domingo, 1 de novembro de 2026

Resposta a Attuch: sabotador é quem defende o ponto de vista da Faria Lima

Sem revisão 

O dono do Brasil 247, o jornalista Leonardo Attuch, escreveu um textão cujo título é: “Lula deve se preocupar mais com a sabotagem da “esquerda radical” do que com o apoio do centro responsável”.


Este título deve ter sido psicografado do conhecido opusculo intitulado Pegadinhas do Conselheiro Acácio. Afinal, é óbvio que ninguém ficaria preocupado em receber o “apoio” de alguém “responsável”, enquanto do outro lado estaria alguém que pretenderia, supostamente, criar “novas guerras políticas”.


Acontece que esta contraposição não corresponde à realidade. 

Na vida real, setores da direita (não de “centro”) defendem que Lula faça um ajuste fiscal, o que implicaria em insistir numa politica econômica que quase nos fez perder a eleição, no primeiro turno, e que nos causou muitas dificuldades no segundo turno.

Se o governo viesse a aceitar esta proposta de setores de direita, corremos o risco de viver algo parecido ao que resultou da política implementada por Joaquim Levy em 2015. O que nos levaria a “guerras políticas” piores do que a atual, pois muito provavelmente seríamos derrotados.

Portanto, é a direita que está sabotando. Não a esquerda.

 Para sustentar sua opinião, Attuch constroi um mundo paralelo, onde Kassab é uma “liderança de centro”, que se dispõe a apoiar o governo Lula “desde de que haja responsabilidade econômica”.

Pergunto: alguma vez o governo Lula foi “irresponsável”? 

Quem acusa Lula de “irresponsabilidade” mente. E quem passa o pano em mentiroso, quem leva a sério uma demanda dessas, está ocultando a verdade: eles não querem “responsabilidade”, eles querem “tesouraço”.

A esquerda não é contra o “equilíbrio fiscal”. A esquerda é contra o desequilíbrio causado pela taxa de juros, cuja conta é paga cortando e contendo os investimentos públicos e sociais.

A batalha ideológica da esquerda não é contra o “equilíbrio”, mas sim contra o “tesouraço”. 

Attuch diz que “uma parcela da esquerda prefere promover uma gritaria nas redes sociais contra qualquer medida que possa ser interpretada como ajuste”. 

Isso não é verdade. Não conheço ninguém da esquerda que faça “gritaria” contra medidas como redução dos juros, corte de subsídios a grandes empresas, eliminação das emendas parlamentares e dos supersalários e penduricalhos do judiciário.

A “gritaria” da esquerda é contra medidas que afetam o salário mínimo, as aposentadorias, os pisos constitucionais, o BPC etc.

Attuch diz que a “gritaria” citada “não apenas empobrece o debate econômico”, mas também “pode comprometer as condições políticas necessárias para o sucesso do governo Lula 4”.

Sobre o debate econômico, confesso que me dá preguiça ler alguém - num site supostamente progressista - tentando desqualificar teoricamente quem critica as teses da Faria Lima.

Quando à política, o problema é mais sério: o que Attuch propõe é um estelionato. Aliás, é engraçado ver ele falar que a vitória de Lula decorre de uma ampla mobilização democrática, para logo em seguida desconsiderar a decisão democrática da maioria do povo.

O “tesouraço” foi derrotado nas urnas. A direita e Attuch fingem que isso não aconteceu. 

Para sustentar esta tese, Attuch sofisma.

Ele diz o seguinte: “Uma das teses mais equivocadas difundidas por essa esquerda é a de que os brasileiros teriam ido às ruas, durante a campanha eleitoral, para rejeitar o equilíbrio fiscal. Trata-se de uma interpretação sem fundamento, que procura transformar uma mobilização democrática ampla e plural em uma espécie de plebiscito sobre a política econômica.”

Efetivamente, o povo brasileiro não rejeitou o “equilíbrio fiscal”. 

O que o povo brasileiro rejeitou foi a canalhice da Faria Lima, que chama de “equilíbrio fiscal” uma política em que eles desequilibram as contas e o povo paga o déficit, através do “tesouraço”.

O problema de Attuch não se limita ao fato dele adotar o ponto de vista da Faria Lima sobre o que é ou deixa de ser “equilíbrio fiscal”.

Há outro problema: ele não consegue compreender ou aceitar que a “mobilização democrática ampla e plural” tambem é, necessariamente, um “plebiscito sobre a política econômica”.

Para o povo, democracia também é salário, aposentadoria, educação, saúde, transporte, inflação baixa, juros baixos.

Para Attuch, que não tem estes problemas, o medo de cortes em programas sociais é algo que ele “conhece de literatura”. Attuch, como Durigan, não tem que viver de salário mínimo, nem faz ideia do que significa o BPC.

Por isso Attuch enche a boca para dizer “reduzir essa mobilização histórica” contra o bolsonarismo a “uma suposta rejeição popular ao equilíbrio fiscal significa desrespeitar a complexidade das motivações que levaram milhões de brasileiros a defender a democracia e a reeleição de Lula. O povo brasileiro não votou pela irresponsabilidade econômica. Votou pela preservação de direitos, pela estabilidade democrática e pela esperança de um futuro melhor. E esse futuro depende, necessariamente, de uma economia organizada, capaz de crescer, gerar empregos, reduzir os juros e financiar políticas públicas.”

Repito: o povo votou por um tipo de equilibro fiscal, antagônico ao equilíbrio fiscal defendido pela Faria Lima.

Aliás, se há alguém que pode ser acusado de “irresponsabilidade” é quem defende uma taxa de juros ensandecida, que contribui e muito para impedir que tenhamos um “futuro melhor”.

O problema de Attuch é que ele adotou o “modo Faria Lima” de enxergar os outros. Os banqueiros talvez nunca tenham lido Sartre e Simone, mas eles pensam que o inferno - o desequilíbrio fiscal - é culpa dos outros, nunca deles.

Attuch faz dessa discussão que vimos acima um preâmbulo para defender Fonteles como ministro da Fazenda. 

Segundo Attuch, “Fonteles representa uma geração do PT que compreende que responsabilidade fiscal e justiça social não são objetivos incompatíveis.”

Pergunto: qual geração do PT pensa diferente disso?

O que Attuch ecoa, sem ter a coragem de escrever, é uma ideia muito comum na Faria Lima: a de que o velho Lula seria um populista, que precisa de um jovem tecnocrata controlando ele.

O que a Faria Lima deseja, do Ministro da Fazenda, não é “capacidade de dialogar com investidores e empresários”; o que eles querem é um Ministro que atue como representante dos interesses destes setores junto ao governo.

Portanto, Attuch está totalmente errado, quando diz que “a melhor receita para o fracasso do Lula 4 seria justamente a formação de uma oposição interna, empenhada em deslegitimar antecipadamente o próximo ministro da Fazenda e sabotar qualquer tentativa de reorganização das contas públicas”.

O êxito do nosso governo depende de muitas coisas. Uma delas é a capacidade de impulsionar um ciclo de desenvolvimento com melhoria da qualidade da vida. Isso exigirá mais investimentos públicos, o oposto do “tesouraço” pretendido pela direita. Para que as “contas públicas” estejam a serviço deste tipo de desenvolvimento, será necessário baixar os juros e ampliar as receitas, buscando o dinheiro onde ele está.

O que ameaça este plano? A oposição externa das duas direitas, os EUA, a Faria Lima. Omitir tudo isso e tocar o alarme contra a “oposição interna” chega a ser ridículo. Até porque, nos governos de Lula e Dilma, os problemas nunca foram obra de uma inexistente “oposição interna”. Sempre foram resultado da confluência entre os inimigos externos e os erros cometidos pelo governo.

Mas Attuch está obcecado pela ideia de que nosso problema estaria na esquerda. Chega a ser bizarro: temos um fugitivo de 60 milhões de votos nos EUA, temos um Congresso colonizado pela extrema direita, temos a Faria Lima fazendo chantagem, mas o que preocupa Attuch é “que a desestabilização de governos progressistas nem sempre começa pela direita”.

Attuch afirma ser natural que, “encerrada a eleição, o governo examine medidas pontuais para recuperar o equilíbrio das contas públicas. Isso não representa qualquer traição ao eleitorado. Representa o exercício responsável do poder.”

Como já disse, nada temos contra “equilíbrio das contas publicas”. O problema é que não somos idiotas. Existe uma pressão para buscar “equilíbrio” desequilibrando contra as maiorias, em favor da banca. Foi essa lógica que levou, por exemplo, o bolsa família a ficar um bom tempo sem reajuste.

Attuch se soma aos que fazem chantagem, quando afirma que a “alternativa pode ser uma crise econômica que termine por atingir justamente os trabalhadores e as famílias de menor renda”.

Attuch analisa gentilmente o comportamento dos especuladores e conclui dando conselhos ao governo: “Brigar infantilmente com investidores, alimentar incertezas sobre a dívida pública ou transformar o equilíbrio fiscal em uma questão ideológica pode pressionar ainda mais o dólar e os juros futuros. Isso encarece o crédito, dificulta os investimentos, aumenta o custo da dívida e compromete a capacidade do governo de financiar suas prioridades”.

As penas de aluguel da Faria Lima não escreveriam melhor. 

Pergunto: alguma vez alguém do governo “brigou infantilmente” com investidores? Ou “alimentou incertezas sobre a dívida?”

O que temos visto é o contrário: em geral o pessoal que vai para o governo esquece o que falou e o que escreveu e se comporta conforme o figurino. Logo, o que a banca está dizendo, através do ventriloquismo de inúmeros jornalistas como Attuch, mas principalmente através da especulação e outros movimentos práticos, é que eles querem mais, muito mais, do que todas as concessões feitas até agora.

Eles querem um “tesouraço”.

E como o povo não votou nisso, eles vão tentar impor ao governo Lula, que implemente o programa derrotado nas urnas.

O que faz Attuch, nesse contexto, é dizer para a esquerda que ela deve aceitar este ajuste, fingir que se trata de algo pontual e não reclamar, sob pena de tudo ficar aínda pior: “uma esquerda que se apresenta como defensora dos trabalhadores pode, por irresponsabilidade política, acabar contribuindo para a manutenção de juros elevados, o enfraquecimento do crescimento e a redução das oportunidades de emprego”.

Como o excesso de velas põe fogo na igreja, Attuch diz também que “nada disso significa que Lula deva aceitar passivamente todas as exigências do mercado financeiro. O presidente precisa preservar sua autonomia, defender a capacidade de investimento do Estado e garantir que o ajuste das contas públicas não recaia desproporcionalmente sobre os mais pobres”.

O “desproporcionalmente” é genial. O que seria recair “proporcionalmente” sobre os mais pobres???

O mais importante vem a seguir. Segundo Attuch, “existe uma diferença fundamental entre negociar com firmeza e transformar o conflito em método de governo. A primeira atitude produz resultados. A segunda pode produzir apenas turbulência”.

O problema é que a direita “transformou o conflito em método” de oposição ao governo. Se o governo abrir mão do “método do conflito”, o que vai ocorrer é que seremos inapelavelmente derrotados.

Além de oferecer conselhos derrotistas, embalados em formato coach, Attuch chega a formular a seguinte barbaridade: “o presidente não precisa escolher entre o mercado e o povo”.


Veja: o presidente não “precisa” escolher entre o mercado e o Estado, como ferramentas. É perfeitamente possível combinar virtuosamente ambas.

Mas o presidente, queira ou não, tem que “escolher” entre o empresariado capitalista e a classe trabalhadora. Pois é impossível agradar a gregos e troianos. Vide a experiência dos governos Lula e Dilma: apesar de tudo que se fez em favor dos empresários, estes majoritariamente escolheram sempre a oposição. 

Por isso, “escolher o povo” não é uma alternativa. É uma necessidade inevitável. A não ser, é claro, que pretendamos ser derrotados em 2030, no primeiro turno…


Segue abaixo o texto criticado 


Lula deve se preocupar mais com a sabotagem da “esquerda radical” do que com o apoio do centro responsável

Enquanto setores de centro oferecem estabilidade, uma esquerda radicalizada ameaça criar novas guerras políticas


Leonardo Attuch

Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato graças a uma ampla mobilização democrática, que ultrapassou as fronteiras tradicionais da esquerda e reuniu brasileiros preocupados com o futuro do país. Agora, diante do desafio de governar até 2030, Lula precisa compreender que seu maior problema político talvez não esteja no centro responsável, que se oferece para contribuir com a estabilidade, mas em setores de uma esquerda radicalizada, que parecem dispostos a transformar qualquer iniciativa de equilíbrio fiscal em uma batalha ideológica.
O contraste é evidente. Enquanto lideranças de centro, como Gilberto Kassab, presidente do PSD, sinalizam disposição para aprofundar a relação com o governo, desde que haja responsabilidade econômica, uma parcela da esquerda prefere promover uma gritaria nas redes sociais contra qualquer medida que possa ser interpretada como ajuste. Para esses setores, basta mencionar equilíbrio das contas públicas para que surjam acusações de neoliberalismo, traição programática ou submissão ao mercado financeiro.
Essa postura não apenas empobrece o debate econômico. Ela pode comprometer as condições políticas necessárias para o sucesso do governo Lula 4.
Uma das teses mais equivocadas difundidas por essa esquerda é a de que os brasileiros teriam ido às ruas, durante a campanha eleitoral, para rejeitar o equilíbrio fiscal. Trata-se de uma interpretação sem fundamento, que procura transformar uma mobilização democrática ampla e plural em uma espécie de plebiscito sobre a política econômica.

Os brasileiros foram às ruas, sobretudo, porque tinham medo da volta do bolsonarismo. Medo de cortes em programas sociais, evidentemente, mas também do avanço do feminicídio, da violência contra a população LGBT, do fortalecimento das milícias, da normalização do autoritarismo e da submissão da soberania nacional a interesses estrangeiros. Havia o receio de que o Brasil voltasse a ser governado por uma família política que fez do confronto permanente com as instituições uma de suas principais marcas.

Reduzir essa mobilização histórica a uma suposta rejeição popular ao equilíbrio fiscal significa desrespeitar a complexidade das motivações que levaram milhões de brasileiros a defender a democracia e a reeleição de Lula.

O povo brasileiro não votou pela irresponsabilidade econômica. Votou pela preservação de direitos, pela estabilidade democrática e pela esperança de um futuro melhor. E esse futuro depende, necessariamente, de uma economia organizada, capaz de crescer, gerar empregos, reduzir os juros e financiar políticas públicas.

É nesse contexto que a discussão sobre o próximo ministro da Fazenda adquire importância decisiva.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, surgiu como um dos nomes mais promissores para comandar a política econômica. Jovem, preparado, com experiência administrativa e boa interlocução com o setor produtivo, Fonteles representa uma geração do PT que compreende que responsabilidade fiscal e justiça social não são objetivos incompatíveis.

Mas já surgem setores dispostos a carimbá-lo como “neoliberal”, simplesmente porque seu nome é bem recebido pelo mercado financeiro. É uma lógica absurda. A capacidade de dialogar com investidores e empresários deveria ser considerada um ativo para um ministro da Fazenda, e não uma desqualificação.

O mesmo vale para qualquer outro nome que Lula venha a escolher. O presidente foi eleito para governar, não para submeter cada decisão econômica à aprovação de grupos que confundem radicalismo retórico com compromisso social.

A melhor receita para o fracasso do Lula 4 seria justamente a formação de uma oposição interna, empenhada em deslegitimar antecipadamente o próximo ministro da Fazenda e sabotar qualquer tentativa de reorganização das contas públicas.

Há ainda um componente histórico preocupante. Alguns desses setores parecem conservar uma visão romantizada das chamadas jornadas de junho de 2013, manifestações que começaram com reivindicações legítimas, mas foram posteriormente apropriadas por forças conservadoras e ajudaram a criar o ambiente político que desembocou no golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016.

A experiência deveria ter ensinado que a desestabilização de governos progressistas nem sempre começa pela direita. Muitas vezes, ela encontra combustível em setores que se apresentam como mais autênticos, mais puros e mais comprometidos com as causas populares, mas que acabam contribuindo para enfraquecer as próprias forças políticas que dizem defender.

Não há razão para repetir esse erro histórico.

Durante a campanha eleitoral, Lula ampliou despesas e abriu mão de receitas para atender demandas sociais e enfrentar uma disputa extremamente difícil. Essas decisões fizeram parte de uma conjuntura excepcional, marcada pela necessidade de preservar conquistas e construir uma maioria eleitoral.

É natural, portanto, que, encerrada a eleição, o governo examine medidas pontuais para recuperar o equilíbrio das contas públicas. Isso não representa qualquer traição ao eleitorado. Representa o exercício responsável do poder.

Ajustar prioridades, rever despesas menos eficientes, recuperar receitas e construir uma trajetória sustentável para a dívida pública são tarefas normais de qualquer administração comprometida com o interesse nacional.

A alternativa não é uma espécie de paraíso social sem restrições orçamentárias. A alternativa pode ser uma crise econômica que termine por atingir justamente os trabalhadores e as famílias de menor renda.

Os sinais de alerta já estão presentes. Na semana posterior à reeleição de Lula, o Ibovespa acumulou uma queda de 18,12%, seu pior desempenho semanal desde março de 2020. O dólar disparou 9,15% e encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,4460, maior valor registrado em 2026.

É evidente que parte desse movimento decorre da desmontagem de apostas financeiras equivocadas sobre o resultado eleitoral. O mercado também erra, especula e frequentemente reage de maneira exagerada aos acontecimentos políticos.

Mas reconhecer os excessos do mercado não significa ignorar que as expectativas econômicas produzem consequências concretas.

Brigar infantilmente com investidores, alimentar incertezas sobre a dívida pública ou transformar o equilíbrio fiscal em uma questão ideológica pode pressionar ainda mais o dólar e os juros futuros. Isso encarece o crédito, dificulta os investimentos, aumenta o custo da dívida e compromete a capacidade do governo de financiar suas prioridades.

O resultado seria especialmente perverso para o Banco Central, que tem a missão urgente de criar condições para a redução da taxa Selic. Com o câmbio pressionado e as expectativas de inflação desancoradas, a autoridade monetária encontra menos espaço para baixar os juros.

Em outras palavras, uma esquerda que se apresenta como defensora dos trabalhadores pode, por irresponsabilidade política, acabar contribuindo para a manutenção de juros elevados, o enfraquecimento do crescimento e a redução das oportunidades de emprego.

Nada disso significa que Lula deva aceitar passivamente todas as exigências do mercado financeiro. O presidente precisa preservar sua autonomia, defender a capacidade de investimento do Estado e garantir que o ajuste das contas públicas não recaia desproporcionalmente sobre os mais pobres.

Mas existe uma diferença fundamental entre negociar com firmeza e transformar o conflito em método de governo. A primeira atitude produz resultados. A segunda pode produzir apenas turbulência.

Lula conhece essa diferença melhor do que ninguém.

Em seus primeiros mandatos, demonstrou que é possível combinar responsabilidade fiscal, crescimento econômico, valorização do salário mínimo, expansão das políticas sociais e redução das desigualdades. Foi essa capacidade de construir sínteses, e não de alimentar antagonismos artificiais, que fez dele o mais importante líder popular da história contemporânea brasileira.

O Lula que o Brasil precisa agora é justamente esse: um presidente responsável, capaz de dialogar com o centro político, construir maiorias parlamentares, transmitir confiança à sociedade e redirecionar as prioridades orçamentárias para garantir conquistas progressivas à classe trabalhadora.

A responsabilidade fiscal não é uma concessão à direita. É um instrumento para preservar a capacidade de ação de um governo progressista. Sem estabilidade econômica, os avanços sociais tornam-se mais difíceis, mais caros e mais vulneráveis às crises.

O presidente não precisa escolher entre o mercado e o povo. Precisa governar para o povo, compreendendo que a estabilidade macroeconômica é uma das condições para ampliar o bem-estar coletivo.

Também não precisa aceitar que setores minoritários da esquerda reivindiquem o monopólio da interpretação do resultado eleitoral. A vitória de Lula pertence a uma coalizão democrática muito mais ampla, que inclui trabalhadores, movimentos sociais, empresários, intelectuais, lideranças de centro e milhões de cidadãos sem identificação partidária.

O quarto mandato oferece ao presidente uma oportunidade histórica de consolidar conquistas, fortalecer as instituições e preparar uma nova geração de lideranças progressistas para o futuro.

Desperdiçar essa oportunidade em disputas ideológicas estéreis seria um erro imperdoável.

Lula deve ser o que sempre foi em seus melhores momentos: um estadista pragmático, comprometido com a justiça social, a soberania nacional e a responsabilidade econômica.

O Brasil não precisa de uma nova temporada de radicalização. Precisa de crescimento, estabilidade, juros menores e conquistas concretas para os trabalhadores.

E, para isso, o presidente fará bem em ouvir mais o centro responsável e menos os que confundem gritaria com transformação social.

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247

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