Volta e meia algum "viúvo" me escreve.
Me refiro a militantes que são "viúvos" da supostamente "verdadeira esquerda", aquela que tinha uma militância abnegada e uma linha política correta, que sempre esteve do lado certo da história.
A conversa desses "viúvos" é quase sempre a mesma: pau no PT.
Antigamente eu tinha mais paciência com essa conduta.
Hoje, depois do golpe e do crescimento da extrema-direita, sobrou pouca paciência, entre outros motivos porque, na maioria dos casos, esse discurso crítico ao PT é diletante, passivo, acomodado.
E, mesmo quando abandona o modo “chá das cinco”, esse criticismo supostamente de esquerda resulta na prática em tentar enfraquecer a única força capaz - neste momento histórico - de derrotar a extrema-direita. A saber, o PT.
Além disso, a maioria desses "viúvos" tem saudade de um partido em grande medida imaginário.
Afinal, nenhum dos partidos de esquerda que existiram no Brasil, antes do PT, foi a perfeição imaginada pelos viúvos.
Os viúvos contrapõem o PT realmente existente, com seus imensos problemas, a um partido ideal que nunca existiu.
Nessas condições, é óbvio que o PT não fica bem na foto.
Foi mais ou menos isso que disse - de maneira espero que pouco gentil - a um conhecido.
Em resposta, esse conhecido me pediu para responder a um questionamento feito por um economista, num programa de rádio.
O questionamento está aqui:
Volta e meia me convidam a ir nesse programa.
No passado eu me esforçava para atender aos convites.
Deixei de me esforçar quando me dei conta que a linha editorial do programa é também a da viuvez.
No meu caso, a gota d'água veio quando um card do programa foi diagramado de uma forma que, na minha opinião, me atribuía entre aspas uma opinião que não era a minha.
Não passa pela cabeça dos "viúvos" que se possa militar num Partido e, ao mesmo tempo, ser crítico. No fundo, eles raciocinam muito parecido aos setores majoritários de determinados partidos, que confundem o Partido com eles mesmos. E acham que discordar da linha deles, seria discordar do Partido como instituição histórica.
Quanto ao economista em questão, no passado compartilhei com ele não só o PT, mas creio que até a mesma tendência. Mas há tempos ele foi para outras praias e, no passado mais recente, manifestou excessiva tolerância para com Ciro Gomes, quando esse cidadão posava de crítico supostamente de esquerda daquilo que ele e outros chamavam de "lulopetismo".
Entretanto, como argumento é argumento, não importa quem seja o mensageiro, fui assistir a tal pergunta que o economista teria me feito.
A pergunta é: "o que o Valter Pomar continua fazendo dentro do PT?"
Antes de fazer a pergunta, o referido economista diz mais ou menos o seguinte: "não haverá um novo ciclo de lutas capaz de abrir alternativas se não houver uma nova vanguarda (...) potencialmente o que poderia ser a vanguarda social de uma nova esquerda está hoje subordinada ao PT".
O economista diz também o seguinte: "sem uma nova vanguarda, que tem que se desgrudar do PT, nós não teremos a oportunidade de construir um processo que possa nos apontar novos caminhos. Nesse sentido, a chamada esquerda do PT tem que abrir os olhos. Vai continuar alimentando esse tipo de impostura que está em curso no nosso país já há mais de 30 anos? Já deu tempo de mostrar ao PT que sua experiência histórica se esgotou".
O economista diz ainda que "o PT deixou de ser um instrumento de luta dos trabalhadores, ainda que agregue essa vanguarda social (...) não haverá um ciclo de lutas capaz de abrir alternativas, conforme ficou claro em 2013, se não houver uma nova vanguarda à altura dos desafios históricos que estão colocados hoje para o nosso país".
Para ele, essa nova vanguarda tem que "romper com o PT". Lembrado que muita gente já rompeu com o PT no passado recente, ele afirma que os que romperam com o PT, na sua grande maioria, são "inconsequentes", não "estão à altura dos nossos desafios".
Sobre os setores da esquerda que até hoje romperam com o PT, o economista disse inclusive que "essa esquerda que rompeu com o PT, majoritariamente (tem) falhas de diagnóstico sobre o momento histórico e econômico que estamos vivendo. É uma esquerda que se abriga muito em torno de slogans anticapitalistas, de superação do capitalismo, de aposta num socialismo abstrato, isso evidentemente não empolga ninguém hoje em dia (...)."
Supondo que ouvi e transcrevi direito, trata-se de uma bela confusão.
Afinal, segundo o economista, desde há 30 anos o PT seria uma impostura. Ou seja, 2026 menos 30, então desde 1996 o PT seria uma "impostura".
Por qual motivo 1996? Não faço ideia.
O particularmente curioso nesse raciocínio é que, se ele fosse verdadeiro, então toda a história do Brasil, nos últimos anos, teria girado em torno dessa impostura.
Recomendo ao economista ler O Alienista.
Ao mesmo tempo, o economista critica os que romperam com o PT nos últimos 30 anos.
Eles seriam, em sua maioria, inconsequentes. Até concordo. Mas não concordo que a inconsequência derivaria de serem, supostamente, críticos do capitalismo e defensores do socialismo. Esta opinião do economista, vale dizer, faria sucesso entre os setores mais moderados do próprio PT.
Na minha opinião, a principal inconsequência dos que romperam com o PT não deriva do fato de serem socialistas, mas sim do fato de não compreenderem o papel indispensável de um partido de massas - ao estilo do PT - na luta contra o capitalismo e pelo socialismo no Brasil desta quadra histórica, com sua combinação tão difícil de luta institucional, social e cultural.
É por isso, aliás, que muitos que romperam pela esquerda com o PT, voltam pela direita. Como saíram pelo motivo errado, voltam do jeito errado.
O economista defende que, para a ruptura do PT resultar em algo à altura do que ele deseja, essa ruptura precisaria ser feita por gente consequente. O engraçado é que, como está implícito na fala do economista, os consequentes seriam exatamente os mesmos setores que o economista critica por ainda estarem no PT.
De fato, somos consequentes. Nisso concordo.
Isto posto, respondendo a pergunta, que na verdade foi dirigida primeiro a Breno Altman e a João Pedro Stédile.
Estou no PT por 1001 motivos. Neste blog há vários textos em que desenvolvo esses motivos. Vou aqui expor um deles, poético, inspirado num poema do Bertolt Brecht, escrito em 1953 e intitulado A solução.
O poema termina com a seguinte ironia: "Não seria bem mais fácil / Se o governo dissolvesse o povo e / Elegesse um outro?"
Por analogia: "não seria bem mais fácil, para os viúvos críticos do PT, se eles dissolvessem a classe trabalhadora realmente existente e criassem outra?"
No mundo no qual vive grande parte dos viúvos, isso deve ser fácil de fazer.
Já no mundo em que vive a grande maioria de nós, a tarefa da hora é derrotar a extrema-direita. E não há como fazer isso sem o PT, nem contra o PT.
Desenhando: se queremos mobilizar a classe trabalhadora realmente existente contra a extrema-direita, será preciso estar com o PT e junto do PT.
O resto é tertúlia chá das cinco.
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