domingo, 27 de julho de 2025

O PCO mais uma vez defende Bolsonaro

A data precisão não lembro.

Talvez tenha sido aqui: O PCO, aliado objetivo de Bolsonaro | Página 13

Mas lembro a indignada resposta de um camarada, que disse entre outras coisas que eu estava exagerando.

Recomendo a este camarada e a outros que ainda tenham dúvida a respeito, que leiam o texto disponível no link abaixo.

Valter Pomar se ajoelha e suplica: imperialismo, nos salve! - Diário Causa Operária

Vou pular a parte que me diz respeito, em parte porque ser atacado pelo PCO é bom sinal, em parte porque o artigo foi - na melhor das hipóteses - escrito por alguém que ignora completamente o que eu penso.

Me concentro apenas no seguinte: mesmo a essa altura do campeonato, o PCO segue defendendo o Bolsonaro.

Para quem não tiver paciência de abrir o link ou ler a íntegra do artigo do PCO, que reproduzo ao final, cito a seguir dois trechos do texto publicado neste domingo 27 de julho.

(...) A razão para alguém ir para a cadeia em um regime democrático seria ter cometido alguma infração tipificada pela Lei e que suscite tal pena. (...) Neste sentido, não adianta falar em “prontuário” de Bolsonaro. Quais foram os crimes? Onde estão as provas? A defesa teve o direito a se manifestar? Houve um julgamento? Para o bárbaro Pomar, nada disso tem importância — o que importa é a sua opinião. O que ele não percebeu é que ele não é juiz, e que a opinião dos juízes, em geral, são mais reacionárias que qualquer coisa que passe pela cabeça do ex-presidente (....)

Abaixo, outro extrato:

"(...) Politicamente, de fato, pode-se julgar Bolsonaro por uma série de atentados contra a soberania nacional — um dos maiores deles é a venda da Eletrobrás. Mas e juridicamente, será que podemos? (...)".

Noutros textos, disponíveis neste blog, já comentei a mixórdia política e teórica que "embasa" os argumentos do PCO. 

Aqui me limito a reiterar o seguinte: a cúpula do PCO está controlada por aliados do cavernícola. Quem dá espaço para esta gente, seja a que pretexto for, está ajudando a extrema direita.

sábado, 26 de julho de 2025

Quem redigiu esta nota?

Notas diplomáticas geralmente são o “ó”.

Mas às vezes se superam.

Este é o caso da “Nota à imprensa” 336, divulgada no dia 23 de julho pelo Itamaraty.

O título da nota é “Violações Sistemáticas de Direitos Humanos e Humanitário no Estado da Palestina”.

O título não diz quem pratica as “violações sistemáticas”.

Aliás, a nota inteira não usa uma única vez a palavra “Israel”!!

É um caso bizarro de genocídio praticado por criminoso implícito e não nomeado.

Confiram aqui: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/violacoes-sistematicas-de-direitos-humanos-e-humanitario-no-estado-da-palestina

Transcrevo a nota ao final.

Mas a passagem mais impressionante da nota é a seguinte: “O Brasil considera que já não há espaço para ambiguidade moral nem omissão política”.

Ou seja: antes havia espaço!?!?

E agora “já não há”!

O autor desta nota merece um prêmio! 

Afinal, em uma nota cujo conteúdo é extremamente positivo, o redator conseguiu fazer um impressionante malabarismo. Que de nada adiantou: pois o Estado terrorista e sionista de Israel está babando de raiva contra o que a nota diz!

Confiram aqui: 

O governo brasileiro expressa profunda indignação diante dos recorrentes episódios de violência contra a população civil no Estado da Palestina, não se restringindo à Faixa de Gaza e estendendo-se à Cisjordânia.

A comunidade internacional segue testemunhando, de forma rotineira, graves violações de Direitos Humanos e Humanitário: ataques à infraestrutura civil, inclusive a sítios religiosos, como à paróquia católica em Gaza, e às instalações das Nações Unidas, como à Organização Mundial da Saúde; violência indiscriminada e vandalismo por colonos extremistas na Cisjordânia, como o incêndio às ruínas da antiga Igreja de São Jorge e ao cemitério bizantino em Taybeh; massacres de civis, a maior parte dos quais mulheres e crianças, que se tornaram cotidianos durante a entrega de ajuda humanitária em Gaza; e a utilização despudorada da fome como arma de guerra.

A esses horrores somam-se contínuas violações do Direito Internacional, como a anexação de territórios pela força e a expansão de assentamentos ilegais.

A comunidade internacional não pode permanecer inerte diante das atrocidades em curso.

O Brasil considera que já não há espaço para ambiguidade moral nem omissão política. A impunidade mina a legalidade internacional e compromete a credibilidade do sistema multilateral.

Finalmente, o governo brasileiro anuncia que está em fase final para submissão de intervenção formal no processo em curso na Corte Internacional de Justiça, movido pela África do Sul com base na Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. A decisão fundamenta-se no dever dos Estados de cumprir com suas obrigações de Direito Internacional e Direito Internacional Humanitário frente à plausibilidade de que os direitos dos palestinos de proteção contra atos de genocídio estejam sendo irreversivelmente prejudicados, conforme conclusão da Corte Internacional de Justiça, em medidas cautelares anunciadas em 2024.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

As notícias da morte do capitalismo são um pouco exageradas: sobre a entrevista de Varoufakis para a Focus

Muito boa a entrevista de Yanis Varoufakis, publicada pela "última" edição da revista Focus. A primeira vez que ouvi falar de Varoufakis foi por conta de sua atuação como ministro do governo grego. Como ele e muitos outros, dei um crédito imerecido ao Tsipras. E achei muito correto que Varoufakis tenha pedido demissão do governo grego, quando este se dobrou à Troika. Desde então, li vários de seus livros e acompanho seus posicionamentos, na maioria das vezes com simpatia e concordância. Por exemplo, quando ele diz que “uma coisa é ter austeridade sendo imposta por Bolsonaro, outra completamente diferente é tê-la imposta pela esquerda, quando a esquerda a impõe, a esquerda morre, ela comete suicídio”.

Isto posto, considero que Varoufakis está errado ao afirmar, na entrevista à Focus, que “o capital foi tão triunfante que matou o capitalismo”. Evidentemente não se deve julgar um pensador ou uma teoria com base numa entrevista. Nesse sentido, recomendo a quem ainda não leu, que leia o livro Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo. Mas como seguramente a maioria lerá apenas a entrevista, é com base no que é dito nela que vou fazer a crítica a seguir.

Meu ponto de partida é uma afirmação feita por ele, acerca da derrota que sofremos na Grécia: “Somos derrotados por causa das nossas próprias falhas”. Acrescento que entre essas falhas que nos derrotam, estão as teóricas. Entretanto, a força política de uma ideia nem sempre coincide com sua correção científica. Também por isso, discordo da afirmação que faz Varoufakis, segundo o qual os acadêmicos que estão trabalhando nas grandes empresas e instituições do sistema seriam “profundamente incompetentes”: “se você os analisar como economistas, eles eram patéticos, não entendiam economia básica”. Não concordo, porque a “competência” que se espera desta gente é de outro tipo. É a de servir aos interesses do Capital. E isso eles fazem muito bem, inclusive aqueles que na academia se posicionam à esquerda, mas nos governos e bancos fazem o serviço sujo.

Já a competência teórica que se espera dos intelectuais da classe trabalhadora é a capacidade de orientar nossa luta. Como aliás diz o próprio Varoufakis, no limite não se trata de “economia”, no sentido de teoria, mas sim de “força bruta”. Por isso, mesmo concordando que não devemos superestimar o inimigo, também sou contra subestimar “as habilidades do inimigo, suas competências, compreensão, destrezas tecnocráticas”. Eles estão aí nos dominando há muito tempo e já nos derrotaram muitas vezes. E não acho que subestimar o lado de lá ajude a criar esperanças do lado de cá.

Feito este preâmbulo, vou ao ponto citado no início deste texto: a ideia de que o “tecnofeudalismo” já “matou o Capitalismo”.

Varoufakis diz que essa afirmação “irritou muitos dos meus [dele] camaradas na tradição marxista”, embora ele próprio acredite que está fazendo uma “análise política marxista”. Sobre esta discussão meio teológica, acerca de quem é ou não marxista, prefiro não opinar. Meu foco é algo mais concreto, a saber: será mesmo verdade que “o capital foi tão triunfante que matou o capitalismo, e o que temos agora é pior que o capitalismo, é baseado no capital, e é baseado no triunfo completo do capitalismo. Mas não é mais capitalismo (...)”?

Que o capitalismo de hoje é diferente do capitalismo do século 18, 19 ou 20, acho que ninguém duvida. A questão é saber se deixou ou não de ser capitalismo.

Na minha opinião, a essência do capitalismo está no assalariamento, ou seja, numa forma específica através da qual os proprietários dos meios de produção exploram os produtores. E o assalariamento segue sendo, neste ano santo de 2025, a forma predominante de exploração. Fato comprovado, aliás, pela pandemia, quando se comprovou o quanto o trabalho morto depende do trabalho vivo. Se não dependesse, eles não teriam feito tanto esforço para que os trabalhadores seguissem produzindo, mesmo com tamanho risco de contaminação e morte.

A predominância do assalariamento não se altera pelo fato de que, hoje, temos máquinas que “estão conectadas diretamente ao nosso cérebro, à nossa própria alma”. Acontece que, da mesma forma que o sistema financeiro, o que Varoufakis chama de tecnofeudalismo não sobrevive sem a base material fornecida pelo assalariamento.

Claro que Varoufakis tem razão ao apontar uma tendência, que aliás já havia sido comentada por Fernando Haddad num livrinho sobre o socialismo que o atual ministro escreveu no século passado: ao chegar no seu ocaso, o capitalismo vai exibindo alguns traços que existiam na sua juventude, exatamente quando ele ainda era obrigado a conviver com o feudalismo. O crescimento da “renda” e o “parasitismo” são sintomas disso. Nesse sentido é ótima a imagem segundo a qual “as plataformas digitais  (...) vivem na nuvem e são como feudos. Elas não produzem nada, exceto reunir produtores e consumidores, para que o dono desse feudo na nuvem possa extrair uma renda, que é como a renda da terra no feudalismo, mas agora é uma renda da nuvem baseada em capital, nessa forma de capital, que eu chamo de capital na nuvem”.

Deixo anotada uma questão – o papel da “renda da terra” no capitalismo, que nunca foi algo secundário – e peço a atenção para o seguinte: mesmo que fosse 100% verdade tudo que está entre aspas no parágrafo anterior, com base no que podemos dizer que já não se trata mais de “capitalismo”?

Nesse ponto, Varoufakis usa um argumento curiosíssimo, que devido a sua importância reproduzo integralmente a seguir: “Quando estamos nesse mundo, isso não é mais capitalismo, é uma espécie de, chamo eu, de tecnofeudalismo. Agora, algumas pessoas dizem: ‘Ah, qual é, ainda é capitalismo, Yanis, porque depende do capital.’ Ok, tudo bem. Mas eu também digo a eles: se isso fosse no ano 1800, em Londres, e estivéssemos discutindo em que mundo vivemos, seria feudalismo ou capitalismo? As pessoas diriam: ‘Ah, qual é, é feudalismo, onde quer que você olhe.’ No século XVIII, você veria senhores feudais, cavaleiros, condes e barões, e sim, claro, mas agora sabemos que havia uma grande transformação ocorrendo. O poder estava cada vez mais mudando dos donos da terra para os donos das máquinas, das fábricas, das ferrovias e assim por diante, eles poderiam ter chamado o capitalismo de outra forma. Poderiam ter chamado de feudalismo industrial. Mas acho bom que tenham chamado de capitalismo porque a mente humana percebeu, ficou chocada ao entender que isso não era mais feudalismo, nenhum tipo de feudalismo, isso era algo muito diferente”.

O argumento de Varoufakis é ótimo, porque ele direciona a argumentação exatamente para o ponto que me faz recusar a tese dele. No período de transição entre feudalismo e capitalismo, aconteceram lutas imensas entre os defensores do velho e do novo modo de produção. Portanto, a denominação acerca do que estava surgindo não era uma digressão acadêmica, era parte de uma guerra pelo futuro. Para os que lutavam pelo futuro, o inimigo era o feudalismo. Aliás, o feudalismo era o inimigo inclusive para aqueles que estavam se preparando para a batalha seguinte: a luta pelo comunismo.

Sendo esse o contexto, pergunto qual seria a decorrência prática, em 1800, se fosse difundida a tese de que (usando termos que estão na entrevista) “o feudalismo industrial matou o feudalismo”.

Voltando aos dias que correm, se admitirmos que Varoufakis está certo, qual seria a conclusão? A de que a luta contra o capitalismo não é mais necessária, pois o capitalismo teria sido morto pelo tecnofeudalismo??

A essa questão eu respondo assim: dizer que o tecnofeudalismo matou o capitalismo significa que destruir o capitalismo não precisa ser mais uma meta do movimento socialista. Curiosamente, esta ideia encaixa como uma luva em muitos movimentos “progressistas” e “democratas” que precisam explicar porque deixaram de lado as bandeiras anticapitalistas: elas seriam extemporâneas!

Varoufakis poderia ter se limitado a fazer uma análise dessa “nova forma de capital, que é absolutamente sem precedentes, nova e inovadora”. Mas a propensão tipicamente acadêmica de enunciar uma novidade o levou a dar um passo além: dizer que o capitalismo “morreu”. E isso simplesmente não é verdade. No futuro isso pode acontecer, ou seja, o capitalismo pode vir a ser substituído por algo ainda pior? Falando em tese, pode, como aliás aparece em algumas distopias. Por sinal, aproveito para recomentar, como na minha opinião o melhor texto de Varoufakis, um intitulado Star Trek, seriado comunista? | Outras Palavras

De resto, reitero: a entrevista é ótima, seus livros são ótimos, suas posições são legais. Mas como tudo na vida, melhor regular o entusiasmo e não cometer certos exageros. Afinal, na linha do que disse certa vez Mark Twain, as notícias da morte do capitalismo são um pouco exageradas...

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Lula e o tigre imperialista

Recentemente, dois amigos me creditaram uma frase que eu realmente disse, a saber: "a burguesia não nos faltará".

Entretanto, dado o surto de patriótica coragem retórica que acometeu muita gente nos últimos dias, acho bom esclarecer o que eu quis/quero dizer com esta frase.

A saber: a burguesia é como o escorpião da fábula. É da natureza dela ser antisoberania, antidemocracia, antipovo etc e tal.

Por isso, toda vez que um setor da esquerda deposita ilusões na acomodação com a burguesia, é questão de tempo para que a decepção prevaleça.

Foi o que aconteceu, por exemplo, nas últimas semanas, com aqueles que porventura tinham ilusões no menino de ouro do Banco Central, no jovem promissor da Câmara dos Deputados e também no gringo acusado de predador de jovens.

Portanto, quando eu digo que a burguesia não nos faltará, não quero dizer que ela virá em nosso socorro, muito antes pelo contrário. Quero apenas dizer que só mantém/manterá a ilusão quem quer/quiser, pois os fatos apontam/apontarão noutro sentido.

Um bom exemplo disso é o jornal O Estado de São Paulo. Seu editorial intitulado "Coisa de mafiosos" fez sucesso nas listas da esquerda brasileira. 

A respeito, ler aqui: https://valterpomar.blogspot.com/2025/07/o-estadao-e-os-mafiosos.html

Pois bem: o mesmo Estadão publicou, no dia 21 de julho, outro editorial, que reproduzo ao final. 

Nele, Bolsonaro aparece de passagem. O alvo é Lula e nossa política externa, particularmente os BRICS. Como se pode ver, a burguesia não nos falta, desmoralizando e decepcionando quem leva a sério pontuais declarações em favor da soberania, da democracia, do povo e do desenvolvimento.

A posição do Estadão, é importante dizer, é a posição majoritária no grande capital brasileiro. 

A saber: "despolitizar o conflito", "negociar uma saída", leia-se "ceder aos gringos". Mas sempre mantendo as aparências. 

Aliás, do ponto de vista do empresariado gourmet, o grande defeito da extrema-direita versão cavernícola é que ella não sabe manter as aparências. Os cavernícolas são explicitamente submissos e demonstram descaradamente todos os outros defeitos possíveis e inimagináveis.

Agora, numa coisa o Estadão está próximo da verdade: se o Brasil quer ser protagonista no novo arranjo global, então precisamos ter mais capacidade militar, precisamos de mais poderio econômico, precisamos ter soberania alimentar, energética, produtiva, comunicacional, digital e armada.

Sem isso, será impossível derrotar a aliança entre as direitas, a classe dominante e o imperialismo. 

Erram aqueles que subestimam essa aliança. 

Como disse uma vez um camarada chinẽs: "(...) vistos na sua essência, dum ponto de vista de futuro, estrategicamente, o imperialismo e todos os reacionários devem ser considerados tal como são — tigres de papel. É nessa base que devemos assentar o nosso pensamento estratégico. Por outro lado, porém, eles são também tigres vivos, tigres de ferro, verdadeiros tigres capazes de devorar as pessoas. É nessa base que devemos assentar o nosso pensamento tático. (...)"

Na esquerda brasileira tem gente que as vezes parece operar ao contrário: cautela na estratégia, valentia na tática. 

Para que esta valentia não se esgote na correta retórica, é prudente iniciar imediatamente a construção das premissas políticas e materiais da nossa soberania. Sem tais premissas, o tigre não será de papel. 

E para o caso de alguém não ter entendido o ponto, desenho: pode ser divertido ver um canalha dar um tiro no pé. Mas se o tal canalha tiver um tambor cheio de balas, deixe para rir outra hora e use imediatamente seu bodoque.


ABAIXO EDITORIAL DO ESTADÃO DE 21 DE JULHO

Sairá cara a decisão de Lula de alinhar o Brasil à China e à Rússia a pretexto de fortalecer o Brics contra os EUA de Trump. Mas há uma saída para evitar o prejuízo: abandonar o bloco

Muito ainda pode ser dito sobre a irresponsabilidade de Jair Bolsonaro, que, para se livrar da cadeia e continuar com seu projeto golpista, fez lobby nos EUA para que o presidente Donald Trump viesse em seu socorro, ao custo de inestimável prejuízo para a economia brasileira, ameaçada por um tarifaço americano. Só por isso, o nome de Bolsonaro já está gravado no panteão dos maiores traidores da pátria que este país já viu.

Contudo, à medida que novas punições são anunciadas pelo governo americano contra o Brasil, torna-se óbvio que o objetivo de Trump vai muito além de ajudar Bolsonaro – de resto um sujeito absolutamente insignificante para os projetos de poder do presidente americano. Está cando cada vez mais evidente que o crescente ataque de Trump ao Brasil é, na verdade, parte de uma ofensiva contra o Brics – bloco que, a despeito das fantasias lulopetistas sobre alternativas de desenvolvimento, se presta exclusivamente a projetar o poder da China em contraste com os EUA e o Ocidente, tendo como subproduto o respaldo ao imperialismo da Rússia de Vladimir Putin.

Isso ficou claro quando Mark Rutte, secretário-geral da Otan, a aliança militar ocidental ainda liderada pelos EUA, avisou que os países do Brics podem sofrer sanções por parte do governo americano caso continuem a fazer negócios com a Rússia. A intenção de Washington é obrigar os parceiros russos no Brics a pressionar Moscou a aceitar uma trégua na sua guerra contra a Ucrânia, como deseja Trump.

Como se sabe, Trump ameaça castigar a Rússia com tarifas de 100% caso Putin não interrompa seus ataques à Ucrânia. A medida incluiria sanções secundárias contra países que fazem negócios com a Rússia. A ideia aqui é sufocar economicamente a Rússia, que conseguiu contornar as sanções aplicadas por EUA e Europa graças à manutenção do comércio com os parceiros do Brics.

Ademais, a ofensiva contra o Brics insere-se no objetivo maior de Trump que é minar o poder da China. Para isso, escolheu o Brasil como saco de pancadas – um alvo fácil, dada a sua limitada capacidade de reagir e de arregimentar influência contra os EUA.

Tudo isso só evidencia a imprudência do presidente Lula da Silva de alinhar o Brasil à China e à Rússia a pretexto de fortalecer o Brics contra os EUA de Trump. A única forma de poupar o Brasil dos efeitos deletérios dessa decisão seria abandonar esse bloco, que se presta unicamente aos projetos chineses e russos, sem qualquer ganho concreto e de longo prazo para o País.

Com isso, o Brasil retornaria ao terreno seguro do não alinhamento, onde ficam os países com vocação para se relacionar com o mundo inteiro, independentemente de orientação ideológica. Essa sempre foi a tradição brasileira, um patrimônio que seria especialmente relevante no momento em que o mundo se reorganiza não mais em relações multilaterais, e sim em blocos de poder.

Não é prudente, portanto, que o Brasil escolha um desses blocos, dado que o País não tem nem capacidade militar nem poderio econômico para ser protagonista no novo arranjo global. Mas Lula nunca foi prudente. Sempre que pode, movido por suas fantasias megalomaníacas e por suas convicções terceiro-mundistas, põe o Brasil em situações potencialmente danosas – sobretudo quando apoia autocracias só porque estas se dispõem a desafiar os EUA.

Em seu discurso na mais recente cúpula do Brics, Lula reforçou seu antiamericanismo e sua vassalagem à China ao tornar a defender o  fim do uso do dólar como moeda comercial global –como se a adoção da moeda americana para esse fim fosse fruto da vontade de alguém, e não resultado de condições geopolíticas e de mercado.

Ademais, deveria causar vergonha a assinatura do Brasil no comunicado final da cúpula, que reservou nada menos que oito parágrafos aos atuais conflitos no Oriente Médio e míseros dois à guerra na Ucrânia – um dos quais, pasme o leitor, dedicado a criticar a Ucrânia por “deliberadamente” atacar áreas e infraestrutura civis na Rússia, sem qualquer menção à brutal e sistemática agressão russa aos ucranianos, inclusive com bombardeios contra civis.

Assim, russos e chineses devem ter saído muito satisfeitos desse rega-bofe antiamericano. Já o Brasil, como se vê agora, ficou com a conta.

PED 2025: alguns números do processo

O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes. Destes, cerca de 16.269.211 milhões são filiados/as a algum dos 29 partidos políticos registrados junto ao Tribunal Superior Eleitoral. O TSE considera que o MDB tem o maior número de filiados (2.056.415), seguido pelo PT, com 1.676.881. O próprio PT diz que tem 2.959.823 filiados. Esta discrepância entre os dados do Partido e os dados do TSE não apareceu agora. Seja como for, consideramos nesse texto os dados da Secretaria Nacional de Organização (Sorg).

Em 2001, o número de filiados era de 401 mil pessoas. Votaram 221 mil. Em 2005, o número de filiados era de 910 mil. Votaram 314 mil. Em 2007, o número de filiados era de 1 milhão e 86 mil. Votaram 326 mil. Em 2009, o número de filiados era de 1 milhão e 387 mil. Votaram 421 mil. Em 2013, o número de filiados era de 1 milhão 718 mil. Votaram 421 mil. Em 2017, o número de filiados era aproximadamente 1 milhão 765 mil. O número de votantes não conhecemos. Em 2019, o número de filiados de filiados era de 2.339.816. O número de votantes foi 351 mil. Em 2025, votaram 549 mil pessoas, frente a um universo de filiados de 2 milhões e 949 mil. Ou seja: 18,6%. Em 2013, que foi um PED similar ao atual, votaram 24,5% dos 1 milhão e 86 mil filiados. Infelizmente, comprovando a difícil relação entre Pravda e Isveztia, o site do Partido dos Trabalhadores postou que o “PT faz maior PED da sua história com quase 550 mil votantes”. A verdade é mais contraditória; o que o PT faz nenhum outro partido brasileiro é capaz de fazer: meio milhão de filiados votando, em 4.348 municípios brasileiros. Mas dizer que em 2025 realizamos o maior PED da história do PT é acreditar numa ilusão estatística: seja em comparação com o número de filiados, seja em comparação com o número de eleitores e habitantes, o PED de 2009 foi maior. 

De conjunto, se forem verdadeiros os números da Sorg, o abstencionismo no PT (não comparecimento, brancos e nulos) é bem maior do que nas eleições tradicionais. Aliás, é triste dizer, mas é verdade: as fraudes também são maiores. O sistema eleitoral do PT tem quase todos os defeitos, mas não tem todas as qualidades do sistema eleitoral tradicional. Uma votação realizada com complicadérrimas cédulas de papel, o processo incluiu filiações industriais, compra de votos, ingerência explícita de pessoas vinculadas a outros partidos, pessoas votando no lugar de outras, voto de mortos, atas adulteradas, abuso de poder econômico, uso da máquina, influência eleitoral das emendas parlamentares, assédio de diversos tipos, intimidação contra fiscais, manipulação das comissões organizadores por parte de determinadas chapas e candidaturas, pequeno ou nenhum debate oficial entre as posições concorrentes, espaço desigual na mídia, inexistência de fundo eleitoral para garantir igualdade de condições etc.

Estes problemas foram abordados em dois textos que a direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda divulgou nos dias 9 e 15 de julho de 2025.

O processo de eleição das direções petistas foi convocado em 4.398 municípios. A secretaria nacional de organização não divulgou, ainda, em quantos o processo efetivamente ocorreu. Mas é conhecido o número de chapas e candidaturas inscritas, que revela o seguinte: na imensa maioria das cidades, prevaleceu chapa única e candidatura única, o que, em muitos casos, é sintoma de debilidade, não de unidade & força. Já nas 27 unidades da federação, prevaleceu a disputa na eleição das respectivas direções estaduais e presidências estaduais. 

A maioria das novas direções e presidências eleitas nos estados é controlada por militantes vinculados à tendência denominada Construindo um Novo Brasil (CNB). Também é relevante dizer que, em praticamente todos os casos, a presidência do PT nos estados é ocupada por parlamentares. Não dispomos dos dados relativos aos municípios, mas é provável que prevaleça o seguinte: onde não há disputa, as direções municipais geralmente se alinham politicamente com a respectiva direção estadual, inclusive por uma razão de sobrevivência. O que faz com que a tendência majoritária num determinado estado exerça uma influência bem maior do que seu efetivo tamanho orgânico.

No âmbito nacional, a CNB elegeu o novo presidente nacional e conseguiu maioria absoluta no Diretório Nacional do Partido. Isso não é uma novidade.

Resta saber se esta maioria vai se comportar como um bloco homogêneo. Como se viu na fase inicial do PED, há divergências expressivas dentro da CNB, embora nem sempre em torno das grandes questões da política. Além disso, é preciso ver como se comportarão, além da CNB, as outras tendências que apoiaram Edinho.

É o caso da Resistência Socialista (que teve chapa própria) e da Tribo (grupo atuante principalmente em Minas Gerais, que, em 2019, participou da chapa do Movimento PT e que, em 2025, lançou chapa própria). É importante lembrar que estas duas tendências apoiavam a candidatura de Dandara à presidência do PT de Minas Gerais. E, no Diretório Nacional, a maioria da CNB votou — corretamente — pela impugnação de Dandara, devido à sua inadimplência para com o PT. O ressentimento mútuo gerado terá quais implicações políticas?

Também foram cooptadas por Edinho a maioria das tendências integrantes de uma terceira chapa que disputou o PED 2025, a denominada Campo Popular. Participaram desta chapa e apoiaram Edinho as seguintes tendências: a Esquerda Popular Socialista, a maioria da tendência Novo Rumo, cerca de metade da Socialismo em Construção, sem falar do apoio de pessoas vinculadas ao chamado Movimento Brasil Popular e inclusive de pessoas ligadas à tendência Avante, a única integrante da chapa Campo Popular que oficialmente apoiava outra candidatura e não Edinho.

Em que medida esta aliança eleitoral em torno de Edinho vai significar coesão política em torno da CNB, frente às batalhas que já estão em curso e as que ainda virão pela frente? Difícil responder: se é verdade que Edinho recebeu 73% dos votos válidos, também é verdade que, em 2019, Gleisi Hoffmann foi eleita com 71,5% dos votos e, como sabemos, seu mandato presidencial foi marcado por inúmeras crises. 

Disputaram contra Edinho três outras candidaturas, apoiadas por quatro outras chapas: a chapa do Movimento PT apoiou Romênio Pereira; as chapas "Muda PT" e "Diálogo e Ação Petista" apoiaram Rui Falcão; e a chapa da Articulação de Esquerda apoiou Valter Pomar. Somadas, estas quatro chapas elegeram 21 dos 94 membros do Diretório Nacional do PT. Mesmo somando a estes 21 aqueles integrantes da chapa Campo Popular que apoiaram Rui Falcão, o resultado é uma minoria que só conseguirá influenciar naquelas situações em que a maioria se dividir.

Isso vai acontecer? É possível, por uma razão muito simples: a luta política nacional e internacional está seguindo caminhos totalmente diferentes do que foi enunciado na tese apresentada pela CNB e, também, no manifesto da candidatura Edinho. Aliás, neste Brasil e neste Partido, podemos morrer de muita coisa. Menos de tédio.

O que as tendências da chamada esquerda petista farão neste cenário? Isso cabe a cada uma dizer, mas há uma preliminar: quem é a esquerda petista? Na bancada federal, por exemplo, integram a bancada autodenominada de “esquerda” deputados/as vinculados a tendências que total ou majoritariamente apoiaram Edinho. É o caso da Resistência, da EPS, dos Novos Rumos e do Socialismo em Construção. Como no PT ninguém quer ser de “direita”, como o termo é reconhecidamente situacional e como nos estados a situação é muito diversificada, quem apoiou Edinho provavelmente vai continuar se achando “de esquerda”. 

Também reivindicam fazer parte da “esquerda petista” as tendências que apoiaram Rui Falcão e Valter Pomar. É o caso de O Trabalho/Diálogo e Ação Petista, Democracia Socialista, Militância Socialista, Avante e Articulação de Esquerda. Algumas dessas tendências disputaram o PED com chapa própria, outras fizeram coligações (a Avante, na chapa Campo Popular; a DS e a MS, na chapa intitulada Muda PT). A impressão que fica quando analisamos os números é que todas tiveram mais votos no PED de 2025 do que tiveram no PED de 2019, mas, ainda assim, vão ocupar menos cadeiras no Diretório Nacional do PT. Delas todas, a única que lançou candidatura própria à presidência nacional do PT no PED de 2025 foi a Articulação de Esquerda. Em 2019, a DS lançou Margarida Salomão, mas, desta vez, preferiu apoiar Rui Falcão. Margarida teve quase 17% dos votos, Rui Falcão cerca de 11% dos votos.

A Articulação de Esquerda também sofreu uma redução. Em 2019, nossa chapa teve 11,3% dos votos no Congresso partidário. Mas isso se deveu ao fato de que, naquela ocasião, a AE fez uma aliança com a Novos Rumos e a EPS. Quando comparado o desempenho da AE propriamente dito, o resultado é o seguinte: em 2019, tivemos 16.012 votos ou 4,9% e, em 2025, tivemos 17.761 ou 3,5% dos votos. Isso levou a uma queda na bancada, de cinco para três membros do Diretório Nacional do Partido, mantendo, entretanto (até agora, pelo menos), uma cadeira na Executiva Nacional do Partido.

A AE realizará seu décimo congresso no final de novembro de 2025 para avaliar estes resultados e debater sua atuação no próximo período. Até o momento, a direção da tendência avalia que o resultado foi uma derrota eleitoral, mas não uma derrota política. Cabe lembrar que a AE se considera uma tendência de opinião e, portanto, entende que tem a obrigação de dizer ao Partido o que pensa, o que em âmbito nacional torna praticamente obrigatório apresentar chapa e candidatura próprias. E a avaliação da direção da tendência é que isso foi feito, diferente de outras tendências, que em âmbito nacional optaram por fazer parte de coalizões e apoiar candidaturas presidenciais de outras chapas. Esta opção, aliás, torna difícil comparar o resultado da AE com o de algumas outras tendências da chamada esquerda petista. Uma comparação indireta será possível quando forem feitas as indicações para compor o Diretório Nacional do PT. Aí veremos, ao menos aproximadamente, o tamanho de cada qual.

E por falar em tamanho, algumas pessoas de outros partidos de esquerda não compreenderam o resultado nacional obtido pelo chamado Movimento PT. Em parte, é desconhecimento acerca do PT realmente existente; em parte, é esnobismo. O PT é um partido de massas. E, num partido desse tipo, faz muita diferença estar presente nos 27 estados unidades da federação, fazer um discurso capaz de dialogar com o senso comum do petismo realmente existente e, claro, exibir um imenso pragmatismo, que permite juntar num mesmo lugar um deputado ligado às mineradoras e militantes que combatem as mineradoras.

E por falar em pragmatismo: o PED de 2025 marcou a estreia oficial, na vida interna do PT, de militantes vinculados a duas organizações aparentadas, o Movimento Sem Terra e o Movimento Brasil Popular, este último oriundo da cisão da chamada Consulta Popular. À primeira vista, tanto nacionalmente quanto na maior parte dos estados, os dirigentes de ambas as organizações decidiram apoiar chapas e candidaturas vinculadas à CNB e à candidatura Edinho. Isso decepcionou bastante quem tinha expectativas de que o discurso de esquerda prevalecente em ambas as organizações carrearia votos e apoios para candidaturas da chamada esquerda petista. É o caso de Rui Falcão, por exemplo, que chegou a divulgar um vídeo de apoio de João Pedro Stédile, mas que, na vida real, não teve o apoio da maioria dos parlamentares ligados ao MST. O fato tem, a nosso ver, uma explicação muito simples: Dostoievski.

Dizia o conhecido romancista russo: se Deus não existe, tudo é permitido. No caso: se não se trata de um partido revolucionário, toda aliança é possível. É por isso, aliás, que pessoas que saíram do PT nos atacando pela esquerda voltaram ao PT com posições supermoderadas, como é o caso de Randolfe Rodrigues e Marcelo Freixo, para ficar apenas nesses dois casos.

Falando em termos mais gerais, grande parte da esquerda brasileira vem se adaptando ao ambiente de pragmatismo, oportunismo e cretinismo parlamentar. Quem não aceita fazer isso, enfrenta um desafio titânico. É nisso que estamos.

terça-feira, 15 de julho de 2025

PED: análise preliminar dos números finais

A secretaria nacional de organização acaba de divulgar o "resultado final" do processo de eleição direta das direções do Partido dos Trabalhadores.

Talvez ainda ocorram alterações, pois há recursos para serem votados. Mas os números grossos não devem se alterar.

Ao todo votaram 549.970 pessoas em todo o país.

Comparação: em 2001 votaram 221 mil pessoas; em 2005 votaram 314 mil pessoas; em 2007 votaram 326 mil pessoas; em 2009 votaram 518 mil pessoas; em 2013 votaram 421 mil pessoas; em 2017 não dispomos do número; em 2019 votaram 351 mil pessoas. 

Importante lembrar que o número total de filiados é hoje bem maior do nos anos anteriores. 

Por exemplo: em 2001 o número de filiados era de 401 mil pessoas. Votaram 221 mil. Em 2005 o número de filiados era de 910 mil. Votaram 314 mil. Em 2007 o número de filiados era de 1 milhão e 86 mil. Votaram 326 mil. Em 2009 o número de filiados era de 1 milhão e 387 mil. Votaram 421 mil. Em 2013 o número de filiados era de 1 milhão 718 mil. Votaram 421 mil. Em 2017 o número de filiados era aproximadamente 1 milhão 765 mil. Não disponho do número de votantes. Em 2019 não disponho do número de filiados. O número de votantes foi 351 mil. 

Em 2025 votaram 549 mil pessoas, frente a um universo de filiados de 2 milhões e 949 mil. Ou seja: 18,6%. Em 2013, que foi um PED similar ao atual, votaram 24,5% dos 1 milhão e 86 mil filiados. 

Infelizmente, comprovando a difícil relação entre Pravda e Isveztia, o site do PT postou que o "PT faz maior PED da sua história com quase 550 mil votantes".

Seja como for, estes números exigem uma reflexão política (a influência da conjuntura) e organizativa (acerca da natureza das filiações). Afinal, estamos diante de um crescimento fofo: o aumento no número de filiados não acompanha o aumento da militância, pois nem mesmo cresce o percentual de pessoas que fazem o mínimo, a saber: votar na eleição das direções.

Dos 549.970 que compareceram para votar, parte votou branco ou nulo. No caso dos presidentes, houve 31 mil votos brancos e nulos. No caso das chapas nacionais, houve 41 mil votos brancos e nulos. 

Fato que também merece uma análise: pelo menos 10 mil pessoas votaram para presidente e não votaram nas chapas. Dada a diversidade de chapas nacionais, a única explicação possível deriva de algo que foi dito por uma filiada em Ribeirão das Neves: "é aqui que voto para presidente?"

Entre os votos válidos, Edinho teve 73% dos votos. 

Já a chapa da tendência Construindo um novo Brasil teve 51% dos votos válidos. 

Portanto, do ponto de vista aritmético a atual maioria ampliou seu controle sobre o Diretório Nacional: de 45% a 51%.

Há várias explicações para este resultado. Uma bem simples e totalmente acaciana é a seguinte: eles tiveram mais votos que antes. 

Há razões políticas e organizativas que explicam isso. Entre as razões organizativas, destaco uma: o crescimento no número de eleitores.

Em 2019 votaram 351 mil pessoas. Em 2025 votaram 549 mil pessoas. Ou seja: 198 mil pessoas a mais. Esse crescimento beneficiou principalmente a chapa da CNB.

Vejamos a trajetória desta chapa, desde 2005, quando disputou pela primeira vez com este nome:

-em 2005, 116 mil votos (41,9%)

-em 2007, 126 mil votos (42,68%)

-em 2009, 252 mil votos (55,1%)

-em 2013, 200 mil votos (53,62%)

-em 2017, a CNB teve 49,83% dos votos no congresso

-em 2019, a CNB teve 46,9% dos votos no congresso

-e agora, em 2025, teve 257 mil votos (51%)

Como o modelo de votação em 2019 e 2025 foi diferente, não é possível uma análise direta. Mas como em 2019 votaram 351 mil pessoas, os 46,9% da CNB significa algo perto de 164 mil votantes.

Claro que os números exatos não são esses, mas é possível dizer que entre 2019 e 2025 a CNB cresceu mais ou menos de 164 mil para 257 mil votantes. Algo como 93 mil votos a mais. Se esta estimativa estiver correta, a CNB teria capturado a maior parte dos novos votantes, boa parte dos quais muito provavelmente são recém filiados ao Partido.

Os 10 estados nos quais houve mais novas filiações em 2025 foram: Rio de Janeiro (+82 mil), Pernambuco (+26 mil), Ceará (+39 mil), Pará (+25 mil), Maranhão (+21 mil), Espírito Santo (+3700), Amazonas (+10 mil), Piauí (+7,6 mil), Sergipe (+8,4 mil) e Amapá (+8,4 mil).

Os 10 estados onde se concentram os votantes adicionais são: Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Maranhão.

Abaixo o número de votantes adicionais, nos 10 estados citados:

-em Alagoas votaram mais 10.352

-na Bahia votaram mais 14.249

-no Ceará votaram mais 20.833

-em Minas Gerais votaram mais 16.526

-no Pará votaram mais 13.894

-no Paraná votaram mais 10.768

-em Pernambuco votaram mais  11.906

-no Rio de Janeiro votaram mais 45.648

-em São Paulo votaram mais 10.869

-no Maranhão votaram mais 6.763

O desempenho eleitoral do PT nesses estados justifica esse crescimento? Se tomarmos como parâmetro 2024, a resposta é não. Na maioria destes estados tivemos um péssimo resultado eleitoral nas eleições do ano passado.

Para recordar: 202 das 252 prefeituras que o PT conquistou no primeiro turno de 2024 estão concentradas em cinco estados. Bahia e Piauí com 50 cada, Ceará com 47, Minas Gerais com 35 e Rio Grande do Sul com 20. 

Portanto, a presença de Alagoas, Pará, Paraná, Pernambuco, Maranhão, São Paulo e Rio de Janeiro na lista de crescimento expressivo no número de votantes no PED 2025 em relação ao PED 2019 deve-se a outros fatores.

Naqueles 10 estados citados votaram 161 mil pessoas no PED 2025 a mais do que votaram no PED 2019. 

Nas outras 17 unidades da federação, estão os demais 37 mil votantes adicionais. Este número é menor do que o número de votantes adicionais que houve apenas no estado do Rio de Janeiro: 45 mil.

Vamos agora cruzar a relação acima (estados onde mais cresceu o número de votantes) com a relação de estados onde a CNB foi mais votada.

Os 10 estados onde a CNB recebeu maior número de votos são os seguintes:

-Rio de Janeiro: 42.092 votos

-São Paulo: 35.638 votos

-Ceará 34.544 votos

-Pará 23.428 votos

-Minas Gerais 18.002 votos

-Pernambuco 17.993 votos

-Maranhão 13.239 votos

-Paraná 12.484 votos

-Bahia 12.273 votos

-Piauí 9.497 votos

Como se pode constatar, a diferença entre as duas listas reside em Alagoas e Piauí. Em Alagoas houve muitos votantes adicionais, mas a CNB não foi a principal beneficiada. E no Piauí não houve muitos votantes adicionais e a CNB foi muito bem votada.

Os outros estados são os mesmos. No RJ, SP, CE, PA, MG, PE, MA, PR, BA e PI, a chapa da CNB recebeu cerca de 222 mil dos 257 mil votos obtidos em todo o Brasil.

Com um detalhe: do total de 257 mil votos, incríveis 42 mil vieram do Rio de Janeiro, estado onde nosso desempenho em 2024 foi sofrível.

Para além das obviedades acacianas, também há conclusões políticas e organizativas a tirar destes números. 

Uma conclusão óbvia é que se eliminarmos da equação aquilo que não deveria estar lá - filiações industriais, compra de votos, ingerência explícita de pessoas vinculadas a outros partidos, pessoas votando no lugar de outras, atas adulteradas, abuso de poder econômico, uso da máquina, influência eleitoral das emendas parlamentares, assédio de diversos tipos, intimidação contra fiscais, manipulação das comissões organizadores por parte de determinadas chapas e candidaturas, pequeno ou nenhum debate oficial entre as posições concorrentes etc. - o resultado teria sido outro.

Com uma equação depurada, talvez a maioria do Partido continuasse moderada, mas esta maioria seria devidamente moderada por uma maior influência da esquerda.

Outra conclusão, não tão óbvia, é a seguinte: a CNB fez um brutal esforço e extraiu disso um crescimento de... 6 pontos percentuais. 

Detalhe: em alguns casos, o esforço brutal foi feito para que uma facção da CNB tentasse derrotar outra facção da mesma CNB.

Pergunta: o preço pago (em alguns casos é preço mesmo) para alcançar esta maioria absoluta vale a pena para o Partido como um todo? 

(Noutro texto, a análise prossegue.)



 




 






 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Lançamento de livro: Amileto e São Loganso, de Wladimir Pomar

 


Quem estiver hoje em São Paulo capital, propomos aparecer no lançamento do mais recente livro de Wladimir Pomar. Será hoje, segunda, 14 de julho, a partir das 18h30, na livraria Tapera, na Avenida São Luís 187, segundo andar, loja 29. 

Rachel Pomar e Amanda Pomar estarão presentes. A edição é limitada e cada exemplar custa 40 reais. O lançamento coincide com o dia em que Wladimir Pomar faria 89 anos.