quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Os BRICS e a guerra

Leio sempre que posso (e recomendo a leitura) de La Tizza.

Não necessariamente por concordar com tudo o que se posta lá.

Mas pela qualidade dos textos e da polêmica.

É o caso do texto intitulado “Viendo pasar el cadáver de los BRICS”.

Tal texto pode ser lido aqui:


O autor informa que “é cubano e (sobre)vive em Cuba”. 

O texto tem ótimas tiradas, úteis para despertar quem acredita demais na retórica diplomática, inclusive a utilizada pelas declarações dos BRICS.

Mas partes do texto supracitado, especialmente o desfecho, me fazem recordar algumas críticas de Chávez ao Foro de São Paulo e, também, o que disse Delcy - antes da última posse de Maduro - contra os governos “tíbios” que, segundo ela, existiriam na América Latina.

A saber: vastas emoções, mas alguns pensamentos bem imperfeitos.

Por “desfecho”, refiro-me ao seguinte trecho:

“Pensé: después de tanto papel, el cierre traerá cuatro medidas que den contenido a tanto vocabulario. Traté de redactarlas, por adelantado, en la cabeza:

  1. Un corredor humanitario protegido por fuerzas de varios países del bloque en torno a Gaza, y una fuerza de protección del sur del Líbano frente a nuevos bombardeos sionistas.
  2. Un proceso de enjuiciamiento y exigencia de indemnización que examine la responsabilidad de los Estados Unidos ante Irán por los ataques contra poblaciones civiles y otras violaciones del derecho internacional.
  3. La exigencia de la liberación inmediata de Nicolás Maduro y Cilia Flores, capturados por fuerzas estadounidenses el 3 de enero y trasladados a los Estados Unidos.
  4. Una flota de petróleo suficiente, protegida por las armadas de varias naciones, rumbo a Cuba; y un mecanismo financiero alternativo que permita a la Isla acceder a los flujos del comercio mundial en igualdad de condiciones.”

Os itens 2 e 3 propostos acima são politicamente corretos. Mas, embora desejável, sua eventual inclusão não alteraria qualitativamente a declaração emanada da cúpula dos BRiCS. Afinal, é apenas enfática a diferença entre fazer “exigências” e afirmar princípios “em tese”. 

Já os itens 1 e 4 exigiriam mobilização militar direta. Fazer tal mobilização poderia fazer os EUA e Israel recuarem sem combater? Em tese, sim. Mas também poderia ser mais um degrau na escalada da terceira guerra mundial.

Deixemos de lado que os BRICS não são uma aliança militar, nem têm unidade política para ações como as propostas, nem se propõem a assumir tarefas que eles mesmos dizem caber à ONU.

Deixando tudo isso de lado, analisemos o núcleo do problema: nossa estratégia para derrotar o imperialismo estadunidense passa pelo confronto militar direto entre dois blocos de nações? Em caso positivo, Cuba e Gaza jogam um papel similar ao que a Polônia teve para França e Inglaterra, em 1939? Seja como for, qual o plano estratégico de conjunto? Ou a linha é “napoleônica”: a gente engaja e depois vê no que dá?

O debate sobre a dimensão militar da luta contra o imperialismo é legítimo, necessário e urgente. Até porque os EUA estão impondo isso: num certo sentido, a terceira guerra já começou. 

Mas não é a presença explícita dessa dimensão, numa declaração de uma cúpula descoordenada pela Índia, o fator que define a vitalidade ou não dos BRICS enquanto articulação. 

Aliás, os EUA são os primeiros a reconhecer - nas suas definições estratégicas de segurança e defesa - o quão fundamental é a dimensão econômica. A escalada militar dos EUA não é e nunca foi um fim em si mesmo, nem agora, nem na época da chamada Guerra Fria. Também por isso, os EUA não consideram que os BRICS sejam um “cadáver”.

Evidente que, como bem diz o texto publicado em Lá Tizza, devemos recusar a “espera mesiánica del colapso ajeno”: o imperialismo, quando morrer, será de morte matada. Não de morte morrida.

Evidente, também, que os cubanos e palestinos de 2023-2026, assim como os republicanos espanhóis de 1936-1939, têm todo o direito do mundo a vituperar contra a solidariedade protocolar e hipócrita. 

Evidente, por fim, que muita coisa poderia e deveria ser feita, a começar por nós do Brasil, sem implicar necessariamente em conflito militar direto.

Isto tudo posto, não se deve pedir “pêras aos olmos”. Não impugnemos os BRICS por não serem o que nunca serão. Até porque a derrota do imperialismo, inclusive no plano militar, exigirá muito mais do que tijolos.


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