quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A direção do PT deve renunciar?

No dia 5 de outubro de 2016, ocorreu uma reunião da Comissão Executiva Nacional (CEN) do Partido dos Trabalhadores.

Esta reunião aprovou uma resolução analisando o resultado do primeiro turno das eleições municipais.

O ponto 2 desta resolução fala da necessidade de uma autocrítica, “a começar pela direção partidária – que não se exime de suas responsabilidades – e abrir-se para o conjunto da militância”.

Esta passagem foi considerada insuficiente por muitos militantes.

Na opinião destes militantes, o resultado do primeiro turno e as ações que a direita tomou logo em seguida – através do governo golpista, do Congresso nacional, da Polícia Federal, do Supremo e do PIG — exigiriam uma autocrítica mais profunda e, principalmente, reações mais rápidas e eficazes por parte da direção partidária.

Na reunião da CEN, foi apresentada e derrotada uma proposta de resolução alternativa àquela que foi aprovada.

Esta proposta alternativa -- assinada pelas tendências petistas Articulação de Esquerda, Avante Socialismo 21, Mensagem ao Partido e Militância Socialista -- pode ser lida aqui: http://www.pagina13.org.br/pt/mudar-o-pt-unidade-da-esquerda-no-2o-turno-vi-congresso-ja/#.V_ZyMvkrKM8

Antes e depois da reunião da CEN, circulou a proposta de renúncia coletiva da atual direção nacional, que seria substituída por uma comissão provisória.

Em paralelo, começou a especulação sobre quem ocupará a presidência nacional do Partido, depois de Rui Falcão.

Em entrevista concedida a um grande jornal, o atual secretário nacional de organização do PT defendeu que Lula seja o próximo presidente.

Também está em debate a convocação de um congresso partidário.

Alguns defendem que este congresso ocorra imediatamente, outros em 2017.

Cabe ao Diretório Nacional decidir a data, a pauta e o método de eleição das delegações.

Tal decisão deveria ter sido adotada no dia 15 de setembro, mas foi adiada para 7 de outubro e agora foi transferida para novembro.

Por quais motivos a direção nacional do Partido está retardando a decisão sobre o Congresso? Afinal, quais as polêmicas a respeito?

A primeira e principal polêmica diz respeito a como se interpreta a derrota que sofremos.

Foi uma derrota tática ou estratégica?

Exige ou não uma reformulação do conjunto da estratégia partidária?

De qual reformulação estamos falando, exatamente?

Grande parte dos dirigentes e suas respectivas tendências parecem reconhecer que sofremos uma derrota estratégica.

Mas não está claro o que cada um entende por isto, até porque dedica-se muita energia à discussão das preliminares (congresso, direção, PED) e pouca energia ao debate dos “finalmente” (quais alterações o Partido deve fazer para enfrentar a nova situação).

Há várias explicações para o que foi dito no parágrafo anterior.

Segundo uma destas explicações, os atuais integrantes da Executiva e do Diretório nacional não estariam à altura do desafio de conduzir a luta contra a direita, nem de conduzir o debate sobre o futuro do Partido.

Paradoxalmente, esta opinião é muito difundida entre pessoas que integram a mesma tendência daqueles que são criticados.

Alguns dos que acreditam na explicação acima resumida defendem a renúncia coletiva e imediata da atual direção e sua substituição por uma “comissão provisória”, que deveria – no dizer dos autores da proposta – ser composta pelos “melhores quadros de todos os setores do Partido”.

Evidentemente, há vários critérios para definir quem seriam os “melhores quadros” e como seriam escolhidos/as.

Há também um questionamento político: como ainda não se fez o debate sobre qual estratégia colocar no lugar da atual, é impossível saber qual seria a política adotada por esta hipotética “comissão provisória”.

E a simples troca de pessoas, não importa por quem, não seria capaz de resolver um problema de natureza política.

Questionamento análogo é feito no caso citado anteriormente, sobre quem assumirá futuramente a presidência nacional do PT: a discussão sobre a presidência deve ser precedida do debate sobre a linha política que vamos adotar e, também, sobre a necessidade de resgatar o princípio da direção coletiva.

Isto conduz a outra explicação (não necessariamente contraditória com o que foi dito anteriormente): a maioria do Partido está com dificuldades para reconhecer o esgotamento da estratégia que nos trouxe até aqui e com maiores dificuldades ainda para formular uma estratégia alternativa.

Os que acreditam nisto argumentam que não basta trocar pessoas na direção. É preciso alterar os rumos. E para fazer isto, seria indispensável a convocação imediata de um congresso partidário, no qual se possa formular coletivamente a opinião do Partido, incorporando inclusive a opinião da militância que se aproximou do PT durante a batalha do segundo turno de 2014 e durante a luta contra o golpe.

A rigor, nenhum setor do Partido questiona a necessidade de um congresso. Mas há divergências quanto à data, a pauta e ao método de eleição das delegações.

A chamada esquerda petista defende que o congresso ocorra imediatamente. O grupo atualmente majoritário na CEN não estava de acordo com isto. Hoje, a tendência é que o congresso seja convocado para março de 2017.

A chamada esquerda petista defende a realização de um congresso plenipotenciário, ou seja, convocado para deliberar sobre o programa, a estratégia, a tática, as diretrizes organizativas e também para eleger uma nova direção nacional.

O grupo atualmente majoritário na CEN resiste a dar caráter plenipotenciário ao congresso; mais precisamente resiste a aceitar que neste Congresso se possa eleger uma nova direção nacional.

O grupo atualmente majoritário considera que deve ser respeitado o mandato da atual direção, eleita no final de 2013 para um mandato de 4 anos. Ou seja, para um mandato que se encerraria apenas no final de 2017.

A esquerda petista defende um congresso composto por delegadas e delegados eleitos através do método que o Partido adotava até 2001, ou seja: encontros municipais abertos a filiados e filiadas em dia, encontros que elejam delegados e delegadas que se reunirão em encontros estaduais, onde serão eleitos os delegados e as delegadas que comporão o Congresso nacional.

Já o grupo atualmente majoritário na CEN não quer adotar o método descrito no parágrafo anterior. Seja por razões estatutárias, seja por considerarem mais democrático, prefere eleger os delegados e as delegadas através do chamado PED, sigla de “Processo de Eleição Direta”.

Há duas diferenças fundamentais entre os dois métodos.

No PED, a maioria dos filiados e filiadas comparece apenas para votar. No outro método, só pode votar quem participar do debate.

No PED, as chapas são inscritas nacionalmente. Ou seja: só pode ser delegado e delegada quem tiver seu nome inscrito nas chapas.

No PED, quem define as chapas são as cúpulas nacionais das tendências partidárias.
Já no outro método, as chapas são inscritas no próprio encontro, o que aumenta a chance de inscrição e de eleição de filiados/as e delegados/as não alinhados/as com nenhuma tendência.

Além disso, o método dos encontros facilita a eventual alteração de posições ao longo do processo de Congresso, sem o engessamento causado por chapas inscritas antes mesmo dos debates terem início.

Há quem diga que o grupo hoje majoritário na direção nacional teme não continuar na direção, caso seja adotado o método dos encontros de base.

Há quem considere que o desgaste da atual direção nacional é tão grande, que sua derrota pode acontecer seja qual for o método adotado (PED ou encontros).

Talvez por isto, o principal argumento dos que são favoráveis à eleição de delegados e delegadas através de encontros presenciais é o seguinte: nos últimos PEDs o número de filiados e filiadas que participou de debates foi cerca de 10% do número de votantes.

Ou seja: nos PEDs, as decisões foram tomadas por uma maioria que não participou de nenhum debate. E uma das coisas de que o PT mais necessita hoje é tomar decisões após um grande debate.

Dito de outro jeito, precisamos canalizar para os espaços partidários as energias e as propostas de centenas de milhares de filiados, militantes e simpatizantes que desejam defender o PT, que desejam preservar o PT, que desejam mudar os rumos do PT. E que exigem ser ouvidos e poderem decidir.

É fácil entender os motivos pelos quais os integrantes da atual direção não querem renunciar. Assim como é fácil entender os motivos de quem defende a renúncia: depois de uma derrota desta magnitude, há motivos de sobra para duvidar da capacidade da atual direção nacional.

Qualquer que seja a posição que assumamos nesta polêmica, o mais importante é cobrar do grupo atualmente majoritário na direção nacional que renuncie à tentativa de impedir a realização de um congresso plenipotenciário imediato. Pois se insistirem em criar obstáculos para isto, se tornarão na prática cúmplices da destruição do PT.

O que está em jogo é algo muito simples para um partido que sempre se vangloriou da sua democracia interna: é preciso deixar a base debater e decidir os rumos do Partido.


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PS. no link uma espécie de complemento ao texto acima: http://valterpomar.blogspot.com.br/2016/10/como-diria-freud.html


























segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Aldo Fornazieri e os "escombros do PT"

O Jornal GGN publicou um artigo de Aldo Fornazieri, intitulado "Os escombros do PT".

O artigo está ao final.

Concordando com parte do que é dito, quero fazer algumas observações críticas.

De fato não faltaram advertências de que o partido se encaminhava para o desastre. Mas, além de injusto, é um erro dizer que as "críticas foram colhidas pelos petistas" com arrogância e rechaço.

Como sabe todo mundo que acompanha a vida interna do PT, faz muito tempo que um setor do próprio PT vem criticando duramente as posições que desembocaram no desastre.

Aldo Fornazieri deve lembrar disto, pois foi da direção do Partido e algumas vezes foi alvo destas críticas...

Portanto, parte das advertências vinham de dentro do próprio PT.

Aldo comete injustiça e erro similar, quando fala que "a estrutura partidária e dirigentes se corromperam, a militância se domesticou e os movimentos sociais que orbitavam em torno do PT começaram a orbitar em torno do Estado, sendo cooptados e perdendo a energia combativa na luta por direitos e justiça. O PT se transformou no partido dos palácios, dos gabinetes, do luxo e da arrogância".

Se o PT fosse 100% deste jeito que Aldo descreve, nem ele nem eu dedicaríamos o menor esforço para recuperar o Partido. Acho que Aldo exagera, o que pode ser compreensível num momento de irritação, mas não é útil para a adequada compreensão do fenômeno.

O principal erro, contudo, está na frase inicial do parágrafo citado acima: "o poder fez muito mal ao PT".

O poder? 

Na verdade o que realmente "fez muito mal" ao PT foi não ter lutado pelo poder. Os meios de comunicação, o oligopólio financeiro, as forças de segurança, a maior parte do aparato de Estado, esses e outros mecanismos de poder permaneceram intocados durante as gestões Lula e Dilma.
 
Segundo Aldo, "o PT alimentou a mesma crença que as elites históricas conservadoras alimentaram desde os tempos coloniais no Brasil: a de que a sociedade pode ser moldada e transformada desde o alto, desde o Estado". 

Isto é, novamente, uma verdade parcial.

Primeiro, não foi todo o PT que alimentou esta crença.

Segundo, não foi sempre que esta crença orientou parcelas expressivas do PT.

Terceiro: esta "crença" não surgiu do nada. 

Ela foi inoculada de fora para dentro, com o apoio de muitos dirigentes e intelectuais petistas que se deixaram seduzir por determinadas visões da política e da sociedade.

Quarto e mais importante: isto não é apenas uma "crença". Isto é a tradução intelectual da prática da classe dominante. Que como é classe dominante e pretende perpetuar o status quo, pode agir assim.

O PT, as classes dominadas em geral, não podem agir assim.

Mas uma parcela do PT renunciou a ideia de subverter o status quo, renunciou a intenção da revolução e até mesmo das reformas estruturais radicais. O que restava, então? Mimetizar o modus operandi da classe dominante.

Óbvio que daria errado. Mas quando alguns setores do PT diziam isto, nos anos 1990, outros setores minimizaram os alertas porque vinham supostamente de uma "esquerda ortodoxa" que discutia os problemas "com retóricas e paradigmas do século XX, quiçá, do século XIX".

Por isto, no justo afã de preservar a unidade ao mesmo tempo que se faz um ajuste de contas, é importante lembrar sempre que nenhum dos protagonistas envolvidos é tabula rasa. Motivo a mais para exercitar a crítica com tolerância e boa vontade. 







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http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FPolitica%2FOs-escombros-do-PT%2F4%2F36928

Os escombros do PT

A derrota eleitoral, somada ao golpe, foi avassaladora. Subestimá-la e não fazer autocrítica significa contribuir para consolidar o projeto conservador.

Aldo Fornazieri - Jornal GGN
reprodução
As eleições municipais reduziram o PT a pouco mais que escombros. Não faltaram advertências, principalmente a partir de 2013, de que o partido se encaminhava para um desastre. As críticas foram colhidas pelos petistas de duas formas: o menosprezo arrogante por parte de quem detinha poder e direção e acusações por boa parte da militância que, também arrogante, classificava as críticas como PIG, moralistas, esquerdistas etc.

O poder fez muito mal ao PT: a estrutura partidária e dirigentes se corromperam, a militância se domesticou e os movimentos sociais que orbitavam em torno do PT começaram a orbitar em torno do Estado, sendo cooptados e perdendo a energia combativa na luta por direitos e justiça. O PT se transformou no partido dos palácios, dos gabinetes, do luxo e da arrogância. Ninguém promove tal movimento sem que desabe sobre ele, mais dia menos dia, o merecido castigo do povo.

O PT alimentou a mesma crença que as elites históricas conservadoras alimentaram desde os tempos coloniais no Brasil: a de que a sociedade pode ser moldada e transformada desde o alto, desde o Estado. Esta prática sempre engendrou dominação e não liberdade e cidadania. Enquanto esta crença permanecer vigente, o Brasil permanecerá eternamente deficiente em seu conteúdo nacional e popular e a sociedade carecerá de vínculos societários republicanos, orientados para o bem comum e para o interesse público. Aqueles que chegam ao poder sempre se tornarão representantes de grupos e interesses particularistas, a se apossar do erário público em detrimento dos interesses de caráter universalizante. Será sempre o velho patrimonialismo vestido com roupas novas.

O PT se deixou abater pelo erro mais comezinho que as esquerdas vêm cometendo desde o século XX: a corrupção. A corrupção vem sendo, ao longo das décadas, a espada nas mãos da direita e da mídia para fazer rolar as cabeças da esquerda. Os eleitores mostram-se intolerantes à corrupção das esquerdas, pois, querem ver nelas uma reserva moral da sociedade, um exemplo da administração correta da coisa pública, um cimento de ética na sociedade. Quando as esquerdas se corrompem, os eleitores se sentem traídos.


Pouco a pouco, o PT foi caminhando para aquela condição mais indesejável da política: ser odiado. Isto já era visível nas eleições de 2014. De lá para cá, a imagem do partido foi se deteriorando, seja porque as denúncias se revelaram medonhas, seja porque os ataques dos seus inimigos foram devastadores sem que houvesse uma linha de resistência e de contraofensiva. Ao mesmo tempo em que se destruía, o partido se deixava destruir. A cada ataque, a direção partidária reagia com notas burocráticas e protocolares, foi perdendo credibilidade e deixou de ostentar virtudes e força moral capazes de mobilizar a militância. Como já se disse, a direção do PT tornou-se um comitê de generais de gabinete sem exército e a militância se tornou um exército sem generais.

“Ser odiado” é a condição absoluta que precisa ser evitada em política, ensina Maquiavel. Como partido antimaquiaveliano que é, o PT, ao passar da praça para os palácios deixou de olhar a realidade com os olhos da praça, deixou de se situar na planície e passou a olhar o povo com o ângulo de mirada dos palácios. Mas não sabia jogar o jogo dos palácios e passou a acreditar em aliados que eram e são gananciosos, simuladores e ambiciosos. Emprestaram prestígio aos petistas enquanto estes lhes eram úteis e os traíram sem cerimônia na consumação do golpe. Golpe que o próprio PT ajudou a construir seja pela sucessão de erros políticos, de incompetências, e seja pela própria falta de apoio à presidente Dilma em momentos delicados em que o governo caminhava para a deriva.

Pela condução desastrosa que o PT vem tendo nos últimos anos, a direção partidária deveria renunciar nos primeiros dias desta semana. Uma comissão provisória deveria ser constituída com a tarefa de convocar e conduzir um Congresso partidário antes do final do ano. Se nenhum aceno for feito neste sentido, a tendência maior é a de que o PT caminhe para uma divisão irreversível. Não é admissível que os condutores do desastre continuem comandar um partido que foi esperança do povo brasileiro e se afogou nos seus próprios erros. Não há, em torno da atual direção, capacidades políticas, morais e intelectuais que sejam capazes de tirar o partido da crise.

Que fazer?

Esta velha pergunta, que precisa ser recolocada, suscita hoje muito mais dúvidas do que certezas às esquerdas. Antes de tudo, as esquerdas precisam se unir em torno do que sobrou dessa devastadora eleição: Freixo no Rio de Janeiro, João Paulo em Recife, Edmilson Rodrigues em Belém, Edvaldo Nogueira em Aracaju etc.

Com muitas divisões, com baixa propensão à unidade, com um ideário desconectado ao mundo contemporâneo, com organizações autoritárias e burocráticas, com uma retórica que não dialoga com a sociedade, com uma enorme crise em suas visões de mundo, as esquerdas vivem uma defensiva mundial, ao mesmo tempo em que cresce o rancor e o ódio neofascistas.

A crise das esquerdas se alinha com a própria crise civilizacional que tende a se agravar em várias dimensões: ambiental, social, econômica, humana. O mundo do futuro próximo, dizem os economistas e analistas mais atentos, será um mundo sem empregos, com populações que viverão cada vez mais. Em contrapartida, a concentração de renda e riqueza é crescente. As democracias são cada vez menos legítimas e cada vez mais incompetentes em fornecer respostas aos problemas das sociedades.

As esquerdas brasileiras pararam no tempo. Discutem os problemas com retóricas e paradigmas do século XX, quiçá, do século XIX. Nos últimos anos houve um abandono das incipientes experiências de governança democrática que vinham sendo desenvolvidas. Nos municípios, nos estados e no governo federal, os governantes, secretários e ministros ditaram as suas “verdades” às sociedades. Ao mesmo tempo em que direitos deixaram de ser garantidos, não se investiu na inovação e na qualidade dos serviços e direitos. Os governos continuaram analógicos em sociedades digitais. Reformas cruciais, seja no plano macro ou no plano micro, sequer foram cogitadas.

A ideia de aglutinar as esquerdas numa frente, que garanta a unidade na pluralidade, ganha força em face das fragilidades e derrotas recentes. A construção dessa frente, se vier a se concretizar, contudo, necessita de um processo amplo de definição de conteúdos programáticos e de métodos de condução dos processos internos. A perspectiva é a de que essa frente aglutine partidos, movimentos políticos e sociais, indivíduos e grupos cívicos, num novo tipo de organização e de relação política, sem as práticas hegemonistas e de controle burocrático, tão comuns às esquerdas.

A derrota eleitoral, somada ao golpe e às perspectivas de retrocessos em direitos, foi avassaladora. Subestimá-la, persistir nos erros e não fazer autocrítica significa contribuir para a consolidação de um projeto conservador que vem se delineando. Neste momento, o desafio das esquerdas é paradoxal: precisa construir sua unidade ao mesmo tempo em que promove um ajuste de contas.

Aldo Fornazieri – Professor de Filosofia Política.

Grande Sakamoto

O blog do Sakamoto desta segunda-feira 3 de outubro faz algumas afirmações muito interessantes, para quem tem interesse no "método" com que se deve analisar a relação entre os resultados eleitorais e o destino da esquerda brasileira.

Sakamoto diz que o PT foi o maior derrotado nas eleições e que por isto será "apenas uma sombra do que já foi considerando as administrações municipais. A menos que um fato novo ocorra, essa condição provavelmente se repetirá nas eleições de 2018, fazendo com que o partido perca a hegemonia na esquerda".

Ao mesmo tempo ele diz que vitórias do PSOL em Belém e no Rio de Janeiro serão "importantes para que o PSOL cogite em disputar essa hegemonia partidária da esquerda".

Mesmo que as coisas sejam exatamente assim, há um detalhe a considerar: qual a real importância estratégica, na atual quadra história, de um partido ser eleitoralmente hegemônico? 

Noutras palavras: continua válida e operante a estratégia que animou grande parte do PT, entre 1995 e 2014, estratégia esta que conferia centralidade estratégica ao acúmulo eleitoral?

Se entendi direito, Sakamoto tem lá suas dúvidas sobre isto. Afinal, ele próprio afirma que "tão ou mais importante que isso, será saber como os movimentos sociais e sindicatos historicamente ligados ao PT e que formaram sua base social irão se comportar de agora em diante. E se o partido será capaz de se voltar a essa base e às suas demandas".

Eu acrescentaria: neste momento, o que vai definir o futuro da esquerda é a capacidade de reconectar com a classe trabalhadora, com os setores populares, com a juventude e as mulheres, negros e negras trabalhadoras.

Por isto, não concordo com a afirmação de Sakamoto, segundo a qual "a arena institucional é o local por excelência para a resolução de conflitos na sociedade". Foi exatamente por acreditar nisto que uma parte da esquerda, majoritária no interior do PT, deu aos processos eleitorais um peso estratégico desmedido.

A "arena institucional" é o "local por excelência" para a "resolução de conflitos"? No Brasil pelo menos, isto não foi verdade na maior parte da nossa história republicana.

Na minha opinião, um dos muitos desafios da esquerda brasileira consiste exatamente em construir uma estratégia que combine a chamada disputa institucional, com formas luta e de de acúmulo de forças que não sejam institucionais.

Isto posto, acho que Sakamoto exibe um saudável pessimismo quando descreve as dificuldades que estão postas para a esquerda. Pessimismo que o conduz a concluir que a solução para os problemas se dará "através de renovação geracional, ou seja, os mais antigos se retirando com a idade para dar lugar aos mais novos – e, aqui, não falo de idade, mas da forma como se vê e se pratica a política". 

O problema é: foi mais ou menos isto que aconteceu, no ciclo que deu origem ao Partido dos Trabalhadores. Logo, a sucessão geracional não necessariamente resolve os problemas de fundo. 

Além disto, entre a geração de esquerda anterior ao golpe de 64 e a geração de esquerda que criou o PT, há um "sanduíche temporal" em que não apenas batemos cabeças, mas onde também bateram nas nossas cabeças.

Também por isto, embora considere saudável o pessimismo de Sakamoto e considere que sua hipótese pode vir a realizar-se, acho que nossa postura prática deve ser tentar impedir que se perca uma geração.

O que exige, dentre outras coisas, retomar debates programáticos e estratégicos que o PT ensaiou nos anos 1980 e foi pouco a pouco abandonando ao longo dos anos 1990.

Uma das dificuldades que enfrentaremos para fazer estes debates é que eles são "verticais" demais para alguns e são "radicais" demais para outros. 

Mas enfim, assim é a vida. Além de ser contraditória pacas. Por exemplo, não tenho dúvida de que Donald Trump seja o mais reacionário do ponto de vista do povo dos EUA; mas quando mais eu observado Hillary Clinton, mais perigosa ela me parece do ponto de vista da maior parte da população do mundo.





SEGUNDA-FEIRA, 3 de OUTUBRO DE 2016 – IHU 0N-LINE – ADITAL – BLOG DO SAKAMOTO

Eleições 2016: A esquerda não está morta. Mas não será mais a mesma

“Há duas grandes frentes de esquerda ocupando o cenário público hoje: a Frente Brasil Popular (mais ligada ao PT, MST, entre outros) e a Frente Povo Sem Medo (que conta com a presença do MTST, correntes do PSOL, entre outros). De certa forma, apesar de haver uma relação pragmática entre elas, os movimentos de seus protagonistas representa, metonimicamente, o embate dentro da própria esquerda hoje”, analisaLeonardo Sakamoto, jornalista, em comentário publicado no seu blog, 03-10-2016.
Segundo ele, “o tempo chama a esquerda a refletir sobre seus erros, não só no Brasil, em todo o mundo. E a encontrar novos caminhos e construir resistência – que não significa apenas lutar contra retrocessos, mas apontar saídas – saídas que não podem excluir pobres, trabalhadores e minorias do mundo, pois o mundo só fará sentido se for construído com eles, por eles e para eles”
Eis o comentário.
Algumas reflexões preliminares sobre os resultados eleitorais deste domingo (2):
1) Antipetismo: Como era de se esperar, o processo de impeachment e o bombardeio de denúncias de corrupção relacionadas à operação Lava Jato fizeram com que o Partido dos Trabalhadores fosse o maior derrotado desta eleição. Apesar de vitórias pontuais e da presença em algumas disputas de segundo turno, o PT será apenas uma sombra do que já foi considerando as administrações municipais. A menos que um fato novo ocorra, essa condição provavelmente se repetirá nas eleições de 2018, fazendo com que o partido perca a hegemonia na esquerda.
PSOL está no segundo turno em duas cidades politicamente relevantes, Rio de Janeiro (em que Marcelo Freixo, sem tempo de TV e recursos financeiros escassos, venceu a máquina peemedebista de Pedro Paulo/Eduardo Paes) e Belém (comEdmílson passando em segundo, sendo ultrapassado, na última hora, por Zenaldo Coutinho, do PSDB). Vitórias nesses grandes centros serão importantes para que o PSOL cogite em disputar essa hegemonia partidária da esquerda.
Mas, tão ou mais importante que isso, será saber como os movimentos sociais e sindicatos historicamente ligados ao PT e que formaram sua base social irão se comportar de agora em diante. E se o partido será capaz de se voltar a essa base e às suas demandas.
2) Dos gabinetes para as ruas: Os eleitores mandaram um recado através do voto. Parte da esquerda foi desalojada das Prefeituras e realocada nos parlamentos municipais para cumprir o papel de oposição. Parte, desalojada também das Câmaras de Vereadores, deverá ir para as ruas, de onde saiu na década de 80. Se isso se confirmar, poderá significar uma perda para a política como um todo pois a arena institucional é o local por excelência para a resolução de conflitos na sociedade.
De um ponto de vista muito otimista, o retorno às ruas pode levar, finalmente, o PT e os movimentos a ele relacionados fazerem sua autocrítica. Isso será um processo bem doloroso e longo, em que os diferentes grupos e movimentos da esquerda irão bater bastante cabeça entre si, como foi na década de 70 durante a ditadura, cada um lutando pela sobrevivência de seu discurso. Mas, particularmente, não acredito que o partido e alguns movimentos serão capazes de fazer essa autocrítica.
E como isso se resolve então? Na minha opinião, não se resolve. O problema entre uma velha e uma nova esquerda está no contexto histórico em que seus atores foram formados. A meu ver a solução se dará através de renovação geracional, ou seja, os mais antigos se retirando com a idade para dar lugar aos mais novos – e, aqui, não falo de idade, mas da forma como se vê e se pratica a política. É triste que seja assim, mas tendo em vista os embates dentro da própria esquerda, não acredito em conciliação possível. E partidos políticos, novos ou antigos, não serão a única estrutura adotada por aqueles que construirão esse novo ciclo da esquerda. Os movimentos que envolvem os mais jovens, mais horizontais e que trazem pautas relacionadas à qualidade de vida nas grandes cidades, vão dar menos importância à democracia representativatradicional.
Há duas grandes frentes de esquerda ocupando o cenário público hoje: a Frente Brasil Popular (mais ligada ao PTMST, entre outros) e a Frente Povo Sem Medo (que conta com a presença do MTST, correntes do PSOL, entre outros). De certa forma, apesar de haver uma relação pragmática entre elas, os movimentos de seus protagonistas representa, metonimicamente, o embate dentro da própria esquerda hoje.
3) Internet sim, mas não subestime a TV: Durante um bom tempo, a TV ainda terá papel significativo nas eleições, ao contrário do que muitos pensavam diante do avanço da internet. Seja através da exposição de candidaturas via propaganda eleitoral obrigatória (e todo o inferno relacionado à montagem de coligações bisonhas que isso significa), seja pela eleição de figuras que se tornaram famosas com a ajuda da televisão, como o prefeito eleito de São Paulo, João Doria Jr. Ele venceu o último debate, realizado pela TV Globo, por sua capacidade de se comunicar estar bem acima da de seus adversários – mesmo que muitas de suas respostas tenham sido vazias de conteúdo. Na TV, não raro, não é necessário ser sábio e sim parecer sábio. Quem tem competência midiática vai mais longe, sendo o oposto também verdadeiro. Vide o quanto isso atrapalhou Dilma Rousseff.
4) O engodo da antipolítica: A classe política é responsável pela situação a que chegamos, com toda a corrupção, incompetência e ignorância que minou a credibilidade de instituições. Compra da Reeleição, Mensalões, Trensalões, Lavas-Jato e a maioria dos escândalos, que permanece longe dos olhos do grande público. Ao mesmo tempo, a democracia representativa tradicional e seus vícios se mostraram insuficientes para as demandas da população.
Políticos, mídia, empresários e parte da sociedade conseguiram a proeza de dar espaço aos que defendem que ''fazer política é escroto''. Ou seja, ao invés de tentarmos melhorar a política, reinventar a democracia, a saída é negar tudo o que ela representa e buscar saídas rápidas, vazias e, não raro, autoritárias. Daí, surgiram candidatos que estufaram o peito e mentiram, com orgulho, que não são políticos e não fazem política. Espalhou-se a percepção de que quem se engaja historicamente na política, partidária ou não (porque muitos fazem questão de resumir toda política à partidária), tem sempre interesses financeiros.
São Paulo elegeu o discurso de negação da política, apesar de Doria ser um político desde sempre. O primeiro colocado no primeiro turno do Rio é um religioso que também nega a política. E, em Belo Horizonte, passam para o segundo turno um ex-goleiro e um dirigente de futebol. Isso abre portas para que pessoas que se colocam como ''salvadores da pátria'' ganhem espaço a fim de nos ''tirar das trevas'' sem o empecilho da ''política''.
5) Onda conservadora: No mesmo dia em que eleições municipais eram realizadas no Brasil, a Colômbia, através de um plebiscito, disse ''não'' ao acordo de paz assinado entre o governo daquele país e as Farc. Neste ano, o Reino Unido também votou pelasaída da União Europeia. E isso não foi causado apenas pelos discursos xenófobos contra imigrantes, mas também pela situação econômica de muitos trabalhadores britânicos que culpam o bloco pela deterioração de sua qualidade de vida. Some-se a isso o aumento da influência dos partidos de extrema direita na Europa e a possibilidade deDonald Trump sentar-se no Salão Oval da Casa Branca. Ao final, podemos estar vivendo uma tendência global conservadora.
O tempo chama a esquerda a refletir sobre seus erros, não só no Brasil, em todo o mundo. E a encontrar novos caminhos e construir resistência – que não significa apenas lutar contra retrocessos, mas apontar saídas – saídas que não podem excluir pobres, trabalhadores e minorias do mundo, pois o mundo só fará sentido se for construído com eles, por eles e para eles. Muitos direitos foram efetivados desde a Constituição Federal de 1988 – direitos que não serão retirados sem muita reclamação ou luta por aqueles que viram um quinhão mínimo de dignidade ser construído entre os governos doPSDB e do PT.
Como mostram os instituto de pesquisa, como o Datafolha, a população mais pobre não foi às ruas nem a favor, nem contra o impeachment. Muito menos a maioria dos jovens que coalharam as ruas em junho de 2013. Estão em compasso de espera por não se verem representados pelo que esta aí. Ninguém tem o direito de questionar o seu voto, afinal estamos em uma democracia. A dúvida é se, a depender de como soprar o vento agora, eles explodirão a fim de dizer ''não'' para quem tentar suprimir os poucos direitos que têm.
Por fim, não raro esquecemos que a história não caminha em linha reta e é a resultante de forças que variam em tamanho e intensidade de acordo com cada época. Ademocracia pressupõe alternância de poder. E, sim, os direitos que foram garantidos podem ser perdidos, incluindo a definição conceitual de coisas caras à nossa civilização, como dignidade e liberdade. Por isso mesmo que a ideia de diálogo é tão importante. É uma ideia paciente, da qual não podemos nos dar ao luxo de abrir mão. Precisa estar viva, nas ruas, nas conversas de bar, na grande política do nosso cotidiano e na pequena política dos parlamentos, gabinetes e tribunais. Ela que fará com que os diferentes não se odeiem e com que, ao final de contas, a barbárie da intolerância não triunfe.
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Nassif sabe jogar damas?

Sempre que posso leio os textos do Nassif.

Acho particularmente interessante a opinião de quem não milita em nenhum partido ou organização, mas tem opiniões detalhadas sobre o que os partidos e organizações (dos outros) devem fazer.

Por exemplo: a proposta de fazer de Haddad "o grande articulador".

Não vou discutir aqui os feitos do Haddad. E a esta altura do campeonato, aos petistas não custa nada ouvir opiniões de quem não é do PT.

Mas a sugestão me incomoda, pelo seguinte: quantas derrotas mais serão necessárias para compreender que precisamos abandonar esta crença tão tradicional, que deposita nossas esperanças em "grandes articuladores"?

Talvez Nassif devesse tentar jogar damas. É tão complexo quanto xadrez. Com a vantagem de que ninguém nasce rei ou rainha.







SEGUNDA-FEIRA, 3 de OUTUBRO DE 2016 – IHU 0N-LINE – ADITAL – JORNAL GGN

Xadrez da grande derrota do PT

“O discurso da anti-política consegue, assim, dois feitos. O primeiro, o de eleger prefeito da maior cidade da América Latina uma pessoa armada dos conceitos mais anacrônicos possíveis sobre gestão metropolitana. E coloca como favorito provavelmente o governador mais inexpressivo da história moderna de São Paulo”, analisa Luís Nassif, jornalista, em artigo publicado por Jornal GGN, 03-10-2016.
Segundo ele, “o maior desafio do Brasil moderno é a luta pela volta do estado de direito, independentemente de quem esteja no poder”.
Eis o artigo.
As eleições municipais trazem consequências variadas para a oposição e para a situação.
As principais conclusões a serem tiradas:
Peça 1 – a derrota de Fernando Haddad
A derrota no primeiro turno em São Paulo foi a maior demonstração, até agora, da eficácia da política de “delenda PT”, conduzida pela Lava Jato junto com a mídia. Não se trata apenas de uma derrota a mais, mas a derrota do mais relevante prefeito da cidade de São Paulo desde Prestes Maia.
Enquanto Prestes Maia e Faria Lima ajudaram a consolidar a era dos automóveis, com suas grandes obras viárias, Haddad trouxe para São Paulo a visão do cidadão, colocando a política metropolitana em linha com as mais modernas práticas das grandes capitais do mundo. Não houve setor em que não inovasse, da gestão financeira responsável à Lei do Zoneamento, das intervenções viárias às políticas de inclusão.
Teve defeitos, sim. Foi excessivamente tolerante com secretários medíocres, excessivamente personalista, a ponto de impedir que os bons secretários ganhassem projeção, descuidou-se da comunicação e da presença na periferia. E não soube difundir de maneira eficiente as políticas transformadoras que construiu, vítima que foi de um massacre cotidiano da mídia.
Haddad também era o último grande nome potencialmente presidenciável do PT.
Sua derrota sepulta definitivamente as pretensões do PT de ser líder inconteste das esquerdas, acelerando a necessidade de uma frente de esquerdas acordada. E aumenta as responsabilidades sobre o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, o do Piauí, Wellington Dias, o do Maranhão, Flávio Dino.
Esse rearranjo exigirá medidas rápidas do PT, a mais urgente das quais será a de eleger uma nova Executiva em linha com os novos tempos, aberta à renovação, aos acordos horizontais, antenada com a nova cultura das redes sociais e dos coletivos. Ou o PT se refunda, ou se tornará politicamente inexpressivo.
Agora, trata-se de aguardar o segundo turno no Rio. Em caso de vitória de Marcelo Freixo, do PSOL, completam-se as condições para a unificação das esquerdas em uma frente negociada, sem aparelhismos, sem pretensões hegemônicas de quem quer que seja.
Peça 2 – o novo desenho do golpe
A vitória de João Dória Jr desequilibra as disputas dentro do PSDB. José Serra já era uma miragem comandado um exército de três ou quatro pessoas. Como chanceler, tem acumulado uma sucessão inédita de gafes. Não há nenhuma possibilidade de se recuperar politicamente.
Aécio Neves ainda se prevalece de sua condição de presidente do partido, mas foi alvejado seriamente pelas delações da Lava Jato – apesar da blindagem garantida pelo seu conterrâneo Rodrigo Janot, Procurador Geral da República (PGR).
Com a vitória de Dória, quem sobe é Geraldo Alckmin e sua extraordinária capacidade de influenciar o homem médio, isto é, o homem medíocre.
Se for adiante a tese do golpe dentro do golpe, com a impugnação total da chapa Dilma-Temer, é provável que se decida colocar na presidência da República alguém com competitividade para se candidatar à reeleição em 2018. Nesse caso, o nome seriaAlckmin.
O discurso da anti-política consegue, assim, dois feitos. O primeiro, o de eleger prefeito da maior cidade da América Latina uma pessoa armada dos conceitos mais anacrônicos possíveis sobre gestão metropolitana. E coloca como favorito provavelmente o governador mais inexpressivo da história moderna de São Paulo.
Peça 3 – o desenho das esquerdas
No “Xadrez de Fernando Haddad e a frente das esquerdas” levanto a necessidade da explicitação de um padrão de governança das esquerdas, para reconstrução de uma alternativa de poder.
Nos próximos meses, à destruição das políticas sociais do governo federal, corresponderá à destruição das políticas implementadas em São Paulo pela era Haddad.
O caminho seria construir uma instância de articulação suprapartidária, uma espécie de Conselho de Gestão juntando os principais estados e municípios governados pelos ditos governos progressistas. Os acordos se fariam acima das idiossincrasias das Executivas (especialmente do PT), e em cima de propostas concretas, de implementação de políticas públicas.
Seria a maneira de juntar os vastos contingentes que despertaram novamente para a política, depois de excluídos dela pela burocratização do PT – jovens, intelectuais, especialistas diversos. Nesse caso, Haddad poderia ser o grande articulador, devido à experiência acumulada em seus tempos de Ministro da Educação e prefeito de São Paulo, sua aceitação por jovens e intelectuais.
Peça 4 – o acirramento da repressão
Nem se pense que a vitória de Doria em São Paulo reduzirá a gana repressora.
Nos últimos dias, houve as seguintes ofensivas:
· Indiciamento de Lula.
· Prisão de Guido Mantega.
· Prisão de Antônio Palocci.
· Novo inquérito contra Lula, para investigar a colocação de uma antena de celular pela Oi, próxima ao sítio em Atibaia. Esses quatro itens precedendo as eleições.
· Decisão do TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4a Região) de consagrar o Estado de Exceção.
· Demissão de professor de direito no Mackenzie, por artigo contra o golpe.
· Ameaça de demissão a quem insistir no golpe, formulada por diretor de redação da revista Época.
· Demissão de José Trajano, comentarista símbolo da ESPN, por manifestações políticas.
Afastamento do ex-Ministro Carlos Gabas dos quadros do Ministério da Previdência por ter ajudado no pedido de aposentadoria de Dilma Rousseff.
Não há sinais de que essa escalada enfrentará resistências de jornais e jornalistas.
A fragilidade financeira dos jornais está submetendo-os a episódios outrora impensáveis, frente à camarilha dos 6 que assumiu o poder. Em outros tempos, com toda sua dose de conservadorismo, o Estadão se insurgiu contra práticas da ditadura.
Agora, dificilmente.
De grandes monstros tentaculares da estatização, por exemplo, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal se transformaram nas empresas mais admiradas pela mídia.
Na primeira semana após o golpe, a Folha convidou a diretoria da CEF e do BB para almoços sucessivos. E o Estadão inventou um novo prêmio para as empresas mais admiradas. No segmento bancário, deu CEF e BB na cabeça.
O balanço dos repasses publicitários à velha mídia, por parte do Miguel do Rosário, contemplou apenas a publicidade institucional, aquela dos ministérios. Quando se consolidar com os dados das estatais, se verá o desenho da bolsa-mídia.
A ideia do direito penal do inimigo está sendo aplicada em todos os cantos.
Na matéria sobre publicidade nos blogs considerados de esquerda, a Folha encampou a tese de Michel Temer, de que a publicidade somente seria para quem veiculasse notícias de interesse. Ou seja, notícias que atendessem a um público anti-esquerda.
Com o Estado de Exceção explicitamente endossado pelo TRF4, a colunista MirianLeitão, de O Globo, depois de colocar gasolina na fogueira que fritou Mantega ePalocci, teimou em explicar que não se pode comparar os tempos atuais com os da ditadura. Reviveu a tese da ditabranda. Depois justificou que ela foi torturada etc. etc., o que lhe dá obviamente enorme autoridade moral para explicar que Estado de Exceção não é bem isso e para colocar mais gasolina na fogueira.
Em ambos os casos, fica nítida a pesada herança inquisitorial de uma cultura – a portuguesa – que aceitava toda sorte de inclusão, desde que quem chegasse professasse a fé católica.
Esse será o maior desafio do Brasil moderno: a luta pela volta do estado de direito, independentemente de quem esteja no poder.
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