sábado, 29 de março de 2025

Edinho e a selfie com Bolsonaro

Uma parte da tendência Construindo um Novo Brasil realizou, na sexta-feira 28 de março, uma reunião para dar apoio a pré-candidatura de Edinho Silva à presidência nacional do PT.

Há controvérsias sobre as consequências práticas do conclave. Uns falam que teria sacramentado o lançamento de duas chapas da CNB, outros dizem que teria acelerado a costura de um acordo entre as partes. Em qualquer dos casos, parece existir muito ressentimento acumulado.

Quanto à política que embasa a existência de duas ou mais “bandas” na CNB, recomendável ouvir no Instagram os “melhores momentos” do discurso feito no conclave por Edinho, para quem “derrotar o fascismo” ocupa lugar importante. 

É interessante contrastar esse “bordão” com a posição que o hoje pré-pré-candidato assumiu em 2022, quando propôs que Lula e Bolsonaro tirassem uma foto juntos, com o fito de “baixar a temperatura”.

Embora na época tenha lido a insólita proposta, apaguei a lembrança até que a provocação de alguém mais atento me fez ir atrás e confirmar.

Os bastidores não sei, só sei que foi publicado assim no UOL dia 4/11/2022:  Edinho disse que “o presidente Lula tem que tomar posse no ambiente de estabilidade institucional. Temos que criar as condições para tanto. Eu defendo que se abra um amplo diálogo com as próprias forças que foram derrotadas (…) Isso não é sequer consenso no meu partido, mas é a minha posição. Se existiu uma foto de Fernando Henrique e Lula na transição de 2002, por que nós não podemos construir essa foto agora com Bolsonaro e Lula, mostrando ao país que existe uma transição madura, adulta, dentro de um ambiente democrático? Isso seria um gesto que efetivamente baixaria a temperatura do Brasil".

Edinho comparou esta sua proposta com o que supostamente teria sido feito pelo “ex-chanceler alemão Konrad Adenauer, [que] quando foi empossado, se encontrou com lideranças do nazismo para depois destruir o nazismo. Do ponto de vista histórico, o encontro Lula e Bolsonaro pode ser importante e não significa nenhuma concessão".

Na história que estudei, Adenauer não “destruiu o nazismo”, muito antes pelo contrário. Mas o mais importante é que - como ficou demonstrado pelas investigações do STF - no momento em que Edinho queria fazer uma foto, Bolsonaro e os seus estavam (como seguem estando) numa vibe pouco amigável, digamos assim. 

Edinho aprendeu a lição? Pela ênfase beirando a temerosa que ele dá ao fascismo, pareceria que sim. Mas suas declarações acerca da “polarização” & outros assuntos mostram que ele segue não entendendo que para “destruir o nazismo” é preciso um partido para tempos de guerra, onde ninguém ache boa ideia fazer selfie com fascista.

O artigo citado pode ser lido aqui:

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/11/04/coordenador-petista-defende-foto-de-lula-com-bolsonaro-transicao-madura.htm





quarta-feira, 26 de março de 2025

Juliano Medeiros e as armas

Viva Vera Colson Valente!

Vida eterna a todas e todos que lutaram contra a ditadura!

E pena, muita pena daqueles que acham necessário ressalvar a forma da resistência, como se isso a tornasse menos ou mais legítima.

Contra uma ditadura militar, toda forma de resistência é legítima, inclusive a armada!





segunda-feira, 24 de março de 2025

A grana e a luta "interna" da CNB

Saudades dos tempos em que nos engalfinhávamos publicamente em torno da estratégia, do programa, da tática, da política de alianças.

Agora para alguns a pauta principal é outra: o fundo eleitoral, o fundo partidário, a grana.

Não deixa de ser uma homenagem torta ao Lênin, que dizia algo mais ou menos assim: organização é política concentrada e política é economia concentrada. Mas tenho a impressão de que, ao falar de economia, Lênin tinha em vista algo um pouco mais amplo do que a tesouraria do Partido.

Saudades dos tempos, também, em que a luta interna se dava entre as chamadas esquerda e direita do Partido. Hoje, grande parte da disputa pública está se dando entre dois setores da CNB, que ao menos aparentemente estão de acordo quanto à linha política, mas também aparentemente divergem quanto ao controle da tesouraria.

Destaco o aparentemente, porque é óbvio que também existem divergências políticas. Mas infelizmente para eles e para o Partido, não é isso que sobressai, como se pode ler nas imagens que ilustram este texto.

Estou entre aqueles que acham legítimo debater as finanças do Partido. Mas é preciso fazer o debate de conjunto. Por exemplo: além de debater o que fazer com os fundos públicos, é preciso debater como reconstruir as finanças militantes.

Nosso partido tem 3 milhões de filiados. Com uma pequena doação de cada um, seria possível arrecadar uma soma muitas vezes maior do que o fundo partidário. Isso nos permitiria fazer mais política nos anos ímpares e, óbvio, chegar em melhores condições nos anos pares. Mais importante ainda, ter finanças militantes nos libertaria da dependência em relação ao Estado. Sem falar do constrangimento implícito na defesa de um fundo eleitoral bilionário e, também, do erro político que consiste em defender que partidos recebam recursos públicos para seus gastos cotidianos.

Infelizmente a CNB apoiou, no congresso partidário realizado em 2015, uma resolução que eliminava a obrigatoriedade da contribuição militante, que passou a ser restrita a apenas alguns segmentos do Partido. A CNB quer debater as finanças partidárias? Então sugiro começar pelo começo, reconstruindo nossas finanças militantes.

A CNB, ou uma parte dela, considera que há problemas na distribuição do fundo partidário e do fundo eleitoral? Perfeito, debate legítimo e necessário. Mas que tal começar admitindo ser inaceitável que desde 1995 uma mesma e única tendência controle a tesouraria? Explico: desde 1995, o setor do Partido que hoje usa o nome de CNB já abriu mão de todos os cargos partidários, já abriu mão até mesmo da presidência do Partido. Mas nunca, nunca, absolutamente nunca abriu mão da tesouraria.

No congresso do PT realizado em 2017, diante da enorme gritaria contra este monopólio, a CNB aceitou a instituição de algum tipo de controle. Mas o tesoureiro da época esvaziou este controle e absolutamente nada mudou. Portanto, no que me diz respeito, o principal problema existente na condução da secretaria não está nesta ou naquela pessoa, nesta ou naquela decisão: o problema está no monopólio da CNB. 

A tudo isso adiciono outra questão: a tentativa que faz uma parte da bancada de deputados federais, de assumir o controle do fundo eleitoral. Há outras questões que precisam ser debatidas quando se fala de finanças, mas paro por aqui.

Entretanto, para não dizer que não falei de flores: o presidente Humberto Costa afirmou - em entrevista ao jornal Valor, conforme matéria publicada no dia 24 de março - que "todos os atos da Secretaria de Finanças nas eleições foram votados e referendados pelo diretório nacional e pelo GTE". Há pelo menos um caso em que isto não ocorreu: a doação feita à Marta Suplicy, para ajudar na campanha de Boulos.

Havia divergências no GTE, ficou combinado que seria convocada uma reunião da executiva do Partido para deliberar. Mas antes que a reunião da executiva ocorresse, a transferência financeira foi feita. Dado o montante envolvido (dezenas de milhões de reais) e dada a divergência, é um escândalo que isso tenha sido feito desta forma. Mais escandaloso ainda fica, quando lembramos que bastaria convocar uma reunião virtual da executiva. 

Entretanto, vejam que curioso: neste caso o atropelo não foi cometido apenas pela atual tesoureira ou apenas por um setor da CNB. O atropelo foi cometido pelo conjunto da CNB, que agiu com base na teoria da maioria presumida. O que só confirma o que foi dito antes: o problema está no monopólio, monopólio que vem desde 1995. E o uso do cachimbo, como se sabe, deixa a boca torta.










 



domingo, 23 de março de 2025

Edinho e o fascismo

Nos dias 21 e 22 de março, o companheiro Edinho Silva esteve em Aracaju (SE). 

O tema central do discurso de Edinho foi o “fascismo”.

O problema central do discurso é que Edinho não respeita a premissa que ele próprio estabeleceu, a saber: “a gente não pode errar no diagnóstico”.

Edinho comete diversos erros no diagnóstico do fascismo e, portanto, erra no procedimento que propõe ao Partido.

Alguns dos erros de diagnóstico escapam da minha compreensão; é o caso, por exemplo, de suas afirmações sobre o sindicalismo e sobre o símbolo adotado pelos fascistas italianos nos anos 1920. 

Disse Edinho: “como nasce o fascismo? nasce no movimento popular nasce numa articulação do movimento sindical italiano aquele feixe que é o símbolo do fascismo é o símbolo do movimento sindical italiano”.

[estas e outras transcrições são de minha responsabilidade e podem conter alguns erros, mas nada que altere o sentido do que foi dito]

Mas o que realmente importa é o que Edinho não disse.

Edinho não disse uma palavra sobre a guerra mundial, que foi decisiva no surgimento da “primeira geração” do fascismo e do nazismo. 

Edinho também não falou nada sobre o ascenso revolucionário ocorrido - tanto na Alemanha quanto na Itália - depois da Grande Guerra. Foi em parte como reação a este ascenso que a classe dominante passou a financiar e a apoiar o fascismo e o nazismo.

E aí está outro silêncio de Edinho: zero referência sobre o papel das classes dominantes na ascensão da extrema-direita. 

O curioso é que Edinho fala da crise de 1929, mas não fala do que fizeram as classes dominantes frente àquela crise. Sua “análise” resume-se ao seguinte: “o mundo empobrece e nasce um nacionalismo de direita e o fascismo vai crescendo, crescendo”.

E quando fala do “que caracteriza o fascismo”, Edinho (supostamente apoiado em Gramsci) diz o seguinte: “culto à personalidade”, “expansionismo, portanto imperialismo, ocupar outros territórios a não aceitação do diferente e uma concepção extremamente autoritária”. E quem “eram os diferentes" na primeira metade do século XX? Eram "os imigrantes, os ciganos e os judeus”.

Nessa caracterização, desaparecem totalmente o capital e o trabalho. E desaparecem a esquerda, o socialismo, o comunismo, o marxismo, que também foram alvos prioritários do ataque da extrema-direita.

Finalmente, mas não menos importante, Edinho não fala nada sobre como o nazifascismo assumiu o controle institucional e depois total do Estado italiano e alemão. Nem fala sobre como o nazifascismo surgido nos anos 1920 foi derrotado. 

Dos anos 1920 Edinho pula para o início do século 21, dizendo o seguinte: a “crise econômica de 2008 (…) é uma crise longa do capitalismo e o que que acontece no pós 2008? O capitalismo, os capitalistas do começo do século XXI diziam não existe mais estado nacional, a dinâmica do capitalismo vai se dar pelas grandes corporações, são as grandes empresas do planeta que vão dar a dinâmica do capitalismo (...) o conceito de globalização é derrotado, a crise do capitalismo derrota o conceito de globalização. E o que que emerge com a derrota do conceito de globalização? …um nacionalismo xenofóbico”.

Não estou seguro de que eu tenha conseguido entender o que Edinho disse ou quis dizer. Mas tenho certeza acerca do que ele não disse: não há uma única palavra acerca do papel jogado pela China, pela Rússia, pelo Brasil, pela América Latina, pelos BRICS.

Certo ou errado, o “diagnóstico” de Edinho se limita a Europa e aos Estados Unidos. 

Talvez por isso ele não se dê conta de que sua crítica ao “nacionalismo xenofóbico e racista” presente nos slogans “Itália pros italianos a Espanha pros espanhóis a França pros franceses a Inglaterra pros ingleses  a Alemanha pros alemães e os Estados Unidos pros americanos e assim por diante” poderia ser estendida ao slogan “Brasil é dos brasileiros”.

Mas há outras limitações no diagnóstico de Edinho. Por exemplo: ele simplesmente não trata da dimensão econômica do que ele chama de nacionalismo xenofóbico e fascista. 

Sua caracterização do fascismo - culto a personalidade, expansionismo, não aceitação do outro e autoritarismo - omite completamente os interesses econômicos envolvidos.

Essa omissão, como é óbvio, é bastante confortável para quem mantém ou pretende manter boas relações com o capital financeiro e com o agronegócio. Assim como é conveniente para quem deseja manter boas relações com a direita neoliberal tradicional.

Nesse particular, chega a ser tocante ver a passada de pano que Edinho dá em Macron (“o Macron faz piruetas na França para que os fascistas não se tornem maioria no parlamento francês”)  e nos Democratas gringos (“a ofensiva do Trump contra o partido democrata americano é algo inédito na história dos Estados Unidos, ele foi pra cima pra aniquilar o partido democrata, que é uma instituição secular”). 

Na vida real, precisamos lembrar, Macron e Biden pavimentaram o caminho para a extrema-direita. 

Edinho diz que o “erro" do "mundo democrático” foi achar que “o Trump estava enterrado”. Da minha parte, acho que o erro de parte da esquerda (inclusive Edinho) foi e pelo visto segue sendo não perceber que Trump e outros iguais a ele expressam uma tendência do capitalismo contemporâneo. 

Perceber isto leva a seguinte conclusão: a presença de uma grande mobilização anticapitalista aumenta as chances de vitória da luta contra o neofascismo.

Dito de outra forma: se queremos triunfar, não basta contrapor democracia versus neofascismo. Aliás, se adotarmos o “procedimento” proposto por Edinho, o que aconteceu nos Estados Unidos - o regresso da extrema direita - tem grandes chances de também acontecer aqui no Brasil.

De maneira geral, o raciocino de Edinho me recorda aquela frase: “ouviu o galo cantar e não sabe aonde”. 

Por exemplo: Edinho comenta a relação entre “as mobilizações de junho de 2013” e a “criação do bolsonarismo”. E diz que - “via redes sociais” - aquele movimento girou para a direita. Edinho omite completamente o papel da Rede Globo naquele episódio. 

Outro exemplo: Edinho diz que “a gente vê o momento de junho de 2013 sendo a base da direita que se mobiliza contra a reeleição da Dilma e dá sustentação pro golpe”. Edinho esquece que entre 2013 e 2016 nós vencemos a eleição de 2014. E omite que em 2015 implementamos uma politica econômica ortodoxa que confundiu, desmobilizou e dividiu nossa base, facilitando a ação dos golpistas.

As omissões de Edinho, como se vê, são frequentes. Ele geralmente esquece de tudo que contradiz a linha politica que sua tendência defende.

Por exemplo: a “teoria” de Edinho sobre a “direita anti-sistema”. 

Qualquer análise séria sobre o tema deveria reconhecer que a extrema-direita está profundamente enraizada e apoiada em instituições totalmente sistêmicas: as polícias, as forças armadas, as igrejas, os meios de comunicação, as empresas, o congresso nacional, a burocracia de Estado. 

Mas como Edinho quer ser o campeão do “sistema”, ele não pode reconhecer que o neofascismo é um dos filhos do grande capital com as instituições do Estado.

Um segundo exemplo: a “crise na democracia representativa”. 

Edinho fala da superfície do problema - as abstenções, a descrença popular etc.- mas não se pergunta sobre as causas de fundo. Entre as quais a incompatibilidade entre capitalismo e democracia popular, especialmente nos momentos de crise.

Com um diagnóstico tão cheio de lacunas, não admira que Edinho diga tolices como a seguinte: “em 2018 elege um presidente da república com 25 segundos de televisão e sem nenhuma aliança num voto anti-sistema, num voto contra o sistema”. 

A verdade é outra: o cavernícola foi eleito pelo sistema, parte dele pelo menos, contra nós. O discurso anti-sistema foi, digamos assim, uma ferramenta política utilizada para cooptar setores da classe trabalhadora e para confundir dirigentes que tem mais empáfia que estofo.

O único remédio contra a demagogia antisistêmica da extrema-direita é a sinceridade antisistêmica da esquerda. Nós somos anti-sistema e devemos agir de acordo com isso. 

Seja como for, como Edinho não conseguiu diagnosticar o problema, tampouco consegue explicar corretamente nossa vitória de 2022. 

Segundo ele: “impusemos uma derrota ao fascismo porque era o Lula e porque era o Brasil pós pandemia, porque o bolsonaro errou terrivelmente na pandemia”.

Ser o Lula ajudou, óbvio. Mas por que os mesmos que prenderam tiverem que soltar Lula? Por que parte dos golpistas de 2016 se aliou aos então golpeados? A resposta não é apenas nem principalmente a política do cavernícola na pandemia. A resposta está, ao menos em parte, nas contradições no interior da classe dominante. 

Ademais, Lula ajudou na vitória por qual motivo? É óbvio que pesou a reação popular contra a economia política ultraliberal. O que deveria nos levar a ganhar total distância de qualquer tipo de austericidio neoliberal. Assunto que não aparece no discurso de Edinho.

Edinho fala de racismo, de homofobia, de machismo, de misoginia. Mas não fala nada acerca do neoliberalismo, do capital financeiro, do agronegócio. E quando fala de algo correlato, Edinho erra na mão. 

Exemplo: segundo Edinho, o “pior” do bolsonarismo seria não permitir e não aceitar a “ascensão social”. A rigor, a extrema direita defende um tipo de ascensão social: meritocrática e baseada na prosperidade exclusivamente individual. 

Isto tudo posto, Edinho conclui que “o PT tem que estar mais organizado do que ele está hoje para enfrentar e derrotar o fascismo”. Isto é verdade, mas está muito longe de ser toda a verdade. A rigor o PT precisa estar mais organizado para derrotar o neoliberalismo, seja na vertente  neofascista, seja na vertente direitista tradicional.

No discurso de Edinho em Aracaju, é como se o neoliberalismo não existisse. Ou, se quisermos falar do mesmo assunto, mas a partir de outro ângulo, é como se não existissem a hegemonia do capital financeiro e do agronegócio, em consórcio com o imperialismo. 

Para além deste torcicolo estratégico, Edinho adota um procedimento irresponsável: ele fala dos problemas do PT como se ele e sua tendência não fossem os principais responsáveis pelos problemas que cita.

Por exemplo: “não existe partido forte se as instâncias não funcionarem, para o partido ser forte tem que ter democracia interna, para ter democracia interna as instâncias tem que funcionar, diretório tem que se reunir, executiva tem que se reunir e o partido tem que ter organização popular”; “temos que perguntar por que nós estamos perdendo base social e base eleitoral”.

Ao invés de falar da linha política e organizativa hegemônica no Partido, Edinho faz uma catilinária diversionista sobre “o processo de modernização do sistema produtivo", "a robótica avançou as novas tecnologias”. 

Claro que o tema é muito relevante, mas não é a IA nem a uberização que explicam o déficit organizativo do Partido. 

Tanto isto é verdade que Edinho corretamente defende medidas “nostálgicas”, que poderiam estar sendo implementadas se o grupo atualmente hegemônico no Partido e ele próprio não tivessem adotado o método de falar uma coisa e fazer outra. 

Outro exemplo deste discurso de PED é a crítica que Edinho faz acerca da relação entre mandatos e instâncias.

Registre-se que, sobre o chamado mundo do trabalho e sobre o sistema prisional, Edinho emite várias opiniões  corretas. Assim como ele está certo ao falar da importância da economia solidária. Mas de nada adianta falar de economia solidária e não falar nada contra o capital financeiro, contra o agronegócio. Ou nada falar a favor da industrialização.

No fundo, Edinho capitula frente a atual correlação de forças. E como capitular é politicamente incorreto, ele tenta naturalizar o status quo

Um exemplo dessa naturalização é o seguinte: "muitas vezes a gente fica reclamando do governo do presidente Lula (…) o governo do presidente Lula é um governo de coalizão (…) o Brasil não é mais presidencialista, nós não somos mais presidencialistas, quando o congresso executa mais de 50 bilhões em emendas esse regime é qualquer coisa menos presidencialista (…) como é que você volta para trás e traz de novo a capacidade de execução orçamentária para a mão do executivo? só se fizer uma reforma constitucional, mas se for fazer uma reforma constitucional hoje o Brasil será pior do que hoje, porque o Chile a gente viu isso, o Chile foi fazer uma reforma constitucional, o Chile saiu mais de direita do que era, então nós não temos correlação de força para fazer reforma constitucional, portanto a gente vai viver o próximo período em um governo de coalizão”.

A lógica é paralisante: a direita está cometendo uma ilegalidade, esta ilegalidade causa imensos danos, mas se tentarmos acabar com isso a coisa pode piorar, logo vamos atuar nos marcos das coisas como elas são. E como faríamos isso?

Edinho diz assim: "governo de coalizão é um governo onde vários partidos estão nos ministérios, a pergunta que a gente tem que fazer é qual é o papel do PT no governo de coalizão, o papel do PT é disputar os rumos do governo via os nossos parlamentares que são parlamentares combativos".

Confesso que é impressionante ouvir isso: vamos disputar o governo através de nossos parlamentares. Zero menção a pressão e mobilização social, zero menção a ação do próprio governo, que tem muita margem de manobra.

Edinho, corretamente, cita bandeiras do Partido que devem ser defendidas. Mas ele diz assim: "temos que pautar no governo a universalização da educação integral, que a gente coloque até 2035, não sei quando, mas coloque lá que o Brasil vai ter educação integral (...) mesmo que a gente tome pau na comissão de justiça, tome pau na comissão de finanças, mas até o projeto morrer a gente já fez 20 audiências públicas, nessas 20 audiências públicas que nós vamos levar o debate pra dentro do congresso".

Sobre o tema das creches, Edinho diz assim: "eu acho que a gente tem que ir pra dentro do congresso e debatermos com os nossos parlamentares".

Ou seja: vamos disputar o governo de coalizão no congresso e através do Congresso. Zero menção à pressão social, à mobilização popular. Não sei como, agindo desta forma, vamos conseguir "polarizar com o fascismo".

Para não dizer que não falei de flores, Edinho diz que o tema da segurança pública deve ser discutido "com a sociedade brasileira, porque se nós tivermos uma agenda, a gente fura a bolha da polarização que hoje é como se a gente vivesse num grande estádio de futebol de um lado a torcida A grita do outro lado a torcida B grita e a gente fica vendo quem é que grita mais alto e num estádio onde todo mundo grita ninguém conversa, e onde não conversa ninguém convence a gente precisa convencer quem votou no Bolsonaro na última eleição a gente tem que convencer da nossa proposta e aí nós temos que conversar".

Claro que devemos conversar. Mas a polarização que existe na sociedade não vai desaparecer, se nós da esquerda conversarmos. A polarização é um efeito colateral da crise do capitalismo, mais precisamente da estratégia que o grande capital adotou frente a esta crise, a saber: aumentar a exploração do trabalho. É isso que causa polarização. Não há "conversa" que resolva isto. O grande capital e quem os representa na disputa política precisam ser derrotados.

Portanto, uma coisa é a necessidade de "conversar" com o conjunto da classe trabalhadora, inclusive com aqueles que votam e apoiam nossos inimigos. Outra coisa é a postura que devemos adotar frente ao grande capital e a seus representantes. Aqui fica evidente o problema criado quando, na análise do fascismo, Edinho omite totalmente a relação entre a extrema-direita e a classe dominante.

Edinho terminou seu discurso dizendo que "o centro da nossa tática é a gente derrotar o fascismo em 2026" e que "só tem uma figura capaz de derrotar o fascismo é o presidente Lula".

Curiosamente, Edinho incorre aqui no erro que ele diz ter criticado num texto elaborado em 2018. A saber: derrotar o fascismo é uma coisa, derrotar eleitoralmente o fascismo é outra coisa. Óbvio que precisamos vencer em 2026, óbvio que Lula é nossa melhor candidatura. Mas deveria ser óbvio, também, que para derrotar o fascismo, é preciso fazer muito mais do que vencer eleições, é preciso fazer muito mais do que administrar.

Infelizmente, desse muito mais que é preciso fazer, Edinho só fala de uma: "pra derrotar o fascismo o PT sozinho não consegue", "o PT sozinho não derrota o fascismo". Isto é verdade. Mas a questão é: a depender das alianças que façamos, a depender do programa adotado, não criaremos as condições econômicas, sociais e políticas necessárias para derrotar o fascismo.

Dizendo de outra maneira: aqui no Brasil, o fascismo se alimenta do neoliberalismo, o fascismo defende bandeiras neoliberais. Por isso, se queremos derrotar o fascismo, é preciso derrotar o neoliberalismo. E isso impõe limites às alianças que podemos fazer.

Assim, o problema para "nossas gerações" vai além de "derrotar o fascismo no Brasil". Se queremos derrotar a extrema-direita, teremos que enfrentar o capitalismo realmente existente no Brasil,  a começar pelo capital financeiro e o agronegócio.

Se queremos "ter unidade", se queremos caminhar "com um único projeto e um único objetivo", se queremos ser não um partido "democrata" e "progressista", mas sim um partido das trabalhadoras e dos trabalhadores, então é preciso atacar o fascismo, mas também o capitalismo realmente existente em nosso país.


sexta-feira, 21 de março de 2025

Tribuna Independente


Segue a íntegra das perguntas e respostas citadas na matéria acima e disponível no endereço https://www.google.com/url?rct=j&sa=t&url=https://tribunahoje.com/noticias/politica/2025/03/21/153906-candidatura-de-medeiros-recebe-apoio&ct=ga&cd=CAEYACoTNjI1NjkxODYxNzY4OTA5ODI3MTIaZjNkOTMwNmNmNDJiNjczNzpjb206cHQ6QlI&usg=AOvVaw3UZOXms4Kp-zaKFhpJL3RS


 1. Candidatura à Presidência do PT: Quais são as principais mudanças que você pretende implementar no PT caso seja eleito presidente, especialmente em relação à atual condução do partido? 

A primeira mudança é acabar com essa distorção presidencialista. O PT é um projeto coletivo, abraçado por dezenas de milhões de pessoas, eleitores, filiados, militantes e dirigentes. Precisamos ter direções que funcionem com espírito de equipe. Obviamente isso exige muita democracia interna, muita formação política, muita comunicação, diretórios que se reúnam com regularidade. E reforçar nosso vínculo com a classe trabalhadora, a juventude, as mulheres, os negros e negras. O papel do PT é ser um instrumento da classe trabalhadora, na luta imediata por melhorar de vida e na luta histórica por uma sociedade socialista.

2. Articulação de Esquerda: Como a tendência Articulação de Esquerda pode contribuir para a revitalização do PT e a construção de uma agenda que atenda às demandas da população? 

O PT possui o direito de tendência. Em 2019, quando elegemos o atual Diretório Nacional do PT, havia 14 tendências! Mas a maioria dos filiados ao PT não pertence a tendência alguma. E uma das preocupações da tendência de que eu faço parte - a Articulação de Esquerda - reside exatamente em garantir que tendência seja um direito, não uma obrigação. O petista sem tendência precisa ter seus direitos garantidos. Isso certamente vai ajudar a revitalizar o PT. Ao mesmo tempo, é preciso organizar nossa atuação. Os petistas estão na base, onde moram, onde trabalham, onde estudam, onde se divertem. Mas as direções muitas vezes não estão onde os petistas estão. É preciso que nossos diretórios cuidam de participar e organizar as lutas cotidianas do povo. É preciso dar mais atenção para as lutas do que para as eleições. Até porque, estando presente na luta pelas demandas da população, vamos também manter e ampliar nossa votação.

3. Lançamento de Candidaturas Locais: Qual a importância do lançamento da candidatura de Ronaldo Medeiros para a presidência do PT em Alagoas e de Ale para a presidência do PT em Maceió no contexto nacional do partido? 

Nos dois casos, são candidaturas que tem afinidade com o que nós da AE pensamos. O PT não tem dono. 

4. Educação e Política: Como sua experiência como professor de História e membro da Fundação Perseu Abramo influencia sua visão sobre a política atual e as estratégias que o PT deve adotar?

Eu valorizo muito nossas tradições. A esquerda brasileira não começou com o PT. Nossa história de luta começa lá atrás, com o indígena que combateu o invasor europeu; com o escravizado que se rebelou e aquilombou; com o camponês que enfrentou o latifundiário; com as greves operárias que antecederam a criação do Partido Comunista; com os que lutaram contra a ditadura militar; e assim por diante. E a história do PT também não começou ontem. Essas lutas todas foram possíveis porque existia gente animada por uma causa. Hoje a gente chama isso de “militância”. E nossa causa é uma sociedade sem exploração nem opressão. Há no PT diferentes visões acerca de como deve ser o socialismo e sobre qual estratégia devemos adotar para conquistar o socialismo. Eu defendo o que está na resolução do sexto congresso do PT, realizado em 2017. Daquele congresso eu destaco duas questões: ser governo não basta, precisamos de poder; e poder só teremos quando a maior parte das nossas classes trabalhadoras estiver consciente, organizada e mobilizada.

 5. Construindo um Fato Político: Qual a sua expectativa em relação à repercussão desta visita a Maceió e como você acredita que isso pode impactar o cenário político local e nacional?

Minha expectativa é primeiro escutar a opinião do Partido em Alagoas e Maceió, pelo menos a opinião de quem se dispuser a conversar conosco. E espero contribuir para que nossas candidaturas e chapas sejam bem votadas no Ped de 6 de julho. Eleger uma nova direção para o Partido vai nos ajudar muito na eleição de 2026, mas principalmente vai nos ajudar a transformar o Brasil.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Declaração de voto sobre a eleição de Humberto Costa

 Declaração de voto

Hoje, dia 20 de março de 2025, ocorreu uma reunião do Diretório Nacional do PT.

A reunião começou as 9h da manhã e terminou as 10h39.

A reunião foi convocada para tratar de um único tema: eleição do presidente.

Posteriormente, durante a reunião, agregaram a pauta outros temas: recomposição do DN, recomposição da CEN e composição do conselho curador da FPA.

No inicio da reunião, pedi a palavra para fazer cinco observações: primeiro, solicitar a inclusão na pauta de pelo menos um tema político, a saber, o que o Partido fará nos dias 31 de março e 1 de abril, datas do golpe militar de 1964; segundo, lembrar que embora o DN de 7/12/2024 tenha decidido que o tema “comissão de ética Quaquá” seria tratado na primeira reunião da CEN, já estamos indo para a segunda reunião da CEN em 2025 e o tema ainda não foi tratado; terceiro, perguntar como será o procedimento relativo ao pedido que fiz, acerca das filiações excessivas registradas no dia 28 de fevereiro, a saber: recadastramento, conforme prevê nosso estatuto; quarto, solicitar que se dê publicidade aos dados relativos a quem deve ao Partido; quinto, antecipar minha abstenção com declaração de voto no tema da presidência.

A seguir, conforme prometido, apresento por escrito as razões de minha abstenção: 1/considero que o processo de substituição da companheira Gleisi Hoffmann foi encaminhado, na reunião da Comissão Executiva Nacional, de forma ilegal e ilegítima (provavelmente nada disto teria ocorrido se a tendência CNB tivesse se dado ao trabalho de fazer consultas prévias aos demais setores do Partido); 2/nesse contexto, votar a favor seria em alguma medida validar um processo que começou errado; 3/ademais, levei em conta para me abster as opiniões do companheiro Humberto, especialmente as suas posições preliminares acerca do PED e das novas filiações. Mesmo sendo um presidente interino, prefiro levar em conta certo ensinamento de Nelson Rodrigues.

Finalizo registrando que – apesar da extrema tolerância com que se acrescentaram novos votos, mesmo depois de proclamado o resultado ´- o cômputo final foi de 63 votos a favor de Humberto, zero voto contra e 5 abstenções (o número inicial de votos anunciado foi de 57). Nas outras duas votações ocorridas no DN, o resultado foi 48x4 (inclusão do companheiro Everaldo na CEN como vice) e 59x0x0 na composição do conselho curador da FPA. Isto aconteceu, lembro, em um Diretório que tem 94 integrantes.

Atenciosamente

Valter Pomar


Finanças do PT em debate

A imprensa continua explorando a luta interna na tendência "Construindo um Novo Brasil".

O lance mais recente foi matéria publicada no jornal O GloboCom histórico de escândalos, cargo de tesoureiro do PT é ponto central do racha na eleição interna | Política | O Globo

Para quem não é assinante, disponibilizo ao final o print da referida matéria.

O jornalista que assina a matéria me escreveu, antes da matéria ser publicada.

Reproduzo abaixo algumas perguntas feitas por ele e o que respondi:

Estou com uma dúvida que ainda não vi ninguém responder. O Edinho já se mostrou contrário a uma eventual continuidade da Gleide na secretaria de Finanças do partido. Mas ele já apontou quem ele gostaria que ocupasse o cargo, caso vença?

Só ele saberá responder a esta pergunta. Da minha parte, espero que ambos - Edinho e Gleide - sejam derrotados. Assim o problema será resolvido na raiz.

E a chapa da AE, por exemplo, já tem um nome proposto para essa posição? Pergunto porque é uma posição importante. E parece que a candidatura do Edinho a transformou em um cavalo de batalha para a própria candidatura

Nossa proposta sobre a tesouraria é: que o próximo tesoureiro não seja da tendência CNB; que exista um comitê de finanças, composto por integrantes do Diretório Nacional, que supervisione o trabalho da tesouraria. Isto posto, a postura do Edinho nesta questão é expressão daquela frase “o uso do cachimbo deixa a boca torta”. A relação entre o presidente e o tesoureiro NÃO é a mesma que existe entre, digamos, um prefeito e seu secretário de finanças. No PT não é o presidente que escolhe o tesoureiro. O tesoureiro é eleito pelo DN. E não está escrito em nenhum lugar que o próximo tesoureiro será da CNB. É verdade que desde 1995 (!) este cargo tem sido ocupado por gente deles, mesmo quando o presidente não era deles. Mas isso tem que mudar. O problema é que Edinho não quer democratizar a tesouraria. Quer apenas mudar a pessoa que controla, mas mantendo dentro do mesmo grupo e com os mesmos métodos. Não temos nome, portanto, temos um critério. Quem tem nome já está sentando na cadeira. E agindo como se tivesse um poder que não tem.

Sobre este assunto, sugiro ler também o que está no seguinte texto: Valter Pomar: Edinho e Deus

Reproduzo abaixo:

O PT tem umas coisas engraçadas. Uma delas é o esquecimento seletivo. Por exemplo: quase todo mundo lembra quem nomeou Joaquim Levy. Mas muita gente esquece ter feito parte dos 55% que votou a favor da continuidade de Levy, no Congresso petista realizado em Salvador, no ano de 2015.

Um caso semelhante está ocorrendo agora, na discussão sobre quem seria "culpado" pela ilegal e ilegítima decisão que introduziu a possibilidade de dirigentes exercerem mandatos vitalícios na executiva nacional do Partido.

Quase todo mundo lembra que Gleide Andrade votou a favor. Mas muita gente esquece quem defendeu a proposta: a presidenta Gleisi Hoffmann, José Guimarães e Romênio Pereira, por exemplo. E muita gente também esquece quem votou a favor da proposta: quase toda a bancada da tendência Construindo um Novo Brasil presente na tal reunião do Diretório Nacional do PT; sem falar do voto favorável de vários de seus aliados, sem o quê a proposta não teria sido aprovada com 60 votos. 

(As exceções na bancada da CNB, segundo duas fontes, teriam sido pelo menos as seguintes: Paola Miguel, Zeca Dirceu, Patrícia Melo e Reginaldo Lopes.)

Aliás, uma imprensa séria pesquisaria algo óbvio: quem são os dirigentes que completaram três mandatos e que teriam que sair da executiva, se a regra não fosse aprovada? Cui bono?

Mas vamos dar um desconto. Afinal, a preocupação seletiva com Gleide Andrade é compreensível, quando se leva em conta que, desde 1995 até 2025, a tesouraria do Partido foi ocupada por integrantes de uma mesma corrente política. 

Com o perdão de algum esquecimento, os tesoureiros foram: Clara Ant, Delúbio Soares, José Pimentel, Paulo Ferreira, João Vaccari, Márcio Macedo, Emídio de Souza e, agora, Gleide Andrade. Não cito aqui a nominata de tesoureiros das campanhas presidenciais, mas recordo que um deles foi Edinho Silva, em 2014.

Entre 1995 e 2025, a referida corrente política aceitou até mesmo ficar sem a presidência do Partido. Mas ficar sem a tesouraria, nunca, jamais, em tempo algum.

É neste histórico que chafurdam matérias escrotas como a publicada na coluna do Lauro Jardim. A tal matéria está copiada ao final, mas também pode ser lida aqui: A única chance de Edinho não presidir o PT 

Evidentemente, as divergências no interior da CNB não se limitam a saber quem será tesoureiro. E as chances de Edinho dependem de outros fatores, entre os quais um bem simples: ele precisa ter maioria de votos entre os filiados que vão votar no dia 6 de julho de 2025. E o fato é que - apesar da notícia divulgada por Romênio Pereira (ver ao final), segundo quem haveria 250 mil novas filiações chegando aí - a situação na CNB está bem complicada.

Tanto é assim que um dos tesoureiros (artigo masculino) listados acima contou, obviamente em tom de brincadeira, que a sigla CNB quereria na verdade dizer "Construindo uma nova briga".

Talvez por isso Edinho esteja enfatizando tanto ser - por enquanto - o "preferido". 

E quem sabe para manter a tal preferência em alta, ele às vezes deixe a emoção dominar. Um exemplo disto pode ser visto aqui: Edinho Silva | O Brasil tem diante de si uma nova oportunidade histórica: a Costa Equatorial. Precisamos transformar essa riqueza em emprego para a... | Instagram

Para quem não tem Instragram, transcrevo: "Deus gosta muito do presidente Lula, ninguém tem dúvida disso. Ele jogou no colo dele o pré-sal. Veio o golpe só pra privatizar o pré-sal. Aí deus disse assim: “Calma, Lula! Vou te dar a costa equatorial. Se preocupa não.” Nós temos que traduzir a costa equatorial em emprego pra juventude, em ciência e tecnologia, na universalização da educação integral, na universalização do direito à creche. Nós temos que traduzir essa riqueza como um projeto de futuro para o Brasil, em transição energética. Nós somos o país que o mundo vai ter que discutir com a gente a transição energética. Então nós temos que abrir esse debate de futuro, principalmente a juventude do nosso país. Nós temos que simbolizar a esperança do nosso povo, nós temos que voltar a simbolizar a esperança".

Deixo para outra hora um comentário sobre as sutilezas teológicas, geológicas e psicológicas do raciocínio acima. Limito-me a manifestar minha esperança de que ninguém se apresente, no PED, como sendo mais um presente que Deus teria dado a Lula.

Afinal, como se sabe, o excesso de velas costuma por fogo na igreja.

SEGUE ABAIXO A MATÉRIA CITADA ACIMA

A única chance de Edinho não presidir o PT

A única chance de Edinho não presidir o PT 

Existe uma possibilidade de Edinho Silva não presidir o PT, mesmo sendo o candidato de Lula. E ela está atrelada a chance de Gleide Andrade continuar como tesoureira do PT. Isso porque causou incômodo a mudança no estatuto, batizada de "Emenda-Gleide", que permite a recondução dela ao posto após três mandatos consecutivos.  Gleide teria que ser eleita. Mas em um jantar na semana passada com aliados, Edinho disse não aceitar a manutenção dela sequer como candidata. Quer no posto-chave alguém de sua confiança. Só de fundo partidário entrarão no caixa do partido R$ 140 milhões em 2025. E é o tesoureiro quem cuida desse montante. No ano que vem, ainda terá o fundo eleitoral de estimados mais de meio bilhão de reais. Nenhum presidente, portanto, abre mão de indicar alguém mais afinado com ele para o posto. Mas Lula, que quer Edinho presidente do PT, vai botar o dedo nesta cumbuca. Nesta semana Gleide deve ser anunciada para algum cargo dentro do Palácio do Planalto

SEGUE TRECHO DA ENTREVISTA DE ROMÊNIO PEREIRA AO MANIFESTO PETISTA

Entrevista com Romênio Pereira - Candidato a Presidente Nacional do PT #pt #esquerda #socialismo

"Primeiro, eu acho que a... nós vamos estar terminando agora pelas informações que eu estou tendo, parece que é em torno de 200 a 250 mil novos filiados. É bom, é ótimo, mas eu espero que esses filiados venham para debater a política, para que venham para debater qual o caminho do PT, não qual o papel aí, Douglas. Você fez uma pergunta que é pertinente. Eu espero que muitos desses filiados que nós estamos filiando, não sejam filiados que venham fazer o debate do fundo eleitoral, porque em muitas situações nós estamos trocando o debate da política por como destinar o fundo eleitoral. Essa é uma preocupação que todos nós devemos ter. Então, eu espero que companheiros e companheiras pelo país não estejam filiando pessoas da direita".

O "guidance" de Lindbergh

O deputado Lindbergh foi um dos maiores críticos da política de juros implementada pelo ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também conhecido como Bob Fields Grandson.

Até por isto, Lindbergh manifestou grandes expectativas com o que seria a política de juros sob Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central.

Mas - o tempora, o mores - Galípolo deu continuidade à política de juros de RCN.

Surpresa zero, pois enquanto diretor Galípolo já votara, na maioria dos casos, com esta política.

Diante desta situação, Lindbergh está sendo obrigado a fazer um verdadeiro contorcionismo: por um lado, criticar a política de juros; por outro lado, poupar Galípolo.


Destaco o trecho: "“O mercado defende ajuste fiscal, mas ao mesmo tempo pressiona por uma política monetária que causa um verdadeiro rombo nas contas públicas. Entendemos que a decisão de dezembro, tomada por Roberto Campos Neto, já deixou pré-fixado dois aumentos de 1% na Selic. Esse Guidance deixou amarrado o BC, mas chamo atenção para os efeitos dessa política tanto para aspecto fiscal quanto para a atividade econômica”.

Guidance é um termo simpático, mas em bom português o que se passa é algo bem simples: Galípolo está dando continuidade à política que ele mesmo ajudou a implementar.

Portanto, se queremos que o atual presidente do Banco Central implemente uma política de juros diferente, será necessário mais pressão, menos delusion e nenhuma fallacy.










terça-feira, 18 de março de 2025

A louvação de Sarney é imerecida

O ex-presidente José Sarney foi vítima, nos últimos dias, de uma quase beatificação.

A beatificação vem de todos os lados, inclusive da esquerda.

Vou dar dois exemplos.

O primeiro é a entrevista de Moacir Assunção ao Brasil de Fato.

A entrevista pode ser lida aqui: https://www.brasildefato.com.br/2025/03/15/politico-oriundo-da-ditadura-que-se-converteu-a-democracia-avalia-historiador-sobre-sarney/

Outro é o artigo de Tereza Cruvinel, no Brasil 247.

O artigo pode ser lido aqui: https://www.brasil247.com/blog/pouca-festa-e-muitos-dilemas-nos-40-anos-da-democracia-brasileira

Moacir Assunção diz assim: “O Sarney foi presidente do partido da ditadura, do PDS, mas ele acabou sendo uma surpresa boa para democracia, digamos assim, porque ele se comportou como um democrata em todos os períodos do mandato dele. Embora ele tenha sido um político oriundo da ditadura, ele manteve todos os ministros do Tancredo, e poderia ter feito isso. Digamos que, ao poucos, ele foi se convertendo à democracia”.

Tereza Cruvinel diz assim: "Erros e falhas certamente aconteceram em seu governo, herdeiro de tantos problemas deixados pela ditadura. O inegável é que ele nos livrou dos retrocessos, guiou-nos à Constituinte e às eleições diretas, aquelas que haviam levado milhões de brasileiros às ruas, na campanha do ano anterior. A maioria parlamentar servil à ditadura negou os votos necessários à emenda Dante de Oliveira, mas nós somos brasileiros e não desistimos nunca: Fizemos a transição como foi possível. Tudo teria sido diferente se tivéssemos feito uma transição como a da Argentina, condenando e prendendo os generais e torturadores, muitos dizem hoje. Teria, mas não tivemos aqui uma correlação de forças que nos permitisse tomar outro caminho".

Que Sarney seja apresentado como um "democrata" diz muito sobre o que é a democracia realmente existente nesse nosso Brasil. 

Vide sua opinião sobre a Constituição de 1988: https://www.conjur.com.br/2008-set-14/constituicao_88_tornou_pais_ingovernavel_sarney/

Vide, também, o que fez o clã Sarney no estado do Maranhão, tratado por eles como se fora propriedade feudal.

Se "não tivemos aqui uma correlação de forças que nos permitisse tomar outro caminho", se a mal denominada "transição democrática" foi como foi, é porque fomos derrotados. Quem nos derrotou? Entre outros, Sarney. 

E não se trata de um debate sobre o passado. Afinal, fazer deste cidadão um democrata, rebaixar nossas expectativas sobre o que é a democracia, não contribui absolutamente nada para melhorar a correlação de forças neste ano de 2025.


ps. Um amigo escreveu: “Vale lembrar 1988, quando por ordem do Executivo o exército invadiu a CSN de Volta Redonda em greve, e matou 3 jovens metalúrgicos, de 27, 22 e 19 anos”.





domingo, 16 de março de 2025

🚨🇧🇷🚩 *Articulação de Esquerda lança Valter Pomar candidato à presidência do PT

🚨🇧🇷🚩 *Articulação de Esquerda lança Valter Pomar candidato à presidência do PT*

No link está a matéria publicada no site do PT: 

https://pt.org.br/articulacao-de-esquerda-lanca-valter-pomar-candidato-a-presidencia-do-pt/


Segue a íntegra das perguntas e respostas

1- O que representa a candidatura lançada pela AE? 

Representa uma voz a mais em defesa de um PT socialista, comprometido com as reformas estruturais, com uma transformação radical do Brasil. Representa uma voz a mais em defesa de um partido internamente democrático, militante, presente e atuante nos territórios, nos locais de moradia, de trabalho, de estudo, de cultura e lazer. Um partido que seja de fato um instrumento da classe trabalhadora. E representa, também, um grito de alerta: vivemos tempos de guerra, de crise do capitalismo, de catástrofe ambiental. Em tempos assim, se quisermos vencer, é preciso mudar nossa estratégia e nosso jeito de funcionar.

 2- Como candidato a presidente, você defende? E qual o maior desafio do novo presidente Nacional do PT? 

Não são desafios do presidente, são desafios do Partido. Aliás, o PT precisa ser menos presidencialista e voltar a ter direção coletiva. Mas falando dos desafios políticos no ano de 2025, destaco quatro: primeiro, contribuir para que o governo federal mude de rumo e recupere a bandeira da “transformação”; segundo, estimular, apoiar e protagonizar a mobilização social, inclusive como contraponto a maioria de direita no Congresso; terceiro, reforçar o debate politico ideológico contra o neofascismo e contra o neoliberalismo, criando um ambiente favorável a prender os golpistas e também ajudando a nos livrar da canga do “ajuste fiscal permanente”; quarto, fazer da cúpula dos BRICS e da COP 30 momentos de afirmar nossa política externa altiva e ativa e, também, a política de relações internacionais do PT. Se tivermos êxito nesse conjunto de desafios e noutros que não citei, poderemos não apenas reeleger Lula, mas também criaremos as condições para um quarto mandato melhor do que o atual. Destaco, entretanto, que nossa preocupação maior é com o Partido. O PT está ameaçado, não apenas por nossos inimigos, mas também pelos nossos erros e insuficiências. 

 3- Como avalia o Processo de Eleição Direta do PT? 

Eu tenho uma avaliação muito crítica acerca do PED. Em todos os PED realizados desde 2001, a maior parte dos filiados não compareceu para votar. E a maior parte dos que compareceram, votaram sem que antes tivessem participado de um único debate entre as chapas e as candidaturas. Além disso, em todos os PED realizados desde 2001 tivemos muitos problemas, por exemplo abuso de poder econômico, interferência de forças externas ao Partido e inclusive fraudes. Apesar disso, em alguns momentos o PED foi importante para defender o Partido e inclusive para mudar os rumos do Partido. Foi o que aconteceu em 2005 e é o que espero volte a acontecer em 2025.

DECLARAÇÃO AO PARTIDO do 9º Congresso nacional da tendência petista Articulação de Esquerda

O 9º Congresso nacional da tendência petista Articulação de Esquerda, reunido na cidade de São Paulo nos dias 14, 15 e 16 de março de 2025, aprovou a seguinte DECLARAÇÃO AO PARTIDO. 

Na atual quadra da história, só o Partido dos Trabalhadores pode liderar o povo brasileiro na luta pelo bem-estar social, pelas liberdades democráticas, pela soberania, pela integração regional, pelo desenvolvimento e pelo socialismo. 

Se o Partido dos Trabalhadores não estiver à altura desta tarefa, vamos desperdiçar uma grande oportunidade para mudar nossa sociedade e para mudar o lugar do Brasil no mundo. 

Há quem acredite que o PT já estaria à altura da tarefa, devido à nossa história e devido às batalhas que vencemos no passado. 

Não concordamos com isto.

Acontece que o Brasil e o mundo mudaram e seguem mudando. O que fizemos no passado já é história, uma grande história. Mas não nos basta ter um grande passado pela frente. 

Queremos que o PT esteja à altura de vencer os desafios históricos do futuro e os imensos problemas e contradições do presente. 

Para conduzir exitosamente o povo brasileiro na luta por seus objetivos imediatos e históricos, o PT precisa de mudanças profundas em seu funcionamento e em sua linha política.

Se o PT continuar como está hoje, profundamente desorganizado, importa pouco qual será a linha política que adotemos. Desorganizados, mais cedo ou mais tarde seremos derrotados. 

Lutamos para que nossa linha política e nossa organização partidária estejam à altura das necessidades do momento e da história. 

O Partido dos Trabalhadores tem poderosos inimigos.

Destacam-se entre estes inimigos: o imperialismo, especialmente o estadunidense; o capital financeiro; o agronegócio e as mineradoras que sustentam o modelo extrativista predatório; as forças políticas de extrema-direita e a direita tradicional, todas neoliberais; o fundamentalismo religioso; os grandes meios de comunicação; a cúpula das forças de segurança e Defesa; e, de maneira mais geral, a herança maldita acumulada pela classe dominante ao longo de séculos. 

Para enfrentar estes poderosos inimigos, o PT precisa de uma estratégia de longo prazo, que recupere uma ideia que já estava presente nos documentos aprovados pelo Partido na década de 1980: disputamos eleições e buscamos governar como parte do caminho para ser poder. 

Se o Partido continuar confundindo governo com poder, seremos não apenas incapazes de derrotar nossos inimigos, como também sofreremos cada vez mais derrotas eleitorais. 

Trabalhamos para que o PT disponha da estratégia adequada à luta por um Brasil democrático, popular e socialista. 

Foi necessária muita luta para vencer as eleições de 2022, o que conseguimos por uma pequena diferença de votos, lutando contra uma extrema direita que fez de tudo, inclusive tentou barrar a posse de Lula. Ainda em 2022, Bolsonaro e alguns generais planejaram assassinar o presidente eleito Lula, o vice Geraldo Alckmin e o ministro do STF Alexandre de Moraes. Depois veio a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Dois anos depois, apesar destas e de outras imensas dificuldades, são inúmeros os sinais positivos, inclusive na geração de empregos e no aumento da renda. Mas apesar disso sofremos uma grave derrota nas eleições municipais de 2024. 

Além disso, todas as pesquisas de opinião realizadas desde o início do terceiro mandato de Lula até agora apontam no mesmo sentido: a situação política e eleitoral está muito longe de ser tranquila.

As pesquisas apontam uma crescente frustração com nosso governo, inclusive entre aqueles que em 2022 votaram em Lula. Há no governo e na direção do Partido quem defenda tratar-se principalmente de falhas de comunicação. Claro que há um problema de comunicação mas ele está longe de ser o mais importante. Assim como a troca do presidente do Banco Central não acabou com a política de juros altos, a troca do responsável pela Secom, por si só, não será capaz de mudar a avaliação de Lula e de nosso governo. Precisamos de mais investimentos, mais e melhores empregos, melhores salários, de modo a melhorar, na intensidade e na velocidade esperada, as condições de vida de nosso povo.

Setores do Partido negam ou minimizam nossas dificuldades. Mas ao mesmo tempo, numa confissão do que realmente pensam, estes setores defendem um “giro ao centro”, que se materializaria por exemplo na incorporação ao governo federal de mais e piores setores da direita.

Este “giro ao centro”, na verdade uma “inflexão à direita”, é incapaz de lídar com as contradições profundas do atual estágio do capitalismo. Aliás, os mesmos que defendem esta política operam, na prática, pela desmobilização dos movimentos sociais de esquerda. 

Não foi esta a tática que nos permitiu voltar a governar o país. Não foi “virando a página do golpe” que derrotamos a direita nas eleições de 2022.

Se prevalecer essa “inflexão à direita”, podemos até mesmo vir a vencer as eleições de 2026, mas nessa hipótese teremos um quarto mandato sob cerco interno e externo ainda maior do que hoje. O que projetaria um futuro negativo para nosso Partido e, muito mais grave, condenaria o Brasil a continuar sendo uma subpotência primário-exportadora e um paraíso para a especulação financeira. 

Sobre a situação nacional, pesa uma situação mundial extremamente complexa e perigosa. 

A situação ambiental é catastrófica e atinge pesadamente o Brasil. Com raras e louváveis exceções, há uma deterioração das condições de vida da maior parte da população do planeta. 

A classe dominante, por todas as partes, opera para aumentar a exploração e, para tentar viabilizar isso, estimula o fundamentalismo, o racismo, a misoginia, a lgbtfobia, persegue os migrantes, destrói direitos e restringe as liberdades democráticas. 

A direita neoliberal tradicional vai adotando as pautas da extrema-direita e, por sua vez, a extrema-direita vai conquistando cada vez mais governos, com destaque para Donald Trump nos Estados Unidos. Aliás, passados mais de 50 dias da posse do atual presidente estadunidense, confirma-se que foi o governo Biden e sua política que abriu o caminho para a volta de Trump. Mais um motivo para rejeitar a posição dos que pretendem emular, na esquerda brasileira, o exemplo dos Democratas estadunidenses.

As potências imperialistas estimulam, promovem e naturalizam as guerras. Um destacado exemplo disso é o genocídio televisionado do povo palestino. Cresce a repulsa e a reação generalizada em todo o mundo contra o Estado de Israel. Mas ao mesmo tempo, para uma parte da população do planeta vai se estabelecendo uma espécie de “novo normal” da violência. 

Neste contexto, os Estados Unidos aumentam a pressão sobre a América Latina e Caribe. Embora a agressão sobre Cuba e Venezuela seja imensa, embora a Colômbia e a Bolívia passem por momentos extremamente difíceis, embora o México siga estando “muito longe de Deus e perto demais dos Estados Unidos”, não há que ter dúvida: o principal objetivo dos Estados Unidos na região é submeter o Brasil. 

Os Estados Unidos não querem um Brasil protagonista no plano mundial, nem um Brasil capaz de liderar a América Latina.

Querem submissão geopolítica e também econômica; querem que o Brasil continue sendo um exportador de produtos primários e uma estação de engorda dos capitais financeiros. 

Ao longo de sua história, o Brasil sempre foi marcado pela desigualdade, por uma democracia oligárquica e pela dependência externa. Mas houve momentos em que um setor da classe dominante buscou apoio no povo para desenvolver o país, ainda que de forma extremamente limitada e desigual. 

Hoje, no Brasil de 2025, não há absolutamente nada que se possa esperar de nenhum setor classe dominante. 

Apenas as classes trabalhadoras são capazes de construir um futuro diferente para nosso país. 

Uma peça central na construção desse futuro é a reindustrialização nacional, que só acontecerá se houver um imenso esforço do Estado brasileiro nesse sentido. Esse esforço inclui não apenas investimentos públicos em larga escala na produção industrial estrito senso, mas também inclui medidas em áreas como reforma agrária e soberania alimentar, transporte e mobilidade, ciência e tecnologia, habitação e reforma urbana, educação e saúde.

É preciso combater os que privatizam o Estado, sob as mais variadas formas, inclusive através do financiamento do BNDES às PPP de governos estaduais como o de São Paulo.

É preciso, em particular, desprivatizar o SUS, aplicando os recursos públicos nas instituições públicas e apenas eventualmente e de forma emergencial na compra de serviços privados. É preciso implantar uma Carreira-SUS Única Nacional Multiprofissional e Interfederativa, conforme aprovaram os delegados e delegadas na 17ª Conferência Nacional de Saúde e na 4ª Conferência Nacional de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde.

É necessário suspender definitivamente a militarização das escolas, que impõe um modelo autoritário e hierárquico que vai na contramão dos princípios de uma escola libertadora e democrática.

É preciso, também, mudar os rumos do Ministério da Educação, derrotando a política privatista e de terceirização capitaneada pelo grupo “Todos pela educação”. Devemos implantar políticas estruturais que garantam condições de trabalho, jornadas dignas e valorização dos profissionais da educação com Piso e Carreira estruturadas. Não é suficiente adotar medidas paliativas tais como o “pé de meia” para estudantes do ensino médio, a bolsa para jovens que queiram ingressar nos cursos de licenciatura, as bolsas para professores assumirem escolas de difícil acesso, o desconto para hotéis e cartão de crédito. 

O grande desafio do PT é criar as condições políticas necessárias para fazer as mudanças estratégicas previstas no slogan “reconstrução e transformação”, que depois da vitória de 2022 foi substituído por “união e reconstrução”. 

No passado, fazer transformação implicava em derrotar a direita neoliberal tradicional, cujo principal símbolo partidário era o PSDB e cujo principal instrumento era a Rede Globo. 

Hoje, além de enfrentar os neoliberais tradicionais, temos que enfrentar também os neofascistas, que têm demonstrado capacidade de atrair importantes setores da classe trabalhadora. 

No enfrentamento desta dupla oposição está nossa principal dificuldade política. Se em nome de derrotar os neofascistas seguirmos nos aliando e fazendo concessões à direita neoliberal tradicional, há pelo menos dois desfechos possíveis: no curto prazo, podemos seguir vencendo eleições presidenciais, mas nossos governos serão programaticamente limitados; já no médio prazo, seremos inapelavelmente derrotados no que diz respeito ao que realmente importa, que é fazer mudanças estruturais em nosso país. 

Esse é um dos motivos pelos quais o nosso Partido não pode nunca se limitar a dizer e fazer apenas aquilo que é momentaneamente possível para nossos governos. 

Por isso, também, nosso Partido não pode se tornar prisioneiro dos limites da institucionalidade. 

É preciso que nosso Partido crie as condições para ir além do que permite a atual correlação de forças no legislativo e no judiciário. 

Igualmente por isso, nosso Partido tem que concentrar suas principais energias no trabalho de reconexão com a classe trabalhadora, organizando e conscientizando melhor os que seguem conosco, buscando os setores que se distanciaram de nós e também os que nunca estiveram conosco, os que estão sob influência do desalento, da direita tradicional e da extrema-direita. 

Mas para fazer tudo isso, o PT precisa de pelo menos duas coisas: disposição de enfrentar, polarizar e derrotar nossos inimigos; e disposição de reorganizar profundamente nosso próprio Partido. 

O PT deve voltar a balançar nossas históricas bandeiras. 

O PT foi criado para lutar pelos interesses imediatos e históricos da classe trabalhadora. Um partido anticapitalista, socialista, defensor da mais profunda democracia, disposto a enfrentar e derrotar a classe dominante. 

Nos tempos atuais, isso significa disposição para enfrentar e derrotar o capital financeiro, o agronegócio, as mineradoras e o capital estrangeiro imperialista. 

Significa, também, disposição para enfrentar e derrotar a extrema-direita neofascista e a direita tradicional, entre outros motivos porque não haverá democracia verdadeira em nosso país enquanto essas duas forças políticas mantiverem sob sua direção a maior parte do sistema judiciário, dos parlamentos, dos governos, dos meios de comunicação e das empresas. 

Significa, ainda, reafirmar que nosso combate contra o racismo, o machismo, a misoginia, a lgbtfobia e contra todas as formas de discriminação e preconceito é parte integrante e inseparável da luta para libertar a classe trabalhadora das influências que recebe da classe dominante e exploradora. 

A direção partidária, em todos os níveis, precisa ser ocupada por militantes dispostos a reafirmar o PT como partido anticapitalista, socialista, radicalmente democrático. E isso inclui um esforço permanente de estudo da realidade brasileira, especialmente das classes e da luta de classes, contribuindo para que o PT lidere as forças democráticas e populares na luta pela revolução brasileira. Embora insuficientes, as resoluções do V Encontro (1987) e do 6º Congresso (2017) podem contribuir nesse sentido.

O PT deve voltar a ser um partido que faz política o tempo todo, não apenas em anos pares, não apenas em épocas eleitorais, não apenas pelos meios institucionais. 

Os petistas estão por toda parte: estamos presentes nos bairros, estamos nos locais de trabalho, estamos nas escolas, estamos nos espaços e momentos de cultura e lazer, estamos nos sindicatos e nos movimentos sociais. 

Mas nem sempre a direção do Partido está onde os petistas estão. 

Muitas vezes a direção não existe, não funciona, está dominada por interesses estritamente eleitorais, as vezes interesses que não são de todo o PT, mas apenas de um determinado governante ou parlamentar. Sem falar dos casos em que nosso Partido foi infiltrado pela direita. 

O Partido, nossas direções, precisa participar ativamente, cotidianamente, da organização e da luta do povo brasileiro. Só assim vamos reconstruir nossa presença junto à classe trabalhadora, junto às mulheres, aos negros e negras, aos moradores das periferias, na juventude trabalhadora.

Precisamos tomar de volta os espaços que nas últimas décadas foram ocupados pelo crime, pelo fundamentalismo, pela extrema-direita.

Precisamos combater e derrotar o feminicídio, a violência contra a população LGBTQIAPN+, o genocídio contra a juventude negra.

Precisamos derrotar o movimento chamado "invasão zero", que pretende criminalizar as pessoas que participam de ocupações. Um PL neste sentido já foi aprovado na Câmara Federal, em diversas assembleias legislativas estaduais, além de apresentado em alguns municípios. A intenção destes projetos de lei é suspender benefícios sociais de pessoas que participem de ocupações, impedindo que sejam beneficiadas por projetos habitacionais, participem de concursos públicos e assumam cargos públicos. Também foi aprovado na CCJ da Câmara projeto que permite que proprietários façam despejos sem ordem judicial.

Precisamos apoiar as lutas dos povos originários, por demarcação dos territórios indígenas e pela garantia de seus direitos. A aprovação do chamado marco temporal previsto pela PEC 48 abrirá caminho para que direitos constitucionais, conquistados pelos povos indígenas, sejam perdidos. Os quilombolas também estão na mira da extrema-direita.

Precisamos melhorar imediatamente as condições de vida das classes trabalhadoras, entre outras formas implementando as medidas previstas no Programa de Reconstrução e Transformação. Por exemplo, a tarifa zero, mas através de empresas públicas municipais de transporte, visando não apenas um serviço eficiente e de qualidade ao povo, mas também desmontar as máfias que controlam o transporte no Brasil afora.

Precisamos apoiar as lutas contra a privatização da água, da energia, do saneamento de resíduos sólidos e do transporte. É preciso, por exemplo, apoiar os que lutam contra a privatização da empresa pública de transportes do Rio Grande do Sul: o governo Lula deve retirar a Trensurb do Plano Nacional de Desestatização.

Precisamos apoiar e participar da luta pela redução da jornada de trabalho e pela aprovação da PEC que põe fim a escala 6×1, com manutenção dos salários e empregos;

Precisamos elaborar uma política independente e soberana de dados e de inteligência artificial. Nas mãos dos grandes capitalistas, os avanços tecnológicos servem não para diminuir as jornadas, mas sim para destruir postos de trabalho e aumentar o exército de reserva, precarizando as condições de vida do povo. Nesse sentido, é fundamental ir muito além das tímidas disposições do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, lançado em 2024 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Em paralelo, a militância social e partidária deve se apropriar desses instrumentos, para usá-los em favor da emancipação da classe.

Precisamos apoiar e participar da luta por uma reforma tributária progressiva, que faça os ricos pagaram impostos.

Precisamos apoiar e participar da organização da Marcha da Classe Trabalhadora em Abril e do Primeiro de Maio de 2025. Essas e outras atividades devem ter menos discursos e mais iniciativas político-culturais.

Precisamos apoiar e participar das manifestações em favor da prisão preventiva e julgamento de todos os golpistas, a começar por Jair Bolsonaro. 

Sem Anistia para golpistas! Contra a mobilização da extrema-direita, a exemplo da convocada para o dia 16 de março, é preciso mobilizar a esquerda, os setores democráticos e progressistas.

Nossa direção, em todos os níveis, precisa ser ocupada por militantes dispostos a reafirmar o PT como o partido da luta, da mobilização e da organização cotidiana do povo. 

É preciso reorganizar e redemocratizar o Partido. 

O PT precisa ter mais militantes e precisa existir em todos os municípios brasileiros. Existir não de forma cartorial, mas existir de verdade, ou seja, com sede, com atividades permanentes, com instâncias que debatam política, com núcleos de base, com atividades de formação política, com comunicação periódica que chegue em cada filiado e simpatizante. E com controle efetivamente democrático sobre as finanças partidárias, o que inclui interromper o longo ciclo (que vem desde 1995) no qual a tesouraria nacional do Partido vem sendo controlada por uma única tendência.

É preciso recuperar a noção de militância e assumir o caráter estratégico da nossa presença nos territórios.

O PT já foi mais organizado. Hoje assistimos a submissão de inúmeros diretórios partidários aos interesses eleitorais deste ou daquele parlamentar ou governante. Isso deve acabar, senão o PT algum dia poderá se converter em uma espécie de MDB de esquerda. 

Nossa direção, em todos os níveis, precisa ser ocupada por militantes dispostos a reafirmar o PT como partido militante e democrático. 

O PT deve voltar a ter direção coletiva. 

Em todo o país, há dirigentes que se comportam como donos do Partido. Às vezes é um membro do Diretório, as vezes é um parlamentar, as vezes é um governante. 

Há casos bizarros, em que decisões transcendentais são tomadas fora das instâncias e o argumento utilizado é “fulano mandou”. 

Assim como há vários relatos de assédio contra filiados que ocupam cargos de livre provimento e/ou que recebem algum tipo de gratificação. O assédio visa que estes filiados apoiem esta ou aquela chapa/candidatura. Não se pode naturalizar este tipo de chantagem, seja nos municípios, seja nos estados governados pelo Partido, como é o caso da Bahia.

Ninguém é dono do PT. Ninguém é maior do que o PT. Ninguém pode tomar decisões individuais que atropelam a democracia e os estatutos partidários. 

Nossa direção, em todos os níveis, precisa ser ocupada por militantes comprometidos com o método da direção coletiva. 

O PT deve reforçar sua dimensão internacionalista e antimperialista, apoiando a Frente Polisário e a independência do Saara Ocidental contra a monarquia marroquina, ampliando a solidariedade ao povo palestino e intensificando a denúncia do genocídio cometido pelo Estado de Israel, defendendo o cessar-fogo em Gaza, reafirmando a “Palestina livre do rio ao mar”. O PT precisa organizar a mobilização de sua militância nos atos em defesa da Palestina. Manifestamos nossa solidariedade aos militantes anti-imperialistas e anti-sionistas que estão sendo perseguidos em diversos países, a exemplo de Mahmoud Khalil, ativista da causa Palestina nos Estados Unidos, que foi ilegalmente detido em março de 2025 e ameaçado com deportação pelo governo Trump.

Prosseguindo na luta pela integração regional latino-americana e caribenha, pelo fim do bloqueio contra Cuba, pelo reconhecimento do governo venezuelano por parte do Brasil, pelo fortalecimento do Foro de São Paulo. 

Defendendo a retomada da política externa altiva e ativa, com ênfase no chamado Sul Global, na África, nos BRICS e nas relações com a República Popular da China, na defesa de uma ordem mundial de paz e desenvolvimento. 

Transformando a COP 30, que vai se reunir em Belém do Pará no ano de 2025, numa oportunidade para massificar o debate sobre a necessidade de políticas imediatas, estruturais e radicais de enfrentamento à catástrofe climática, catástrofe que tem relação direta com o capitalismo e, no caso do Brasil, relação direta com as políticas que beneficiam o agronegócio, as mineradoras, o extrativismo predatório, a especulação imobiliária e financeira. Devemos apoiar e participar das lutas das comunidades atingidas pela implementação da transição energética, frequentemente realizada sem respeito aos direitos das populações atingidas.

O PT deve voltar a pensar no longo prazo. 

Nosso objetivo é mudar o mundo, mudar a América Latina, mudar a sociedade brasileira, construir o socialismo, uma sociedade sem explorados nem exploradores, sem opressão nem dominação. 

Tudo o que fazemos, cada tarefa específica e particular, precisa ter em perspectiva estes objetivos de longo prazo. Isso vale, inclusive, para a disputa de eleições e para a condução de mandatos legislativos e executivos. 

As eleições não são um fim em si. Aliás, quanto mais transformamos as eleições num objetivo superior a todos os outros, mais teremos dificuldades para vencer eleições. 

Pensar no longo prazo é, também, saber que é preciso ganhar as eleições presidenciais de 2026 e de 2030, mas ganhar de forma tal que seja possível um governo mais transformador e mais veloz nas transformações. 

A questão central é compreender que a correlação de forças não existe para ser temida, nem tampouco para nos paralisar. A correlação de forças deve ser constatada, mas com o objetivo de ser transformada a nosso favor. 

Nossa direção, em todos os níveis, precisa ser ocupada por militantes dispostos a pensar nos objetivos de longo prazo do Partido. 

O PT deve dirigir os governos e mandatos parlamentares que conquistamos. 

Sem o PT, não haveria mandatos parlamentares, não haveria prefeituras, não haveria governos estaduais nem governo federal dirigidos por petistas. 

Entretanto, na maioria dos casos, o PT não tem influência nos mandatos executivos e legislativos que conquista. 

O Partido é chamado a apoiar, mas nem sempre é chamado a participar e quase nunca é chamado a dirigir. 

Precisamos mudar radicalmente esta postura subalterna e submissa, que tem causado enormes danos ao Partido, inclusive do ponto de vista eleitoral. 

No caso do governo federal, por exemplo, é fundamental que o Partido tenha uma postura altiva e ativa, no sentido de apoiar e defender, mas também de criticar e pressionar o governo. 

A guerra comercial desencadeada pelo governo Trump, sua perseguição aos migrantes indocumentados e seu apoio à extrema-direita mundo afora - dos neonazistas alemãs aos segregacionistas sulafricanos, dos sionistas de Israel aos cavernícolas brasileiros - constitui o pano de fundo da ofensiva da oposição contra o governo Lula e contra o PT. 

Esta ofensiva inclui diversas ações, entre as quais citamos: campanha permanente do capital financeiro em favor de juros altos e cortes de gastos, inflação dos preços, divulgação de fake news, adiamento da aprovação e sequestro do orçamento público em favor do Centrão, implantação inconstitucional de um parlamentarismo de fato, decisões de juízes bolsonaristas em favor de terroristas de extrema-direita, pressão pela concessão de Anistia aos golpistas e ao ex-presidente cavernícola e genocida, além de lobby pela nomeação de ministros de direita para compor o governo Lula. 

Até agora, a ofensiva da oposição teve êxito, como ficou demonstrado por diversas pesquisas publicadas nos meses de janeiro e fevereiro. 

Em certo sentido, é uma situação que recorda aspectos do que já vivemos em 2005 e 2015. Se não houver uma rápida reação, a situação pode piorar. 

Existem, no PT e no governo Lula, diagnósticos diferentes e às vezes antagônicos acerca do que está ocorrendo. Logo, também há muitas divergências sobre o que fazer. 

Devemos reconhecer, sem tergiversação de nenhum tipo, que a situação é muito grave e que exige medidas imediatas. 

O presidente Lula deve instituir um “conselho de alto nível” para contribuir na condução política do governo. 

É preciso alterar o atual curso da política econômica, garantindo que tenhamos mais e não menos crescimento em 2025-2026, mais e não menos investimentos, mais e não menos políticas sociais, mais e não menos industrialização. 

Para isso é preciso começar libertando o Ministério da Fazenda da lógica do "ajuste fiscal permanente", assim como é preciso exigir que a nova direção do Banco Central atue a favor do desenvolvimento do Brasil e não seja cúmplice do setor financeiro. 

O único “ajuste fiscal” aceitável é aquele feito com base na redução dos subsídios ao grande empresariado e do serviço da dívida pública. 

Nosso governo deve ampliar os direitos sociais, como é o caso das políticas de salário-mínimo, os benefícios de prestação continuada, o reajuste de aposentadorias e pensões, os pisos constitucionais de saúde e educação. 

Precisamos de um Estado forte no atendimento às necessidades populares: mais e melhores universidades; mais e melhores hospitais; mais e melhores institutos de pesquisas, mais e melhores serviços públicos. Motivos pelos quais consideramos inaceitável que nosso governo queira promover uma “reforma administrativa” defendida abertamente pela grande mídia e pelo mercado financeiro . 

Também no espírito de proteger e ampliar os direitos do povo, é preciso elaborar e implementar imediatamente um conjunto de medidas visando controlar a inflação dos preços social e politicamente sensíveis, como combustível, gás de cozinha e alimentos. 

Entre as medidas necessárias, destacamos a ampliação imediata dos recursos para a agricultura familiar, para os estoques reguladores, para as redes populares e cooperativas de distribuição de alimentos, bem como para a reforma agrária. 

É preciso unificar o governo no enfrentamento da guerra deflagrada contra nós pelo presidente dos Estados Unidos, abandonando a postura de minimização, apaziguamento e conciliação publicizadas por diversos ministros e setores empresariais. 

A cúpula dos BRICS e a COP 30 devem ser vistas como batalhas contra a ofensiva imperialista de Trump. 

Da mesma forma deve ser vista a regulação das “redes sociais” alinhadas com interesses estrangeiros: uma batalha em defesa de nossa soberania nacional e das nossas liberdades democráticas. 

O alinhamento explícito das big techs com a extrema-direita demonstra que não se pode depender das redes sociais atualmente hegemônicas como ponte para a comunicação do partido com a classe trabalhadora. É preciso fortalecer os espaços próprios de comunicação e organização da classe trabalhadora, bem como redes sob controle nacional e público.

É preciso declarar guerra ao “parlamentarismo de fato”, que não pode continuar sendo naturalizado nem tratado como um mal supostamente necessário e inevitável. 

Neste mesmo espírito, a reforma ministerial deve apontar sempre para a esquerda, nunca para a direita. 

É preciso derrotar os que defendem a Anistia para os golpistas. Devemos fortalecer a denúncia do golpe, pressionando pela prisão de Bolsonaro e dos generais golpistas. 

Para impedir a impunidade dos crimes do presente, é também preciso impedir a impunidade dos crimes cometidos no passado. O Supremo Tribunal Federal deve revisar a interpretação da lei de anistia, para permitir o julgamento e condenação de militares que assassinaram, sequestraram, ocultaram cadáveres, cometeram violência sexual, dentre outros crimes contra a humanidade. 

Na mesma linha de impedir a impunidade, o atual ministro da Defesa deve ser demitido e no seu lugar deve ser nomeado alguém real e totalmente comprometido com a democracia, com a submissão dos militares à Constituição, com a punição de todos os golpistas, com a reforma de alto a baixo das forças armadas e do aparato de Defesa, Inteligência e Segurança Pública.

Para isto, é preciso lutar pela convocação de Conferências Nacionais Temáticas do Sistema de Defesa e pela convocação de uma Conferência Nacional de Segurança Pública. É preciso, ainda, acompanhar o debate no Supremo Tribunal Federal sobre as Guardas Municipais, trabalhando para impedir a ampliação da violência do Estado contra os setores populares. Reiteramos não ser aceitável que a Bahia, um estado governado pelo PT há várias gestões, seja o estado campeão da violência policial militar.

É preciso que a Marcha do final de abril e os atos de Primeiro de Maio de 2025 reúnam centenas de milhares em manifestações cuja convocação deve contar com o apoio oficial do presidente Lula, a exemplo do que fez recentemente a presidenta mexicana, convocando uma grande manifestação no Zocalo. 

Propomos, além disso, a criação imediata de uma mesa permanente de diálogo com todo o campo democrático e popular, as Frentes, os sindicatos, os movimentos, os partidos, as personalidades comprometidas com as liberdades democráticas, a igualdade e a soberania. 

É preciso derrotar a extrema-direita e os neoliberais, derrotar nos planos ideológico, político e cultural. 

Isso passa por medidas práticas no plano da publicidade do governo, passa por implementar o que a Constituição prevê acerca dos meios de comunicação (TV e rádio especialmente). 

Exige assumir com todo o vigor a defesa dos valores de esquerda, nas questões da integração regional, da soberania nacional, do bem-estar social, das liberdades democráticas, da industrialização, do desenvolvimento e do socialismo. 

Só pela esquerda se derrota a direita. Contra uma direita obscurantista, articulada nacional e internacionalmente, é preciso opor uma esquerda capaz de mobilizar as artes, a cultura, a alegria, a paixão e o tesão.

É preciso ampliar o horizonte de expectativas da classe trabalhadora. Amplos setores da classe trabalhadora devem voltar a acreditar que é possível derrotar o capitalismo e construir o socialismo. 

Não basta fazer "mais entregas", não basta "politizar mais as entregas", nem tampouco basta "comunicar mais e melhor". É preciso mudar o rumo, é preciso mudar a política. 

No governo Lula, 1, mudar a política econômica organizada pela meta de "ampliar o superávit primário" foi o que ajudou a nos salvar da crise de 2005 e, principalmente, nos permitiu construir um segundo mandato Lula melhor que o primeiro. 

Em sentido oposto, foi a insistência num rumo errado - especialmente no ajuste ortodoxo implementando por Joaquim Levy - que nos derrotou em 2015, abrindo caminho depois para o golpe e para o governo de extrema-direita. 

Hoje, não podemos repetir o erro de 2015. 

É preciso mudar já os rumos do governo e do Partido, adotando mais e melhores medidas que transformem o Brasil, com destaque para a ampliação do bem-estar social, para a reforma agrária, a industrialização, o desenvolvimento e a integração latinoamericana e caribenha. 

Em 2005, um dos motivos pelos quais reagimos positiva e exitosamente foi a renovação na direção do Partido, graças a eleição direta das direções partidárias, ocorrida exatamente naquele ano. 

Hoje, vinte anos depois, é o que devemos buscar fazer no PED: um processo de grande debate político e intensa mobilização, que mude os rumos do Partido, ajude a mudar os rumos do governo, contribuindo para mudar os rumos do Brasil. 

Lutamos por um Brasil soberano e integrado à região. 

Um Brasil igualitário, com alto nível de bem-estar social. 

Um Brasil democrático, com liberdades reais, livre da pressão do dinheiro e da riqueza controlados por uma minoria. 

Um Brasil desenvolvido, com soberania alimentar, energética e produtiva, com alto nível de educação, ciência e tecnologia, tudo isso nos marcos da inescapável transição ecológica. 

Um Brasil com estas características é um país onde o poder está nas mãos da maioria do povo. 

Um país assim é um Brasil socialista. 

Essas são as posições que defendemos há bastante tempo e que nossa chapa e candidatura presidencial nacional apresentarão durante o processo de eleição direta das direções partidárias. 

Em tempos de crise, neofascismo e guerras, a esperança segue vermelha, anti-capitalista e socialista. 

Viva o Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadores! 

Viva a luta da classe trabalhadora! 

Viva o socialismo!

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Moção de repúdio à violência policial na Calourada de Santa Maria (RS)

A militância petista reunida no 9° Congresso da tendência Articulação de Esquerda, em São Paulo, vem a público expressar seu profundo repúdio a mais uma atuação truculenta e desproporcional da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, ao passo que nos solidarizamos com as e os estudantes agredidos na ocasião, em especial ao companheiro Luiz Boneti e à companheira Camille Teles, militantes da JPT, que ao questionarem a abordagem violenta, foram tratados de forma violenta. 

O episódio ocorreu na noite de 12 de março, durante a festa da Calourada, ocorrida na Gare da Estação Férrea, em Santa Maria. Após um princípio de confusão, policiais militares intervieram utilizando spray de pimenta, que atingiu as pessoas no entorno, mesmo que estas não tivessem qualquer envolvimento na confusão. Isso levou mais de 40 pessoas à UPA para atendimento.

Diante disso, os dois militantes da JPT que também foram atingidos pelo spray – um jovem negro e uma mulher branca – dirigiram-se aos policiais questionando o porquê de tamanha violência na abordagem. Em resposta, ambos foram atingidos com spray disparado diretamente sobre seus rostos, sendo que a companheira Camille foi levada à força por policiais homens até a viatura, enquanto que o companheiro Luiz foi agredido com chutes, socos e golpes de cassetete, que deixaram hematomas visíveis. 

Ele teve sua camiseta rasgada, e depois das agressões foi algemado e jogado ao chão, num ato que combinou o uso de violência e de humilhação pública, tratamento que infelizmente é recorrente contra a juventude negra no Brasil, principalmente por parte das polícias militares. 

Depois disso, ambos foram levados até o CIOSP, onde ficaram por mais de 2 horas e foram tratados com desdém e humilhação por parte tanto dos policiais quanto do delegado de plantão, contrariando qualquer conduta ética exigida de servidores públicos. 

Luiz Boneti, que também é coordenador do Movimento Negro Unificado (MNU), foi ameaçado com voz de prisão por simplesmente perguntar qual era o nome do delegado, intento que só não se concretizou devido à intervenção de uma vereadora do PT, que o confrontou lembrando-lhe que era servidor público. 

Violência, autoritarismo e covardia são as palavras que melhor definem os acontecimentos deste 12 de março. Quando se trata da juventude negra, o roteiro é repetido de forma cruel e sistemática. Jovens negros são tratados pelos órgãos repressivos como cidadãos de segunda classe, alvos de violência desmedida, privados de direitos básicos e submetidos a um tratamento que ignora a lei e a dignidade humana. Essa realidade expõe uma estrutura de opressão que precisa ser urgentemente combatida e transformada.

Não negamos a importância de garantir a segurança em espaços públicos e eventos desse tipo. No entanto, apontamos que não será com violência policial que a segurança será alcançada, muito pelo contrário. Não à toa, estudos apontam que a Polícia Militar do Brasil está entre uma das que mais mata, mas também entre as que mais morrem. Por isso os movimentos negros e de juventude vêm há décadas apontando para a necessidade urgente de uma reformulação e desmilitarização das polícias no país. 

A militância da tendência Articulação de Esquerda reitera sua solidariedade às e aos estudantes violentados. Reforçamos que a juventude, especialmente jovens negros que com tanta luta ocupam a Universidade Federal de Santa Maria e estão se formando para melhorar nossas vidas e do nosso povo, não podem e nem devem ser intimidados. Essa juventude, com nosso apoio ativo, continuará lutando pelo direito da juventude negra ao lazer, ao estudo e à vida, e conclamamos todas e todos a somarem suas vozes em denúncia e apoio a essa causa!

São Paulo, 15 de março de 2025.

As delegações presentes ao 9º Congresso nacional da tendência petista Articulação de Esquerda

Texto ainda em processo de revisão