segunda-feira, 1 de junho de 2026

O crime e a hipocrisia, segundo Alon Feuerwerker

 Primeiro, uma reminiscência: a primeira vez que encontrei Alon Feuerwerker foi num Coneb da UNE, em que se não me engano ele falou em nome do CAOC.


Naquela época éramos ambos da “Caminhando”, cobertura semi-legal utilizada pelos que militavam na esquerda do PCdoB.

Pouco depois Alon foi para o PCB e eu para o PT. Mas, ou por isso mesmo, sigo lendo atentamente o que ele escreve.

É o caso do texto que reproduzo ao final, dedicado a analisar os impactos políticos do recente anúncio de “Marco, o Rubio” sobre tratar como “terroristas” o PCC e o CV.

Sem dúvida Alon está certo ao dizer que, na política, algum grau de hipocrisia sempre existe. Mas como a frase mesmo dá a entender, nem tudo é hipocrisia.

No caso, quando o atual governo brasileiro protestou contra as tarifas e protesta contra a decisão acerca do “terrorismo”, onde estaria a hipocrisia? Não consigo enxergar.

O que consigo enxergar, muito visível aliás, é um governo gringo cheio de criminosos - a começar por Trump - se aliando com uma notória quadrilha de cavernícolas milicianos, para anunciar uma decisão cujo propósito é explicitamente “ajudar esses caras”.

Óbvio que estes “detalhes” a la Gotham City não significam que o crime não venha a compensar, o que justifica uma análise objetiva. Mas objetividade não é isenção. Omitir que se trata de uma quadrilha berrando “pega o ladrão” é usar a hipocrisia alheia para justificar uma suposta neutralidade axiológica.

Ademais, os exemplos utilizados por Alon são meio estranhos. 

Ele diz que “evocar o princípio da soberania supõe sempre algum grau de hipocrisia, à esquerda e à direita”. Mas nos exemplos que ele dá, quem é hipócrita? Somente a direita!!

Os  bolcheviques, como Alon mesmo diz, “alistavam-se no exército russo para colocar lenha na fogueira do derrotismo na Primeira Guerra Mundial e, assim, ajudar na derrubada do czar.” Hipocrisia zero, assim como não é “hipócrita” um agente do Mossad que se infiltra na esquerda.

Já a elite francesa, esta capitulou aos nazistas ao mesmo tempo que bradava - hipocritamente - a Marselhesa.

Alon diz que o Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”, mas esquece de dizer que a esquerda não agiu hipocritamente em nenhum dos dois casos. 

Ou seja: os exemplos de Alon não validam sua tese. Ela pode estar certo - “algum grau” de hipocrisia é algo tão vago que sempre pode ser atestado - mas os exemplos dados confirmam uma tese mais restrita: a direita sempre é hipócrita quando fala de soberania, democracia, direitos e desenvolvimento.

E são hipócritas, também, quando criticam o crime organizado. O andar de cima da sociedade brasileira é uma grande irmandade, sendo muito difícil separar ós supostamente honestos dos certamente criminosos.

Aliás, o avanço “aparentemente imparável do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado por aqui” coincide com o avanço do neoliberalismo e da extrema-direita. Aqui no Brasil é também nos EUA. Não se trata de coincidência, mas de decorrência.

Por isso mesmo, concordo inteiramente com Alon quando ele diz que “defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa”. Mas o que significa “cuidar da casa”? Significa, na minha opinião, derrotar a turma do crime organizado que governa os EUA e que tenta recuperar o governo do Brasil.

Neste sentido, não vejo diferença qualitativa - na questão em tela - entre “a ingerência externa” e “a ingerência do crime”. 

Em 2026, votar na esquerda, derrotar os cavernícolas e derrotar Trump é também, simultaneamente, derrotar o crime organizado, seja o das Vivendas da Barra, seja o de Washington DC.

Segue o texto comentado:


O crime, o espetáculo e a soberania

Evocar o princípio da soberania supõe sempre

algum grau de hipocrisia, à esquerda e à direita. Os

bolcheviques alistavam-se no exército russo para

colocar lenha na fogueira do derrotismo na

Primeira Guerra Mundial e, assim, ajudar na

derrubada do czar. Aparece em Dr Jivago, o

clássico hollywoodiano de 1965. A elite política

francesa preferiu capitular à Alemanha na Segunda

Guerra, pois tinha mais medo dos compatriotas

comunistas que dos nazistas alemães.

A análise política perde-se quando abandona o

foco do central: a luta pelo poder, geralmente

travada sem muita consideração pelos princípios.

Quando Jimmy Carter pressionou o então

presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos

humanos dos perseguidos pelo regime militar, a

ditadura reagiu invocando o princípio da soberania.

O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também

“a tortura, as prisões políticas e os

desaparecimentos são assunto nosso”.

A designação pelos Estados Unidos de

organizações criminosas brasileiras como

terroristas, com todas as consequências políticas e

legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a

enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de

Washington. O governo brasileiro já vinha

mostrando flexibilidade diante da pressão da

administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo

não estava jogado. Está longe de ser um segredo

que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina

Monroe 2.0.

Só que existe um problema anterior. O avanço,

aparentemente imparável, do crime organizado

sobre a economia e, dizem, sobre o Estado por

aqui. Anunciam-se planos, votam-se leis,

convocam-se entrevistas coletivas para anunciar

soluções, mas a doença ignora o espetáculo e

avança. Discutir princípios é importante, mas

defender a soberania para além de um princípio

abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o

risco de alguém de fora querer meter o bedelho.

Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou

capital político no episódio das tarifas ao lançar

mão do discurso da soberania. Vai funcionar

quando o foco da disputa é o combate ao crime

organizado? Vamos aguardar os números. Eles

dirão se o eleitor está mais incomodado com a

ingerência externa ou com a ingerência do crime

sobre a vida dele.

Colômbia: segundo turno da esquerda contra o crime organizado

A ilusão tem um papel na história.

Sem fortes doses de ilusão em que o amanhã pode ser melhor, bilhões de mulheres e homens dificilmente conseguiriam suportar sua estafante rotina diária.

Sem ilusões, utopia e esperança, centenas de milhões de pessoas não dedicariam suas vidas à luta por uma sociedade sem exploração nem opressão de nenhum tipo, mesmo que o “realmente existente” até agora sempre tenha estado aquém do desejado.

Ilusões aquecem a alma, enganam o estômago, afugentam o sono e espantam o medo.

Mas também causam ressaca.



A certeza que boa parte da esquerda colombiana alimentava numa vitória no primeiro turno tinha bases reais? O resultado da apuração é produto de uma fraude? Ou o que ocorreu era previsível, mesmo que tenha sido fruto da ilegítima mas previsível “metodologia” utilizada pelas direitas mundo afora?

As verdadeiras razões do “resultado até agora anunciado” - segundo turno com a esquerda em segundo lugar - só os colombianos saberão responder. 

A nós cabe - diferente do que alguns fizeram nas eleições presidenciais venezuelanas - dar todo apoio ao que a esquerda colombiana decidir fazer, para que no segundo turno da eleição presidencial, dia 21 de junho, a candidatura de Ivan Cepeda derrote a candidatura do crime organizado. 

Pois é disso que se trata: as candidaturas da extrema-direita expressam, em todas as partes, a aliança entre as oligarquias, o grande capital, o imperialismo, o fascismo e o crime. 

Por isso, aliás, o disposto no recente anúncio do “Rubio Departamento de Estado USA” não constitui apenas uma ingerência contra a soberania nacional. Para além disso, somos contra porque Trump e os cavernícolas sem pátria são parte integrante do crime organizado. Que, claro, aprendeu em Gotham City que berrar “pega o ladrão” é ótimo para distrair a atenção dos incautos.

Agora, aqui no Brasil, que o ocorrido na Colômbia sirva para nos vacinar contra aqueles que seguem falando em vencer no primeiro turno.

Venceremos com mais facilidade se nos prepararmos para o pior. Até porque ressaca atrapalha muito quando se precisa ir para cima sem dó nem piedade.