Mês de
aniversário, quando os amigos lembram, é sempre uma felicidade. Mas o que não
tem preço mesmo é quando os adversários lembram.
Mesmo que
não fosse essa a intenção, é assim que devem ser encaradas as agressivas referências
que José Dirceu faz acerca da Articulação de Esquerda, no recém-lançado volume
I de suas Memórias.
Acerca do
livro como um todo, escrevi uma resenha para a revista Teoria e Debate, disponível no endereço https://teoriaedebate.org.br/estante/as-lembrancas-de-dirceu/.
Como se
tratava de uma resenha para o público em geral, preferi deixar para outros
textos uma análise dos inúmeros problemas que o livro de Dirceu tem, quando se
dedica a descrever e a analisar a história do Partido.
No texto a
seguir, abordo especificamente as referências que Dirceu faz a atuação da
Articulação de Esquerda no período 1993-1995.
Mais exatamente, vou me limitar a
corrigir o que considero imprecisões ou erros factuais. Noutros textos,
abordarei outros períodos e também farei a crítica da interpretação feita por
Dirceu.
*
Salvo
engano, a primeira referência de Dirceu à Articulação de Esquerda aparece na
página 235:
“(...) perdi a liderança para Vladimir Palmeira, meu amigo,
irmão e companheiro. Seria uma das muitas contendas difíceis entre nós. Essa,
marcada pelo confronto interno. Erroneamente, segmentos à esquerda que, depois
constituiriam a corrente Hora da Verdade, que juntamente com a Articulação de
Esquerda, se aliaram com a Democracia Socialista (DS), Força Socialista (FS) e
aos parlamentares ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
e me derrotaram por um voto.”
A disputa
pela liderança entre Dirceu e Palmeira ocorreu em dezembro de 1992.
O manifesto
“A hora da verdade” foi divulgado em fevereiro de 1993.
A
Articulação de Esquerda seria fundada em setembro de 1993, pelos que foram signatários
do referido manifesto.
Portanto, o
que de fato ocorreu em dezembro de 1992 foi que deputados e deputadas ligados a Articulação dos 113 optaram por
votar em Vladimir Palmeira.
Entre estes
deputados da Articulação dos 113, estavam alguns que tinham vínculos com o MST
e que futuramente assinariam o manifesto “A hora da Verdade” e participariam da
fundação da Articulação de Esquerda.
A segunda
referência feita por José Dirceu a Articulação de Esquerda está em dois trechos
da página 257 e depois na página 258:
“Como era esperado, o 8º Encontro, realizado em Brasilia,
concretizou a divisão da Articulação, com o surgimento da Hora da Verdade,
depois Articulação de Esquerda”.
(...)
“Uma recaída vanguardista em contraposição a um partido real,
cada vez mais parlamentar e de governo. Operava-se um descolamento entre a nova
maioria e a própria base social do PT, sindical e popular, majoritariamente
alinhada com Lula e a [Articulação] Unidade e Luta. Era uma vanguarda de
quadros oriundos da esquerda organizada e da Articulação: Rui Falcão, David
Capistrano, Valter Pomar, Candido Vaccarezza, José Mentor e José Américo. Sob a
liderança de Rui Falcão e Valter Pomar que rompeu a aliança que deu origem à
Articulação e dirigiu o PT por dez anos: esquerda, sindicalistas e lideranças
católicas populares”.
O curioso é
que esta “nova maioria” ganhou o 8º Encontro de 1993, ganhou o 9º Encontro de
1994 e perdeu por apenas dois votos o 10º Encontro em 1995.
E, conforme
o próprio Dirceu explicará mais adiante em suas Memórias, a diferença de dois
votos foi possível porque alguns delegados romperam com a Articulação de Esquerda
e votaram na chapa encabeçada por Dirceu.
Sendo assim,
há duas hipóteses: a) ou bem as regras vigentes na época distorciam a
representação da base social nos congressos; b) ou bem não é adequado falar em
“fosso”, pois a maioria de esquerda que dirigiu o PT entre 1993 e 1995 tinha
base real.
Esta segunda
hipótese pode ser comprovada nos encontros e congressos seguintes, todos muito
disputados.
Outra
curiosidade: ao contrário do que diz Dirceu, José Américo nunca foi da
Articulação de Esquerda, nem do Hora da Verdade.
Pelo
contrário, em 1993 ele foi o candidato da Articulação Unidade Na Luta à
presidência do PT São Paulo, derrotado por Arlindo Chinaglia candidato da Hora
da Verdade.
Uma terceira
curiosidade: todos os nomes citados por Dirceu são paulistas.
Mas fora de São
Paulo, o manifesto a Hora da Verdade teria grande adesão por exemplo em
lideranças petistas no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Rio de Janeiro,
no Pará, para ficar apenas nestes exemplos.
E mesmo em São Paulo havia
lideranças muito mais importantes do que a deste escrevinhador, a começar por
Sílvio Pereira, pessoa que era extremamente ligado a José Dirceu e que ele
praticamente excluiu de suas Memórias, exceto uma única
referência relativa a sua desfiliação do Partido, em 2005.
Na página
259, Dirceu volta a falar da Articulação de Esquerda:
“Note-se que a dissidência dentro da Articulação se voltou,
em grande medida, contra meu papel na direção partidária e na Articulação. A
pressão para barrar minha eleição como líder da bancada era parte desse
movimento. Após a criação da Hora da Verdade e da Nova Esquerda, meus
ex-companheiros de décadas, no caso Rui Falcão e mesmo Valter Pomar,
praticamente vetaram meu nome e me excluíram, como um “traidor”, de toda
participação. Com violência verbal e agressividade política, uniram-se ao grupo
de David Capistrano – que eu trouxera para a legenda – para me combater pessoalmente.
Um grau de sectarismo ainda não presente no PT.”
Comecemos
por uma imprecisão: a “Nova Esquerda” foi criada antes do 1º Congresso do PT,
por egressos do Partido Revolucionário Comunista.
Isto é
explicado por Dirceu nas páginas 240 e 241 de suas Memórias.
Portanto, no
trecho acima citado, retirado da página 259, Dirceu deve estar querendo
referir-se a Articulação de Esquerda, fundada como já se disse em setembro de
1993.
O mesmo erro é cometido na página 257, onde se poder ler o seguinte: "[no oitavo encontro] a Nova Esquerda assumiu a maioria do partido, mas não sua direção real."
O mesmo erro é cometido na página 257, onde se poder ler o seguinte: "[no oitavo encontro] a Nova Esquerda assumiu a maioria do partido, mas não sua direção real."
Em segundo
lugar: desde o início, a expectativa de parte importante dos que criaram o Hora
da Verdade era a de que José Dirceu fizesse parte do movimento e, mais ainda,
que fosse nosso candidato à presidência nacional do Partido.
Até porque
Dirceu estava sendo, como ele próprio reconhece em suas Memórias, hostilizado
pela direita da Articulação.
Foi Dirceu que
escolheu não assinar o manifesto Hora da Verdade.
Que ele não
lembre disto ou recorde de outro jeito, vá lá.
Que ele trate
Rui Falcão como “ex-companheiro”, que se há de fazer.
Mas que ele
reclame de “agressividade verbal”, “violência política” e um grau de sectarismo
“ainda não presente no PT”, buenas: esta vitimização não condiz com os fatos,
nem fica bem na boca do personagem em questão.
Quanto a
mim, em 1993 não tinha nem mesmo idade para ser companheiro de “décadas” de
Dirceu, o que revela que estou na frase apenas para fazer companhia a Rui
Falcão, este sim o verdadeiro e neste caso totalmente imerecido alvo do ataque.
Dirceu volta
a citar a Articulação de Esquerda na página 264, quando fala de sua candidatura
ao governo do estado de São Paulo:
“Minha candidatura foi um erro e um fracasso. Não pela
candidatura em si, mais pelo cenário e as circunstâncias. Primeiro, disputei
uma prévia dura, expressão do confronto entre a Hora da Verdade e a
Articulação, mas, especificamente, contra a minha candidatura e liderança no
PT. A disputa dividiu a base do partido, mas não as lideranças. Tive o apoio da
maioria dos parlamentares e prefeitos e da Articulação. Mas não da Hora da
Verdade e da categoria dos bancários, que tinham o maior sindicato depois dos
metalúrgicos do ABC e contra quem batalhavam pela liderança da CUT.”
Aqui há
outra imprecisão: a maior parte da Hora da Verdade, já então intitulada nacionalmente
de Articulação de Esquerda, apoiou nas prévias a candidatura de Dirceu.
A principal
exceção foi David Capistrano, sobre quem voltaremos a falar em seguida.
Já Telma de
Souza era uma militante da Articulação Unidade na Luta.
Aliás, por
se tratar de uma prévia entre duas lideranças da Unidade na Luta, algumas
poucas pessoas (eu inclusive) optamos por não apoiar, nas prévias, nenhuma das
candidaturas.
Por qual
motivo o grupo majoritário no Sindicato dos Bancários, liderado por Gushiken,
apoiou Telma?
Porque havia
uma minoria naquele sindicato, minoria que tinha entre seus líderes Lucas
Buzato, minoria que fazia parte da Hora da Verdade e que na disputa do
sindicato tinha o apoio de Dirceu.
Portanto,
Dirceu esquece: a) que sua candidatura nas prévias foi apoiada por grande parte
dos paulistas do movimento Hora da Verdade; b) que seus principais oponentes
eram da Articulação Unidade na Luta, seja os sindicalistas bancários liderados
por Gushiken, seja a própria Telma de Souza.
Vejamos
agora o que Dirceu fala de David Capistrano, na página 264:
“Davi (...) chegou a me propor um acordo: eu reconheceria a
vitória da Telma e eles me apoiariam para deputado, solução típica do PCB e da
Hora da Verdade”.
Nunca ouvi
falar desta proposta e Capistrano não está mais entre nós.
Seja como for, é uma
distorção afirmar ser “típica” do “PCB e da Hora da Verdade” uma proposta que
teria sido feita em nome de uma candidatura que não era da Hora da Verdade, nem
era apoiada pela maioria dos integrantes da Hora da Verdade.
Aliás,
Vaccareza e Rui Falcão apoiaram Dirceu e eu, pelos motivos já explicados, não
apoiei ninguém.
Dirceu volta
a falar da Articulação de Esquerda nas páginas 273 e 274, quando trata de sua
tática para vencer o 10º encontro nacional do PT, realizado em 1995:
“era apostar numa derrota certa, a não ser que, além de
compor com o Na Luta PT, fizéssemos uma aliança, depois na presidência, com a
DR e os dissidentes da AE, da corrente Velhos Sonhos, Novos Desafios”.
“O desgaste da Unidade na Luta só não era maior do que o da
AE. Carregávamos a imagem do 1º Congresso, da ‘aliança’ com o PSDB, enquanto a
AE arcara com o ônus do ‘Fora Itamar’ e, principalmente, da campanha desastrada
e desastrosa de 1994. Com a incapacidade de dirigir o PT, avessa às alianças,
sem políticas para os governos, cada vez mais voltada para a luta interna e
suas dissidências, a AE não era mais uma alternativa. Tivera sua chance e
fracassara. Mas não me enganei ao avaliar os obstáculos para articular a mínima
unidade entre forças tão díspares como a DR, Na Luta PT e Velhos Sonhos”.
“Um ponto unia a todos: a falta de legitimidade e capacidade
de dirigir da aliança liderada por Rui Falcão, Vacarezza e Capistrano, apoiada
por Vladimir Palmeira, Jaques Wagner e Tilden Santiago e reforçada pela
determinação de Valter Pomar, contando também com o respaldo implícito do MST,
então discreto, mas presente. Plínio de Arruda Sampaio já se bandeava para as
hostes ‘esquerdistas’ e, como ‘cristão novo’, era dos mais sectários e
ambiciosos. Sob a capa aristocrática de intelectual, era o pré-candidato a
presidente pela AE. Certo da vitória, chegou a me propor a retirada do meu nome
da eleição para que pudesse ser indicado por acordo”.
Para começo
de conversa, o Encontro de Guarapari foi disputado por quatro chapas.
Na votação
feita ao final do encontro, a chapa da Articulação Unidade na Luta teve 165 votos. A chapa da
Democracia Radical teve 31 votos. A chapa Velhos sonhos, Novos desafios teve 24
votos. Já a esquerda apresentou uma chapa única, intitulada Socialismo e
democracia, reunindo Na Luta PT e Opção de Esquerda, onde estava a Articulação
de Esquerda. Esta chapa Socialismo e democracia teve 189 votos. Ao todo havia
414 delegados.
Já na
disputa da presidência, Dirceu recebeu 215 votos, Hamiltom Pereira recebeu 183
votos e registraram-se 16 votos em branco.
A diferença
de dois votos a favor da chapa de Dirceu se deu na disputa da tese guia, que
foi feito no início do encontro, em plenário, com crachá levantado.
Os números
podem ser interpretados de várias maneiras, mas está claro que a vitória de
Dirceu e de sua chapa não estão relacionados ao Na Luta PT (que apoiou Hamilton
e a chapa Socialismo e Democracia), mas sim ao apoio da chapa Velhos sonhos,
novos desafios.
E quem era
esta chapa? Em sua maioria, era composta por delegados vinculados ao movimento
Hora da Verdade do estado de São Paulo, a começar por Rui Falcão e Vaccarezza.
Sendo assim,
chega a ser bizarro dizer que um ponto que “unia a todos” – incluindo neste “todos”
a chapa Velhos Sonhos -- seria a “falta
de legitimidade e capacidade de dirigir da aliança liderada” exatamente por Rui
Falcão e Vacarezza.
Outro ponto: a chapa da esquerda petista
analisou várias alternativas de candidatura. Plínio de Arruda Sampaio foi uma
delas, mas ele não era o candidato especificamente “da AE”. Aliás, a relação de
Plínio com a AE nunca foi tranquila, como Dirceu certamente sabe.
Na mesma
página 274, Dirceu o seguinte:
“a derrota da AE ocorreria por sua incapacidade de estruturar
novas políticas e estratégias para a legenda. Era só uma nova tentações direitistas da Articulação e da DR.
A campanha de Lula desmascarara a AE. Era o colapso de uma ilusão.”
(...)
“era o esgotamento de
uma direção esquizofrênica, sem votos, sem representatividade e, com raras
exceções, descolada das lideranças sindicais, populares e parlamentares,
incapaz de governar com os governos petistas”.
Como se pode
confirmar pelas linhas acima, Dirceu não tem nada de positivo a falar sobre a
Articulação de Esquerda do biênio 1993-1995.
O curioso,
como já dissemos, é que sua chapa e candidatura venceram a disputa graças ao
apoio recebido pelos delegados liderados por Rui Falcão, Candido Vaccarezza,
José Mentor e Sílvio Pereira, exatamente os líderes paulistas e em alguns casos
nacionais do tal HV que ele desanca sem dó nem piedade.
A
contradição não fica totalmente evidente, porque ele confunde o leitor falando
do apoio do Na Luta PT (apoio que não existiu) e do Velhos Sonhos (que era uma
chapa composta majoritariamente por delegados do HV de São Paulo).
O mais
chocante é que a tendência que Dirceu desqualifica com tanto dureza foi capaz
de organizar uma chapa que teve mais votos que a sua; uma chapa que poderia ter
vencido o 10º Encontro, não fosse pela dissidência já citada; uma chapa que
lançou como candidato Hamilton Pereira, a quem ele cobre de elogios e que
recebeu 45% dos votos.
Dirceu
também se refere, na página 275, ao seguinte:
“o nível de radicalização no Encontro ficou marcado pela
´denúncia´contra mim, de um dos membros da AE. Segundo ele, eu teria recebido
doações da Odebrecht, o que era verdade, mas a doação era legal e declarada à
Justiça Eleitoral”.
O fato
ocorreu, mas Dirceu deveria contar não apenas o milagre, mas também o santo: o delegado em questão
era César Benjamin.
Naquele momento Benjamim era membro do Diretório Nacional
do PT, eleito pela chapa da Articulação de Esquerda. E foi indicado pela
Articulação de Esquerda para falar em defesa da candidatura de Hamilton
Pereira. Portanto, a responsabilidade política pelo que ele disse, sem sombra
de dúvida, cabe em primeiro lugar à AE.
Mas Dirceu
sabe muito bem que o discurso de Benjamin foi um “improviso” deste cidadão, que
não foi discutido previamente com ninguém. Aliás, dias depois César Benjamin
desfiliou-se do PT.
O que chama
a atenção, nesta e em outras passagens, não são apenas os erros factuais, que
poderiam ser corrigidos com uma adequada revisão.
O que chama
a atenção é que Dirceu às vezes relata os fatos do passado tal e qual ele os
viveu e percebeu naquela época, sem nenhuma mediação, sem nenhum comentário,
sem nenhuma “nota de rodapé”, às vezes com o mesmo sectarismo da época,
sectarismo que ele atribui apenas aos outros.
Com isso, ele perde a chance de fazer uma análise retrospectiva mais equilibrada das razões e desrazões de cada um dos protagonistas daquela época.
O curioso é que em várias passagens das Memórias Dirceu consegue fazer isto. Mas em alguns casos, como neste da Articulação de Esquerda, ele parece ter um bloqueio.
Noutro texto voltarei a este tema, assim como falarei da versão que Dirceu
apresenta acerca do que antecedeu e acerca do que sucedeu o curto período de dois
anos em que a Articulação de Esquerda dirigiu o Diretório Nacional do PT.
(Sem revisão. Aliás, agradeço a quem se disponha a indicar eventuais erros de digitação ou mesmo informações equivocadas.)
Dirceu, ao se propor fazer/escrever memórias devia fazer revisão bibliográfica ou indicar como obra de caráter ficcional.
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