quinta-feira, 23 de maio de 2024

A greve dos docentes e o Proifes

No dia 22 de maio, a CUT organizou uma boa Marcha em Brasília.

Em certo momento da Marcha, fez uso da palavra o vice-presidente do Proifes, entidade que disputa com o Andes a condição de representante dos docentes das universidades públicas federais.

O vice falou da greve dos docentes das federais.

Disse que o governo apresentou uma proposta.

Comentou que estão ocorrendo assembleias para deliberar sobre a proposta.

E concluiu informando que, semana que vem, o Proifes assinará a proposta…

… imediatamente deu-se conta do ato falho e emendou mais ou menos assim: “isso, é claro, se as assembleias aceitarem a proposta”.

O vice-presidente foi sincero: o Proifes quer assinar a proposta e está trabalhando ativamente por isso.

O que ele não comentou é que a imensa maioria dos docentes em greve não reconhece o Proifes como sua entidade nacional.

Não comentou, também, que várias associações docentes ligadas ao Proifes decidiram - na contramão de sua entidade nacional - entrar em greve.

Tampouco comentou que a maioria das assembleias realizadas até agora rejeitou a proposta do governo, que dá zero de reajuste em 2024, sendo que para os aposentados dá duplo zero.

Atendendo neste caso à orientação de “não remoer o passado”, não vou lembrar, aqui, como e para que foi criado o Proifes. 

Apenas registro que a Marcha era o espaço mais que adequado para que um Sindicato - ao invés de avisar que já desistiu de lutar - defendesse as reivindicações da categoria que pretende representar.

Espero que a CUT faça gestões junto ao presidente Lula, para que altere a proposta apresentada. Afinal, zero é zero. E duplo zero para os aposentados é inclassificável.

Vale dizer que o PT já fez estas gestões. Entre outros motivos porque não faz sentido, politicamente falando, conceder reajuste para algumas categorias (como a PF e a PRF) e zerar o reajuste dos professores.

A não ser, é claro, que o objetivo seja dar um tiro no pé. 





quarta-feira, 22 de maio de 2024

José Dirceu rumo a seus plenos direitos

Está de volta a “bússola do PT”. Com frases deste tipo, muita gente comemorou a recente decisão judicial que acumula para restituir os plenos direitos políticos de José Dirceu, ex-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores .

A citada decisão foi baseada no mesmo padrão adotado no caso de Lula. Ou seja: as mesmas instituições que, no passado, avalizaram o mérito das barbaridades cometidas pela Lava Jato, agora dizem que houve falhas no método. E, com base nisso, anulam os processos. O mesmo foi feito no caso de Marcelo Odebrecht e outros.

Quem vai pagar pelos danos causados? Quem vai reparar os estragos provocados pelos governos Temer & Cavernícola? Os atuais ministros do STF que foram cúmplices vão continuar julgando??

Aliás, quem vai pagar pela decisão judicial, também de ontem, que garantiu a Moro - aquele mesmo - seu mandato?

Por todos estes motivos, é prudente fazer uma análise mais refletida sobre o papel do judiciário, antes e agora. Talvez esta análise venha a ser feita, futuramente, mas no momento - ao menos em dois grupos de “zap” de que participo, o que mais tenho lido são declarações entusiasmadas pelo “regresso do comandante”, que “precisa voltar a fazer parte do Diretório Nacional do PT”

De fato será muito útil que Dirceu volte ao DN, cabendo ressaltar que se ele não está lá hoje, não é por conta de uma decisão judicial, mas sim por conta da opção que prevaleceu, em determinado momento, em determinada tendência.

Alias, é dos integrantes desta tendência que partem as maiores comemorações. 

Compreensível: a chamada “Construindo um novo Brasil” passa por momentos difíceis, com muitas divisões e certa dificuldade, digamos assim, de lidar com alguns dos efeitos colaterais da política adotada nas eleições de 2022.

Zé Dirceu “de volta” gera, em alguns setores do Partido, a ilusão de que “os bons tempos” também vão voltar. Mas é pouco provável que isso ocorra, ao menos no sentido que certas pessoas interpretam. 

Primeiro, porque a estratégia defendida por Dirceu naqueles “bons tempos” mostrou seus limites já naquela época. Segundo, porque a situação atual é muito diferente e muito pior. Terceiro, porque a linha atualmente defendida por Dirceu - conforme se pode ler nos seus textos e entrevistas - tem seus méritos, mas tem o grande defeito de bater continência para a política implementada por Haddad, política que é o principal obstáculo para a superação das dificuldades do nosso governo e de nosso partido. Finalmente, cabe lembrar que Dirceu agora “está de volta” aos processos eleitorais; mas sua injusta interdição nunca o impediu de participar, em maior ou menor medida, dos debates da esquerda brasileira.

Um último comentário: temos sim um problema de “bússola”, embora cada um tenha a sua preferida. Mas temos também um problema de velocímetro. Planos de voo do tipo “marcha lenta e segura durante 12 anos”, só servem (mas nem sempre) para quem controla o poder de Estado. Para nós, que nem o governo controlamos, é preciso menos mediocridade e cautela, é preciso muito mais velocidade e audácia.

Foi algo assim que pensei e disse, aliás, quando entrevistei Dirceu, “a long time ago”, para o hoje falecido jornal Brasil Agora. Naquela ocasião tomei contato pela primeira vez com a “teoria” dos sucessivos governos cada vez mais progressistas, que seriam necessários antes que um dia pudéssemos ter um governo verdadeiramente democrático-popular. Como sabemos, antes desse dia chegar, fomos abatidos em pleno voo.

Hoje corremos o mesmo risco. Só não vê quem não quer.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

A presidência do PT e o X da questão




Pessoa amiga acaba de me ligar, para informar que X teria dito que o presidente da República o convidou para ser presidente do PT. 

A mesma pessoa amiga informou, ainda, que X teria aceitado o convite. 

A pessoa perguntou se eu sabia disso tudo.

Respondi que já tinha ouvido falar que X fora um dos nomes citados pelo presidente.

Respondi, também, que não saberia dizer se era verdade ou não que X teria sido convidado.  

Ademais, embora ache os termos e a conduta inadequados, "convidar" e "aceitar" é direito de todo mundo. 

Entretanto, embora tenha virado hábito alterar o estatuto partidário, desconheço que alguém queira que nossos diretórios e presidências deixem de ser eleitos pela base, via voto direto e secreto, e passem a ser indicados.

Assim, sendo ou não verdade o convite, o mais relevante é saber se X combinou com os russos e com a “nação petista”. 

Os russos, como na futebolística história original, são os russos propriamente ditos. 

Ao atacar a Ucrânia, a Federação Russa rompeu com o monopólio que os Estados Unidos mantinham desde o início da década de 1990. Nesse sentido, a guerra entre Rússia e Ucrânia abriu um novo capítulo na disputa pelos rumos do mundo. Capítulo que inclui, entre outros, o conflito entre EUA e China.

Não há como saber quanto tempo vai durar esta disputa, nem qual será o seu desfecho. Mas os acontecimentos – econômicos, sociais, políticos, culturais, sanitários, ambientais – não deixam dúvida: vivemos tempos não apenas de crise e guerra, mas de catástrofes. 

Qual nossa estratégia para enfrentar este período histórico? 

Alguns de nós têm opiniões a respeito, que podem estar mais ou menos certas, mais ou menos erradas. Mas o Partido dos Trabalhadores enquanto tal não possui uma estratégia desenhada, muito menos aplicada, para enfrentar os desafios do presente e do futuro. 

Começamos a elaborar esta estratégia no 6º Congresso Nacional do PT (2017). Mas, desde então, temos focado no enfrentamento dos desafios imediatos – prisão de Lula, campanha de 2018, governo neofascista e ultraliberal, pandemia, eleições de 2022, intentona golpista de 2023, reconstrução, agora catástrofe no Rio Grande do Sul, eleições municipais de 2024 etc. 

E a verdade é que, de urgência em urgência, estamos deixando em segundo lugar a reflexão estratégica. 

O que cada uma das pré-candidaturas à presidência nacional do PT tem a dizer sobre como mudar o lugar do Brasil neste mundo cada vez mais perigoso? Não sei. 

Mas sei que outro dos nossos desafios estratégicos consiste em recuperar a autoridade coletiva do Partido. Sem autoridade coletiva, não haverá autonomia. E, sem autonomia, mais cedo ou mais tarde seremos atropelados pela implacável biologia. E aí pode ser tarde demais para salvar o Partido, inclusive salvar da quase absoluta dependência financeira frente aos fundos do Estado e da crescente dependência política frente às bancadas e governos. 

Neste sentido, no início de 2024, numa das pouquíssimas vezes em que tive a oportunidade de conversar pessoalmente com o companheiro presidente, disse a ele que, na minha opinião, era melhor que “deixasse a disputa correr”, antes de declarar seu apoio a alguma das candidaturas que disputarão a presidência nacional do PT. 

Disse isto não apenas por motivos óbvios e pragmáticos, mas também por um motivo mais nobre, a saber: quem quer que venha a ocupar a presidência nacional do Partido, deve conquistar este lugar mais devido a seus méritos próprios e menos devido ao QI. 

Até porque precisamos, entre muitas outras coisas, de um Partido com muita autonomia frente ao governo. Inclusive para defender o governo, é muito melhor que nossa presidência partidária não seja ocupada por um "ministro sem pasta", indicado pelo chefe do governo. 

(Perdoem a brincadeira séria, mas, às vezes melhor perder certos amigos do que perder a piada: se for para ser um ministro, que seja do tipo Mucio, que é um representante dos militares junto ao Presidente. Por analogia, precisamos de um representante do Partido junto ao governo e não de um representante do governo junto ao Partido). 

Não se trata apenas de uma questão de método, mas principalmente de uma questão política. 

Ou recuperamos a autonomia e autoridade partidária, ou não seremos capazes de enfrentar os desafios do atual período histórico, entre os quais se destaca, também, o de libertar o Brasil do contubérnio rentista-primário-exportador. Falando pela positiva: industrializar o país. 

Uma industrialização de novo tipo, a serviço do desenvolvimento com ampliação do bem-estar social, da soberania com ampliação das liberdades democráticas, da ampliação da capacidade produtiva com redução dos impactos sobre a natureza. 

A classe dominante brasileira é incapaz e não tem motivos para fazer tudo isso; só a classe trabalhadora tem os motivos e a capacidade necessária. Motivos pelo quais, no Brasil, desenvolvimento e socialismo têm tudo que ver. 

O que cada pré-candidatura à presidência nacional do PT pensa disso? Não sei. Ou melhor, até imagino, mas vamos deixar isso na conta do benefício da dúvida. 

Um terceiro desafio estratégico é o da “união e reconstrução”. Não do Brasil, mas da força da classe trabalhadora brasileira. 

O fracasso do primeiro de maio de 2024 em São Paulo capital é apenas um de inúmeros indícios de que estamos desacumulando forças no que diz respeito a capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora. E isto é produto de um combo de fatores objetivos e subjetivos, entre os quais há pelo menos quatro que são de nossa inteira responsabilidade: a fragilidade de nossa política de comunicação, a fraqueza de nossa política de formação, o desmonte de boa parte de nossas organizações de massa e o conservadorismo de nossa política eleitoral. 

Desconheço dirigente partidário que não reclame de nossas políticas de formação e comunicação. Assim como desconheço quem não tenha reparos a fazer sobre a situação dos chamados movimentos sociais, sindicatos inclusive. Mas conheço poucos dirigentes que estejam dispostos a enfrentar o processo de adaptação do nosso partido a determinados hábitos eleitorais e institucionais, hábitos que estão fazendo setores de nosso Partido ficarem cada vez mais parecidos com aquilo que é dominante nos partidos tradicionais e cada vez menos presentes – enquanto partido - no trabalho cotidiano de organização da classe. 

Sem enfrentar estes "hábitos de partido tradicional", não haverá formação, comunicação nem empenho real no reerguimento dos movimentos sociais.

As candidaturas à presidência nacional do PT precisam se posicionar a respeito destes e de outros problemas políticos e organizativos. Por fim, mas não menos importante, temos o desafio estratégico de impor derrotas tanto à extrema-direita neoliberal, quanto à direita neoliberal tradicional. Sobre isso, é preciso reconhecer que não estamos nada bem. 

Depois de um ano e meio de governo Lula, todas as pesquisas confirmam a resiliência da extrema-direita e as fragilidades do nosso lado, parte das quais deriva das concessões que fizemos não apenas à direita neoliberal tradicional, mas principalmente ao capital financeiro e ao agronegócio. 

Ademais, a extrema-direita não é uma oposição normal. Trata-se de um movimento político-social de massas, orientado por um programa reacionário. Programas exitosos de governo não são suficientes para derrotar este tipo de movimento. 

Se quisermos derrotar um movimento reacionário de massas, precisamos opor a ele um movimento político-social de massas, em torno de um programa de transformações revolucionárias em nosso país: soberania de fato frente aos Estados Unidos e seus aliados imperialistas; liberdades democráticas e bem-estar social para toda a população brasileira e não apenas para quem tem dinheiro; desenvolvimento de verdade e não destruição de tudo e de todos em benefício do lucro de alguns. De conjunto, tudo aquilo que faz parte de um programa socialista. 

Espero que o processo de eleições diretas das novas direções partidárias, que deveria ter ocorrido em 2023, mas foi adiado para 2025, seja um momento para debatermos essas e muitas outras questões. E que nos permita eleger, não a pessoa que vai ocupar a presidência, mas coletivos de direção, em torno de uma linha política para o período.

É isso o que o PT precisa e merece, se quisermos que a roda da história não ande de novo para trás, como ocorreu entre 2016 e 2022. 

Espero, também, que não percamos o foco. A hora é de vencer as eleições municipais de 2024. Entre outros motivos, para que tenhamos um ambiente político melhor em 2025, quando formos debater os rumos do nosso Partido e escolher nossas novas direções.

Ajudaria muito nisso se o governo fizesse uma inflexão em sua política. Mas, infelizmente, nosso partido também tem seus bourbons. Este é, aliás, o verdadeiro X da questão.

domingo, 12 de maio de 2024

O “sistema” e a “democracia”

 “Eu gosto do sistema, o sistema é a democracia”: a afirmação foi feita pela deputada Isabel Moreira, deputada do Partido Socialista português, ao falar do “legado de abril”, na parte final do seminário sobre os “50 anos da Revolução dos Cravos”, organizado pela Fundação Perseu Abramo.

A íntegra dos três painéis realizados no referido seminário pode ser assistida através dos links abaixo:

“Foi bonita a festa, pá?”

“O salazarismo, os militares e a Revolução

“O legado de abril”

O elogio simultâneo ao “sistema” e à “democracia” foi proferido pela deputada portuguesa no contexto de uma polêmica sobre o papel do Partido Socialista, seja na atualidade, seja nos acontecimentos de novembro de 1975, quando foi interrompido o processo revolucionário iniciado em abril de 1974.

A referida deputada, no mesmo debate, criticou a atitude “paternalista” que, segundo ela, setores da esquerda adotam frente a eleitores da extrema-direita. Sempre segundo a deputada, a esquerda não pode ser culpada, nem deveria se considerar culpada, pelo fato de existirem na população pessoas que são racistas, homofóbicas etc e tal.

Antes, disse a deputada, essas pessoas existiam, mas tinham vergonha; agora, perderam a vergonha. Antes, não votavam. Agora, passaram a votar.

Estes fatos nos conduzem a questionar o referido apreço pelo “sistema” e, também, a qualificar o que foi chamado de “democracia”.

Para resumir a ópera: a democracia vigente na maioria dos países capitalistas é meramente eleitoral, baseada na máxima “um cidadão, um voto”. E geralmente se desconsidera em que condições é formada a consciência política da chamada cidadania. Condições que fazem com que, como dizia o célebre alemão, a consciência dominante seja a da classe dominante. Isso dá aos capitalistas uma imensa vantagem “estrutural” na tal “democracia” meramente eleitoral.

Por isso, aliás, é tão difícil construir - nos países citados - uma maioria eleitoral de esquerda, especialmente se for do tipo anticapitalista.

E, também por isso, quando acontece de uma parte do povo entrar em ebulição revolucionária - como em abril de 1974, em Portugal - uma das alternativas à disposição da classe dominante é apelar à “democracia” meramente eleitoral. E, embora nem sempre termine assim, via de regra o que ocorre, nos marcos desse tipo de democracia, é a afirmação de uma maioria eleitoral mais moderada do que a postura predominante naqueles setores que estão em ebulição revolucionária.

Isto não parece ser um grande problema, exceto é claro para os revolucionários, obrigados a ter que “escolher” entre a legitimidade das ruas versus a legitimidade das urnas. 

Além disso, existem situações históricas, como as que estamos vivendo hoje em vários países, inclusive no Brasil e Portugal, em que a “democracia eleitoral” se converte em meio para empoderar e legitimar a extrema-direita.

Nesse contexto, em que o inimigo a ser contido ou derrotado não é a esquerda revolucionária, mas sim a extrema-direita, frases como “eu gosto do sistema, o sistema é a democracia” revelam toda sua insuficiência.

Afinal, pelo motivo supracitado, o “sistema” cuja legitimidade se baseia, ao menos em parte, na “democracia eleitoral dentro dos limites do capitalismo”, pode dar como resultado a vitória de quem defende a restrição das liberdades democráticas, restrição legitimada através das ferramentas do próprio “sistema” e da própria “democracia”.

Ou seja: nos momentos “normais” da luta de classe, a “democracia” eleitoral contribui geralmente para moderar os impulsos de esquerda; mas, nos momentos de crise sistêmica, a “democracia” eleitoral pode contribuir para o crescimento da extrema-direita.

As conclusões teóricas a tirar disto dependem do lado que se ocupa na luta de classes. Se o lado for o dos que querem superar o capitalismo, então o melhor é não “gostar do sistema”, nem tratar a “democracia” eleitoral burguesa como se fosse nosso máximo ideal de democracia.

Devemos lutar pelas mais amplas liberdades democráticas, sabendo que estas não cabem dentro do “sistema”, nem dentro da “democracia” eleitoral.

Já as conclusões políticas são várias, entre as quais cito uma: não deixar a crítica ao “sistema” nas mãos da extrema-direita.

Quem faz isto, quem se coloca na posição da esquerda que “gosta do sistema”, na prática abre mão de tentar superar as vantagens estruturais que os capitalistas possuem na chamada democracia eleitoral burguesa.

Ademais, quem se coloca na posição da esquerda que “gosta do sistema”, terá imensa dificuldade ao tentar disputar corações e mentes do setor desorganizado e menos consciente da classe trabalhadora, disputa especialmente necessária nos momentos de crise sistêmica e de ascenso da extrema-direita.

Portanto, quem “gosta do sistema” terminará derrotado ou cooptado por ele. Desconheço exceções.


sexta-feira, 10 de maio de 2024

A pesquisa Genial Quaest de maio de 2024

(texto sem revisão)

Vale a pena estudar a pesquisa Genial Quaest de maio.

Abaixo, alguns tópicos extraídos da pesquisa.

A coleta foi feita de 2 a 6 de maio. Portanto, já capta (parcialmente) os efeitos políticos da situação no Rio Grande do Sul.

Foram entrevistadas 2045 pessoas com 16 anos ou mais.

A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.

A pesquisa de maio faz parte de uma série composta, ao todo, por 8 pesquisas divulgadas em fevereiro de 2023, abril de 2023, junho de 2023, agosto de 2023, outubro de 2023, dezembro de 2023, fevereiro de 2024 e maio de 2024.

A primeira pergunta - "aprova ou desaprova o trabalho do presidente Lula?" - tem a seguinte resposta: metade (50%) aprova.

A fotografia indica que o país segue polarizado.

O filme indica que estamos perdendo esta polarização. Afinal, em fevereiro de 2023, a resposta foi: 56% aprova, 28% desaprova, 16% não sabe ou não respondeu. Hoje, a resposta é: 50% aprova, 47% desaprova, 3% não sabe ou não respondeu.

Detalhe: embora a queda do aprova tenha sido relativamente pequena (56-50), o crescimento do desaprova foi muito grande (28-47). E o que explica isso é o deslocamento dos que antes não sabiam ou não quiseram responder. Ou seja: o "muro" está diminuindo (polarização) e a maior parte dos que descem do muro descem do lado de lá (estamos perdendo a polarização).

A pesquisa detalha esta movimentação por segmentos (regiões, sexo, idade, ensino, renda, religião, etnia, tipo de voto em 2024). Considerando 23 segmentos, entre a última pesquisa (fevereiro de 2024) e a atual (maio de 2024), a situação ficou idêntica em 5 segmentos; mudou para pior, mas dentro da margem de erro, em 5 segmentos; mudou para pior, ultrapassando a margem de erro, em 5 segmentos; mudou para melhor, mas dentro da margem de erro, em 4 segmentos; mudou para melhor, ultrapassando a margem de erro, em 4 segmentos.

Por conta desses resultados um pouco para cá, um pouco para lá, tem gente que interpreta a pesquisa de maneira positiva. Quem faz isso vive no mundo de Poliana. Depois de quase um ano e meio de governo, com tudo o que se fez, o fato de Lula ser avaliado positivamente, hoje, por menos gente do que no início do governo e ser desaprovado por mais gente, hoje, do que no início do governo, é sinal de que estamos "aquém", como reconheceu o próprio presidente.

A pesquisa diferencia a aprovação de Lula da avaliação do governo Lula.

Se consideramos a avaliação positiva do governo, ela está sempre abaixo da avaliação do presidente. Por exemplo: em agosto de 2023, 60% aprovavam Lula e 42% tinham avaliação positiva acerca do governo Lula.

Mas se somarmos os que fazem avaliação positiva com os que fazem avaliação regular, aí a situação muda: a avaliação do governo está sempre acima da avaliação do presidente. Outro exemplo: em agosto de 2023, 71% avaliavam o governo como positivo ou regular, enquanto 60% avaliavam positivamente o presidente.

Uma curiosidade estatística: desde abril de 2023 até maio de 2024, a diferença entre a avaliação (positiva + regular) do governo e a avaliação do presidente oscilou entre 11 e 14 pontos percentuais. Diria que este é mais ou menos o tamanho do eleitorado da "frente ampla": avaliam o governo como regular, mas não positivam o presidente. Obviamente, isto é uma extrapolação, impossível de provar com base nos dados da pesquisa. 

Uma terceira pergunta da pesquisa é se o Brasil está indo na direção certa ou na direção errada. Em junho de 2023, 46% dizia que o Brasil estava indo na direção certa, contra 41% que dizia que o Brasil estava indo na direção errada.

Em maio de 2024, 49% diz que estamos indo na direção errada, contra 41% que diz que o Brasil estaria na direção certa. Quando se observa entre segmentos, existe uma maioria positiva apenas nos seguintes: 60 anos ou mais, ensino fundamental, até 2 salários mínimos, católicos, negros. E a maior vantagem (a favor do estamos no caminho certo) está entre os que recebem até 2 salários-mínimos: 53% contra 35%.

Ou seja: é aí, nos pobres, que reside nosso núcleo duro. Fato óbvio, desconsiderado por alguns laureados que transitam na Fazenda.

Outra pergunta da pesquisa: você acredita que Lula é bem intencionado?

Esta pergunta é particularmente importante. E o resultado é: 51% acham que Lula é bem intencionado, contra 42% que acham que ele não é bem intencionado. Uma das interpretações possíveis para esta resposta é que, não importa o que Lula faça ou deixe de fazer, 42% vão julgar negativamente.

Um detalhe importante: quando se considera o segmento "região Sul", a avaliação das "intenções" de Lula oscilou assim: em dezembro de 2023, 46% o achavam bem-intencionado, número que mudou para 44% em maio de 2024. Portanto, piorou, mas dentro da margem de erro. Em dezembro de 2023, 49% o achavam mal intencionado, número que caiu para 47% em maio de 2024. Portanto, melhorou, mas dentro da margem de erro. Já os que não sabem ou não quiseram opinar foram de 6%, em dezembro do ano passado, para 9% agora.

Estes dados mostram como a aparente petrificação dos resultados tem relação direta com a disputa política. Na região Sul, que engloba os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, o tema da tragédia tem um forte impacto. E, depois de dias de ação positiva do governo federal e da participação pessoal de Lula, os resultados oscilam, para cima e para baixo, dentro da margem de erro. E o que cresce é o número dos que não sabem ou não querem avaliar. 

O que explica isso, provavelmente, é o contraste entre a ação correta de Lula versus a propaganda brutal da extrema-direita sobre uma população que, majoritariamente, votou na direita em 2024. Conclusão: ou aumentamos a disputa política, ou não haverá ação administrativa correta que dê conta.

Outra pergunta trata das promessas feitas na campanha: Lula tem conseguido cumprir? 

Neste caso, o resultado confirma a opinião de Lula: 63% responde que o presidente não tem conseguido cumprir as promessas de campanha, contra 32% que dizem que Lula tem conseguido. Notem que a avaliação positiva de Lula é de 50% e que 61% consideram que o governo Lula é positivo ou regular. Logo, estes 63% que dizem que Lula não tem conseguido cumprir as promessas de campanha inclui parte dos eleitores e apoiadores de Lula.

Importante destacar que a opinião segundo a qual Lula não tem conseguido cumprir as promessas de campanha chega a 74% na região Sudeste.

Uma outra pergunta da pesquisa é: Lula trabalha para atender as necessidades de todos ou apenas as necessidades de quem votou em Lula?

A resposta é muito curioso: 52% acham que Lula trabalha para atender as necessidades de todos. O que permite a seguinte interpretação: somos nós, que votamos em Lula, que achamos isso. De pouco adianta o governo se apresentar como de "união" e de "todos", pois o lado de lá não acredita nisso ou, pelo menos, prefere não se posicionar a respeito.

Todas essas respostas citadas anteriormente estão relacionadas a um fato simples: 41% dos entrevistados pela pesquisa recebem mais notícias negativas do que notícias positivas acerca do governo Lula.

Detalhe: quando se perguntam quais as notícias positivas, há uma dispersão em inúmeros itens. Já quando se pergunta quais as notícias positivas, há uma concentração em alguns itens: não faz nada, é corrupto, postura negativa, inflação, economia, juros. Os dados são reveladores de que há (pelo menos) um problema na política de comunicação da esquerda e de que há (pelo menos) um acerto na política de comunicação da direita.

Sobre o futuro, a pesquisa pergunta qual a expectativa acerca da economia do Brasil e faz perguntas específicas sobre desemprego e poder de compra.

Sobre a situação do desemprego, 43% têm uma avaliação negativa. Sobre o poder de compra, 67% também tem uma avaliação negativa. E essa avaliação negativa acerca do poder de compra deu um salto em dezembro de 2023 (foi de 33% para 47%) e deu outro salto em fevereiro (indo de 47% para 65%).

Apesar disso, há uma maioria relativa (48%) que tem a expectativa de que a economia vai melhorar nos próximos doze meses. Mas 30% acham que vai piorar e 19% acha que vai ficar igual. 

Os principais problemas do país, segundo os entrevistados da Genial Quaest, são: a economia (23%), a saúde (19%), a violência (17%) e as "questões sociais" (14%). Corrupção vem em quinto lugar, com 9%. E educação em sexto lugar, com 8%.

Finalmente, a pesquisa indica que 97% dos entrevistados se informam sobre política, sendo 38% principalmente através da TV, 32% principalmente através das redes sociais e 10% principalmente através de sites, blogs e portais.

Evidentemente, na faixa dos 16 aos 34 anos, a fonte principal é redes (45%). Já na faixa de 35 a 59 anos, a fonte principal é a TV (41%). E na turma com mais de 60 anos, a fonte principal também é a TV, com 61%.



 


















quarta-feira, 8 de maio de 2024

Dois mistérios e a última flor do Lácio

Por qual motivo tanta gente fala "o golpe da Dilma", quando se refere ao golpe ocorrido em 2016 contra a Dilma?

E por qual motivo tanta gente fala de "ruptura democrática", quando se refere às rupturas antidemocráticas ocorridas entre 2016 e 2018?

Será influência dos que acham que o golpe foi "culpa" da Dilma?

Será influência dos que pensam que toda ruptura deva ser castigada, não importa donde venha?

Mistérios de certas línguas, não do Lácio.



quarta-feira, 1 de maio de 2024

Primeiro de maio: será que agora a ficha vai cair?


A imagem é vintage, do tempo dos orelhões.  

Mas a pergunta é atual: depois do fracasso de público do primeiro de maio de São Paulo, precedido pelo fracasso de público das manifestações anti golpistas de março, será que vai cair a ficha?

Dito de outra maneira: será que quem de direito vai perceber que “nossa” linha política está nos conduzindo, de derrota em derrota, rumo à “derrota final”?

Como tudo tem um lado B, se a ficha não cair, pelo menos restará a satisfação de termos acrescentado mais uma às chamadas leis da dialética. A saber: a falta de quantidade se transformando em falta de qualidade.