Acaba de sair um livreto, neste dia 21 de abril, um livreto intitulado "ROTEIRO SOBRE EXPERIÊNCIAS INTERNACIONAIS DE ORGANIZAÇÃO PARTIDÁRIA".
Neste livreto, há diversos textos, entre os quais um escrito em 2015, que infelizmente segue atual.
Segue abaixo o dito cujo.
O que não
fazer?
Roteiro de Valter Pomar sobre
o tema “Experiências Internacionais de Organização Partidária”, elaborado para
o Seminário sobre Organização Partidária, promovido pelo Diretório
Nacional do Partido dos Trabalhadores*
27 e 28 de agosto de 2015, em
São Paulo, no Hotel San Raphael
Agradeço à direção do PT o
convite para contribuir neste seminário.
Faço parte dos que foram
derrotados nas principais votações do recente quinto congresso, tanto nas
questões políticas quanto nas questões organizativas.
Votei contra a continuidade do
PED e a favor do sistema de eleição em congressos. E sou autor, junto com a
companheira Iole Iliada, de um recurso ao Diretório Nacional do PT,
questionando a legalidade da decisão adotada quanto a
contribuição militante.
No mérito, considero um
despautério que um Partido como o PT, num momento como este, desvincule o
direito de votar da obrigação de contribuir financeiramente. O momento é de
construir o autofinanciamento militante!!!
Dito isto, passo a tratar do tema
para o qual fui convidado: “Experiências Internacionais de Organização
Partidária”. Para tal, a organização me concedeu dez minutos para uma fala
inicial e cinco minutos para comentar após as intervenções dos participantes,
mais o direito a distribuir um texto de 5 mil caracteres, o que equivale a uma
página do jornal Página 13.
Como o assunto não cabe neste
tempo nem neste espaço, optei por preparar esta exposição por escrito, que a
Sorg se dispôs a imprimir e distribuir aos presentes ao seminário. Além de
estar disponível no valterpomar.blogspot.com.br
O que as experiências
internacionais têm a nos dizer?
Começo afirmando a seguinte
ideia: não existem modelos na luta da classe
trabalhadora pelo socialismo. A tentativa de copiar as opções (ou
o que achamos que foram as opções) adotadas pela classe trabalhadora em outros
países e épocas não deu e nunca dará certo.
Ou seja: em cada país, em cada
época, cada classe trabalhadora terá que construir seu programa, sua
estratégia, seus instrumentos organizativos, suas táticas e formas de
luta. Portanto, a forma de organizar a luta da classe trabalhadora e as
ideias correspondentes são marcadamente históricas, correspondem a um
determinado momento da luta de classes em um determinado país.
Embora isso seja verdade, a
tendência a copiar modelos é fortíssima. Por que isto acontece?
Em primeiro lugar, porque o
capitalismo, a classe trabalhadora e a luta pelo socialismo são fenômenos
internacionais.
Em segundo lugar, porque o maior
êxito da classe trabalhadora num determinado país ou época estimula seus
contemporâneos a “seguir os passos do caminho”.
Assim é que houve uma tendência a
copiar os franceses (até a derrota da Comuna de Paris), depois uma tendência a
copiar os alemães (até a I Guerra Mundial), depois uma tendência a copiar os
russos, os chineses, os cubanos etc. Vale destacar que esta tendência é
estimulada em certa medida pela classe dominante, através da propaganda
negativa que faz acerca de determinadas experiências.
Em terceiro lugar, porque é
realmente útil estudar as experiências internacionais, desde que fique claro o
que buscamos neste estudo. E o que buscamos não são as respostas certas, mas
sim as perguntas certas.
Dito de outra forma, a
experiência internacional não nos responde como organizar a classe trabalhadora
brasileira na luta pelo socialismo.
Não existe um “supermercado de
experiências”, onde a gente possa adquirir a "melhor forma de organização
de base", a "melhor forma de mobilização", o "melhor tipo
de comunicação", o "melhor tipo de direção" e assim por diante.
O que a experiência internacional
pode nos ajudar é a elaborar uma lista de “perguntas” que devemos tentar
responder, ao analisar a realidade brasileira.
Dito de outra forma, o estudo da
experiência internacional (que em grande medida consiste no estudo de várias
outras experiências nacionais ao longo da história) pode nos ajudar a produzir
uma síntese dos grandes temas, das grandes questões, das grandes perguntas. Mas
a resposta adequada aos nossos problemas, isto tem que ser produto da análise
concreta da situação concreta, para usar uma frase conhecida.
O que foi dito até agora poderia
ser formulado de outra forma, mais digamos "humorística", a saber: a
experiência internacional pode nos indicar o que fazer para que as
coisas terminem mal. Pode nos indicar, dito de outra forma, o
que não fazer. Por razões meramente didáticas, é desta forma
“humorística”, que eu vou organizar o restante da minha exposição.
O que não fazer?
I.
Abrir mão da independência de
classe
A experiência histórica
demonstra: a classe trabalhadora deve construir organizações próprias, para
travar a luta econômica, política e ideológica. Sindicatos e outras formas
de organização, partidos, escolas e meios de comunicação: ou se constrói, ou se
perde a luta.
No caso do petismo, o déficit mais
evidente ao longo destes 35 anos está no terreno da comunicação. Não apenas
falta uma política e uma ação de comunicação à altura das necessidades (não
temos um jornal diário, por exemplo). Mas também o conteúdo de nossa
comunicação é pífio e muitas vezes errado, como eu percebo toda vez que vejo o
Kassab, o Levy, o FMI e o Setúbal ganharem destaque positivo na página
eletrônica do PT nacional.
A ausência de uma política de
comunicação afeta a independência de classe, pois ajuda (por omissão) a manter
uma grande parte da classe trabalhadora sob domínio da visão de mundo dos
capitalistas e dos setores médios.
Depois de tantos anos, não se
pode atribuir o problema a falta de recursos humanos ou materiais. E depois da
exitosa e logo desdenhada experiência do Muda Mais, ficou claro que não se
trata tampouco da rejeição aos impressos em favor das novas mídias. Há uma
divergência de fundo, acerca da necessidade ou não de uma verdadeira rede de
comunicação partidária.
E esta divergência, é bom que se
diga, se estende ao conjunto da obra: desde 2003, muito pouco foi feito para
quebrar o oligopólio da mídia e democratizar a comunicação de massa. Ao revés,
a Globo continua tendo tratamento vip.
II.
Deixar de construir uma
interpretação própria acerca da realidade
A experiência histórica também
demonstra: a classe trabalhadora precisa construir (e reconstruir,
atualizando-a o tempo todo) uma interpretação própria acerca da luta de classes
no terreno internacional e nacional, portanto acerca do desenvolvimento capitalista
em geral e de cada formação social nacional.
É bom dizer que nunca houve nem
nunca haverá uma única interpretação, nem haverá “a” interpretação. Mas a busca
por construir uma interpretação própria, do ponto de vista da classe
trabalhadora, é essencial para o êxito da luta de nossa classe. Trata-se
de uma tradução — no plano das ideias — da seguinte noção básica: a classe
trabalhadora que produz a riqueza deve, através da sua organização e ação
coletiva, tomar em suas mãos a definição de como produzir, como distribuir e
como organizar a sociedade.
Um dos piores efeitos colaterais
da ação combinada da ofensiva neoliberal e da crise do socialismo, nos anos
1980 e 1990, foi exatamente o retrocesso no terreno das ideias.
O retrocesso ocorreu, antes de
mais nada, no plano material, com o fechamento de editoras, escolas, jornais,
provocando a redução nos recursos humanos e materiais dedicados à luta de
ideias. Mas também ocorreu um retrocesso no terreno das ideias propriamente
ditas: no mundo inteiro, caiu a influência do marxismo (ou, melhor seria dizer,
dos marxismos) e cresceu a influência das correntes ideológicas burguesas,
inclusive no interior dos partidos de esquerda.
Em alguma medida, isso era
inevitável. A derrota do socialismo de tipo soviético, da social-democracia
europeia e do nacional-desenvolvimentismo, acompanhadas de uma nova fase no
desenvolvimento capitalista, obrigaram a classe trabalhadora a tentar construir
interpretações novas para os problemas antigos e a buscar construir soluções
novas para os problemas novos. E, enquanto isto não acontecia, é evidente que
as ideias burguesas ocupariam mais espaço do que antes.
Um problema adicional, no caso do
Brasil e do PT, é que não fizemos este “dever de casa”. Embora haja no Partido
muita gente que gosta de citar o Gramsci, a verdade é que não se leva muito à
sério a ideia de que o Partido deva ser um intelectual coletivo. Isto pode ser
confirmado, analisando-se por exemplo as experiências & vicissitudes do
Instituto Cajamar e da Fundação Perseu Abramo.
Importante lembrar que não há
nenhuma experiência exitosa de luta pelo socialismo, que não tenha envolvido a
construção de uma intelectualidade orgânica. Não estamos
falando, como é comum na esquerda brasileira hoje, de buscar a “assessoria” de
intelectuais tradicionais (estejam eles onde estiverem e sejam quem forem).
Estamos falando, isto sim, de construir uma “contra-elite intelectual”,
vinculada organicamente à classe trabalhadora, capaz tanto de enfrentar o
pensamento dominante quanto de construir uma visão de mundo adequada aos
interesses da nossa classe.
A debilidade da nossa
intelectualidade orgânica fica clara no caso do debate econômico: parte dos
petistas incorporou o credo neoliberal (exemplo disto é a submissão mental ao
dogma do superávit primário); outra parte combate o neoliberalismo a partir do
credo keynesiano (o que implica, como estamos vendo neste segundo governo
Dilma, num alto risco de capitulação). Aliás, a própria ilusão de que os
"economistas profissionais" são os mais habilitados para discutir e
elaborar nossas alternativas é por si mesmo reveladora.
Outro exemplo de debilidade da
nossa intelectualidade orgânica está na maneira como interpretamos a estrutura
de classes da sociedade brasileira. Há entre nós desde aqueles que abandonaram
a luta de classes como vertebradora, tanto da ação quanto da compreensão da
realidade; passando por aqueles que acreditam na luta, mas não acreditam no
caráter central do conflito entre a classe trabalhadora e os capitalistas; até
aqueles que corretamente reconhecem o papel central da luta de classes e do
conflito capital versus trabalho, mas não atualizaram seu conhecimento da
realidade, muito embora a composição de cada classe e do conjunto da estrutura
social brasileira tenha sofrido mudanças importantes desde os anos 1980.
Podemos dizer, portanto, que a
esquerda brasileira como um todo e o PT em especial ampliaram sua influência
política, mas carregando uma bagagem teórica e ideológica debilitada e as vezes
parcialmente emprestada dos seus adversários. O que ajuda a explicar a
perplexidade de alguns frente ao que está ocorrendo agora.
Essa contradição entre influência
política e influência ideológica — que também ocorre no plano nacional, em que
ganhamos quatro eleições presidenciais, mas sem consolidar uma maioria
político-cultural a favor de mudanças estruturais — tem relação direta com
determinadas opções políticas que fizemos desde 1995. Resumidamente, certos
"atalhos" podem custar muito caro no médio prazo.
É bom que se diga, entretanto,
que não somos os únicos. Por exemplo, parte da esquerda latino-americana vive a
mesma situação: mesmo em países onde a situação política é mais avançada, a
compreensão teórica dos processos está extremamente defasada e muitas vezes
atrapalhada pela predominância de paradigmas enferrujados e as vezes totalmente
incorretos quando se trata da interpretação do capitalismo do século 21, do
balanço das tentativas de construção do socialismo no século 20 e das
formulações estratégicas. Claro, dizem que a coruja de Minerva alça voo ao
anoitecer. Mas nossa coruja às vezes parece empalhada.
III.
Desistir da luta pelo poder
Pode parecer estranho, mas há
várias correntes — como os zapatistas, por exemplo — que acreditam ser possível
“mudar o mundo sem tomar o poder”.
Aqui no Brasil temos algo
análogo, por exemplo o Frei Betto, que volta e meia critica o PT por ter — na
opinião dele — cometido o erro de trocar um projeto de nação por um projeto de
poder, quando a verdade é o oposto: o PT foi abrindo mão da luta pelo poder e
se contentando em lutar pelo governo. Para depois de quatro eleições
presidenciais, descobrir o óbvio: enquanto a classe dominante controlar os
fatores fundamentais de poder, ela continuará dispondo dos meios seja para
virar o jogo a seu favor, seja para limitar de modo estrutural nossos avanços.
O caso do Frei Betto, deixando de
lado alguns aspectos da digamos personalidade política dele, revela um aspecto
do problema que vale a pena comentar: a influência do pensamento cristão no
petismo fez e faz com que sejamos muito suscetíveis ao senso comum segundo o
qual “todo poder corrompe”, “política é coisa suja” etc. Senso comum muito útil
aos que já detêm o poder, para convencer os que não detém o poder a manterem-se
no seu lugar, para “não se sujar”.
Esse senso comum acerca do poder
afetou negativamente o nosso pensamento e nossa ação estratégica. E — ao não
entendermos nem tratarmos corretamente o tema do poder — acabamos na teoria
fazendo um discurso liberal sobre ética & cidadania, ao mesmo tempo em que
na prática baixamos a guarda inclusive no tema da corrupção.
A este respeito, é bom dizer que
nosso partido foi vítima precoce do mesmo mal que
atingiu tantos partidos socialistas, especialmente daqueles que detinham o
poder de Estado. Claro que a oposição de direita é hipócrita, claro que a
justiça é seletiva, claro que a mídia deforma, claro que nossos governos
tomaram medidas importantes no combate à corrupção. Mas também é verdade que
baixamos a guarda, nos acomodamos ao modo tradicional de fazer política e —
além disso — introduzimos em nosso Partido métodos degenerados de
luta interna, baseados na mesma mercantilização eleitoral que
condenamos na sociedade. Sem falar no olhar de paisagem com
que vários de nós passaram a encarar os famosos “sinais exteriores” ostentados
por alguns filiados.
Vale lembrar que a burocratização
e a corrupção em larga escala atingiram vários partidos no Leste Europeu. E que
na China, o PCCh transformou o combate à corrupção em questão de vida ou morte.
O tema da corrupção, portanto, pode ser “ético” no plano individual, mas no
plano da luta de classes é parte da disputa pelo poder. E quem não quer
disputar/conquistar/tomar o poder, é disputado/conquistado/tomado por quem
controla o poder.
Aceita a tese de que não podemos
desistir da luta pelo poder, é preciso enfrentar três temas vinculados: o que é
o poder, quem deve conquistar o poder, como conquistar o poder. Sobre isto há
um debate internacional que podemos rastrear pelo menos desde os tempos da
criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, em 1864, até os tempos
atuais. Este debate é tão atual que, por exemplo, leva alguns de nós a
“defender a democracia” e outros a “defender as liberdades democráticas”. Como
não há tempo nem espaço, sejamos telegráficos: quem deve
conquistar o poder é a classe trabalhadora; como conquistar o
poder é “o” debate estratégico; e o poder é uma relação social,
que se cristaliza periodicamente em determinadas instituições (a propriedade
das empresas, as forças armadas, os meios de comunicação, as instituições
estatais, as organizações populares etc.).
Se queremos aprender algo das
experiências internacionais, especialmente das fracassadas, que são as mais
interessantes, devemos retomar o debate estratégico e dar conta das questões
expostas no item acima. Digo que as fracassadas são as mais interessantes, no
espírito da frase famosa: “todas as famílias felizes são parecidas; as
infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”.
IV.
Romper a relação entre reformas e
revolução
Na virada do século 19 para o
século 20, houve um grande debate entre os principais dirigentes da
socialdemocracia — pessoas como Rosa Luxemburgo, Bernstein, Kautsky e Lenin — acerca
da relação entre a luta pelo socialismo e a luta cotidiana da classe
trabalhadora, por melhorar suas condições de vida no capitalismo.
Este debate continuou por todo o
século 20 e reaparece, sob diferentes formas, no dia a dia de todo militante de
esquerda. Na prática somos estimulados a dar conta do imediato, do
urgente, do que está ao nível de consciência das pessoas. Mas se nos limitarmos
a isto, que tipo de mudança produziremos ao final?
Dito de outra maneira e dando um
exemplo: devemos lutar por aumentar nossos salários, mas o aumento dos salários
não vai modificar o sistema social em que alguns são proprietários e outros
vendem sua força de trabalho. E se o que queremos é mudar este sistema, então é
preciso combinar a luta por “reformas” com a luta por “revolução”.
No caso do Brasil, fazer esta
discussão exige remover várias camadas de confusão. De cara, vivemos num
país onde nunca houve uma revolução social, pelo menos não algo similar às
várias revoluções ocorridas na França entre 1789 e 1870, nem similar a guerra
de independência dos EUA e a posterior guerra civil que acabou com a
escravidão, nem similar ao que ocorreu na Rússia, ou na China, ou em Cuba.
Ao mesmo tempo, vivemos num país
onde a classe dominante chama episódios como 1930, 1932 e 1964 de
“revolução”.
Simultaneamente, aqui no Brasil o
termo reformas possui vários significados. Exemplo: as “reformas de base”
defendidas pela esquerda em 1964 versus as “reformas neoliberais” aplicadas
pelo PSDB nos anos 1990.
Essa confusão, digamos, não é
apenas linguística. Corresponde a um contexto extremamente
resistente ao radicalismo político e social.
Quando o PT surgiu, ele enfrentou
esta tradição de conciliação e pacto; mas ao longo do tempo, fomos nos
habituando, nos conformando, nos adaptando, nos domesticando — para usar uma
expressão que, por essas ironias da vida, foi notabilizada noutros tempos pelo
atual presidente do PT, Rui Falcão.
Hoje, o PT precisa recuperar sua
“indignação com tudo isto que está aí”, recuperar sua capacidade de expressar a
insatisfação popular, a rebeldia plebeia, o protesto proletário. Pois se
não fizermos isto, se não formos também expressão da insatisfação e rebeldia
social, nos converteremos num “partido da ordem”, no sentido estrutural da
palavra. É o que trataremos no próximo ponto.
V.
Subordinar o Partido ao Estado
e/ou ao governo
Nos anos 1990, quando a União
Soviética veio abaixo, importantes intelectuais petistas diziam que um dos
maiores ensinamentos daquela experiência foi a de que não se deve confundir nem
subordinar Partido e Estado. Este é um tema muito complexo, pois a
experiência histórica mostra que quando há uma revolução, o Partido que dirige
esta revolução torna-se, ele mesmo, o núcleo do poder de Estado. E que,
portanto, nestes casos, embora Estado e Partido sejam instituições diferentes,
o vínculo entre elas é muito forte.
Reconhecendo essa realidade,
tanto Lênin quanto Gramsci defendiam que o Partido assumisse conscientemente o
papel de construtor do novo Estado. Sendo que a partir da experiência prática
entre 1917 e 1924, Lenin enfatizava muito a distinção entre as tarefas de
“administração” e “direção” (ou seja, entre governo e Estado).
No debate dos anos 1990, alguns
intelectuais do PT entraram na onda de estigmatizar Lenin e desidratar Gramsci,
ao ponto de converterem a noção de disputa de hegemonia em “interlocução”
institucional. E, no lugar da visão clássica da esquerda sobre o Estado, grande
parte do PT foi adotando o famoso “republicanismo”, que tem seu melhor exemplo
no comportamento passivo do governo, especialmente do atual ministro da
Justiça, frente à atitude de setores do judiciário, do Ministério Público
Federal e da Polícia Federal: “aos inimigos, nem mesmo a lei”.
Num resumo: da crítica
parcialmente justa à confusão entre Partido e Estado, alguns avançaram para a
crítica ao papel dirigente do Partido frente ao Estado e terminaram
subordinando o Partido ao Estado.
Essa discussão sobre a “separação
entre Partido e Estado” estava em curso, no Brasil dos anos 1990, no mesmo
momento em que a esquerda brasileira tinha como um de seus objetivos conquistar
governos. E quando chegávamos a uma prefeitura, a um governo estadual e mesmo
ao governo nacional, ganhavam destaque os problemas na relação entre partido e
governo. Problemas para os quais a “definição teórica” segundo a qual partido é
partido, governo é governo, Estado é Estado, demonstrou-se absolutamente
insuficiente. E, na prática, parcelas crescentes do PT vem se subordinando aos
seus governos e através deles, ao Estado.
Evidente que os problemas citados
ocorreram e ocorrem em diversas experiências internacionais, especialmente
desde 1998 na América Latina. Ou seja: onde a esquerda chegou ao governo
através de eleições, experimenta problemas similares. O que nos remete ao
debate sobre a relação entre partido, governo e Estado, em condições
normais de temperatura e pressão.
As condições anormais de
temperatura e pressão são aquelas em que, no curso de uma revolução, a esquerda
tenta construir ou reconstruir à sua imagem e semelhança o Estado. Temos outras
situações em que, quando vence uma eleição em condições de grande crise, a
esquerda tenta reformar o Estado através de um processo constituinte.
O Brasil não viveu nenhuma destas
situações. Aqui a esquerda foi chegando ao governo e foi deixando de lado as
tentativas de transformar a estrutura do Estado (leia-se: aquelas estruturas e
regras de funcionamento que definem a quem o Estado realmente serve). Basta ver
o que aconteceu com o orçamento participativo e mesmo as limitações de nossas
conferências nacionais e conselhos, para perceber do que estou falando.
Como resultado disso, o governo é
por definição refém do Estado. E quando um partido tem como única orientação
estratégica disputar e vencer eleições, ele torna-se refém do governo, que é
refém do Estado. Dito de outro jeito: o Partido tende a deixar de ser uma
instituição cujo objetivo é subverter a ordem, e tende a converter-se numa
instituição paraestatal.
Um dado irônico é que esta
mutação na natureza do Partido é justificada por discursos os mais variados.
Desde 2003, ouvimos de tudo, desde argumentos supostamente
"leninistas" em favor da centralização e subordinação do partido ao
governo, até argumentos liberais e "republicanos". Mas uma coisa é a
aparência e outra coisa é a essência do fenômeno. E a essência é a conversão de
parcelas crescentes do partido em organismo paraestatal, de um Estado
construído por e a serviço de nossos inimigos de classe.
Grande parte das discussões sobre
a “burocratização” do Partido, sobre sua desimportância, sobre sua subordinação
ao governo, assim como sobre a relação entre movimentos, partido e governo.
estão relacionados a este processo de fundo, de “estatização” do Partido.
Não deixa de ser curioso que à frente deste processo estejam, muitas vezes, os
que mais alto gritaram contra a "confusão" entre Partido e Estado no
socialismo real...
Em reação a este processo de
estatização da vida partidária, há os que dizem que o problema está em disputar
eleições e/ou que o antídoto estaria nos movimentos sociais. Em relação ao
primeiro argumento, podemos dizer que — enquanto estivermos na atual situação
histórica — ele equivale a pedir para parar o mundo, para que
possamos descer. Afinal, não existe possibilidade — ao menos nas atuais
condições históricas — de “escolher” não disputar eleições ou de “escolher” não
dar importância para a luta de classes que se trava no terreno das instituições
de Estado. Aliás, alguns dos que menosprezam a importância estratégica das
disputas eleitorais acabam, na vida real, participando delas da pior maneira
possível. A questão, óbvio, está em como participar ou, de maneira mais geral,
no "lugar" que a disputa eleitoral ocupa no conjunto da estratégia. O
que nos conduz ao tema das lutas e movimentos sociais.
VI.
Achar que a salvação está nos
movimentos sociais
Quando o PT surgiu, dava-se uma
ênfase enorme ao papel dos movimentos sociais e ao mesmo tempo havia uma
subestimação do papel da luta institucional. Hoje, muitos dos personagens
que nos anos 1980 encabeçaram a construção do PT, voltam a fazer um discurso
enfático sobre o papel estratégico dos movimentos sociais, como um antídoto à
“institucionalização”.
Essa defesa da retomada de um
certo discurso e prática, defesa que alguns chamam de “volta às origens”,
esconde uma armadilha lógica. A saber: se nós defendíamos aquilo e
deu nisto, por qual razão defender de novo aquilo agora vai
dar noutro resultado, agora vai resolver o problema? Dito de outro jeito, temos
que responder porque “aquilo” deu “nisto”?
Não temos tempo nem espaço para
apresentar aqui uma resposta adequada à tal questão, mas é possível indicar
onde está um dos núcleos “teóricos” do problema. Trata-se da confusão que se
faz entre três níveis diferentes de questões: 1) o movimento social enquanto
movimento real de setores ou do conjunto da classe trabalhadora; 2) o movimento
social enquanto organizações que expressam de maneira permanente determinados
setores da classe trabalhadora; 3) o movimento social enquanto militantes
políticos (integrantes ou não de partidos formais) que atuam e dirigem o
movimento real e/ou as organizações permanentes.
Evidente que não há caminho para
o êxito da classe trabalhadora sem o concurso articulado destes três níveis.
Mas, atenção, a cada tarefa seu instrumento. Olhando para a experiência
histórica, não há absolutamente nenhum caso em que os “movimentos sociais”
tenham resolvido o problema do “poder de Estado”, nem mesmo conquistado
governos. Quem faz isto são os partidos. O exemplo da Bolívia, para
tristeza de quem tem uma visão ingênua sobre o papel dos movimentos sociais,
talvez seja um dos melhores exemplos disso.
Parte da confusão pode ser
desfeita quando percebemos a relação que existe entre o "partido" no
sentido amplo e o partido no sentido estrito da
palavra. Apenas uma minoria da "militância dos movimentos sociais",
ou seja, apenas uma minoria daquelas pessoas que dirigem as organizações e os
movimentos sociais, são filiadas a partidos políticos no sentido estrito da
palavra. Mas todos e todas que são "militantes sociais" integram o
partido no sentido amplo da palavra, ou seja, compõem o setor de vanguarda da classe
trabalhadora. Em determinados momentos da história de um país, um
"partido no sentido estrito" hegemoniza o "partido no sentido
amplo". Em certa medida, isso aconteceu com o PCB no período 1945/1964 e
com o PT no período 1989/2003. Noutros momentos, não há (ou está em crise) um
partido hegemônico e a militância social vive em estado de crescente dispersão.
Nestes momentos surge a tendência a tratar como absolutamente distintas e até
antagônicas a "militância partidária" e a "militância
social". Surge também uma tendência a atribuir aos "militantes
sociais" e/ou aos "movimentos sociais" tarefas de partido.
O fato é que, quando os partidos
falham, apelar aos “movimentos” pode ser apenas uma maneira de não responder
por qual motivo os partidos falham. Vide as expectativas ontem depositadas no
Syriza e hoje depositadas no Podemos. Assim, há um conjunto de questões a
responder de forma articulada: qual o lugar que os movimentos sociais (enquanto
luta real e concreta), e qual o lugar que os movimentos sociais (enquanto
organizações permanentes) e qual o lugar que os militantes dos movimentos
sociais têm na estratégia global de transformação do Brasil?
No fundo, só consideramos
acertado falar que a “salvação está nos movimentos sociais” no sentido de que
nossa estratégia só terá êxito se tiver apoio no movimento real da classe
trabalhadora, se soubermos combinar formas de luta, se por exemplo estimularmos
a construção de um poder alternativo e paralelo, que possibilite termos um
governo que não seja refém do Estado, que permita termos um partido que não
seja refém do governo. Ou seja, a “salvação” está também nos
movimentos sociais, a depender de como se articule — no contexto de uma
estratégia geral — a ação do movimento real da classe, a ação das organizações
da classe, a ação dos militantes que atuam nos movimentos sociais (partido
amplo), a ação dos militantes partidários (partidos no sentido estrito).
O que foi dito antes tem relação
direta com a discussão que está em curso, hoje, sobre a necessidade de
construir uma frente popular (para alguns) ou uma
frente de esquerda (para outros). As diferentes visões
programáticas, estratégicas e táticas se traduzem em pelo menos três posições
organizativas: há os que pretendem construir uma frente ampla de
partidos, movimentos e "personalidades", há os que pretendem
construir uma frente de movimentos e há os que
pretendem construir um novo partido chamado de "frente".
Evidentemente, se prevalecesse a posição destes últimos, não haveria frente
alguma. Já os que defendem uma frente apenas de movimentos estão querendo
utilizar um instrumento (a Frente) para tentar resolver um problema de outra
natureza (o Partido).
VII.
O culto à personalidade
Na ausência de uma visão ou
resposta estratégica, muita gente deposita suas esperanças em soluções mágicas.
Voltando ao debate dos anos 1990: fazia parte do pacote ideológico
"comprado" por algumas pessoas criticar o socialismo soviético, a
revolução, o partido de vanguarda e o culto à personalidade.
A crítica foi tão malfeita que,
quando o problema surgiu entre nós, tivemos dificuldades para reconhecer e
tentar corrigir o problema. O resultado é que em vários países
latino-americanos, inclusive no Brasil, pratica-se um culto à
personalidade de baixa intensidade.
No nosso caso, na atual
conjuntura, trata-se do último refúgio dos desesperados: “Tá
tudo muito complicado, mas o Lula vai ganhar as eleições em 2018 e tudo vai se
resolver”.
Quem diz isto geralmente não
explica por quais motivos ele vai ganhar as eleições e
por quais motivos seu governo vai corrigir os rumos.
Trata-se, no fundo, de uma crença, não de análise. Uma crença que tem uma larga
tradição na história do Brasil e também uma larga presença no movimento
socialista internacional.
Não é preciso gastar muito
argumento: os indivíduos, especialmente as lideranças, têm um papel na
história, maior ou menor. A questão é saber que tipo de relação se
estabelece entre o indivíduo e o coletivo, entre as lideranças, o partido, a
classe e a maioria do povo. Como tantas outras questões que tratamos aqui, não
há uma resposta única, nem que seja válida para todos os tempos e situações. E,
para falar a verdade, embora haja acertos, os erros cometidos a respeito disto
são monstruosos.
No caso do Brasil, temos uma
peculiaridade: o processo eleitoral e o exercício de mandatos eletivos
estimulam um determinado tipo de relação entre o indivíduo e o coletivo.
Se o coletivo (seja a sociedade,
seja o Partido) não criar antídotos, o que vai prevalecer será o poder
unipessoal no Executivo e o cretinismo no
parlamento (para citar um cidadão conhecido, o cretinismo parlamentar consistia
“numa espécie de delírio que acometia as suas vítimas, as quais acreditavam
que todo o mundo, o seu passado e o seu futuro se governavam por uma maioria de
votos ditada por aquela assembleia (…) e tudo o que se passava fora daquelas
quatro paredes muito pouco ou nada significavam ao lado dos debates importantes").
Uma das curiosidades é que os
executivos autoritários e os parlamentares cretinos muitas vezes usam como
desculpa o fato de terem sido eleitos pelo povo. O que confirma que a demagogia
basista pode ser, às vezes, a melhor desculpa para o autoritarismo.
Isso nos remete a duas discussões
que estão relacionadas, mas são distintas: como ampliar as liberdades
democráticas na sociedade e como garantir a democracia no interior do Partido.
O primeiro tema está relacionado com a discussão da Constituinte, da reforma
política e do Estado, da democracia na comunicação etc. Já o segundo tema diz
respeito diretamente ao que estamos discutindo neste texto: o controle da
direção pelas bases, o controle dos mandatários pela direção, as estruturas, o
funcionamento e o financiamento do Partido, sua relação com a militância
social, com a classe e com a maioria do povo.
Há um imenso debate a respeito de
como fazer isto, envolvendo questões como partido de massas e de quadros,
partido de vanguarda e “centralismo democrático”, papel das direções e direito
de tendências, existência e papel de funcionários e profissionalizados (o que
no caso da atual esquerda brasileira envolve não apenas a burocracia
partidária, mas também a sindical, parlamentar e governamental), funções e
poderes dos organismos de base (núcleos, setoriais, células), formação e
comunicação partidárias etc. Trata-se de um debate tão apaixonante, pelo menos
para os que somos dirigentes na ativa ou na reserva, que é comum perdermos de
vista a natureza essencialmente política do problema.
VIII.
Abrir as portas do partido
Certas pessoas gostam quando
aparece uma solução fácil para um problema difícil. Infelizmente, muitas vezes
trata-se apenas de prestidigitação. Ou seja: se nosso problema é de linha
política, olhemos para o outro lado e vamos discutir o estatuto. Se nosso
problema é que a direção não está à altura das tarefas, olhemos para o outro
lado e vamos discutir como “organizar o partido a partir da base”. Se nosso
problema é estar perdendo apoio na classe trabalhadora, olhemos para o outro
lado e vamos nos transformar em um “partido de portas abertas”, o que pode
significar várias coisas diferentes, não necessariamente aquilo de que
realmente precisamos: reatar os laços com a “velha” classe
trabalhadora e construir laços com a “nova” classe trabalhadora. Se
nosso partido está vivendo uma crise tremenda, que lembra perigosamente o
estágio fatal de outros grandes partidos de esquerda no mundo e no Brasil,
vamos fingir que somos uma jabuticaba e que nada disso vai acontecer conosco.
Um dos partidos mais
interessantes do século 20 foi o Partido Comunista Italiano. Viveu experiências
tremendas (revolução, ascensão do fascismo, guerra de guerrilhas, lutas sociais
e parlamentares), construiu uma interpretação acerca da Itália e do mundo (vide
Gramsci), possuía uma vida interna pujante, base de massas, força na classe
trabalhadora... e desapareceu, suicidou-se. A tragédia é detalhadamente
descrita no livro O alfaiate de Ulm, de Lucio Magri. Livro que este
seminário deveria sugerir como leitura obrigatória para todo petista. Até
porque nos permite perceber algo muito interessante: a crise de um partido que
tem enorme importância não é um fenômeno singular, faz parte da crise mais
geral de todo um sistema político.
Nosso PT tem infinitos problemas
organizativos, alguns muito superiores aos de outros partidos que desapareceram
na poeira da história. Dou como exemplo a situação de colapso em nossa
comunicação, o déficit de formação política, o esfacelamento dos núcleos de
base, o enfraquecimento da ligação de parcelas de nosso partido com a vida e a
luta cotidiana dos trabalhadores, a dependência frente aos recursos financeiros
públicos e empresariais etc. Esta situação nos empurra, como é óbvio, a dar aos
problemas organizativos um papel destacado; não digo que isto seja totalmente
errado, mas acho que é essencialmente errado, se por
"problemas organizativos" entendermos técnica, administração, regras
e estatuto.
Para explicar o que quero dizer,
termino com uma “anedota”. Deixei de ser dirigente profissionalizado em
dezembro de 2013. E, depois de 16 anos, resolvi tirar um ano sabático, que, no
meu caso, foi dedicado, entre outras coisas, a algo meio vintage: ler os
50 volumes das Obras Completas do Lênin.
Lênin é conhecido, dentre os
dirigentes da esquerda, pelo alto valor que deu ao tema do Partido. Cinquenta
volumes depois, obviamente constatei que isso é verdade. Mas muito mais verdade
é que, para Lênin, a questão organizativa é uma questão política.
Como ele dizia, a organização é política concentrada. Noutros termos, os
problemas organizativos do PT não serão resolvidos se não resolvermos nossos
problemas políticos.
Adendo, por fim, outro
comentário, sugerido por um companheiro e também baseado no Lênin: o russo
dizia que não existe situação sem saída para a burguesia. Agrega o citado
companheiro: a burguesia aprende com nossos erros e acertos. Nós precisamos
fazer o mesmo.
Valter Pomar, 26 de agosto
de 2013
PS. Agradeço a quem opinou sobre
este texto, em especial ao Rodrigo César, ao Diego Pitirini, ao Wladimir Pomar,
ao Breno Altman, à Rachel Moreno, ao Lincoln Secco, ao Carlos Virtude e demais
participantes da lista Marxorg : Marxismo e Organização Política. Por óbvio,
nenhum dos que ajudaram tem qualquer responsabilidade pelo que foi dito neste
texto.
*O texto foi publicado em
coletânea organizada pelo PT. Disponível também aqui: https://valterpomar.blogspot.com/2015/08/contribuicao-ao-seminario-de.html
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