quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Tarso Genro, mais uma vez

Por absoluta falta de tempo, passei vários meses sem publicar nenhum texto neste blog. Retomei o hábito no dia 7 de fevereiro de 2020, publicando uma crítica a um texto do companheiro Tarso Genro. 

Quem não leu e tiver interesse, pode encontrar o dito cujo no endereço abaixo:

http://valterpomar.blogspot.com/2020/02/tarso-genro-e-festa-do-pt.html

Depois publiquei dois outros textos, comentando opiniões de Aloizio Mercadante e de Vladimir Safatle, respectivamente. E ia me dedicar a assunto diverso, quando um amigo me enviou uma pequena nota, cujo teor reproduzo a seguir:

"Os textos que Tarso Genro acaba de publicar e o debate que geraram são a prova da magnitude da oportunidade que os governos do PT desperdiçaram. Esse desperdício não residiu apenas na políticas e nos caminhos que TG assinala e que podiam ter sido realisticamente seguidos. Residiu e reside igualmente na incapacidade para valorizar e ampliar o trabalho politico, as reflexões e as análises por parte de quadros políticos com extraordinária capacidade teórica e prática que o próprio processo político do PT gerou e de que TG é um exemplo máximo. TG foi um brilhante prefeito,um brilhante governador e um brilhante ministro. Foi e é, além disso, um teórico profundo e uma personalidade de impoluta honestidade.

Apesar de tudo isto foi quase sempre um político mais tolerado do que querido pela liderança partidária, um político a que se recorre num momento de aperto mas que se descarta logo que a tormenta passa.

A nível mais profundo, a tragédia do PT reside nesta obstinada negação de não saber onde estão as suas virtudes e as suas potencialidades".

Segundo disse meu amigo, esta pequena nota seria de Boaventura de Souza Santos, conhecido e reconhecido intelectual português. Não sei se é ou não, mas estranhei o "tom" da nota, que me soou como uma declaração de apoio a alguém que estaria sendo "perseguido". 

Pus-me então a ler o (acho) mais recente texto de Tarso Genro, intitulado "Mergulhar os remos no debate: com o Sardo e com Benedetti", para ver se encontrava alguma pista. E achei.

No texto citado, Tarso faz um resumo de sua trajetória política e intelectual, para concluir que "os tormentos da persecução judicial contra Lula e outros quadros partidários, que detinham a confiança de Lula e do PT, aguçaram algumas contradições em nosso meio, mas -em benefício da unidade e da solidariedade- relativizamos e amaciamos nossas polêmicas internas, sempre com vistas a não dar armas ao inimigo".

Quero crer que o "relativizamos" e o "amaciamos" diga respeito a ele próprio, pois desde 2005 até hoje, outros setores do Partido --sem prejuízo da solidariedade política contra os perseguidos--  seguiram externando, interna e publicamente, com absoluta clareza suas posições divergentes acerca da estratégia, da tática, da organização partidária e inclusive criticando a promiscuidade com o empresariado capitalista.

Três exemplos disto:




Aliás, no texto disponível no endereço imediatamente acima, é criticada uma ideia que Tarso retoma no artigo "Mergulhar os remos no debate: com o Sardo e com Benedetti", a saber: a de que o PT seria um "grande partido democrático" que estaria "espremido entre a neo-liberalização da socialdemocracia européia e as tentativas tardias de sua bolchevização".

A primeira vez que lembro de ter lido algo parecido foi em dezembro de 2005, num artigo da Folha de S. Paulo, que está aqui: https://www.pressreader.com/brazil/folha-de-s-paulo/20051214/281805689337420

Na época, respondi o seguinte: "não há nada mais distante do bolchevismo do que José Dirceu e sua política. Prova disto é que Tarso Genro, um ex-comunista convicto, defendia e defende até hoje a mesma política, embora como tantos outros esteja, agora, enfrentando certa dificuldade para conviver com suas consequências" ("A cassação de Dirceu", artigo publicado no livro A esperança é vermelha 2005-2010).

Ontem como hoje, não acho correto dizer que o PT estaria "espremido" entre duas grandes alternativas: o social-liberalismo e o bolchevismo. 

Na verdade, o PT está sendo espremido, a partir de fora, por uma ofensiva ultraliberal e neofascista; e, a partir de dentro, pelas tendências que o vem transformando num partido meramente "democrático", ou seja, que busca democratizar o capitalismo, não superá-lo.

Uma das muitas consequências deste processo de "adaptação" do PT é o empobrecimento do debate de ideias. Um dos exemplos disto pode ser constatado através da comparação entre as resoluções do sétimo congresso do PT e as resoluções de congressos anteriores. Aliás, poderá ser constatado quando as resoluções forem publicadas, pois o sétimo congresso terminou no dia 24 de novembro, mas até hoje nada foi oficialmente divulgado...

Seja como for, embora me solidarize com Tarso no que diz respeito a determinadas críticas pessoais que ele recebeu, não acho que estejamos diante de nenhum "processo" contra o qual seja necessário mobilizar apoios internos e externos. 

Por fim, não acho aplicável a minha pessoa o que o companheiro Tarso diz a respeito de um tal "companheiro Valter Pomar que –com sua reconhecida elegância bolchevique– tem sido uma espécie de corregedor dos meus (não dos do Lula) 'desvios direitistas'." 

Não pelo adorável senso de humor para iniciados, contido no que para alguns é um oximoro -- "elegância bolchevique" -- e sim pelo fato de que não apenas Lula, mas também quem acompanha minhas opiniões sabe que não sou lulista, seja lá o que isso for. E nunca escondi isto, fazendo privada e publicamente as críticas que acho que devem ser feitas, como por exemplo: 



https://valterpomar.blogspot.com/2015/04/comentarios-sobre-entrevista-de-boulos.html

https://valterpomar.blogspot.com/2015/04/entrevista-concedida-jornalista-da.html

Portanto, recebo como divertida brincadeira a crítica de que eu seria "uma espécie de corregedor" de Tarso. E acrescento: não apenas dos "desvios direitistas". Pois, como ele bem sabe, sou da época em que os desvios eram outros.

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https://www.sul21.com.br/colunas/tarso-genro/2020/02/mergulhar-os-remos-no-debate-com-o-sardo-e-com-benedetti/

Mergulhar os remos no debate: com o Sardo e com Benedetti  

Publicado em: fevereiro 9, 2020

A matéria que foi publicada no UOL – com honesta produção editorial – reproduz de maneira sintética um conjunto de opiniões que venho sustentando – aqui e no exterior – sobre a crise da esquerda e da ideia do socialismo contemporâneo. São temas que venho debatendo há mais de  trinta anos através de livros, artigos e entrevistas, com um enfoque que privilegia a importante experiência democrática do PT, que tem sido observada -no país e fora dele- como original e altamente positiva para as forças progressistas, em especial, da América Latina. Nos últimos 20 anos publiquei muitos materiais sobre o tema, que paulatinamente foram mudando a minha concepção de partido, originária das leituras mais tradicionais do marxismo escolástico -partido como organismo fechado e centralizado, dos melhores “filhos do povo”- para uma visão mais fundada numa concepção de “parte” organizada e ampliada, na luta político social.
Digo “parte”, ao mesmo tempo orgânica e centralizada em matéria de princípios, mas “aberta” -na esfera política- a uma sucessão de relações na sociedade civil, que considere, não só os seus filiados como integrantes do seu corpo político deliberante, mas também considere os ativistas conscientes -intelectuais de todas as “confissões filosóficas” democráticas- militantes de vanguarda, “representantes” auto-construídos do movimento social, considere-os não só como “seguidores”, mas também como fontes de produção de ideias e de políticas. Com as novas tecnologias de informação e comunicação estas fontes do ” bom senso comum” (mais, ou menos elaboradas) estariam aptas a ajudar nas decisões do partido, nas difíceis condições desta nova sociedade, cujo  mundo do trabalho foi totalmente transformados pelas novas tecnologias produtivas, e cujo  “modo de vida” -abrigado nas redes e no celulares- não mais lhes estimula serem sujeitos passivos das convocatórias dos partidos das experiências históricas do Século XX.
O PT, como confluência de um conjunto de forças marxistas, cristãs, progressistas e reformistas democráticas, tornou-se um grande aparato político que impulsionou e coordenou, através de liderança de Lula, o mais formidável conjunto de políticas públicas humanistas, protetivas e distributivas da história da República. Elas se tornaram exemplos para o mundo. Não é necessário dizer que, para processar estas reformas, às quais apoiei  e contribuí para a sua implementação, nossos governos acolheram (e o nosso Partido chegou a “recrutar”) pessoas sinceras que nada tinham a ver com a tradição libertária da esquerda, bem como outras que, mais tarde, se revelaram meros interessadas em manipular políticas de Estado para seus projetos de acumulação pessoal. Nos últimos 15 anos publiquei, entre muitos outros textos que envolviam concepções sobre socialismo e seus partidos, “Modesta utopia contra a barbárie”, 1995, “in” “Utopia possível”, Editora Artes e Ofício; “Democratizar as relações entre Governo e Sociedade”,2003, “in “Novos espaços Democráticos”; “Demarcação e Hegemonia”, 2003, Revista “Teoria e debate”, n.53; “O PT perante uma solução prática e um enigma teórico”, 2O15, Revista “Interesse Nacional”.
Os tormentos da persecução judicial contra Lula e outros quadros partidários, que detinham a confiança de Lula e do PT, aguçaram algumas contradições em nosso meio, mas -em benefício da unidade e da solidariedade- relativizamos e amaciamos nossas polêmicas internas, sempre com vistas a não dar armas ao inimigo. Neste quadro assumimos (os principais quadros do Partido), posições diferentes em relação ao futuro do PT, em relação à autenticidade da nossa maioria dirigente e em relação à própria natureza da grande liderança do Presidente Lula, vitimado por uma perfeita armação político-jurídica da República de Curitiba. Acabei concentrando minhas convicções, dentro do grande partido democrático que se tornou o PT -espremido entre a neo-liberalização da socialdemocracia européia e as tentativas tardias de sua bolchevização- na seguinte sentença do Sardo: “(o partido) como o anunciador e organizador de uma reforma intelectual e moral, o que significa, de resto, criar terreno para um novo desenvolvimento da vontade coletiva nacional-popular, no sentido da realização de uma forma superior e total de civilização moderna.”  Um partido que disputa a hegemonia, não “uma divindade”, um partido que “trabalha para uma completa laicização de toda a vida”
Da minha parte, no relacionamento com Lula, sempre mantive com ele uma fidelidade política de princípios -enquanto estive nos seus Governos e fora deles- e aceitei as suas principais orientações porque entendia que a sua condução concreta do Governo e do Partido salvava vidas que seriam esmagadas pela fome, reestruturava a sociedade de classes de forma mais democrática e abria perspectivas republicanas mais sólidas dentro da formação social capitalista. E o fiz também porque o considero a mais importante liderança democrática e social da nossa história recente, porque acredito na sua inocência penal e na sinceridade dos seus propósitos. Lula é a figura de maior destaque na América Latina na defesa dos oprimidos de todos os tipos, no contexto de crise do sistema do capital e de assédio fascista contra as principais conquistas democráticas do país. Isso nunca quis dizer, da minha parte, perda do senso crítico em relação às suas orientações e muito menos perda do senso crítico em relação ao meu papel nos seus Governos.
Passo ao ponto chave deste artigo. Aos companheiros que se surpreenderam com a matéria do UOL, informo que o material nele contido está escrito de maneira mais contundente num texto que foi redigido há mais de um ano -distribuído para as principais lideranças partidárias, parlamentares, membros da Direção Nacional, Presidente Gleisi e entregue ao próprio Presidente Lula, depois da sua saída da prisão. Ao final, o texto foi publicado na íntegra  no Blog “terraredonda”, depois que Lula saiu do cárcere e impulsionou as matérias na imprensa tradicional. Evidentemente este texto teve pouca ou nenhuma influência nos debates internos da nossa direção, que deu centralidade -corretamente ou não- a outros temas que entendeu relevantes na conjuntura nacional e internacional. Defendo que, obtida a liberdade de Lula, estamos todos liberados para aprofundar nossas discussões sobre o futuro da esquerda e do PT e continuar na defesa das nossas lideranças políticas, especialmente a liderança (não infalível) de Lula, junto com outras figuras da esquerda, e assim expondo os nossos pontos-de-vista com desembaraço e transparência. É o que fiz e vou continuar fazendo, sem qualquer sentido provocativo ou manipulatório, que às vezes caracterizam as lutas intestinas do campo da esquerda.
Entendo que as reações que a matéria do UOL causou foram positivas, que os textos de resposta foram -na sua maioria-  oportunos, mas alguns (poucos) é verdade,  podem revelar um outro sintoma no petismo, que dão sinais alarmantes da nossa problemática política. Não falo aqui das manifestações fundamentadas, como as do companheiro Valter Pomar que –com sua reconhecida elegância bolchevique– tem sido uma espécie de corregedor dos meus (não dos do Lula) “desvios direitistas”; ou dos companheiros que criticaram a minha publicação “por inoportuna”, pois “isso não poderia ser feito no momento do nosso aniversário”, como disseram alguns; ou mesmo não refiro à crítica daquelas figuras que existem em qualquer partido, que não gostam de ver a sua organização política sob exame público, porque a consideram mais próxima de uma divindade (ou de uma comunidade de ungidos por uma verdade intrínseca) do que propriamente uma forma histórica de organização da política.
Refiro-me às denúncias de “traição”, aos pedidos da minha “expulsão” do PT e até a observações “eugênicas”, que se reportaram às posições da minha filha Luciana -considerada inimiga do povo por ter dissentido do PT e optado por outra organização política-  posturas que indicam que o “vírus” da uniformidade fascista ou da simplificação stalinista podem instalar-se em nosso meio.Todos os grandes debates que formaram a esquerda democrática contemporânea -seja ela socialista, socialdemocrata, democrático-radical ou democrata-cristã-  foram debates públicos que, ao mesmo tempo que demostraram a que vieram as ideias dos que nos precederam -em cada um destes campos políticos- também evidenciaram as resistências perversas com tentativas de unidade pela via do enquadramento burocrático.
Ao longo deste período que fiquei afastado da nossa Direção Nacional permaneci, como militante da base partidária, participando de intensas discussões -em seminários, conferências, reuniões coloquiais com grupos do PT, do PCdoB, do Psol, de intelectuais independentes, movimentos sociais, pessoas “sem” e “com”  partido -aqui e no exterior- aprendendo, discutindo, informando, organizando manifestações em defesa do Presidente do Lula e esclarecendo sobre a emergência do fascismo no  Brasil, bem como sobre a necessidade da renovação do projeto da esquerda de forma unitária. Sempre fiz isso respeitando a nossa direção legítima e informando diretamente o Presidente Lula, às vezes pessoalmente, outras vezes por carta, ou passando informações através dos seus assessores mais próximos e afetivos. Este texto do UOL reflete estas discussões conjuntas, que percorreram tanto a imprensa tradicional, como as formas alternativas de comunicação, em redes ou impressas, existentes em nosso meio.
Os processos de Moscou foram de Stálin, não de Lenin; a socialdemocracia inflexionou para o neoliberalismo na Europa, porque fez da “necessidade” de convívio com o capital financeiro uma “virtude”, não uma opção mediadora de resistência, discutida de forma aberta e pública na base da sociedade; a transformação dos governos revolucionários anticoloniais, na África -em Governos autoritários, às vezes corruptos -sem socialismo e sem democracia- ocorreu pela força da  autoridade “uniforme” do partido, não pelo convencimento produzido no debate em cena aberta. O interessante é que todas as correntes de poder no movimento político da esquerda, que sufocaram ou sufocam as discussões num âmbito presumidamente “interno” -que na sua prática são divulgadas depois como resoluções acordadas ou “unânimes”- usam sempre os argumentos da “inoportunidade” e da “pressão externa do inimigo”, para proteger o Estado ou o próprio Partido. A partir desta postura não se discute mais o mérito das posições em confronto, mas a eliminação da própria discussão -por expulsões ou denúncias de traição- sem o contraste fundamentado pelos argumentos.
Confesso que o que me preocupa não é a opinião destas pessoas sobre o que o Partido deve fazer comigo, no caso concreto, mas sim o reflexo que as suas opiniões -divulgadas em rede- terão numa ampla base de apoio de esquerda -interna ao Partido e fora dele- que aposta no PT como partido de referência nas lutas sociais e democráticas em curso no Brasil, mas que não mais aceitam a imposição de pratos feitos, hegemônicos por “natureza”. Não há uma missão “redentora” e inevitável, em defesa da democracia e do socialismo, já outorgada a alguém, pela História. O credenciamento precisa ser construído e passar pelo crivo da pluralidade de novos sujeitos, que sequer se sentem devedores daquilo que legamos, até agora, de bom ao Brasil e ao seu povo trabalhador. Não estou concorrendo a nenhum cargo eletivo nem pretendo exercer nenhum cargo partidário de direção ou atingir, em termos pessoais, qualquer dirigente partidário -atual o pretérito- mas vou continuar colocando publicamente as minhas idéias, adquiridas na experiência e na leitura,em todo o espectro da esquerda para contribuir com meu país.
Recebi dezenas de mensagens de membros do PT com apreciações positivas do meu texto e recebi também, dezenas de outras mensagens de intelectuais, quadros de Estado, professores, dirigentes políticos -integrantes do PT e de fora do PT-  e de dirigentes de outros partidos de esquerda, que apoiaram e apreciaram os termos da discussão proposta. Estou organizando-as para publicá-las, com a permissão dos seus autores. O que precisamos é mais debate, não menos debate.
A observação normativa de que “esta não é a hora de debater em público” questões internas, devemos responder que não existem mais questões importantes, de natureza política ou econômica, que sejam só “internas”, reservadas às direções ou aos filiados. Todas elas, na disputa pela hegemonia, interessam a todos! E mais: nunca teremos das cúpulas burocráticas de qualquer Partido o sinal para dizermos qualquer coisa, publicamente, que possa desacomodar as relações de poder estabelecidas nos mecanismos internos dos Partidos, por mais legítimas que elas sejam. Disse Benedetti numa poema magnífico:  “que esplendida laguna é o silêncio\\  lá na margem um sino nos espera\\  mas ninguém se anima a mergulhar um  remo\\  no espelho quieto destas águas.” Mergulhemos, sem medo de tocar os sinos do debate.
(*) Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Resposta a Vladimir Safatle: a esquerda não morreu!


O El Pais publicou, no dia 11 de fevereiro de 2020, um artigo intitulado “Como a esquerda brasileira morreu”.

Ao contrário do que sugere o título, o artigo não é assinado por alguém da direita, mas sim por Vladimir Safatle.

Vejo quando posso os artigos de Safatle, tendo polemizado com alguns, como se pode ler nos endereços abaixo:




Desta vez, Safatle começa explicando ter cometido “um artigo que gostaria de não ter escrito e não tenho prazer algum em fazer enunciações como a que dá corpo ao título”.

Entretanto, diz ele, “talvez não haja nada mais adequado a falar a respeito da situação política brasileira atual, depois de um ano de Governo Jair Bolsonaro e a consolidação de seu apoio entre algo em torno um terço dos eleitores”.

Se entendi direito, teriam bastado um ano de governo da extrema direita e um terço dos eleitores para Safatle declarar morta a esquerda brasileira.

Que aconteceria se este tipo de “peso e medida” tivesse prevalecido em inúmeras outras situações de derrota, no Brasil e mundo afora?

Um século de existência, quatro vitórias presidenciais seguidas desde 2002, 47 milhões de eleitores em 2018, centenas de milhares de militantes distribuídos em inúmeros partidos e movimentos sociais, uma imensa tradição cultural, tudo isto teria morrido??

O absurdo é tão grande, que Safatle logo explica que “não que se trate de afirmar que ela está diante do seu fim puro e simples. Melhor seria dizer que um longo ciclo que se confunde com sua própria história termina agora”.

Então tá: a esquerda não morreu, foi um “longo ciclo” que “termina agora”. Mas, complementa Safatle, se “a esquerda brasileira não quiser ver sua morte definitiva como destino, seria importante se perguntar sobre qual é esse ciclo que termina, o que ele representou, quais seus limites”.

Nem sempre um fim de ciclo equivale a morte. Portanto, é justo perguntar: qual a origem desta equivalência sugerida por Safatle? O governo Bolsonaro??

A primeira vista, parece ser isto mesmo. Nas palavras de Safatle, “aqueles 
que acreditavam em alguma forma de colapso do Governo e de sua base precisam rever suas análises. O que vimos foi, na verdade, outro tipo de fenômeno, a saber, a inoperância completa do que um dia foi chamado de ‘a esquerda brasileira’ enquanto força opositora”.

Certamente quem acreditava naquela besteira do “colapso”, precisa mesmo rever suas análises. Acontece que: 1) esta nunca foi a única posição existente na esquerda brasileira; 2) as esquerdas brasileiras já incorreram em erros analíticos maiores e já sofreram derrotas paralisantes por mais tempo, sem que isto tenha significado sua morte.

O uso da expressão “morreu”, mesmo atenuado, revela um pessimismo que talvez nem Freud explique. Pessimismo que está relacionado, penso eu, às ilusões de quem achava que, necessária e rapidamente e definitivamente, uma determinada estratégia seria superada por outra.

Safatle cita, entre os “signos” do tal “diagnóstico terminal”, a aprovação da “reforma previdenciária, isso sem nenhuma resistência digna deste nome. Ou seja, a maior derrota da história da classe trabalhadora brasileira foi feita sem que anotassem sequer o número da placa do carro responsável pelo atropelamento”.

Não subestimo o tamanho da derrota sofrida na reforma da previdência. Mas as afirmações feitas por Safatle e transcritas no parágrafo anterior são incorretas, por vários motivos.

O principal motivo de erro é a ideia de que a reforma previdenciária teria sido “a maior derrota da história da classe trabalhadora”. Não foi a maior (o golpe em si e a reforma trabalhista foram, estruturalmente falando, muito mais graves) e, além disso, derrotas maiores podem vir por aí.

Achar que chegamos ao fundo do poço apenas prepara o terreno para novas e piores crises depressivas. Afinal, tudo indica que as coisas vão piorar muito antes de começar a melhorar.

Outro motivo pelo qual as afirmações acima citadas são incorretas é que sabemos, sim, quem são os responsáveis pelo atropelamento: diretamente, a coalizão que sustenta o governo Bolsonaro; indiretamente, os setores oposicionistas que, desde o início, flertaram com aspectos da reforma, criando dificuldades para que a esquerda tivesse uma tática coesa e consistente.

Acontece que nada disso é novo. Desde os anos 1990, um setor da esquerda brasileira vem assumindo posições social-liberais. E, especialmente depois de 2014, isto tem contribuído para derrotas gravíssimas. Portanto, se há novidade, ela reside em Safatle falar em morte de toda a esquerda.

Como já disse, ele usa a palavra “morte” de forma, digamos, um pouco criativa. Por exemplo, copio a seguir outra frase dele: “a esquerda brasileira não é mais capaz de impor outro horizonte econômico-político”.

Ou seja: segundo Safatle, não se trata de um setor da esquerda que traiu, que está equivocado, que adota uma linha inadequada etc. Nem se trata de algo temporário, passageiro, momentâneo, que possa ser superado.

Não! Segundo Safatle, seria toda a esquerda que “não é mais capaz de impor outro horizonte econômico-político”.

Aqui há uma pegadinha: para “impor” outro horizonte, é preciso lutar por ele, acumular forças, conquistar vitórias parciais etc. E quanto se está saindo de uma derrota, como é o nosso caso agora, é preciso lamber as feridas e corrigir rumos. No caso concreto, é preciso compreender, derrotar e superar as posições que contribuíram para a derrota brutal que experimentamos entre 2015 e 2018.

Quem disse que isso ia ou vai ser fácil? Quem disse que isso ia ou vai ser rápido? Quem disse que ia ou vai ser linear? E quem disse que nosso realinhamento seria garantido?

Safatle diz que “durante todo o ano de 2019”, “não foram poucos aqueles que esperaram da esquerda brasileira (todos os partidos e instituições inclusas) a expressão de outro tipo de política. A esquerda governa estados, municípios grandes e pequenos, mas de nenhum deles saiu um conjunto de políticas que fosse capaz de indicar a viabilidade de rupturas estruturais com o modelo neoliberal que nos é imposto agora. Houve época que a esquerda, mesmo governando apenas municípios, conseguia obrigar o país a discutir pautas sobre políticas sociais inovadoras, partilha de poder e modificação de processos produtivos. Não há sequer sobra disto agora”.

Embora não explicite, a crítica de Safatle toma como parâmetro o ocorrido no período 1982-2002. E o que ele não percebe é que este período não serve como parâmetro para o que precisamos fazer agora.

Explico: Safatle expressa no parágrafo citado anteriormente o desejo de que a esquerda, a partir dos locais que governa, saiba e consiga construir alternativas. 

Isto foi parcialmente possível, entre 1982 e 2002: a esquerda, a partir de prefeituras e governos estaduais, conseguiu “indicar a viabilidade” de políticas alternativas. Mas isto não é possível hoje, exatamente porque o período histórico mudou e, portanto, nossa estratégia não pode ser a mesma que adotamos antes.

É paradoxal, mas neste ponto Safatle parte da mesma premissa adotada por alguns setores moderados do petismo, que gostariam de derrotar Bolsonaro da mesma forma como derrotamos FHC. O ponto de apoio de um e de outros é, principalmente, a institucionalidade. Além de tudo, não percebem que existe uma relação direta entre a derrota que sofremos e a via principalmente institucional de acúmulo de forças.

Depois de Freud, Safatle cita Maquiavel: “não são as qualidades do Governo Bolsonaro que dão a ele certa adesão popular. É o vazio, é o fato de não haver nenhuma outra alternativa realmente crível neste momento. E a razão disso é simples: a esquerda brasileira morreu, ela tocou seu limite e demonstrou não ser capaz de ultrapassá-lo”.

Confesso que tenho certa dificuldade de acompanhar o raciocínio de Safatle. Ele diz que Bolsonaro tem “certa adesão popular”, ou seja, reconhece que há uma parte da população que não adere. Esta não aderência decorre, ainda que parcialmente, da ação da esquerda. Noutra passagem, Safatle dá a entender que os não aderentes seriam dois terços da população. Pois bem: entre outros fatores, esta outra parte da população torna perfeitamente “crível” a construção de uma alternativa. Que, claro, também depende de construir, tanto intelectual quanto praticamente, uma política globalmente alternativa e adequada.
  
Segundo Safatle, sua crítica “vale tanto para partidos, sindicatos quanto para a classe intelectual (na qual me incluo). Nossas ações até agora não se demonstraram à altura dos desafios efetivos. O melhor a fazer seria começar a se perguntar pela razão de tal situação”.

Pessoalmente, acho que o “melhor” a fazer seria começar não considerando que a intelectualidade seja uma “classe”. Sugiro, também, afastar a ansiedade. O fato de que “nossas ações até agora não se demonstraram à altura dos desafios efetivos” pode significar, 1) ou bem que nossas ações são mal orientadas, 2) ou bem que (mesmo com a linha adequada) certas mudanças demoram tempo mesmo, 3) ou pode significar (esta é a minha opinião) ambas as coisas em doses diferentes.

Safatle parece adepto da primeira variante, propondo como “hipótese de trabalho” a seguinte: “a esquerda brasileira conhece apenas um horizonte de atuação”, o “populismo de esquerda”. E teria sido ele “que se esgotou sem que a esquerda nacional tenha se demonstrado capaz de passar para outra fase ou mesmo de imaginar” o que poderia ser a tal “outra fase”.

Safatle não é o primeiro, nem será o último uspiano a desancar e depois declarar morto o "populismo". Assim, o que surpreende mesmo é que Safatle parece acreditar que no Brasil existiu e existe uma única esquerda, que teria apenas uma única estratégia. Por decorrência, a derrota desta esquerda e desta estratégia, se converteria em derrota de toda a esquerda. 

Esta visão é equivocada. A história da esquerda brasileira é, entre muitas outras coisas, também a história da luta entre diferentes estratégias, que por sua vez expressam a existência, dentro da própria esquerda, de diferentes classes e setores de classe.

O PT, por exemplo, surge por iniciativa daqueles setores da classe trabalhadora que rejeitavam a conciliação. O fato de que, anos depois, o próprio PT tenha majoritariamente se inclinado por uma estratégia de conciliação, também resulta das peripécias da luta de classes, não apenas da desorientação desta ou daquela liderança.

Hoje, nos dias que correm, é necessário construir uma nova estratégia e será preciso certo tempo para construir a correlação de forças necessária para que esta nova estratégia possa ser vitoriosa. Deste ponto de vista, a referência que Safatle faz a Carlos Marighella pode se prestar a todo tipo de confusão.

Marighella é um herói do povo brasileiro. Como tantos outros heróis daquela geração, foi durante muito tempo corresponsável pela política de conciliação adotada, majoritariamente, pela esquerda, estratégia que naquela quadra foi derrotada pelo golpe de 1964. 

Entretanto, a estratégia alternativa que Marighella e tantos outros tentaram construir, logo após o golpe de 1964, também não foi vitoriosa. E isso precisa ser lembrado, para que não se incorra no mesmo erro.

Safatle diz que “a lição de Marighella não foi ouvida. Tanto que a esquerda brasileira fará o mesmo erro com o final da ditadura militar e com o advento da Nova República. A história será simplesmente a mesma: o movimento em direção a um jogo de alianças entre demandas sociais e interesses de oligarquias locais descontentes tendo em vista mudanças 'graduais e seguras' que serão varridas do mapa na primeira reação bem articulada da direita nacional”.

Safatle que me perdoe, mas isto simplesmente não é verdade. Em primeiro lugar, não é exato que Marighella tenha rompido completamente com a estratégia predominante no Partido Comunista, estratégia que estava presente tanto no Manifesto de agosto de 1950 quando na Declaração de março de 1958, assim como persistiu em inúmeras organizações da luta armada posterior ao golpe militar.

Em segundo lugar e mais importante, a rejeição ao “reboquismo” levou uma parte da esquerda brasileira a criar o Partido dos Trabalhadores em 1980 e a quase conquistar, pela esquerda, a presidência da República em 1989. Por sinal, Safatle parece desconsiderar, em sua digressão histórica, o PT dos anos 1980 e meados dos anos 1990.

E por falar em digressão histórica: Safatle, corretamente, elogia a atitude dos argentinos frente aos crimes da ditadura. E reclama que “no Brasil, ninguém foi preso”. Mas daí ele deduz que “a resposta argentina produziu uma linha de contenção, inexistente entre nós, que permitiu ao peronismo ter ressureições periódicas. Dificilmente, essa será a história brasileira daqui para frente, pois o risco de deriva militar é real entre nós”.

Penso diferente: as ressureições periódicas do peronismo têm várias origens, entre as quais o fato de que o peronismo conseguiu se estender da extrema direita à extrema esquerda. Foram peronistas o Menem neoliberal e o Kirchner nacional-popular. E a “deriva militar”, assim como a emergência de um “corpo fascista”, é um risco permanente em quase toda a América Latina: as linhas de contenção geralmente são temporárias.

Voltando ao Brasil, Safatle encerra seu texto afirmando que a esquerda estaria “sem capacidade de ação, pois atordoada com o fato de a direita” ter, enfim, “produzido a sua figura com capacidade de incorporação do povo”.

Numa situação como essa, completa Safatlle, “a esquerda nacional ainda paga o preço de ter sido formada para a coalizão e para a negociação. Esse é seu DNA, desde a política de alinhamento do PCB aos ditames anti-revolucionários do Soviete Supremo”.

Para não esticar a conversa, deixo para outro momento a discussão sobre a influência dos “ditames antirrevolucionários do Soviete Supremo”, apenas registrando que se isso fosse verdade, não haveria como explicar o ocorrido, por exemplo, em 1935. 

Seja como for, não importa tanto a maneira como Safatle vê a influência soviética, no passado da esquerda brasileira; o que realmente importa é como ele vê a esquerda brasileira hoje.

Por exemplo: que conclusão prática tirar da afirmação segundo a qual toda a esquerda brasileira foi “formada para a coalizão e para a negociação” e, por isso, “não sabe o que fazer quando precisa mudar o jogo e caminhar para o extremo”, pois “sua inteligência não age nesse sentido, suas estruturas não agem nesse sentido, sua classe política não age nesse sentido”.

("Classe intelectual", "classe política", que classe de marxista é capaz de cometer este tipo de conceitos???)

Voltando ao ponto: qual a conclusão? A de que esta esquerda precisa ser destruída? A de que a destruição desta esquerda deve ocorrer rapidamente, para assim abrir caminho para uma “verdadeira” esquerda, quimicamente pura e livre de todo o mal??

Safatle não tira esta conclusão “peregrina e monstruosa”, talvez porque mentalmente a julgue desnecessária. Afinal, para ele a esquerda já estaria morta: “seus movimentos de revolta perdem-se no ar por não ter nenhuma sustentação ou coordenação de médio e longo prazo. Foi assim que ela morreu. Se ela quiser voltar a viver, toda essa história tem que chegar a um fim. Ela deverá tomar ciência de seu fim”.

Como já disse alguém, estas notícias de nossa morte são um pouco exageradas. As esquerdas brasileiras não estão mortas. O PT não está morto. Claro que podemos vir a morrer, até porque tudo que é vivo algum dia morre. E claro que podemos nos suicidar, se persistimos em orientações políticas e atitudes práticas equivocadas. Mas não estamos mortos.

E neste ponto devemos lembrar do poeta segundo o qual deveríamos sempre perguntar, a uma ideia, a quem ela presta serviços

Pergunto: na prática, nos dias que correm, a quem serve afirmar que a esquerda “morreu”, “tocou seu limite e demonstrou não ser capaz de ultrapassá-lo”? 

Serve aos que lutam para alterar a estratégia hegemônica na esquerda brasileira? Ou serve aos que lutam para destruir toda a esquerda brasileira?

Serve aos que lutam para derrotar Bolsonaro pela esquerda? Ou serve aos que argumentam que o caminho para derrotar Bolsonaro é pelo centro?

Derrotar a coalizão golpista (que é algo mais amplo do que o governo Bolsonaro) certamente vai exigir uma mudança de estratégia e vai demorar certo tempo. E também é correto dizer que corremos contra o tempo. Mas ansiedade não ajuda. E pessimismo só atrapalha.


Segue o texto criticado:


Como a esquerda brasileira morreu (Vladimir Safatle, 11/2/2020)

Este é um artigo que gostaria de não ter escrito e não tenho prazer algum em fazer enunciações como a que dá corpo ao título. No entanto, talvez não haja nada mais adequado a falar a respeito da situação política brasileira atual, depois de um ano de Governo Jair Bolsonaro e a consolidação de seu apoio entre algo em torno um terço dos eleitores. Aqueles que acreditavam em alguma forma de colapso do Governo e de sua base precisam rever suas análises. O que vimos foi, na verdade, outro tipo de fenômeno, a saber, a inoperância completa do que um dia foi chamado de “a esquerda brasileira” enquanto força opositora. Não que se trate de afirmar que ela está diante do seu fim puro e simples. Melhor seria dizer que um longo ciclo que se confunde com sua própria história termina agora. O pior que pode acontecer nesses casos é “não tomar ciência de seu próprio fim” repetindo assim uma situação que lembra certo sonho descrito uma vez por Freud na qual um pai morto continua a agir como se estivesse vivo. A angústia do sonho vinha do fato do pai estar morto e nada querer saber disto. Se a esquerda brasileira não quiser ver sua morte definitiva como destino, seria importante se perguntar sobre qual é esse ciclo que termina, o que ele representou, quais seus limites.

Signos não faltaram para tal diagnóstico terminal. Contrariamente ao discurso de que o Governo Bolsonaro estaria paralisado, vimos ao contrário a aprovação de medidas até pouco tempo impensáveis, como a reforma previdenciária, isso sem nenhuma resistência digna deste nome. Ou seja, a maior derrota da história da classe trabalhadora brasileira foi feita sem que anotassem sequer o número da placa do carro responsável pelo atropelamento. Uma reforma da mesma natureza, mas menos brutal, está a tentar ser imposta na França. O resultado é uma sequência de greves e manifestações de vão já para o seu terceiro mês. Na verdade, o que vimos no Brasil foi o contrário, a saber, governos estaduais pretensamente de esquerda a aplicarem reformas estruturalmente semelhantes. Como se fosse o caso de dizer que, no final, governo e oposição comungam da mesma cartilha, sendo distinta apenas a forma e a intensidade de sua implementação. Fato que já havíamos visto com o segundo Governo Dilma e sua guinada neoliberal capitaneada por Joaquim Levy.

Isso é apenas um sintoma de que a esquerda brasileira não é mais capaz de impor outro horizonte econômico-político. Durante todo o ano de 2019, diante de um Governo cujas políticas visam a retomada, em chave autoritária, dos processos de concentração de renda, de acumulação primitiva e de extrativismo colonial, não foram poucos aqueles que esperaram da esquerda brasileira (todos os partidos e instituições inclusas) a expressão de outro tipo de política. A esquerda governa estados, municípios grandes e pequenos, mas de nenhum deles saiu um conjunto de políticas que fosse capaz de indicar a viabilidade de rupturas estruturais com o modelo neoliberal que nos é imposto agora. Houve época que a esquerda, mesmo governando apenas municípios, conseguia obrigar o país a discutir pautas sobre políticas sociais inovadoras, partilha de poder e modificação de processos produtivos. Não há sequer sobra disto agora.

Talvez seja o caso de insistir neste ponto porque, como dizia Maquiavel, o povo prefere um governo ruim a governo nenhum. Não são as qualidades do Governo Bolsonaro que dão a ele certa adesão popular. É o vazio, é o fato de não haver nenhuma outra alternativa realmente crível neste momento. E a razão disso é simples: a esquerda brasileira morreu, ela tocou seu limite e demonstrou não ser capaz de ultrapassá-lo. Isso vale tanto para partidos, sindicatos quanto para a classe intelectual (na qual me incluo). Nossas ações até agora não se demonstraram à altura dos desafios efetivos. O melhor a fazer seria começar a se perguntar pela razão de tal situação.

Coloquemos uma hipótese de trabalho: a esquerda brasileira conhece apenas um horizonte de atuação, este que atualmente chamaríamos de “populismo de esquerda”. Foi ele que se esgotou sem que a esquerda nacional tenha se demonstrado capaz de passar para outra fase ou mesmo de imaginar o que poderia ser “outra fase”. Entende-se por populismo de esquerda um modelo de construção de hegemonia baseado na emergência política do povo contra as oligarquias tradicionais detentoras do poder. Este povo é, na verdade, produzido através da convergência de múltiplas demandas sociais distintas e normalmente reprimidas. Demandas contra a espoliação de setores sociais, contra a opressão racial, contra os legados do colonialismo: todas elas devem convergir em uma figura que seja capaz de representar e vocalizar esta emergência de um novo sujeito político.

No entanto, o caráter nacionalista do populismo permite também a inclusão de setores descontentes da oligarquia, grupos da burguesia nacional dispostos a ter um papel “mais ativo” nas dinâmicas de globalização. Assim, o “povo”, neste caso, nasce como uma monstruosa entidade meio burguesia, meio proletariado. Uma mistura de JBS Friboi com MST.

Este é o modelo que a esquerda nacional tentou implementar em sua primeira tentativa de governar o Brasil: a que termina com o golpe militar contra o Governo João Goulart. Na ocasião, um dos personagens mais lúcidos de então, Carlos Marighella, faz um diagnóstico preciso: a esquerda havia apostado na conciliação com setores da burguesia nacional e com setores “nacionalistas” das forças armadas dentro de governos populistas de esquerda. Ela colocou toda sua capacidade de mobilização a reboque de uma política que parecia impor mudanças seguras e graduais. Ao final, tudo o que ela conseguiu foi estar despreparada para o golpe, sem capacidade alguma de reação efetiva diante dos retrocessos que se seguiriam.

A lição de Marighella não foi ouvida. Tanto que a esquerda brasileira fará o mesmo erro com o final da ditadura militar e com o advento da Nova República. A história será simplesmente a mesma: o movimento em direção a um jogo de alianças entre demandas sociais e interesses de oligarquias locais descontentes tendo em vista mudanças “graduais e seguras” que serão varridas do mapa na primeira reação bem articulada da direita nacional.

Nesse sentido, nossa história segue os passos da história argentina: outro campo de ensaio do populismo de esquerda. Mas há um diferença substancial aqui. Depois da experiência ditatorial, a Argentina soube criar um linha de contenção de impulsos golpistas. Hoje, quase mil pessoas ainda se encontram nas cadeias argentinas por crimes da ditadura. No Brasil, ninguém foi preso. A resposta argentina produziu uma linha de contenção, inexistente entre nós, que permitiu ao peronismo ter ressureições periódicas. Dificilmente, essa será a história brasileira daqui para frente, pois o risco de deriva militar é real entre nós.

Mas há ainda um outro fator decisivo. O colapso do lulismo não foi seguido apenas de um golpe parlamentar apoiado em práticas criminosas de setores do poder judiciário. Ele foi seguido da criação de uma espécie de antídoto à reemergência do corpo político populista. O que vimos, e agora isto está cada vez mais claro, foi a emergência de um corpo fascista. Mas o corpo político fascista é normalmente a versão terrorista e invertida de um corpo político anterior, marcado pela emergência do povo e pelas promessas de transformação social. Dessa forma, ele acaba por bloquear sua ressurgência. Já se disse que todo fascismo nasce de uma revolução abortada. Nada mais justo.

Theodor Adorno um dia descreveu o líder fascista como uma mistura de King Kong e barbeiro de subúrbio (certamente pensando no Chaplin de O grande ditador). Essa articulação entre contrários é fundamental. A pretensa onipotência do líder fascista deve andar juntamente com sua fragilidade. O líder fascista deve ser “alguém como nós”, com a mesma falta de cerimônia, a mesma simplicidade e irritação que nós. A identificação é feita com as fraquezas, não com os ideais. Ele deve ser alguém que come miojo em banquetes presidenciais, que se veste de maneira desajeitada como alguém do povo. Ele deve a todo momento dizer que está a combater as elites que sempre governaram esse país (que agora serão os artistas, as universidades, os “cosmopolitas” e “globalistas”). Ele deve mostrar que não é alguém da elite política, que na verdade tal elite o detesta. Pois se trata de criar um antídoto para toda forma de tentativa de recuperar a produção do povo como processo de emergência de dinâmicas de transformação social.

Dessa forma, tudo se passa como se Bolsonaro fosse uma versão militarizada de seu oposto, a saber, Lula. Não se trata com isso de afirmar que estamos presos em uma polaridade. Ao contrário, trata-se de dizer que tudo foi feito para anular a polaridade real, criando um duplo imaginário. Nunca entenderemos nada das regressões fascistas se não compreendermos estas lógicas dos duplos políticos. Se há algo que nos falta é exatamente polaridade. Temos pouca polaridade e muita duplicidade.

O fato é que tal dinâmica demonstrou-se eficaz. Ela quebrou os processos de incorporações populistas que foram, até agora, a alma da esquerda brasileira. Por isso, o que vemos agora é uma esquerda sem capacidade de ação, pois atordoada com o fato de a direita brasileira ter, enfim, produzido a sua figura com capacidade de incorporação do povo, agora sem o erro de apostar em um egresso da elite político-econômica (Collor) ou em alguém sem vínculos orgânicos com o militarismo fascista (Jânio).

Numa situação como essa, a esquerda nacional ainda paga o preço de ter sido formada para a coalizão e para a negociação. Esse é seu DNA, desde a política de alinhamento do PCB aos ditames anti-revolucionários do Soviete Supremo. Por isso, ela não sabe o que fazer quando precisa mudar o jogo e caminhar para o extremo. Sua inteligência não age nesse sentido, suas estruturas não agem nesse sentido, sua classe política não age nesse sentido. Seus movimentos de revolta perdem-se no ar por não ter nenhuma sustentação ou coordenação de medio e longo prazo. Foi assim que ela morreu. Se ela quiser voltar a viver, toda essa história tem que chegar a um fim. Ela deverá tomar ciência de seu fim.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Mercadante e os 40 anos do PT


A Folha de S.Paulo publicou, no dia 7 de fevereiro, uma longa entrevista do companheiro Aloizio Mercadante ao jornalista Fábio Zanini.

A seguir faço alguns comentários às respostas dadas, ressaltando que o entrevistado pode ter dito algo mais e/ou algo diferente do que foi publicado.

Mercadante, perguntado sobre qual a “marca do PT aos 40 anos”, responde que foi reduzir a desigualdade e lutar pela democracia.

Entendendo “marca” como “realizações”, a resposta é correta, historicamente falando. E dela se pode deduzir algumas questões, tais como:

Por quais motivos o “eixo de nossa história sempre foi” REDUZIR a desigualdade e não ELIMINAR a desigualdade?

Por quais motivos nossa luta pela democracia “nunca” foi além de defender e/ou promover objetivos que foram alcançados, em determinados momentos históricos, em algumas sociedades capitalistas, tais como: “valores republicanos, liberdade de manifestação, de imprensa, de cátedra”, “promoção da cidadania”, “novas formas de participação popular”.

Por quais motivos um partido cuja prática seria considerada, na Europa, como “social-democrata anos 1950”, aqui no Brasil é tratado, por parte substancial da classe dominante, como comunista e revolucionário?

E, finalmente, como o Partido deve proceder frente a uma classe dominante que não aceita elevar, mesmo que pouco, os padrões de igualdade e liberdade vigentes no Brasil?

Mercadante, sobre a corrupção, diz entre outras coisas que “o problema de financiamento de campanha era sistêmico. Evidente que houve corrupção. O que é inaceitável é a ênfase que se deu ao PT e a total omissão e rigor em relação a outras forças políticas. A Vaza Jato explicita isso”.

Provavelmente esta resposta foi editada. Afinal, se é verdade que o financiamento empresarial da política é um problema sistêmico, o fato de um fenômeno ser sistêmico não explica, nem justifica, a adaptação, acomodação ou subordinação do PT a este fenômeno.

É normal que um partido burguês se adapte ao financiamento empresarial privado. Mas não podemos naturalizar ou minimizar que isto tenha ocorrido no caso do PT, sob o argumento de que é “sistêmico”.

Mercadante diz ser “evidente” que houve corrupção. Não acho que seja tão “evidente”, até porque seria necessário explicitar de quem e de qual corrupção estamos falando.

Claro que a manipulação jurídica, política e midiática contra o PT é inaceitável. Mas do ponto de vista do Partido, daquilo que está sob nossa governabilidade, a corrupção é ainda mais inaceitável, até porque serve de pretexto, dá alguma credibilidade, para a citada manipulação, como demonstra o caso de Palocci: os milhões que ele acumulou, sendo ele quem foi, dão “evidente” credibilidade à certas acusações contra nós. 

Mercadante diz que “seguramente” o PT é um partido socialista. E critica a mentalidade escravocrata e colonial das elites. Nada disse, ou pelo menos nada foi publicado, sobre o capitalismo.

Quando a Folha afirma que o PT “governou com banqueiros, industriais, latifundiários”, Mercadante responde com a necessidade de “realismo para governar o país”, de “maioria no Parlamento”, de “projeto estratégico e uma correlação de forças reais”. E conclui dizendo que “conseguimos colocar os pobres no Orçamento. Mas não tivemos força para fazer os ricos pagar mais impostos”.

É provável que esta resposta tenha sido editada. Mas o que foi publicado contém uma ideia muito comum: a de que nosso limite ou principal objetivo na luta anticapitalista seria “fazer os ricos pagar mais impostos”.

Mercadante afirma que o governo Bolsonaro “tem um tripé: o primeiro é o obscurantismo”, “o autoritarismo” e o “projeto neoliberal”, que segundo Mercadante  seria “o debate mais estratégico, e o mais difícil”. 

Questionado sobre a Folha acerca de uma suposta “falta de credibilidade do PT na economia, com dois anos seguidos de recessão perto de 4%”, Mercadante aponta o dedo acusador para a crise internacional e para a sabotagem do golpismo, o que em linhas gerais é correto. Mas o que foi publicado não explica adequadamente duas questões muito importantes:

1/se já em 2009 a crise atingiu a América Latina fortemente, por quais motivos nosso programa de governo para disputar as eleições presidenciais de 2010 não levou isso em devida conta?

2/se é verdade que o grande capital mudou globalmente sua atitude frente ao governo, apoiando cada vez mais o golpismo, por quais motivos o governo (e o PT) não mudaram globalmente sua atitude frente ao grande capital? 

Mercadante diz que há “dois tipos de autocrítica. Uma autocrítica autoflagelante, que é a que vocês insistem que a gente deva fazer, e uma autocomplacente, que não resolve coisa alguma”. E propõe no lugar uma “autocrítica sincera”.

No método, esta é uma discussão muita confusa dentro do PT. Há desde quem recuse a palavra mas, no mérito, faça autocrítica; até quem aceite a palavra, mas na prática não faça nenhuma autocrítica. Sem falar dos que fazem autocrítica pelos outros (os erros teriam sido cometidos pelos demais); e dos que chamam de autocrítica a genuflexão frente às elites, do tipo aceitar como verdadeira a tese de que o PT é um partido corrupto etc.

No mérito, Mercadante diz que “tínhamos que ter colocado muito mais ênfase nas reformas política e tributária. Na política econômica temos muita coisa para reconsiderar”. E fala que nossos erros “não foram poucos, nem pequenos”.

Talvez a resposta publicada não inclua tudo o que Mercadante disse à Folha acerca deste tema. Seja como for, concordando que não enfatizamos devidamente a reforma política e tributária, caberia destacar dois “erros“ anteriores a estes.

Primeiro, o de que acreditar que o grande capital estaria disposto a aceitar sem sabotar, especialmente em um momento de crise internacional, uma expansão dos direitos sociais e das liberdades democráticas (E que o imperialismo aceitaria, sem patrocinar um golpe, nossa política de integração regional e nossa participação nos BRICS).

Segundo, o de acreditar que o golpismo das elites estaria superado, seria coisa do passado, daí a crença na neutralidade do Estado e a aposta no republicanismo.

Estes erros não são coisa do passado. Vide, nesse sentido, a resposta dada por Mercadante acerca de Maduro.

Por um lado ele diz, corretamente, que Maduro não é um ditador. 

Por outro lado Mercadante afirma que “você pode falar que tem um regime autoritário“ na Venezuela, “que está tentando se defender de uma intervenção externa”.

Entre outros motivos, foi o medo de ser acusado de “autoritário” que nos levou a assistir a marcha golpista sem a necessária reação.

Se quisermos voltar a governar, e se não quisermos que a história se repita, é preciso perder esse medo. Até porque contra o golpismo das elites, a resistência popular é a máxima expressão democrática.
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Segue abaixo o texto criticado:

Fábio Zanini
SÃO PAULO
Ex-senador, ex-ministro e um dos fundadores do PT, Aloizio Mercadante, 65, diz que uma autocrítica sincera do partido na política e na economia é necessária, mas não pode ser "autoflagelante" nem "autocomplacente".

"A obra que nós construímos é muito maior do que os erros, que não foram poucos, nem pequenos, que nós cometemos", diz ele, ao comentar os 40 anos do partido, a serem celebrados na segunda (10).

Uma das figuras históricas do PT, Mercadante afastou-se do debate público após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e dedicou-se mais à agenda interna da sigla.
Agora, pretende voltar ao centro da discussão, como presidente da Fundação Perseu Abramo, braço de estudos do partido.

Mercadante diz que a esquerda tem dificuldade em debater a pauta econômica e reconhece que haverá algum crescimento econômico neste ano, embora em "voo de galinha".

No campo externo, recusa-se a chamar Nicolás Maduro de ditador, mas admite que seu governo na Venezuela é autoritário.

*

Qual a marca do PT aos 40 anos? O eixo de nossa história sempre foi reduzir a desigualdade. Bolsa-Família foi uma criação do PT, salário mínimo teve crescimento real nos nossos governos. Uma segunda vertente é a luta pela democracia. Nunca abdicamos de valores republicanos, liberdade de manifestação, de imprensa, de cátedra. E a promoção da cidadania. Estimulamos novas formas de participação popular.

Muitos associam o PT à corrupção também. Sofremos uma campanha violentíssima, marcada pelo lawfare, a Justiça partidarizada para a disputa política. A direita sempre soube usar esses instrumentos.

É tudo uma campanha contra o PT? Não houve erros do partido e do governo? O problema de financiamento de campanha era sistêmico. Evidente que houve corrupção. O que é inaceitável é a ênfase que se deu ao PT e a total omissão e rigor em relação a outras forças políticas. A Vaza Jato explicita isso.

Figuras importantes da história do partido deram credibilidade a essas acusações. O Palocci, por exemplo. Tudo tem que ser apurado rigorosamente e investigado. Mas eu li parte do que ele disse, principalmente o que foi vazado na véspera de eleição pelo Moro. Tenho absoluta convicção de que são diálogos impossíveis de terem acontecido.
O jovem Mercadante, ao fundar o PT, imaginaria que 40 anos depois teria que falar sobre corrupção no partido? Quando você é jovem, nunca pensa o que você vai fazer 40 anos depois. Essa pergunta não tem o menor cabimento [risos]. A causa que me levou ao PT há 40 anos é a mesma de hoje. Não aceitamos esses valores do individualismo, do consumismo. Queremos criar uma economia mais generosa, mais solidária. 

Ainda é um partido socialista? Seguramente. Tivemos 388 anos de escravidão, 4 séculos de Colônia. Isso ainda está muito presente na cabeça da nossa elite.

Uma elite à qual o partido se aliou. Governou com banqueiros, industriais, latifundiários... Você tem de ter muito realismo para governar o país. Não consegue sem maioria no Parlamento.

Não fica contraditório o discurso com a prática? Você tem de ter um projeto estratégico e uma correlação de forças reais. No Senado, foi uma luta duríssima: ProUni, Bolsa Família, salário mínimo. Se não fizéssemos aliança, não teríamos realizado essas políticas. Nós conseguimos colocar os pobres no Orçamento. Mas não tivemos força para fazer os ricos pagar mais impostos.

Como o sr. vê o cenário econômico? O governo Bolsonaro tem um tripé: o primeiro é o obscurantismo. Nesse aspecto você tem uma frente cada vez mais robusta para enfrentar. O segundo é o autoritarismo, que reúne Moro e o núcleo militar. Aqui, já não há a mesma disposição. E o terceiro é o projeto neoliberal. Esse é o debate mais estratégico, e o mais difícil. 

Essa dificuldade não está na falta de credibilidade do PT na economia, com dois anos seguidos de recessão perto de 4%? Nós chegamos no governo [em 2003], o país estava quebrado. Não tínhamos reservas cambiais e devíamos US$ 55 bilhões ao FMI, situação semelhante à da Argentina. Em três anos pagamos o FMI, depois emprestamos recurso para o FMI. O Brasil cresceu com estabilidade. Fizemos distribuição de renda.

Aí veio a Dilma... A crise de 2009 atingiu a América Latina fortemente. O desabamento dos preços das commodities teve impacto em toda a região. Pega o Chile, modelo neoliberal, paraíso do Paulo Guedes. O cobre caiu fortemente.

Mas só o Brasil caiu 4%. Nós tivemos uma articulação golpista. Toda vez que a gente não cedia em alguma negociação não aceitável, recebíamos pauta-bomba fiscal. A política sabotou a economia e agravou a crise.

Deixamos US$ 380 bilhões de reservas cambiais. O pré-sal diziam que não tinha nada, hoje. dois terços do petróleo é pré-sal. Fiquei muito feliz de ver o Armínio [Fraga, ex-presidente do Banco Central] dizer que está preocupado com o social. Por eles são obrigados a se preocupar? Porque o povo vai voltar a cobrar distribuição de renda. Quando o [Bill] Clinton [ex-presidente dos EUA] foi reeleito, a frase que ficou famosa foi "é a economia, estúpido". Eu diria: "é a desigualdade, estúpido".

Cobra-se muito do PT autocrítica pelos escândalos. Na economia ela não é necessária? Tem dois tipos de autocrítica. Uma autocrítica autoflagelante, que é a que vocês insistem que a gente deva fazer, e uma autocomplacente, que não resolve coisa alguma.

Eu acho que a autocrítica sincera nós temos de fazer internamente, corrigir as nossas propostas, apresentar ideias novas. Nós tínhamos que ter colocado muito mais ênfase nas reformas política e tributária. Na política econômica temos muita coisa para reconsiderar, rever, erros que cometemos, dificuldades que tivemos. Mas a obra que nós construímos é muito maior do que os erros, que não foram poucos, nem pequenos, que nós cometemos. 

O pêndulo na próxima eleição voltará um pouco para a esquerda? Você tem o campo popular, em que o Lula é a grande liderança. Tem a extrema direita, hegemonizada pelo Bolsonaro. E há o bolsonarismo envergonhado, que o apoiou na eleição ou se omitiu. E que hoje está horrorizado com o obscurantismo. Na campanha, com quem estavam Doria, Eduardo Leite, Luciano Huck, que o apoiaram explicitamente?

No time dos omissos o sr. inclui o Ciro [Gomes]? Aí não é uma linha auxiliar do bolsonarismo. Mas ele se omitiu no segundo turno, o que foi muito grave historicamente.

E como evitar que esse pêndulo pare no centro, em nomes como o de Luciano Huck? O processo político está polarizado entre o legado do PT e a extrema direita. A economia vai melhorar? Ela pode melhorar. Não há condições para um crescimento sustentável, mas um voo de galinha está dado. Mesmo porque essa recessão é a mais longa da história do Brasil, a mais profunda. Você tem capacidade ociosa, alguma melhora pode ter. Não sei se suficiente para embalar esse pacote de perda de legitimidade e credibilidade. 

Ao longo de quatro décadas houve uma evidente lulodependência do PT. Isso é saudável? Os grandes ciclos de mudança numa sociedade tão autoritária como a nossa tiveram grandes lideranças no grupo popular e trabalhista. Ele [Lula] ganharia a eleição, todas as pesquisas mostraram isso.

Ele é seu candidato em 2022? Se tiver condições, seguramente é o melhor candidato que nós teríamos.

Por que o PT tem tanta dificuldade em ter postura mais crítica com relação ao Maduro? O PT tem um princípio fundamental, a autodeterminação e respeito à democracia. Eu não vejo vocês cobrarem com a mesma veemência o [Sebastián] Piñera [presidente do Chile]. Tem 160 baleados, milhares presos. Os caras atiram nos olhos dos meninos. E a repressão continua todos dias.

O sr. não considera o Maduro um ditador? Não. Você pode falar que tem um regime autoritário. E que está tentando se defender de uma intervenção externa. O Trump disse que vai esmagar o Maduro.

O Maduro impede deputados eleitos de entrar no Parlamento. Mas também não conheço ninguém que se autoproclame presidente sem ter tido um voto. A [Jeanine] Añez na Bolívia é o que? O partido dela teve 4% dos votos. E ela se instituiu presidente da República. O que nós não vamos fazer é ficar ao lado de uma intervenção externa. A Venezuela que resolva seu problema democraticamente.


Raio-X

Nome: Aloizio Mercadante
Idade: 65
Formação: graduado em economia pela FEA-USP, com mestrado e doutorado pela Unicamp; professor de Economia da Unicamp e da PUC
Cargos que ocupou: deputado federal (1991-95 e 1999-2003), senador (2003-10), ministro da Ciência e Tecnologia (2011-12), da Educação (2012-14 e 2015-16) e da Casa Civil (2014-15)