel nefasto da grande mídia e das big techs, que entretanto seguem empenhadas em uma operação permanente de desgaste contra o PT e contra Lula. Motivo pelo qual devemos reiterar que conseguimos “dobrar a Meta”, mas precisamos mais do que isso: precisamos expulsar essas empresas do Brasil e construir uma estrutura digital sob controle nacional, pública e social.

 

Enquanto isso não ocorre, nosso combate nas redes, mesmo quando é taticamente exitoso, continuará sendo estrategicamente defensivo. Motivo pelo qual foi acertado priorizar a mobilização das ruas e o contato corpo a corpo, sem os quais, aliás, as redes não teriam tido sucesso.

 

As ruas foram decisivas, também, na superação do derrotismo que tomou conta de parte das pessoas, especialmente quando saiu o resultado do primeiro turno. Muitas vezes, esse derrotismo veio acompanhado de argumentos que hoje todos sabemos ser falsos, mas que na época eram apresentados como se fossem verdades científicas.

 

Por exemplo, os que diziam que “nunca houve uma virada no segundo turno”, esquecendo que nunca tinha havido um operário presidente, até elegermos Lula; que nunca tinha havido uma mulher presidenta, até elegermos Dilma; que nunca tinha acontecido de um presidente não conseguir a reeleição, até Lula vencer o Cavernícola, em 2022. O argumento que começa com “nunca” é essencialmente conservador. Mesmo assim, muita gente de esquerda o aceitou como verdadeiro.

 

Outro exemplo veio dos que diziam que “quando um governo é mal avaliado, o governante não consegue a reeleição”. Para reforçar o caráter supostamente científico desta afirmação, alguns usavam o termo “incumbente”, versão aportuguesada de uma palavra em inglês. Este argumento afetou pesadamente aqueles que acreditavam que Lula seria eleito graças ao “legado” e às “entregas”. Mas a vida demonstrou que um governo pode ser mal avaliado — devido, principalmente, a seus erros políticos e à uma política econômica equivocada — e mesmo assim ser vitorioso, graças à luta política.

 

Entre os derrotistas, outro argumento foi o de que “com esse Congresso que foi eleito, Lula não vai conseguir governar”, como se o atual Congresso fosse de esquerda, honesto e republicano. O atual Congresso não é nada disso, claro que enfrentamos dificuldades e sofremos derrotas, mas ainda assim conseguimos governar. E a derrota da escala 6x1 — e substituição pela escala 5x2 — demonstrou, mais uma vez, que é possível derrotar a maioria de direita que controla o Congresso Nacional.


Outra alegação foi o de que teria havido um “tsunami” de votos a favor da extrema-direita. Os dados não comprovam isso. Nos segundos turnos de 2018, 2022 e 2026, os cavernícolas conseguiram, respectivamente, 57 milhões, 58 milhões e 59 milhões de votos. Nunca houve “tsunami”, termo inventado para nos intimidar e nos paralisar.

 

Contribuíram para o derrotismo, também, as pesquisas. No balanço do primeiro turno, nós da AE dissemos que “devemos nos vacinar contra o impacto das pesquisas negativas, mas também contra o efeito anestésico das pesquisas positivas”. A esse respeito, vale citar o aspecto deletério da imensa maioria dos institutos de pesquisa, inclusive do DataFolha que, no sábado 24 de outubro, divulgou uma pesquisa que apostava na nossa derrota. 


Muito mais deletéria, entretanto, é a influência que estas pesquisas exercem sobre parte de nossas direções partidárias, gerando ondas imotivadas de euforia ou de desespero, conforme o caso. É importante destacar que, ao mesmo tempo em que, nas direções, mandatários e intelectuais, muita gente se deixou paralisar, na base militante e na classe trabalhadora prevaleceu outra posição: o combate, orientado pela certeza de que só consegue a vitória quem tem a disposição de vencer.

 

Foi este espírito derrotista que levou pelo menos um alto dirigente a defender, no final da tarde de 25 de outubro, a suspensão do processo eleitoral e a convocação de novas eleições na semana seguinte. Pensamos que isto também contribuiu para a decisão de requerer ao Supremo Tribunal Federal (STF) a prorrogação do prazo de votação. Embora totalmente correta no mérito, tendo em vista o conluio criminoso entre certos prefeitos (como Ricardo Nunes, de São Paulo) e empresas de ônibus, a medida foi inócua.


Embora concedida pelo ministro Cristiano Zanin, a medida teve sua implantação retardada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o bolsonarista devasso Kassio Nunes Marques, e foi ignorada pelos tribunais regionais eleitorais (TREs). No Brasil todo, apenas 34 mil pessoas votaram durante a prorrogação que, na ampla maioria dos locais de votação, nem mesmo chegou a ocorrer. A realidade, como ficou demonstrado pela apuração, é que às 17h de 25 de outubro já havíamos vencido.

 

As ruas não só derrotaram o inimigo, como também suplantaram o derrotismo. No segundo turno, mostramos que era possível organizar uma campanha militante, 24 horas por dia, sete dias por semana, até as 17h do dia 25 de outubro. Inesquecível campanha que deu visibilidade para Lula 13 e que nos permitiu dialogar com a maioria do povo brasileiro, nas ruas e nas redes, nas redes e nas ruas.

 

No segundo turno, organizamos melhor — mesmo que com atrasos e deficiências — a produção de material. Ao mesmo tempo, a militância fez parte de seu próprio material de campanha.

 

A mobilização das ruas e o contato corpo-a-corpo foram imprescindíveis para “furar a bolha”  e conversar com as mais amplas camadas do povo, com argumentos e linguagens que dialogavam distintamente com diferentes públicos e classes sociais, especialmente com os setores sociais que, ao fim e ao cabo, nos deram a vitória: os trabalhadores de menor salário, as mulheres, os negros e negras, a juventude, os idosos e o povo de coração nordestino, inclusive aquele que habita o Sudeste do país e que por ventura se absteve, votou branco, nulo ou até no cavernícola, corrupto, fascista e miliciano candidato da extrema-direita.

 

Foi em grande medida desse segmento do eleitorado, que não votou em nenhuma candidatura presidencial no primeiro turno, que vieram os votos que nos levaram à vitória. Por isso mesmo, destacamos a importância que teve, na conquista de 25 de outubro, a luta pelo fim da escala 6x1 e de outros temas de interesse da classe trabalhadora. 

 

A mobilização das ruas — em boa medida, feita por pessoas que se identificam com as bandeiras do PT — em alguns estados e cidades foi convocada e organizada, ao menos em parte, pelas direções partidárias. Mas em outras cidades e estados, a mobilização da própria base petista atropelou a inatividade e a burocratização das direções. Nesses casos, felizmente, a classe trabalhadora não pediu licença para defender Lula e o próprio PT contra dirigentes que não merecem este nome, revelando que um dos desafios que teremos pela frente é reconstruir o PT em inúmeras cidades onde, na ausência de contraponto, quem manda é a extrema-direita sustentada pelo agronegócio.

 

Importante registrar que, na resolução aprovada pela Direção Nacional da AE ao término do primeiro turno, escrevemos: “Para conquistarmos mais 7 milhões de votos, é decisivo recuperar o espaço da esquerda nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais”.

 

Isso foi feito: com limitações maiores ou menores, reconquistamos votos de quem já votara em nós em 2022 ou que tinha potencial de votar, tarefas que se demonstraram, para citar novamente nosso texto de 8 de outubro, “totalmente possíveis se fizermos agora o que já podíamos ter feito, mas em parte não fizemos, no primeiro turno”. Isso vale para a votação do fim da escala 6x1, bem como para outras medidas que foram adotadas no segundo turno: tudo isto deveria ter sido feito no primeiro turno e, em vários casos, nos primeiros anos do terceiro mandato e não nos últimos meses.

 

Acertamos também, no segundo turno, em fazer o que foi dito com todas as palavras no já citado documento da AE: “Ter um discurso focado na defesa e construção do futuro do Brasil (...) falar das reformas estruturais que mudem nossa sociedade e nosso lugar no mundo, garantindo soberania, democracia, bem-estar, meio ambiente e desenvolvimento (...) tomar medidas imediatas e urgentes para melhor a vida do povo. Destacamos, a respeito, os seguintes temas: baixar o preço dos alimentos, libertar o povo do endividamento e dos juros altos, melhorar os serviços públicos (com destaque para saúde, educação, transporte, passe livre e segurança)”. 


Também dissemos: “A superação do projeto racista e antifeminista da extrema-direita deve caminhar lado a lado com a centralidade das mulheres e das negras e negros na transformação do país, assegurando que a autonomia econômica, as políticas de cuidado, a reparação histórica e o enfrentamento rigoroso à violência de gênero e racial estejam no centro do orçamento do Estado e da luta da classe trabalhadora. Nesta mesma perspectiva, o fim da escala 6x1 é parte estruturante de uma vida melhor para as maiorias do povo, uma política civilizatória segundo a qual devemos trabalhar para viver e não viver para trabalhar. O governo deve tomar uma iniciativa prática nesse sentido e Lula deve dar todo o destaque para o tema na campanha e nos debates. (...) a ‘comparação de legados’ e o ‘medo dos criminosos’ não devem ser o aspecto central de nosso diálogo”. 


Acrescentava, ainda, nosso documento: “O central é o futuro. Mas isso não significa baixar o tom. Pelo contrário, é hora de polarização sem trégua, para derrotar o crime, as milícias, a Faria Lima, os vendilhões do templo, os feminicidas, os racistas, os fundamentalistas, os negacionistas e — acima de tudo — os imperialistas, os golpistas e os traidores da pátria. Nossa campanha deve denunciar, desmontar e desmoralizar a candidatura da extrema-direita, lembrando que um governo ultraliberal beneficiará somente o agronegócio, as mineradoras, o capital financeiro e os Estados Unidos, prejudicando fortemente o povo trabalhador, as mulheres, os negros e negras, a juventude”.

 

Por quais motivos tudo isso não foi feito antes? Em parte, por erros políticos; em parte, por erros organizativos; em parte, porque grande parte de nossas lideranças priorizou, no primeiro turno, as campanhas proporcionais. Este tema precisa, também, ser enfrentando. Se não houver voto em lista, se as eleições continuarem sendo um festival de canibalismo, será cada vez mais difícil enfrentarmos com sucesso as campanhas majoritárias. Neste sentido, é preciso ficar atento para o debate sobre a reforma política eleitoral que está em curso, neste momento, no Congresso Nacional. Também é necessário reabrir o debate sobre a Federação, pois mais uma vez os resultados indicam que a Federação não é o melhor caminho para institucionalizar as coalizões eleitorais.

 

Por fim, mas não menos importante do que tudo que foi dito até agora, o segundo turno demonstrou que a esquerda como um todo e o PT em particular possuem imensa força e influência na juventude. Um dos motivos que explicam isso é o esforço que nossos governos fizeram para garantir o acesso de jovens de origem popular na educação em geral e nas universidades em particular. Não é por acaso que a maré vermelha teve como ponto de partida o movimento dos estudantes, que começou na Universidade Federal Fluminense (UFF), no dia seguinte às eleições, e tomou as ruas ao longo de toda a campanha. Um de nossos grandes desafios é como organizar e manter mobilizada toda esta energia jovem. 

 

Passada a eleição, devemos trabalhar para que as direções estaduais, municipais e setoriais do PT:

 

i/ Debatam e aprovem balanços do processo eleitoral, com análises focadas nas respectivas realidades locais;

ii/ Vinculem o balanço do processo ao debate sobre os desafios futuros, tanto do governo Lula, quanto de nossos governos estaduais e municipais, nossos mandatos parlamentares, os movimentos sociais e organizações populares que dirigimos ou influenciamos;

iii/ Convidem, para participar do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, a militância que se aproximou de nós durante o processo eleitoral;

iv/ Além disso, devemos apoiar e nos engajar nas mobilizações convocadas para o dia 20 de novembro; e devemos organizar e fortalecer mobilizações na data da diplomação de Lula e na data da posse de Lula.


Ademais, devemos trabalhar para que o Partido convoque um novo congresso partidário, e que a eleição de delegados seja marcada para março de 2027. Cabe lembrar que o que está previsto é um congresso com os delegados eleitos no PED 2025. Entendemos que o correto é realizar nova eleição de delegados, seja porque os mandatos conferidos aos eleitos em 2025 não são eternos, seja para permitir que as novas filiadas e filiados participem, seja para garantir que as decisões que venham a ser tomadas sejam efetivamente expressão do que pensam hoje as bases do Partido.

 

Nesse Congresso, vamos propor grandes mudanças no estatuto partidário, assim como vamos defender que o Partido reafirme seu histórico programa democrático-popular e socialista.

 

Plano de trabalho

 

Nas batalhas que virão, nossas chances de vencer serão maiores se tivermos, além de uma linha política correta, uma direção partidária que funcione.

 

O tema da direção deveria ser relativamente simples de resolver: quem não deu conta do recado, deveria “pedir para sair”, facilitando as alterações que são inevitáveis, urgentes e que precisam ser feitas através do velho e bom método democrático, que começa pela realização de um congresso partidário, com delegados eleitos agora.

 

Mas, como sabemos, há vários obstáculos para que isso ocorra. Por incrível que pareça, na reunião da Executiva Nacional do PT ocorrida no dia 29 de outubro de 2026 vários dirigentes exaltaram o papel da atual direção nacional, confundindo o papel formidável, imprescindível, admirável da militância do PT e dos simpatizantes — a Nação Petista — nesta eleição, com o desempenho medíocre, apático e deplorável de um importante setor da direção.

 

O segundo obstáculo para que ocorra um debate saudável é o ambiente de “guerra civil” existente na tendência atualmente majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB), “guerra civil” essa que paralisa um amplo setor do Partido. Embora as várias alas da CNB defendam posições semelhantes do ponto de vista programático, estratégico e tático, elas se digladiam brutalmente, criando um ambiente em que o debate político em profundidade, bem como as decorrentes medidas organizativas, é atravessado por questões de outra natureza.

 

O terceiro obstáculo a dificultar um processo de debate em profundidade é a atitude muitas vezes passiva e, em alguns casos, abertamente cúmplice adotada por outras tendências internas do Partido. Ao invés de trabalhar para constituir um polo alternativo — que ajude a libertar o Partido, hoje engessado por um “partido dentro do partido” chamado CNB — estes setores priorizam se aliar com as diferentes alas do grupo atualmente majoritário, o que, na prática, contribui para perpetuar uma situação que tem levado o Partido a viver sucessivos impasses e dificuldades crescentes.

 

Da nossa parte, encaramos assim o problema: um dos grandes paradoxos revelados pela eleição de 2026 é, de um lado, a imensa força e radicalidade da Nação Petista; de outro lado, a burocratização e acomodação de parte importante da estrutura oficial do Partido. Este paradoxo, se não for resolvido, pode levar o PT a uma crise sem volta. Ganhamos no dia 25 de outubro uma nova chance para tentar resolver este problema. Mas ele não será resolvido pela CNB. Como resolver o problema? Isto é um dos temas que precisa ser tratado, não apenas no XI Congresso, mas no debate aberto no âmbito da Nação Petista.

 

Os pontos de partida deste debate devem ser os seguintes: 1) Não podemos abaixar a guarda frente à extrema-direita, nem aos setores da direita tradicional que nos querem derrotar ou domesticar; 2) Não podemos recuar do saldo mais importante deste segundo turno, que foi a mobilização popular; e 3) Não podemos repetir, em 2026, o erro cometido em 2014, no governo Dilma, quando derrotamos a direita para, logo em seguida, implementar uma política econômica ortodoxa.

 

É importante destacar que a política adotada em 2015 e a defesa que setores da esquerda fazem do ajuste fiscal hoje decorrem da influência do social-liberalismo em nossas fileiras. Dizendo de outra forma: o neoliberalismo, em todas as suas variantes, ganhou espaço dentro do PT e precisa ser combatido. Nessa, como em outras questões, o Partido precisa retomar o debate ideológico e programático. Este é o caminho, inclusive, para outras de nossas  tarefas inescapáveis: conquistar ou reconquistar os milhões de trabalhadores e trabalhadoras que estão, hoje, sob o domínio do mal.

 

Orientamos nossas direções estaduais, municipais e setoriais a:

 

i/ Debater e aprovar balanços do processo eleitoral, com análises focadas nas respectivas realidades locais. Chamamos a atenção, desde já, para o fato de que, no Nordeste do país, terminamos o primeiro turno elegendo em 2026 o mesmo número de deputados federais que havíamos conseguido eleger em 2022, demonstrando que a estratégia predominante em nosso partido afeta negativamente nosso desempenho em todas as regiões do país, mesmo que o faça de formas e em ritmos distintos;

 

ii/ Vincular o balanço do processo eleitoral e da conjuntura nacional decorrente ao debate sobre os desafios futuros, tanto do governo Lula quanto de nossos governos estaduais e municipais, nossos mandatos parlamentares, bem como dos sindicatos, movimentos sociais e organizações populares que dirigimos ou influenciamos. Destacamos desde já, no caso do governo federal, a necessidade de o Partido influenciar na composição do governo, inclusive para garantir que o próximo ministro da Fazenda seja não um social-liberal fissurado pela necessidade do ajuste e equilíbrio fiscal, mas pelo menos um desenvolvimentista comprometido com melhorar a qualidade de vida do povo brasileiro, com rapidez, num ritmo de “quarenta anos em quatro”;

 

iii/ Convidar, para participar deste processo de balanço e definição de tarefas, aqueles setores do Partido que estejam se demonstrando dispostos a tomar as medidas que precisam ser tomadas, para que possamos dar conta dos desafios futuros;

 

iv/ Convidar, para integrar tanto o PT quanto a AE, a militância que se aproximou de nós durante o processo eleitoral;

 

v/ Implementar, com os ajustes necessários, o plano organizativo previsto pela Resolução do X Congresso Nacional da AE, bem como as medidas de curto prazo detalhadas no Orientação Militante n° 545;

 

vi/ Começar a preparar, desde já, a mobilização em defesa da pauta do povo. 


A luta em defesa da pauta do povo, enfatizamos, é o melhor caminho para sustentar o governo Lula, nossos governos estaduais e municipais, bem como para ampliar nossa votação nas eleições de 2028 e 2030.


Eleição da Direção Nacional e da Comissão de Ética Nacional

 

A atual Direção Nacional da AE é composta pelas seguintes pessoas (indicando ao lado do nome as respectivas funções, tarefas ou condições exibidas durante grande parte da gestão):

 

Adriana Souza (MG) foi candidata em 2026 e se elegeu deputada estadual; Ana Affonso (RS) foi candidata em 2026; Ana Flávia (RN), secretária de nucleação da JPT nacional e responsável pela agenda de visitas da DNAE às cidades; Damarci Olivi (MS), tesouraria; Daniela Matos (DF), tesouraria adjunta; Eliane Bandeira (RN), acompanhamento Sergipe; Fátima Lima (RJ),acompanhamento dos setoriais nacionais; Gleice Jane (MS) foi candidata em 2026 e se reelegeu deputada estadual; Hilton Faria da Silva (TO), acompanhamento Maranhão; Humberto Amaducci (MS); Ivonete Alves (SE), direção da CNTE e acompanhamento de Pernambuco; Jandyra Uehara (SP), Direção Nacional da CUT e Coordenação Sindical Nacional da AE, acompanhamento Sergipe; Júlio Quadros (RS), DN e acompanhamento Paraná; Leirson Azevedo (PA); Luiz Boneti (RS), DN; Marcos Jakoby (RS), edição do site, coedição do OM, coedição do Página 13, acompanhamento Santa Catarina; Múcio Magalhães (PE), acompanhamento Goiás; Natália Sena (RN), DN, CEN, coordenação do GTE eleitoral, coedição do podcast, Secretaria Nacional de Formação; Patrick Campos (PE), edição do podcast, acompanhamento Piauí, secretário nacional de Organização e candidato a deputado federal; Suelen Aires Gonçalves (RS), coedição da revista Esquerda Petista, acompanhamento de Minas Gerais e do Espírito Santo; Valter Pomar (SP), edição do OM, edição do Página 13, edição da Esquerda Petista, acompanhamento dos estados do AM, AC, RR, RO, AL e CE; Wilma dos Reis (DF), licenciada para tratamento de saúde.

 

A Comissão de Ética Nacional é composta por Jonatas Moreth (DF) e Sophia Mata (RN), tendo como suplentes Izabel Costa (RJ) e Pere Petit (PA). 

 

Os atuais integrantes da direção apresentarão um balanço de sua atuação e informarão se pretendem permanecer na próxima direção.

 

A atual Direção Nacional constituirá uma comissão encarregada de receber as propostas de mudança na DNAE e Comissão de Ética, apresentando ao XI Congresso uma nominata para debate e votação.


Mais do que nunca precisamos de um Partido para tempos de guerra, dotado de uma esperança vermelha.


Viva a classe trabalhadora!


Viva o Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras!


Viva o socialismo!