“A pior quadra da nossa história”
Volta e meia escuto essa frase. Quando posso, contesto. Era o que ia fazer, hoje, no encerramento do debate sobre conjuntura realizado no XIX Congresso do SINTESE. Mas o tempo disponível me obrigou a escrever aqui o que ia dizer lá.
Se por “nossa história” estamos nos referindo a história de vida dos que começaram a militar no final dos anos 1970 ou início dos anos 1980, bem como aos que vieram depois disso, talvez faça algum sentido dizer que esta é “a pior quadra”, embora nesse caso seja prudente lembrar que o muito pior (mas também o melhor) provavelmente ainda estejam por vir.
Mas, se pensarmos na história vivida por nossos pais, avós e bisavós, não acho que esta seja - ao menos por enquanto - “a pior quadra da nossa história”. Vide as duas guerras mundiais, a ascensão do nazifascismo e o ciclo de ditaduras na América Latina.
A crença de que vivemos na “pior quadra”, mesmo que não seja este o propósito de quem usa a expressão, vira muitas vezes um “argumento” subconsciente ideal para quem atua pouco ou quase nada. Postura muito diferente daquela adotada por dezenas de milhões de homens e mulheres de esquerda que se mobilizaram ativamente, entre 1914 e 1945, tornando possível o que viria logo em seguida: a ampliação do “campo socialista”, a expansão do bem-estar social e das liberdades democráticas, a descolonização e o desenvolvimentismo.
Deixo aos historiadores do futuro a decisão sobre como classificar “nossa” quadra da história. O que tenho certeza é que, a preços de hoje, devemos lutar não apenas para defender os espaços conquistados, mas também para viabilizar mudanças estruturais.
Nossa resistência só terá êxito, se for também ofensiva. Do contrário, iremos de recuo em recuo, de concessão em concessão, até o contrário da “vitória final”. Daí a importância de bandeiras como a luta pelo fim da escala 6x1 e da redução da jornada de trabalho.
Por isso, também, não podemos aceitar a lógica dos que prometem combinar um salto no desenvolvimento com a manutenção do “arcabouço fiscal”. O que eles estão propondo é pagar a conta dos investimentos produtivos, cortando no orçamento hoje destinado, por exemplo, aos pisos constitucionais e à previdência. Ou seja, mais um ciclo de meia modernização, muito conservadora.
Precisamos resistir, avançando. Precisamos “mudar mais”. Queremos e estamos prontos para mais.
Claro que, pensando em termos de médio prazo, só avançaremos de forma “sustentável” se a classe trabalhadora ampliar significativamente seus níveis de consciência, mobilização e organização. Ganhar uma eleição presidencial com cerca de 60 milhões de votos, mas com menos de 10 milhões de sindicalizados e um partido com menos de 500 mil filiados ativos, é a fórmula certa para a frustração, parcial ou total.
Por estes e por outros motivos, o que a “quadra histórica” exige de nós, além da política correta e da proverbial coragem, é muito suor, muita saliva, muito trabalho cotidiano, muito doação voluntária de nosso tempo de vida em favor da construção do Partido, da revolução e do socialismo.
Se tivermos um pouco de sorte, a dialética fará com que a supostamente “pior quadra” se converta na ante-sala de mais uma primavera dos povos. Se tivermos azar, pelo menos teremos usado bem o tempo que nos foi dado viver.
Dito isso, voltaremos logo mais, quando já estaremos podendo gozar das prioridades sexagenárias. A que ponto chegamos!
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