domingo, 18 de outubro de 2026

A entrevista da "pilantra" (sic)

Não conheço a dona Roberta Luchsinger.

Para falar a verdade, nunca tinha ouvido a voz dela, até assistir a entrevista "concedida" por ela à rádio CNN, na sexta feira dia 17 de outubro de 2026.

A entrevista pode ser conferida aqui: 


A entrevista tem aspectos estéticos muito interessantes: a decoração do local onde a entrevista foi concedida, a roupa séria e bem comportada, o tom lacrimoso de inocente ofendida e a boca seca.

Como nunca a vi antes, talvez este seja o padrão. 

Já os entrevistadores cumpriram seu papel: deixaram a entrevistada atacar bastante o presidente. 

Aqui ou ali pediram objetividade, sem nunca conseguir. 

E, como citarei mais adiante, não fizeram algumas perguntas óbvias.

Grande parte da entrevista gira em torno de um eixo: dona Roberta não gostou de ser chamada de  "pilantra", de "mau-caráter" e de ser comparada com quem ela própria chama de "o maior criminoso da atualidade", a saber, mister Vorcaro.

Perguntada sobre suas relações com o Careca do INSS, especificamente sobre o fato dela ter apresentado "o filho do presidente ao empresário", dona Roberta diz que não conheceu o tal "Careca", mas sim o "Antonio Camilo", um empresário de sucesso a quem ela teria prestado "serviços" profissionais e com quem ela teria rompido ao saber dos malfeitos com as aposentadorias.

Curiosamente, ela exige do presidente saber tudo o que se passa ao seu redor, mas ela própria se concede o direito de ser surpreendida com os métodos que fizeram de "Antonio Camilo" um "sucesso". 

Que serviços dona Roberta prestou a Antonio Camilo?

Segundo a própria, numa definição que merece ser citada no Book of Records da Guinness: "uma prestação de serviços, buscando viabilidade de uma readequação de uma reestruturação das RDCs da Anvisa, que eram muito antiquadas e só permitiam que o Canabidiol fosse no Brasil comercializado via medida judicial".

Viabilidade de uma readequação de uma reestruturação.

Tudo, é claro, em nome de melhorar o sistema de saúde. 

Quais os valores envolvidos? Não sei e os entrevistadores não perguntaram.

A maior empulhação desta parte da entrevista, entretanto, é que dona Roberta tenta passar a impressão de que os tais "serviços" não teriam relação alguma com o fato dela ter apresentado o filho do presidente ao Careca. 

Ou seja, ela supostamente não teria recebido, nem ganho nada, decorrente da apresentação, "em caráter social", do Fábio Luís ao Antonio Camilo: "se após aquilo se desvencilhou (sic) em algum negócio", ela não tem nada que ver com isso. 

A fantástica expressão "se desvencilhou em algum negócio" mereceria um comentário, mas isso fica para outra hora.

Pressionada a ser mais objetiva, nessa e noutras passagens da entrevista, dona Roberta insiste que apenas apresentou duas pessoas e, a partir daí, o problema não é mais com ela, que aliás não saberia o que consta no inquérito, que corre sob segredo de justiça.

Mas sobre si mesma, dona Roberta faz questão de dizer que a própria PF teria chegado à conclusão de que ela não teria nada que ver com o escândalo do INSS.

E sobre o restante da confusão, de quem seria a culpa? Segundo dona Roberta, seria do amigo e do cliente.

Num resumo, ela seria uma espécie de Forrest Gump. Estava presente por acaso, viu tudo, mas não sabe falar de nada.

Para quem não lembra da história de Forrest Gump, ler aqui:


Mas o esforço de parecer uma vítima é tão calculado e teatral, que às vezes ela própria perde a mão, como por exemplo na parte em que especula sobre quem seria "o filho do rapaz".

A partir deste ponto, a entrevista concentra seu foco no filho do presidente, acusado por ela de ter estado "inúmeras vezes" com ministros do governo. 

Mas quando a CNN pede para ela ser objetiva, dona Roberta diz não poder fazer isso por razões judiciais. Mas engata dizendo ser "público" e "notório" que o filho do presidente inúmeras vezes esteve com ministros.

Ou seja: ela dá uma entrevista para dizer, para a mídia, que os fatos devem ser buscados... na mídia.

Me lembra os tios do zap, que repetem barbaridades que viram na Internet e que, quando questionados, usam como prova... a Internet.

Detalhe: ao mesmo tempo que diz não poder detalhar nada, alegando razões judiciais, Dona Roberta chega a dizer que o filho do presidente sentava "semanalmente" com ministros. 

A técnica de conversação de Dona Roberta me recorda, também, um personagem de Asterix e a Cizânia, um cidadão chamado Tulius Detritus, especialista em insinuações, maledicências e quetais.

Principalmente maledicências.

Quem quiser saber mais sobre Tulius Detritus, ver aqui: La Zizanie (Asterix) - Wikipedia

Segundo Dona Roberta, ela própria sentava com ministros do governo, mas sempre para discutir "políticas públicas". Já o filho do presidente, fica no ar a insinuação.

A CNN, talvez aflita pela falta de concretude, perguntou se dona Roberta já teria feito reuniões com algum ministro, em que o filho do presidente estivesse presente. 

Dona Roberta responde que "como é de sabença geral, ele ficava comigo o tempo inteiro", logo "com certeza" o filho do presidente deve ter participado de alguma conversa, especialmente "no tema que eu mais batalhei", que foi o do Canabidiol.

A construção verbal utilizada por dona Roberta é padrão Tulius Detritus: "provavelmente com certeza já participou sim".

Provavelmente com certeza e como é de sabença geral, dona Roberta deu essa entrevista com objetivos eleitorais.

Sobre isso voltaremos mais adiante.

A CNN insistiu em perguntar se o filho do presidente relatou a dona Roberta algum contato com algum ministro.  

Dona Roberta respondeu não ter associação profissional com o filho do presidente. 

E nesse ponto ela leva o teatro ao limite: em tom de aparente ironia, ela diz que tivesse o poder que atribuem a ela, então "eu não sou sócia do filho, eu sou sócia do presidente".

A CNN insistiu: se você não era sócia do filho do presidente, então por qual motivo a senhora diz ter participado de reuniões com ministros, tendo supostamente o filho do presidente ao seu lado?

A resposta dela foi: "não sei te falar", "na minha presença, não".

Ou seja: ao mesmo tempo que dona Roberta alardeia intimidade total-  estava o tempo todo, diariamente do meu lado, o quarto dele na frente do meu, mesma casa, mesmo ambiente, viagens entre famílias - ela não consegue apontar uma única reunião concreta entre ela, o filho do presidente e um ministro: "nunca me contou", "nem cabe a mim perguntar".

Sobre seu próprio trabalho, dona Roberta passa a impressão de que virou lobista para ajudar pessoas em dificuldades.

Entre essas pessoas, estaria "a maioria dos ministros", que buscavam ter acesso ao presidente e "recorriam muito ao Fábio e a mim, para conseguir uma agenda". E acrescenta: "Não precisavam passar por mim, mas dada a dificuldade e dada a amizade e intimidade, sim, eles pediam ajuda". 
Segundo ela, isso decorria do "jeito meio bagunçado e amador no agir" que prevaleceria no governo.

A CNN pergunta se o presidente Lula sabia desse modus operandi.

E, especialmente a partir desse ponto, fica 100% escancarado o propósito eleitoral da entrevista. 

Segundo dona Roberta. alguém que "não sabe o que está acontecendo na ante sala dele, ou é um mentiroso ou está senil, esclerosado, como disse o Ciro Nogueira outro dia".

Citar o Ciro foi um óbvio ato falho. Mas até grandes artistas cometem erros.

Na linha de produzir frases úteis à campanha do Miliciano, dona Roberta diz que "a principal coisa que ele sabe, que tem certeza, é que a melhor amiga do filho dele sou eu". Ele "pode estar esclerosado e não se lembra, tá com alguma senilidade e não lembra, não lembrava nem do Bolsa Família, nunca sabe nada do entorno dele".

Sobre os favores que concedeu, dona Roberta diz existir "uma linha muito tênue entre a amizade e o cargo que ele ocupava, isso para mim é um amigo pedindo um favor, pode ser da minha parte amador ou imoral, não sei se é crime, nunca houve contrapartida, nunca tive contrato público."

Talvez chocada com tanta generosidade, a CNN perguntou o que dona Roberta ganhava em ajudar os ministros. 

A resposta foi: "não ganhava nada", contribuía para "um projeto de país", "eu mais perdi nisso tudo do que ganhei". 
E transfere aos ministros e demais pessoas que ela supostamente ajudou, a obrigação de dar explicações. Quanto a ela: "o que eu fiz, se for crime, eu vou responder, na minha cabeça não foi crime".

E novamente dispara frases muito  úteis para a campanha do Miliciano: "Fui condenada por ele, um canalha, um covarde", que atacou "uma mulher que tem duas filhas", "um homem desses não pode falar sobre feminismo, sobre feminicídio, sobre machismo, porque ele é o próprio machista, ele preservou todos os homens e me jogou, a única mulher, aos leões".

Basta lembrar da demissão do chefe de gabinete, um homem, para confirmar que isto é mentira.

E por falar em mentira, a referência aos "leões" e, noutra passagem, à "maçã envenenada" que ela teria oferecido aos ministros, são indícios da autoria do roteiro e a que público se dirige.  

Neste ponto da entrevista, dona Roberta informa que fará uma "delação premiada"

Questionada sobre o que apresentaria nesta delação, dona Roberta se enrola toda, pois é óbvio que só faz delação premiada quem tem alguma culpa no cartório. 

Para tentar manter o script, dona Roberta lembra que há medidas cautelares contra ela, que o processo corre em segredo de justiça, que ela não pode dizer o que está lá dentro.

E, na falta de substantivos, vomita adjetivos: "grande mau-caráter, mentiroso, covarde".

Questionada pela CNN acerca da "vida do filho do presidente na Espanha", ela não diz absolutamente nada de objetivo. Aliás, foi assim na entrevista inteira. Zero fato, escudada na promessa de que vai falar "no âmbito judicial".

Nesse ponto da entrevista, ela novamente fala do seu "projeto", não de país, mas de ter um apartamento alugado em Madri e de viver com a filha na Suíça. Como diria uma amiga: “white people problems”.

A CNN insiste: dona Roberta, se sua vida é "um livro aberto", então o que mais você "teria para acrescentar" numa delação premiada?

A resposta é: "talvez detalhes que não estão ali no zap". E, nesse contexto, ela diz que "tenho duas filhas e tenho uma máquina publica sendo movimentada contra mm e contra minhas duas filhas". E chega ao ponto de fazer insinuações acerca de um "misterioso" acidente de carro que teria ocorrido com sua filha, na cidade de Sâo Bernardo do Campo (SP).

A CNN nada questiona, apenas ouve.

Dona Roberta agrega: vou "fazer o que tiver que fazer para proteger minhas filhas".

A CNN pergunta, então, se as supostas revelações que dona Roberta teria fora do zap, poderiam levar à abertura de investigação contra o presidente. A resposta é Tulius Detritus versão 5.0: "acho que o presidente tem que conversar melhor com o filho dele",

E volta a dizer que estaria sendo coagida, que perdeu "todos os contratos" com "clientes que eu tenho há mais de dez anos de trabalho sério". Que não participou, mas que teria assistido a movimentos que justificariam uma delação premiada, cabendo a justiça avaliar se é imoralidade ou se é ilegalidade.

E neste ponto ela introduz na conversa a construtora EBC e o empresário Amauri Pinha, acusado de ser vizinho do filho do presidente (e, se entendi direito. vizinho de dona Roberta).

O que ela fala de concreto sobre isso? Nada. 

Pergunta "quantas vezes esse Amauri Pinha entrou no Palácio? no DNIT? na Petrobras?"

Diz que esse "acesso era franqueado pelo vizinho, pela amizade".

Diz que viu eles conversando, mas agrega que "não tenho como falar o que eles conversaram", o que eu estou dizendo é o que todo mundo sabe".

E adiciona: "ele continua mentindo, um homem desses não pode continuar na presidência do Brasil, ele mente o tempo inteiro".

E reclama de ter sido chamada de Vorcaro feminino, falastrona, pilantra e mau caráter.

E toda vez que a CNN pergunta sobre fatos concretos, ela escapa dizendo que sabe "o que todo mundo sabe", o que está na mídia, citando nesse caso especificamente a Veja.

Você tem "informação ou suspeita de irregularidade?"

Resposta: "eu não tenho que suspeitar de nada, não tenho informação nenhuma, o que estou dizendo é o que a mídia está dizendo".

Neste momento, ela acrescenta: "se alguma coisa acontecer comigo e com minhas filhas", a culpa seria do culpado de sempre.

A CNN insiste: "eles tratavam de negócios, alguma vez que você tenha visto?"

"Não sei, porque era de porta fechada, eu não fazia parte disso. Já fizeram reunião na minha casa, eu na sala, eles ali fazendo reunião. Não cabe a mim ouvir, se não sou chamada não vou escutar". Mas, ao mesmo tempo, o presidente "sabe sim de tudo o que acontece".

A coisa foi tão longe que a entrevistadora da CNN deixa escapar: "isso acaba sendo uma ilação".

E dona Roberta retruca: "ilação é o que ele fez comigo".

Diz que sua relação com o presidente "nunca foi profissional, comercial", foram sempre "relações institucionais", que o presidente "tem que saber, se não sabe não poderia estar no cargo".

E reclama que estariam "usando o dinheiro publico para moer a minha reputação", com "retaliações", "ameaças", "minhas filhas vão definhar". E nesse ponto deixa escapar que só não está pior, "porque tenho amigos".

Quais, a CNN não pergunta.

Dona Roberta seguiu então reclamando do que "ele está fazendo com duas meninas, tirando provento da mãe que sustenta duas meninas", alguém que ajudou "muito a família dele", um "mentiroso", usando de "mau caratismo contra uma mulher", não tem "o direito de falar que defende as mulheres".

Sem dúvida, a entrevista revela que a campanha do Miliciano percebeu que vai perder as eleições e que precisa reduzir o apoio de Lula entre as mulheres.

É por isso que dona Roberta pede "ajuda” para que “não façam nada contra minhas filhas e contra mim".

A CNN, como é óbvio, termina agradecendo "imensamente" pela entrevista.

Igualmente agradecido deve estar o Miliciano e sua corja.

Da minha parte, “agradeço” porque agora posso dizer que conheço um pouco dona Roberta e os motivos pelos quais ela foi adjetivada como foi, pelo presidente.

Para além das motivações e consequências estritamente eleitorais - vide, por exemplo, o debate que vai ocorrer, neste domingo 18 de outubro, na Band - uma das coisas que impressiona nessa história é constatar como, na atual quadra da história do Brasil, personagens desse quilate conseguem ganhar tanto espaço e poder.

Os cavernícolas e o tipo de gente que a eles presta serviço é do naipe é gente do pior tipo. A vitória de Lula, no dia 25 de outubro, de fato é uma batalha civilizacional. Inclusive contra a pilantragem.

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