quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O discurso do Imperador Trump

(sem revisão)

É importante ler o discurso do presidente Lula, feito no dia 22 de setembro de 2026, na sessão de abertura da 81a Assembleia Geral da ONU.


Mas também é importante ler o discurso do Imperador Trump, feito logo em seguida ao de Lula.

O discurso integral do Imperador pode ser lido aqui:  Estados Unidos de América, Debate General, 81° período de sesiones | UN Web TV

Para facilitar a vida, copio e colo ao final o tal discurso de Trump, em espanhol.

É impressionante o contraste entre o discurso de Lula e o discurso do Imperador.

Primeiro, pela cabotinice. 

Se alguém tinha dúvidas que o Imperador tem problemas graves, sugiro ler o tal discurso.

Mas antes recomendo tomar uma tríplice vacina contra cabotinice, narcisismo e déficit de atenção.

Uma segunda diferença entre os discursos de Lula e do Imperador está na forma de tratar o mundo.

O discurso do Imperador trata os Estados Unidos como o centro do mundo. O resto é o resto.

Exemplifico com alguns trechos:

-"nosso país é mais forte agora do que nunca";

-"basicamente estamos liderando em tudo";

-"Estados Unidos se encontra no auge";

-"a era de ouro, o século de ouro dos Estados Unidos";

Terceira diferença: grande parte do discurso de Trump teve finalidades direta e exclusivamente eleitorais, com direito a mentiras e exageros de todo tipo e ordem.

Quarta diferença: a abordagem das questões mundiais. 

Enquanto Lula tratou dos grandes dilemas da humanidade, Trump distribuiu ameaças e comemorou êxitos que só ele enxerga.

Por exemplo, Trump afirmou que "enquanto os demais falavam de paz, eu fiz a paz". 

Segundo Trump, ele teria conseguido acabar com oito guerras: Camboja, Tailândia, Kosovo e Servia, República Democrática do Congo e Ruanda, Paquistão e India, Armênia e Azerbaijão, além de Gaza (que seria a nona). E prometeu, mais uma vez, que vai acabar com a guerra entre Rússia e Ucrânia.

A respeito de algumas dessas guerras, Trump cita mensagens de agradecimento dirigidas a ele próprio. 

Não há como não constatar: quando alguém fala tantas vezes de si mesmo na terceira pessoa, deixa de ser "majestática figura" e passa a ser "complexo de Imperador".

Parte expressiva do discurso de Trump foi dedicada a atacar a República Islâmica do Irã, apresentada como "patrocinador número um do terrorismo", um país que estaria "violando todas as leis".

Evidentemente, Trump acusa o Irã de fazer aquilo que os Estados Unidos fazem.

Prova adicional disso, aliás, é que Trump falou no seu discurso em "aniquilar" o Irã, levar o país inteiro "ao inferno, sem possibilidade de sobrevivência, sem esperança de futuro durante várias gerações".

Que alguém discurse na ONU usando descaradamente estes termos genocidas já seria criminoso e doentio, que este alguém seja o presidente dos Estados Unidos é um sinal de que vivemos tempos para lá de perigosos.

Trump também falou da "Guerra em Gaza" e nominou uma série de países que ele pretende ajudar ou com os quais ele diz estar contando: “Marrocos, Baréin, Qatar, Kuwait, Arabia Saudita, Turquía, Uzbekistán, Indonésia, Albania, Kosovo, Kazajstán, Egipto, Jordania e muitos mais”.

Pequena parte do discurso de Trump foi dedicado a Venezuela, apresentando a invasão de um país soberano e o sequestro de seu presidente como uma "operação militar" para deter um "criminoso".

E como o Imperador é um bandido sem complexos, na sequência ele apresentou o resultado do crime: "o maior acordo petrolífero da história".

A respeito deste acordo, Trump diz abertamente o seguinte: "To the victor belong the spoils". Algo como "ao vencedor cabem os despojos".

Trump apresentou o case da Venezuela como um paradigma de como os Estados Unidos agirão. 

E reafirmou um de seus pretextos preferidos: os carteis de drogas, que ele chama de "exército islâmico do hemisfério ocidental", "inimigos da civilização", que devem ser "assassinados, exilados ou detidos como combatentes estrangeiros".

Detalhe importante: Trump se julga no direito de adotar estes critérios e agir em consonância, fora dos Estados Unidos, portanto invadindo território soberano de outros países. 

É neste ponto do discurso que Trump cita o México e Cuba, "um estado falido, um estado fracassado, que vai cair".

Detalhe importante: Trump  diz que o regime de Cuba cultiva laços com grupos radicais e subversivos como o "Communist Party USA, Antifa and the Democrat Socialists of America", este último conhecido pela sigla DSA.

O DSA, para quem não sabe, é o grupo ao qual pertence o prefeito de Nova Iorque.

Em seguida, Trump fala sobre o "acordo" acerca da Groenlândia, onde serão construídas duas bases militares.

Diz que a OTAN hoje é "mais forte do que nunca".

Reafirma sua opção pela guerra tarifária.

Elogia a primeira-dama Melanie, que ele destaca como sendo a primeira primeira-dama a presidir uma reunião do Conselho de Segurança da ONU.

Literalmente: "She also became the only first lady in history to preside over a meeting of the U.N. Security Council."

O episódio lembra Calígula.

Trump engata várias críticas contra a ONU e contra o Tribunal Penal Internacional, composto por "gente malvada" (para ser preciso: an evil group of people) favorável a "mutilação transexual" e que não fala nada acerca da "perseguição contra os cristãos" que estaria ocorrendo em todo o mundo.

Epstein talvez fosse capaz de explicar essa fixação.

Em seguida vem, talvez, a parte mais curiosa do discurso de Trump, quando ele informa que deixará de usar o termo "Inteligência Artificial" e passará a usar o termo "Superinteligência".

Segundo Trump, os temores frente a IA e a catástrofe climática são igualmente indevidos, sendo que o tema da superinteligência provocará um impacto maior do que o impacto causado pela Revolução Industrial. E, segundo ele, os EUA não vão aceitar nenhum tipo de gestão mundial "globalista" do tema.

Nesse contexto Trump fala, pela primeira e última vez em seu discurso, da China. 

Segundo ele, quem ganhar a competição pela superinteligência, vai ganhar tudo. E, ainda segundo Trump, os Estados Unidos estariam superando a China nesse terreno.

Neste ponto, já no final desse discurso cheio de elogios, vem o paradoxal. 

Segundo Trump, em 1776, enquanto escutavam pela primeira vez a Declaração de Independência, os patriotas enfrentaram uma imensa invasão britânica, feita com 100 navios ou mais.

Frente a tal demonstração de poderio militar, diz Trump, os patriotas "não tínhamos uma única chance, entretanto, ganhamos". E a chave para o êxito esteve e segue estando, sempre segundo ele, em ter "vontade e determinação".

Pois é. 

Hoje, 250 anos depois, os Estados Unidos não são a vítima da pérfida Albion, mas sim uma nação imperialista que ameaça grande parte da humanidade.

Contra isso, vale lembrar as palavras do presidente Lula, ditas imediatamente antes do discurso de Trump: "o Brasil não cabe no quintal de ninguém". Continuaremos "sendo um país soberano. Ninguém...!!! Ninguém nos afastará desse caminho".

A chave para o êxito já temos: vontade e determinação. 

Agora é manter a pólvora seca. E ganhar a eleição.

(sem revisão)


Segue abaixo a transcrição do discurso de Trump, disponível no site da ONU

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