Edma Walker fez PDF dos originais, Alana Gonçalves digitou, revisão está por fazer.
Ubes - Uma entidade por criar
Apesar da maioria dos estudantes secundários do Brasil não ter ficado sabendo, nos dias 31 de outubro e ½ de novembro foi fundada a União Brasileira de Estudantes Secundaristas,
A Ubes era e é necessária. Uma Ubes de massas, que levasse adiante, à nível nacional, as lutas que os estudantes travam em suas escolas. Uma Ubes que tivesse efetivas condições de ser o movimento secundarista organizado.
Essa Ubes que está aí não é de massas; seu programa, sua diretoria, sua fundação, atendem mais aos desejos de uma diminuta parcela do movimento - sua “vanguarda” (?) - do que de todo o movimento secundarista ou de sua parcela mais significativa.
Intervir dentro da Ubes é necessário; pelo menos por que ela é o único espaço nacional que existe para se intervir dentro do movimento. Agora, como intervir e pelo que intervir? Como se posicionar diante da Ubes e de sua diretoria? Como intervir de forma a acumular forças e não a se desgastar?
A UBES QUE ESTÁ AÍ NÃO É DE MASSAS
A Ubes surge como fruto de todo um processo de reconstrução das entidades gerais secundaristas. Nesse sentdo, ela é fruto do “ressurgir do movimento secundarista”.
Agora, esse “movimento secundarista” de que falam, que movimento é?
Em primeiro lugar, é um movimento desligado do movimento nas escolas. Enquanto que nelas se fala do banheiro sujo, do uniforme, nas entidades gerais se briga pelas “questões internacionais”. Enquanto que nas escolas se trava uma luta dura e demorada para conscientizar os estudantes, nas entidades gerais fala-se da luta por subsídios ou federalização…
Em segundo lugar, é um movimento que surgiu nas escolas onde estudam os setores mais avantajados da pequena e média burguesia (Equipe, Sagarana), dando respostas aos problemas da pequena e média burguesia (campanhas de “VAGAS PARA TODOS”), dirigido e composto por ativistas dessas classes, enquanto que a massa dos estudantes, e seu setor mais combativo e importante qualitativamente, é oriundo dos setores proletarizados da população.
Em terceiro lugar, é um movimento que, por não possuir base de massa, se sujeita aos mais diversos golpes e contragolpes.
Em quarto lugar, é um movimento sob hegemonia de dois dos três grandes blocos em que se dividem os que se opõem a ditadura militar: o bloco do oposicionismo burguês e o bloco do oposicionismo pequeno burguês.
Portanto, esse “movimento secundarista” de que falam é um movimento aparente, sem base de massa, e não um movimento real, o que ocorre nas escolas.
Esse “ressurgir do movimento secundarista” está, portanto, em total descompasso com o movimento que “ressurge” nas escolas.
A POSSIBILIDADE DE MASSIFICAR A UBES É PEQUENA
“A Ubes não é de massas, mas abre espaço para ser”, diz o mais sofisticado representante da direita no movimento, o “senhor” Breno.
Isto é uma meia-verdade. De fato, a Ubes é um instrumento de agitação razoavelmente amplo. Mas isto não significa que hoje, através e pela Ubes, possam-se puxar ações de massa, ou, mais importante, organizar a massa. De fato, a Ubes desgasta mais do que rende, do ponto de vista político.
Agora, o evoluir da luta de classes pode levar as massas a buscar canais * “orgânicos” de participação, por onde expressariam sua insatisfação. Nesse sentido, a Ubes pode vir a ter um certo papel.
O problema é que disto decorrem duas coisas: primeiro, a desorganização prossegue, pois não é nas atividades “puxadas” pelas Ubes (se isto ocorrer) que vai se organizar as massas, o que pressupõe um trabalho de outro tipo; segundo, esta possibilidade da Ubes vir a ser um “canal” só aumenta ou diminui de acordo com a capacidade das forças hegemônicos dentro dela de dar uma direção correta a atividade da entidade.
E, a julgar pelas tendências dominantes dentro da diretoria, essa possibilidade é muito distante.
AS ALIANÇAS DENTRO DA UBES
O fato mais significativo ocorrido no Congresso de Fundação foi o conjunto de alianças feitas pelas correntes políticas para a disputa da diretoria.
Essas alianças demonstraram, palpavelmente, a existência de um forte movimento à direita por parte de correntes tradicionalmente tidas como “de esquerda”. Esse movimento se cristalizou na aliança HP + TLO + Companheiro + Voz da Unidade + “sr.” Breno + PP + PDT + … PDS!!!, aliança que constituiu a chapa vencedora.
O apoio dado pelas correntes que foram contra a fundação da Ubes à chapa “ALICERCE E LUTA” também demonstrou que dentro o chamado “terceiro bloco” (Caminhando, Alternativa, Avalu, “esquerda de Refazendo”, Prestistas) existe uma forte tendência ao “esquerdismo” (representado pelo “segundo bloco”, “ALICERCE E LUTA”). **
Escrever sobre as alianças no movimento secundarista é necessário, mas merecerá um outro texto. O que nos interessa no momento é constatar o forte componente direitista presente na diretoria da Ubes, aliado a um elemento aventureiro (HP) e a setores confusos (TLO, COMPANHEIRO ***).
Predizer acerca do significado concreto dessas tendências será pura futurologia. De certo, só podemos garantir que elas trarão incríveis dificuldades ao dia-a-dia da Ubes.
Coisa que torna mais urgente nosso posicionamento.
INTERVIR, MAS COMO
A nossa intervenção deve se guiar por três fatores: 1. o peso das decisões tomadas na Ubes dentro do movimento de massas; 2. o peso objetivo de nossa intervenção; 3. os desgastes e saldos possíveis com ela.
Quanto ao primeiro aspecto, este peso é nulo, ou, se muito, servirá de reforço subjetivo a atuação das correntes políticas.
Quanto ao segundo aspecto, o bloco que se apresentou na chapa TRAVESSIA, o “terceiro bloco”, como um todo (e caso isso venha a ocorrer), terá um peso muito pequeno nas decisões que venham a ser tomadas. Mostra contundente disto é o fato de, no Congresso, mal termos conseguido juntar 50 pessoas, entre observadores e delegados.
Quanto ao terceiro aspecto, se, por um lado, ganharemos espaço junto aos independentes, através de uma intervenção mais incisiva, por outro lado teremos um desgaste técnico e mesmo político muito grande, já que a participação implica no deslocamento de pessoas, na mobilização de escolas, etc…
Por isto, nossa intervenção na Ubes deve ser a mínima possível, até que tenhamos, pelo menos, acumulado forças suficientes para uma intervenção mais incisiva.
Nas escolas não podemos ter o papel de elemento neutro. Devemos buscar discutir as deliberações, propagandear a existência da entidade, mas sempre de forma cuidadosa e crítica.
Do ponto de vista imediato, devemos buscar articular o “terceiro bloco” em torno dos pontos de vista esboçados neste artigo, em vistas a uma intervenção comum em alguns pontos.
Esperamos assim evitar tanto o erro do abstencionismo, como o erro, muito mais comum, de nos jogar-mos em campo, despreparados e desunificados, obtendo assim, como único saldo político, a perda de nossas bases nas escolas.
O. Poram
* a discussão sobre essa possibilidade é um pouco mais complexa do que o texto deixa transparecer. Tem-se de verificar, por exemplo, se o movimento secundarista tende a isto, ou se tende a procurar uma outra via de unificação de suas lutas.
** Os companheiros da “esquerda de Refazendo” e os companheiros de Caminhando já se posicionaram contrariamente a aquele apoio, que representou uma vacilação muito séria. Os primeiros já no Congresso adotaram esta posição.
***a TLO estampava, no nº anterior ao Congresso, uma matéria em que prevenia todos do perigo representado pelo setor jovem do PDS. O jornal Companheiro, no seu nº posterior ao Congresso, fala mal da diretoria eleita, para depois dizer que “dentro dela há quem queira fazer alguma coisa”.
Nota da publicação
Optamos por editar este texto em publicação mimeografada por dois movimentos: primeiro, assim poderíamos andar mais rápido com sua publicação e distribuição; segundo, reservaríamos material melhor para publicar textos de subsídios ao trabalho nas escolas.
O texto, por este motivo, está cheio de erros, impossíveis de evitar em uma edição mimeografada; esperamos que todos compreendam e que, embora isso, de-êm todo o apoio possível em sua divulgação e discussão.
dezembro de 1981.
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