quinta-feira, 23 de abril de 2026

As duas almas de José Dirceu

 SEM REVISÃO 

As duas almas de José Dirceu 

José Dirceu divulgou há alguma semanas um texto intitulado “O CARÁTER DA CRISE DO CAPITALISMO E O MOMENTO HISTÓRICO”.

O texto é assinado por ele e apresentado como uma “Contribuição para o debate e para o texto do Programa do PT”.

Imagino que o texto seja uma resposta ao questionamento que Maria Carlotto e nós da tendência petista Articulação de Esquerda fizemos contra as posições defendidas por Dirceu, na comissão encarregada de elaborar um projeto de resolução sobre o programa do Partido.

Quem quiser conhecer as opiniões que defendemos, estão aqui: 


Breno Altman, que também assina nosso texto, havia prometido fazer uma resposta a Dirceu. Como até hoje ele não cumpriu a promessa, aproveitei o voo de São Paulo até Brasília, onde vou participar do Congresso do PT, para escrever um comentário a respeito.

O texto de Dirceu abre afirmando o seguinte: “Para definir o programa do PT, ou atualizá-lo, é necessário definir o caráter da crise do capitalismo.  Há quem sustente que não se trata apenas de uma crise do neoliberalismo, mas do próprio sistema capitalista, como se fosse sua crise final, ou como se pudesse abrir um período histórico de crise revolucionária. Nesse cenário, a substituição do capitalismo pelo socialismo apareceria como possibilidade, ou ao menos haveria condições de colocar na ordem do dia a ruptura com a ordem capitalista.”

Certamente há quem sustente esse tipo de besteira sobre a “crise final”. Mas achava que Dirceu sabia que essa não é e nunca foi a nossa posição. Ele parece ter escolhido fazer uma caricatura do que pensamos, talvez porque isso ajuda a sustentar sua posição clássica, que pode ser resumida assim: “à minha esquerda, só o abismo”.

O que nós defendemos? Primeiro, que a crise que vivemos é sistêmica. Ou seja: é uma crise do “sistema”, uma crise que envolve de forma articulada todas as dimensões da vida, da cultura, da política e da economia. É portanto uma crise do capitalismo, que é o modo de produção e reprodução atualmente hegemônico no mundo.

Em segundo lugar, defendemos que esta crise sistêmica pode, em tese, ter quatro desdobramentos: i/a destruição da humanidade; ii/a continuidade da hegemonia atual; iii/ a continuidade do capitalismo sob outra hegemonia; iv/ a superação parcial do capitalismo em alguns países ou regiões.

Portanto, Dirceu nos atribui uma posição que não é a nossa. 

Afirmar que estamos numa crise do capitalismo não é o mesmo que tratar esta crise  “como se fosse sua crise final”. Até porque a “crise final” do capitalismo - se e quando efetivamente ocorrer - não será um evento pontual e de curta duração, mas sim um processo histórico que provavelmente durará décadas ou séculos. Sendo assim, o conceito de “crise final” não é politicamente operacional.

Mas o fato da “crise final” não ser politicamente operacional tampouco significa que não existam crises parciais profundas, que mudem o rumo do capitalismo ou inclusive abram caminho para alternativas socialistas. Este foi o caso das revoluções burguesas, das guerras mundiais, das revoluções socialistas e da crise de 1929 e, em nossa opinião, também está sendo o da crise de 2008.

Ou seja: embora não seja a “crise final” (que, como explicamos antes, é algo que na prática não existirá), a crise sistêmica atual pode ter - entre seus vários desdobramentos- um novo ciclo de revoluções socialistas e também um nova hegemonia capitalista, diferente do neoliberalismo e do imperialismo estadunidense. 

julgar pelo que ocorreu no século 20, é possível que tenhamos estes dois desdobramentos simultaneamente, tudo junto e misturado. Mas também pode ocorrer uma novidade. 

Afinal, um dos componentes desta crise sistêmica é a crise do neoliberalismo, ou seja, da hegemonia da dominação do capital financeiro sobre o conjunto do capitalismo e sobre o conjunto da sociedade. Esta dominação financeira é tão grande que está para ser demonstrado que o capitalismo sobreviverá ao fim da financeirização.

Outro dos componentes da crise sistêmica é a crise dos Estados Unidos e da dominação imperialista estadunidense sobre o mundo. Novamente, está para ser demonstrado que o capitalismo sobreviverá a uma derrota dos EUA.

Sendo assim as coisas, um partido de esquerda, com a força que o PT tem, num país com a importância mundial do capitalismo, deve incluir nos seus cálculos estratégicos esta possibilidade objetiva: a de que a atual crise sistêmica possa resultar, entre outros desdobramentos, numa ruptura parcial (como foi a russa de 1917 e a chinesa de 1949, entre outras) com o capitalismo.

Dirceu afirma que a questão “é, ao mesmo tempo, de análise empírica sobre o momento histórico e de decisão política sobre qual caminho seguir. Ou seja: qual será nossa estratégia política e, por conseguinte, quais tarefas e objetivos devem ser definidos.”

Dirceu tem razão na premissa metodológica. Mas qual é o desdobramento que ele tira do panorama histórico que faz a seguir?

A conclusão que ele tira é “defensivista”. 

É bastante provável que a situação global ainda piore muito. Como pioraram as coisas nos anos 1930 e início dos anos 1940. Mas se quisemos enfrentar esta tendência, o “defensivismo” pode até ser uma boa tática, mas é uma péssima estratégia.

Limitar nosso horizonte estratégico ao que a correlação de forças permite, no plano da tática, tem como resultado prático impedir ou dificultar o acúmulo de forças. Aliás, a experiência prática do PT confirma isso: avançamos mais exatamente quando nos propusemos a ir um pouco além do que parecia possível.

Acho que Dirceu sabe disso. Mas ele, como o velho PCB, parece ter duas almas. Uma delas é revolucionária e socialista, mas infelizmente é geneticamente recessiva. A outra alma, geneticamente dominante, se concentra em tentar construir um caminho diferente para o capitalismo brasileiro.

Exemplo disto é a seguinte disjuntiva posta por Dirceu: “A pergunta que devemos responder é: qual nossa estratégia neste momento histórico e na conjuntura atual? Quais são nossos objetivos, formas de organização e luta? Quais são nossos aliados? E quais são as tarefas, sendo a principal a defesa da democracia, da soberania e dos direitos sociais da classe trabalhadora brasileira? Ou, ao contrário, colocamos na ordem do dia a ruptura com o capitalismo no Brasil?”

Duvido que exista, no PT, alguém que coloque “na ordem do dia” a ruptura com o capitalismo no Brasil. 

O que existe, isto sim, é quem diga: i/primeiro, que os dilemas estratégicos enfrentados pelo capitalismo brasileiro (a dependência, a desigualdade, o subdesenvolvimento e o conservadorismo politico) não serão superados sem que a classe trabalhadora assuma o poder; ii/segundo, que pelo motivo anteriormente exposto, o PT deve insistir na  estratégia democrática, popular e socialista definida em 1987, no Quinto Encontro nacional do PT, e reafirmada em 2017, no Sexto Congresso do Partido.

Outro exemplo de que Dirceu, para tentar polemizar com o que pensamos, recorre a uma caricatura é o seguinte trecho: “Não se trata de fazer propaganda do socialismo ou de afirmar o caráter socialista do PT. Trata-se de propor uma ruptura, o que supõe afastar alianças com o centro e buscar uma base social para uma oposição de esquerda socialista.”

Uma das almas de Dirceu sabe muito bem que parte do PT desistiu até mesmo de “fazer propaganda” do socialismo. Aliás, para tentar afirmar o “caráter socialista” do PT, volta e meia somos obrigados a fazer emendas em textos que parecem escritos para reduzir o PT a um partido apenas desenvolvimentista (quando não a um partido social-liberal).

Mas a outra alma de Dirceu, aquela que acha que à sua esquerda só existe o abismo, acusa seus oponentes de “propor uma ruptura”, “afastar alianças com o centro” e “buscar uma base social para uma oposição de esquerda socialista”. E depois de fazer essas acusações, Dirceu lança mão do argumento preferido pelos minimalistas: a correlação de forças.

Comecemos pelo final: a correlação de forças existe e esta péssima e pode piorar bastante antes de melhorar. A questão é saber se vamos construir outra correlação de forças fazendo alianças com a direita. Porque, sejamos honestos, as alianças que geram polêmica no PT são com a direita, não com o “centro” (seja lá o que isso for). 

Em segundo lugar: fazer alianças com o centro ou mesmo com a direita não é contraditório com construir uma base social “de esquerda socialista”. Aliás, pelo contrário: podemos e devemos buscar alianças, mas para que sejam alianças e não diluição, é preciso que nossa base social esteja organizada, de forma independente.

A malandragem (talvez inconsciente) de Dirceu nesse ponto está em falar em “base social para uma oposição de esquerda”. 

Ao falar de “oposição de esquerda”, ele tenta empurrar retoricamente seus oponentes para o canto onde estão microorganizações tipo PSTU. Mas, como deveria ser evidente para quem não usa de má fé, o que está sendo proposto por nós é criar uma base de massas democrática, popular e socialista para apoiar nossos governos, para permitir que eles avancem, façam reformas estruturais, imponham derrotas à direita e aos grandes capitalistas.

Chegamos então à “ruptura”. Dirceu falar disto chega a ser engraçado. Afinal, ele tem dado entrevistas falando que o Brasil precisa de uma “revolução”. Porque então ele critica quem defende uma ruptura? E, vamos lembrar mais uma vez, estamos discutindo estratégia, não tática.

A questão de fundo na polêmica com Dirceu está, como esteve no passado, quando Dirceu era um revolucionário crítico do “reformismo do Partidão”, na crença de que exista um setor expressivo da classe dominante brasileira disposta a se aliar conosco.

Dirceu diz o seguinte: “é preciso definir a correlação de forças na disputa político-social no Brasil. É necessário avaliar se nosso sujeito histórico, a classe trabalhadora, perdeu ou não centralidade; se há uma direita liberal democrática disposta a uma aliança em defesa da democracia e de avanços sociais; e se há setores empresariais dispostos a retomar um projeto nacional de desenvolvimento”.

Esse é o núcleo racional da polêmica; o resto todo é, em grande medida, espuma retórica e imaginação especulativa. 

Na nossa opinião, neste momento da história, a esmagadora maioria do empresariado brasileiro não está disposto a defender um “capitalismo nacional”. 

Claro, se no Brasil a classe trabalhadora estivesse no poder, botaríamos esse empresariado vagabundo para trabalhar a serviço dos interesses nacionais. 
Mas como não estamos no poder, o que devemos fazer, em primeiro lugar, é criar as condições políticas para uma “ruptura” (bu!!!) com a aliança que domina o poder real no Brasil: o setor financeiro, o agronegócio, as mineradoras e o capital transnacional. 

Dito com as palavras das resoluções adotadas em 2017 pelo PT: implementar uma estratégia democrática, popular e socialista.

Óbvio que hoje “não temos  partidos, organizações sociais e populares, direção e capacidade política para colocar na ordem do dia uma ruptura e uma mudança de sistema econômico e político no país?” 

Mas a questão é saber se queremos vir a ter isso ou se desistimos e vamos nos contentar em fazer o possível nos marcos da atual correlação de forças.

O que Dirceu propõe, ao nosso ver, é exatamente isso: “devemos nos concentrar em defender e ampliar a democracia, defender e ampliar os direitos sociais”. 

Ou seja: defensivismo. No plano tático esta postura é necessária, mas se ficarmos só nisso não avançaremos muito e corremos o risco inclusive de recuar. 

A questão, portanto, é como criar as condições para sairmos do possível (resistência) e avançarmos para o necessário (ruptura). 

Infelizmente, nessa questão a alma reformista de Dirceu fala mais alto e o que ele nos oferece é mais do mesmo, uma repetição do que fizemos entre 2003 e 2016. Que, como vimos, terminou numa derrota e num retrocesso que, pasmem, Dirceu usa como argumento para reincidir no mesmo erro.

Para não dizer que não falamos de flores, Dirceu reconhece que “o mundo de nossa época enfrenta desafios para os quais o capitalismo e sua vertente de extrema direita não oferecem respostas, a não ser a guerra e a submissão de povos e nações. A experiência histórica comprova que povos resistem e vencem mesmo quando parece impossível”. 

Mas, pelo visto, Dirceu (ou uma de suas almas) acha que essas vitórias caíram do céu, pois ele não propõe fazer aqui no Brasil de 2026 o que em outras situações tornou possível aquilo que parecia impossível.

Como Dirceu acredita que à sua esquerda só existe o abismo, ele insiste que sua (dele) posição “não é recuo nem renúncia de objetivos socialistas. Ela está de acordo com nossa força política e social real e com o momento histórico que vivemos. Podemos definir, com segurança, como objetivo principal a reeleição do presidente Lula e a retomada do projeto nacional de desenvolvimento, diante do novo período de ascensão da extrema direita e de ameaça à nossa soberania e à nossa democracia”. 

Nesta definição acima, como em outras, Dirceu mistura alhos com bugalhos: 100% do PT defende a reeleição de Lula. E também defendemos um “projeto nacional de desenvolvimento”. A polêmica está na natureza desse projeto e o lugar que achamos caber à atual classe dominante. 

Na nossa opinião, só haverá projeto nacional de desenvolvimento neste Brasil de hoje e no futuro imediato, se o grande empresariado capitalista (financeiro, agro, mineradoras e transnacional) for derrotado politicamente.

A ausência desta definição estratégica nos cria problemas táticos. Uma prova disto está no próprio texto do Dirceu. 

Quando ele o assinou, Dirceu definia assim a situação: “No momento atual, nosso governo retoma a iniciativa política e a extrema direita está na defensiva”. 

Convenhamos, não é isso que estamos vendo neste final de abril de 2026. 

A tática atual, baseada numa estratégia errada, nos colocou numa situação bem difícil. Podemos superar esta situação com ajustes táticos? Podemos. Mas se quisermos derrotar nossos inimigos, é preciso começar pelo começo: o grande empresariado capitalista não é nosso aliado.

É por isso, também, que não adianta esconder ou colocar em segundo plano o socialismo. A classe dominante brasileira é tão reacionária que ela trata qualquer mudança como se fosse uma revolução. 

É verdade que Dirceu também não ajuda (aviso de ironia). Depois de criticar os que defendem uma ruptura, ele termina seu texto dizendo que “devemos defender uma revolução democrática e popular”; fala inclusive de “colocar na ordem do dia a democracia direta (..) mas também uma ampla reforma do Judiciário e das Forças Armadas”. Ou seja: ele traz de volta, pela porta da frente, os supostos problemas que ele tentou expulsar pela janela.

Dirceu conclui seu texto insistindo que “a crise atual do capitalismo não se apresenta, no plano histórico concreto, como uma crise final ou como a abertura imediata de um ciclo revolucionário clássico. Trata-se, antes, de uma crise de reconfiguração profunda da ordem mundial, marcada pela disputa entre regressão autoritária e reconstrução democrática, entre financeirização predatória e projetos nacionais de desenvolvimento soberano. Nesse contexto, a tarefa estratégica das forças democráticas e populares não é a proclamação abstrata da ruptura, mas a construção concreta de maiorias sociais capazes de defender e ampliar a democracia, afirmar a soberania nacional e reorganizar as bases materiais do desenvolvimento. Defender a democracia e a soberania, portanto, não constitui recuo estratégico, mas etapa histórica coerente com a correlação de forças e condição indispensável para qualquer avanço transformador mais profundo no futuro.”

No “plano histórico concreto”, em nossa opinião, o que temos é uma crise que pode durar anos ou décadas. O que vai resultar desta crise depende de conflitos que estão em curso. 

Dirceu acha que o máximo que pode ocorrer é uma “reconfiguração”. Pode ser que este seja o resultado? Pode. Mas não foi apenas esse o resultado, nem depois da primeira guerra, nem depois da segunda guerra. No primeiro caso tivemos uma revolução socialista na Rússia. No segundo caso, tivemos uma reconfiguração do capitalismo, a revolução na China e uma ampliação do campo socialista. 

O que vai ocorrer agora? Não sabemos, ninguém sabe. Mas não há nenhuma razão para termos como horizonte máximo a reconfiguração do capitalismo.

O Brasil e a América Latina tem muitas das condições objetivas necessárias para sermos a base, não apenas de uma reconfiguração do capitalismo, mas também de um novo ciclo socialista. Claro que para isso acontecer será necessária uma longa marcha, uma acumulação de fatores políticos que não é nada fácil de fazer. Mas é a isso que o PT deve se dedicar, estrategicamente falando, se não quisermos ter o mesmo destino de outros heróicos partidos da esquerda brasileira, que em nome de fazer o possível, deixaram de fazer o necessário. E no curso do processo terminaram perdendo sua alma. As duas.


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