terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Fevereiro e a "relação de forças"

Hoje o José Luís Fevereiro enviou no meu "zap" um "post" que ele publicou em sua conta no "face".

O tal post diz o seguinte: “POLÍTICA EXTERNA E PROJEÇÃO DE VIRTUDE. Tem muita gente por todos os partidos da esquerda que acha que a política externa se faz apenas com imperativos morais e projeção de virtude. A relação de forças não existe, é apenas a desculpa dos traidores. É um mundo religioso onde a esquerda se divide em bons e maus. Nas relações internacionais essa postura não serviria para nada, mas coloca seus defensores na sua zona de conforto.”

Agradeço a gentileza de Fevereiro, de me enviar seu texto. Busco retribuir com os comentários a seguir.

De fato, a política em geral e a política externa em particular não se fazem "apenas" com "imperativos morais e projeção de virtude".

Aliás, especificamente na política externa o papel da "moral" e da "virtude" chega a ser "marginal", de tão reduzido.

Entretanto, embora concorde com a tese de Fevereiro, registro que ela serve para encobrir todo tipo de oportunismo.

Vou dar um exemplo: um debate que tivemos no Diretório Nacional (DN) do PT, na época do Lula 1.

Naquela época, o Fevereiro não era mais do PT, tinha saído para o PSOL, se lembro bem por considerar que os setores hegemônicos do PT usavam a "relação de forças" como pretexto para fazer concessões que ele então considerava inaceitáveis (mas posso estar lembrando errado).

Voltando ao exemplo: estávamos no DN debatendo a taxa de juros do Banco Central, na época do Meirelles.

Um certo dirigente do PT, economista conhecido e integrante do atual governo, fez uma defesa quase entusiasmada da correção da então elevada taxa de juros, baseado na premissa da correlação de forças, que supostamente não permitiria nada diferente.

Eu respondi que concordava com a premissa - a correlação de forças não era favorável - só não entendia por qual motivo daquela premissa decorria aquela específica taxa de juros. E insisti que mesmo aceita a premissa, havia margem de manobra para uma taxa de juros menor.

O célebre economista não respondeu nada, talvez porque não houvesse o que responder.

Pois bem: a "relação de forças" internacional é hoje muito ruim, mas isso não significa que nossa margem de manobra seja zero. E se temos alguma margem de manobra, ela deve ser usada. Inclusive porque se não fizermos isso, a margem de manobra tende a piorar.

Por exemplo: Cuba. Se não fizermos nada, se assistirmos impassíveis Cuba ser sufocada, a situação política externa e interna vai piorar. Ou alguém acha que um eventual colapso na Ilha não vai ser um ativo eleitoral importante para a extrema-direita brasileira?

Portanto, há razões pragmáticas, inclusive eleitorais, para fazermos algo prático: enviar petróleo para Cuba. Isso, como é óbvio, vai gerar tensões com os Estados Unidos. Além disso, a ajuda pode ser interceptada. Mas mesmo nesse caso, será melhor fazer algo, mesmo que não dê certo, do que não fazer nada.

Portanto, socorrer Cuba não é "apenas" um "imperativo moral e projeção de virtude". É também uma necessidade política e pragmática.

Aliás, chega a ser paradoxal ver a mesma pessoa ironizar os que tratam a política como "mundo religioso onde a esquerda se divide em bons e maus" e, ao mesmo tempo, atacar os "ratos que rugem".

Como já disse noutro texto, o Brasil, o governo Lula e a esquerda brasileira não são "ratos". Até por isso, não precisamos ter medo de vez ou outra dar uns rugidinhos. Nem podemos ter vergonha de admitir que, em alguns momentos da história , qualquer que seja a correlação de força, temos obrigações "morais" a cumprir.

Mas, claro, não preciso falar disso a quem já foi do PT e saiu buscando construir algo menos sujeito aos imperativos da “correlação de forças”. Ou será preciso?




Nenhum comentário:

Postar um comentário